15 de fev de 2018

FHC e as urnas

Por mais que conheçamos o Fernando Henrique Cardoso de agora, ainda surpreende um artigo como o seu do domingo passado. Publicado simultaneamente em O Estado de S. Paulo e O Globo, o texto contém a habitual mistura de memórias imaginárias, invenções e autoelogios típicos da produção jornalística do ex-presidente. Mas possui um elemento adicional que merece ser discutido agora, quando a caçada a Lula muda de patamar e atinge nova virulência.

É extraordinária a sem-cerimônia com que FHC finge não se lembrar do que foi sua primeira eleição presidencial. Candidamente, afirma: “Quando deixei o Ministério da Fazenda para ser candidato, tinha 12% das intenções de voto e Lula, três vezes mais. Em julho, depois que o real virou moeda, a tendência começou a mudar, mas a mudança só se tornou nítida quando teve início o horário eleitoral (...) Os eleitores olharam os candidatos e optaram por quem lhes pareceu mais capaz de conduzi-los a um futuro melhor”.

Dá a impressão de que ele se esqueceu da operação que o levou de 12% a uma vitória no primeiro turno. Mais que em qualquer outro momento da vida brasileira, ali ocorreu uma radical intervenção no processo eleitoral, conduzida pelo grupo que controlava o governo com vistas a perpetuar-se no poder e evitar a ascensão da oposição.

Os loquazes procuradores de agora, que acham que entendem de história e abusam das citações a respeito de nossa trajetória política, deveriam aprofundar-se no estudo do que aconteceu naquele ano. Se os escandaliza descobrir que o PT tinha (e tem) um projeto de poder, é porque não conhecem o que é manipular uma eleição de cabo a rabo.

O que menos houve em 1994 foi uma comparação racional de propostas. O horário eleitoral, ao contrário do que FHC se recorda equivocadamente, não teve impacto significativo na arrancada que o levou ao Planalto. Quando começou, no início de agosto, FHC estava em primeiro lugar nas pesquisas.

A mágica daquela eleição nada tem a ver com a capacidade de FHC e sua pretensa superioridade em face de Lula. Resultou da subordinação da agenda do conjunto do governo à tarefa de fazê-lo presidente, em função da qual foram definidos o cronograma e o conteúdo das políticas governamentais e, muito especialmente, o Plano Real.

Quando, em seu artigo, FHC diz que “A vitória eleitoral depende de se construir e saber transmitir uma mensagem que toque a sensibilidade popular ...”, ele brinca de faz de conta. Quem melhor que ele sabe o quanto custou em recursos administrativos, políticos e financeiros aquele resultado. A “mensagem” que endereçou aos eleitores não estava nas ideias, mas impressa nas moedas e cédulas que foram postas a circular nas vésperas de seu lançamento como candidato.

Nenhuma das fantasias que o ex-presidente tem a seu respeito o desculpa da conclusão a que chega. Distanciando-se cada vez mais do sociólogo progressista que foi e aproximando-se celeremente do que de pior há no pensamento autoritário nacional, FHC sugere que o melhor seria demitir o eleitorado brasileiro e substituí-lo por outro.

Em suas palavras: “A Pátria precisa tanto de líderes quanto de instituições. E principalmente de um eleitorado que leve ao poder quem tenha visão de país e do mundo, e, sustentando os valores da decência e da democracia, possa oferecer maior bem-estar ao povo”.

Sua Excelência não sabe, mas é exatamente assim que os eleitores procuram agir, do mais humilde ao mais rico, do Oiapoque ao Chuí. Salvo uma minoria de bagunceiros (mais inventada que existente), a imensa maioria procura alguém como ele descreve.

A questão é que não existe uma resposta única, uma só candidatura que satisfaça o universo da população e é exatamente por isso que, na democracia, se fazem eleições. A “Pátria”, como escreve FHC, precisa somente que todos respeitem as escolhas da maioria e não se metam a tutelar o povo.

Lula, para a maioria da população brasileira, é aquele que tem visão de país e do mundo, e que, sustentando os valores da decência e da democracia, pode oferecer maior bem-estar a ela. Que Fernando Henrique durma sossegado: não vai ser necessário trocar o povo brasileiro por outro que ele consideraria “mais qualificado”. O nosso está perfeitamente apto a fazer boas escolhas.

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Vox Populi
No CartaCapital

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