15 de jan de 2018

Delação que não serve para apurar "grande acordo nacional" é usada contra doação regular a petistas

As denúncias de Sergio Machado contra a cúpula do PMDB eram imprestáveis para a PF. Mas a que criminaliza o caixa oficial de políticos do PT deu origem a vários inquéritos da alçada de Sergio Moro


A delação do ex-presidente da Transpetro Sergio Machado, denunciando um "grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo", não serviu nem para basear uma investigação contra a cúpula do PMDB por tentativa de obstruir a Lava Jato. Mas a força-tarefa de Curitiba quer aproveitá-la para investigar suposta irregularidade na doação oficial feita por empreiteiras a políticos do PT.

Estadão reportou com destaque que a ex-ministra do governo Dilma Rousseff Ideli Salvati virou alvo de um inquérito que a Polícia Federal instaurou a pedido do Ministério Público. Isto porque Machado disse às autoridades da Lava Jato que fecharam seu acordo de delação (o mesmo que a PF disse que era imprestável para processar Romero Jucá e outros) que Ideli recebeu oficialmente R$ 500 mil da Camargo Corrêa para a eleição de 2010. 

Machado disse que o então chefe de gabinete de Ideli solicitou a colaboração para a corrida ao governo de Santa Catarina. 

"Sérgio Machado afirmou que ‘contatou uma das empresas que pagavam recursos ilícitos oriundos de contratos com a Transpetro (Camargo Corrêa) e foi viabilizado então o apoio via doação oficial’", publicou o Estadão.

Em troca, supostamente, seria discutida a construção de um estaleiro pela Transpetro no Estado. 

Procurada, a defesa de Ideli afirmou que Sergio Machado "constitui exemplo clássico de colaboração desamparada de base empírica idônea apta a sustentá-la".

Em julho de 2017, a delegada da Polícia Federal Graziela Machado da Costa e Silva desqualificou a colaboração de Machado. O relatório assinado por ela foi divulgado e ajudou o governo Temer a abafar o escândalo em torno das gravações de conversas sobre o "grande acordo".

No relatório, Graziela disse que Sergio Machado tem "caráter instigador", ou seja, induziu seus interlocutores a conversar sobre algo que poderia, mas não configurou nenhum crime. Não só a delação do ex-Transpetro, como também as gravações que ele entregou para apresentar como provas corroborativas, não tinham nenhuma validade, apontou.

No caso de Ideli, não há em nenhum das 2 reportagens do Estadão sobre o assunto, divulgadas nesta segunda (15), indícios do que Machado entregou à Lava Jato como provas do que narrou contra a ex-ministra.

Em situação semelhante está o ex-deputaod do PT Edson Santos. Ele foi acusado por Machado de receber oficialmente da Queiroz Galvão R$ 142 mil para sua campanha à Câmara, em 2014. "“Tal valor correspondia a vantagem ilícita paga pela empresa em razão de contratos firmados com a Transpetro”, relatou.

Santos rebateu afirmando que Sergio Machado mente e deveria estar preso. "Aquilo que ele falou no depoimento referente a um recurso para mim foi uma doação de uma empresa pra minha campanha, depositado no Banco do Brasil", disse. 

"(...) O Sérgio Machado era para estar preso, isso foi uma verdadeira armação. O Sérgio Machado usou meu nome e de outras pessoas para entregar para a Polícia Federal”, afirmou", acrescentou.

Além de Ideli e Santos, são investigados na primeira instância, sob a batuta de Sergio Moro, e por causa da delação de Machado, o ex-deputado Cândido Vaccarezza (ex-PT), o ex-deputado Jorge Bittar (PT) e p ex-deputado Henrique Alves (PMDB).

Alves teria recebido um total de R$ 1,5 milhão, proveniente de várias empreiteiras, entre 2008 e 2014. Estadão não detalhou o caso: divulgou, apenas, que os recursos tinham como origem "vantagens ilícitas".

Vaccarezza, por sua ver, pediu e recebeu, por meio do diretório do PT (doação oficial), R$ 500 mil da Camargo Corrêa para a campanha de 2010. Bittar também, mas o valor era inferior: R$ 200 mil, da Queiroz Galvão.

Os três não tiveram o contraponto divulgado no jornal porque as defesas não se manifestaram.

Cíntia Alves
No GGN

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