16 de fev de 2018

A invasão da UFSC: eles têm medo do que não entendem

Universidades são lugares não só de transmissão, mas, principalmente, de criação do conhecimento, Nelas se conversa, e tudo se decide em palestras, seminários, colegiados, conselhos, bancas, encontros, cenáculos, conferências e debates onde se confrontam apocalípticos, integrados, descontentes e gente tão estranha, às vezes, quanto a mulher barbada ou o engolidor de espadas. A polícia é desarmada e tenta conversar com drogados, amantes incontidos, farristas e autores de pequenos furtos: se um traficante se deixa apanhar, leva à delegacia.

Há rituais protegendo isso: as pessoas se tratam por professor, doutor, colega –  quando se odeiam, o fazem com ritual cordialidade – e obedecem à regra de ouro: quando um burro fala, o outro abaixa a orelha. Administrar comunidades assim torna-se algo próximo da competência dos diplomatas e da agilidade dos contorcionistas.

Esse tipo de inversão da ordem social pela democracia dialética ocorre em toda parte, de modo que a universidade inglesa, a despeito de se ter iniciado ali a revolução industrial, abriga alguns dos maiores teóricos do marxismo e o MIT – Instituto Tecnológico de Massachussets – é a muralha que protege dos marcartismos o mais notório crítico conhecido do imperialismo americano, o linguista Noham Chomsky.

As primeiras universidades na América Latina, destinadas a confrontar as avançadas culturas ameríndias – os impérios Inca, Maia e Asteca – datam do século XVI. No Brasil, porém, onde as populações nativas não se haviam organizado em estrutura similar ao que a Europa entendia por nações-estados, elas só foram efetivamente criadas na década de 1930 – no Rio de Janeiro, pelo governo de Getúlio Vargas, e em São Paulo, pela oligarquia local, para combatê-lo no plano das ideias.

Operação Ouvidos Moucos – foto reprodução da Internet

No Brasil há atualmente 103 universidades públicas, a maioria federais, mais de vinte delas criadas neste começo de século; três ou quatro universidades confessionais; e algumas instituições de natureza universitária importantes, como o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, a Escola Militar de Engenharia, a Fundação Oswaldo Cruz ou o Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Por liberalidade típica do país, a denominação universidade foi estendida a grande número de escolas de terceiro grau, onde se processa mera reprodução de discursos.

Ora, imaginem o impacto que causou a invasão de um ambiente desses, o campus da Universidade Federal de Santa Catarina, por mais de cem sujeitos com o rosto coberto por balaclavas imitando ninjas e portando armas automáticas de cano longo.  A comitiva marciana, despachada pela falta de senso da  autoridade policial, ia buscar sete professores, um deles o reitor, acusados de nada, mas, segundo denúncia, envolvidos em conspiração talvez existente para ocultar desvios de verbas públicas  de montante desconhecido que teriam ocorrido desde há mais de uma década, em administrações anteriores, em um dos programas da instituição.

O choque foi tão grande que o reitor, difamado e submetido a tratamento que se dava a escravos em navios negreiros, suicidou-se.

Até agora, a autoridade coatora, que o sistema protege, busca encontrar algo que o incrimine.

Uma instituição indefesa

A Universidade se mantém cautelosa, na defensiva. (Foto: reprodução da TV)

Desarmada e, pela própria natureza de sua estrutura ideológica plural, de reação demorada, a universidade, institucionalmente agredida, teve enorme dificuldade em defender-se; conseguiu fazê-lo sob pressão dos fatos, com retardo, e se mantém cautelosa, na defensiva. Em parte, porque depende do sistema que a oprime; em parte, porque a vida acadêmica segue o ciclo do ano letivo, que estava para terminar quando ocorreu o assalto; em parte, porque as informações são nebulosas e só liberadas, com  parcialidade e a canais seletos, quando convém à autoridade coatora.

Não há como defender os professores acusados – se não acusados, ao menos punidos como se fossem com a proibição de trabalhar – porque não se tem clareza sobre de que os acusam e não se pode afirmar levianamente que algum desvio não ocorreu.

O próprio conceito de “desvio”, na administração pública brasileira, é nebuloso. O estado foi estruturado para não funcionar e pensado como mero arrecadador de impostos e guardião da ordem; a legislação é claramente privatista. Toda ideia criativa, iniciativa ou vocação é colocada em suspeição e perseguida por enorme e diversificado exército de fiscais, auditores, procuradores e dedo-duros.

A realidade não cabe no esquife montado por burocratas para uma sociedade-cadáver – daí a obrigação do “jeitinho”.  Em todos os setores, dá-se jeitinho, inclusive, certamente, nos organismos policiais: acrescentar um tanto à nota fiscal dos fios para remunerar o sujeito que conserta a tomada; pagar a gasolina antecipando a chegada para economizar meia diária; transferir dinheiro do bolsista A, que desistiu, para o bolsista B, fora do prazo; pagar o farelo dos ramsters do laboratório com a verba do restaurante; ampliar o salário inventando gratificações que depois serão incorporadas e por aí vai. As prestações de contas são contas de chegar e os relatórios de atividades, o mais das vezes, relatos do que deveria ter sido.

O controle opressivo e formal, relações de permanente desconfiança no trato entre servidores, a inviabilidade de aplicação das regras à realidade combinam-se para difundir o cinismo e abrir espaços à transgressão. Formam-se logo quadrilhas que exploram isso.

Poucas vezes exerci funções administrativas, mas, em todas, sofri assédio para receber propinas. Quando comprei dois computadores portáteis com verba do CNPq, na década de 1980, e informei ao vendedor que não queria comissão recebi e integrei ao acervo da UFRJ, de bonificação, uma impressora e três caixas de disquetes floppy . Ao chegar a Brasília para dirigir um órgão administrativo, ofereceram-me, já, no aeroporto,(e não aceitei) hospedagem na Academia de Tênis, resort cercado de cinemas e hotéis, ao custo da diárias do governo; o empresário que ganhou a concorrência para uma obra de construção civil no prédio em que trabalhávamos comoveu-se por não lhe pedirmos nada, reformou o hall de sete andares  e confidenciou à nossa superintendente: “Fico honrado em fazer algo de graça para o Brasil, país que me acolheu criança”.

Não é com sujeitos fantasiados de ninja que se reverte uma distorção cultural dessa grandeza.

Justiceiros e corruptos

Charge de Latuff, reproduzida do Brasil 247

Por detrás dessa operação policial e de outra que se seguiu com perfil parecido, na Universidade Federal de Minas Gerais, está a campanha dos Justiceiros para subjugar e extinguir o poder democrático nos órgãos públicos.

Sem ciência não há futuro, sem inteligência não há democracia – e é isso que está em jogo.

Herdeiros de uma tradição autoritária e formados em faculdades de Direito apossadas por desvairado punitivismo, que se reforça com o subsídio financeiro e ideológico do FBI, os militantes da lei-e-ordem imposta pelo medo justificam-se na denúncia da corrupção que, na verdade, não combatem eficazmente, até porque não conseguiriam: limitam-se ao uso político e à manipulação em benefício próprio.  Conseguiram, todavia, dessa vez, alterar práticas jurídicas que, no passado, moderaram a apropriação do poder por agentes e instituições repressivas.

Ocorre que, na Universidade, como e, embora não pareça, na própria estrutura judiciária, na força armada e nos quadros da administração civil, está presente e acuado o Brasil não corrupto nem justiceiro, aquele que serviria a um país próspero, tolerante e pacífico, se houvesse.

Os que estão sendo excluídos das decisões são justamente esses – os cientistas, os pensadores, os organizadores – além do povo, naturalmente, a que se destina, conforme a facção,  repressão ou demagogia.

Para que o espetáculo que se encena na mídia tenha sucesso, é preciso que a plateia não só não participe como seja desinformada. Por isso, em lugar de soluções e cidadania, dão-lhe culpados, verdadeiros ou falsos, em fogueiras, forcas, guilhotinas ou, agora, longos processos judiciais cobertos pela mídia conforme o script de prestigiados marqueteiros.

Nilson Lage, jornalista, professor aposentado da UFRJ, foi também professor titular da UFSC. Autor de livros como “Estrutura da Notícia” (Editora Ática, 2004) e “Teoria e Técnica do Texto Jornalístico” (Editora Campus Elsevier, 2005).

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