25 de fev de 2018

É só acaso o agravamento simultâneo do desemprego e da criminalidade?

A delinquência que faz o pânico e o clamor da população não é a mesma vista como "o problema da criminalidade" pelas áreas específicas dos governos, entre os militares e no alto Judiciário. Tantas vezes fatais, o assalto aos celulares, relógios, bolsas e joias; o ataque armado para tomar o carro ou a moto, os arrastões, os roubos a lojas e seus clientes, tudo em números alarmantes, criam o medo de sair à rua e a insegurança em casa.

Esses crimes de varejo, que não têm lugar nem hora para acometer, hoje são um sistema próprio. Como um costume, tamanha é sua difusão. Não se confundem com o narcotráfico das concepções oficiais.

O comércio de drogas está de tal modo estabelecido, que proporcionou a ramificação da criminalidade urbana. O roubo de carros e motos para negócio, não para ações imediatas, hoje abastece um comércio de grande atividade, tanto de carros usados como de peças. O roubo de cargas, que nos Estados de São Paulo e Rio ultrapassa 10 mil casos anuais em cada um, tornou-se vital para muitas lojas do comércio regular. Assim também com remédios, verdadeiros e falsos, eletrônicos e outras cargas roubadas.

O novo mundo da criminalidade está além da imaginação. Todo ele incluindo mortes, domínio de territórios e dominação de populações. Quando as organizações iniciais tiveram dinheiro para a compra de contrabando, a entrada fácil de armas de guerra, modernas, mudou o grau da ação delinquente.

O sinal claro da mudança foi dado em São Paulo, com a capital lançada na instabilidade pânica pelo então desconhecido PCC. Sobre o episódio, o pré-candidato a presidente Ciro Gomes disse, no recente fórum da Folha, tudo indicar um "acordo [do PCC] com autoridades locais há mais de uma década". Comentário que o governador Alckmin acusou de "descabido".

Não foi, não. Só acordo faria o PCC, com domínio da situação, adotar repentina parada da ação, e logo ver seus chefes, sendo já presidiários, poupados de qualquer represália governamental ou judicial. Para as várias organizações hoje existentes, e não só para os precursores Comando Vermelho e PCC, desde então as penitenciárias são postos de comando. Facilitados por corrupção e por ameaça a guardas e suas famílias. Método que substituirá um carcereiro ameaçado, como quer a intervenção no Rio, por outro ameaçado. 

Foram sobretudo as ramificações paralelas ao tráfico, porém, que elevaram tanto a insegurança da população nos últimos anos. A propósito, uma frase de artigo da economista Laura Carvalho (Folha, 1º.fev.):

"O número de desocupados cresceu de 6,7 milhões de pessoas entre o fim de 2014 e o fim de 2017 [ano integral de Michel Temer], o que representa um crescimento acumulado de 96,2%."

Só acaso no agravamento simultâneo do desemprego e da criminalidade urbana? Por certo não há uma só causa para a criminalidade, ou para seu aumento. Mas se pretende vencê-la quando não há sequer a compreensão dos fatores que produzem criminosos em massa. 

De um fator, no entanto, não se precisa duvidar: parte dos delinquentes tem na delinquência o único meio de se dar subsistência. Comprar comida, para essa coisa tão simples: comer. Esses, expulsos das favelas e das ruas, vão fazer o mesmo em outro lugar, pelo mesmo motivo. Podem também comemorar a queda da inflação e a alta da Bolsa, que são as metas estabelecidas para o seu país.

PS — O senador Randolfe Rodrigues não é do PSOL, como fiz publicar na edição Nacional da Folha de 22.fev.. O partido que indicou ao Supremo a inconstitucionalidade do decreto de Michel Temer, para intervenção no Rio, foi mesmo o PSOL. Não a Rede, como alterado na edição SP/DF da Folha por uma intenção colaborativa.

Janio de Freitas
No fAlha

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