10 de fev de 2018

“Fake news” já influenciavam eleições brasileiras em 1945

Reprodução do material de campanha da UDN em 1945
Ao contrário do que sugere um engano em que muita gente tropeça, a história do Brasil não começou ontem. Nem as notícias falsas são praga recente, embora o rótulo “fake news” bafeje a novo.

Semear mentira para colher vantagem é trapaça manjada. Em 1996, ainda não havia redes sociais e robôs digitais para plantar cascatas. Nada que impedisse artimanhas eleitorais para confundir. O prefeito Cesar Maia lançara Luiz Paulo Conde para concorrer à sua sucessão no Rio. O antagonista mais robusto era Sérgio Cabral Filho – ele mesmo.
Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição.
Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição. De boteco em boteco, aglomeração em aglomeração, os boateiros a serviço do prefeito comentavam a “novidade”. Os incautos ouviam e compartilhavam a informação com os amigos. Com o rumor sobre o abandono chegando ao noticiário, Cabral teve de, em sinal de anemia política, esclarecer que persistiria. Persistiu e perdeu.

O trambique, hoje um case do marketing político nacional, não foi confidência de um desafeto de Cesar Maia. E sim dele, em livro.

Anos antes, em 1989, a campanha de Fernando Collor de Mello à Presidência disseminara o boato de que, se vencesse, Luiz Inácio Lula da Silva obrigaria todas as famílias a cederem um quarto de suas residências para grupos de sem-terra morarem. E que garfaria a sagrada poupança dos brasileiros.

Collor ganhou, e sua primeira medida foi bloquear os depósitos bancários.

Mais atrás, em 1960, os adversários de Carlos Lacerda na disputa para o governo da Guanabara, o equivalente geográfico do atual Município do Rio de Janeiro, soaram o alarme: o deputado e jornalista exterminaria as escolas públicas da cidade-Estado.
O ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo.
Lacerda triunfou e, nos cinco anos vindouros, construiu centenas de colégios.

Completa uma década este ano a patacoada que certa imprensa embalou como fato consumado: o ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo. Uma investigação metódica e obsessiva não encontrou indício de escuta ilegal.

A notícia falsa sobre o grampo custou a cabeça do delegado Paulo Lacerda, que dirigia a Agência Brasileira de Inteligência. Não era esse o objetivo?

O episódio dos marmiteiros

Costuma-se interpretar o confronto entre Hillary Clinton e Donald Trump, em 2016, como uma arena em que a engrenagem das “fake news” revelou-se potente, azeitada e daninha à democracia.

Mas uma campanha presidencial no Brasil antecipou em quase três quartos de século o cenário em que uma mentira pode influenciar decisivamente as escolhas dos cidadãos.

Os idos de 1945 ensinam como uma invencionice, mesmo resumida a uma só palavra, pode pesar nas urnas.

No caso, a palavra foi “marmiteiros”.

Depois do término da Segunda Guerra Mundial, um golpe de Estado depôs o chefe da ditadura do Estado Novo. Os militares, que oito anos antes haviam se associado ao presidente constitucional Getúlio Vargas no golpe, derrubavam agora, em 29 de outubro de 1945, o ditador Getúlio Vargas.

A eleição direta para presidente foi marcada para 2 de dezembro. Seria a primeira desde a de 1930, cujo primeiro colocado foi impedido de assumir – a Revolução de 30, também um golpe, entregou o poder a Getúlio. Do quarteto de candidatos, dois duelavam com chances de vitória: o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional; e o general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático.

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Santinho usado na campanha presidencial de 1945.
reprodução

Dutra prosperara na ditadura como ministro da Guerra, o comandante do Exército. Com dicção deficiente, trocava letras – “você” virava “voxê”. O jornalista e historiador Hélio Silva testemunhou:

“Dutra não era um candidato popular. […] Não era bom orador. […] A impressão dominante era da vitória, de antemão assegurada, do brigadeiro em torno de quem se agrupavam as forças de oposição”.

Dutra era apoiado também pelo Partido de Representação Popular, que abrigava os veteranos da Ação Integralista Brasileira. Nos anos 1930, os galinhas-verdes da AIB haviam adotado aqui ideias que o fascismo e o nazismo cultivavam na Itália e na Alemanha.

A UDN de 1945 era uma frente ampla que reunia de oligarcas decaídos em 1930 a políticos de frescor liberal e frações de esquerda partidárias da socialização dos meios de produção. Não se definira ainda como o partido conservador e reacionário que, na futura síntese crítica do udenista Carlos Lacerda, se constrangia até em chamar pobre de pobre. Em documentos, preferia “os menos favorecidos”.

Mas o brigadeiro estava longe de ser uma figura com apelo entre os… menos favorecidos. Falava em tom monótono, carente de emoção, com carisma de filatelista. A massa trabalhadora não se entusiasmava com ele e sua pregação. O porvir confirmaria que era ruim de voto. A campanha, porém, parecia destinada ao sucesso. Embalava o candidato a legenda de herói da rebelião tenentista de 1922, um dos sobreviventes dos mal contabilizados “Dezoito do Forte” de Copacabana. “Vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”, recitavam suas fãs.

Até que, em 20 de novembro, emissoras de rádio controladas pelo empresário Hugo Borghi, vinculado à candidatura Dutra, detonaram uma bomba. Em discurso, alardearam, o brigadeiro se jactara: “Não preciso do voto dos marmiteiros”. Ele teria empregado a palavra com sentido de trabalhadores humildes, que carregam comida na marmita (marmiteiro era igualmente o funcionário de bares e restaurantes entregador de marmitas).

Era tudo mentira, ou “fake news”.

Calúnia

Páginas de jornal pró-Dutra foram coladas nas paredes e grades da Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco. Populares paravam, liam, batiam boca e vituperavam a insolência do brigadeiro.

Em suas rádios, algumas delas adquiridas com financiamentos do Banco do Brasil durante a ditadura, Borghi reverenciou Getúlio Vargas e mandou brasa na propaganda: “Não vencerá aquele que disse não necessitar dos votos dos marmiteiros e da patuleia, quando os trabalhadores se reuniam em praça pública para manifestar suas aspirações”. Getúlio mantinha-se discreto sobre o pleito, sem anunciar adesão a nenhum postulante.
“O povo não vai acreditar nisso. Imagina…”
Borghi acumulara fortuna no Estado Novo, sobretudo em negócios obscuros com algodão. Animara a campanha “Queremos Getúlio”, empenhada na preservação do ditador. O empresário afirmou ao “Globo”:
“Dizem que sou um banqueiro feito à sombra da ditadura e financiador do movimento queremista, à custa de desvio de verbas oficiais, destinadas ao amparo da lavoura de algodão”.
O amigo de Getúlio jurava inocência, mas poucos se fiavam nele.

O brigadeiro não percebeu o estrago que a estória ameaçava provocar. No dia 21, ele passava pela cidade paulista de Bauru quando o “Correio da Manhã” alcançou-o com uma ligação telefônica. O repórter perguntou “se estava a par do caso dos marmiteiros”.

“Marmiteiros?”, indagou. Não entendera.

O jornalista empostou a voz e repetiu sílaba por sílaba:

“Mar-mi-tei-ros!”

“Que é isso?” insistiu Eduardo Gomes, que ao fim deu de ombros: “Quem pode crer em semelhante tolice?”

Carlos Lacerda rememoraria lhe ter dito: “Brigadeiro, o senhor tem que fazer um discurso hoje, desmentindo isso, mas hoje”.

O oficial da Aeronáutica encaminhou-o a outro correligionário, o ex-deputado Prado Kelly, que teria minimizado: “Mas isso, Carlos, não tem tanta importância! O povo não vai acreditar nisso. Imagina…”.

Os grandes jornais cariocas, na então capital da República, alinhavam-se com o brigadeiro, e contra-atacaram. “Mentira”, acusou o “Correio da Manhã”, identificando no “grande capitalista” Hugo Borghi a origem da lorota. “Calúnia”, estampou o “Diário de Notícias”.

Já era tarde. Nos comícios da UDN, os palanques aclamavam Eduardo Gomes como um amigão dos trabalhadores. “Mas não houve mais pobre no Brasil que se convencesse disso”, reconheceu Lacerda.

“Fake news” decisiva

A historiadora e socióloga Alzira Alves de Abreu assinalou, no “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”:
“Borghi passou a declarar através das estações de rádio e de jornais como ‘O Radical’ que o candidato udenista não precisava dos votos dos marmiteiros, dos que trabalham, dos que lutam pela vida, pois contava com o apoio dos ricos, dos grã-finos, dos privilegiados. […] Segundo alguns analistas políticos, essa campanha teria sido finalmente responsável pela derrota de Eduardo Gomes”.
Ao divulgar, no finzinho de novembro, uma declaração pedindo votos para Dutra, Getúlio selou o revés do brigadeiro. O manifesto se celebrizou com o slogan, de autoria de Borghi, “Ele disse”.

É possível que a bênção de Getúlio Vargas, cuja política social e trabalhista lhe granjeara vasta simpatia popular, tenha sido mais importante do que a calúnia dos marmiteiros. Mas a “fake news” foi também decisiva.

Eduardo Gomes conquistou a maioria nas urnas do Rio, mas malogrou no país – um chocolate de 3,3 milhões de sufrágios para Dutra, contra 2,0 milhões para o udenista.
“Ele disse”
Antes de 1945 se despedir, Hugo Borghi vangloriou-se numa entrevista em Porto Alegre por ter inventado a frase sobre marmiteiros:
“Explicou que, após o discurso do brigadeiro Eduardo Gomes no Teatro Municipal, onde há um trecho fazendo referência ao ‘voto dessa malta de desocupados que anda por aí’, procurou no dicionário de Cândido de Figueiredo a significação da palavra ‘malta’, tendo encontrado ‘gente de baixa condição, súcia, reunião de trabalhadores que se transportam juntamente de um lugar para outro à procura de trabalhos agrícolas’. ‘Não poderia haver dúvida’, disse Borghi: ‘O brigadeiro queria dizer que não precisava do voto dos marmiteiros, ou seja, dos trabalhadores’”.
A versão é falsa, evidenciam documentos e periódicos de outrora.

No cair da tarde de 19 de outubro de 1945, o brigadeiro foi homenageado no Teatro Municipal do Rio. Diante de uma mesa coberta de flores, leu para milhares de presentes o discurso em que mencionou a manifestação queremista no Palácio Guanabara, residência oficial do ditador, poucas semanas antes da deposição.

Relacionou o episódio a um evento de 1830 na França, às vésperas da queda do rei Carlos X:
“A cena, que então se desdobrou nos jardins do Guanabara, bem se parecia com uma tela histórica — a invasão do Palais-Royal por uma festiva multidão de desocupados, quando o duque de Orléans homenageava Carlos X e o rei de Nápoles, em visita a Paris”.
Eduardo Gomes não falou em “malta”, mas em “festiva multidão de desocupados”. Nem em precisar dos votos destes ou daqueles.

Os “marmiteiros”, balela inspirada pela palavra “desocupados”, foram obra da criatividade de um fabricante de “fake news”.

Quantos Hugo Borghi estarão à espreita no Brasil de 2018?

Mário Magalhães
No The Intercept

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