1 de fev de 2018

Distância

Existe uma coisa chamada silogismo falso. Um pensamento que parece perfeitamente lógico até se revelar que não é. Por exemplo, dois pontos. As Forças Armadas existem para proteger a Nação dos seus inimigos. Os maiores inimigos da Nação, hoje, são os criminosos bem armados que dominam boa parte do seu território e são uma ameaça constante aos seus cidadãos. Os meios convencionais de combater esses inimigos não funcionam. A criminalidade aumenta, a Nação se sente indefesa. A solução? Mandar as Forças Armadas saírem dos quartéis e usarem suas armas para combater o crime. Mobilizar esta força ociosa para que cumpra seu papel de defender a Pátria.

O silogismo é falso e perigoso, como se viu na recente experiência carioca. Exército agindo contra o crime não acaba com o crime e corre o risco de corromper o Exército. Tropas e tanques na rua para manter a ordem estão a poucos passos de estar na rua para impor exceção e arbítrio. O Brasil é um dos raros países do mundo que não seguiram o exemplo da Roma antiga, onde as legiões eram aquarteladas longe da cidade justamente para prevenir a tentação de usá-las a qualquer pretexto. Isso não as impediu de intervir na vida civil dos romanos, mas sempre contra a oposição de figuras formidáveis como Cícero - pelo menos o Cícero que Shakespeare botou no palco - para quem a distância das legiões era a primeira condição para a sobrevivência da República.

O fato de os quartéis brasileiros estarem geralmente dentro de perímetros urbanos só aguça a lógica enganosa, pois realça a inutilidade de uma força militar dedicada aos seus rituais internos e à preparação para guerras hipotéticas, enquanto na rua em frente, ou no morro atrás, o crime corre solto e o inimigo toma conta. Fica difícil convencer as pessoas que esse aparente contrassenso é preferível a transformar militar em polícia. Que é melhor para nossa saúde cívica as legiões ficarem longe de Roma, metaforicamente falando.

Luís Fernando Veríssimo

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