30 de dez de 2017

Merval devia assessorar Marun, o pitbull

Carlos Marun nem bem tomou posse como novo “ministro” da Secretaria de Governo do covil golpista para confirmar a sua trajetória sinistra – de cão-de-guarda do presidiário Eduardo Cunha à pitbull de Michel Temer. Na maior caradura, o falastrão andou ameaçando governadores e prefeitos que não garantirem votos nos seus Estados para aprovar o fim da aposentadoria dos brasileiros. O fisiologismo e a truculência foram tão descarados que resultaram numa reação altiva de oito governadores do Nordeste. Em nota enviada ao chefe da quadrilha, eles informaram que estudam processar o ministro que condicionou a liberação de recursos públicos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil ao apoio à contrarreforma da Previdência.

Na carta, os governadores solicitam que Michel Temer “reoriente seus auxiliares" com o objetivo de “coibir práticas inconstitucionais e criminosas”. O texto é duro: “Protestamos publicamente contra essa declaração e contra essa possibilidade e não hesitaremos em promover a responsabilidade política e jurídica dos agentes públicos envolvidos, caso esta ameaça se confirme... Vivemos em uma Federação, cláusula pétrea da Constituição, não se admitindo atos arbitrários para extrair alinhamentos políticos, algo possível somente na vigência de ditaduras cruéis”. Ele é assinada por governadores do PT, PCdoB e PSB – partidos de oposição – e também por dois governadores do PMDB - Jackson Barreto (Sergipe) e Renan Filho (Alagoas).

Irritadinho, o petulante Carlos Marun ainda contra-atacou, acusando os governadores nordestinos de oportunistas. “A reação daqueles que querem continuar omitindo a participação do governo federal nas ações resultantes de financiamentos obtidos junto aos bancos públicos só se justifica pela intenção de buscar resultados eleitorais exclusivamente para si”, afirma a nota grosseira do “ministro”. Mas a aparente valentia do pitbull de Michel Temer só demonstra fraqueza. Ele saiu chamuscado do episódio, irritando inclusive líderes da base governista. Sua atitude pegou mal até em setores da mídia chapa-branca, nutrida com milhões de reais em publicidade. Alguns colunistas rotularam o ministro de “cínico”, “autoritário” e outros adjetivos.

Não foi o caso de Merval Pereira, o serviçal da Rede Globo. Em artigo publicado na quarta-feira (27), ele tentou justificar as chantagens do jagunço. “Não há nenhuma surpresa na atuação do ministro Carlos Marun na articulação política do governo. Ou alguém esperava que o deputado conhecido como pitbull fosse agir na negociação parlamentar de maneira diferente da que sempre usou e, aliás, foi a responsável pela sua escolha neste momento? (...) Talvez Marun seja apenas mais explícito na tarefa de angariar votos, e tenha mais poder que o antecessor, o tucano Imbassahy. Toda essa movimentação nos bastidores do governo durante o recesso parlamentar só mostra como ele está empenhado em aprovar a reforma da Previdência, talvez a mais importante das que Temer se propôs a aprovar”. 

Haja cinismo... de Carlos Marun e de Merval Pereira! O jornalista da famiglia Marinho e "imortal" da Academia Brasileira de Letras (ABL) bem que podia se propor a assessorar o pitbull Carlos Marun, que está sendo "muito explícito" na tarefa suja de aprovar "a mais importante reforma de Temer"!

Altamiro Borges
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Efeitos políticos de Junho de 2013 começaram a se esgotar


Até hoje não há uma formulação muito convincente para explicar o súbito surgimento das chamadas jornadas de junho de 2013, um dos marcos políticos mais relevantes da história recente, certamente o mais surpreendente. Sem que ninguém tivesse previsto, protestos contra o aumento de tarifas do transporte ganharam dimensão inédita em São Paulo. Reprimida covardemente pela polícia, passeatas sem liderança claramente identificada se agigantaram, atraíram pessoas que não costumavam ir às ruas e se alastraram pelo país.

Também de repente, a pauta ficou eclética. Contra a violência da PM, contra a Copa de 2014, contra Renan Calheiros, pelo poder de investigação do Ministério Público, por mais saúde, por mais educação. Em questão de dias, a popularidade da então presidente Dilma Rousseff e dos principais governadores e prefeitos despencaram como nunca havia sido visto. E no decorrer do próprio mês de junho, os protestos ganharam outra forma. Nas palavras de participantes dos primeiros atos, foram "capturados pela direita", "ficaram estranhos". Entraram temas conservadores, carecas, exaltações à bandeira, o verde-amarelo rapidamente apropriado pela Fiesp.

O período inaugurado naquele momento caracterizou-se por três novidades no campo político: rejeição visceral aos partidos, visível desde as passeatas, com hostilidades contra quem aparecia com bandeira; derrocada da imagem do PT, que mergulhou na sua fase mais depressiva; e o que talvez possa ser chamado de levante conservador, com discursos e exposições em redes sociais de um ideário que alguns imaginavam enterrado, mas, ao que tudo indica, estava só represado no escuro.

Na esteira disso, brotaram grupos que se identificam abertamente como de direita, como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, e a Lava-Jato, deflagrada em março de 2014 e impulsionada por uma taxa de apoio popular sem precedentes para operações policiais.

A sequência de fatos, consequências, subprodutos ou sequelas impressiona. Eleição de Cunha à chefia da Câmara, renascimento do Centrão, impeachment, alongamento da crise econômica, vazão da pauta conservadora no Congresso, derrota fragorosa do PT em 2016, triunfo de João Doria e outros outsiders, nacionalização de Bolsonaro, condenação e possível interdição eleitoral de Lula.

Agora, pouco mais de quatro anos após a atípica eclosão de passeatas, surgem sinais em diferentes pesquisas de opinião de esgotamento dos efeitos políticos iniciais mais notáveis de junho de 2013. Três levantamentos recentes oferecem dados nessa direção.

A informação mais destacada do Datafolha de 29 e 30 de novembro foi a liderança consolidada de Lula nos cenários para 2018, o que, isoladamente, já sugere fadiga do padrão pós-junho de 2013.

Outros dados da pesquisa parecem tão ou ainda mais eloquentes nessa linha. Um fator muito comentado após aquele mês de atos foi o forte aumento da repulsa aos partidos. De fato, a rejeição ou indiferença às agremiações cresceu muito a partir daquele momento, até atingir o pico histórico de 75% em março de 2015 e dezembro de 2016 (a série começa em 1989). Nos últimos meses, porém, começou a cair. Agora, voltou ao patamar pré-jornadas. Antes dos atos de 2013, 55% dos brasileiros não tinham partido de preferência. Taxa alta, mas compatível com o nível histórico. Agora está de volta abaixo dos 60%. Exatos 57%.

O mesmo Datafolha mostrou que a corrosão da imagem do PT, outra característica do pós-junho de 2013, não é mais a mesma. Após anos liderando folgadamente o ranking de preferência partidária, as citações à sigla despencaram para 9% nos seus piores momentos. Desde o início de 2017, porém, a imagem do PT vem se recuperando, e agora voltou a romper a barreira dos 20%. Está em 21%. No mínimo, o petista perdeu o que poderia ser chamado de momentânea vergonha de se declarar petista.

Outra marca inaugurada quatro anos atrás em aparente fase de arrefecimento é o tão propalado avanço conservador.

A informação partiu de uma pesquisa com 3 mil entrevistas feita nos dez primeiros dias de novembro pelo Ideia Big Data. Foi encomenda pelo chamado Movimento Agora!, grupo de viés liberal que reúne jovens empresários, acadêmicos ativistas interessados em "impactar a agenda pública".

Divulgado pelo Valor, o estudo revelou forte apoio dos brasileiros à atuação do Estado, em especial para garantir igualdade de oportunidades e proteção aos mais pobres. Com exceção do tema segurança, mostrou também concordância majoritária com pautas sociais ou de comportamento opostas às da cartilha conservadora.

O direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido por 66%. A afirmação segundo a qual Direitos Humanos devem valer para todos, "incluindo bandidos", teve 62% de concordância. Cotas para negros foram sustentadas por 57%. E até aborto recebeu apoio preponderante. A pergunta era se deveria haver punição criminal para mulher que aborta. O "não" venceu o "sim" por 60% a 31%.

No dia 20, o jornal "O Estado de S. Paulo" divulgou os resultados de uma terceira pesquisa com elementos que sugerem esvaziamento de um padrão de comportamento típico do pós-2013. A novidade foi a notável redução da avaliação positiva sobre o trabalho do juiz Sergio Moro.

O periódico levantamento de imagem de figuras públicas feito pela Ipsos (1.200 entrevistas de 1º a 12 de dezembro com margem de erro de 3 pontos) mostrou que, pela primeira vez desde que se tornou nacionalmente conhecido, Moro tem mais desaprovação que aprovação. Sua taxa negativa subiu para 53%. A positiva caiu para 40%.

Alguém pode dizer que, diferentemente de políticos profissionais, magistrado não precisa de apoio popular. Pode ser. Mas aí será preciso convencer o próprio Moro. Em palestras e entrevistas, ele e os procuradores da força-tarefa sempre exaltaram o apoio da população à Lava-Jato. Cansaram de repetir que, sem isso, a operação não teria chegado onde onde chegou.

Ricardo Mendonça é repórter de Política.
No Valor
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Folha distorce manchete sobre promessas de Doria: seria para proteger seus interesses?


Na página 788 do volume 1 das memórias de seu período na Presidência da República — Diários da Presidência —, Fernando Henrique Cardoso anota o forte lobby pela concessão da banda B da telefonia celular.

— É muita mobilização de interesse, inclusive os grandes grupos de comunicação, todos eles fluindo para a telefonia: Folha, Estado, Globo. O Jornal do Brasil eu não vi, mas é impressionante o modo como estão se movendo nessa direção.

Ele escreve também que, no dia 18 de outubro de 1996, recebeu no Palácio do Alvorada João Roberto Marinho, do Grupo Globo.

— As questões de sempre, cada vez que ele vem a Brasília quer trocar uma palavrinha sobre a telefonia, sobretudo saber como vai a questão do celular.

Faço essas referências a propósito da manchete da Folha de S. Paulo de hoje: “Doria tem 53% de suas promessas travadas”.

O jornalista Flávio Gomes, que trabalhou muitos anos no jornal, observou no Twitter, com a argúcia de sempre:

— “Não cumpridas”, no ex-jornal, virou “travadas” — como se alguém estivesse impedindo o alcaide de trabalhar. O texto diz que 9% das promessas foram concluídas. Portanto, 91% não foram. Mas, na manchete, 91% viraram estranhamente 53%. Como é bom ser tucano…

Assim como no caso da telefonia, 20 anos atrás, a Folha tem interesse direto na administração de João Doria. O UOL, do mesmo grupo, presta serviço de transmissão de dados para a SP Trans, na operação do bilhete único do transporte.

Recebe mais de 2 milhões de reais por mês, um percentual da tarifa (para a Folha, o aumento da passagem significa mais dinheiro no caixa).

O contrato entre o UOL e a Prefeitura está vencido e vem sendo renovado a título precário anualmente, desde o governo de José Serra/Gilberto Kassab.

O correto seria fazer uma nova licitação e escolher uma empresa que ofereça menor preço — o tipo de serviço que o UOL presta não é tão complexo e o preço poderia sair mais em conta.

Mas quem vai denunciar a Folha?

Há alguns anos, no governo de Gilberto Kassab, a Revista São Paulo, da Folha, publicou uma reportagem de capa com gente bonita e bem vestida esperando o ônibus.

Segundo a revista, a classe média estava deixando o carro e usando ônibus.

Mentira.

Mas a reportagem saiu ao mesmo tempo em que o contrato de prestação de serviços estava sendo renovado.

A Folha também defendeu repressão policial aos manifestantes que, em 2013, protestavam contra o aumento da tarifa de ônibus, no editorial “Retomar a Paulista”, depois acabou mudando de posição e apoiando os protestos.

No Brasil, notícia e análise deixaram de ser o principal negócio dos grandes grupos de comunicação.

Não sei se foi um dia, mas hoje é meio escancarado que a parcialidade da imprensa defende outros interesses.

Não é apenas mau jornalismo, é deliberado.


Sede da Folha, o jornal com rabo preso

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Para entender as diferenças entre o PT e o PSOL


A respeito da polêmica desencadeada pela entrevista do presidente do PSOL Marcelo Freixo à Folha, as disputas entre PT e PSOL se devem exclusivamente à busca de espaços políticos de lado a lado.

O PT sempre foi uma confederação de tendências. Aliás, o PT dos anos 80 seria o melhor exemplo de partido contemporâneo, nesses tempos de redes sociais, de coletivos e outras formas horizontais de organização.

A própria caminhada rumo ao poder, no entanto, induziu a uma centralização do poder em poucos grupos majoritários. Houve um acordo político que permitiu dividir poder, excluindo não apenas a esquerda mais radical, mas outros grupos minoritários.

No período José Dirceu a centralização se justificava, até como forma de garantir a governabilidade de Lula. No poder, como seria natural, o PT se estratificou. A era Ruy Falcão, serviu apenas para consolidação de poder interno, sem a mínima capacidade de enxergar o entorno. E tudo isso, enfrentando o período de maiores transformações na história da militância política, com o advento das redes sociais e das novas formas de organização.

E aí é  importante entender adequadamente os movimentos de junho de 2013. Está certo Lula de enxergar a mão externa. E está certo o presidente do PSOL, Marcelo Freixo, de enxergar os novos tempos.

As manifestações de 2013

Quem deu o tiro inicial foi um coletivo de esquerda, o Movimento do Passe Livre, em cima de uma bandeira relevante, mas pequena em relação ao conjunto de políticas públicas.

Acendeu o fósforo no momento em que o mal-estar econômico se alastrava por todo o país, em um movimento pendular que se seguiu à grande euforia do período 2008 a 2012. Às ruas foram jovens militantes de esquerda, classe média desiludida, o grupo dos que posteriormente passaram a ser conhecidos como “coxinhas”.

Mas quem apanhou da Polícia Militar de Alckmin foram os jovens esquerdistas, não os halterofilista do MBL. Mesmo assim, o PT fechou completamente as portas a eles. Temia perder o protagonismo das ruas.

Nesse sentido, Marcelo Freixo está coberto de razão.

O novo tempo era dos coletivos, das mobilizações virtuais. Nem o PT nem Dilma Roussef se deram conta dos novos tempos.

Poucos meses antes das manifestações, tive um encontro com a presidente Dilma Rousseff, presente Helena Chagas - ambas poderão atestar o conteúdo da conversa. Nele, alertei a presidente que, nas redes sociais,  havia uma militância de esquerda aguerrida mas que estava acuada pela militância de direita que surgia. E a principal razão era a falta de bandeiras políticas legitimadoras.

- Você não dá bandeiras a eles, disse-lhe.

Era simples para a direita mobilizar as pessoas em torno do mal-estar. Bastava mirar a figura maior, a presidente da República. Foi assim nas diretas, na qual o presidente era um militar. Para os grupos que defendiam a presidente, o jogo era mais difícil. Tinha que levantar bandeiras, defender princípios.

Naquele período, a única bandeira legitimadora foi a do Mais Médicos. Depois, nenhuma mais.

Na fase de maior politização da história, tinha-se no poder paradoxalmente um governo de esquerda e o mais tecnocrático da história em período democrático e uma direção partidária mais preocupada em defender o território interno conquistado do que em conquistar novos adeptos.

O PT jogou os jovens do MPL ao mar e perdeu o único ponto de contato com as ruas.

E aí foi uma baba (para usar um termo mineiro) para a direita, especialmente com o know how acumulado pela consultoria norte-americana nas sucessivas primaveras em países do Oriente Médio.

Em um novo mercado político, no qual até os motoqueiros conseguiam arregimentar pessoas para manifestações políticas, bastou bancar dois ou três grupos organizados para incendiar as redes sociais e esparramar-se pelas ruas. Especialmente depois que, a partir do terceiro ou quarto dia, a Globo o descobriu que havia um terreno fertilíssimo para seus intentos golpistas.

Portanto, ambos – Lula e Freixo tem razão. O PT nunca entendeu os movimentos que surgiam das redes sociais. Não entendendo, deixou a porta escancarada para o trabalho da direita e de seus consultores externos.

Os conflitos de esquerda

Os partidos políticos brasileiros não são democráticos. O PSDB é dominado por caciques. Mesmo com suas prévias, não existe democracia interna no PT. E, por tal, entenda-se o modelo capaz de permitir a existência de grupos minoritários que tenham espaço para disputar o poder.

Um mapa nacional do PT mostrará a consolidação de lideranças tradicionais em todos os quadrantes do país, mais no sudoeste sustentado pela malha sindical, mais ao norte por lideranças formadas há mais de duas décadas. A última leva de dirigentes nasceu da campanha do impeachment, de 25 anos atrás. A maior parte dos dirigentes, das diretas de 30 anos atrás.

Um partido democrático abriria espaço para a oposição interna, grupos que combateriam a direção sem sair do partido, desde que houvesse horizonte de alternativa de poder. É o grande segredo do PC chinês.

No PT, em vez de oposição dentro do partido, partiu-se para a criação de novos partidos, visando assegurar espaço para os dissidentes. Nasce, assim, o PSOL e, depois, partidos mais à esquerda, como o PSTU. E todos eles rapidamente se estratificam, antes mesmo de se tornar poder. Hoje em dia, o único fator a ligar todos os militantes do PT, as diversas linhas, os intelectuais progressistas independentes, é Lula, a perspectiva de que volte ao poder. Cada vez mais o PT depende de Lula.

Sem a capilaridade do PT, as lideranças acabam dependendo do espaço que conseguem na grande mídia. E o espaço é garantido por críticas ao PT e, especialmente, a Lula. Cria-se uma aliança espúria entre líderes de esquerda e mídia, cuja liga é dada pela capacidade de criticar as lideranças de esquerda constituídas.

Há os exemplos aí de Randolfo Rodrigues fazendo aliança com a direita do Ministério Público Federal (alo, Randolfo, acorde: é direita sim!); Aldo Rebelo com a UDR; Cristovam Buarque com-quem-vier-eu-traço. E o PSOL desancando o PT; e os ativistas do PT desancando o PSOL.

Essa visibilidade, junto com o desgaste do PT, acaba promovendo festivais de onisciência, como essa ideia de Freixo, de lançar Guilherme Boulos à presidência. O próprio Boulos deve ter considerado ridícula a proposta.

Independentemente de seu reconhecido valor, Boulos representa um segmento único do corpo social, os sem teto. Nada a ver com o Lula e o PT dos anos 80, que tinha a Igreja, os sindicatos, os movimentos católicos, os pensadores da esquerda independente. Como pretender de Boulos um projeto de país?

No vídeo que colocou no Youtube, visando responder às críticas sobre a entrevista à Folha, Freixo salienta a importância das eleições, a união que haverá no segundo turno etc.

É compreensível  que, para se diferenciar do PT, o PSOL faça críticas pontuais a pontos do programa de Lula. Os ataques intermitentes, o apoio à Lava Jato e outras concessões, no entanto, contribuirão para o acirramento das divergências e para o jogo desestabilizador da mídia.

O caminho da união passa pelo menor grau de sectarismo que vier a ser adotado pela nova direção do PT; e um amadurecimento maior das dissidências, em nome do objetivo maior, de restaurar a democracia.

Luís Nassif
No GGN
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Caso RBS envolvendo Nardes está pronto para ser julgado no STF


Em sua conta no Twitter, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) lembrou neste sábado 30 que a denúncia do Ministério Público Federal envolvendo a RBS - maior afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul - e o ministro do TCU Augusto Nardes está pronta para ser julgada no Supremo Tribunal Federal.

No último dia 26 de dezembro, o ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, relator do caso, concluiu parecer sobre o esquema que comprou anistia no CARF, órgão do Ministério da Fazenda que julga dívidas de empresas junto à Receita Federal, por R$ 10 milhões.

O ministro do Tribunal de Contas da União Augusto Nardes teria participado diretamente do acordo junto aos conselheiros do órgão para que as dívidas da RBS junto à Receita Federal desaparecessem.

"Agora Carmem Lúcia deve marcar a data do julgamento. Por ter um Ministro do TCU envolvido, o inquérito foi para o STF. Carminha deveria tirar o 'segredo' para que a imprensa e todos possam conhecer os autos", cobra Pimenta.

O parlamentar lembra que no inquérito existem contratos, cheques, extratos, planilhas, número de contas e valores pagos e recebidos pelos integrantes do esquema criminoso.

No 247
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Freixo deveria pedir desculpas à militância do PSoL

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/12/30/freixo-deveria-pedir-desculpas-militancia-psol/

Freixo deu ontem uma entrevista para a Folha de S. Paulo que bombou nas redes. E o prato principal da polêmica foi a frase: “A gente vive um momento de reconstrução: qual esquerda a sociedade vai enxergar? Porque precisa enxergar o diferente. Não sei se esse é o momento de unificar todo mundo, não”.  Os mais petistas vão me odiar, mas tendo a concordar com Freixo neste aspecto, em especial se Lula for candidato.


Se o ex-presidente puder disputar a eleição acho que deveria haver sim outras candidaturas à esquerda num primeiro turno para que esse campo pudesse expressar sua diversidade. Digo isso, porque considero diferentes as perspectivas políticas do que representam, por exemplo, Ciro Gomes e o PSoL, em especial. E também acho que Manoela, sendo candidata, poderia trazer um frescor ao debate. Porque só ela trataria de certos temas na campanha com muita autoridade, como a defesa dos direitos das mulheres, a luta contra a violência de gênero, a homofobia etc.

Ou seja, acho que essa frase de Freixo foi deslocada de contexto. E que isso tem relação com o resto da entrevista. Na qual, ele, que é uma grande liderança política, se comportou de forma mesquinha e e ególatra. Falando sempre em primeira pessoa para explicar as últimas decisões importantes do seu partido. E mesmo para comparar o fenômeno do voto Freixo e Bolsonaro.

Dizer que a decisão de convidar uma importante liderança, como Boulos, para ser o candidato do PSoL à presidência da República, se deu dessa forma:  “Estava em casa, tomando um café com minha companheira, a Antônia. Conversávamos sobre o que é esta esquerda do século 21. Os olhos dela são meio que termômetro. Falei do Boulos, e arregalaram. Pensei: ‘Opa, ali tem caldo'”. E que depois disso testou o nome com sua equipe do gabinete e pummmm. Ligou pro Boulos e marcou um papo num boteco “bem vagaba” da Paulista. E que ao convidá-lo para o desafio, Boulos quase caiu da cadeira.

O contexto é a desqualificação completa da política e do PSoL como partido que deveria privilegiar o coletivo. Para convidar Boulos para disputar o cargo mais importante da nação, pela sua narrativa, sequer conversou com seus colegas deputados federais e estaduais do Rio de Janeiro. Muito menos com a direção da sigla. Escolheu Boulos apenas convencido de que o olhar de Antonia não erra. E pelo fato de a ideia ter sido aprovada pela galera do seu gabinete.

Há ainda um outro momento da entrevista onde Freixo mostra todo seu desconhecimento sobre intelectualidade. Ele diz que levou Boulos para conversar com “setores da intelectualidade” na casa da Paula (Lavigne, companheira de Caetano). E que as perguntas eram pertinentes: “O que vocês fazem é invadir a casa de alguém?” E “é justo ter mais imóvel vazio do que gente morando na rua?”

Que perguntas pertinentes são essas do ponto de vista da construção de um projeto nacional para o país? E com essa “intelectualidade” que não sabe a diferença entre invadir a casa de alguém e ocupar áreas abandonadas para debater o déficit habitacional que Freixo pretender construir um novo campo político e a esquerda do século 21? Pelamor….

Freixo é muito melhor do que essa entrevista e tem uma trajetória que não pode ser achincalhada por meia dúzia de frases. Incluindo a que ele fala do Bolsonaro, sem dar-lhe boas estocadas, como sempre faz Jean Wyllys, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo deveria ter a humildade de ponderar sobre o que disse e de pedir desculpas, em especial, para seus colegas parlamentares e do partido. Talvez até para aquele que pretende tornar candidato a presidente da República, Guilherme Boulos. Porque conhecendo o líder do MTST, imagino que ele deve ter quase caído da cadeira, aí sim, ao ler a forma como Freixo “escolheu” seu nome.

Quem quer fazer uma nova política e construir uma nova esquerda não pode tomar decisões importantes, de forma messiânica, com base em olhares. E quem quiser fazer política de forma contemporânea tem que ter tranquilidade para dizer, me empolguei e errei. Desculpas e segue o jogo.

Se fizesse isso, Freixo ficaria muito maior. Fazer de conta que tudo naquela entrevista de ontem “é deboas” não vai levar o PSoL a ser o que muitos dos seus militantes sonham.

PS: Claro que como veio petista me cutucar quando escrevi este texto criticando a declaração de Lula sobre o PSoL, agora vai vir gente do PSoL me cutucar. É da vida. Mas antes peço que deem uma lidinha nesta nota aí linkada para que não errem ao dizer que se o Freixo fosse do PT eu não escreveria isso.

PS2: Se Lula não puder ser candidato defendo com todas as forças que a esquerda vá unida já no primeiro turno para a disputa eleitoral de 2018. Porque neste caso o risco de ficarmos sem um candidato mais à esquerda no segundo turno é imenso. E se isso acontecer, o golpe avançará sem freios.



O vídeo de Freixo é bom, mas não convence no caso da resposta sobre Boulos

Não quero ser chato e nem impertinente com o Freixo, por quem tenho respeito e simpatia, como já registrei no post anterior. Mas no vídeo que ele acaba de divulgar em que deseja um feliz 2018 e faz um balanço sobre a entrevista de ontem dada a Folha, ele diz que jornalista perguntou da “ideia” da candidatura Boulos. E por isso respondeu aquilo.

Segue a pergunta e a resposta publicada pela Folha. Não tem nada de “ideia” na pergunta”. Se for diferente ele tem então que solicitar um erramos.

Como surgiu a chapa Boulos?

A ideia do medo é muito forte e legitima a barbárie. Tenho medo da favela, então qualquer coisa que aconteça lá não me toca. Da juventude negra, então seu genocídio não me abala, não sou um deles. Brinco que nossos sonhos não cabem nas urnas, mas nossos pesadelos cabem. Esses debates todos me fizeram chegar ao Boulos. Estava em casa, tomando um café com minha companheira, a Antônia [Pellegrino, escritora e cofundadora do blog feminista #AgoraÉQueSãoElas, hospedado na Folha].

Quanto a sua posição em relação a não ver possibilidade de uma frente de esquerda no primeiro turno, já havia ponderado que vários veículos e pessoas distorceram o conteúdo de sua fala. Ele não disse ser contra a unidade em nenhum momento. Mas de qualquer maneira, me parece importante que tenha dito com todas as letras isso no vídeo.

Aliás, ponto para o Freixo por ter gravado o vídeo, ele se mostra democrático e permeável às críticas. Pena, porém, que tenha lhe faltado um pouco mais de humildade na resposta sobre o escorregão ao falar da candidatura Boulos. Bastava dizer, “ali eu me empolguei, claro que não foi daquele jeito…”. E ele sairia maior da história.

Aliás, teve ainda o “Boulos quase caiu da cadeira de susto”. Alguém acha que uma liderança construída nos conflitos com a polícia do Alckmin vai se assustar assim tão fácil. Ou mesmo vai se emocionar a ponto de só aceitar ser candidato por vaidade. Boulos não é assim. E faltou também esse reparo.

De resto, meus sinceros feliz 2018 ao Freixo. E que ele se eleja deputado com uma montanha imensa de votos no Rio, para que a bancada do PSoL, que é uma das melhores do Congresso, seja maior na próxima legislatura.
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O que não entendemos direito ainda sobre 2013?


Em setembro de 2012, James Roberts, um dos analistas da Heritage Foundation (Think Tank conservador norte-americano) escrevia um artigo dizendo que o Brasil “precisa(va) de mais liberdade econômica” e deveria “eliminar barreiras à iniciativa privada, diminuir impostos, e acabar com a rigidez legal do mercado de trabalho”[1]. Curiosamente o PIB brasileiro crescia a taxas semelhantes ao do México, Argentina e muito próximo ao dos EUA, segundo os dados do Banco Mundial. Em janeiro de 2013, um obscuro economista ligado ao IPEA e aos think tanks americanos publicava um artigo em seu blog pessoal falando sobre a “contabilidade criativa”[2], que viria a se tornar tese (demonstrada errada) para o impeachment de Dilma, sendo chamada de “pedalada fiscal”. Os termos usados nos ataques liberais ao governo de Dilma eram idênticos aos “estudos científicos” emanados pelos institutos norte-americanos. Mas não foram apenas ataques vindo da direita que desgastaram o governo.

Em março de 2013, a CNI lançava uma pesquisa[3] em que o governo Dilma atingia 79% de aprovação. Índice maior do que Lula e FHC. Parecia claro que o governo Dilma se mantinha em um vôo de cruzeiro em direção à reeleição. Tal situação desgostava quatro grupos em especial: (1) os grandes grupos financeiros internacionais viam na experiência brasileira um incômodo caminho para a saída da crise de 2008. Enquanto o Banco Mundial e o FMI na época pregavam para toda a Europa a “Austeridade”, o Brasil mantinha-se em crescimento com políticas diferentes da receita liberal e ainda sustentava a relação PIB/dívida em decréscimo e grandes reservas internacionais. (2) As grandes empresas petrolíferas internacionais, que precisaram se submeter aos marcos do petróleo impostos por Dilma, também ombrearam-se no esforço de jogar o governo petista ao solo. Em março de 2013, por exemplo, a presidenta defendia o modelo de extração que privilegiava o capital nacional e os royalties indo para a Educação e Saúde[4]. (3) A oposição fisiológica interna (PSDB, DEM, PP, e parte do PMDB) aos governos progressistas percebia que o governo Dilma se tornava blindado. Sem grandes mudanças nos panoramas econômicos e com aprovação em alta, seria quase impossível evitar um quarto mandato petista e as obras de infraestrutura e a extração de petróleo prometiam uma disputa ainda mais dura para 2018. (4) A “oposição à esquerda” ao governo de Rousseff também se ressentia tremendamente por não conseguir ganhar votos dado que o governo petista capitalizava com inserção mercadológica da população, e o controle das variáveis sociais e econômicas do país. Em 2013, Eduardo Paes do PMDB vencia Marcelo Freixo pela prefeitura do Rio de Janeiro. O PSOL faria 28% dos votos contra quase 65% do PMDBista[5]. Em abril de 2013, Freixo dizia que: “se o PT está junto com o PMDB, tem de ser enfrentado, porque representa a mesma política hoje, por exemplo, no Rio de Janeiro”[6].

O que unia todos os descontentes contra o governo Dilma não era a “luta contra a corrupção” ou desavenças sobre alianças políticas locais. O que uniu os grupos contra Dilma foi a certeza de que o projeto petista amealhava apoios de forma pragmática e mantinha-se com alta popularidade. Era necessário derrubar Dilma, ao menos de seu pedestal de aprovação. Para isto, todos os grupos passaram a adotar um discurso quase esquizofrênico sobre o Brasil, falseando a realidade e induzindo a revolta social. Enquanto a direita, se aliava aos interesses internacionais e atacava a economia, os grupos de “oposição à esquerda” viam na possibilidade do desgaste de Dilma uma estrada para o seu próprio crescimento. O “Não vai ter Copa” era uma evidente tentativa de criar uma ruptura interna no apoio da presidenta.

Em junho de 2013, ocorrem as chamadas “Jornadas de Junho”. Uma série de manifestações locais, com pautas cuja responsabilidade eram de municípios ou Estados, mas que escalam para ataques ao governo federal. Dilma cai de 79% para 40% de aprovação em julho de 2013. O MPL (Movimento Passe Livre) reivindica a explosão de 2013, mas pela pouca visibilidade do movimento em nível nacional e as pautas efetivas que passam a frequentar os registros fotográficos das manifestações, percebe-se o erro desta abordagem. Além do mais, a primeira liderança a se mobilizar para viabilizar as reivindicações do MPL foi justamente Dilma Rousseff. Em abril, o MPF processava Dilma e Graça Foster por “manterem os preços da gasolina baixos”[7], indo no mesmo caminho do lobby internacional que se valia do Financial Times e da BBC para atacar o “intervencionismo brasileiro” na questão dos combustíveis[8]. É simplesmente insustentável que a pauta de um “passe livre”[9], totalmente circunscrita aos municípios e Estados, surja nacionalmente e se transforme em “não vai ter copa”, no “vem pra rua” e acabe no “fora Dilma”, sem que se perceba aí um maior ataque político.

O fato é que 2013 abriu uma caixa de Pandora ao defender “protestos sem partido” e sem pauta clara. Já em junho, o reacionarismo digital capturava o modelo “horizontal” de manifestação[10] do MPL e transformava o sonho de protagonismo de uma “oposição à esquerda”, num processo de desgaste político que, enfim, apontava para a possibilidade de vencer o projeto petista já nas eleições de 2014.

Mais dinheiro e ações políticas eram necessárias. Dilma precisava cair. Era consenso da direita e da esquerda à Dilma.

Num primeiro momento, é formado o grupo “Revoltados Online” ainda nos protestos de junho. Em 2014, com a brecha aberta surgem o “Vem pra Rua” e o “MBL”. O ataque digital da direita seria decisivo nas eleições de 2014[11], mas a “oposição à esquerda” também teria sua cota de responsabilidade. As marchas de rua nas capitais se valeram dos discursos identitários para negar a política e mobilizar as massas. As táticas chegaram mesmo a assemelharem-se ao famoso “occupy wall street” e black blocs surgiram no Brasil.

Os movimentos de 2013 não podem ser dissociados das disputas eleitorais cariocas e nem do erro de avaliação do PSOL. Se, naquele momento, o PSOL tivesse optado pela coesão ao invés do desgaste, muito provavelmente o golpe teria acontecido, mas a resistência teria sido mais dura e 2018 não seria tão perigoso.

Esta semana, o deputado Marcelo Freixo deu uma entrevista para a FSP em que diz que “o PT não entendeu 2013”[12]. Freixo, que estava envolvido com o suposto financiamento, nunca completamente explicado, de grupos de esquerda durante os protestos de 2013[13], volta a tocar numa narrativa irreal sobre 2013. Uma narrativa que não reconhece as imensas diferenças das jornadas em várias regiões e pinta todo o movimento se fosse um processo de emancipação política novo no Brasil.  Freixo parece cometer, mais uma vez, um imenso erro de análise. Erro que custou caro para ele nas eleições de 2016, por exemplo. O deputado, que em 2013 abertamente defendia os protestos de indivíduos mascarados[14] contra o governo, apenas em 2016 – após o repúdio nacional das táticas do grupo – muda o discurso[15]. Muda essencialmente em função da campanha eleitoral de 2016, onde foi vencido por Marcelo Crivella[16].

O deputado Marcelo Freixo demonstra mudar de posição conforme a proximidade das eleições. Novamente, através de um cálculo não muito inspirado, passa a dar declarações com o objetivo de “capitalizar” o eventual dissenso eleitoral do Partido dos Trabalhadores. O PSOL do Rio de Janeiro parece entender que seus votos estão no eventual desmanche do PT e não no convencimento das populações mais pobres, hoje majoritariamente eleitoras de pastores evangélicos. No final, a briga política do RJ entre Paes, Pezão, Cabral, Cunha, Freixo, Wyllys, Chico Alencar e Crivella, Garotinho pode contaminar o restante do país e impossibilitar a formação de um bloco consistente contra o golpe.

É evidente que 2013 não é sozinho responsável pela queda de Dilma. Sua popularidade desaba para cerca de 20% no início de 2015, após o anúncio do “ajuste liberal” de Joaquim Levy. A inépcia e incapacidade da comunicação no governo Dilma, personalizado em Thomas Traumann, respondem também pela debacle de 2016. Contudo, se os ataques virtuais da direita erodiram a popularidade da presidenta, é preciso reconhecer que a “oposição à esquerda” e a política intestinal do RJ foram responsáveis pelo 2013 e, assim, fazem parte do desarranjo político de 2013-2016.

Caso o deputado Marcelo Freixo continue em dúvida sobre a necessidade da “união das esquerdas” e não queira olhar criticamente para o seu papel em 2013, sugiro que veja o que ocorreu nas eleições francesas de 2016, quando os candidatos de esquerda ficaram – ambos – fora do segundo turno, exatamente pelo tipo de “estratégia”[17] defendida pelo deputado carioca. Ainda que se diga, com certa razão, que o PSOL não tem voto suficiente em nível nacional para influenciar a disputa eleitoral, Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Erundina, Ivan Valente e etc. são políticos de esquerda bastante conceituados e com relevante história de lutas. Tenho certeza que é melhor tê-los como aliados do que como inimigos.

Creio que quem não entendeu corretamente 2013 foi, infelizmente, o deputado Freixo e faço votos para que ele mude de opinião.



















Fernando Horta
No GGN
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Mico do Ano no Cinema


"Polícia Federal: a lei é para todos" foi lançado no cinema no dia 7 de setembro do ano passado, no contexto do golpe de 2016 e das adesões e críticas à Operação Lava Jato.

Vale destaque para o financiamento ter sido totalmente privado e parte dos financiadores mantidos sob segredo, ter tido um orçamento no valor oficial de R$ 16 milhões e sob direção de um jovem diretor, com dois filmes anteriores, duas comédias semi-adolescentes.

A sétima arte não é isenta. Bolcheviques adotaram o cinema para uso na propaganda, tentando acessar os milhões de russos analfabetos e carentes de informação sobre os rumos da revolução. Mas o uso mais profissional do cinema no trabalho político é obra de Hollywood.

Desde a década de 1930 o cinema dos EUA se dedica à política. Na guerra fria o cinema hollywoodiano deslanchou como um "braço" político, quase um departamento do Pentágono.

No Brasil sabemos bem como é essa disputa. Somos um país de alto consumo do cinema estadunidense, da máquina de propaganda do imperialismo.

O filme sobre a Lava Jato nasceu para cumprir um papel na disputa política e ideológica. E é uma peça de propaganda sem disfarce ou maior cuidado.

A começar pela proposta, o filme retrata a passos largos uma operação complexa e marcadamente ilegal. Principia com as investigações de lavagem de dinheiro. Sem se preocupar com misturar ficção e realidade, usa os nomes reais de todos os acusados. Já os nomes dos policiais, promotores e do juiz Sérgio Moro, são assemelhados em uma quase brincadeira ridícula. O delegado Igor Romário é vivido por Antônio Calloni com o nome de Ivan Romano.

Como mencionado, o filme é mal construído em termos de narrativa. Pula de uma etapa a outra em sobressaltos. E nas entrelinhas, os delegados, agentes e promotores federais se veem diante de uma operação com "gente graúda", "perigosos", etc. Há uma narrativa do começo ao fim que indica ser uma operação ameaçada por tudo e por todos. Parece que o mundo conspira contra esses bravos corajosos.

Esse é o contexto para a criação dos personagens do "lado do bem, todos heróis". É um filme da velha tradição hollywoodiana de mocinhos versus bandidos, encaixando-se no gênero Thriller, mas feito às pressas por um diretor de comédia querendo fazer uma semi-ficção policial.

Os pobres agentes da lei se veem pressionados, ameaçados e frustrados com a possibilidade da operação "abafa" prosperar. Esse é o pano de fundo mais desconexo do filme. Sem mostrar que a operação se vale de divulgações documentos colhidos legal e ilegalmente, entre eles as escutas arbitrárias e publicizadas ao bem sabor dos "pobres" coordenadores da operação. Certamente um expectador desavisado poderia cair nessa cantilena dos agentes como vítimas por terem se metido com os poderosos.

Rapidamente a narrativa vai para o centro do filme, o Partido dos Trabalhadores (PT). Delações, um mapa com a arquitetura do fluxo da corrupção, tudo indicando o chefão no centro.

Nesse quadro, entre a pressa do filme em caminhar em sobressaltos para chegar no alvo, com os agentes da lei temerosos de todas as ameaças e riscos, emerge um personagem discreto.

Como um Crawford - personagem central na busca do Hannibal Lecter, orientador quase invisível da jovem agente Clarice, eis que aparece o juiz Moro.

Discreto, aparentemente técnico, sem usar frases fortes, com uma aparência de um juiz normal cuidando dos seus afazeres, com uma vida normal é bastante humanizado. Discreto, cuidadoso, técnico, responsável, pai amoroso e atento, marido zeloso. Só aparece com imagens positiva, cenas reconfortantes, música suave, e parece fora do "Thriller" tenso, além de se relacionar com agentes do estado sob ameaça e riscos.

Com a pressa de um cinema amador qualquer, logo o filme chega naquele março de 2016. O juiz autoriza a condução coercitiva de Lula quase como uma operação para proteger o conduzido. Mensagem de "tenham cuidado com ele… não o exponham" e outras deixam uma imagem de absoluto cuidado com a legalidade e a integridade dele. Essa parte é uma das cenas mais patéticas do cinema pátrio. Digna de ser usada nos cursos de cinema, psicologia, sociologia, história, direito etc. Risível.

Aí a trama adentra na maldade maior. Ela busca demonstrar as evidências com muita imagem, áudio e trechos encadeados para compor uma denúncia pública. Os áudios criminosos com a presidenta Dilma Rousseff, especialmente no episódio do ministério, imagens do Triplex e do sítio de Atibaia abundam na trama. Isso é parte do jogo: a narrativa pretende ganhar a força das evidências quase da obviedade da conduta criminosa.

É aí que o filme chega no seu ápice. Decidida a condução, a operação vai ao prédio - imagem do prédio onde Lula vive - e entra em cena o ator Ary Fontoura para dar o seu show particular. Constrói um personagem rude, bruto, com uma tentativa de reprodução da voz de Lula, que beira a insensatez completa. Mas o papel desse octogenário é criar um personagem que o público pudesse odiar. Ou, no mínimo, ter uma ojeriza absoluta. Assim ele o fez.

O filme vai até esse ponto. Mostra os atos de reação à condução, imagens reais e fictícias, as "ameaças" dos petistas e a resistência do povo. Uma cena típica do pior cinema de propaganda. 

O filme foi construído com a velha divisão entre bandidos e mocinhos. Agentes do estado (policiais, promotores e um juiz) sob ameaça e violões poderosos do outro lado. Moro é a expressão do estado neutro. Lula é o político acostumado com a lei não ser "para todos".

Obviamente que o filme não consegue demonstrar que a lei é para todos. Faz uma narrativa trôpega e apressada, uma adolescência completa para chegar logo no grande vilão.

Destaque para o uso de imagens de forte teor apelativo, mensagens de efeito que lembra as pornochanchadas e personagens muito cuidados para que demonstrem que são heróis sob ameaça e vilões prepotentes , antipáticos e dignos de causar nojo. Não construíram um filme com algo sério para um perfil mais complexo, mas o contrário. É feito para passar nos programas "Supercine", Tela Quente e Sessões da Tarde.

O fracasso nas telonas não pode nos induzir ao erro. O filme foi feito para passar na Sessão da Tarde, de preferência a cada mês, para construir uma narrativa hermética dos bandidos e mocinhos.

Apesar da grande pretensão, inclusive de ser parte de uma trilogia, mas essa peça de publicidade ultraconservadora não pode se esquivar de uma verdade: a montanha pariu um rato, um rato medíocre.

Ronaldo Pagotto
No Brasil de Fato
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Planalto pagou R$ 121 mil ao Twitter para impulsionar campanhas em 2017

Governo pagou por destaque de hashtag

Repercussão no Twitter foi negativa

Facebook recebeu R$ 500 mil em 2017


O governo federal pagou R$ 121 mil para o Twitter em 2017. Além de promover publicações na rede social, o Planalto também usou o dinheiro para fixar campanhas entre os assuntos mais comentados.

O Twitter Brasil Rede de Informação LTDA. recebeu R$ 121.463,21 em 2017. No primeiro semestre foram gastos R$ 56.814,36. Nos últimos 6 meses do ano, foram pagos R$ 64.648,85.

Além dos R$ 121 mil com o Twitter, o Planalto também gastou quase R$ 500 mil com o Facebook em 2017.

Os dados são do Portal da Transparência e foram acessados em 27 de dezembro de 2017. Os últimos gastos apresentados no caso do Twitter são referentes a outubro de 2017.

O governo impulsionou publicações sobre as reformas trabalhista e previdenciária. Uma das peças divulgadas diz que a proposta de mudança no sistema de aposentadorias é “contra privilégios” e que se não for aprovada “o rombo da Previdência só vai aumentar”.


Outra peça promovida pelo governo fala em em 2018 como o ano “das melhorias e das reformas”. Usa uma estratégia de repetir algumas frases com um tom pessimista e depois em um tom otimista.


Outra alternativa publicitária do governo foi investir na exposição da hashtag #AgoraÉAvançar, promovida pela página Governo do Brasil em 20 de dezembro de 2017.


As respostas dos usuários, porém, não foram positivas. Muitos criticam os gastos com a promoção na rede social. Querem saber quanto custou aos cofres públicos. Os últimos dados disponíveis no Portal da Transparência, porém, se referem a outubro de 2017 e somam R$ 24,2 mil.


Alcance do Twitter

A rede social, fundada em março de 2006, tem hoje 330 milhões de usuários ativos mensalmente. Os dados do 3º trimestre de 2017 indicam um crescimento de 4 milhões em relação ao último trimestre.

A plataforma, que antes só permitia publicações de até 140 caracteres, passou a aceitar textos de até 280 caracteres desde novembro de 2017.

Como funciona o impulsionamento

Usuários do Twitter podem pagar para que suas publicações tenham mais alcance entre as outras pessoas e página conectadas à rede.

É possível selecionar o público-alvo, os recursos disponíveis e os tweets a serem impulsionados. Também há uma escolha chamada Promote Mode, com um valor fixo por mês que permite que alguns tweets sejam mais expostos na rede social.

“Os tweets que o Promote Mode impulsiona se tornarão publicidades e serão exibidos com um selo ‘promoted’ – como todos os outros Promoted Tweets, diz a explicação sobre o modo de promoção do Twitter.

Gabriel Hirabahasi
No Poder360
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Donos do poder não vão largar o osso

Na terça (26), o ministro Carlos Marun declarou: "O governo espera daqueles governadores que têm recursos e financiamentos a serem liberados uma reciprocidade no que tange a questão da Previdência". Criticado no dia seguinte por governadores que entenderam serem arbitrárias e inconstitucionais as ameaças contidas na fala ministerial, o referido membro do gabinete voltou à carga: "A reação (...) só se justifica pela intenção de buscar resultados eleitorais exclusivamente para si".

Por que Temer, em tese sem pretensões para 2018, mandaria Marun comprar briga com chefes regionais em nome de uma reforma impopular no último ano de mandato?

Quem teve a curiosidade de ler o artigo do deputado Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) publicado pela Folha na quinta (28) terá encontrado uma descrição tão intrigante quanto o movimento de Marun. Figura histórica do antigo e novo MDB, Vasconcelos acusa o senador Romero Jucá (MDB-RR), atual presidente da agremiação, de agir "em Pernambuco para tomar de golpe a legenda". Mais adiante, acrescenta: "No modus operandi dele, quem se contrapõe às suas ideias e projetos vai ser alvo, como eu fui e estou sendo, de perseguição e truculência".

O que ocorre na sigla da acomodação e do jeitinho? Por que o velho partido-ônibus agora obriga passageiros como Kátia Abreu (ex-PMDB-TO) a descerem a toque de caixa (a senadora foi expulsa no mês passado)?

Arrisco uma explicação. O deslocamento liderado por Temer entre 2015 e 2016, quando o partido rompeu a aliança com o lulismo para assumir a vanguarda da derrubada de Dilma, não era epidérmico, como às vezes pareceu. Os políticos hoje no Planalto enxergaram uma brecha cujo preenchimento é bem mais do que ocasional.

Trata-se do espaço criado pelo conservadorismo que avançou na sociedade brasileira. O acesso ao Executivo, via impeachment, deu ao grupo em torno de Michel, como gostam de dizer os correligionários, a possibilidade de realizar um programa que move importantes forças nacionais. Contenção estrutural do gasto público, desmonte da CLT e reforma da Previdência constituem medidas que alteram características centrais da Constituição de 1988, como é o desejo de parcela expressiva da classe dominante.

Os emedebistas têm consciência do papel que estão jogando e não pretendem entregar os louros conquistados de mão beijada para algum tucano da vida. Só não sabem, ainda, como combinar o jogo com o eleitorado, que tende a derrotá-los em eleições presidenciais. Por isso, o projeto de semipresidencialismo, que circulou na semana passada, deve ser acompanhado com todo cuidado. Ele pode ser a (péssima) saída para o problema em que estão metidos os atuais donos do poder.

André Singer
No fAlha
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2017, o ano em que acabou o “teste do sofá” em Hollywood. E no Brasil?

Que em 2018 as atrizes norte-americanas inspirem as brasileiras a dar nomes aos bois e a expor os assediadores. Por ora, o silêncio ainda é a regra

O produtor Harvey Weinstein em 2004. 
Foto: Steve Forrest
Homem poderoso se aproveita do cargo para tentar levar para a cama jovens atrizes em busca do sucesso, inclusive recorrendo à violência, à chantagem e ao assédio moral. Este seria só mais um roteiro clichê em Hollywood se desta vez a história não fosse real. A atriz Ashley Judd foi quem puxou o fio sob o tapete de Harvey Weinstein, ao revelar que o megaprodutor de cinema a tinha assediado sexualmente em um quarto de hotel no início da carreira, em 1997.

A história dos assédios de Weinstein a jovens e belas atrizes não era bem um segredo de bastidores, mas após a primeira atriz apontar o dedo em sua direção, a coisa não parou mais: outras 60 mulheres, entre elas estrelas como Angelina Jolie, Gwyneth Patrow e Heather Graham, resolveram botar a boca no mundo e contar que tinham passado por idêntico abuso. Algumas delas, como Asia Argento e Paz de la Huerta, utilizaram a palavra “estupro”, complicando criminalmente o produtor, cujo modus operandi era quase sempre convidar as moças, a maioria delas estreantes, para “reuniões” em quartos de hotel e então assediá-las usando seu corpanzil de 1m83 como fator intimidador.

Um sinal de que os tempos mudaram é que, após a série de denúncias, Weinstein está sendo definido como um “predador sexual”. Fosse algum tempo atrás, seria chamado de “garanhão”

O artigo que a atriz mexicana Salma Hayek escreveu no New York Times, Harvey também é meu monstro, é particularmente contundente porque mostra como o assédio sexual de Weinstein estava diretamente relacionado ao poder. Salma conta que, quando aceitou que o filme Frida fosse produzido por ele, começaram os episódios recorrentes de assédio e, em seguida às negativas dela, o ódio do macho, ao ponto de ameaçar matá-la. O produtor passou a pressioná-la utilizando justamente o filme que ela sempre sonhou fazer, e não sossegou enquanto não a fez incluir uma cena de lesbianismo (e com Ashley Judd, a atriz que foi o estopim das denúncias contra ele agora).

“A única coisa que ele percebia é que eu não estava sexy no filme. Ele me fez duvidar do meu talento como atriz, mas nunca conseguiu me convencer que não valia a pena fazer o filme. Ele me ofereceu uma opção, se quisesse continuar: permitiria que eu concluísse as filmagens se eu aceitasse fazer uma cena de sexo com outra mulher. E exigia nu frontal”, conta a atriz. O lance final da dor-de-cotovelo do produtor com o orgulho ferido foi lançar Frida em apenas uma sala de Nova York. Para azar de Weinstein, o filme foi um tremendo sucesso de bilheteria, com seis indicações ao Oscar, incluindo o de melhor atriz para Salma.

Um sinal de que os tempos mudaram é que, após a série de denúncias, Harvey Weinstein está sendo definido como um “predador sexual” e não encontrou a solidariedade de outros homens. Fosse algum tempo atrás, seria chamado de “garanhão” e alvo da inveja de seus colegas. Ou talvez o que não seja razão de inveja é o fato de ter sido descoberto. Mas algo mudou, sem dúvida: o empoderamento feminino está conseguindo pôr fim ao famigerado “teste do sofá”. A partir de agora, os magnatas do cinema e da TV pensarão duas vezes antes de usar sua posição para dar em cima de subordinadas e subordinados (sim, o caso do ator gay Kevin Spacey, demitido de House of Cards, mostrou que também há jovens homens como vítimas).

Harvey me ofereceu uma opção, se quisesse continuar: permitiria que eu concluísse as filmagens se eu aceitasse fazer uma cena de sexo com outra mulher. E exigia nu frontal

Bem, pelo menos em Hollywood. No Brasil, o “teste do sofá” continua a ser uma verdadeira instituição no meio artístico. O termo é tão normalizado por aqui que até virou nome de programa de youtube da direita. Incontáveis histórias sempre circularam envolvendo diretores poderosos e atrizes iniciantes. Na mídia, volta e meia surgem notinhas maldosas ou notícias sobre o tema, mas sempre de forma velada. Em 2006, um dos diretores do humorístico Zorra Total, Fábio Guimarães, foi demitido após aparecer um e-mail com mensagens eróticas e fotos pornográficas sugerindo que tentava convencer uma figurante a sair com ele em troca de um papel. Mas, mesmo nas reportagens da época, as referências a outros casos não citam nomes: “um diretor famoso”, “um figurão do meio”.

O escândalo envolvendo o ator José Mayer, acusado em abril de assédio por uma figurinista da Globo, deveria ter servido de estímulo para novas denúncias, não só na emissora dos Marinho como nas demais. Ou seria Mayer uma exceção? Difícil de acreditar. Quando Mayer foi acusado, muitas atrizes foram às redes sociais prestar solidariedade à vítima com a hashtag #ChegadeAssédio e usando camisetas com a inscrição “Mexeu com Uma, Mexeu com Todas”. Mas nenhum outro caso veio à tona.

Que em 2018 as atrizes norte-americanas inspirem as brasileiras a dar nomes aos bois (com perdão aos ruminantes) e a expor os assediadores. Por ora, o silêncio ainda é a regra.

Cynara Menezes
No Socialista Morena
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Um balanço de 2017


Um balanço de 2017. O ano não foi um bom ano para as forças de esquerda na medida em que a derrota de 2016 com o impeachment de Dilma Rousseff se transformou em políticas que afetaram profundamente a vida da população. A PEC 55 de dezembro de 2016 ainda não mostrou todos os seus efeitos deletérios mas eles ainda irão se manifestar. A reforma trabalhista já mostra a que veio, permitindo dispensas e recontratações que irão rebaixar os salários da parcela da população que tem uma inserção mais precária no mercado de trabalho.

Ainda assim, é possível afirmar que 2017 foi melhor do que 2016. A reação às políticas conservadoras está disseminada em todos os espaços, da reação a Temer à crítica a Lava Jato. As forças conservadoras que se utilizam destes dois instrumentos, uma maioria conservadora em um congresso completamente tomado pela corrupção e a ação da Lava Jato tentando redefinir os espaços políticos encontraram forte reação em 2017. A Lava Jato não é mais o que era, mas não está ferida de morte. Sofreu diversas derrotas, algumas impingidas pelo próprio governo Temer e outras pelo STF através de Gilmar Mendes. Eles não tem o mesmo apoio na PGR e encontram problemas na manutenção do método condução coercitiva mais prisões preventivas para forçar a delação. Tudo indica que o fim da Lava Jato está próximo e ocorrerá e 2018, ainda que os danos estejam aí e nós teremos que conviver com eles por um longo período.

No campo da esquerda algumas vitórias importantes já se manifestam. O aumento da identificação com o PT que havia caído de quase 30% para 8%, agora está em 20% mostrando uma forte recuperação. Mas o mais importante é a queda da rejeição ao ex-presidente Lula especialmente nas classes A e B que mostra um mudança de postura das classes médias no Brasil que parecem ser no campo da opinião a força decisiva. Eu ainda apontara com importante avanço no campo da esquerda a influência e o espaço midiático conquistado por Boulos e pelo MTST. Toda esta recuperação mostra que a política de resistência do governo federal no período Dilma Rousseff esteve equivocada nas duas principais questões que pautam esta conjuntura desde 2013, a economia e a questão jurídica. Dilma errou nas duas, na maneira como tentou realizar o choque econômico ortodoxo e na maneira como deixou de tentar influir na Lava Jato negando a sua politização. A reação à estas duas forças sem a presença no governo está se mostrando mais profícua do que no período anterior por que tem se concentrado na esfera pública e nas mídias sociais e tem permitido uma recuperação de hegemonia política.

A grande incógnita de 2018 é o poder judiciário. Desde 2012, o poder judiciário assumiu uma nova configuração na sociedade brasileira. Ativo em todas as questões, decide sobre tudo e se pronuncia sobre tudo, ao mesmo tempo que acumula privilégios corporativos inconcebíveis. Tudo indica que o auge desta nova postura irá se manifestar em 2018, mas é possível que auge e decadência ocorram simultaneamente. O judiciário se tornou 11 ilhas completamente independentes entre si e estas ilhas se enfrentarão violentamente em 2018, principalmente o grupo liderado por Gilmar Mendes e o grupo liderado por Luis Roberto Barroso. Todos os dois grupos desgastam o poder judiciário com a sua atuação e começam a receber fortes críticas na mídia e na opinião pública (vide editorial do Estadão desta semana criticando Barroso). A chave da conjuntura continua residindo no mesmo lugar de sempre, na recuperação de uma proposta política progressista que conte com o apoio de um centro que sumiu da política brasileira desde que Aécio Neves e Eduardo Cunha se juntaram para contestar o resultado eleitoral e derrubar a presidente eleita. As forças de esquerda para se recuperarem precisam ter um candidato presidencial viável, mas principalmente uma representação mais forte no Congresso que impeça a farra de emendas constitucionais conservadoras e que permita uma afirmação do sistema politico frente ao poder judiciário. Somente esta nova configuração poderá recolocar o país no rumo de uma política democrática.

Leonardo Avritzer
No GGN
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Judiciário do Peru afasta o “Moro peruano”


O juiz Richard Carhuancho, que se inspirou nas ações juiz brasileiro Sergio Moro para ordenar a prisão de empresários, políticos e ex-presidentes do país envolvidos em casos de corrupção, foi afastado na sexta-feira (29) dos julgamentos de crimes contra a administração pública. A decisão do Conselho Executivo do Judiciário do Peru provocou mal-estar entre magistrados e agravou ainda mais a crise política no país.

O afastamento aconteceu depois da criação de uma norma, na semana passada, que impede juízes de primeira instância controlem investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo crimes contra a administração pública. O procedimento foi incluído no novo estatuto da Câmara Penal Nacional do Peru.

Em entrevista ao jornal El Comercio, Carhuancho afirmou estar decepcionado. “O novo estatuto representa uma perda de confiança do Judiciário não apenas em mim, mas em todos os juízes da Câmara Penal Nacional que lutam contra a corrupção. Na prática, o novo estatuto significa que os novos juízes terão de ser nomeados para julgar casos de corrupção e não há um limite para essas mudanças”.

Juiz de primeira instância, Carhuancho começou a julgar os casos envolvendo pagamento de propina da Odebrecht a políticos peruanos no começo de 2017. Em julho, ele ordenou a prisão dos ex-presidentes Alejandro Toledo e Ollanta Humala, suspeitos de terem se beneficiado de esquemas de corrupção envolvendo a construtora brasileira. A mulher de Humala, Nadine Heredia, também é acusada de ter recebido propina da empreiteira.

Há indícios de que a Odebrecht fez pagamentos ilegais a funcionários peruanos no valor aproximado de US$ 29 milhões entre 2005 e 2014 - nas gestões de Toledo, Alan García e Ollanta Humala. O atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski e a candidata presidencial derrotada em 2016 Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori e líder da oposição, também estão sendo investigados.

O presidente do Judiciário, Duberlí Rodríguez, negou que o novo estatuto seja um revés na luta contra a corrupção. “Ela vai fortalecer o Judiciário para julgar casos envolvendo o crime organizado e não vai afetar os casos vinculados à Odebrecht.”

Em 21 de dezembro, Kuczynski escapou de ser destituído pelo Congresso. A oposição não conseguiu obter os 87 votos necessários para a sua destituição. O pedido de impeachment foi instaurado depois que comissão de parlamentares opositores revelou que a Odebrecht fez pagamentos de US$ 800 mil a uma empresa de consultoria de Kuczynski em meados da década passada. 

Durante o processo de impeachment de Kuczynski, e para se garantir no cargo, PPK, como é conhecido o presidente peruano, concedeu indulto ao ex-ditador Alberto Fujimori, que foi condenado a 25 anos de prisão, em 2009, por crimes contra a humanidade e corrupção. O benefício desatou uma série de manifestações no Peru. Kuczynski foi acusado de ter trocado o indulto pelo engavetamento do processo de impeachment e milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra a libertação de Fujimori.

Advogados das vítimas e de entidades de direitos humanos preparam documentos para tentar conseguir que a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), com sede em San José, na Costa Rica, anule o indulto que Kuczynski concedeu na véspera do Natal. Durante o governo de Fujimori, esquadrões da morte perpetraram dois massacres.

No 247
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Livro revela as 10 “Falácias de Moro” na ação do triplex contra Lula


O filósofo Euclides Mance fez nesta sexta-feira (29), nas redes sociais, o pré-lançamento do livro "Falácias de Moro" e o disponibilizou para download gratuitamente. Na obra, o autor faz uma análise exaustiva das principais inconsistências lógicas, tanto semânticas quanto formais, presentes na sentença condenatória do ex-presidente Lula no caso do tríplex do Guarujá.

O livro se divide em duas partes, demonstrando que os argumentos do juiz Sérgio Moro violam frequentemente as leis da lógica para obter conclusões que não podem ser validamente obtidas.

Na primeira parte, Euclides Mance analisa dez falácias, explicando-as uma a uma, indicando sua forma lógica e a nomenclatura filosófica recorrente na tipificação desses raciocínios falhos, facilitando sua análise e estudo com base na tradição acadêmica.

Na segunda parte, o filósofo percorre a sentença como um todo, evidenciando os diferentes erros lógicos cometidos pelo juiz da lava jato no transcorrer de sua argumentação. E mostra como a condenação do ex-presidente está apoiada justamente nessas inconsistências lógicas.

O livro "Falácias de Moro" é imperdível nesses tempos de ditadura judicial, de ameaça concreta à democracia e à realização de eleições livres em 2018.

Euclides André Mance é filósofo, mestre em Educação, sócio-fundador do Instituto de Filosofia da Libertação (IFiL) e colaborador da Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária.
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