4 de fev de 2018

Claustro

Discutia-se muito a divisão entre a cultura humanística e a cultura científica. Dizia-se que a divisão era uma fatalidade linguística: as duas culturas tinham vocabulários diferentes. Previa-se que se distanciariam tanto que nenhuma comunicação seria possível entre as duas. Nem por sinais metafóricos: seus códigos simplesmente não combinavam. A separação irreversível não aconteceu, e hoje as duas culturas conversam na internet, usando a linguagem universal dos impulsos eletrônicos. Mas permaneceu uma divisão, que separa facções irreconciliáveis. Economistas de um lado e de outro lidam com os mesmos números, analisam os mesmos fatos, recebem a mesma informação — enfim, usam o mesmo vocabulário, só variando o estilo — e veem e preveem coisas diferentes.

O mundo da ciência econômica, como todos os mundos, está subdividido entre humanistas e seus contrários, que divergem nos seus pressupostos e nas suas receitas. Em vez da linguagem, o que os separa é o valor relativo que dão à vida humana — o princípio de todas as equações para uns, apenas mais uma estatística para os outros. Não se trata de ter melhor ou pior coração. A opção neoliberal não é necessariamente uma manifestação de misantropia. E se é solidário pela mais egoísta das razões. Por uma questão elementar de salubridade. Porque uma civilização que sacrifica o homem pelo mercado impessoal e amoral não é exatamente o ambiente em que queremos criar nossos filhos.

Na Idade das Trevas, enquanto a Europa submergia na intolerância religiosa e no obscurantismo, quando nem os reis sabiam ler, foi nos monastérios que a escrita e a cultura clássica sobreviveram. A Igreja foi ao mesmo tempo flagelo e refúgio e, no fim, seu próprio antídoto, pois a dissipação das trevas começou nos claustros. Se você concordar que a economia e as ciências sociais são como a Igreja, com seus dogmas e heresias, então o paralelo vale. O que acontece hoje, com o pensamento único neoliberal dominando o mundo, é uma repetição de outras vezes em que uma minoria herética se viu sitiada por um dogma triunfante que parecia eterno, em que o claustro resistiu ao poder e em que, da resistência veio o Renascimento.

Luís Fernando Veríssimo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.