7 de jan de 2018

A pós-verdade e o fascismo: uma ameaça antidemocrática

Kim Kataguiri e Fernando Holiday, integrantes do MBL
Recentemente foi compartilhada por milhares de pessoas nas redes sociais a informação de que o cantor Pabllo Vitar seria beneficiado pela Lei Rouanet em cerca de R$ 5 milhões de reais para uma produção musical. A notícia trazia o fato paralelo de que o Hospital de Câncer teria sido fechado por ausência de verba, fato este que trouxe imediata indignação coletiva de muitas pessoas que, antes da informação, possuíam algum tipo de preconceito com o cantor e com a representatividade LGBT no meio cultural.

Surpresa!  A informação era falsa e compõe um dos diversos casos de notícias incorretas espalhadas virtualmente ao longo de 2017.

“Governo de Goiás está distribuindo bonecas com órgão sexual trocado” “Maria do Rosário e Jean Wyllys se uniram para defender pedófilos”. Estes e tantos outros exemplos vêm ocorrendo assiduamente nas redes sociais brasileiras. O fenômeno, porém, é mundial. Desde as eleições americanas em 2016, o termo “Pós-verdade” vem sendo citado em estudos, artigos, debates intelectuais e até entrou para o dicionário Oxford.

Tal fato se deu, principalmente, após o uso massivo de informações falsas e difamatórias utilizadas no Brexit britânico e na campanha eleitoral dos Estados Unidos de 2016 que culminou com a vitória do inescrupuloso Donald Trump. Todavia faz-se necessário aprofundarmos nas raízes desse fenômeno coletivo de ampla disseminação de informações espúrias e que possui indubitável uso político.

O termo pós-verdade foi utilizado pela primeira vez em meados dos anos 1990 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e referia-se a supressão da verdade dos fatos. Segundo o dicionário Oxford o termo se relaciona com as circunstâncias onde fatos objetivos possuem menor importância e influência em moldar a opinião pública do que os apelos emocionais e crenças morais na maneira com que se transmitem as informações. Há, evidentemente, uma apatia em relação à verdade.
As notícias falsas e a desinformação são espalhadas virtualmente em um ritmo e nível global assustador e correlacionam-se a um dos efeitos da globalização.
A evolução da globalização caminhou junto com a evolução tecnológica e, desde os anos 1990, do crescimento da influência da Internet. Nesse contexto o surgimento das redes deu lugar a um espaço virtual de interação e propagação de informações. Alguns autores, como Levy[2], que esquadrinham o ciberespaço em análises sociológicas e filosóficas veem a mudança da esfera pública pela influência das redes sociais como  positiva uma vez que fornece aos cidadãos maior capacidade de expressão,  aquisição de informações e associação. Segundo Levy isso colaboraria para aumentar a capacidade cívica do povo de pressionar governos e obtendo assim maior transparência e diálogo democrático. 

Grandes nomes como o filósofo alemão Jürgen Habermas[3] observam nas redes sociais da Internet um perfil potencializador de participação política mais efetiva que combina colaboração, interação, mediação, acessibilidade a informações e mobilização. Outros como Luhmann[4], discordam. Para Luhmann, em sua teoria da comunicação, há a ideia de que os meios de comunicação modernos não contribuem para melhoria da participação política ou interação e sim colaboram para a produção contínua do que chamou de “irritações”.

Nesse sentido o avanço das redes sociais teria representado uma certa ruptura paradigmática entre a emissão e a recepção das mensagens. O emissor, a origem e validade da informação perderam importância dando lugar ao teor emocional e moral. Fato este verificado diuturnamente na divulgação de notícias difamatórias e espúrias  feitos no Brasil por grupos como MBL, alguns youtubers e think tanks de extrema-direita e que trabalham em regime de cooperação para desqualificação das esquerdas no geral. 

Esse fundamentalismo comunicacional nas redes sociais criou uma espécie de histeria coletiva, quando o falso exercício de direitos fundamentais como liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o direito de livre associação dão lugar à proliferação dos discursos de ódio, segregacionismo, racismo, machismo,  misoginia, anti-sindicalismo, anti-socialismo. Os indivíduos que compartilham as informações sem verificar a originalidade do conteúdo, contribuem para ganho de força eleitoral dos grupos políticos que fazem oposição a qualquer grupo ou político progressista.
O compartilhamento desenfreado de notícias falsas acarreta na estruturação de um fenômeno político já conhecido no passado: o fascismo.
Não mais aquele fascismo dos tempos de Mussolini e Hitler, grandes expoentes do ultraconservadorismo e extrema-direita (em frustrantes tempos em que se fala que o nazismo é de esquerda), mas um fascismo cultural virtual, tecnocrático. Não é mais apenas a mídia tradicional que serve o fascismo com sua parcialidade como a demonstrada pelo saudoso crítico do fascismo Umberto Eco[5] em seu último romance Número Zero, onde um grupo de jornalistas preparam um jornal que não tem interesse informativo mas apenas em difamar e chantagear a serviço de seu editor, mas também a própria população através das redes e da falta de consciência ao reverberar fatos falsos. Porém, nitidamente existe um uso político por trás.

Assim como o Ministério da Verdade na obra de Orwell[6], as informações desleais propaladas nas redes sociais servem a grupos reacionários para amplificar e legitimar o ódio. Assim como nos Estados Unidos, segundo Chomsky[7] os governos fazem uso da mídia para angariar apoio da população e assim  legitimar entrada nos confrontos militares.
A soma dos elementos pós-verdade e internet está a serviço da direita política.
A mesma direita que incansavelmente acusa inconcebivelmente os direitos e liberdades defendidos por progressistas e humanistas de “politicamente correto” e fruto do marxismo cultural da hegemonia gramsciana, possui agora uma produção constante e articulada de um possível “fascismo cultural” que utiliza das redes para legitimar poder político e enfraquecer as esquerdas e, acima disso, prejudicar a democracia, o pluralismo político e a cidadania.

Portanto faz-se necessário repensar a falta de consciência das redes e a instrumentalização das mesmas para fins político-partidários através da disseminação de difamações coletivas quase que instantâneas. Bauman[8] já apontava para tal perigo das redes de inibirem o medo dos chamados “caçadores” da sociedade de partirem para o ataque raivoso sobre os indivíduos a quem nutrem ódio. O império das mentiras e manipulação das massas não pode voltar a vigorar.

Concluímos com uma famigerada frase tão concernente e atual que relaciona-se com o fenômenos das fake news e seu uso político, proferida pelo pai da propaganda nazista:
Uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade – Joseph Goebbels
Ian Martin Vargas é graduando em Direito pelo Centro Universitário Dinâmica Cataratas. Ativista sindical e dos direitos humanos.
No Justificando

[2] LÉVY, P. A mutação inacabada da esfera pública. In: LEMOS, A.;LÉVY, P. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. São Paulo: Paulus, 2010.

[3] HABERMAS, J. Mudança estrutural na esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003

[4] LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. tradução de Ana Cristina Arantes Nasser – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

[5] ECO, Umberto. Número Zero. 1. ed. Record, 2015.

[6] ORWELL, George. 1984. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.

[7] CHOMSKY, Noam. Mídia. Propaganda política e manipulação. Tradução: Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

[8] BAUMAN, Zymunt. Medo líquido. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.

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