22 de fev de 2018

'Happy'

A gente não faz aniversários. Os aniversários é que vão fazendo a gente. E depois, pouco a pouco, nos desfazendo.

Pode-se medir a passagem do tempo pelos diferentes significados da frase “Feliz aniversário!”. Do “Feliz aniversário!” que quer dizer “hoje é seu dia, que alegria, mais um ano da sua vida, comemore porque você merece etc.” ao “Feliz aniversário” que quer dizer “que chato, mais um ano da sua vida que se vai, mas não ligue e comemore - com moderação porque você não tem mais idade”. 

Do “Feliz aniversário!” como exaltação ao “Feliz aniversário” como ironia. 

Até uma certa idade, se faz festa por um ano a mais. Depois de uma certa idade, se faz festa por um ano a menos. Mas aí a festa é para disfarçar.

O valor simbólico do aniversário é que ele marca a nossa integração no Universo - ou, pelo menos, no Sistema Solar. Assim como a Terra, nós também completamos uma volta em redor do Sol, e comemoramos o feito. Não falta quem preferiria acompanhar cada volta de Saturno em torno do Sol, que levaria muito mais tempo, e economizar em cremes faciais e plásticas. Mas estamos presos à Terra e aos seus ritmos. E condenados a envelhecer junto com ela.

Antigamente (eu sou do tempo do antigamente), cantava-se só o Happy Birthday, em inglês, para o aniversariante. Depois surgiu o Parabéns a Você, não sei se por um prurido nacionalista ou porque ninguém acertava como fazer com a língua no “th” do “birthday”.

Dependendo da idade do aniversariante, o trecho do Parabéns a Você que diz “muitos anos de vida” pode ser mudado para algo como “e que folha corrida!” para rimar com “data querida” sem causar constrangimento.

Fora o Parabéns em vez do “Happy Birzdei”, as festas de aniversário não mudaram muito através dos anos. Novidade em matéria de velinhas só a vela que depois de apagada acende de novo, e de novo, e de novo, até o aniversariante impaciente enterrá-la no bolo com um tapa.

Festas de aniversário para crianças modernas são organizadas por empresas especializadas que cuidam de tudo, desde a decoração do ambiente até os doces e os shows de palhaços e mágicos que as crianças ignoram, preferindo fazer guerra de brigadeiros. Mas os rituais continuam basicamente os mesmos, seja para crianças ou para adolescentes: o bolo com as velas, o Parabéns desafinado acompanhado com palmas, as meninas que vão em grupo para o banheiro e não saem mais, o menino chato que dá pontapé em todo o mundo etc., etc.

O que realmente mudou com o tempo foi festa de aniversário para adultos. Hoje, é comum convidarem uma “stripper” (nome que nenhum prurido nacionalista ainda aportuguesou) para o entretenimento quando o aniversariante é homem. O show geralmente termina com a “stripper” nua no colo do aniversariante ou o aniversariante no colo da “stripper” nua e alguém dizendo “Se não servir, pode trocar!” ou coisa parecida. Mas novidade mesmo é “stripper” masculino tirando a roupa em aniversário de mulher. A extensão da sua nudez depende de certos fatores, como a presença ou não na festa da tia Isoldina, que desmaiou na frente do Davi de Michelangelo, ou de não ter havido um mal entendido - como na vez em que o “stripper” se recusou a tirar a cueca e finalmente conseguiu que ouvissem o que ele estava tentando dizer desde que batera na porta, que só estava ali para entregar uma pizza.

Confessemos: quem não gosta de ter seu aniversário lembrado? Os que dizem que não querem festejar porque não ligam para essas coisas, e “não desperdicem tempo e dinheiro comigo”, e “que bobagem”, e “eu nem vou estar aqui” são os que depois mais gostam da festa, e mais riem com a velinha que não apaga, e regem o Parabéns e as palmas, e, se for o caso, saem dançando com a, ou o, “stripper”.

E, além de adorar todos os presentes, adoram comemorar esse fato fantástico: deram outra volta no Sol, e continuam vivos.

Luís Fernando Veríssimo

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