2 de jan de 2018

Os radicais do centro democrático


Centro supõe mediação. Se há a esquerda e a direita, o centro seria o mediador, aquele que levanta os pontos em comum dos dois lados, as melhores propostas, independentemente do lado, e monta a síntese.

O Brasil é um país ideologicamente tão capenga, tão pré-histórico, que por essas plagas desenvolveu-se um tipo político único: os radicais de centro, um grupo de intelectuais que se autonomearam porta-vozes do centrismo e, nesse papel, decidem radicalizar por julgar que, nesses tempos de polarização, vence quem grita mais, ou quem polariza mais – mesmo se autodenominando porta-vozes do centro.

É o caso do jovem Joel Pinheiro da Fonseca, que valoriza tanto a própria opinião que ela se torna a manchete de seus próprios artigos: “No confronto entre união e polarização, prevejo que vai dar união”.

Lembra, em muito, os jogos retóricos das redes sociais, ou mesmo nos comentários de TV e rádio, em que o argumento de autoridade está no modo de entoar o pronome EU taxativamente, independentemente de desenvolver argumentos que embasem a conclusão.

E o que é a tal da “união”? É deixar de fora todos os que sustentam que houve golpe, que Lula está sendo perseguido. “E segundo porque cansamos de tanta briga; está na hora de trabalhar juntos”. Trabalhar juntos significa aceitar as reformas de Michel Temer, se integrar ao mercado global, escolher outras prioridades para o gasto público”. Lembra a história dos centristas portugueses quando começaram a linchar os radicais da Revolução dos Cravos. Tipo, nós não somos radicais, o outro lado é que é um bando de fdp.

Joel, mais dois ou três economistas conhecidos, interpretando papel de uma espécie de Marco Antônio Villa do centro. Todo seu exercício intelectual consiste em descobrir argumentos que fortaleçam suas próprias posições. Não se trata do exercício intelectual de definir objetivos, pensar alternativas, burilar argumentos. Trata-se de vencer a discussão.

Dia desses, almocei com um deles, amigo, ótimo papo, economista brilhante. No entanto, o almoço todo foi um esgrimir de interpretações estatísticas visando testar os argumentos, como se estivesse em um coliseu intelectual.

Faz parte desse jogo propagandístico a ideia de colocar Lula e Bolsonaro no mesmo campo do populismo autoritário. Ninguém que conheça minimamente Lula engole esse argumento. O governo Lula foi fundamentalmente socialdemocrata e, no campo econômico, um híbrido de desenvolvimentismo com liberalismo de mercado.

Aliás, esse hibridismo pode e deve ser criticado como um dos erros centrais. Mas dai a considera-lo um populista vai uma distância estelar. Como pode ser populista se reduziu substancialmente a dívida pública em todo seu período? Se jamais colocou qualquer obstáculo ao livre fluxo de capitais?

A crise do período Dilma se deveu a uma mudança substancial do ambiente econômico, que não foi enfrentada com a estratégia econômica correta.

A ideia da eficiência do gasto público não considera, por exemplo, que o Bolsa Família foi o programa social mais bem administrado do país; que o banco de dados serviu de base para o grande salto do Brasil Carinhoso, a maior obra de Dilma; que a integração entre Luz Pra Todos, Bolsa Família, hortas comunitárias serviu para a criação de uma rede socioeconômica que complementou o Bolsa Família.

Antes de Lula, a tecnologia social era prerrogativa dos liberais, a partir dos trabalhos exemplares de Ricardo Paes de Barros. O próprio Marcos Lisboa era um de seus arautos. Hoje em dia, não há nada parecido no campo liberal, apenas o discurso do anti, anti-gastos sociais, anti-políticas públicas, sem apresentar um projeto alternativo claro, minimamente viável. A ideia da Bolsa Família, os estudos de focalização, foram assimilados pelo grupo de Lula, e completamente esquecidos por esses liberais.

E porque não incluem o BF em seu projeto de país? Porque significaria fazer a mediação efetiva, verdadeira, honesta, de levantar projetos bem-sucedidos independentemente do rótulo dado pela mídia. E esse trabalho tiraria a pureza radical dos nossos centristas e, consequentemente, seu posto de porta-vozes do radicalismo de centro.

Mesmo Marcos Lisboa, autor de um excelente trabalho de melhoria microeconômica, como Secretário Executivo da Fazenda, conformou-se com o papel de mero propagandista político.

Já disseram e se confirma na quadra atual: o subdesenvolvimento é um trabalho de gerações.

O centro democrático vingará não quando o modesto Joel quiser, mas quando houver um grupo crítico de liderança , de lado a lado, com clareza e coragem suficiente para fazer a síntese, com coragem para denunciar os abusos do mercadismo e da estatização excessiva, os erros da falta de regulação e da regulação excessiva, entender a participação social como um primado das modernas democracias, e o uso dos mercados como instrumentos das economias modernas.

A radicalização, de lado a lado, serve apenas de instrumento de promoção dos porta-vozes do radicalismo. De lado a lado.

Luís Nassif
No GGN

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