27 de jan de 2018

“Paz e amor” ou “boca suja”? Quem era o Lula preso em 1980



O Brasil vivia mais um período de caos econômico, com inflação crescente e salários derretendo. Era 1980, auge das greves na principal região industrial do país, o ABC paulista. Ainda que próximo do fim, o governo militar seguia no comando.

Em abril daquele ano, o sindicato dos metalúrgicos voltou a parar o ABC depois das greves de 1978 e 1979. Para a Justiça, o movimento era ilegal, mas os trabalhadores se recusaram a suspendê-lo. Às 6h30m do dia 19 de abril, o Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, resolveu agir, e mandou dezessete líderes para a cadeia – entre eles, um já conhecido sindicalista que, cinco anos antes, viajara a Tóquio a convite do sindicato japonês colocando seu nome na mira da ditadura brasileira. Era Luiz Inácio da Silva, “codinome Lula”.

Como mostram os documentos da época, acessados pelo The Intercept Brasil no Arquivo Público do Estado de São Paulo, as acusações são atentar contra “a paz e a prosperidade nacional”, realizar “guerra psicológica adversa” e empreender “ações no campo econômico e psicossocial”. Seriam 31 dias de cadeia.

São Paulo, SP, 19.11.1981: Luiz Inácio Lula da Silva chega, de manhã, à 2ã Auditoria Militar, na avenida Brigadeiro Luís Antônio (São Paulo - SP), seguido de sua mulher, Marisa Letícia Lula da Silva, e de outros doze sindicalistas. O Conselho Permanente de Justiça por 3 votos a 2 condenou o presidente nacional do PT à pena de três anos e seis meses de prisão, com base no artigo 36 da Lei de Segurança Nacional, de incitar à desobediência coletiva das leis, por seu desempenho durante a greve dos metalúrgicos, no ABC paulista. (Foto: Evanir Rodrigues / Folhapress)
Acusado de atentar contra “a paz e a prosperidade nacional”, realizar “guerra psicológica adversa” e empreender “ações no campo econômico e psicossocial”, Lula chega à Auditoria Militar, em São Paulo, seguido por dona Marisa e de outros 12 sindicalistas em 19 de novembro de 1981.
Foto: Evanir Rodrigues/Folhapress

Para os militares, Lula incitava os trabalhadores a parar. No inquérito policial, o metalúrgico e seus companheiros também foram acusados de atacar os “Juízes Vogais [do] Tribunal do Trabalho, chamando-os de corruptos, atacando com violência o Ministro do Trabalho, bem como o próprio Governo Federal como Instituição”.

Em vez de acabar com a greve, a prisão de Lula parece ter dado força aos manifestantes. Os trabalhadores ficaram parados por 23 dias depois da ação do DOPS, totalizando 41 dias de manifestações. “Na época os empresários não queriam negociar. Mas a prisão se tornou uma motivação a mais para a greve continuar”, disse Lula, em 2014, em seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade. A briga por um aumento salarial de 15%, no entanto, virou água. Os trabalhadores chegaram a ceder até 8%. Não levaram nada.



Seis dias depois de ir em cana, Lula foi submetido a outro interrogatório. O que se percebe pelas 18 páginas batidas à máquina pelo escrivão de polícia – em folhas já quase translúcidas – é um Lula em transição, do sindicalista para o político. No depoimento, ele já esboça o tom conciliador da faceta paz e amor que mostraria anos depois para se eleger pela primeira vez presidente da República (“o trabalhador”, diz aos interrogadores, “não gosta de radicalismo”); e relata contatos com intelectuais, deputados, sindicalistas e até dois encontros com ex-presidente Ernesto Geisel.

Lula se esquivou de perguntas que poderiam comprometer a si e a outros. Quando os investigadores lhe mostram um álbum de fotos e pedem que ele aponte que são os membro de um grupo “subversivo”, o interrogado aponta cinco pessoas – mas diz só saber quem eram por tê-las visto no jornal.

Mais nacionalista que marxista

No interrogatório, a voz de Lula às vezes é mais a de um líder sindical do que a de político, e bem mais nacionalista do que marxista. Ele relata não manter relacionamento com sindicalistas estrangeiros – com quem diz ter uma série de divergências. Um dos motivos, nas palavras de Lula, “é que esses sindicatos do exterior, quando as empresas de lá exportam para o Brasil, tirando empregos nossos, eles acham bom” E completa: “mas se o procedimento é ao contrário, ou seja, o Brasil exportando para eles, eles fazem greve sem se importar com o trabalhador brasileiro”. O interrogatório assume tom de discurso nacionalista quando ele diz que os privilégios dos operários do primeiro mundo foram concedidos às custas da exploração dos brasileiros.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, durante greve dos metalúrgicos no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), em 1979. (Foto: Folhapress)
Lula discursa durante greve em dos metalúrgicos São Bernardo do Campo (SP), em 1979.
Foto: Folhapress

A resistência ao movimento operário internacional que Lula tenta passar aparece no trecho em que ele conta ter expulsado de uma reunião “um trotskista”:

“O interrogado não sabe declinar o nome do elemento”, revela o documento, “que em uma das assembleias distribuía o panfleto ‘Partido Revolucionário Operário Trotskista’, sendo que o interrogado não procurou o nome desse elemento, mas sim [procurou] expulsá-lo daquele local o mais rápido possível”.

A declaração serve para dar força à tese que Lula tenta vender aos militares, de que não mantinha conexão com coletivos radicais ou grupos clandestinos.

Pelos documentos, os militares pareciam preparados para enfrentar uma esquerda engajada, ideológica, muitas vezes formada por grupos de guerrilha, pronta para uma revolução armada. O depoimento de Lula, em tom ameno, foi um banho de água fria nos interrogadores.

Valia tudo para tentar encontrar evidências de uma “infiltração marxista” no movimento sindical. O interrogatório cita uma cartilha escrita pelo teólogo e escritor Frei Betto, visto pelos militares como “nada mais do que a DIALÉTICA marxista em linguagem acessível inclusive às pessoas de menor instrução”. No dia da prisão, Frei Betto estava na casa de Lula. Segundo o documento, ele montara acampamento por lá desde o início da greve do ABC, de “onde certamente transmite sugestões ou orientações”.

Nem intelectuais nem estudantes

O Lula de 1980 é também um purista. Para ele, o movimento dos trabalhadores é somente para os trabalhadores. Afirma não aceitar em hipótese alguma a participação dos estudantes. Apesar de ter sido paraninfo de uma turma de Administração de Empresas em Belo Horizonte, em 1979, “também não gosta de proferir palestras para estudantes pois acha que cada um deve ficar no seu setor”.
“Com intelectuais, o interrogado teve pouco contato, porque eles imaginam que os trabalhadores não pensam e querem sempre ditar regras”
Sobre ideólogos e acadêmicos, é mordaz: “Com intelectuais, o interrogado teve pouco contato, porque eles imaginam que os trabalhadores não pensam e querem sempre ditar regras”. Apesar das críticas, ao longo do depoimento desfilam nomes da casta universitária. Lula conta aos agentes do DOPS que teve conversas com Fernando Henrique Cardoso (então professor e se aliado político), Francisco de Oliveira (professor de sociologia e um dos fundadores do PT), o cientista político Raymundo Faoro (na época, presidente da OAB), entre muitos outros.

Homens da imprensa também faziam parte do círculo de contatos do líder sindical, segundo o depoimento. Lula relata ter conhecido Octavio Frias, publisher da Folha de São Paulo, Ruy Mesquita, dono do Estadão, Mino Carta, descrito como “dono da revista IstoÉ”, e “os proprietários do Jornal do Brasil dos quais não se recorda o nome”.

“Boca suja”

Nos registros do interrogatório, Lula é repreendido várias vezes sobre sua “boca suja”. Ele nega ou desvia do assunto. Diz nunca ter usado a palavra “safado” para se referir a quem furasse a greve, e não assume ter se referido aos juízes do trabalho “com palavras de baixo calão”. Nega também ter dito que o então ministro do Trabalho, Murilo Macedo, se comportava como um “menino da vila”. Por fim, é questionado se chamou juízes de “filhos da puta”. Admite ter usado palavras pesadas, mas, conforme o documento, lembrou que “só a empresários usou o palavrão ‘filho da puta’”.


Anos mais tarde, Lula disse ter sido tratado com dignidade na prisão do DOPS, cujo diretor era o delegado e mais tarde senador por São Paulo, Romeu Tuma. Recebia visitas da esposa, pôde sair para visitar a mãe doente – que morreria pouco depois –, recebia comida da pastoral operária e conseguiu até mesmo uma televisão “para ver o jogo do Corinthians”. O mesmo DOPS que matara ou sumira com 434 entre 1946 e 1988 tratou bem o futuro presidente.

A divisão de monitoramento do DOPS continuaria acompanhando os passos de Lula enquanto o caso tramitava nas cortes militares depois de sua soltura. Precisava pedir autorização judicial a cada viagem ao exterior. No ano seguinte, em fevereiro de 1981, foi condenado a três anos e seis meses de reclusão por incitamento à desobediência coletiva da lei, mas um novo alvará impediu que fosse preso novamente. O caso foi para a Suprema Corte Militar, que se declarou incapacitada para julgar e o repassou à Justiça Federal. Acabou prescrito.

Em 1982, a metamorfose do líder sindical para o político estava pronta. O “interrogado” se candidatou pela primeira vez a um cargo político. Acabou em quarto lugar na disputa pelo governo de São Paulo, vencida pelo peemedebista Franco Montoro. Lula se elegeu somente em 1986, como deputado da Constituinte. Foi o mais votado do Estado de São Paulo.

Cláudio Goldberg Rabin
No The Intercept

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