15 de fev de 2018

A mídia já “elegeu” Huck para ser seu candidato


Talvez, realmente, Luciano Huck esteja indeciso sobre ser ou não candidato e suas dúvidas não sejam apenas uma jogada de marketing.

Há muita coisa em jogo para ele, do ponto de vista de seus negócios: ele controla ou é sócio de dezenas de empresas.

Mas estes dias têm servido para mostrar que, neste momento, ele é o candidato dos grandes grupos de comunicação, que prometem – não sei se conseguirão – livrá-lo do tiroteio e do exame com lupa a que qualquer candidato presidencial está sujeito normalmente e muito mais nestes tempos de histeria moralista.

Está claro, mesmo antes de declarar-se candidato, que Luciano Huck é – ou querem que seja – um fantoche da necessidade que têm de colocar qualquer um na Presidência da República, mesmo que seja um aventureiro despreparado e desprovido de sentido próprio.

Há Malans e Ermínios prontos a cuidar do que interessa – as finanças – e Fernando Henrique para ser o sábio conselheiro do jovem príncipe. Huck poderá fazer a sua “social” livremente. O casal real e sua prole dourada farão  bela figura, não dando, até, quem sabe, um “ar de Suécia”.

Programa de governo? Redige-se-lhe um em poucos dias.

A política, destruída, arrasada e massacrada pelos meios de comunicação, está sem nomes.

A ideia que Michel Temer possa ser candidato à reeleição não resiste a um carro alegórico. Geraldo Alckmin dedica todo o seu tempo a escapar das rasteiras e facadas de seus “companheiros”. Bolsonaro, tem o teto da estupidez, embora estejamos a construir sobre ele, faz tempo, o terraço para “elevá-la”. Rodrigo Maia e Henrique Meirelles, desnecessário falar.

Huck é a sua grande esperança de enfrentar aquele que vier a ser o candidato do não – se impedirem que Lula o seja – que inevitavelmente surgirá. protegem-no descaradamente e basta pensar o que seria o escândalo nos jornais e nas tevês, para qualquer outro presidenciável,  de um jatinho de R$ 17 milhões financiado pelo BNDES ou os R$ 20 milhões da Lei Rouanet revelados em sequência.

Huck, antes mesmo de ser um presidente-fantoche, está sendo o candidato-fantoche, o que não conduz, é conduzido.

Fernando Brito
No Tijolaço



Huck e o Silvio Santos de 1989

Maria Cristina Fernandes trata dos astuciosos que querem faturá-lo

Ele também achava que ia faturar o eleitor com um espetáculo de quinta
O Huck do FHC gagá não passa de um adepto fervoroso da intervenção estatal em seu bolso, como demonstrou o Fernando Brito: dos juros nanicos do BNDES às tetas da Lei Rouanet

Agora, a sempre brilhante Maria Cristina Fernandes mostra no PiG cheiroso as diferenças e as semelhanças entre o Huck e o Silvio Santos, também provisoriamente candidato a Presidente em 1989, quando se salvou da irrelevância por decisão da Justiça: "são ambos invencionice de quem quer faturá-lo pela astúcia".

Do baú ao caldeirão

A candidatura Silvio Santos caiu junto com o muro de Berlim. Em 9 de novembro de 1989 o TSE impugnou a candidatura do apresentador sob a justificativa de que seu partido não realizara convenções no número de Estados e municípios exigidos pela lei. Naquela data, Marcos Coimbra, diretor da Vox Populi, já havia feito três pesquisas, num intervalo de 10 dias, para avaliar o potencial do candidato do Partido Municipalista Brasileiro, cuja sigla mimetizava a do PMDB.

Na primeira, Silvio Santos ultrapassara o líder das pesquisas, Fernando Collor de Mello. Na segunda, caíra e, na terceira, despencara. Na lembrança de Coimbra, o apresentador ficou aliviado com o veto da Justiça Eleitoral. O risco de virar traço era enorme.

Os patrocinadores de Luciano Huck o associam a Emmanuel Macron, ministro das Finanças da França antes de virar presidente da República. Mas a falida candidatura de Silvio Santos é a experiência mais próxima do movimento que teima em se encorpar em torno do apresentador. Ao contrário do homem do baú da felicidade, porém, o comandante do caldeirão das tardes de sábado não estourou as paradas de sucesso ao ter seu nome incluído nas pesquisas. Tem um sétimo das preferências do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, na ausência deste, alcança menos da metade do potencial líder da disputa, o deputado Jair Bolsonaro.

Quando Silvio Santos registrou sua candidatura, na reta final da campanha, os candidatos dos dois principais partidos governistas, Ulysses Guimarães (PMDB) e Aureliano Chaves (PFL) patinavam nas pesquisas. Mais ou menos como Geraldo Alckmin, cuja incapacidade de ultrapassar os 20% das intenções de voto no Estado que comanda pela quarta vez soou o alarme dos partidos que gravitam em torno do governo.

Pela direita, parecia não haver rivais à postulação do governador de Alagoas. Collor agregava mais apoio no empresariado, na imprensa e nos partidos do que Bolsonaro, o atual líder do seu campo político. Por mais antissistema que fosse considerado, tratava-se de um governador. De um golfo, como desejara Graciliano Ramos, mas governador.

O país em que os partidos que representam 80% do Congresso Nacional são incapazes de somar 20% das intenções de voto numa campanha presidencial é o mesmo em que as escolas de samba e os blocos tomaram o lugar das agremiações partidárias na mediação da vontade do eleitor.

Os partidos afundaram mas seus caciques vão bem, obrigado. Fernando Henrique Cardoso de então era o ex-presidente José Sarney. Um foi eleito pela inflação que o outro produziu. Em comum aos dois estrategistas dos planos para entregar o país a um animador de auditório, está a preocupação com os sinais de que o nome a ser indicado por Lula estaria no segundo turno.

Pesquisa não é urna. A campanha é decisiva na definição do eleitor, mas como a deste ano será a mais curta da história, terá menor capacidade de mudar aquilo que está escrito nas pesquisas. Luciano Huck tem a vantagem de ser conhecido numa campanha em que haverá pouco tempo para a apresentação de candidaturas, mas as pesquisas de hoje não indicam um potencial de votos explosivo para o apresentador. As de ontem mostraram que este potencial, quando existe, não custa a derreter sob o escrutínio do eleitor.

Se Silvio Santos teve um comportamento errático nas pesquisas quando o país tinha 20% de analfabetos, não se deve esperar uma avenida desimpedida para sua versão 2018. E a principal razão é que a parcela dos brasileiros acima de 15 anos que não sabem ler ou escrever está reduzida a praticamente um terço do registrado em 1989. Nesse período, os brasileiros deixaram de ter uma expectativa de vida à la Sri Lanka para um padrão húngaro. Viveram para ver o que fizeram de sua esperança na democracia.

Frequentemente comparada à eleição de 1989, pelos candidatos a mais, a disputa de outubro tem abissais diferenças. Mas talvez a mais gritante delas é que ruma para ter eleitores a menos. Única eleição solteira e primeira para presidente da República em 28 anos, 1989 teve um grau de comparecimento e de votos válidos que não seria igualado na redemocratização. Já a de outubro ameaça um alheamento amazônico, para tomar de empréstimo o desempenho dos votos em branco, nulos e da abstenção que venceram a eleição no Amazonas em 2017.

Quando grassa a indiferença, quem resiste e comparece é o eleitor menos suscetível de ser capturado por um animador de auditório. Quem faz questão de votar, Marcos Coimbra não tem dúvidas em cravar, é o eleitor mais ideológico, que toma posição contra ou a favor, de Lula, do impeachment, de Michel Temer, de Sergio Moro, temas insípidos quando misturados num caldeirão.

Luciano Huck não é Silvio Santos e 2018 também não é 1989. Saem o terno e o cabelo engomado. Entram a calça jeans e a informalidade. Sai o "Tudo por dinheiro", entra o "Especial Inspiração". Saem as dançarinas e a humilhação do garoto fã de pagode. Entram histórias de superação premiadas com uma audiência com o papa, a reforma de uma biblioteca comunitária e a recauchutagem de um chevette 88. Sai o dono de uma concessão pública, entra um endividado do BNDES.

Sílvio e Luciano têm, em comum, o currículo de apresentadores de sucesso do país em que a política virou um espetáculo. São, ambos, invencionice de quem quer faturá-lo pela astúcia. O vencedor de 1989 é candidato a nanico este ano. Seu principal adversário, que demoraria mais 13 anos para alcançar a Presidência e dominaria o tablado como ninguém, estará, provavelmente, impedido de disputar.

Sua sucessora tinha pouco talento para faturar a distribuição de casas recorde de seu governo, mas caiu por uma disputa de bilheteria. A turma que abreviou seu tempo mudou as regras para dificultar o acesso ao palco, mas continua sem uma atração para comandar a temporada.

Até porque neste espetáculo quem vai ficar até o fim já viu de tudo. Três décadas depois, a plateia se deu conta de que não há show grátis. Aprendeu mais do que aqueles que ficaram atrás das cortinas e ainda acreditam que é possível faturar o eleitor com um espetáculo de quinta.

No CAf

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