14 de jan de 2018

William Waack perdeu a chance de mostrar que aprendeu algo com o próprio erro

Ele
O artigo de William Waack publicado hoje pela Folha de S. Paulo não foi, propriamente, uma defesa. Foi um ataque.

Demitido da Globo, rejeitado pelo SBT, ele transfere a responsabilidade pelo seu infortúnio à militância na internet.

“O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada ‘mídia tradicional’ são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.”

William não deu nomes, mas pode estar falando dos sites independentes, como o DCM, que tem se contraposto à velha mídia, com artigos e coberturas que partem de pontos de vista muito diferentes, às vezes opostos.

Sem citar nomes, William critica seus antigos empregadores por não enfrentarem esses “grupos organizados”.

“Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.”

É exatamente disso que se trata: a contribuição da mídia para perpetuação da miséria e da ignorância no país.

Faz muito tempo que notícia deixou de ser o principal negócio do que ele chama de mídia tradicional.

Mas William não reconhece. Ou finge não reconhecer.

E segue no ataque a quem, em síntese, o demitiu:

“Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.”

William exibe suas credenciais — viveu fora do Brasil como correspondente internacional — para dizer que os “canalhas do linchamento” querem tirar uma característica do povo brasileiro, a irreverência.

Será que ele acha que foi engraçado com seu comentário racista?

“Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento querem nos tirar.”

E não consegue evitar a soberba:

“Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades – nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.”

William parece querer dizer que tem algo a ensinar à patuleia.

Será que entendi corretamente?

Paulo Sotero, o jornalista a quem William dirige seu comentário, ficou visivelmente constrangido.

Teve uma reação que não é de riso nem de concordância. Mas de estupefação.

William já progrediu ao admitir que fez a piada racista, mas está longe de um gesto da auto-crítica.

Faço essa análise com tristeza, porque trabalhei com William Waack na revista Veja.

É um bom jornalista. Íntegro na reportagem.

Fizemos juntos uma das primeiras reportagens que escancaravam o submundo das empreiteiras — a capa “Por dentro da mala preta da OAS”.

Tenho para mim que William se deixou seduzir pelo ambiente da televisão e a vida enganosa que salários estratosféricos proporcionam.

Comprou um avião e, às vezes, viaja sozinho para o interior de São Paulo.

Já usou a pista de pouso da fazenda de outro jornalista que foi da Globo.

William perdeu contato com a realidade do povo brasileiro e, para um jornalista, isso é mortal.

Vai demorar para aterrisar.

Joaquim de Carvalho
No DCM







Não sou racista, minha obra prova

Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: "Aquilo foi uma piada — idiota, como disse meu amigo Gil Moura —, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão."

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo — racial, inclusive —, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso.

Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: "Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português."

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião — ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada "mídia tradicional" são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos "fatos objetivos", da "verdade dos fatos" (a expressão vem do termo em inglês "gatekeepers"). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita "mídia tradicional". Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que "donos" de outras agendas políticas definem como "correto".

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da "mídia tradicional" se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades – nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

William Waack, 65, é jornalista profissional desde os 17; trabalhou em algumas das principais redações do país e foi correspondente internacional por 21 anos na Europa e Estados Unidos



William Waack prova que é racista

O texto de William Waack publicado em edição de hoje da Folha tem tudo para entrar para os anais das armadilhas psicanalíticas da escrita. Isso porque, no esforço de tentar convencer de que não é racista, dá demonstrações cabais de que é um - e dos mais tradicionais, rasteiros e óbvios.

Eu poderia me ater ao esforço do cara em construir uma cortina de fumaça para o que disse com todas as letras (e o mais irônico é que usou o "coisa de preto" num ato de defesa a Donald Trump, um racista notório) se fazendo de vítima do radicalismo persecutório das tais das redes digitais ou no simples fato de ser um cara na casa dos cinquenta e poucos anos incapaz de assumir um flagrante ato de racismo e se desculpar, mas me aterei à prova tão banal quanto definitiva.

Em dado momento do texto, o ex-jornalista da Globo afirma, com alguma gabação, que ao longo de 21 anos trabalhando no exterior, nunca encontrou um povo tão "brincalhão e extrovertido" quanto o brasileiro. E é isso que os "linchadores digitais" tentam nos sequestrar, fazendo o que fizeram com ele: nossa alegria e extroversão.

Para William Waack, afirmar e reafirmar, com galhofa, que um ato de protesto a Donald Trump só poderia ser "coisa de preto", nada mais é do que uma brincadeira típica da extroversão singular dos brasileiros. Waack é igualzinho àquele tio, fã do Bolsonaro, que fica indignado com quaisquer tentativas de suprimir seu direito de discriminar. É representante do que há de mais natural, tradicional, corriqueiro e perverso no racismo brasileiro: quem determina o que é racismo e discriminação nunca é o alvo da "brincadeira", mas seu autor. É o cara que discrimina que roga para si a determinação da natureza do que fez, nunca o sujeito ofendido e discriminado.

Não, Waack, o que você fez não é brincadeira nem extroversão, é a prática de racismo mais banal que ainda, como se vê, atravessa, quase intacta, gerações e mais gerações. Os outros países que você cita, meu caro, não são desprovidos de alegria e extroversão, são apenas países que, ao menos nesse nível de nojenta explicitude, não praticam seu racismo.

Bom, William, eu só tenho, muito, a agradecer por ter escrito esse texto. Não sobra uma dúvida sequer quanto a sua qualidade moral e intelectual, evidentemente incompatível com o exercício de uma profissão que deveria ser séria, social e politicamente responsável. Nesse ponto, seja lá se por razões virtuosas ou não, a Globo acertou. Minha torcida é pelo seu ostracismo. E não por ter cometido um erro detestável que poderia ser, em alguma medida, reparado, mas por confirmar que aquilo que foi dito, de fato, o representa.

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