13 de jan de 2018

De mantos, fardas e togas

A humanidade sempre se utilizou de peças de vestuário para simbolizar especialidades profissionais. É até mesmo uma dignificação para quem as verga. O capelo de formatura, por exemplo, transmite imediata impressão de encimar uma mente que adquiriu conhecimentos específicos.

“O hábito não faz o monge” – como se diz. Mas impossível fugir a primeira impressão de que se esteja diante de uma pessoa que desenvolveu louváveis e úteis saberes, mesmo que apenas enfeite a cabeça de um boçal.

O fato é que se o hábito não faz o monge, diz muito da instituição que por ele é representada. Um sarjão surrado sobre pés calçados por puídas sandálias de couro, por exemplo, por mais grosseiro e miserável que aparente, sempre reportará aos mais dignos exemplos da história da Igreja Católica, evocando a lembrança de São Francisco de Assis. No entanto, nem mesmo os mais corruptos dos Papas, nem o que foi conivente com o nazi-fascismo, gostaria de seu manto papal ser comparado ao do Alexandre VI.

Se possível à Igreja, a todos seus vigários, bispos e cardeais; o nome de Rodrigo Bórgia, ou Roderico de Borja como na Espanha foi registrado o Papa Alexandre VI, seria apagado da História. A própria Espanha muito desejou que isso ocorresse, mas a História é inexorável e assim como não olvida o manto de um Francisco de Assis, também não perdoa as mais brilhantes coroas como a que por 11 anos ostentou aquele que foi apontado como o antipapa e até mesmo o anticristo.

Foi o ducentésimo décimo quarto Papa da Igreja Católica, mas 5 séculos depois o ditador Francisco Franco mandou executar um jornalista espanhol que o comparou ao corrupto e sanguinário patrício do século XV que praticava sexo com a própria filha, a infeliz e igualmente terrível Lucrécia Bórgia.

E qual o político ou militar espanhol ou de qualquer parte do mundo que se sentiria lisonjeado se comparado ao tirano Francisco Franco? Outro militar e tirano, Augusto Pinochet, admirava o generalíssimo espanhol, mas qual instituição militar do mundo civilizado de hoje aceitaria ser exemplificada por tão indigna memória?

No Brasil ainda há boçais que enaltecem torturadores do tempo da ditadura, mas se raros entre os militares brasileiros, qual militar de qualquer parte do mundo haverá de querer que sua farda seja confundida com as dos generais Iwane Matsui e Hisao Tani, os “açougueiros de Nanquim” ou a do comandante da SS, Heinrich Himmler?

Costuma-se acreditar que a História absolva os vencedores, mas isso não é verdade. Incógnitos para quem desconhece a crueldade militar dos modernos impérios, há nomes de vencedores que envergonham até mesmo os civis de suas pátrias, como ocorre com estadunidenses e britânicos que execram a memória do marechal do ar Sir Arthur Harris e do general da Força Área Americana Curtis LeMay, por campanhas em territórios exclusivamente civis da Alemanha e do Japão. O próprio Curtis LaMay reconheceu após a II Gerra: “Suponho que se tivéssemos perdido, eu seria julgado como um criminoso de guerra”.

Doa ou não doa à própria consciência, a maior vítima dos crimes contra os códigos éticos que definem o exercício de cada função social, sempre é a instituição representada pela simbologia do vestuário.

De estudante de direito a Ministro de Suprema Corte, ao se espelhar em sua beca todo integrante das tantas instâncias e instituições do sistema jurídico, quer se enxergar um Rui Barbosa. E nenhum, por mais cínico, consegue esconder uma sensação de mal estar ao lembrar que algum dia alguém aventou impossível literatura que permita condenações sem provas. Afinal, se isso fosse verdade não haveria sentido algum em se estudar direito ou sequer na existência de alguma função ou literatura judiciária!

E se faltar com a verdade em suas funções é mancha indelével para a história de qualquer instituição, que se poderá dizer daquelas cujas funções e ferramentas de trabalho são intrinsicamente fundamentadas na Verdade?

Daí que apesar da Ministra da Justiça da Alemanha já nos haver qualificado como “país de outro mundo”, até o próximo dia 24 no Brasil e no mundo inteiro se pergunta o que será de nossas togas?

Ainda que negras, entrarão para a História imaculadas como o jaleco de um Adib Jatene? Ou serão tão enxovalhadas quanto o do Roger Abdelmassih?

Tiranos e servis podem atravancar nossos sonhos.
Mas nada podem contra nosso desejo.
DESEJE!

Raul Longo

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