6 de fev de 2018

O Brasil investir dinheiro público em Jogos de Inverno é uma imensa aberração


A imagem não sai da cabeça. A redação estava lotada e com o barulho peculiar de feira livre como eram as redações. Era o fim de uma época, já que a década seguinte aprofundou e sacralizou o modelo de redações em silêncio sepulcral, frias como uma câmara frigorífica do IML, amorfa, asséptica, cada dia mais parecendo um escritório repleto de almofadinhas e povoada tal e qual a sala de espera de uma agência de modelos e tendo esse único critério de seleção. Feita a irresistível digressão, voltemos para aquele dia de 2006.

A resenha seguia misturada ao trabalho até que um drama se desenha em verde e amarelo na tela. A conversa para e todo mundo começa a esperar o fim daquilo. A angústia era indescritível. Olimpíadas de Inverno de Turim: o trenó do Brasil virou e desceu morro abaixo com a cabeça dos seus quatro integrantes quicando no chão. Dois minutos intermináveis, pavorosos. Orgulho do esporte nacional, Claudinei Quirino estava ali, junto com Ricardo Raschini, Marcio Silva e Edson Bindilatti.

O medalhista de prata do 4 x 100 do atletismo (2000, Sidnei) entrou no bonde brasileiro alguns meses antes substituindo atleta pego no doping. Exatamente isso: poucos meses antes, um comitê olímpico convida alguém para despencar de uma pista em alta velocidade morro abaixo sem que ele jamais tivesse feito algo parecido. Contra adversários que nasceram fazendo aquilo em seus países gelados.

O Brasil começava a crescer sua participação nos Jogos Olímpicos de Inverno. Conversando nos bastidores, era recorrente a informação de que era uma estratégia de Carlos Arthur Nuzman, então presidente do COB, ter representação mais significativa nos jogos de inverno porque teria peso político, dava mais acesso a conversas de bastidores e a política do COI. Simples assim: pela ambição de um cartola, promovia-se essa brincadeira de botar cidadãos nascidos nos trópicos, sem qualquer contato com a neve, para, em poucos meses, enfrentar outros nascidos ali e fazendo aquilo desde sempre. Algo como botar uma dupla de esquimós para disputar uma competição de vôlei de praia no verão carioca tendo dado a eles alguns meses de treino. E obviamente, nós pagamos a conta.

Em resumo, nas três tentativas as quais o Brasil tinha direito, o trenó virou três vezes. Claudinei saiu no lucro pelo que foi: uma luxação no braço.

Enquanto isso, nos bastidores, Nuzman fazia política, de olho na candidatura do Rio para 2016.

Em 2013, Laís de Souza, atleta olímpica da ginástica, começou a treinar para o esqui aéreo com apoio do COB. Exatamente isso: um ano antes dos jogos de inverno de 2014 (Sochi), começou a treinar na nova modalidade. O fim todo mundo conhece.

Novamente o Brasil faz as malas para Jogos de Inverno. Na Coreia do Sul. Jogos que tem relevância jornalística indiscutível principalmente depois do improvável abraço das Coreias em um mundo à beira do caos nuclear. Existe a questão russa do doping e tantas outras. Além, obviamente, da beleza das transmissões, que, por esse aspecto, tem realmente um valor para nós por aqui, pensado como evento de TV fechada. Pensando na parte política, creio mesmo que a cobertura deveria ser de gala, espaço nobre, pra gente altamente preparada, um Marcos Uchoa da vida, monstro do ofício. Voltando ao esporte…

O investimento cresceu, o treinamento se aprofundou e se estruturou. É possível que não tenhamos mais imagens de horror verde e amarelo. Oxalá.

Em momento algum aqui se disse que o Brasil não pode participar dos Jogos Olímpicos de Inverno. Que participem. O que está se questionando e afirmando ser uma aberração é o uso de dinheiro público em tal coisa.
E aí chegamos ao ponto que interessa a essa breve reflexão: e daí? A quem interessa e ao que interessa que o Brasil participe de esportes de inverno, de gelo e neve? E acima de tudo, o centro da questão: qual é o sentido do Brasil gastar dinheiro público na participação em jogos olímpicos de inverno?

Leio que nos últimos quatro anos foram R$ 17 milhões nessa preparação só pelo Ministério do Esporte. Sem aprofundar muito, já que escrevo para a página de opinião, em breve pitaco e não na seção de reportagem, fiquemos nesse número sem maiores apurações. Que provavelmente me surpreenderiam para cima… Qual é o sentido, em meio a escolas sem quadra pelo país, professores de educação física pessimamente remunerados ou desempregados e cidades onde crianças jamais viram qualquer tipo de prática esportiva?

O papel do esporte sempre gera debates apaixonados. Muitos deles demagógicos, aproveitando o imenso potencial de mobilização e manobra política que quadras, piscinas e campos trazem. E verba, sempre. Muita verba. Com todos os problemas de fiscalização que tratamos aqui sempre.

É quase como vírgula ver em conversas sobre o esporte o lugar mais do que comum, o monótono chavão “o esporte promove inclusão social”. Isso sem falar no ainda mais patético “o esporte tira das drogas”, na maior parte das vezes manipulado por quem capta polpudas verbas. Já tratamos sobre isso. Sem que tal frase tenha uma comprovação sequer.

Sei que tratar sobre isso, como tratar sobre qualquer lugar comum consagrado, é meter a mão em vespeiro. No caso, em geral um vespeiro puxando ao sentimentaloide, ao moralismo. Se considerarmos como contraponto exemplos isolados de fulano ou sicrano, então devemos por bem considerar que a “Porta da Esperança” do Silvio Santos também é fator de inclusão social. Porque da mesma forma que o esporte, se consideramos que de cada cem mil aquele um que muda a condição é um “fator de inclusão”, temos que considerar a “Porta da Esperança” também, onde de cada cem mil um muda de vida. (na verdade, a proporção é muito maior que essa pensando nos que deixam os trocados com o “Patrão” e dos que tentam mudar de vida pelo esporte e não conseguem). Creio que a confusão se dá porque a inclusão social da qual o esporte faz parte do processo tem como instrumento a educação e não o esporte como fim. A educação sim, da qual obviamente a educação física faz e tem que fazer parte, é fator de inclusão social.

Há ainda aquele outro chavão (como as pessoas repetem chavões sem mastigar…): “o esporte socializa o indivíduo, faz dele uma pessoa melhor”. Lamento informar: conheci alguns dos piores seres humanos no esporte. Claro que não é privilégio de uma classe, é como em qualquer grupo. Mas daí a achar que o esporte muda alguém como pessoa…Basta ver algo difícil de contestar: dessa cartolagem brasileira toda aí, boa parte envolvida em escândalos, 99% é ex-atleta. Portanto, dê de ombros pra chavões…

Isso não torna o esporte menor e menos fundamental. O esporte é essencialmente, em definição bem rasa e resumida já que aqui não cabe aprofundar pois o tema é outro, um instrumento de promoção de saúde e bem estar, que demanda implementação de políticas públicas. E é isso que deve ser pensado. O chamado esporte de alto nível é outra história, um funil que deve advir dessas políticas públicas de massa. Até ele deve ser repensado enquanto lugar de alocação de bilhões. A quem interessa esse “Brasil Potência Olímpica”? Não seria melhor o “Brasil Potência de Educação e Igualdade Social”? Andei pro “Brasil Potência Olímpica”. Que até hoje só serviu pra muita mansão com piscina de cartola…

Ponto. Mas consideremos que o chavão fosse verdadeiro. Que o esporte fosse esse fator de inclusão social (e não a educação no qual o esporte deve estar incluído), que fosse um instrumento de socializar o indivíduo…O que sinceramente alguém pensa através dos gastos públicos com o bobsled, com o esqui ou com o snowboard, seja lá o que o valha?

Será que alguém pensa mesmo: “vamos promover a modalidade para dar exemplos aos meninos, para que todos queiram ser uma Isabel Clark! Para que nas escolas milhares de crianças queiram descer na neve esquiando, e outros naquele trenó do bobsled. Vamos mostrar que é possível massificar tal prática esportiva e que ela não é elitista. Já vejo alguém falando em programas: ao contrário do que se pensa, não é caro”!

“Vamos gastar dinheiro público para criar ídolos de esqui alpino para massificar a modalidade. E tirar crianças das ruas (outro chavão que adoram!) através do esqui cross-country”.

Ora, com efeito. Qual é a razão de se gastar dinheiro público com esporte de neve ou gelo? Podem chiar, confederações. Não há nenhuma razão.

Reparem duas coisas para evitar-se mal entendido, tão próprio do nosso tempo: em momento algum aqui se disse que o Brasil não pode participar dos Jogos Olímpicos de Inverno. Que participem. O que está se questionando e afirmando ser uma aberração é o uso de dinheiro público em tal coisa. Dos milhões gastos para curtirmos uma bizarrice tipo “Jamaica abaixo de zero” que poderiam e deveriam estar investidos no esporte escolar, nos maltratados professores de educação física, em material esportivo para iniciação esportiva…Da mesmo forma que não se questionou a transmissão do evento. Quem gosta gosta de um curling ao cair da tarde que possa ver lá no seu canal por assinatura.

Acima de tudo, nunca foi tão fundamental a cobertura de um evento como na edição que vem. Infelizmente, não creio que teremos em pauta o ponto que mais deveria importar nos jogos que se iniciam essa semana: a pegada política, a questão do doping, os bastidores do COI e, por que não, essa própria discussão se deveríamos investir verba pública em jogos de inverno… As imagens daqueles loucos despencando na neve são espetaculares e devem ser muito bem tratadas, dadas ao vivo e repetidas à exaustão. Mas são o recheio de uns jogos que, como nesse ano, nunca tiveram tanta importância por outras razões.

Mas, sinceramente, custo a acreditar que, tirando meia dúzia de cartolas diretamente interessados, políticos do Ministério do Esporte ou coisas do gênero, alguém possa defender milhões de verba pública gastos em esporte de neve nesses tristes trópicos que ardem cada dia mais na urgência de igualdade social, saúde e educação.

Um CIEP só com esse dinheiro e já teria valido muito mais…

Lúcio de Castro
No Sportlight

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