10 de jan de 2018

Glaucos insiste numa "verdade" que não pode ser totalmente comprovada


É preciso fazer uma leitura mais crítica da notícia divulgada pelo Estadão nesta terça (9), sob o título "Glaucos quer imagens de compadre de Lula no hospital."

Diz a reportagem que a defesa de Glaucos da Costamarques enviou um ofício a Sergio Moro insistindo em uma diligência já negada pelo juiz de Curitiba: solicitar ao Sírio Libanês as imagens de segurança, numa tentativa desesperada de provar que o dono do imóvel alugado por Lula está dizendo a "verdade".

A "verdade" que Glaucos quer provar com as imagens é que Roberto Teixeira, advogado e compadre de Lula, esteve no hospital, em meados de 2015, supostamente para tratar do pagamento do aluguel de um apartamento vizinho ao do ex-presidente, em São Bernardo do Campo.

Glaucos afirma que não recebeu os valores referentes ao aluguel entre 2011 e 2015. No mês em que seu primo José Carlos Bumlai foi preso na Lava Jato, Teixeira teria procurado Glaucos para falar do início do pagamento.

Contra a tese do não-pagamento existem declarações anuais à Receita Federal, descobertas pela Lava Jato, que Glaucos tratou de afirmar no primeiro encontro com Moro que eram forjadas.

A defesa de Lula, então, apresentou outra contra-prova: os recibos. Em uma segunda audiência com Moro, Glaucos reconheceu que assinou um a um, mas disse era parte do plano para dar aparência de regularidade aos pagamentos.

Certo é que desde que a ação penal virou uma novela sobre o pagamento do aluguel, escanteando o verdadeiro objeto da ação - provar que Lula foi favorecido pela Odebrecht por causa de 8 contratos da empreiteira com a Petrobras -, Glaucos tem rebolado para explicar as inúmeras provas que contradizem a acusação.

Em meio à crise na narrativa, a defesa do co-réu resolveu se apegar às imagens do Sírio Libanês.

"O que busca o réu com a diligência é esgotar os meios de que dispõe para provar que ROBERTO TEIXEIRA o visitou no hospital e com ele tratou do início do pagamento dos alugueres do imóvel de São Bernardo", diz o documento enviado a Moro.

"O fato de não haver apontamentos de ROBERTO TEIXERA nos registros de entrada do hospital, não quer dizer que ele não tenha entrado no hospital. Aliás, nem mesmo o hospital chega a afirmar que ROBERTO TEIXEIRA lá não adentrou. O que o hospital afirmou foi apenas a inexistência de registro de visitas em nome de ROBERTO TEIXEIRA em seus controles de portaria, nada além."

"Isto é em tudo muito diferente de afirmar que ROBERTO TEIXEIRA não esteve lá, até porque, estaria o hospital mentindo e sabe dos riscos jurídicos de uma falsidade neste particular."

(...) 

"O acusado está certo de que tais vídeos existem, pois é de interesse do hospital preservá-los para o fim de minorar riscos de responsabilização civil da entidade no trato dos pacientes por médicos, enfermeiros, funcionários e visitantes. Isto é da praxe de instituições como aquela."

Para a defesa, é importante provar que Roberto Teixeira esteve no hospital. Por isso, a insistência em obter as imagens.

Mas usando a mesma lógica empregada no "[não ter registro] é muito diferente de afirmar que Roberto Teixeira não esteve lá", também não é possível afirmar que eventuais imagens de câmera de segurança vão atestar que o compadre de Lula e Glaucos conversaram sobre aluguéis não pagos.

As imagens de câmera nunca vão esclarecer esta questão. Moro sabe disso, tanto que deu importância mínima na primeira vez em que elas foram solicitadas.

O mais provável é que as gravações , se existirem, sejam repassadas à imprensa para que os noticiários tentem, de alguma forma, dar credibilidade às falas de Glaucos contra Lula. Jogando para debaixo do tapete todas as lacunas e controvérsias que se acumulam neste processo.

Cíntia Alves
No GGN

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