30 de jan de 2018

Salve-se das criptomoedas enquanto é tempo

Peça 1 – a lógica da bolha especulativa

Depois do artigo “As criptomoedas e os crimes contra a economia popular” decidi estudar com mais afinco o fenômeno, inclusive consultando artigos sugeridos por vocês.

Fui até as fontes mais sérias. A conclusão é a mesma. A quem aplicou em bitcoins, sugiro o seguinte roteiro:

1. Venda o mais depressa possível.

2. Anote o nome da instituição financeira ou do analista que o aconselhou.

3. Nunca mais passe perto da porta ou do site da instituição que o colocou nesta fria.

4. Encaminhe sua denúncia para o Procon ou para o Ministério Público Federal, por se tratar de crime contra a economia popular.

Vamos a um pergunta-resposta para tornar a explicação mais didática.

A diferença entre blockchain e a criptomoeda

O grande engodo espalhado pelos especuladores é o seguinte:

1.     O blockchain é um sistema que permite a acumulação descentralizada de moedas, com uma série de chaves de segurança. Hoje em dia, todas as compras são pagas ou com dinheiro vivo (porcentagem mínima) ou com transferências bancárias (a quase totalidade). Para pagar a conta de luz, eu preciso fazer um depósito em um banco e, depois, a transferência do recurso para a conta da distribuidora de luz. Com o blockchian, meu saldo fica guardado em criptomoeda no meu computador, ou celular. E simplesmente transfiro o pagamento para a distribuidora, sem passar pelo banco. Muitos consideram que será o futuro do sistema de pagamentos. Sobre isso, falarei mais abaixo.

2.     Há várias criptomoedas que surgiram recentemente, usando esse conceito.

São duas coisas diferentes: o sistema blockchain e as criptomoedas.

Quando eu compro um bitcoin, não estou adquirindo ações do sistema blockchain. Estou apenas comprando a criptomoeda bitcoin. E existem mais de cem tipos de criptomoedas circulando no mundo.

Por que o bitcoin é bolha?

Porque sua valorização depende exclusivamente de haver investidores dispostos a pagar mais do que os investidores que os antecederam. As pessoas não têm bitcoins para comprar coisas, investir em bens, mas para enriquecer. E só ganham se na outra ponta houver investidor disposto a pagar mais. Ou seja, se vender os bitcoins por um preço mais alto do que pagou e pular fora, resgatando o dinheiro.

O processo de criação de bolhas de ativos é simples.

No começo, é barato. Digamos que o bem custe 1.

Se pular para 2, haverá um ganho de 100%.

Se pular para 3, aumento de 200%.

Quando chega, digamos, em 100, quem adquirir e vender por 101 terá um ganho de apenas 1%. Ou seja, cada 1 ponto a mais no preço significará 1% apenas de ganho.

Quando o valor chega a 1.000, qualquer ganho de 1 ponto no valor do bitcoin será irrelevante.

Compra
Aumento
Venda
Ganho
1
1
2
100%
10
1
11
10%
100
1
101
1%
1000
1
1001
0%

Vamos inverter a conta: quantos pontos a mais precisaria ter o bitcoin para sustentar uma rentabilidade de 30%?

Compra
Aumento
Venda
Ganho
1
            0,30
               1,30
30%
10
            3,00
             13,00
30%
100
          30,00
           130,00
30%
1000
        300,00
        1.300,00
30%

Quando está em 1, basta aumentar 0,30 para o primeiro comprador ganhar 30%.

Quando chega em 1.000, para ganhar 30% o comprador terá que revender o contrato por 300 pontos a mais. Ou seja, quanto mais caro o valor do contrato, maior terá que ser seu ganho para continuar garantindo o mesmo lucro para o investidor. Assim, nem o céu será limite.

Ora, o que atrai novos investidores são as notícias sobre a rentabilidade, os ganhos decorrentes da variação do preço de um momento para outro. Quando não houver mais ganhos, de que maneira novos investidores poderão ser atraídos.

Evidentemente vai chegar uma hora e não irá se encontrar nenhuma leva de novos investidores dispostos a pagar mais pelos bitcoins. Aí, o mundo desaba.

O estouro da bolha

O sujeito compra a moeda valendo, digamos, 1.000.

De repente, a moeda cai para 980. Mais alguns dias, para 970.

A tendência é dar início a uma corrida dos investidores para se desfazerem do investimento, antes que caia mais. Aí a queda se acentua. É o que explica perdas de valor de 20% a 50% em um dia. Esse fenômeno ocorreu em todos os casos de bolha conhecidos da história, desde as bolhas do Mississipi no início do século 18, até a bolha do dotcom, do mercado de tecnologia, no início dos anos 2.000.

As criptomoedas não possuem lastro.

Significa que você não poderá trocá-la por produtos. Diz-se que o dólar tem lastro porque a qualquer momento você poderá adquirir bens e serviços com o dólar. Um contrato de soja tem lastro porque com ele você adquire soja.

Não acontece o mesmo com as criptomoedas. O fato de um ou outro empresário aceitar pagamentos em criptomoeda não tem o menor significado. É só comparar a quantidade de produtos que ele oferece com a quantidade de criptomoedas existentes. É o mesmo que tentar esvaziar uma praia tirando areia com baldinho.

Portanto, você só conseguirá se desfazer de sua criptomoeda se houver outro investidor interessado em adquiri-la.

O mercado chama a esses processos de esvaziamento das bolhas de jogo do mico preto. Quando não houver mais nenhum interessado, o último que ficar com o mico, morre com ele.

Peça 2 – os sofismas para manter o jogo

Há toda uma retórica dos especuladores, para enganar os trouxas.

Sofisma 1 – os grandes bancos estão começando a adotar criptomoedas

Os especuladores fazem um baita carnaval alardeando que grandes bancos, como a Goldman Sachs, Santander, Bradesco etc. estariam pensando em adotar criptomoedas. E aí o valor do bitcoin explode.

Ora, nada tem a ver uma coisa com a outra. A Goldmam Sachs adotar a criptomoeda, significa que ela terá um sistema dela, para girar exclusivamente os recursos de seus investidores, facilitando a troca de posições entre eles. Ela jamais irá adotar o bitcoin como moeda. Portanto, o fato de bancos adotarem criptomoedas significa que terão a sua própria moeda para trabalhar os recursos dos seus clientes. E qual o lastro dessas moedas? Os depósitos em dólares, yens, francos suíços, reais depositados pelos investidores.

Sofisma 2 – criptomoedas não sofrem inflação, porque têm limites de emissão

É uma idiotice total. O que é a inflação? É a perda de valor de uma moeda em relação a uma cesta de produtos. Os produtos aumentam de preço naquela moeda, consegue-se comprar menos produtos com o mesmo valor. E essa perda de valor é chamada de inflação.

Se o bitcoin perde 20% do valor em um dia (em relação à moeda com que ele foi adquirido), significa que sua “inflação” foi de 20%.

A diferença maior é que as inflações nacionais dependem de um enorme conjunto de fatores: oferta e procura de bens, aspectos climáticos, aspectos cambiais. E tem um Banco Central responsável pela moeda. Já as criptomoedas dependem exclusivamente da maior ou menor procura por elas. Quando pararem de se valorizar, a única consequência será perder valor, porque nenhum investidor vai adquirir bitcoin se não for com a expectativa de ganhar com sua valorização. E não haverá uma autoridade responsável para impedir o crack.

Sofisma 3 – cada vez mais as transações serão em criptomoedas

Conversa!

A característica básica do produtor de bens é fugir da volatilidade de preços. Se o sujeito fabrica um trator por 10.000, não lhe interessa colocar o trator em um leilão, no qual o preço poderá saltar para 20.000 ou cair para 5.000. É contra o espírito do fabricante.

É porque isso que nos mercados futuros, há a figura do empresário cauteloso e do especulador. O empresário faz um contrato de doze meses de, digamos US$ 10 milhões mensais, com o dólar a R$ 3,00. Nesse período, o valor do dólar poderá cair ou aumentar em relação ao real. Mas o seu custo é todo em real. Se o valor do dólar cair, ele ganha. Mas se o dólar subir, ficar mais caro, ele quebra. Por isso ele vai ao mercado e compra um contrato futuro de dólar a, digamos, R$ 3,00. Na outra ponta, quem vende é o especulador, dispostos a correr riscos com a variação do dólar. Ou seja, nos mais especulativos mercados, como os de derivativos, os empresários da economia real não especulam: eles usam para transferir o risco para os especuladores.

Adquirir bitcoins, ou fechar contratos em bitcoins, significa assumir todos os riscos da variação da moeda. Uma moeda com tal grau de volatilidade jamais servirá como meio de troca na economia real.

Ai vem os defensores do bitcoin e dizem que ele é muito mais seguro, porque não depende dos riscos dos países. Ora, o que você prefere: um risco em dólar, yen ou em uma moeda cujo valor depende dos movimentos de compra e venda dos especuladores? Se compro a 200 e só encontro quem se dispõe a pagar 100 por ele, estou incorrendo no mesmo risco.

Peça 3 – os sinais do fim da bolha

Bastou uma ação reguladora na Ásia, para os valores das criptomoedas caírem 50% em relação ao pico de dezembro. Não houve um colapso maior, por conta de um amplo esquema de manipulação para sustentar seu preço. Mas isso não vai durar para sempre.

Nouriel Roubini, o economista que previu o estouro do subprime em 2008, alerta:

 “Após uma repressão por reguladores asiáticos este mês, os valores de cryptocurrency caíram 50% em relação ao seu pico de dezembro. Eles teriam entrado em colapso maior, não fosse um vasto esquema para sustentar seu preço por meio de manipulação definitiva, não foi implementado rapidamente. Como no caso da bolha sub-prime, a maioria dos reguladores dos EUA ainda estão dormindo no volante”.

Peça 4 – as mudanças tecnológicas financeiras que pegaram

Em seu artigo no Project Syndicate, Nouriel Roubini faz um bom balanço das inovações no mercado financeiro e do futuro dos blockchains.

“Há dezenas de serviços de pagamento on-line - PayPal, Alipay, WeChat Pay, Venmo, e assim por diante - com centenas de milhões de usuários diários. E as instituições financeiras estão tomando decisões de empréstimo precisas em segundos, em vez de semanas, graças a uma grande quantidade de dados on-line sobre indivíduos e empresas. Com o tempo, tais melhorias orientadas por dados na alocação de crédito poderiam até mesmo eliminar movimentos cíclicos impulsionados pelo crédito.

Da mesma forma, a subscrição de seguros, a avaliação e gestão de sinistros e o monitoramento de fraudes tornaram-se cada vez mais rápidos e precisos. E as carteiras gerenciadas ativamente são cada vez mais substituídas por robôs-conselheiros passivos, que podem desempenhar tão bem ou melhor do que conselheiros financeiros.

Agora, compare esta revolução fintech real e contínua com o registro de blockchain, que existe há quase uma década e ainda possui apenas uma aplicação: as criptomoedas. Os impulsionadores da Blockchain argumentariam que seus primeiros dias se assemelham aos primeiros dias da Internet, antes de ter aplicações comerciais. Mas essa comparação é simplesmente falsa. Considerando que a Internet rapidamente deu origem a e-mail, World Wide Web e milhões de empreendimentos comerciais viáveis utilizados por bilhões de pessoas, criptografia como Bitcoin nem sequer cumprem seus próprios objetivos declarados.

Quanto à tecnologia de cadeia de blocos subjacente, ainda existem obstáculos enormes no seu caminho, mesmo que tenha mais potencial do que criptografia. O principal deles é que ele não possui o tipo de protocolos básicos comuns e universais que tornaram a Internet universalmente acessível (TCP-IP, HTML e assim por diante). Mais fundamentalmente, sua promessa de transações descentralizadas sem autoridade intermediária equivale a um fluxo de água não testado, utópico”. 

Há uma boa discussão sobre as criptomoedas e a intermediação bancária e a política monetária.

Mas deixo para outro dia.

Luís Nassif
No GGN

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