27 de jan de 2018

Escracho nas lojas Havan revida afronta de proprietário contra Lula

Manifestantes realizaram ontem, no início da noite, um protesto em frente à loja da Havan em Florianópolis, contra o proprietário Luciano Hang, que soltou um foguetório em Brusque para comemorar a condenação de Lula. Hang já foi condenado por sonegação e lavagem de dinheiro, mas a sentença prescreveu em sigilo
Sustentando um cartaz com os dizeres "Havan sonega impostos. Moralista sem moral", defensores de Lula protestaram em frente à loja contra foguetório que comemorou sua condenação

No dia seguinte à condenação de Lula, o empresário Luciano Hang, dono da rede nacional de lojas de departamento Havan, que já foi condenado por sonegação e lavagem de dinheiro, divulgou nas redes sociais um vídeo exibindo o foguetório com o qual comemorava a decisão do Tribunal. Decidido a defender seu candidato a presidente, um grupo de apoiadores de Lula realizou ontem, no início da noite, um protesto em frente à loja da Havan em Florianópolis, localizada no bairro Capoeiras. Tudo não passaria de um escracho pacífico e bem humorado de 20 cidadãos indignados de meia idade, com dois cachorros e uma faixa remendada, se a Polícia Militar de Santa Catarina não tivesse, além de intimidado, ameaçado de prender e algemar os manifestantes, forçado-os a abrir Boletim de Ocorrência contra eles mesmos em frente à loja que ostenta a bizarra réplica da Estátua da Liberdade.



O protesto iniciou por volta das 18 horas, quando uma parte do grupo, formado em sua maioria por professores e profissionais liberais, promoveu uma performance teatral dentro das Lojas Havan. Depois de encherem três carrinhos de compras, algumas manifestantes se dirigiram ao caixa. Antes de computar as compras e efetuar o pagamento, uma delas, Margareth Sandrini, professora aposentada e voluntária social, foi “surpreendida” pela amiga Hilma Santos, que a advertiu: “Margarete, quando me contaram que estavas aqui, eu não acreditei. Tu, numa loja de sonegador de impostos? Nunca esperava isso de você!”. Simulando estarrecimento, as três mulheres abandonaram as compras no interior da loja, sob o anúncio de que nunca mais consumiriam na Havan e se juntaram aos demais do lado de fora. Até por volta de 19 horas, os manifestantes sustentaram uma faixa voltada para o lado da via expressa, “meio esfarrapada”, segundo eles mesmos, com os dizeres: “Havan não paga impostos. Sonegar impostos é crime. Moralista sem moral!”.

O EMPRESÁRIO DE R$ 5 BI DE FATURAMENTO X O PRESIDENTE DE 58 MILHÕES DE VOTOS

Na saída do estacionamento, três policiais militares, tendo a frente o capitão Thyago, do 22º Batalhão da Polícia Militar de SC, abordaram os manifestantes Carlos Alberto Fiorenzano da Silveira, e Valdnei Gomes da Cruz. Segundo ambos, eles foram impedidos de sair do local durante pelo menos uma hora, quando foram obrigados a abrir e a assinar um Boletim de Ocorrência contra eles mesmos, sob ameaça de serem presos, algemados e ter o veículo interditado. “Eles começaram numa espécie de constrangimento elegante, solicitando documentos e pedindo que abríssemos o B.O. antes de sairmos. Depois partiram para as intimidações, revistaram o carro, abriram o bagageiro”, conta Carlos, 59 anos, terapeuta aposentado, mestre em Reiki e morador de Águas Mornas.

Caravana do Lula por Minas Gerais. Foto: Ricardo Stuckert
Manifestações de apoio ao ex-presidente por todo o país
Foto: Ricardo Stuckert

Valdnei, 36 anos, professor e voluntário do Curso de Pré-vestibular gratuito do PT em Florianópolis, foi ameaçado de ser algemado e levado para a delegacia e de ter o veículo apreendido, segundo confirma o companheiro. “Ficamos perplexos e sem ação. Estávamos apenas manifestando, fora da loja, nosso repúdio contra a hipocrisia deste país onde um cidadão condenado por sonegação de impostos, com intenções de se lançar a governador, promove uma ofensa pública contra o ex-presidente, chamando-o de corrupto e de outras coisas”, indigna-se Valdnei, que foi fotografado e teve os documentos apreendidos. No Boletim de Ocorrência que os dois ativistas se disseram coagidos a abrir contra eles mesmos, ambos foram acusados de “Desordem, com Paralisação/Manifestação de greve de trabalhadores (A apurar)”.

Boletim de Ocorrência que os policiais fizeram os manifestantes 
abrirem contra eles mesmos por “Desordem/Paralisação/Manifestação 
grevista de trabalhadores”

Enquanto Carlos e Valdnei eram abordados, três outras manifestantes conseguiram se livrar da abordagem policial para procurar ajuda. Marileia Gomes, servidora da área de saúde, procurou Luzia Cabreira, da Rede Nacional de Adovogados e Adovogadas Populares, segundo quem nenhuma das acusações constituiria crime e que o direito à manifestação era legítimo.

A advogada popular Rosângela de Souza também se dirigiu ao local e orientou-os a abrir um Boletim de Ocorrência por abuso de poder.”Estranho a inversão de valores neste país, onde agentes policiais pagas com dinheiro público, servem como guardas particulares de empresas privadas”, comenta a jurista. “Eles estavam preocupados apenas em cumprir o desejo de vingança da direção da Havan, sem sequer ouvir o nosso depoimento sobre como as coisas haviam ocorrido”, afirma Carlos.

Mesmo sem apoio de entidades ou de partidos, a professora aposentada da Secretaria de Estado da Educação, Margarete Sandrini, afirma que o grupo decidiu fazer espontaneamente o protesto porque não suportou ver seu candidato a presidente escrachado em público por um empresário que, “além de ter sido condenado por sonegação e lavagem de dinheiro, defende uma política entreguista, expressa no culto aos símbolos dos Estados Unidos, país que está roubando as nossas riquezas”. Construídas no formato da Casa Branca, as cem lojas da Havan espalhadas pelo país ostentam na sua entrada réplicas da Estátua da Liberdade com 57 metros de altura, 10 a mais do que a original nos Estados Unidos.

Logo após o julgamento de Lula, no dia 24, o empresário já havia gravado um vídeo convidando a população para uma grande queima de fogos às 13 horas do dia seguinte, num terreno de sua propriedade, em Brusque, no Vale do Itajaí (SC). No vídeo, ele anuncia que o foguetório duraria 13 minutos, em alusão ao número eleitoral do PT, para comemorar a condenação de Lula e a libertação “do maior mentiroso que este país já teve”. Crítico feroz dos programas de inclusão social, acusou Lula de promover uma “política populista e assistencialista”, e de transformar o país numa “experiência fracassada como em outros países comunistas”. Convidado por Bolsonaro a ser vice na sua chapa a presidente da República, Luciano Hang tem aparecido com frequência em colunas políticas sociais na mídia local e nacional atacando fortemente as esquerdas brasileiras por corrupção e populismo. Já manifestou publicamente sua intenção de se candidatar, ora como governador de Santa Catarina, ora como senador, ora como vice de Bolsonaro, sem até agora declarar sua decisão. http://www.oblumenauense.com.br/site/luciano-hang-diz-em-nota-a-condenacao-de-lula-e-a-liberdade-do-brasil/.

Montagem do Diário do Centro do Mundo

Em sentença da Vara Federal Criminal de Florianópolis, no ano de 2008, a Justiça Federal condenou o empresário Luciano Hang, a 13 anos, nove meses e 12 dias de reclusão, além do pagamento de uma multa de R$ 1,245 milhão por crimes contra o sistema financeiro nacional, como falsificação e lavagem de dinheiro http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2008/03/dono-da-havan-recorre-de-condenacao-e-aguarda-julgamento-do-stj-1795294.html. O empresário apelou em liberdade ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre e, num desdobramento obscuro, a pena acabou prescrevendo https://exame.abril.com.br/revista-exame/a-estatua-a-loja-e-os-bilhoes/. De acordo com a denúncia do MPF, o empresário teria mantido depósitos no exterior sem declaração aos órgãos de fiscalização nacionais. Os depósitos teriam sido feitos em nome de empresas que, segundo a Receita Federal, pertenceriam à Havan, além de outros em nome próprio.

Em outro processo, Hang foi condenado a prisão e a pagar uma multa por não recolher a contribuição previdenciária de funcionários. Ele arcou com a taxa e a prestação de serviços comunitários. O empresário sofreu a execução fiscal de sua dívida ativa em 3 de agosto de 2016, pelo juiz de Direito da Vara de Execução Fiscais do Estado, Elemar Leopoldo Schloesser, da Comarca de Brusque do Tribunal da Justiça de Santa Catarina. Ver processo em: https://www.jusbrasil.com.br/diarios/documentos/369436078/andamento-do-processo-n-0900231-6720168240011-execucao-fiscal-divida-ativa-03-08-2016-do-tjsc?ref=topic_feed.

Com faturamento de R$ 4 bilhões, Luciano Rang pretende chegar a 200 réplicas da Casa Branca em cinco anos e aumentar seu patrimônio para R$ 5 bilhões já em 2017, segundo a revista Exame (Foto)

No segundo semestre de 2017, Luciano Hang já havia assumido seus princípios políticos ditatoriais ao gravar vídeo de apoio ao general Mourão pelas declarações em defesa de uma intervenção militar valendo-se do jargão ordem e progresso sustentado pelo Golpe de 64. A identidade do proprietário das lojas Havan, que lhe conferem um faturamento de R$ 4 bilhões, sempre foi mantida em sigilo, assim como os seus processos criminais. Até que o próprio adorador do império estadunidense saiu em campanha publicitária na grande mídia para se declarar o verdadeiro dono do patrimônio quando, nas vésperas do Golpe de 2016, os “caçadores de petralha” espalharam, entre uma rede de boatos, que o dono das lojas Havan era o filho de Lula. Entre sonegar a propriedade e ver seu império acusado de petista, o hóspede da Casa Branca preferiu sair da moita.

Raquel Wandelli
No Jornalistas Livres

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