5 de jan de 2018

Bretas é diferente de Moro, mas não muito


Na entrevista a Miriam Leitão, o juiz Marcelo Bretas disse algo que merece destaque: Ele afirmou que o veto do ministro Gilmar Mendes à condução coercitiva não atrapalha em nada o andamento das investigações criminais. O intimado, se for acusado, não é obrigado a falar e, por isso, para que a condução coercitiva?

Ele não disse, mas esse instrumento foi banalizado pelo juiz Sergio Moro, como um forma de impor por antecipação pena a quem o próprio magistrado trata como culpado. Foi o caso do ex-presidente Lula, na condução coercitiva realizada em março de 2016.

Bretas disse que já não vinha usando esse instrumento antes mesmo da decisão de Gilmar Mendes, há cerca de duas semanas. “Eu tenho feito intimação para a pessoa comparecer no mesmo dia, mas não condução coercitiva”, afirmou.

Bretas é um magistrado que tem aparecido na mídia além do que se recomenda a um magistrado, aceita homenagens e já deu declarações desastrosas, como dizer que existe uma cruzada contra a corrupção.

Também foi longe demais no exercício do poder ao determinar a transferência de Sergio Cabral apenas porque ele fez um comentário sobre informação que já tinha circulado em jornais — a de que sua família tem comércio de bijuterias finas.

Mas há uma diferença entre ele e Moro que precisa ser ressaltada: Moro e sua equipe agem com ódio aparente, perseguem inimigos de um campo ideológico específico, mostram que têm adversários, são seletivos nas decisões, agem, enfim, como políticos, ativistas de direita.

Bretas é mais juiz e menos político — isso não quer dizer que não exagere –, mas parece ser, tecnicamente, mais preparado.

Moro tem, claramente, um lado, uma militância, o que pode ser percebido facilmente pelas manifestações e atuação de sua mulher, seus amigos e subordinados.

Na Lava Jato, comportando-se como um vingador, Moro forçou sua permanência à frente de processos, o que significa a corrosão da credibilidade da Justiça, que deve ser imparcial. Ninguém o parou, a rigor devido ao apoio que recebia da mídia — principalmente Globo –, interessada em dividendos eleitorais no jornalismo de guerra contra o PT.

O que não se pode perder de vista é que tanto Moro quanto Bretas usam e se deixam usar pela mídia, na produção de resultados específicos.

Bretas teve a imagem gravada de sua viagem à Itália, no final ano, onde se encontrou com o papa Francisco. Tudo perfeitamente registrado por uma equipe da TV Globo.

Quem avisou à emissora que Bretas estaria lá? Ou a equipe da TV estaria, por acaso, no Vaticano e visto o juiz brasileiro com a mulher caminhando por ali?

Claro que foi uma armação, que ajuda na construção de uma imagem positiva do magistrado.

Ele é evangélico e tinha se exposto demais com declarações que revelavam traços de um perigoso fundamentalismo religioso.

O Brasil ainda é um país de maioria católica e mostrá-lo cumprimentando o papa é um recurso para torná-lo mais popular.

Quem teve a ideia do encontro com o papa?

Bretas disse que foi iniciativa dele, que admira o papa e reconhece nele uma autoridade moral dos nossos tempos. Fez a solicitação pelos canais oficiais e esteve lá, aproveitando a viagem que faria à Itália e à Espanha.

Ok.

Mas quem avisou a Globo que ele estaria lá? Ou foi a Globo que o mandou para lá?

O importante é constatar que, no encontro, que durou poucos segundos, Bretas fala, o papa mexe a cabeça e diz, ao final, algumas poucas palavras. Segundo Bretas, foi para agradecer pelo elogio que fez ao papa por declarações positivas quanto ao combate à corrupção.

“Fui agradecer e pedir que continue nessa linha”, contou.

“Que bom que estou sendo últil”, teria dito o papa ao juiz.

O papa é pop, Bretas é juiz, mas parecer querer ser pop — nesse ponto, ele e Moro são idênticos.

Se esse for o plano, Bretas está no caminho certo.

Depois de aconselhar o papa para que continue a dar declarações sobre o combate à corrupção, o juiz foi orar com Miriam Leitão.

Joaquim de Carvalho
No DCM

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