31 de jan de 2018

Inelegibilidade de ex-presidente Lula aprofunda crise democrática


A pesquisa divulgada nesta quarta (31) pelo Datafolha é histórica. Menos por ser a primeira a retratar a opinião pública brasileira após a confirmação da sentença de Lula pelo TRF-4, mais pelo simbolismo de seus resultados. A possível inelegibilidade do ex-presidente aprofunda a crise de representação no cenário político e lança ainda mais incertezas sobre o pleito deste ano e seus desdobramentos.

Em nenhum outro levantamento de intenção de voto para presidente já feito pelo instituto em ano eleitoral observou-se uma taxa tão elevada de brasileiros com a pretensão de votar em branco ou anular o voto. É o que acontece quando se exclui o nome de Lula da disputa.

Mesmo com o petista candidato, o índice já aparece com destaque, o que isoladamente pode refletir a rejeição aos candidatos de um modo geral. Mas, ao excluir seu nome, o percentual cresce mais de dez pontos percentuais e passa a ser a resposta da maior parte dos brasileiros - alcança 32% do total dos eleitores em cenário onde Jair Bolsonaro (PSC) lidera a corrida com 20%.

O fenômeno não é novo - além de presente nas últimas eleições municipais, vinha sendo alertado pelo Datafolha em análises anteriores -, porém encontra-se em patamares nunca antes registrados em período equivalente.

Se somado à taxa de indecisos, o total dos que deixam de escolher um candidato chega a 36% nesse mesmo cenário. A maior taxa de brancos e nulos em pesquisas de primeiro turno para presidente da República foi de 19% em fevereiro de 2014, pós manifestações de 2013, pré-reeleição de Dilma Rousseff, sem Marina Silva como candidata e com Eduardo Campos (PSB) ainda desconhecido pela maioria do eleitorado.

É claro que a pesquisa não permite projeções, especialmente em ambiente tão nebuloso e inédito. É sempre um instantâneo do momento. Em 2014, por exemplo, com a morte de Campos, entrada de Marina e a clivagem social no debate entre Dilma e Aécio (PSDB), o resultado oficial de brancos e nulos não chegou nos dois dígitos.

No entanto, o maior índice de "sem candidato" já registrado nas urnas em primeiro turno das presidenciais foi na reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998, onde alcançou 19%. Para isso contribuiu a existência ainda das cédulas de papel que favoreciam a prática da anulação consciente, então mais frequente do que os erros.

Estudos feitos pelo Datafolha na época, comprovados em eleições posteriores, indicaram que a introdução da urna eletrônica intimidou a prática do tradicional voto nulo de protesto - agora mais concentrada nos votos brancos com tecla própria na urna - e passou a prejudicar a concretização do voto de pequena parte dos menos escolarizados e de menor renda, que revelam mais dificuldade em digitar corretamente na máquina suas intenções para os diversos cargos.

A pesquisa de hoje mostra que esse é justamente o perfil de quem mais intenciona votar em branco e nulo quando Lula não está na disputa. Entre os que têm renda de até dois salários mínimos e o nível fundamental de escolaridade, essa taxa dobra. Entre os habitantes do Nordeste, quase triplica. Entre as mulheres, o crescimento também é expressivo. A depender do poder de convencimento dos candidatos frente a eleitores tão refratários torna-se provável um número recorde de não votos em outubro.

O desconhecimento dos outros candidatos não é o principal motivo para esse comportamento. Tomando-se como referência o cenário mais completo sem a inclusão do ex-presidente, os votos brancos e nulos também crescem dez pontos percentuais mesmo com a presença de figuras de alto recall na população, como os sempre pré-candidatos Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e o apresentador de TV Luciano Huck (sem partido).

Focalizando-se apenas a migração de eleitores de Lula nessa situação, a maior parcela - 31% deles - vai para brancos e nulos, 15% passam a votar em Marina Silva, 14% em Ciro Gomes, 8% em Luciano Huck, 7% em Jair Bolsonaro e 6% em Geraldo Alckmin.

A crise democrática fica ainda mais evidente nas simulações de segundo turno. Em duas dentre três hipóteses testadas sem Lula, brancos e nulos disputam a liderança com os dois candidatos finalistas, dentro da margem de erro da pesquisa. Nesses cenários, se a eleição fosse agora, o Brasil poderia eleger um presidente rejeitado por quase 70% da população.

Improvável? Dilma foi reeleita com a maioria dos votos válidos, mas não do total de votos, no segundo turno de 2014. Collor em 1989 também. Ambos não chegaram ao fim de seus mandatos.

Mauro Paulino, diretor-geral do Datafalha
No fAlha

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