3 de fev de 2018

Animais fantásticos e onde habitam


Um amigo mais dado a tiradas espirituosas e sagacidades de ocasião sentenciou: “se tá na Internet, é verdade!” De repente, ao deparar-me com tal perspectiva reveladora, ao perceber a iluminação contida em tão elementar afirmação, descobri que não passo de um incrédulo e desesperançado cidadão, uma vez que costumo questionar muito do que encontro nas leituras virtuais que faço, enxergo motivações escusas ou suspeito de pagamentos regulares a sustentar as postagens de certos blogues, aponto meu olhar desconfiado para quaisquer publicações em redes sócias, além de não acreditar nem sequer nos desejos de “bom dia” das tias do WhatsApp.

No entanto, para evitar futuros embaraços e também para ingressar na ordem social vigente, resolvi aderir à perplexidade deliberada da nação. A partir de agora, serei devoto da mesma fé internética das pessoas conectadas, frequentarei o mesmo templo hipotético que o amigo internauta, serei tão crédulo que vislumbrarei uma conspiração por trás de cada teoria com a inquebrantável certeza e firme convicção de quem recita um dogma: inquestionável, absoluto, infalível.

Confesso que não tem sido uma mudança de fácil assimilação, nem tampouco uma transição tranquila. Até porque muitos dos conteúdos apresentados me parecem fantasiosos, praticamente peças de ficção retiradas das mais tresloucadas “fanfics”, como se Lewis Caroll tivesse convidado Tolkien para um chá de cogumelo e um cigarrinho de artista enquanto atualizavam o Facebook.

Dentre os inúmeros relatos envolvendo gangues de ninjas cirurgiões que invadiam casas para extrair órgãos a soldo dos traficantes internacionais e da baleia azul, os filhos de políticos que adquiriram a Friboi com dinheiro desviado de fraudes em Bitcoins de um programa social do governo, ou ainda que a vacinação de crianças é uma medida imposta pela indústria farmacêutica juntamente com os Iluminati, a Rede Globo e o Pablo Vittar para desviar a atenção do público de maneira que ele não descubra que a Terra é plana, notei que alguns personagens despontavam como os mais imaginativos e improváveis protagonistas desta nova, digamos, realidade. Intrigado, resolvi pesquisar mais sobre tais figuras e descobri que, assim como as bruxas, eles existem sim, ainda que eu não creia.

O CIDADÃO DE BEM

O homem e a mulher de bem são antes de tudo um porre. Estão sempre indignados, escandalizados, posicionando-se contra o que eles chamam de “tudo isto que está aí”. Ao se deparar com uma situação que desperte sua contrariedade, reagem energicamente, com a urgência de um pavão a exibir a cauda, transmutam suas vestes camaleonicamente, passando a trajar amarelo e emite um som estridente de panelas batendo em sinal de protesto. 

O cidadão de bem não tolera a corrupção, mas só a dos partidos que lhe são antipáticos, pois quando os delitos são cometidos por políticos de sua preferência, age com discrição, entra em estado de negação (que talvez seja um mecanismo de defesa natural) ou acusa algum opositor do seu correligionário de ter feito muito pior. Também não considera suas pequenas contravenções habituais e possíveis desvios morais como corrupção. Considera que, no seu caso, são apenas deslizes motivados por ignorância, já que estamos num país “cheio de regras para quem é honesto e livre para quem rouba”. Caso não possa disfarçar as reais intenções de seus erros como, por exemplo, uma sonegação milionária de impostos, alega que não foi desonesto, apenas praticou um ato de desobediência civil com fins de conscientizar as pessoas, enfatizando a excessiva carga tributária do país.

O cidadão de bem é contra o aborto, pois é a favor da vida. Mas não de qualquer vida. Prega a pena de morte sumária, sem necessidade de julgamento que o judiciário já tem problemas demais administrando os muitos auxílios que recebe. Também é a favor da liberação de armas para que ele próprio possa contribuir com uma melhor ordem social e com a diminuição da violência através da prática de um ou outro homicídio com fins benfazejos.

Os biólogos indicam que o habitat natural do cidadão de bem pode ser o Facebook, cuja a densa vegetação impede a entrada de luz e também o WhatsApp de onde retira boa parte de seu alimento, reproduzindo-se indiscriminadamente e invadindo outros territórios onde pode adaptar-se facilmente como espaços de comentários de grandes portais de notícias. Apesar da descrição fantasiosa, remetendo a obras ficcionais, é consenso entre os cientistas de que tal ser realmente exista. Os estudiosos só não estão de acordo que ele seja verdadeiramente de bem, o que provoca certa controvérsia em torno do seu nome científico: “Paneleirus Benignus.”

O NAZISTA DE ESQUERDA

Essa foi uma descoberta que provocou enorme mal-estar entre os historiadores de plantão, quase tão surpreendente quanto a revelação recente de que a Terra é plana. No entanto, as dúvidas acerca da existência desta forma de vida são maiores do que qualquer evidência que confirme sua veracidade. O Nazista de esquerda, aliás, nem foi catalogado ainda pelos principais zoólogos, habitando um limbo duvidoso no qual também se encontram o monstro do lago Ness, o pé-grande, o chupa-cabra e, claro, o chupa-cu de Goianinha. Tudo o que se sabe dele foi reunido graças aos relatos dos cidadãos de bem perfilados no item anterior deste texto, quase sempre em redes sociais. Em que pese a estupefação dos estudiosos, convém descrever um pouco do que se falou a respeito do espécime.

As testemunhas afirmam que o nazista tem como símbolo gráfico maior de sua ideologia um símbolo pintado sobre um pavilhão vermelho. E vermelho, como todo mundo sabe, é coisa de esquerdista. Alguns pesquisadores, no entanto, dizem que a cor do América de Teófilo Otoni também é vermelha e não há indícios de que os fundadores de uma agremiação que tem por nome “América” (maior nação capitalista do mundo) sejam de esquerda.

Os defensores da tese também dizem que o nazismo matou milhões e, como todo mundo sabe, quem também matou milhões foi o regime soviético, ou seja: matar muita gente é coisa de comunista. Só que muitos pesquisadores rebatem este argumento, uma vez que levá-lo em consideração seria aceitar que quase todas as religiões são de esquerda, já que precisaram matar algumas multidões aqui e ali no processo de expansão para chegar aos corações e mentes de fiéis mundo afora.

Aparentemente, a crença de que haja nazistas de esquerda não correspondem à realidade nem pode ser comprovada à luz da razão, convertendo-se mais em uma questão de fé, um dogma no qual se acredita ou não, embora não exista nada que dê suportes a tal atitude. Em todo caso, a espécime tem sido hit na Internet, sendo menos popular que o chupa-cu de Goianinha por uma questão de carisma e verossimilhança superior da suposta criatura potiguar.

O LIBERAL CONSERVADOR

O liberal é um representante da fauna conhecido e facilmente identificável em meio à natureza. Foi catalogado pela primeira vez após a publicação do livro “A riqueza das nações” (1776) de Adam Smith. Ele acredita que quando um empresário tem mais lucro do que precisa para sustentar sua família, ele reinveste o lucro excedente na própria empresa, aumentando a produção e a oferta de emprego. Em função disto, o aumento do lucro das empresas deve ser considerado como a base para o aumento da prosperidade coletiva.

O comportamento do liberal típico apresenta alguns padrões em qualquer ambiente que habite. Defende a livre iniciativa e que a busca pelos próprios interesses é a melhor maneira de criar uma sociedade próspera. Acredita na competição aberta e sem maiores regulações, além de que uma força superior chamada “mercado” tem o poder de regular a sociedade da melhor maneira possível para todos. É contrário às intervenções do Estado, defendendo que este não se intrometa na vida de seus cidadãos, permitindo que o bolo econômico cresça ao bel prazer do mercado, beneficiando assim a vida de toda a sociedade.

Todos estes aspectos pertinentes ao animal conhecido como liberal já eram de domínio público (com o perdão da má palavra). O que chocou os economistas, sociólogos e toda a comunidade científica foi o advento de uma mutação bizarra denominada de “Liberal Conservador”.

Esta deformidade já constatada em muitos indivíduos os leva a ter um comportamento errante e contraditório. Defendem o Estado mínimo, desde que os cortes sejam feitos em programas sociais e subsídios sejam dados a grandes empresas e indústrias. São a favor das privatizações porque as estatais geram prejuízos de milhões ao país, mas defendem a entrega de 1 trilhão na forma de isenção de impostos a uma multinacional estrangeira privada que serão perdidos para sempre. São favoráveis da liberdade plena e do direito de se expressarem como queiram (atribuindo a uma suposta ditadura do politicamente correto a perseguição que sofrem aqueles que dizem verdades inconvenientes sobre mulheres, negros, gays, pobres, nordestinos), mas querem implantar proibições e punições duras para professores que ensinarem conteúdos que contrariem sua agenda de pensamento. Não se opõem a um político ou celebridade acusado de assédio, abuso ou crime sexual, mas fazem um escândalo quando uma exposição de arte deixa um seio à mostra em alguma obra.

Biólogos das mais diversas correntes têm debatido como erradicar este perigoso cruzamento que já pode ser considerado como uma praga e uma aberração que faz o Demogorgon de “Stranger Things” parecer um Ursinho Carinhoso. Muitos têm receitado a leitura de livros e o estudo de História, mas tais procedimentos têm encontrado enorme resistência entre as manadas que ultimamente têm se mostrado extremamente (e o termo aqui é adequado) simpáticas ao presidente americano Donald Trump.

A conclusão possível é que a fauna fantástica brasileira contemporânea vai muito além do que as obras de J.K. Rowling, Jorge Luís Borges e Câmara Cascudo juntas poderiam reunir. É de fato algo difícil de supor, mas se está na Internet, só pode ser verdade. “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.”

Carlos Fialho
No Saiba Mais

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