28 de fev de 2018

Identificado Dimas, um dos guerrilheiros que justiçaram Boilesen, financiador da tortura

História do sádico executivo foi relembrada após confirmação de que ossada encontrada em Perus pertencia a militante envolvido em sua morte

Dimas
Foto: Comissão da Verdade/SP
Quando era criança na Dinamarca, Henning Boilesen um dia assistiu a colegas de escola serem castigados por uma travessura e colocados de frente para a parede. Em vez de se sentir solidário, o pequeno Henning se divertiu vendo os outros serem punidos. A reação peculiar chamou a atenção dos professores, que fizeram uma observação sobre o episódio nas costas de seu boletim estudantil.

Esta cena do documentário Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, pareceria inventada se não fosse real. A informação é dada aos realizadores do filme por uma arquivista municipal em Frederiksberg, nas cercanias de Copenhague, e espanta por ser um indício, freudianamente falando, do que aquela criança se tornaria, quase meio século depois, no Brasil: um voyeur de tortura. “A cultura que Henning encontrou na América Latina lhe deu oportunidade para viver seus pecados e seu lado mais escuro, coisas que nunca teria feito na Dinamarca porque seria impedido pelo sistema. Mas ele encontrou um país com um banquete à sua frente para que pudesse seguir seus impulsos mais malignos”, diz um psicólogo dinamarquês ouvido no filme.

Boilesen com Delfim.
Foto: reprodução

Presidente do grupo Ultragás, amigo dos generais e de poderosos do regime como Delfim Netto, o dinamarquês naturalizado brasileiro não só ajudou financeiramente a criar a famigerada Operação Bandeirante (Oban), como se comprazia em assistir aos militantes de esquerda sendo torturados lá. Ele chegou a importar do exterior um artefato para dar choques elétricos, apelidado de “pianola Boilesen”, ao mesmo tempo que os negócios da empresa que comandava eram beneficiados com contratos de pai para filho com a Petrobras. Morto, foi saudado pela imprensa como uma vítima inocente do “terror”, “amante da arte e da cultura brasileiras” e “torcedor fanático do Palmeiras”.
O dinamarquês naturalizado brasileiro não só ajudou financeiramente a criar a famigerada Operação Bandeirante (Oban), como se comprazia em assistir aos militantes de esquerda sendo torturados lá
A história do sádico executivo que ainda hoje é nome de rua em São Paulo foi relembrada há uma semana, quando se confirmou a identidade de uma das 1049 ossadas encontradas no cemitério clandestino de Perus, em 1990, como sendo do desaparecido político Dimas Antônio Casemiro, natural de Votuporanga (SP). Aos 25 anos, Dimas foi morto pela repressão como um ato de vingança por seu envolvimento na emboscada que matou Henning Boilesen em 15 de abril de 1971.

Ninguém sabe até hoje qual foi exatamente seu papel na ação, da qual participou provavelmente como motorista. Boilesen, que confiava no próprio taco a ponto de recusar escolta armada, foi fechado por dois fuscas pouco depois de sair de casa, na esquina da rua Barão de Capanema com a alameda Casa Branca, em São Paulo. Chegou a tentar fugir, mas foi metralhado com 19 tiros e morreu na sarjeta.

No local, os guerrilheiros deixaram panfletos assinados pelo MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) e pela ALN (Ação Libertadora Nacional) que teriam sido redigidos por Dimas, onde se lia: “Henning Arthur Boilesen foi justiçado, não pode mais fiscalizar pessoalmente as torturas e assassinatos na Oban (…). Olho por olho, dente por dente”. O tiro de misericórdia foi assumido pelo militante da ALN Carlos Eugênio da Paz, único sobrevivente.



Dimas Casemiro, pai de um menino então com 4 anos de idade, seria assassinado nos porões da ditadura dois dias após o justiçamento de Henning. De acordo com a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, foi atingido por arma de fogo em um tiroteio simulado, um recurso utilizado com frequência pelos órgãos da repressão para esconder a morte sob tortura.

O irmão de Dimas, Dênis Casemiro, de 28 anos, que não teve nenhuma ligação com a morte de Boilesen, foi fuzilado pelas costas pelo tristemente célebre delegado Sérgio Fleury, recentemente homenageado por um bloco carnavalesco de extrema-direita em São Paulo

No laudo necrológico, aparecia que o gráfico morrera em decorrência de choque hemorrágico e descrevia quatro ferimentos causados por arma de fogo. Nas fotos do corpo, localizadas nos arquivos do DOPS, eram visíveis lesões na região frontal mediana e esquerda, no nariz, e principalmente, nos cantos internos dos dois olhos, não descritas no laudo e certamente causadas por tortura.

A foto de Dimas morto

Parceiros da repressão, os jornais paulistas noticiaram a morte de Dimas um dia antes de seu corpo ser depositado no IML. “Morto ontem chefe dos assassinos de Boilesen: baleado e morto chefe dos assassinos do industrial”, dizia o Diário Popular de 18 abril de 1971, corroborando a versão oficial, como era de praxe. “Foi morto Dimas Casemiro, acusado, juntamente com Joaquim Alencar Seixas (morto ao resistir à voz de prisão), do assassinato do industrial Henning Albert Boilesen. Dimas resistiu à voz de prisão, iniciando o tiroteio do qual foi vítima.” Qualquer semelhança com os “autos de resistência” de hoje em dia não será mera coincidência.

O irmão de Dimas, Dênis Casemiro, de 28 anos, que não teve nenhuma ligação com a morte de Boilesen, também seria brutalmente assassinado pela repressão em maio daquele ano, após dias sendo torturado no DOPS. Foi fuzilado pelas costas pelo tristemente célebre delegado Sérgio Paranhos Fleury, recentemente homenageado por um bloco carnavalesco de extrema-direita em São Paulo. Dênis foi o primeiro enterrado como indigente em Perus a ser identificado, em 1991.
Parceiros da repressão, os jornais paulistas chegaram a noticiar a morte de Dimas um dia antes de seu corpo ser depositado no IML. Já Boilesen foi saudado como uma vítima inocente do “terror”
A identificação da ossada de Dimas foi possível graças ao trabalho de uma equipe multidisciplinar formada por um laboratório na Bósnia, a International Comission on Missing Persons (ICMP), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Secretaria de Cidadania do Ministério dos Direitos Humanos, o Grupo de Trabalho Perus (GTP-Perus), as secretarias de Direitos Humanos do município de São Paulo e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que juntos ainda procuram cerca de 40 desaparecidos políticos.



O coordenador científico do grupo de Trabalho Perus, o perito médico-legista e geneticista forense Samuel Ferreira, percorreu 44 mil quilômetros para colher as amostras de sangue de familiares de desaparecidos. O DNA retirado de uma das ossadas tinha semelhanças com as amostras de sangue da família de Dimas Casemiro: uma irmã, um irmão e o filho, Fabiano César Casemiro, hoje com 50 anos. Enquanto Boilesen foi enterrado com todas as honras, a família do guerrilheiro esperou 47 anos para ter o direito de sepultá-lo. Eles pretendem depositar os restos mortais de Dimas ao lado de Dênis, em Votuporanga.

Com quase 2 metros de altura e feições tipicamente arianas, Henning Boilesen foi o mais vistoso, até por seu fetiche em tortura, mas não foi o único colaborador da Oban: praticamente todo o empresariado paulista, com as honrosas exceções de José Mindlin e Antônio Ermirio de Moraes, aceitou contribuir financeiramente com a tortura a seres humanos. Em julho do ano passado, a Volkswagen alemã admitiu ter colaborado ativamente com a repressão no Brasil.



“Operários eram presos na planta da fábrica e, em seguida, torturados: a colaboração da Volkswagen com a ditadura militar brasileira foi, aparentemente, mais ativa do que antes presumido”, escreveu o jornal Süddeutsche Zeitung. “Eu estava trabalhando quando fui surpreendido com um cano de uma metralhadora nas minhas costas. Me algemaram com as mãos para trás e me levaram para o departamento pessoal da empresa. Ali mesmo começaram as torturas. Comecei a ser espancado dentro da empresa, dentro do departamento pessoal da Volkswagen. Por policiais do DOPS e na frente do chefe da segurança e dos outros seguranças da fábrica”, contou o ex-ferramenteiro Lúcio Bellentani ao jornal El Pais.

Entre os empresários brasileiros, este mea culpa nunca existiu. Boilesen foi escolhido pela luta armada para servir de exemplo a outros e como símbolo de que a repressão e a tortura não foram uma iniciativa isolada dos fardados. Assista ao documentário Cidadão Boilesen e entenda por que a ditadura militar foi, na verdade, civil-militar.

Cynara Menezes
No Socialista Morena

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