20 de fev de 2018

“Gatinho angorá”: intervenção no que destruiu

Precisa desenhar?
Já não resta mais dúvida a ninguém. A intervenção federal foi Rio foi feita sem planejamento, como bem definiu Ricardo Kotscho no seu Balaio do Kotscho na segunda-feira (19/02): “nas coxas”.

Isso fica patente diante De fatos simples, rituais que deveriam ter sido respeitados, mas acabaram atropelados. Por exemplo, a consulta oficial ao Conselho da República e ao Conselho de Defesa Nacional. Meras formalidades? Mas estão previstas na Constituição Federal, cujo respeito foi jurado pelos que assaltaram o poder em 2016.

Mais ainda. Kotscho, na sua postagem – Foi do “Gatinho Angorá” a ideia de botar fogo no circo para Temer levar vantagem? -, supõe que a intervenção foi obra e graça do “Gato Angorá”. Um apelido com o qual Brizola batizou Moreira Franco. Dinheiro para lá, dinheiro para cá, no entanto, na contabilidade das propinas da Odebrecht acabou merecendo um diminutivo, sabe-se lá por que.

Talvez Moreira não fosse capaz de, sozinho, idealizar esta intervenção. Enxergue-se sim uma digital mais comprometedora, a do general Sérgio Westphalen Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), tal e qual sustenta Luis Nassif em – Xadrez de Sérgio Etchgoyen, o comandante de fato do governo Temer. Nunca é demais lembrar a extirpe dos Etchegoyen e os laços que as gerações anteriores da família sempre tiveram com o autoritarismo, ditaduras e torturas. Estão aí os exemplos do pai e do tio do atual ministro – Léo (o pai) e Cyro – que o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) perpetuou na História do Brasil..

Raul Jungmann, com interesses eleitorais, e Sérgio Etchegoyen, cujo 
DNA familiar está ligado a golpes militares e autoritarismo, 
segundo relatório da Comissão da Verdade.
(Foto reprodução da NBR)

É plausível ainda, como disse Arnaldo César, aqui no Blog – E, se os traficantes matarem um militar? – não se desprezar a participação de outros dois golpistas – Raul Jungmann e Eliseu Padilha – os quais, ao lado de Moreira Franco, assessoram Temer. Estão juntos desde o golpe que derrubou a presidente legitimamente eleita, Dilma Rousseff, sem nenhum crime devidamente confirmado.

Atual ministro da Defesa, Jungmann, pernambucano, tem consciência de que poderá lhe faltar apoio dos eleitores na terra em que cresceu. Por isso, já demonstrou interesses em mudar sua residência eleitoral e se candidatar ao governo do Estado entre os fluminenses. Algo parecido – embora mais ambicioso – com o que fez Roberto Freire, presidente do PPS, sigla onde Jungmann se esconde atualmente.

Freire, também um pernambucano, depois de sofrer desgaste onde nasceu, pegou um Ita no Nordeste e foi reiniciar a vida política em São Paulo. Forma encontrada para se manter na vida política como deputado federal. Jungmann sonha com a faixa de governador do Rio.

Há ainda Eliseu Padilha que, como o Gato Angorá, tem interesse em tentar perpetuar Temer no poder. Visa(m) manter(em) o direito a Foro Especial e adiar(em) um acerto de contas com o Judiciário por possíveis crimes que a Procuradoria Geral da República o(s) apontou como responsável(eis). Sem falar das benesses dos seus cargos.

Mas, entre todos, Moreira merece destaque especial. Não apenas pelo papel que exerce hoje. Afinal, como narrou Paulo Henrique Amorim no seu Conversa AfiadaTemer joga Previdênssia na latrina -, o Gatinho Angorá seria também o responsável pela censura imposta à Paraíso do Tuiuti no desfile das campeãs.

Mas, ao jogar a favor da intervenção com interesses que devem ir além do desvio das atenções para a acachapante derrota que esperava Michel Temer na tão propalada reforma da previdência, Moreira Franco parece esquecer que suas digitais estão marcadíssimas neste quadro de penúria que os fluminenses suportam. Desde 1985.

Moreira Franco, o “Gato Angorá”, que Brizola cunhou.
Foto montagem extraída do site “alertatotal.net”

Naquele ano, ao vencer as eleições estaduais no bojo da popularidade de Tancredo Neves, derrotando Darcy Ribeiro, do PDT, na sucessão de Leonel Brizola, ele desprezou, por idiossincrasias políticas, o único projeto que poderia evitar o crescimento da criminalidade no Estado do Rio: a escola em tempo integral.

Deveria ser encarado como um Projeto de Estado, mas por ele foi visto como coisa menor.

Não se fale nem dos Cieps em si, cujos prédios sabia que inquestionavelmente, caso construísse novos, remeteriam ao eleitor a lembrança do ex-governador pedetista. Em consequência, até obras iniciadas foram irresponsavelmente abandonadas. Ficaram ao relento por anos, em clara demonstração de malversação do dinheiro público.

Mesmo sem os prédios, porém, seria possível, como defende a maioria dos educadores engajados na preocupação do preparo de crianças e jovens das camadas populares, manter o projeto da escola em tempo integral. Era uma possível solução para retirá-los da atração pelo tráfico/criminalidade que, àquela altura, se iniciava. A única concretamente desenhada.

Moreira, porém, preferiu ir na contramão do que os educadores pregaram. Sem nada apresentar para substituir o projeto. Crianças e adolescentes ficaram ao Deus dará. Hoje, muitos deles, podem estar empunhando armas, caso não tenham sucumbido ao longo do tempo e das trocas de tiros com quadrilhas rivais ou forças policiais.

Mais ainda. Moreira, que quando jovem chegou a militar na esquerda, através da Ação Popular (AP), no seu início da carreira política, jogava de acordo com seus interesses, pouco respeitando qualquer viés ideológico. Andou abraçando legendas partidárias que lhe oferecessem oportunidade de chegar ao poder. Basta notar que ele sempre, ao longo dos últimos quase 50 anos, sempre esteve se beneficiando do poder. Independentemente de quem nele estivesse.

Moreira Franco, no início da carreira política, seguiu os passos do antigo sogro, 
o cacique fluminense Ernani do Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas.
Foto: reprodução do CPDOC/FGV

Permanece, é verdade, no PMDB, mas no passado mudou de legenda conforme a conveniência. Ainda estudante, foi dirigente da Ação Popular (AP), organização de esquerda surgida a partir da Juventude Universitária Católica (JUC).

Como tal, ingressou no partido de oposição à época, o MDB, que depois virou PMDB e, mais recentemente, voltou a ser batizado pela velha sigla.

Mas, a prova de que não era uma opção ideológica surgiu em 1979 quando,  acompanhando seu então sogro, o almirante Ernani do Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas, senhor dos votos no ex-Estado do Rio, fugiu para o PDS (1979), partido que surgiu da Arena, a agremiação que sustentou a ditadura militar que ele, como estudante, teoricamente combatera.

Foi por esta legenda que perdeu o governo do Estado do Rio, em 1982, na primeira eleição direta pós-golpe de 1964,  para Leonel Brizola. Uma eleição que ficou marcada por uma tentativa de golpe, na contabilidade dos votos, que ainda não era eletrônicos. Foi o chamado Escândalo do Proconsult, denunciado pela Rádio Jornal do Brasil. Por detrás de “falsos” resultados que visavam barrar a chegada de Brizola ao Palácio Guanabara, estavam, como não poderia deixar de ser, as Organizações Globo.

Em, 1985, quando o governo militar que o seu PDS apoiava começou a agonizar, tratou de mudar de lado. Foi quando, aproveitando-se da popularidade de Tancredo Neves, retornou ao PMDB. O então governador mineiro fez um jogo duplo. Mesmo subindo nos palanques da famosa Campanha das Diretas Já (1984), articulava nos bastidores do poder sua candidatura indireta, via Colégio Eleitoral.

Foi, como dissemos, no bojo da popularidade de Tancredo e do PMDB chefiado por Ulisses Guimarães, que Moreira Franco, retornando à legenda, se elegeu governador do Rio. Ao assumir, por conta das por “idiossincrasias políticas” jogou no lixo o programa da escola em tempo integral.

Moreira Franco blindado
(charge Saci – Tribuna da Internet)

Logo, não devemos perder de vista que o articulador/defensor da intervenção militar oportunista de agora, tem muita responsabilidade no estado em que o Rio de Janeiro chegou.

Uma responsabilidade que cresceu na medida em que por todo este período ele sempre teve voz no partido, até por sua constante aproximação dos governos, inclusive os do PT.

No de Lula, em 2006, conquistou uma vice-presidência da Caixa Econômica Federal. Deixou o cargo para trabalhar na campanha de Dilma e Temer. Depois, ganhou a cadeira de ministro chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, no governo de Dilma Rousseff (2008).

Em todo este período deu sustentação ao PMDB do Rio de janeiro, convivendo perfeitamente bem – e se beneficiando dessa convivência – com a dita quadrilha comandada por Jorge Picciani, Sérgio Cabral e Eduardo Cunha. No mínimo pecou pela conivência do silêncio – já que se imagina que não desconhecia o que faziam – diante dos desmandos e roubalheiras que os três hoje são acusados. Foi ao lado deles que manteve-se na política do Estado do Rio.

Também foi com eles, aliás, que armou o golpe para destituir Dilma Rousseff. Ou seja, ao lado de Temer e Padilha, contou com o apoio da trinca dos hoje presidiários, na armação do golpe que atropelou a Constituição e a vontade dos 54 milhões de eleitores.

Assim, conquistou cadeira cativa no Palácio do Planalto onde recebeu o status de ministro para ter direito ao foro especial e livrar-se das investigações que a Justiça Federal pretende lhe envolver. Agora, ajudou a armar a intervenção.

Não é apenas uma intervenção para diluir o vexame da derrota do governo golpista na tão propalada reformada da previdência. Ela tem, por mais louco que possa parecer, o objetivo de tentar perpetuar os golpistas no poder e, com isso, estender o foro privilegiado com os quais se brindaram. Tudo, reprise-se, com a conivência silenciosa dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Marcelo Auler

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