8 de jan de 2018

O caminho para o futuro, no retorno da democracia ao Brasil


Nos anos 90, o país saia de um terrível processo de centralização, com cada passo do país tendo que passara pela burocracia brasiliense. E isso em um período em que a economia global iniciava o mais profundo processo de mudanças desde a segunda revolução industrial, em um cenário que exigia descentralização, formas de articulação de atividades produtivas.

Iniciou-se um aprendizado penoso, que ainda não se completou. A ideia-força, que serviu de inspiração para várias de minhas colunas, era a visão holística ou sistêmica, brandida especialmente pelo grande Eliezer Baptista.

Não se podia analisar uma questão por um ângulo apenas, ensinava ele. As empresas brasileiras tinham saído da ditadura dos homens de marketing, no período do boom econômico, para a dos diretores financeiros, no período da inflação brava.

Entrando na normalidade, empresas e País teriam que aprender a trabalhar com conceitos mais sofisticados, juntando diversas peças para compor cenários, especialmente quando se fossem discutir políticas públicas.

Com o tempo, empresas aprenderam a trabalhar programas de forma interdisciplinar, assim como o próprio governo federal, mas de forma incipiente. Juntavam-se Ministérios da área social, com Ministérios pesados, de infraestrutura, para discutir maneiras de se incluir temas sociais em grandes obras, por exemplo.

Nesse aprendizado, nenhuma experiência foi mais vitoriosa do que o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), imaginado por técnicos da Fiocruz, liderados por Carlos Gadelha, e implementado pelos Ministros José Gomes Temporão e Alexandre Padilha.

Uma grande ideia é aquela tão definitiva e simples que é entendida de imediato por todos e imediatamente estimula novas visões sobre o mesmo problema.

É o caso dos PDPs, cujo modelo deveria ser estendido a todo o universo de políticas industriais.

Política sistêmica, em vez de setorial

A política industrial deixa de contemplar um setor para ser vista como um sistema. No caso da Saúde, não se trata de desenvolver uma política para medicamentos, outra para equipamentos. Mas juntar todas, em torno de um objetivo central.

Objetivo central: direitos dos cidadãos

O objetivo central passa a ser o atendimento dos direitos dos cidadãos, uma medida muito mais objetiva e relevante do que metas quantitativas setoriais. No caso da saúde, o objetivo central é a universalização da saúde. Isto é, a montagem de um modelo que permita ao pobre ter a mesma atenção à saúde que o rico.

Ponto central: estímulo à inovação

Todos os passos dados devem ser feitos em parceria com instituições de pesquisa, estimulando as inovações tecnológicas. Na era da 4ª Revolução Industrial, não se pode pretender repetir o caminho percorrido por nações mais desenvolvidas. Mas de valer-se das novas tecnologias e possibilidades para construir caminhos mais rápidos e eficientes. Daí a importância central de todo programa estar fortemente amarrado a sistemas de inovação.

Mudança no conceito de compras públicas

O modelo de conteúdo nacional das políticas automobilísticas e petrolíferas tinha uma vulnerabilidade central: calculava o percentual de fabricação nacional em relação ao preço final do produto. Até embalagens e insumos sem nenhuma relevância tecnológica entravam na conta. No PDP, não. Analisa-se a tecnologia central, aquela que assegura a quem fabrica o domínio da tecnologia. E negocia-se ela em troca do mercado interno, expresso nas compras públicas.

Definidos esses pontos, juntaram todos os setores que integram esse sistema:

·      Medicamentos

·      Equipamentos hospitalares

·      Serviços hospitalares

·      Políticas preventivas, como vacinação e saúde da família

Testando uma Política  Industrial de Educação


A grande ideia é aquela que pode ser aplicada em outros setores.

Vamos a um pequeno exercício sobre o que seria uma Política Industrial da Educação. Alguns desses elementos foram testados na gestão de Fernando Haddad, como estimular compras de mobiliário e de alguns produtos de acessibilidade.

Tendo esse aprendizado prévio, um novo governo poderia ousar o salto.

Essa política teria quatro pernas:

·      Infraestrutura

·      Material Didático

·      Construção

·      Aspectos socioeconômicos.

Já seria pensada para a era digital. Os enormes gastos com livros didáticos seriam direcionados para equipamentos de tecnologia. Seria uma educação 4.0

Infraestrutura

·      Banda Larga: a ser fornecida pelas empresas de telecomunicação, dentro de um Plano Nacional de Telecomunicações reforçando a universalização da inclusão digital.

·    Computadores: a tecnologia digital é amplamente utilizada por grupos educacionais internacionais. É possível até simular uma cirurgia digitalmente. No caso da rede pública, estímulo a simuladores digitais para todas as áreas, assim como impressoras 3D e equipamentos de computação. Tendo um bom equipamento de computação, e simulares desenvolvidos, cada escola pode ter seu laboratório virtual de química e física.

·     Tablets: todo o contato com o aluno se daria através de tablets, que armazenariam desde livros didáticos, até o sistema de provas. Seria necessário desenvolver um equipamento barato, mas que atendesse a essas especificações.

·     Gestão pedagógica em nuvem: com a informática em nuvem, será possível até montar acompanhamento de cada aluno e aulas de reforço pela Internet. Do mesmo modo, será possível desenvolver métodos pedagógicos – como o sistema de games para aprendizados – de disseminação rápida -, assim como educação à distância para os professores.

·     Redes de pesquisa: em nuvem, pode-se até estimular a montagem de redes de pesquisas por alunos de escolas e regiões diferentes, estimulando o trabalho em rede.

Material pedagógico

E-books e vídeos aulas - Aqui se abre um mercado relevante para os produtores de conteúdo pedagógico audiovisual. Substitui-se o modelo atual de livros didáticos por sistema de compras de material multimídia, estimulando as parcerias entre produtores de audiovisual e autores de livros didáticos – hoje em dia, presos ao anacronismo das editoras. Ao obrigar as editoras a produzir versões eletrônicas de seus livros, a gestão Haddad estimulou o aparecimento de novas competências na área, empresas terceirizadas especializadas nas novas tecnologias. A bem-sucedida política de inclusão de alunos com deficiência, além disso, poderá estimular o desenvolvimento de produtos tecnológicos que facilitem a acessibilidade e possam ser exportados para outros países.

Construção

As demandas da rede públicas podem ser direcionadas para empresas que desenvolvam colégios e mobiliário com sustentabilidade, incorporando avanços tecnológicos e arquitetônicos.

Aspectos sócio-econômicos

A merenda escolar já se transformou em um eficiente meio de desenvolvimento de pequenos e micro fornecedores. Mas uma visão sistêmica dos desafios da educação precisaria incluir outros elementos. A rede de escolas é a porta de entrada para se atingir todos os familiares dos alunos. Por sua capilaridade, pode ser utilizada para serviços de saúde associados, alimentação, iniciação profissional.

Uma boa escola demanda serviços de pedreiro, eletricista, carpinteiro, técnico em informática. Pode ser porta de entrada também para iniciação profissional.

Desafio

É um pequeno exercício, que uso como provocação para vocês. Como aplicar esse modelo em outros setores, como mobilidade urbana, meio ambiente, políticas profissionalizantes, defesa e segurança etc?

Na Plataforma Brasilianas, vamos procurar conduzir todas as discussões sobre Competitividade nesse modelo.

Luís Nassif
No GGN

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