21 de fev de 2018

Falando de Bolsonaro

Empresa que apoia Bolsonaro “contra a esquerda” teve prejuízo milionário em 2016 e 2017

Processo de decadência financeira da Tecnisa já dura vários anos, mas o presidente da empresa disse à revista piauí que seu único interesse no candidato é ideológico


Ladeira abaixo: a Tecnisa, cujo fundador, Meyer Nigri, foi citado em reportagem da revista piauí como um dos “empresários apoiadores de Bolsonaro”, teve um prejuízo milionário no ano passado, segundo revistas e jornais especializados em economia. De acordo com reportagem da revista Exame de maio, “a incorporadora encerrou o primeiro trimestre de 2017 com um prejuízo líquido de 63,4 milhões de reais, mostrando reversão frente ao mesmo período de 2016, quando teve lucro de 2,4 milhões”.

Em novembro, o jornal Valor Econômico mostrou que o prejuízo crescera 31,4% no trimestre, chegando a 142 milhões de reais. “As despesas financeiras cresceram com a realocação dos juros de dívidas atreladas a projetos entregues ou cujos custos foram remensurados. Já as receitas financeiras caíram com menor posição do caixa médio, com o aumento dos distratos e com menor contribuição dos indexadores para atualização monetária”, explicou o jornal.
O fundador da Tecnisa, Meyer Nigri, explicou por que apoia Bolsonaro: “Apoio quem seja contra a esquerda, Bolsonaro, Alckmin ou qualquer outro.” Será que é só por isso mesmo?
O ano de 2017 não foi o único ruim para a Tecnisa, que desde 2008 aparece na imprensa como tentando se salvar de um processo de decadência. Apesar do lucro no primeiro trimestre de 2016, no segundo já acumulava prejuízo de mais de 100 milhões de reais. “A Tecnisa reverteu o lucro de 7,8 milhões de reais do terceiro trimestre do ano passado e teve prejuízo líquido de 108 milhões de reais de julho a setembro. O prejuízo resultou de distratos, do baixo volume de lançamentos, de indenizações por atrasos e de perdas com vendas de terrenos”, dizia o jornal. Fechou o ano com um prejuízo de 400 milhões de reais, segundo a Exame.

“O público da Tecnisa foi pego pela crise, o desemprego aumentou, o preço dos apartamentos caiu e muitos acabaram devolvendo imóveis comprados na planta. Os distratos (devoluções de imóveis) começaram a aumentar: metade de tudo o que foi vendido pela Tecnisa nos últimos quatro anos foi devolvida pelos compradores. Em agosto passado, a Tecnisa precisou chamar um aporte de capital dos acionistas, de 200 milhões de reais, para reduzir o endividamento”, publicou a revista. A Tecnisa aparece, inclusive, num ranking da Exame dos “20 Maiores Prejuízos do Primeiro Trimestre de 2017”, em 18º lugar.

O presidente da empresa, Meyer Nigri, explicou à piauí por que apoia Bolsonaro: “Apoio quem seja contra a esquerda, Bolsonaro, Alckmin ou qualquer outro.” Será que a questão é só ideológica mesmo?

No Socialista Morena



Bolsonaro Digital, a empresa criada para monetizar vídeos no YouTube

A família do presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) criou uma empresa para monetizar vídeos no YouTube. Líder nas pesquisas em que Lula não figura como candidato, o deputado aparece como sócio da Bolsonaro Digital, fundada junto com sua ex-mulher e seus filhos.

Procurado, Jair Bolsonaro disse que desconhece a empresa. “Deve ter sido meu filho que fez essa empresa. Não sei. Eu apenas emprestei minha assinatura e dei procuração. Eu acho que ele criou, não tenho certeza”, disse o deputado ao BuzzFeed News.

Ele disse ainda que uma possibilidade seria fazer vídeos na internet, mas não soube detalhar, uma vez que a empresa seria tocada por Flávio Bolsonaro, que é deputado estadual, no Rio.

“Meu filho deu essa ideia no passado e eu falei que não tinha tempo”, contou.

Segundo Flávio Bolsonaro, que exerce o mandato de deputado estadual no Rio pelo PSC, a ideia da Bolsonaro Digital é ganhar dinheiro monetizando vídeos no YouTube, mas a empresa ainda não começou a funcionar. Ele não disse quando isso vai acontecer.

“A empresa foi criada, a princípio, para monetizar vídeos do YouTube, sendo que até o momento isso ainda não foi implementado”, disse o filho do pré-candidato. Ele não detalhou que tipo de conteúdo a empresa pretende publicar na plataforma.

Monetizar é um termo técnico para ganhar dinheiro com a visualização de vídeos no YouTube. Quem posta vídeos no site aceita que o YouTube passe a publicar anúncios durante a exibição e, em troca, ganha uma fatia da verba publicitária. Ou seja, quanto mais clique, mais dinheiro.


No DCM



Bolsonaro, o liberalismo político e a democracia

A turma das finanças que ovacionou o paradoxal candidato vaiaria, certamente, Keynes

Leio na Folha de S.Paulo: Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, foi aplaudido de pé em evento promovido pelo Banco BTG Pactual. Na plateia, acotovelavam-se investidores e gentes do mercado financeiro. Em sua arenga, relata o jornal, Bolsonaro fez reverências ao credo do liberalismo econômico e teria prometido metralhar a Rocinha, depois de panfletagem aérea ordenando a desocupação da favela.

O pré-candidato tem sido incessantemente interpelado por gentes dos “mercados” e jornalistas idem. Cobram a apostasia de sua alegada filiação pretérita ao pensamento e, pior, às práticas nacional-desenvolvimentistas que teriam sido cortejadas e adotadas por militares ao longo da história recente do Brasil.

Em entrevista, Jair Bolsonaro desmentiu as rajadas de metralhadora. Aconselhado por um insigne economista, Paulo Guedes, Bolsonaro deve ter sido alertado para os riscos de reincidir nas frequentes colisões entre os protestos de adesão ao liberalismo econômico e os rompantes antidemocráticos que acometem seu pensamento político.

Bolsonaro não é pioneiro em suas contradições. John Locke, pai do liberalismo, exigia uma vigorosa ação do Estado para disciplinar a chusma de vagabundos e desempregados. Essa rafameia deveria ser internada para recuperação em workhouses, verdadeiros antecessores dos campos de concentração ou enviada às galés para retificar o espírito.

Locke considerava a escravidão nas colônias um direito indisputável do “homem livre” e redigiu pessoalmente a cláusula da Constituição da Carolina, que afirmava: “Todo homem livre da Carolina deve ter poder absoluto e autoridade sobre seus escravos negros, suas opiniões e religião”. O filósofo investiu no tráfico de escravos negros, enquanto acionista da Royal African Company.

Autor da Fábula das Abelhas, famoso breviário do liberalismo econômico, Bernard Mandeville tinha horror a qualquer intervenção legislativa do Estado destinada a proteger “aquela parte mais mesquinha e pobre da sociedade”, condenada a desenvolver um “trabalho sujo e digno de escravos”.

Já o economista austríaco Friedrich Hayek, ilustre libertário, escreveu em 1973 o artigo Economic Freedom and Representative Government: “Há um conflito irreconciliável entre democracia e capitalismo – não se trata da democracia como tal, mas de determinadas formas de organização democrática... Agora, tornou-se indiscutível que os poderes da maioria são ilimitados e que governos com poderes ilimitados devem servir às maiorias e aos interesses especiais de grupos econômicos”.

O economista português Francisco Louçã lembra: Friedrich Hayek escreveu em 1962 uma carta ao ditador Salazar, explicando a motivação para o envio do seu livro The Constitution of Liberty, que o devia ajudar “na tarefa de desenhar uma Constituição que previna os abusos da democracia”.

Louçã ainda registra: tendo visitado o Chile quando a ditadura estava bem estabelecida – e os seus desmandos estavam demonstrados e eram públicos e notórios –, Hayek expressou a sua adesão à nova ordem numa entrevista ao principal jornal do regime, o El Mercurio, em 19 de abril de 1981. Nela declarava sem ambiguidades que “a democracia precisa de uma boa limpeza por um governo forte”. Uma boa limpeza. As palavras foram cuidadosamente escolhidas: “Como compreenderão, é possível a um ditador governar de modo liberal. E também é possível a uma democracia governar com total falta de liberalismo. Pessoalmente, eu prefiro um ditador liberal a um governo democrático a que falte liberalismo”.

Liberal, John Maynard Keynes lutou contra as “velhas ideias”. Ainda jovem, em 1904, antes de suas aventuras como economista, Keynes contestou o ataque de Edmund Burke à democracia: “A democracia ainda está sob julgamento, mas não caiu em desgraça; é verdade que não opera à plena força, por duas razões: uma mais ou menos permanente e a outra transitória. Em primeiro lugar, seja qual for a representação numérica da Riqueza, seu poder será sempre desproporcional; em segundo lugar, a defeituosa organização das classes menos favorecidas impede uma alteração mais abrangente do balanço preexistente do poder”.

Ao escrever As Consequências Econômicas da Paz, Keynes completou seu diagnóstico de 1904: “As classes trabalhadoras aceitaram por ignorância ou impotência, ou foram persuadidas ou tapeadas por hábitos, convenções ou autoridade da bem estabelecida ordem da sociedade, a aceitar uma situação na qual tinham uma participação muito pequena no bolo que eles, a natureza e os capitalistas, cooperaram em produzir”.

Keynes seria vaiado nos salões da finança brasileira.

Luiz Gonzaga Belluzo
No CartaCapital

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.