21 de jan de 2018

‘Não me deram o direito de ser eu’, diz Elisa Quadros, a Sininho

Em entrevista, a militante conta que a ‘Sininho líder dos black blocs’ foi um personagem criado por jornalistas e relata as violências que viu na cadeia: ‘A prisão é uma realidade paralela’

Elisa em ato do “Ni una a menos”, no ano passado, no Rio
Foto: Bruna Freire
Na semana passada, a ativista Elisa Quadros Pinto Sanzi, 32 anos, que durante as Jornadas de Junho de 2013 viu seu rosto e o apelido Sininho estampados em jornais, revistas e matérias de rádio e tevê, quase sempre associados a ódio e vandalismo, voltou a aparecer no noticiário, desta vez numa reportagem de capa da revista Istoé. Sem ouvi-la e usando uma foto de quatro anos atrás, a reportagem retratou “Sininho” como uma black bloc defensora da tese de que “a sociedade só muda por meio da violência”.

A reportagem é só mais um dos exemplos de como a personagem Sininho, fabricada por parte da mídia, se distanciou da vida real de Elisa Quadros. Mesmo afastada da militância política por questões pessoais, viu o seu nome aparecer em eventos que não tinham qualquer relação com a sua vida. Em 2016, o delegado Alessandro Thiers, afastado das investigações de um caso de estupro coletivo após desqualificar a vítima, sugeriu que a polícia deveria investigar uma possível influência de Sininho sobre a vítima. No mesmo ano, uma nota na coluna de Ancelmo Gois afirmou que o governo acreditava que “Sininho” atuava em uma ocupação de secundaristas na Secretaria de Estado de Educação (Seeduc). “Eu nem sei onde fica a Seeduc”, conta Elisa.

Presa em julho de 2014 com outros 22 ativistas, em uma controversa acusação de associação criminosa, Elisa e os demais aguardam em liberdade o resultado do processo. Segundo o advogado Marino D’Icarahy, que defende 11 dos 23 réus, as alegações finais do Ministério Público e da defesa foram apresentadas ainda em 2015 e o processo se encontra em condições de ser julgado desde então, mas o juiz Flavio Itabaiana não proferiu a sentença. D’Icarahy afirma que o  juiz estaria aguardando o resultado do julgamento, no STF (Supremo Tribunal Federal), de um habeas corpus que questiona a legalidade de uma prova obtida por meio de um infiltrado da Força Nacional. “Isso não tem prazo”, diz.

Buscando conhecer o ponto de vista de Elisa Quadros para além da personagem “Sininho”, entrevistei a ativista para minha monografia Oligopólio de imprensa, discurso e poder: a cobertura das “Jornadas de Junho”, com subtítulo “Sininho”: uma personagem construída estrategicamente e orientação de Cecília Moreyra de Figueiredo, apresentada no final do ano passado no curso de jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). É esta entrevista que a Ponte publica agora com exclusividade.

Por que você decidiu participar ativamente das Jornadas de Junho de 2013 e tudo o que veio depois?

Em 2012 eu já estava acompanhando a luta da Aldeia Maracanã [localizada no antigo Museu do Índio, a aldeia foi invadida e desocupada pela polícia em março de 2013]. Eu tive momentos de militância ativa já quando era adolescente. Participei de movimento estudantil, fui presidente de grêmio, mas sempre em períodos esporádicos da minha vida. Depois, tive uma decepção muito grande em relação ao PT, meus pais eram petistas e eu fui percebendo a podridão do meio institucional. Nessa época da Aldeia eu já não militava mais pelo partido e estava querendo me envolver mais no movimento e ao mesmo tempo estava conseguindo o trabalho dos meus sonhos, que era numa produtora de cinema chamada Gullane, com a Anna Muylaert, que é uma diretora que eu tenho uma admiração absurda. Meus sonhos estavam sendo alcançados profissionalmente falando, mas não conseguia me sentir completamente satisfeita. Nunca deixei de questionar a vidinha classe média, em que as pessoas parecem que colocam aquele “visor” de cavalo e não querem enxergar a realidade. Eu me sentia em uma prisão de luxo e comecei a questionar o que era liberdade. Sensibiliza-me muito a questão dos moradores da favela, dos negros, mas a questão dos moradores de rua é uma coisa que me toca profundamente. Eu estava cada vez mais ficando na rua com morador de rua e, quando veio 2013, eu mergulhei de cabeça. Passei a perder meus horários em relação aos trabalhos com cinema. Eu ia a todas as manifestações. São Gonçalo, Niterói… Onde tinha eu estava indo. Em junho começou a ter manifestação quase todo dia e aí, no dia da “Batalha da Alerj” [quando manifestantes tomaram a sede da Assembleia Legislativa do Rio, em 17 de junho], eu me senti completa. Pensei: “É isso, essa é a luta que eu quero”. Então, quando surgiu “junho de 2013”, eu me senti como se estivesse realizando realmente meu sonho de vida. Eu me sentia completamente realizada. Ali eu era feliz, aquilo era o que eu queria. Se tivesse que dar a minha vida por aquilo eu daria. Entendeu? Se tivesse que me colocar na frente pra levar um tiro eu me colaria. Eu não sentia nem medo, nem dor, nem nada. Eu dei meu corpo, minha alma e tudo. Eu dei cada porozinho, cada pelinho do meu corpo eu dei pra aquilo ali.

Foto: Ramon Moreira

Quando foi que você percebeu que a construção da imagem da personagem “Sininho” estava mais em evidência do que a de Elisa Quadros?

Desde quando a grande mídia me pegou para “bode expiatório”. No dia 15 de outubro de 2013. Desde a época do “Ocupa Cabral”, a grande mídia já estava procurando um bode expiatório. Mas o foco ainda era o aumento da passagem e lá o movimento estava muito forte. Foi o Ocupa Cabral que eu acho que deu uma reviravolta no movimento do Rio de Janeiro como um todo. Porque foi o movimento de ocupação que passou a ser muito divulgado, inclusive internacionalmente. E ali a grande mídia nacional começou a querer procurar nomes. Só que a gente deliberou em assembleia que não iríamos falar com a grande mídia brasileira, e com a internacional isso teria que ser aprovado em assembleia também. Justamente porque já estava acontecendo certa manipulação, o termo “vândalo” já estava mais em evidência. Só que quando veio a prisão em massa do dia 15 de outubro, já na Ocupação da Câmara, dentre as pessoas que a grande mídia podia pegar pra criar a personagem, infelizmente essa pessoa fui eu. E foi nesse dia que ocorreu a apresentação da personagem criada pela Globo (ai que horror, eu nunca tinha falado isso) pro Brasil. Na capa de O Globo do dia 17 de outubro. “Sininho do barulho”. E foi interessante porque eles usam aquela foto [uma imagem de Elisa abraçada ao namorado], e, ao mesmo tempo que eles me criminalizam me chamando “de grande líder baderneira”, eles colocaram aquela foto que tem todo um romance, toda uma mise en scène que atinge o romantismo da população. E eles fizeram isso, colocaram uma foto que é muito forte, mas ao mesmo tempo já jogando os “fiapinhos” de criminalização pra cima de mim, inventando uma suposta liderança que nunca existiu.

Quais foram os momentos chaves em sua opinião?

Então, teve a época que eu saí na capa do o Globo, como já disse, e que coincidiu com a minha primeira prisão. Depois, a morte do Santiago Andrade [cinegrafista da Band morto por um rojão disparados por manifestantes em 6 de fevereiro de 2014] foi tudo que a grande mídia precisava para dar o xeque-mate e continuar com a história da personagem Sininho, só que dessa vez com a criação de um sujeito terrorista. Você sai da criação de um personagem que tem quem ame e tem quem odeie e aí a grande mídia transforma essa personagem em uma terrorista, que foi o que aconteceu comigo quando saiu a capa da Veja, algum tempo depois desse acidente, intitulada “Os segredos de Sininho”. A terceira coincidiu também com a minha segunda prisão, com aquele vídeo da Polícia Civil me pegando na casa do meu amigo, em Porto Alegre.


Quais eram as principais pautas – ou as que mais te marcaram – defendidas na época do movimento do Ocupa Câmara, que culminou na prisão em massa de manifestantes e naquela Capa do O Globo?

As remoções que estavam acontecendo por obras relacionadas aos megaeventos no Rio e que eu comecei a acompanhar em 2009. Um caso que chocou todo mundo em 2013 foi a remoção da Aldeia Maracanã, e a partir daí começou uma luta, um contato direto dos manifestantes, do Ocupa Câmara, com as remoções em geral, relacionadas à moradia. Então essa era uma das principais pautas. Claro que o a principal pauta, entre aspas, que estavam falando era sobre o aumento das passagens. Só que foi interessante porque realmente “Não é só por 20 centavos”. Essa frase foi muito gritada e realmente não era. Acho que foi um acúmulo, como um vulcão mesmo prestes a entrar em erupção. A gota d’água. E a partir disso muitas outras pautas vieram à tona. No Ocupa Câmara, teve uma pauta que eu até achei muito engraçada. Um cara chegou dizendo que ele queria acabar com o horário de verão. A população de modo geral, não só militantes, passou a ver o Ocupa Câmara como um espaço pra divulgar as suas pautas, as suas ideias. Então teve um casal de idosos que perdeu seu único filho em decorrência daquele prédio que caiu atrás do Teatro Municipal. Eles iam todos os dias com a faixa deles pedindo justiça, porque o estado escondeu o corpo do menino falando que ele não trabalhava lá dentro, mas ele trabalhava lá dentro. O Ocupa Câmara virou um ponto de referência de luta pra população, mas pra mim o que mais me marcou e que era o que eu lutava muito pra tocar eram as pautas das remoções. Na época a gente falava muito do que estava acontecendo com a Aldeia Maracanã, na Dona Penha, no Metrô Mangueira. Começou com as obras relacionadas ao Pan, as olimpíadas, e em seguida a Copa do Mundo de 2014. Depois eu passei a me envolver bastante também com a questão dos moradores de rua, porque o Ocupa Câmara teve uma relação muito incrível, muito boa com os moradores de rua da Cinelândia e depois começou a receber moradores de rua do Rio de Janeiro inteiro. As pessoas em situação de rua começaram a ir lá e começaram a se sentir protegidas. E aí tem uma questão interessante porque hoje em dia o que pode te fazer ter o primeiro contato com pessoa em situação de rua é através da resolução de problemas imediatos, como a fome e a frio. Então ali eles tinham comida e cobertor, né, coisas pra se esquentarem. Mas eles começaram a participar politicamente, por causa das aulas públicas que tinham todos os dias. Eles davam opinião, panfletavam, ajudavam a passar o chapéu. Às vezes participando mais que muito militante que estava ali.

Imagem da ativista em reportagem da Istoé que não a ouviu
Imagem: reprodução

Como foi o período da sua prisão? 

Então, foram dois momentos diferentes em que estive presa. A prisão do dia 15 de outubro foi muito mais intensa pra mim, eu fiquei seis dias. Um dia na 15º delegacia de polícia e cinco dias em Bangu 8, cadeia feminina no complexo de Gericinó. Ela foi mais intensa pra mim porque a prisão é comum pra mais de metade da população brasileira, que é a população negra, a população pobre, favelada. É uma situação que acaba criando uma certa “normalidade”. Pra você que é classe média, branca, prisão é uma coisa que não entra na nossa realidade. Então é muito difícil explicar o que se passou na minha cabeça quando a advogada falou pra mim que eu iria pra Bangu. Mesmo depois que ela me falou eu ainda achava que alguma coisa ia acontecer e que isso não ia se realizar. Mas a realidade da prisão, nossa, eu tive que falar: “ok, isso é real”. Pessoas que são torturadas todo o dia. A prisão é uma realidade paralela. Então quando eu cheguei em Bangu, e aquele portão fechou, essa é uma cena que não sai da minha cabeça, eu estava dormindo porque era de madrugada. Quando aquele muro se fechou, eu tive a noção de que a minha vida não me pertencia mais. Mas, ainda assim, você ainda não tem noção da realidade que é uma cadeia brasileira. E aí, quando entrou uma menina junto comigo, eu encostei porque eu estava muito cansada, virada, a carcereira deu um soco na cara da menina, e a menina desmontou. E eu vi ali que aquele soco era pra mim, não era pra ela. Ela falou assim: “aqui a realidade é diferente, é mão pra trás e cabeça baixa, você não tá em casa”. Desse momento pros cinco dias que se passaram, parecia que eu não tava vivendo aquilo. Dessa vez eu fiquei numa cela que todas as presas ficam, com “boi” [buraco no chão que serve de banheiro], comida insalubre, um tratamento absurdo.

Bilhete de presa com pedido para Elisa
Foto: reprodução

E tem uma coisa assim: quando você chega, você vai ser espancada. Aquela coisa da lei do mais forte, de quem manda. Você tem que passar por esse espancamento pra você entender quem manda ali. Então todas as mulheres que entram no sistema passam por isso. E eu não passei. Na primeira vez eu me deparei muito mais com a realidade do dia a dia delas. Eu comecei a entender como aquilo é desumano, parece que você tá na Idade Média mesmo. A sua vida não te pertence, você pode ser assassinada lá dentro, você pode ser estuprada lá dentro, você pode ser torturada lá dentro. E é assim que o sistema penitenciário funciona. Quem manda lá dentro são as carcereiras, os diretores, a sua vida não te pertence, e você vai ser torturada lá dentro, não só fisicamente. A tortura se inicia desde quando você coloca o pé lá dentro, “cabeça pra baixo e mão pra trás”, a você passar frio porque não tem cobertor, mosquitos e bichos, você não consegue dormir, é muito frio de noite. Então a tortura começa desde o ambiente, da onde você tá, a comida é um negócio triste de ver, porque é normal pelo menos duas vezes na semana ter comida podre. Não tem água mineral, é água do cano, então a água do cano é a mesma que você toma banho, é a mesma que você dá descarga na tua merda, é a mesma que você toma banho gelado num frio do capeta. Não tem toalha, não tem produtos básicos de higiene, dizem que dão, mas não dão. Muitas mulheres não têm escova de dente, pasta de dente, sabonete. Tipo, isso é produto de luxo. Nesse período eu estava ouvindo muito as meninas pedirem guimba de cigarro e eu não estava entendendo. Aí uma delas me contou que é porque elas colocam como se fosse OB. Guimba de cigarro. Tem uma lojinha lá dentro, mas o preço das coisas é absurdo. Aí tem a opção de você conseguir receber coisas da sua família, mas muita coisa é extraviada, as carcereiras não entregam.


E uma coisa também que aí não fui eu que vi, falaram quando eu saí: as presas mulheres são muito abandonadas pelos namorados ou maridos. A maioria das presas não tem visita. Então assim, se você não tem dinheiro, você não come, você não escova os dentes, você não tem toalha, você não tem roupa, você não tem meia, você passa frio. Você passa muita necessidade. Fora isso tem a questão das torturas diárias, que são os castigos. Tem vários tipos: você tem esse espancamento “básico” de quando você entra. Você tem um negócio chamado “tranca”, que ai na segunda vez eu fiquei no corredor da “tranca”. Que era um corredor todo de concreto, fechado por duas grades, um banco assim de fora a fora e é um lugar que passa um vento absurdo. E aí elas são molhadas e passam a madrugada toda ali tomando aquele vento. E aí sim são torturadas, as carcereiras entram, batem, e é algo que acontece na frente de todo mundo, é uma coisa aberta, sabe. Todos os dias elas torturam as mulheres ali, e quanto mais a gente gritava, pedia pra parar, mais elas torturavam. E quando as outras mulheres começaram a criar uma força com a nossa presença ali, elas meio que começaram a encarar e a reivindicar seus direitos. Teve até uma situação em que a mulher falou assim, essa presa eu nunca mais vou esquecer, ela falou assim: “ a nossa diferença é o uniforme, mas eu sou humana igual a você. Eu sinto dor, eu sofro igual você”. Quando essa mulher falou isso, automaticamente eu e a Camila (outra militante que foi presa junto comigo) começamos a gritar. Ela estava apanhando durante a tranca. Aí a gente ficou com muito medo dela ser mais torturada depois. Pelo contrário, no dia seguinte essa mulher parou em frente a nossa grade e falou “muito obrigada, muito obrigada pela força”. E aí a gente começou a receber mil bilhetes, muito tocantes, e na verdade eu tenho esses bilhetes até hoje, que eu escondi no meu sutiã e disse que só saía da cadeia levando eles.


Outro dos bilhetes guardados por Elisa
Foto: reprodução

Como ficou a sua vida particular a partir disso? Como foi sair na rua? 

Eu tive que sair do Estado algumas vezes por conta de perseguição, tanto de milícias quanto da grande mídia. Eu saí em agosto, por causa das ameaças da milícia. Logo depois que saiu a capa da Veja, vários blogs expuseram meu endereço de novo. Eu comecei a receber carta no meu prédio, começou a ter imprensa no meu prédio. A minha vizinha de porta se chama Elisa, coitada, as pessoas começaram a bater na casa dela inclusive. E a terceira vez foi depois que sai da prisão de julho de 2014. Também foi a mesma coisa, muita exposição do meu endereço, da minha imagem. Então a minha vida ficou durante quase três anos girando em torno da exposição midiática, da criação dessa personagem. Eu acabei não conseguindo ser mais a Elisa, a Elisa se perdeu. Eu não arranjava emprego, não podia ir na padaria sozinha, eu dependia de todo mundo pra tudo. Todos os lugares que eu fui me reconheceram. Eu me lembro que quando eu saí da prisão em outubro, eu já era ranking do Twitter, saí em várias matérias e eu não sabia disso porque quem estava na minha casa me protegeu e não me deixou ver a internet. No outro dia eu acordei e sai na rua, quando eu cheguei na esquina da minha casa uma senhora me reconheceu e falou “Sininho!” e começou a chorar, me pedindo um abraço. Eu fiquei meio sem graça, dei um abraço nela, mas fiquei sem reação e ela falava que bom que você está bem e pediu desculpas também falando que não queria me assustar. Ai eu voltei pra casa e vi tudo na internet, toda essa exposição. Então comigo não teve reação negativa diretamente. No máximo as pessoas falavam que pensavam que eu era diferente, que na vida real eu era muito pequenininha. Também eu não dei o mole de ficar perambulando por aí pra ver qual seria a reação das pessoas. Nas favelas eu fui muito bem recebida. Mas assim, com essas exposições todas, foi tudo muito brutal. Eu não tive direito de ser eu. Não me deram o direito de ser eu. Não me deram o direito de resposta. O jornalismo corporativo brasileiro ao me expor daquela maneira colocou minha vida em risco de uma forma extremamente irresponsável. Eu poderia ter sido linchada no meio da rua, e ter sido assassinada no meio da rua, sim.

Você acha que as jornadas de 2013 marcaram um rompimento com antigos modos de se fazer política no Brasil?

Nossa! Lógico que sim! 2013 foi um divisor de águas. Mas isso ia acontecer naturalmente, porque é o que acontece na história da política. A gente vive um ciclo de mudanças conforme a sociedade vai mudando. 2013 foi um rompimento radical em relação à velha política, a representatividade. Até hoje tem gente que ainda não entendeu isso (rs) principalmente a política vanguardista, tipo partidos e ONGs mais de vanguarda. Não entenderam ainda, mas estão levando porrada pra entender. Não existe mais espaço pra esse discurso “precisamos instruir as massas”. Tipo, a massa não tem que ser instruída, ao contrário, enquanto a gente ficar nesse discurso a gente vai levar muito porrada e não vamos conseguir lutar por um espaço de igualdade, onde todas as pessoas tenham voz, dentro das suas realidades. 2013 pra mim foi um divisor de águas e você vê esses frutos aparecendo com essa molecada que começou a ocupar as escolas. Uma garotada completamente nova, que não aceita mais partido político. Você vê isso também na quantidade enorme de votos nulos, brancos e abstenções. Hoje a gente tá num momento interessante, de ver a esquerda institucional, principalmente o PT, se apropriando de discursos de 2013, dizendo que estavam nas ruas. Eles estavam nas ruas prendendo e criminalizando manifestantes, isso que eles estavam fazendo com a Dilma Rousseff no Governo Federal. Mas você vê essa tentativa de apropriação porque o discurso deles realmente não tem mais espaço. Então a esquerda partidária sempre vai tentar usar os discursos de massa pra tentar pautar, como se fosse deles. O que eu vejo hoje na história do “Diretas já” com o impeachment foi que não teve muita repercussão. Eles gritaram ali uma semana e acabou. Por quê? Porque não é uma “diretas já” que vai funcionar. Eu gostaria muito de votar, nossa, como eu gostaria, mas enquanto tiver esse sistema, não vou. Ai a esquerda partidária tenta te enquadrar como se seu discurso fosse vazio, como se o discurso de “precisamos pensar em algo novo, precisamos pensar o que a sociedade precisa” fosse vazio. Vazio é o que a esquerda partidária tenta te impor e o que a própria sociedade não aceita mais.

Como você avalia a Capa da Veja?

A capa da Veja pra mim é uma grande comédia. Não é uma matéria. Eu sou citada na matéria, mas o texto da matéria não é tanto sobre mim. Porque eles não têm o que falar sobre mim. Porque eu nunca estive envolvida no caso Santiago. Eu não estava nem no local. Eu estava dentro da Central do Brasil, presa por policiais que estavam prendendo as pessoas ali e batendo em trabalhador. O título da capa é “Os segredos de Sininho”. Tem dois parágrafos sobre mim, que me expõem pessoalmente, falam que eu sou de Porto Alegre. São cinco, seis páginas de matéria que focam mais no caso Santiago. Mas a capa é minha, e ela foi uma das mais compradas, mais lidas. Mas as pessoas não leram a matéria. Mais uma vez a gente fala do poder da capa, e tudo que a envolve, né? A capa tem mais poder do que a própria matéria, porque, de novo, se as pessoas com o mínimo de senso pegarem essa revista e lerem não vão ver nada. É uma piada. Tá bem explícito que quiseram mais uma vez me criminalizar a continuar com a criação do sujeito terrorista. Tanto que a foto que colocam na matéria é uma montagem. Pegaram a minha foto na porta da delegacia e fizeram uma montagem como se eu estivesse no meio de black blocs.


Fotomontagem feita pela revista Veja sobre foto de Armando Paiva
Imagem: reprodução

A grande imprensa tentou utilizar seu nome em outros casos que se tornaram midiáticos para além dos que envolveram as Jornadas de Junho e seus desdobramentos? Se sim, quais?

A partir da Capa da Veja, tudo que acontecia no movimento eu era citada de alguma maneira. Eu fui citada no caso do estupro coletivo aqui do Rio, pelo delegado titular da DRCI, Alessandro Thies, e isso apareceu em matéria do Extra. Esse delegado falou que precisava ser investigado melhor se eu tinha influenciado a garota a dar a versão de que o que aconteceu com ela foi um estupro coletivo. Logo depois aquele colunista do O Globo, o Ancelmo Góis, colocou na coluna dele que o governo do Rio acreditava que eu estava atuando na ocupação da Seeduc. Eu nem sei onde fica a Seeduc. Eu sabia que tinha secundaristas ocupando o prédio e jamais eles permitiriam que eu ficasse lá. Não que eles não gostassem de mim ou algo parecido, mas eu não sou secundarista, não tinha que estar na Seeduc. Eu sei bem o meu espaço, sei bem onde eu tenho que me posicionar.

Para encerrar, somando pós e contras, valeu a pena? Se você estivesse em junho de 2013, você tomaria as mesmas decisões como militante?

Eu faria absolutamente igual, com erros e acertos. Se tivesse um novo 2013 agora eu iria pra rua de novo. Não faria nada diferente. É uma posição, um sentimento que eu respeito. Esse desejo de mudança. Se tivesse de novo, eu faria tudo igual. Tanto que tudo que a gente denunciou lá veio à tona, tudo, tudo. Os escândalos envolvendo Sérgio Cabral, a Odebrecht por conta das obras no Maracanã também. Tudo. Tudo.

Bruna Freire
No Ponte

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