10 de jan de 2018

Escolhas na era do terror

"É preciso mobilizar o maior e mais amplo público internacional possível a fim de criminalizar diretamente qualquer falatório sobre o uso de dispositivos nucleares e outras armas de destruição em massa. Líderes e Estados que sequer considerem isso devem ser tratados como párias, como monstros obscenos sub-humanos."


Desde sua estreia em Berlin em 2015, a peça Terror, de Ferdinand von Schirach vem se tornando o mais novo hit global, com centenas de montagens em todo o mundo e provocando uma interminável enxurrada de debates éticos na mídia de massas. Trata-se de um drama jurídico que narra o julgamento contra um piloto de caça alemão que derrubou um avião da Lufthansa que havia sido sequestrado por um terrorista. O avião se deslocava rumo a um estádio lotado com 70.000 pessoas (que assistiam a uma partida entre Alemanha e Inglaterra) e a decisão pragmática do piloto de caça, Lars Koch, foi a de quebrar a lei constitucional e terminar com a vida das 164 pessoas a bordo do avião sequestrado, a fim de evitar que o terrorista matasse um número muito maior de pessoas se tivesse chegado ao estádio. No final da peça, a plateia deve votar: culpado ou inocente? Cada espectador recebe um pequeno apetrecho com dois botões – 1 (culpado) ou 2 (inocente) – e os espectadores proferem seu veredito… Como era de se esperar, a maioria (ao menos nos teatros ocidentais) proclama a inocência de Koch.

Estamos sem dúvida diante de uma autentica antinomia da razão moral aqui (para usar um termo kantiano): se formularmos o dilema dessa maneira clara, simplesmente não há solução desprovida de ambiguidade. Qualquer manejo de certezas e porcentagens – do tipo “se eu tiver certeza absoluta de que ao matar uma pessoa, salvarei a vida de ao menos cinquenta pessoas, então…” – equivale a uma obscenidade. No entanto, é plenamente justificada a nossa desconfiança de que há algo profundamente errado e falso na escolha encenada pela peça. Esse tipo de escolha é ideologia em seu estado mais puro! (Principalmente por conta daquilo que sua formulação deixa de fora a fim de apresentar uma imagem clara e simples do problema). Basicamente, somos abordados enquanto indivíduos postos diante de uma dura escolha, cuja própria formulação clara e simples (derrubar ou não o avião?) ofusca todas as outras questões absolutamente relevantes para compreender a situação em jogo. Que tal tentar esvaziar o estádio (havia tempo)? E as causas geopolíticas de tais atos terroristas? E as nossas intervenções militares nos países árabes? E a nossa aliança com a Arábia Saudita? Esses outros fatores por acaso foram sujeitos ao nosso poder de escolha? Foi nos oferecida a escolha sobre qualquer um deles? Por que é que sentimos toda a pressão da escolha somente quando confrontamos uma consequência de todas essas outras escolhas anteriores?

Mas há outra característica, mais fundamental, presente na peça que devemos abordar. À medida que nos aprofundamos nos detalhes do caso, fica cada vez mais claro que, quando Koch opta por derrubar o avião, ele não chega a fazer uma decisão propriamente existencial e singular – ele simplesmente segue a injunção social implícita. O teor das conversas que ele teve com seus superiores militares deixa claro que todos eles esperavam que ele efetivamente derrubasse o avião. Mais do que isso, eles inclusive implicitamente o pressionaram para tanto, só evitaram de emitir uma ordem direta nesse sentido.

A situação me lembra de minha recente estadia em um hotel na Escópia, capital da Macedônia. Minha companheira perguntou se era permitido fumar em nosso quarto, e a resposta que o recepcionista lhe deu foi singular: “É claro que não, é proibido por lei. Mas há cinzeiros nos quartos, então não há problema”. E essa não foi a última de nossas surpresas. Quando entramos no quarto, reparamos que no fundo do cinzeiro de vidro posto sobre a mesa havia uma imagem gravada: o ícone de um cigarro no interior de um círculo vermelho atravessado por uma faixa diagonal indicando a proibição… Então não se tratava da dinâmica mais comum que geralmente encontramos em hotéis tolerantes, em que o gerente sussurra discretamente que, embora seja oficialmente proibido, se quiser, você pode acender um cigarro cuidadosamente na janela de trás, ou algo assim. A contradição (entre a proibição e a permissão) era abertamente assumida e portanto anulada, tratada como inexistente. Isto é, a mensagem era efetivamente algo como: “É proibido e aqui está o cinzeiro.” Não poderíamos dizer que a situação de Koch não é exatamente a mesma? A mensagem reiterada por seus superiores era: “É proibido pela lei… faça!”

É assim que a instituição militar opera. Lembro de um caso semelhante da época em que servi ao exército. Certa manhã, a primeira atividade era uma aula sobre lei militar internacional, e, entre outros regulamentos, o oficial mencionou que era proibido atirar em paraquedistas enquanto estes ainda estiverem no ar (isto é, antes dele efetivamente pousarem). Por uma feliz coincidência, nossa atividade seguinte foi uma demonstração sobre como atirar um rifle, e o mesmo oficial nos ensinou a mirar um paraquedista no ar (como, ao mirá-lo, deve-se levar em conta a velocidade de sua descida, junto com a direção e a força do vento etc.). Quando um dos recrutas indagou a contradição entre esta instrução e a anterior, o oficial simplesmente rebateu com uma risada cínica: “Você é burro? Não entende como funciona a vida?” Lembremos também dos debates sobre tortura – a posição das autoridades estadunidenses não era algo do tipo: “A tortura é proibida, e é assim que se faz um afogamento simulado”?

Deve-se notar aqui que, no caso da guerra nuclear, o imaginário popular é assombrado pela constelação oposta. Aqui a esperança está no único oficial que resiste ao comando de apertar o botão e, assim, salva o mundo. Lembremos do assombroso detalhe da crise dos mísseis cubanos: foi só depois que nos demos conta do quão perto chegamos de uma guerra nuclear durante uma escaramuça naval entre um destróier estadunidense e um submarino soviético B-59 ao largo de Cuba no dia 27 de outubro de 1962. O destróier soltou bombas de profundidade perto do submarino para tentar forçá-lo a emergir, sem saber que ele portava um torpedo nuclear. Na conferência de 2002 em Havana, Vadim Orlov, um membro da tripulação do submarino relatou que o submarino estava autorizado a dispará-lo desde que três oficiais estivessem de acordo. Os oficiais embarcaram em uma discussão ferrenha, aos berros, sobre se deveriam ou não afundar o navio. Dois deles disseram que sim, o outro disse que não. “Um sujeito chamado Arkhipov salvou o mundo” – este foi o comentário amargo de um historiador sobre esse incidente.* Não podemos dizer que todos nós contamos silenciosamente com algo parecido na acalorada troca de ameaças entre os Estados Unidos, a Coréia do Norte e outros? Isto é, de que, em um momento decisivo, um único indivíduo irá encontrar as forças para cortar o círculo maluco de ameaças e contra ameaças nucleares?

O fato de que tendemos, mais uma vez, a depositar nossas esperanças em um único indivíduo por si só já demonstra a insanidade da situação toda. Podemos imaginar uma série de dilemas armados de maneira parecida com a da peça de von Schirach: se um míssil norte-coreano rumo a Guam rui, deveriam os Estados Unidos responder? De que forma? Etc. Mas o que devemos sempre ter em mente é a insanidade da situação toda: estamos todos ameaçados por catástrofes ecológicas, e não obstante continuamos a jogar jogos de autodestruição nuclear. As decisões que nossos líderes avaliam não são na escala de “quantas pessoas inocentes posso matar para salvar muitos mais”, e sim: “quantos muitos milhões de pessoas inocentes estou disposto a matar, direta e indiretamente, a fim de contra-atacar o inimigo? É disso que eles estão realmente falando quando evocam as consequências catastróficas de um conflito nuclear: ‘milhões e milhões de pessoas inocentes serão mortas, mas, seja como for, é preciso de ir adiante e contra-atacar…’

O que complica ainda mais esse quadro é que, se escutarmos Kim Jong-un (mas não apenas ele) quando ele fala de administrar um golpe arrebatador nos Estados Unidos, é impossível não se perguntar como afinal é que ele situa sua própria posição. Ele fala como se ele não estivesse ciente de que seu país – ele incluso – será destruído. Isto é, ele fala como se estivesse jogando um jogo fantasioso. Então, estaria ele blefando? Será que ele nem considera de fato a possibilidade um ataque nuclear? Se o axioma básico subjacente na dita Guerra Fria era o da MAD (Destruição Mútua Assegurada), o axioma dos jogos nucleares de hoje parece ser o oposto, a saber, o da NUTS (Seleção de Alvo de Utilização Nuclear), isto é, a ideia de que, por meio de um golpe cirúrgico, é possível destruir as capacidades nucleares do inimigo enquanto que o escudo antimísseis fornece proteção contra um eventual um contra-ataque. Mais precisamente, os Estados Unidos adotam uma estratégia diferencial: eles agem como se continuassem a confiar a lógica da MAD em suas relações com a Rússia e a China, enquanto que são tentados a praticar NUTS no trato com o Irã e a Coréia do Norte. O mecanismo paradoxal da MAD inverte a lógica da “profecia autorrealizável” INTO A “intenção autoembrutecedora”: o próprio fato de que cada lado pode ter certeza de que, caso decida lançar um ataque nuclear contra o outro, este responderá com força destrutiva total, garante que nenhum dos dois lados irá provocar a deflagração de uma guerra. A lógica da NUTS é, ao contrário, de que o inimigo pode ser forçado a se desarmar, se tiver certeza de que podemos atacá-lo sem corrermos o risco de um contra-ataque. O próprio fato de que duas estratégias diretamente contraditórias são mobilizadas simultaneamente pela mesma superpotência atesta o caráter fantasmático de todo esse raciocínio.

A única coisa que podemos fazer em uma situação como esta é mobilizar o maior e mais amplo público internacional possível a fim de criminalizar diretamente qualquer falatório sobre o uso de dispositivos nucleares e outras armas de destruição em massa. Líderes e Estados que sequer considerem isso devem ser tratados como párias, como monstros obscenos sub-humanos. Qualquer coisa deveria ser permitida contra eles, desde boicote em massa até humilhação pessoal.

Slavoj Žižek


Artigo enviado pelo autor diretamente ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.


Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014) e o mais recente O absoluto frágil (2015). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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