27 de dez. de 2017

Ai, que burro! Alckmin diz na Jovem Pan que vai acabar com a “TV do Lula”

O governador e pré-candidato à presidência apelou ao rótulo fácil de “TV do Lula” para se referir à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal de comunicação democrática criada no governo do petista que administra veículos como a TV Brasil e Agência Brasil




O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), já está em ritmo de campanha e apelando para rótulos fáceis como “TV do Lula” para se referir à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal que pretende pôr fim caso seja eleito presidente em 2018. Em entrevista à rádio Jovem Pan na manhã desta quarta-feira (27), o tucano defendeu uma política privatista por parte do governo federal.

“Se eu for presidente, vou fechar e acabar com isso. Não tem sentido nenhum. É a TV do Lula. Gasta um dinheirão, tem milhares de funcionários e não dá audiência”, afirmou. De acordo com Alckmin, o papel de seu eventual governo vai ser se restringir à regulação e fiscalização das concessões de rádio e TV.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi criada no segundo governo do ex-presidente Lula e foi, durante anos, uma iniciativa exitosa no âmbito da telecomunicação estatal, com uma curadoria de conteúdo diversa, plural e democrática e servindo como uma descentralizadora de informações.

Durante o governo Temer, a empresa de comunicação foi o centro de polêmicas envolvendo a presidência do órgão. Em maio de 2016, o peemedebista demitiu o jornalista Ricardo Melo da direção da EBC. Melo conseguiu retornar ao cargo por decisão judicial, mas acabou exonerado em definitivo, após uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) ser derrubada.

O seu substituto, Laerte Rimoli, deixou o cargo em dezembro deste ano, depois de publicar, em seu perfil pessoal nas redes sociais, piadas racistas envolvendo a atriz Taís Araújo.

Vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a EBC administra veículos como a TV Brasil e Agência Brasil, além de ser a responsável por produzir o programa de rádio “A Voz do Brasil”.

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Sardenberg e Míriam é que quebraram a Petrobras

Oliveira: Sardenberg é um irresponsável!


Ex-economista da Petrobrás denuncia que é falsa a crise na empresa e que ela foi criada para justificar venda de ativos

Muito se fala que a situação de caixa da Petrobrás está delicada, o que serve de argumento para que a estatal empreenda uma verdadeira liquidação de ativos, subsidiárias e participações em importantes projetos, numa espécie de privatização branca.

Mas de acordo com o economista aposentado da própria estatal, Cláudio Oliveira, o cenário das finanças da Petrobrás não é nada catastrófico, como vem sendo alardeado nos últimos anos.

“A mentira foi espalhada por todo o Brasil, conquistando a opinião pública, principalmente com o surgimento dos impairments, as perdas geradas pela reavaliação do valor recuperável de ativos, lançados no balanço, causando elevados prejuízos contábeis. Não que a prática estivesse totalmente equivocada, mas levou muitos leigos a entender que realmente a empresa tinha problemas financeiros quando, na realidade, são ajustes contábeis que não afetam o caixa da companhia”, detalhou Oliveira.

O economista explicou que a Petrobrás é uma empresa com grande capacidade de geração operacional de caixa acima dos US$ 25 bilhões, nos últimos cinco anos.

“Só por estes números é possível afiançar que a Petrobrás, que tem uma dívida liquida inferior a US$ 100 bilhões, não tem problemas na sua administração e portanto não existe necessidade de se desfazer de ativos”, acrescentou.

Como o senhor avalia a estratégia de desinvestimentos da Petrobrás?

Para entender melhor, é preciso voltar um pouco no tempo.

Na última Assembleia Geral de Acionistas (AGE) da Petrobrás, realizada nesta última sexta-feira (15), a Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), na qualidade de acionista minoritário, e exercendo seu direito de fiscalização, se posicionou totalmente contrária ao atual plano de desinvestimentos.

Lembrou que quando Pedro Parente era presidente do Conselho de Administração da Petrobrás (1999/2003), foram tomadas diversas decisões contrárias aos interesses da companhia, como a venda de 36% das ações da empresa na Bolsa de Nova Iorque a preço vil, e iniciado um processo de privatização da empresa, que quase teve o seu nome mudado para Petrobrax.

Em seu voto, a AEPET denuncia que o atual plano de desinvestimentos já causou perdas de R$ 200 bilhões à Petrobrás.

O fato é que, após a descoberta do pré-sal, a empresa passou a ser o principal objeto da cobiça das grandes petroleiras mundiais, que se encontram em situação de penúria, com acentuada queda de suas reservas e receitas.

Para se manter equilibrada na bolsa de valores, a Chevron, que em 2016 apresentou um prejuízo de US$ 500 milhões, efetuou distribuição de dividendos de US$ 4 bilhões.

A Exxon, maior petroleira mundial, apresentou um lucro de US$ 7 bilhões, mas fez uma distribuição de US$ 12 bilhões em dividendos.

Pasmem, estas empresas estão pegando empréstimos para pagar dividendos. É um suicídio financeiro.

Esta situação das grandes petroleiras é o pano de fundo de tudo que ocorre hoje na Petrobrás. Para elas, o pré-sal brasileiro é a tábua de salvação. A única esperança visível.

Algumas revelações mostraram a forte interferência.

O jornalista Glen Greenwald noticiou a negociação do governo Temer para entrega do pré-sal e da Petrobrás para o cartel multinacional.

Tivemos as conversas de Serra com a Chevron detalhadas pela Wikileaks.

Mais recentemente, vimos a revelação do jornal britânico Guardian sobre o lobby montado pela Shell, dentro do governo brasileiro, para a elaboração de leis absurdamente favoráveis ao cartel.

O lobby gerou a MP 795/2017, uma renúncia fiscal de R$ 40 bilhões por ano ou R$ 1 trilhão em 25 anos, além da liberação do conteúdo local, transferindo empregos e renda que seriam criados no Brasil para o exterior.

No Brasil, estas grandes petroleiras ganharam também o apoio de importante parte da mídia, que há vários anos trabalha para desmoralizar a Petrobrás e o pré-sal.

Em 2008, Carlos Alberto Sardenberg em artigo dizia: “O pré-sal só existe na propaganda do governo”, esclarecendo que em diversas partes do mundo este tipo de área havia sido pesquisado sem sucesso.

Em 2009, Miriam Leitão reconheceu “O pré-sal existe mas a Petrobrás não tem tecnologia para retirar petróleo nestas profundidades”, e concluía dizendo que a Petrobrás precisaria de apoio tecnológico de outras petroleiras.

A Petrobrás desenvolveu suas tecnologias sem apoio externo e mostrou ser possível extrair petróleo no pré-sal.

Em 2011, Miriam Leitão dizia que a Petrobrás podia retirar petróleo no pré-sal, mas o custo era muito alto. O negócio era economicamente inviável.

A Petrobrás desenvolveu novas tecnologias, ganhou muitos prêmios internacionais e diminuiu o custo de extração a um nível que nenhuma grande petroleira conseguia chegar.

Viabilizou o negócio. Evidentemente, este fato criou um pânico na mídia.

E agora, o que fazer?

Mas em 2015, com uma elevada oscilação cambial, a dívida da Petrobrás em reais cresceu muito e serviu de motivo para a criação da mãe das mentiras: “A Petrobrás tem sérios problemas financeiros. Tem uma dívida impagável”.

A mentira foi espalhada por todo o Brasil, conquistando a opinião pública.

Problemas financeiros? Então vamos dar uma olhada nos dados dos últimos cinco (2012/2016) balanços auditados e publicados pela empresa:

                                                                       2012    2013    2014   2015    2016
Saldo de caixa (bi de dólares)                 13,52    15,876   16,66    25,06   21,20
Geração Operacional de Caixa                27,04    26,30    26,60   25,90   26,10
Liquidez Corrente                                       1,7         1,5          1,6         1,5        1,8

Não é preciso ser analista de balanços para verificar que uma empresa com estes números não tem, nem nunca teve, problemas financeiros.

No final de abril de 2016, Carlos Alberto Sardenberg publicou um artigo divulgado em todo o Brasil pelas afiliadas da Globo, com a seguinte afirmativa: “Quebraram a estatal. A Petrobrás só não fez ainda um acordo judicial porque é uma empresa estatal. Mas para sobreviver vai precisar de recursos do tesouro”.

O que ocorreu foi exatamente o inverso.

No final de 2016, a Petrobrás adiantou R$ 20 bilhões para o BNDES, aliviando o caixa do banco.

Ao mesmo tempo, um crédito de R$ 16 bilhões que a empresa tem junto à Eletrobrás é mantido em “banho maria”.

Mesmo assim, a companhia terminou o ano com mais de US$ 20 bilhões em caixa.

Naturalmente, Carlos Alberto Sardenberg não se retratou, e o que ficou como verdadeiro para a opinião pública brasileira foi sua falsa e irresponsável notícia.

Mas a imagem da Petrobrás ficou ainda mais abalada depois das revelações da Lava Jato, mostrando o envolvimento de chefes partidários (PT e PMDB) com funcionários da empresa num processo de corrupção envolvendo altíssimas quantias.

É claro que entendemos que todos os responsáveis pelas falcatruas devem ser punidos e, se possível, os recursos roubados devolvidos para a empresa.

O que não podemos aceitar é que estes fatos sirvam para acobertar erros ainda maiores.

Juntaram-se a tudo isto, as revelações da delação da JBS, incriminado o presidente Temer e principalmente Aécio Neves.

Foi a gota d’água para a desesperança dos brasileiros que não acreditam em mais nada.

Tudo uma grande desgraça para a nação brasileira, mas uma grande oportunidade para os vendilhões-da-pátria que se aproveitaram da situação para atuar praticamente sem nenhuma contestação.

O estratégia de desinvestimento da Petrobrás tem por objetivo transformá-la numa empresa insignificante.

Todos sabem da importância das petroleiras manterem atividades integradas (do poço ao posto). Assim, atuam todas as grandes petroleiras do mundo.

O preço do petróleo é muito oscilante e quando a empresa não pode lucrar com o óleo, lucra com o refino ou o transporte.

Durante a guerra do Golfo, por exemplo, o preço do transporte se tornou três vezes mais caro que o preço do petróleo.

Uma empresa só vende ativos lucrativos por extrema necessidade de caixa.

O que não é o caso da Petrobrás. Pelo contrário.

Hoje a Petrobrás está vendendo ativos que rendem mais de 20% ao ano (NTS, Liquigás, Gaspetro etc.) para antecipar amortização de empréstimos que custam 7% ao ano.

Que lógica é esta?

Uma empresa que mantém em caixa mais de US$ 20 bilhões. Pior ainda.

As vendas estão sendo feitas a toque de caixa, sem licitação e a preço de banana, como já denunciado por diversas entidades (Febrageo, Asmirg, Aepet etc. )

Portanto, a política de desinvestimento da Petrobrás é uma parte deste processo de entrega do pré-sal e desmonte da petrolífera brasileira.

É parte do plano de ação de um governo de colonizadores, que só pensa em explorar o país e seu povo.

Em nenhum momento, pensa no seu desenvolvimento.

PS do Viomundo: E, como a Globo prazeirosamente noticiou em dezembro de 2013, a Petrobrás tinha 32% de chance de falir, segundo a consultoria estadunidense Macroaxis.


O petróleo do pré-sal só existe na campanha do governo

qua, 03/09/08


Fala-se do petróleo do pré-sal como se fosse a maior moleza. Para Lula, em um ano, é possível que em um ano a exploração esteja em fase comercial, em larga escala. A ministra Dilma Roussef diz que se encontrou óleo “atrás do galinheiro”.

E os fatos? Iniciou-se uma produção experimental em um campo, o de Jubarte, que é uma circunstância muito especial. Ali, o petróleo do pré-sal está bem abaixo de um poço, digamos, normal. A camada de sal perfurada é de apenas 250 metros e a jazida fica a 70 quilômetros do litoral.

Já no Campo de Tupi, o único para o qual a Petrobras fez uma estimativa de reservas (de 5 bilhões a 8 bilhões de barris), a jazida está entre 5,5 e 7 quilômetros de profundidade, e a camada de sal a ser perfurada chega a 2 mil metros.

Hoje, a Petrobras tem tecnologia garantida para chegar a poços localizados a até a 3 mil metros de profundidade. Para mais, ainda precisa desenvolver tecnologia.

Não é impossível, mas é um enorme desafio, dizem os técnicos da Petrobrás. E o custo é altíssimo, cerca de US$ 1 milhão ao dia só para pesquisar e procurar.

Ou seja, não está atrás do galinheiro, nem vai ter produção em larga escala daqui a um ano.

Acreditar que o óleo está na mão é como acreditar que o Brasil á auto-suficiente em petróleo, mesmo com um déficit de US$ 5,5 bilhões neste ano na conta de óleo e combustíveis.

A auto-suficiência foi tema da campanha de 2002. O pré-sal já é de 2010.


Enterrar de novo o populismo


Os governos petistas sempre tiveram como meta fortalecer as estatais como o melhor meio de combater as propostas de privatização, reais ou imaginárias. Importante esta última ressalva porque, a rigor, privatizar a Petrobras nunca entrou na pauta política brasileira.

Mas isso não importava. Defender as estatais, eis o discurso básico do PT. O partido também procurou desmontar a tese implantada no governo FH, segundo a qual as companhias públicas deveriam ser administradas profissionalmente, quase como se fossem privadas, por executivos e quadros técnicos do setor.

Isso, dizia Lula, era neoliberalismo. Seria colocar as estatais a serviço do mercado e dos interesses privados.

Vai daí, as estatais deveriam ser administradas pelos quadros partidários, pelos companheiros, para que fossem encaminhadas na direção correta.

Essa direção era: ampliar as atividades e o alcance das estatais; objetivos políticos e sociais eram mais importantes que lucros ou valor de mercado; comprar e contratar no mercado nacional, mesmo que a preços mais caros.

Fizeram isso, com requintes de populismo, como o de entregar a administração de recursos humanos da Petrobras a representantes dos sindicatos de petroleiros.

Quebraram a estatal. Vamos falar francamente: a Petrobras só não está em pedido de recuperação judicial porque é estatal. Todo mundo espera que, em algum momento, o governo imprima dinheiro para capitalizar a empresa.

A companhia tem problemas em todos os lados, inclusive de excesso de pessoal e de pessoal mais bem remunerado que no mercado. (Aliás, a ideia era exatamente essa).

A Petrobras não quebrou apenas por corrupção. A causa maior é a péssima administração, consequência daqueles “princípios” estatistas.

Por isso estamos falando do assunto. O estatismo tem sido dominante entre nós. E ainda hoje, muita gente partilha daquelas ideias implantadas pelo PT. Diz esse pessoal: a coisa saiu mal por causa da incompetência dos governos Lula e Dilma, e não porque a tese seja errada.

Esse é o grande risco que corremos. O modelo populista está errado, a doutrina estatista é origem do fracasso. Nem um gênio da gestão empresarial conseguiria evitar o desastre da Petrobras nesse processo em que foi lançada por Lula.

Vai daí que será preciso aproveitar a oportunidade para fazer o contrário, em tudo. Citamos mais a Petrobras porque é o caso mais notável. Imaginemos uma teoria conspirativa: um presidente neoliberal que tivesse a ideia macabra de quebrar a Petrobras para poder fechá-la e, assim, coloca-se uma equipe talhada para produzir o desastre.

Pois não teria conseguido fazer o que a gestão petista aprontou.

Hoje, por exemplo, seria impossível privatizar a Petrobras — a menos que se vendesse a preço de banana. E por falar nisso, a ação da Petrobras não está mesmo valendo menos que um cacho de bananas?

Mas é possível — e absolutamente necessário — vender pedaços da Petrobras e privatizar um monte de ativos. E o que sobrar deve, sim, ser administrado por quadros do mercado, com regras de gestão privada.

O presidente da companhia também deveria ser procurado no mercado, inclusive no mercado internacional. Qual o problema de se colocar um executivo chinês ou norueguês tomando conta da Petrobras, conforme programas aprovados pelos conselhos?

Isso vale para as demais estatais quebradas, como a Eletrobras.

E mais um programa de privatização não envergonhada. Quando percebeu que não tinha mais dinheiro nem competência para arrumar aeroportos, estradas, portos etc., o governo petista resolveu concedê-los à iniciativa privada. Mas como era feio privatizar, colocaram um monte de regras que tornaram o negócio menos atraente e mais caro para os concessionários.

Por isso, isso andou mal.

Fazendo o contrário, aqui há uma hipótese de rápida retomada de negócios. Muitas empresas médias, nacionais e estrangeiras, estão prontas para tomar o negócio das empreiteiras apanhadas na Lava-Jato. O que não funciona é privatizar e dizer que o concessionário não pode ganhar dinheiro ou só pode ganhar quanto o governo autorizar.

Tudo isso vale também para os bancos públicos. Todo o mercado desconfia que estão em situação pior do que no final dos anos 90, quando o governo FH precisou colocar um monte de dinheiro no BB e na Caixa.

A contrapartida foi a gestão profissional nesses bancos, também desmontada pelos governos petistas. Quebraram de novo.

A tristeza disso é que os governos Lula/Dilma estragaram o que estava pronto e funcionando. O que traz um certo ânimo é que sabemos o que precisa fazer: é só repetir a combinação privatização/profissionalização/equilíbrio das contas públicas.

O país já havia conseguido enterrar o populismo estatizante. Ressuscitou. Agora é preciso corrigir o desastre e colocar esse populismo numa cova bem profunda, em algum cemitério privado, claro.

No Viomundo e CAf
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Temer, Marun, o Judiciário e o país que faz da chantagem a sua bandeira

Seu Cascata e Cascatinha
Michel Temer prova, dia após dia, que o seu governo não possui limites quando o assunto é afrontar as leis e a dignidade pública.

Talhado nos piores vícios das piores práticas políticas, a quadrilha do Palácio do Planalto não economiza em escandalizar as instituições, o parlamento, os entes federados e a própria República.

Escoltado pelo seu mais novo cão de guarda palaciano – o brucutu que atende pelo nome de Carlos Marun – a dupla tem feito mais pela desmoralização e criminalização da política do que qualquer marginal eleito pelo tráfico de drogas jamais poderia imaginar.

Visto que a compra direta de deputados em ano eleitoral já não é suficiente para arrebanhar o número suficiente de covardes que pretendem emplacar o mais duro golpe nas classes menos favorecidas, a última investida se dá agora diretamente nos governadores.

Numa retórica que deve estar fazendo com que Cícero, o grande orador romano, se revire no túmulo, Marun, o rinoceronte numa loja de cristais, veio a público afirmar que condicionar os financiamentos que estão disponíveis nos bancos públicos para aliviar a situação catastrófica dos estados em troca de votos para a reforma da previdência, “não é chantagem”.

Segundo o energúmeno, trata-se apenas de uma “política de governo”.

O fato em si já seria um escândalo se não levasse a reboque o crime de lesa-pátria de estar transformando importantes bancos públicos em meros instrumentos de negociatas espúrias ao custo da deterioração de suas imagens, do comprometimento da eficácia de suas políticas econômicas e sociais, da quebra de sua soberania contábil e do esfacelamento no quesito impessoalidade na liberação de recursos.

E pensar que uma presidenta foi afastada acusada de “pedaladas fiscais”.

O assunto é tão ultrajante que até correligionários de ocasião como o governador do RN, Robson Faria, já sente na pele o preço de ter aliado-se com a escória da política nacional.

Mandatário de uma gestão que levou o estado à bancarrota, Robson hoje não passa de uma ameba política que rasteja para concluir o seu mandato. 

Enquanto o Rio Grande do Norte vive uma de suas maiores crises econômicas da história, o governador que preferiu ajoelhar-se ao golpe de 2016 agora pena para que seu atual presidente libere R$ 600 milhões que estão disponíveis na Caixa Econômica Federal.

O recurso é imprescindível para conter a onda de paralisações no serviço público do estado que já atinge os profissionais da saúde, educação e segurança. Enquanto o “acordo” não sai, os salários dos servidores simplesmente não são pagos.

Nessa altura, alguém de boa índole e com um mínimo de esperança no poder judiciário já pode ter se perguntado: e a justiça não faz nada?

Na verdade fez. E o que de melhor ela sabe fazer: garantir o seu.

Alheio à escassez de recursos, o Tribunal de Justiça do RN, o mesmo que há não muito tempo virou notícia no escândalo dos precatórios, aprovou no mês de outubro o pagamento retroativo de auxílio-moradia aos juízes potiguares. 

Estima-se que o valor possa ultrapassar o montante de R$ 120 mil para cada magistrado. Teto do funcionalismo público? Que bobagem.

Pois é! Enquanto a população sofre com a insegurança (a Polícia Militar continua em greve) e os professores da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte ainda aguardam o recebimento dos proventos de novembro, dezembro e décimo-terceiro, o ilustre poder judiciário ostenta suas benesses na sua folha de pagamento.

Para que não reste dúvida do descaso com que o Poder Judiciário trata os recursos públicos, basta mencionar também que o mesmo TJRN não vê qualquer problema em pagar um salário superior a R$ 7 mil a alguns de seus estagiários. 

Não, você não leu errado. Num estado economicamente quebrado, o TJRN paga mais de sete mil reais a meros estagiários sem qualquer concurso público. Não basta ter privilégios, é preciso esfregá-los na cara de quem não os possui.

O Rio Grande do Norte hoje é um retrato 3X4 do Brasil pós-golpe. 

Numa nação que abdicou a democracia pelo estelionato, sua bandeira não poderia ser outra mesmo se não a da chantagem. 

Com Supremo, com tudo.

Carlos Fernandes
No DCM
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Garotinho solto põe a Rede Globo em polvorosa


O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PR), acusado de compra de votos nas eleições de 2012 e de receber dinheiro de caixa 2 no pleito de 2014, publicou texto em seu blog no qual afirma ter documentos que irá divulgar como prova de que a TV Globo pagou propina a dirigentes da Fifa, da CBFe da Concacaf (federação de futebol da América Central e do Norte) para adquirir o direito de transmissão de eventos esportivos. Em nota, a emissora reafirmou seu “compromisso com relações éticas” nesse tipo de negociação e seu “total apoio às investigações e medidas judiciais que garantam a integridade e transparência no futebol”.

Preso em um desdobramento da Operação Chequinho, que apura a compra de votos nas eleições de Campos dos Goytacazes (RJ), Garotinho foi solto na semana passada, por decisão do ministro Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Nesta terça-feira, seis dias depois de deixar a cadeia, ele retomou a atividade de seu blog pessoal para divulgar um texto contra a emissora. Garotinho alega possuir documentos e depoimentos que incriminariam a TV Globo no escândalo de corrupção da Fifa, no que chamou de “Padrão Globo de Propina (PGP)”.

Um dos relatos de posse do ex-governador seria o do empresário e jornalista J. Hawilla, “que promete levar para a prisão outros dirigentes da entidade que comanda o futebol brasileiro e de outras federações, confederações e da própria Fifa”. A ponte de Hawilla com a emissora seriam anotações de pagamentos com a sigla “MCP”, que Garotinho diz ser uma referência ao ex-diretor da Globo Marcelo Campos Pinto, e sociedades entre o empresário e a família Marinho, dona da emissora.

Na lista desses negócios, o político cita a unidade da TV TEM, afiliada da TV Globo no interior de São Paulo, em Sorocaba (SP). A VEJA, a emissora explica que “não há, desde 2010, qualquer participação da família Marinho na TV TEM”. A Globo ainda reitera que “em sua cobertura jornalística, continuará a divulgar todas as informações relevantes sobre o assunto”.

Uma das testemunhas mais importantes no escândalo de corrupção da Fifa, Hawilla é dono da empresa de marketing esportivo Traffic, que Garotinho acusa de ser a “principal ponte da propina” para a Globo. “O grande negócio da vida de Hawilla é a Traffic. Foi através dessa empresa que ele se tornou a ponte de propina paga pelo Grupo Globo aos dirigentes da FIFA, da CBF, da Concacaf (América Central) e outras entidades do futebol mundial”, escreveu o ex-governador.

No Luíz Müller Blog
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Geddel


PF suspeita de lavagem de dinheiro em aluguel de máquinas em fazendas de Geddel

A Polícia Federal abriu novas investigações sobre lavagem de dinheiro contra o ex-ministro Geddel Vieira Lima, ainda no âmbito da 'Operação Cui Bono?'. Os investigadores veem indícios de lavagem de dinheiro do peemedebista 'através do falso aluguel de maquinário agrícola para suas fazendas.

Os pagamentos alvo de suspeita da PF chegam aos R$ 6,3 milhões de um valor de R$ 7,1 milhões que ainda seria pago, de acordo com o jornal O Estado de São Paulo. Investigadores tiraram fotos do carro de Valério em propriedade de Geddel. Reprodução do relatório da PF

Em de 29 de novembro, uma semana antes da denúncia oferecida pela procuradora-geral da República Raquel Dodge, o agende da PF, Arnold Fontes Mascarenhas Neto, entregou o relatório ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, relator do inquérito sobre o bunker dos R$ 51 milhões.

Segundo os investigadores, Geddel se utilizava da empresa JT Terraplanagens, de propriedade de Valério Sampaio Sousa, apontado como um 'funcionário informal do ex-ministro para fazer os supostos falsos alugueis de maquinários agrícolas.

No documento, a PF detalha que Geddel é dono de 12 fazendas no interior da Bahia, que totalizam cerca de 9 mil hectares, com valor de R$ 67 milhões.

Ferraz confessa que pegou malas de dinheiro para Geddel em SP

O ex-chefe da Defesa Civil de Salvador Gustavo Pedreira Ferraz, homem de confiança de Geddel Vieira Lima e do PMDB na Bahia, confessou à Polícia Federal que buscou malas de dinheiro em um hotel, em São Paulo, para o ex-ministro, em 2012, no âmbito das eleições municipais.

Ele diz nunca ter ido ao bunker dos R$ 51 milhões em Salvador, mas alega que a viagem à capital paulista pode explicar o fato de suas digitais terem sido encontradas nas cédulas. As digitais do diretor da Defesa Civil foram identificadas nos sacos plásticos que envolviam os R$ 51 milhões no apartamento emprestado pelo empresário Silvio Antônio Cabral Silveira.

Digitais de Geddel também aparecem nas notas de dinheiro da maior apreensão da história da Polícia Federal brasileira. Até mesmo a fatura da empregada do deputado Lucio Vieira Lima (PMDB-BA), irmão de Geddel, foi achada no apartamento, que fica a apenas 1,2 km da casa do ex-ministro e de sua mãe. Ao pedir a prisão de Ferraz, a Procuradoria da República no Distrito Federal afirmou que o agente público seria o interposto de Geddel Vieira Lima que foi buscar propinas em um hotel em São Paulo junto ao operador de Eduardo Cunha, Altair Alves Pinto. Ele foi denunciado pela Procuradora-Geral da República Raquel Dodge.

Ferraz disse acreditar que ‘suas digitais foram identificadas no material encontrado durante a busca, uma vez que no ano de 2012, a pedido de Geddel Vieira Lima, transportou de São Paulo/SP para Salvador/BA dinheiro de contribuição para campanhas do PMDB da Bahia’.

Ele ainda diz que Geddel ‘disse à época que o dinheiro seria utilizado nas campanhas dos Prefeitos e vereadores do PMDB no Estado da Bahia’. Ferraz contou à PF que foi informado pelo ex-ministro de que ‘a entrega do dinheiro seria intermediada por uma outra pessoa’ com quem ele deveria se encontrar em um hotel. Ele alega que foi até o hotel indicado e se encontrou com a pessoa – não identificada em seu depoimento – e que, com ela, foi até um escritório ‘sem identificação externa’ aonde aguardou em uma sala de reuniões até pegar, junto a outro interposto, uma mala de dinheiro de ‘tamanho pequeno, compatível com as permitidas no interior de aviões’. Ferraz ainda dá conta de que ‘logo depois, a pessoa que o entregou a mala ‘lhe disse para descer até a garagem do prédio e entrar num Vectra de cor preta para ser transportado até o aeroporto de Congonhas’.

Segundo o ex-diretor da Defesa Civil de Salvador, o motorista do Vectra o levou até ‘o comandante da tripulação de uma aeronave particular’ e ‘orientou a embarcar em um voo fretado para Salvador’. Quando chegou à capital Baiana, ele alega ter sido levado por um motorista do PMDB até a casa de Geddel, aonde a mala, com notas de R$ 50 e R$ 100, foi aberta e o dinheiro foi conferido.

PMDB baiano avalia expulsar o ex-ministro Geddel

Peemedebistas filiados ao partido na Bahia já discutem e admitem a expulsão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, desde que sejam provadas as acusações, caso da existência do “bunker” com malas de dinheiro atribuído a ele, em Salvador.

Até mesmo Micael Silveira, que preside o núcleo de juventude na Bahia, afirmou que o ex-cacique do partido terá que pagar por cada erro que for provado: “Não vamos defendê-lo, apenas por ter sido um dia líder do partido”. Essa opinião também foi referendada pelo deputado estadual Leur Lomanto Jr, de acordo com reportagem de Henrique Brinco, na Tribuna da Bahia.

O ex-ministro foi afastado do PMDB nacionalmente. Geddel foi preso no dia 8 de setembro, três dias depois que a PF encontrou cerca de R$ 51 milhões no apartamento de um amigo do político. Segundo a Polícia Federal, parte do dinheiro seria resultante de um esquema de fraude na liberação de créditos da Caixa Econômica Federal no período entre 2011 e 2013, quando o ex-ministro era vice-presidente de Pessoa Jurídica da instituição.
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A guerra contra o Papa Francisco

A sua modéstia e humildade fizeram dele uma figura popular por todo o mundo. Mas, dentro da Igreja, as suas reformas têm enfurecido os conservadores e provocado uma revolta. O homem que há precisamente uma semana fez 81 anos e vive com apenas um pulmão, é o primeiro Papa não europeu dos tempos modernos e tem neste momento em mãos uma Igreja dividida. Um dos seus mais ferozes críticos, o cardeal Burke, é o mesmo que serviu de inspiração a uma série de proeminentes figuras laicas de direita nos Estados Unidos, de Pat Buchanan a Steve Bannon ou Newt Gingrich.

O Papa Francisco é actualmente um dos homens mais odiados do mundo. E quem mais o odeia não são ateus, protestantes ou muçulmanos, mas alguns dos seus próprios seguidores. Fora da Igreja goza de grande popularidade, afirmando-se como uma figura de uma modéstia e uma humildade quase ostensivas. Desde o momento em que o cardeal Jorge Bergoglio se tornou Papa em 2013, os seus gestos prenderam a atenção do mundo: o novo Papa guiou um Fiat, transportou as próprias malas e pagou a conta em hotéis; sobre os homossexuais, perguntou: “Quem sou eu para julgar?”, e lavou os pés de refugiadas muçulmanas.

Dentro da Igreja, porém, Francisco tem desencadeado uma reacção feroz por parte dos mais conservadores, que temem que este novo espírito divida a Igreja ou até que a destrua. Este Verão, um proeminente clérigo inglês disse-me: “Mal podemos esperar que ele morra. É impublicável o que dizemos dele em privado. Sempre que dois padres se encontram, falam sobre o quão horrível Bergoglio é… ele é como Calígula: se tivesse um cavalo, fazia dele cardeal.” Claro que após dez minutos de repetidas críticas, acrescentou: “Não pode publicar nada disto, senão serei despedido.”

Esta mistura de ódio e temor é frequente entre os adversários do Papa. Francisco, o primeiro Papa não europeu dos tempos modernos e o primeiro Papa jesuíta da História, foi eleito como um outsider dos poderes instituídos do Vaticano e era esperado que fizesse inimigos. Mas ninguém previu que fizesse assim tantos. Desde a sua rápida renúncia à pompa do Vaticano, que marcou desde logo a diferença na relação com os mais de três mil empregados civis do Vaticano, ao seu apoio aos migrantes, às suas críticas ao capitalismo global e, acima de tudo, à sua intenção de reexaminar as posições da Igreja relativamente ao sexo, o Papa tem vindo a escandalizar os reaccionários e os conservadores. A julgar pelos números das votações do último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais — o mais alto organismo da organização clerical — está convencido de que o Papa se está a aproximar da heresia.

A questão crítica prende-se com a sua visão sobre o divórcio. Num corte com séculos, senão milénios, de doutrina católica, o Papa Francisco tem tentado encorajar os padres católicos a darem a comunhão a alguns casais divorciados ou casados em segundas núpcias e a famílias cujos pais não são casados. Os seus inimigos estão a tentar forçá-lo a abandonar essa ideia. Como ele se tem mantido firme e mostrado uma sóbria perseverança face ao crescente descontentamento, começam agora a preparar-se para a guerra. No ano passado, um cardeal, com o apoio de alguns colegas já aposentados, levantou a possibilidade de uma declaração formal de heresia — a rejeição intencional de uma doutrina estabelecida da Igreja, pecado punível com a excomunhão. Em Setembro, 62 católicos descontentes, nos quais se incluem um bispo já retirado e um antigo director do Banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta em que apontam a Francisco sete acusações específicas de ensinamentos heréticos.

62 católicos descontentes, nos quais se incluem um bispo e um antigo director do Banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta em que apontam a Francisco sete acusações específicas de ensinamentos heréticos

Acusar um Papa em funções de heresia é o equivalente católico à opção nuclear. A doutrina afirma que o Papa não pode estar errado quando se pronuncia sobre questões centrais da fé; portanto, se está errado, não pode ser Papa. Por outro lado, se este Papa está certo, todos os seus antecessores têm de ter estado errados.

A discussão está particularmente envenenada porque assenta quase na totalidade em bases teóricas. Na prática, em quase todo o mundo, os casais que se divorciam e voltam a casar têm acesso à comunhão. O Papa Francisco não está a propor numa revolução, apenas o reconhecimento institucional de um sistema que já existe e que pode até ser essencial para a sobrevivência da Igreja. Se as regras fossem aplicadas à letra, nenhuma pessoa cujo casamento tivesse falhado poderia voltar a ter relações sexuais. Essa não é uma boa maneira de assegurar a existência de gerações futuras de católicos.

Mas, para os seus detractores, as reformas cautelosas de Francisco põem em causa a crença de que as verdades da Igreja são intemporais. Porque se não são, perguntam os conservadores, então qual o seu valor? A batalha sobre o divórcio e os novos casamentos põe em confronto duas ideias profundamente opostas sobre o papel da Igreja. A insígnia do Papa são duas chaves cruzadas, que representam as que Jesus terá supostamente dado a S. Pedro, e que simbolizam os poderes de unir e separar, ou seja, proclamar o que é pecado e o que é permitido. Mas qual dos poderes é hoje mais importante e mais urgente?

PÚBLICO - A sua primeira visita oficial fora de Roma, em 2013, foi à ilha de Lampedusa, que se tinha tornado o ponto de chegada de dezenas de milhares de desesperados migrantes vindos do Norte de África

A hipótese de um cisma

A crise actual é a mais séria desde que as reformas liberais dos anos 1960 fizeram com que um grupo dissidente de conservadores da “linha dura” abandonasse a Igreja (o seu líder, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, viria mais tarde a ser excomungado). Nos últimos anos, escritores conservadores têm repetidamente levantado a hipótese de um cisma. Em 2015, o jornalista americano Ross Douhat, um convertido ao catolicismo, escreveu um artigo para a revista Atlantic intitulado “Irá o Papa Francisco destruir a Igreja?”; num blogue na Spectator, o tradicionalista inglês Damian Thompson afirmou peremptoriamente que “o Papa Francisco está em guerra com o Vaticano. Se sair vencedor, a Igreja poderá desmoronar-se”. Segundo um arcebispo do Cazaquistão, as posições do Papa relativamente ao divórcio e à homossexualidade permitiram que o “fumo de Satã” envolvesse a Igreja.

A Igreja Católica passou grande parte do último século a lutar contra a revolução sexual, tal como havia lutado antes contra as revoluções democráticas do século XIX, e essa luta levou-a a ter de defender uma doutrina insustentável, pela qual toda a contracepção artificial é proibida, bem como qualquer relação sexual fora de um casamento eterno. Como o Papa Francisco reconhece, não é assim que as pessoas agem normalmente. E o clero também o sabe, mas é esperado que finja que não. Ou seja, a doutrina oficial não pode ser questionada, mas também não pode ser cumprida. Um dos lados terá de ceder e, quando tal acontecer, a explosão resultante poderá fracturar a Igreja.

“O Papa Francisco está em guerra com o Vaticano. Se sair vencedor, a Igreja poderá desmoronar-se”
Damian Thompson

Não deixa de ser curioso que os frequentes choques e ódios dentro da Igreja — resultantes das posições sobre as alterações climáticas, as migrações ou o capitalismo — tenham chegado a um ponto de não retorno numa enorme batalha sobre as implicações de uma única nota de rodapé de um texto intitulado “A Alegria do Amor” (ou, no original latim, Amoris Laetitia). A exortação, escrita por Francisco, é um sumário do debate corrente sobre a questão do divórcio e numa nota de rodapé o autor faz aparentemente uma leve afirmação de que os casais divorciados e que voltem a casar poderão eventualmente receber a comunhão.

Com mais de mil milhões de fiéis, a Igreja Católica é a maior organização global que o mundo alguma vez viu, e muitos dos seus seguidores são divorciados ou pais solteiros. Para realizar o seu trabalho por todo o mundo, a Igreja depende de trabalho voluntário, ou seja, se os comuns fiéis deixarem de acreditar no que estão a fazer, todo o sistema colapsa. Francisco sabe disso. Se não for capaz de conciliar teoria e prática, a Igreja pode assistir a uma debandada. Os seus oponentes também defendem que a Igreja enfrenta uma crise, mas a sua solução é a contrária. Para eles, a distância ente teoria e prática é exactamente o que dá valor e sentido à Igreja. Se tudo o que a Igreja tiver para oferecer for algo de que as pessoas não sentem necessidade de procurar, dizem os que se opõem a Francisco, então irá seguramente colapsar.

Liberais e conservadores: uma definição falaciosa

Ninguém previu este confronto quando Francisco foi eleito em 2013. Uma das razões da sua escolha foi precisamente o objectivo de solucionar a rígida burocracia do Vaticano, tarefa há muito adiada. O cardeal Bergoglio, de Buenos Aires, foi eleito como um relativo outsider, o que à partida facilitaria a eliminação de algumas das forças de bloqueio comuns ao âmago da Igreja. Mas essa missão entrou rapidamente em rota de colisão com uma fractura ainda mais acrimoniosa dentro da Igreja, que é geralmente descrita como a batalha entre os “liberais”, como Francisco, e os “conservadores”, dos quais fazem parte os seus adversários. Contudo, essa é uma definição equívoca e falaciosa.

A disputa central põe em confronto os católicos que acreditam que a Igreja deve liderar a agenda do mundo e os que, por outro lado, defendem que são as circunstâncias mundiais que devem definir as posições da Igreja. Essas são, porém, as posições idealistas: no mundo real, qualquer católico será uma mistura dessas duas orientações, tendo, na maior parte dos casos, a predominância de uma delas.

Francisco é um puro exemplo de um católico extrovertido, ou “virado para fora”, especialmente se comparado com os seus antecessores imediatos. Os seus oponentes são os introvertidos. Para muitos, a primeira coisa que os atraiu na Igreja foi exactamente a sua distância relativamente às preocupações mundanas. Um número surpreendente dos mais proeminentes introvertidos são protestantes americanos convertidos, alguns impulsionados pela superficialidade dos recursos intelectuais com que foram educados, mas muito mais por um sentimento de que o enfraquecimento do protestantismo liberal se deve precisamente ao facto de ter deixado de ser uma alternativa à sociedade que o rodeia. Querem mistério e fervor, não senso comum estéril e sabedoria convencional. Nenhuma religião pode florescer sem tal impulso.

O Segundo Concílio, ou Vaticano II, renunciou ao anti-semitismo, abraçou a democracia, proclamou direitos humanos universais e aboliu a missa em latim

Mas também nenhuma religião global se pode contrapor totalmente ao mundo em que se encontra inserida. No início dos anos 1960, um encontro que durou três anos entre bispos de todos os quadrantes da Igreja, que ficou conhecido como o Segundo Concílio do Vaticano, ou Vaticano II, “abriu as janelas para o mundo”, nas palavras do Papa João XXIII, que o convocou, mas que morreu antes da sua conclusão.

O concílio renunciou ao anti-semitismo, abraçou a democracia, proclamou direitos humanos universais e aboliu, em larga escala, a missa em latim. Esta última medida, em particular, chocou os introvertidos. O escritor Evelyn Waugh, por exemplo, recusou-se a partir desse momento a participar numa missa em inglês. Para homens como ele, os rituais solenes de um serviço religioso realizado por um padre de costas para a congregação, falando inteiramente em latim e encarando Deus no altar, eram o próprio coração da Igreja — uma janela para a eternidade reencenada a cada representação. O ritual tinha uma posição central na Igreja, de uma forma ou de outra, desde a sua fundação.

Simbolicamente, a mudança provocada pela nova liturgia — a troca do padre introvertido que encarava Deus no altar pela figura extrovertida virada para a congregação — foi imensa. Alguns conservadores ainda hoje não se reconciliaram com a reorientação, entre os quais, o cardeal guineense Robert Sarah, que tem sido apontado pelos introvertidos como possível sucessor de Francisco, e o cardeal americano Raymond Burke, que tem emergido como o mais veemente opositor público de Francisco. Nas palavras da jornalista católica inglesa Margaret Hebblethwaite, uma fervorosa apoiante do Papa Francisco, a crise actual é nada menos que “o regresso do Vaticano II”.

“Devemos ser inclusivos e acolher tudo o que é humano”, afirmou Sarah num encontro no Vaticano no ano passado, numa condenação das propostas de Francisco, “mas o que vem do inimigo não pode nem deve ser assimilado. Não podemos seguir Cristo e Belial! As ideologias ocidentais da homossexualidade e do aborto e o extremismo islâmico representam nos dias de hoje o que o nazismo, o fascismo e o comunismo representaram no século XX”.

PÚBLICO - Campanha 'Share the Journey' (numa tradução literal, Partilhem o Caminho) com a Caritas Internacional. O objectivo é aproximação entre comunidades de imigrantes e refugiados com as populações locais

Ressurgimento pentecostal

Nos anos imediatamente a seguir ao concílio, freiras deitaram fora os seus hábitos, padres descobriram as mulheres (mais de cem mil deixaram o sacerdócio para se casarem) e teólogos livraram-se das correntes da ortodoxia introvertida. Após 150 anos de resistência e de rejeição do mundo exterior, a Igreja deu por si completamente envolvida por esse mundo, até ao ponto em que os introvertidos temeram que o edifício estivesse em risco de se desmoronar.

A afluência às igrejas caiu a pique no mundo ocidental, tal como aconteceu noutras denominações. Nos Estados Unidos, 55% dos católicos iam regularmente à missa em 1965; em 2000, esse número era de apenas 22% [em Portugal, segundo dados do Vaticano, em 2015, existiam 9,183 milhões de católicos numa população de 10,34 milhões de pessoas, correspondendo a uma percentagem de 88,7%, mais quatro décimas do que em 2010]. Em 1965, foram baptizados um milhão e trezentos mil bebés nos EUA; em 2016, apenas 670 mil. Se esta tendência é ou não fruto de uma relação causa/efeito, é algo que continua a ser ferozmente discutido. Os introvertidos põem a culpa no abandono das verdades universais e das práticas tradicionais; os extrovertidos acham que as mudanças na Igreja não foram suficientes ou suficientemente rápidas.

Em 1966, um comité papal de 69 membros, no qual se incluíam sete cardeais e 13 médicos, bem como laicos e até algumas mulheres, votou esmagadoramente a favor do levantamento da proibição do uso de contracepção artificial, mas o Papa Paulo VI revogou a votação em 1968. Não podia admitir que os seus predecessores estivessem errados e os protestantes certos. Para uma inteira geração de católicos, esta disputa passou a simbolizar a resistência da Igreja à mudança. Nos países em desenvolvimento, a Igreja Católica foi em grande parte ultrapassada por um ressurgimento pentecostal, que oferecia tanto a encenação como estatuto para os laicos e para as mulheres.

“A Igreja pode ser uma barafunda, mas o importante é que o centro seja sólido e tudo pode ser reconstruído a partir do centro"
Ross Douthat, jornalista católico

Os introvertidos tiveram a sua vingança aquando da eleição do Papa (agora Santo Papa) João Paulo II, em 1978. A sua Igreja polaca era caracterizada pela oposição ao mundo exterior e aos seus líderes desde que os nazis e os comunistas dividiram o país em 1939. João Paulo II era um homem impressionante, dotado de uma tremenda energia e força de vontade. Era também profundamente conservador em questões de moralidade sexual e, enquanto cardeal, tinha apresentado a justificação intelectual para a proibição do controlo de natalidade. Desde o momento da sua eleição que começou a moldar a Igreja à sua imagem. Mesmo que não conseguisse imprimir-lhe o seu dinamismo e vontade, parecia que iria conseguir purgá-la da extroversão e uma vez mais estancar as correntes do mundo secular.

Ross Douthat, jornalista católico, foi das poucas pessoas do lado dos introvertidos a disponibilizarem-se a falar abertamente sobre o conflito actual. Na sua juventude foi um dos convertidos atraídos para a Igreja de João Paulo II. Afirma hoje que “a Igreja pode ser uma barafunda, mas o importante é que o centro seja sólido e tudo pode ser reconstruído a partir do centro. Ser católico é ter a garantia da continuidade no centro e com isso a esperança do restabelecimento da ordem católica”.

João Paulo II teve o cuidado de nunca repudiar as palavras do Vaticano II, mas fez o possível para as esvaziar do seu espírito extrovertido. Começou por impor uma disciplina férrea ao clero e aos teólogos. Tentou também tornar o mais difícil possível a renúncia dos padres para poderem casar. A sua aliada nesse objectivo foi a Congregação para a Doutrina da Fé, ou CDF, antes conhecida como o Santo Ofício. Institucionalmente, a CDF é a mais introvertida de todos os “ministérios” do Vaticano (ou “dicastérios”, como são conhecidos desde o tempo do Império Romano; é um detalhe que sugere o peso da inércia e da experiência institucional — se o nome era bom para Constantino, porquê mudá-lo?).

Para a CDF, é axiomático que o papel da Igreja é ensinar o mundo, não aprender com ele. Tem uma longa tradição de punir teólogos que discordam: houve casos de proibição de publicações e de despedimentos de universidades.

Ainda no início do pontificado de João Paulo II, a CDF publicou Donum Veritatis (“O Dom da Verdade”), documento que explica que todos os católicos devem praticar a “submissão da vontade e do intelecto” aos ensinamentos do Papa, mesmo que não sejam infalíveis; e que os teólogos, mesmo que possam estar em desacordo e manifestá-lo aos seus superiores, nunca o devem fazer em público. Estas palavras foram usadas como ameaça, às vezes até como arma, contra qualquer pessoa suspeita de dissidência liberal. Francisco, contudo, virou estes poderes contra os que tinham sido os seus maiores defensores. Os padres, os bispos e até os cardeais estão ao serviço do Papa e podem ser demitidos a qualquer momento. Sob Francisco, os conservadores aprenderam essa lição: pelo menos três teólogos foram demitidos da CDF. Os jesuítas exigem disciplina.

Cardeal Burke & Steve Bannon

Em 2013, pouco tempo após a sua eleição e quando estava ainda num estado de quase universal aclamação pela ousadia e simplicidade dos seus gestos — tinha-se mudado para um par de singelos quartos no Vaticano, por oposição aos sumptuosos apartamentos do Estado usado pelos seus antecessores —, Francisco expurgou uma pequena ordem religiosa que se devotava à prática da missa tridentina, dita em latim.

Os Frades Franciscanos da Imaculada, grupo com cerca de 600 membros, homens e mulheres, já tinham sido colocados sob investigação por uma comissão em Junho de 2012, no papado de Bento XVI. Eram acusados de combinar uma cada vez mais extremista política de direita com a devoção à missa tridentina. (Esta combinação, que surge frequentemente associada a declarações de ódio ao “liberalismo”, tinha vindo também a espalhar-se online nos EUA e no Reino Unido, como é exemplo o blogue do Daily Telegraph Holy Smoke, editado por Damian Thompson.)

Quando a comissão apresentou as suas descobertas em 2013, a reacção de Francisco chocou os conservadores. Proibiu os frades de usarem a missa tridentina em público e fechou o seu seminário. Continuaram a poder formar novos padres, mas não segregados do resto da igreja. Mais, tomou estas decisões directamente, sem passar pelo sistema judicial interno do Vaticano, à altura dirigido pelo cardeal Burke. No ano seguinte, Francisco demitiu Burke do seu poderoso cargo no sistema judicial do Vaticano. Nesse momento, ganhou um inimigo implacável.

Burke, um americano robusto dado a vestes bordadas a renda e, em ocasiões formais, a uma capa de cerimónias escarlate tão comprida que precisa de ser carregada por pajens, era um dos mais conspícuos reaccionários do Vaticano. Em modos e em doutrina, representa uma longa tradição de pesos-pesados americanos do poder do catolicismo de etnia branca. A hierática, patriarcal e conflituosa igreja da missa tridentina é o seu ideal, e ao qual parecia que a Igreja estava lentamente a voltar sob o comando de João Paulo II e Bento VXI — até que Francisco começou o seu trabalho.

A combinação de anticomunismo, orgulho étnico e ódio ao feminismo do cardeal Burke inspirou uma série de proeminentes figuras laicas de direita nos Estados Unidos

A combinação de anticomunismo, orgulho étnico e ódio ao feminismo do cardeal Burke inspirou uma série de proeminentes figuras laicas de direita nos Estados Unidos, de Pat Buchanan a Bill O’Reilly e a Steve Bannon, bem como outros intelectuais católicos menos famosos, como Michael Novak, que têm batalhado incansavelmente a favor das guerras americanas no Médio Oriente e da perspectiva republicana sobre os mercados livres.

Foi o cardeal Burke quem em 2014 convidou Bannon, já na altura a mente por trás do Breitbart News, a dirigir-se a uma conferência no Vaticano via vídeo emitido na Califórnia. O discurso de Bannon foi apocalíptico, incoerente e historicamente excêntrico. Mas não foi inocente o seu chamamento para uma guerra santa: a Segunda Guerra Mundial, afirmou, foi na realidade “o Ocidente judeu-cristão contra os ateus” e agora a civilização está “nas etapas iniciais de uma guerra global contra o fascismo islâmico… um conflito brutal e sangrento… que irá erradicar completamente tudo o que nos foi legado nos últimos 2000, 2500 anos… se as pessoas nesta sala, as pessoas da Igreja, não… lutarem pelas nossas crenças, contra esta nova barbaridade que está a surgir”.

Tudo nesse discurso é um anátema para Francisco. A sua primeira visita oficial fora de Roma, em 2013, foi à ilha de Lampedusa, que se tinha tornado o ponto de chegada de dezenas de milhares de desesperados migrantes vindos do Norte de África. Como ambos os seus antecessores, opõe-se firmemente às guerras no Médio Oriente, embora o Vaticano tenha apoiado relutantemente a extirpação do califado do Estado Islâmico. Opõe-se à pena de morte e despreza e condena o capitalismo americano: depois de marcar o seu apoio aos migrantes e aos homossexuais, a primeira grande declaração política do seu pontificado foi uma encíclica, dirigida a toda a Igreja, que condenava ferozmente o funcionamento dos mercados globais.

“Algumas pessoas continuam a defender teorias ‘conta-gotas’ [trickle-down, no original], que assumem que o crescimento económico, encorajado por um mercado livre, irá inevitavelmente resultar em maior justiça e inclusividade pelo mundo. Tal crença, que nunca foi sustentada pelos factos, exprime uma confiança arrogante e ingénua na bondade dos que exercem o poder económico e no funcionamento sacralizado do sistema económico prevalente. Entretanto, os excluídos continuam à espera.”

Acima de tudo, Francisco está do lado dos imigrantes — ou emigrantes, como ele os vê — expulsos de suas casas por um capitalismo infinitamente voraz e destrutivo, que pôs em marcha mudanças climáticas catastróficas. Nos Estados Unidos, esta é uma questão racializada e profundamente politizada. Os evangélicos que votaram em Donald Trump e no seu muro são esmagadoramente brancos, tal como as lideranças da Igreja Católica americana. Mas cerca de um terço dos laicos são hispânicos, proporção que está a aumentar. Em Setembro, Bannon afirmou, em entrevista ao 60 Minutes da CBS, que os bispos americanos eram favoráveis à imigração em massa apenas porque isso ajuda as suas congregações — embora isso vá mais longe do que até os bispos mais à direita seriam capazes de dizer publicamente.

Quando Trump anunciou pela primeira vez que iria construir um muro para impedir a entrada de imigrantes, Francisco esteve muito perto de negar que o então candidato pudesse ser cristão. Na visão de Francisco sobre as ameaças à família, os lavabos transgéneros não são o problema mais urgente, como alguns activistas “guerreiros” culturais querem fazer crer. O que destrói as famílias, escreveu, é um sistema económico que força milhões de famílias pobres a separarem-se na sua busca por trabalho.

Uma “torrente de corrupção”

Além de lidar com os praticantes da velha escola da missa tridentina em latim, Francisco deu início a uma ampla ofensiva contra a velha guarda no interior do Vaticano. Cinco dias após a sua eleição em 2013, convocou o cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga e comunicou-lhe que iria ser coordenador de um grupo de nove cardeais espalhados pelo globo cuja missão era limpar a casa. Foram todos escolhidos pela sua energia e pelo facto de terem estado, no passado, em conflito com o Vaticano. Foi uma medida popular em todo o lado, menos em Roma.

João Paulo II passou a última década da sua vida cada vez mais incapacitado pela doença de Parkinson, e a energia que lhe restava não era gasta em querelas burocráticas. A Cúria, nome por que é conhecida a organização burocrática do Vaticano, foi ganhando cada vez mais poder, estagnada e corrupta. Muito poucas medidas foram tomadas contra os bispos que protegeram os clérigos que abusaram de crianças. O Banco do Vaticano era tristemente célebre pelos serviços que oferecia para lavagem de dinheiro. Os processos de canonização — algo que João Paulo II fez a um ritmo sem precedentes — tinham-se tornado uma fraude extremamente cara: o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi estimou que o preço de tabela de uma canonização andaria à volta dos 500 mil euros por auréola. As finanças do próprio Vaticano estavam uma desgraça e até Francisco fez referência a “uma torrente de corrupção” na Cúria.

O estado pútrido da Cúria era bem conhecido, mas nunca discutido em público. Ao fim de nove meses no cargo, Francisco disse a um grupo de freiras que “na Cúria também há pessoas virtuosas, a sério, há lá pessoas santas” — de tal maneira assumia que a sua audiência de freiras ficaria surpreendida por saber disso.

"A visão ‘vaticanocêntrica’ negligencia o mundo à nossa volta. Eu não partilho dessa visão, e farei tudo o que estiver ao meu alcance para a mudar"
Papa Francisco

Afirmou que a Cúria “toma conta e cuida dos interesses do Vaticano, que são, na sua maior parte, interesses temporais. A visão ‘vaticanocêntrica’ negligencia o mundo à nossa volta. Eu não partilho dessa visão, e farei tudo o que estiver ao meu alcance para a mudar”. Declarou ainda ao jornal italiano La Repubblica: “Várias vezes os chefes da Igreja foram narcisistas, lisonjeados e empolgados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado.”

“O Papa nunca falou bem dos padres”, diz o padre que mal pode esperar que ele morra. “É um jesuíta anticlerical. Lembro-me bem dessas ideias nos anos 70. Costumavam dizer: ‘Não me chames padre, chama-me Manuel’ — esse tipo de parvoíces — e nós, o oprimido clero paroquial, sentimos que nos tiraram o chão.”

Em Dezembro de 2015, Francisco fez o seu tradicional discurso de Natal à Cúria e não poupou nas palavras: acusou-a de arrogância, de “Alzheimer espiritual”, de “hipocrisia típica dos medíocres e progressivo vazio espiritual que não pode ser preenchido com diplomas académicos”, bem como de vão materialismo e gosto pela bisbilhotice e maldizer — não é o tipo de coisa que se quer ouvir do chefe na festa de Natal da empresa.

Contudo, quatro anos decorridos sobre o início do seu papado, a resistência passiva do Vaticano parece estar a levar a melhor sobre a energia de Francisco. Em Fevereiro deste ano, apareceram da noite para o dia, nas ruas de Roma, posters que perguntavam: “Francisco, onde está a tua misericórdia?”, atacando-o pela maneira como tratou o cardeal Burke. Este episódio só pode ter sido obra de elementos descontentes do Vaticano, e é um sinal inequívoco de uma teimosa recusa em entregar poderes ou privilégios aos reformistas.

As igrejas do mundo ocidental estão cheias de divorciados

Esta batalha, porém, tem sido ofuscada, tal como todas as outras, pelas lutas internas relativamente à moralidade sexual. A disputa sobre o divórcio e os novos casamentos centra-se em dois factos. Primeiro, que a doutrina da Igreja Católica não mudou em quase dois milénios — o casamento é eterno e indissolúvel; isso é claro como água. Mas também o é o segundo facto: que os católicos se divorciam e voltam a casar aproximadamente ao mesmo ritmo que o resto da população e, quando o fazem, não vêem nada de imperdoável nisso. Portanto, as igrejas do mundo ocidental estão cheias de divorciados e de casais em segundas núpcias, que comungam com todos os outros, muito embora tanto eles como os seus padres saibam que tal não é permitido.

Os ricos e os poderosos têm desde sempre sabido explorar lacunas. Quando querem deixar uma esposa e voltar a casar, um bom advogado consegue sempre arranjar maneira de provar que o primeiro casamento foi um erro e não algo consumado no espírito que a Igreja exige, e assim haver razão para que seja apagado dos registos — ou, em jargão, anulado. Isto aplica-se especialmente a conservadores: Steve Bannon conseguiu divorciar-se de todas as três mulheres que teve, mas o exemplo contemporâneo mais escandaloso talvez seja o de Newt Gingrich, que liderou a conquista republicana do Congresso nos anos 1990 e que desde então se reinventou como aliado de Trump. Gingrich deixou a primeira mulher quando esta estava a ser tratada a um cancro e, enquanto estava casado com a segunda mulher, teve uma relação extraconjugal de oito anos com Callista Bisek, uma católica devota, antes de casar com ela pela Igreja — Callista foi a pessoa indicada para o cargo de nova embaixadora de Donald Trump no Vaticano.

A doutrina sobre o casamento após o divórcio não é a única maneira pela qual a doutrina sexual católica nega a realidade em que os laicos vivem, mas é a que causa mais danos. A proibição da contracepção é simplesmente ignorada por todos, em todos os sítios onde é legal. A hostilidade relativamente aos homossexuais é mitigada pelo facto geralmente reconhecido de que grande parte dos clérigos do mundo ocidental é gay e que alguns deles são bem-sucedidos celibatários. A rejeição do aborto não é um problema onde o aborto é legal e, de qualquer forma, não é uma questão particular da Igreja Católica. Mas a recusa em reconhecer segundos casamentos, a não ser que o casal faça votos de nunca ter relações sexuais, faz ressalvar o absurdo que é ter uma casta de homens celibatários a regulamentar a vida das mulheres.

A doutrina sobre o casamento após o divórcio não é a única maneira pela qual a doutrina sexual católica nega a realidade em que os laicos vivem, mas é a que causa mais danos.

Em 2015 e 2016, Francisco convocou duas grandes conferências (ou sínodos) de bispos de todo o mundo para discutir estes assuntos. Sabia que não conseguiria avançar sem um consenso alargado. Manteve-se em silêncio e encorajou os bispos a debaterem, mas rapidamente se tornou notório que era a favor de um considerável afrouxamento da disciplina à volta da comunhão após um segundo casamento. Dado que, de qualquer maneira, é isso que acontece na prática, torna-se difícil para quem está de fora entender o ardor que o assunto desperta.

“O que me interessa é a teoria”, diz o pároco inglês que confessa o seu ódio por Francisco. “Na minha paróquia há imensos divorciados e casais que voltaram a casar, mas muito deles, se soubessem que o primeiro cônjuge tinha morrido, iam a correr fazer um casamento na igreja. Conheço muitos homossexuais que fazem todo o tipo de coisas que são erradas, mas sabem que não deviam ser assim. Somos todos pecadores, mas temos de manter a integridade intelectual da fé católica.”

Com esta mentalidade, o facto de que o mundo rejeita a doutrina serve apenas para provar como está certa. “A Igreja Católica deve ser contracultura na ressaca da revolução sexual”, afirma Ross Douthat. “A Igreja Católica é o último lugar restante do mundo ocidental que defende que o divórcio é uma coisa má.”

Igreja como posto de primeiros socorros

Para Francisco e os seus apoiantes, tudo isso é irrelevante. Francisco diz que a Igreja deve ser um hospital ou um posto de primeiros socorros. As pessoas que se divorciaram não precisam que lhes digam que o divórcio é mau, precisam de recuperar e de refazer as suas vidas. A Igreja deve apoiá-las e mostrar misericórdia.

No primeiro sínodo, em 2015, esta era ainda uma visão minoritária. Foi preparado um documento liberal, que foi rejeitado pela maioria. Um ano depois, os conservadores estavam em clara minoria, mas a sua determinação era grande. O próprio Francisco escreveu um sumário das deliberações em “A Alegria do Amor”. É um documento longo, reflectivo e cuidadosamente ambíguo. A dinamite está escondida na nota 351 do capítulo 8 e assumiu uma imensa importância nas convulsões subsequentes.

A nota encontra-se anexada a uma passagem que vale a pena citar, tanto pelo que diz como pela maneira como o diz. O que diz é claro: algumas pessoas que vivem em segundos casamentos (ou em uniões de facto) “podem viver na graça de Deus, podem amar e podem também crescer na vida da graça e da caridade, e para tal podem receber a ajuda da Igreja”.

Mesmo a nota de rodapé, onde se lê que tais casais podem receber a comunhão se tiverem confessado os seus pecados, aborda o assunto com circunspecção: “Em certos casos, isto poderá incluir a ajuda dos sacramentos.” Consequentemente, “quero lembrar aos padres que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas antes um ponto de encontro com a misericórdia do Senhor”. E ainda: “Quero também salientar que a eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um poderoso medicamento e alimento para os mais fracos.”

“Ao vermos tudo a preto e branco”, acrescenta Francisco, “às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento.”

Entre os bispos, entre um quarto e um terço estão a resistir passivamente à mudança, e uma pequena minoria está a fazê-lo activamente.

Foi esta pequena passagem que teve o condão de unir todas as revoltas contra a sua autoridade. Ninguém consultou os laicos para saber o que pensam sobre o assunto e, de qualquer forma, as suas opiniões não são do interesse do partido dos introvertidos. Mas, entre os bispos, entre um quarto e um terço estão a resistir passivamente à mudança, e uma pequena minoria está a fazê-lo activamente.

O líder dessa facção é o grande inimigo de Francisco, o cardeal Burke. Primeiro demitido do seu cargo no tribunal do Vaticano e depois da comissão litúrgica, acabou no conselho de supervisão da Ordem de Malta — um organismo de caridade administrado pelas antigas aristocracias católicas da Europa. No Outono de 2016, demitiu o director da Ordem por supostamente ter permitido que freiras distribuíssem preservativos na Birmânia, algo que as freiras fazem regularmente nos países em desenvolvimento para ajudar a proteger as mulheres vulneráveis. O director demitido apelou para o Papa.

O resultado foi que Francisco readmitiu a pessoa que havia sido demitida e designou outro responsável para assumir a maior parte dos deveres de Burke. A decisão foi um castigo por Burke ter falsamente afirmado que o Papa tinha estado do seu lado na querela original.

Entretanto, Burke tinha aberto uma nova frente de batalha, que chegou o mais perto possível de acusar o Papa de heresia. Juntamente com três outros cardeais, dois dos quais morreram desde então, Burke elaborou uma lista de quatro perguntas destinadas a estabelecer se Amoris Laetitia violava a doutrina anterior. A lista foi formalmente enviada a Francisco, que a ignorou. Após a sua demissão, Burke tornou as questões públicas e afirmou estar preparado para emitir uma declaração formal de que o Papa era herege se as respostas não fossem do seu agrado.

É óbvio que Amoris Laetitia representa um corte com a doutrina passada. É um exemplo da Igreja a aprender com a experiência. Mas isso é difícil de assimilar para os conservadores: historicamente, estas rupturas doutrinárias só aconteceram em períodos de convulsão e separadas por séculos. Esta chega 60 anos apenas após a última irrupção de extroversão, com o Vaticano II, e 16 anos depois de João Paulo II ter reiterado a velha linha dura.

“O que significa que um Papa contradiga um Papa anterior?”, pergunta Douthat. “É incrível o quão perto está Francisco de entrar em conflito com os seus antecessores imediatos. Foi só há 30 anos que João Paulo II estabeleceu em Veritatis Splendor a linha que Amoris Laetitia parece contradizer.”

O Papa Francisco está deliberadamente a contradizer um homem que ele próprio proclamou como santo. Isso não é um problema para ele. Mas o facto de ser mortal pode vir a ser. Quanto mais Francisco se afastar da linha dos seus antecessores, mais fácil será para o seu sucessor reverter a sua. Embora a doutrina católica vá naturalmente mudando, a sua força depende da ilusão de que tal não acontece. Os pés podem tremer sob a batina, mas a túnica nunca deve oscilar. Contudo, isso também significa que as mudanças que ocorreram podem ser revertidas sem nenhum movimento oficial. Foi assim que João Paulo II respondeu ao Vaticano II. Para garantir que as mudanças de Francisco perdurarão, a Igreja tem de as aceitar. E isso é uma questão que não será respondida no seu tempo de vida. Tem hoje 81 anos e apenas um pulmão. Os seus oponentes podem estar a rezar pela sua morte, mas ninguém pode saber se o seu sucessor tentará contradizê-lo — e o futuro da Igreja Católica paira agora sobre essa dúvida.

Andrew Brown
Do The Guardian
No Público
Tradução de António Domingos
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'Jesus não nasceu em 25 de dezembro, nem em Belém, nem era esse seu nome'


Em 25 de dezembro, milhões de fiéis de dezenas de países celebraram uma das festas mais importantes do Cristianismo, a celebração do nascimento de Jesus, na atual Palestina. No entanto, segundo um artigo do jornal britânico The Telegraph, Jesus não nasceu em 25 dezembro, nem em Belém, nem era esse seu nome verdadeiro.

O nome

Para começar, o nome Jesus é a versão latinizada do nome grego Iesous ('Ἰησοῦς', como é mencionado no Novo Testamento, escrito em grego) que, por sua vez, é uma interpretação do nome judeu Yeshua.

Em segundo lugar, o ano, o lugar e a data de nascimento de Yeshua são desconhecidos. Apenas há dois registros, ambos escritos muito tempo depois do acontecimento por pessoas que nunca o chegaram a presenciar.

O ano

O Evangelho segundo Mateus diz que Jesus nasceu "nos dias do rei Herodes". Herodes morreu no ano 4 antes de Cristo. Então, se Mateus tem razão, Jesus nasceu antes do ano 4 a.C.

O Evangelho Segundo Lucas não especifica quem era o rei quando nasceu Jesus. Porém, diz-se que Herodes era rei quando Isabel — prima de Maria, segundo Lucas — concebeu João Batista.

Por outro lado, o apóstolo Lucas argumenta que, enquanto Maria estava grávida, "saiu um decreto de Augusto que dizia que todo o mundo devia pagar impostos". Segundo o jornal britânico, citado pelo RT, o único censo fiscal conhecido na região naquele período foi ordenado por Públio Sulpício Quirino, governador romano da Síria, no ano 4 d. C. Assim, nem Mateus, nem Lucas podem ter razão, pois há uma diferença de dez anos entre eles.

O lugar

A pergunta seguinte é onde nasceu o menino Jesus. Lucas sublinha que Maria e José viviam em Nazaré (Galileia), mas viajaram até Belém, no sul (Judeia) para se registrar no censo de impostos, porque José era oriundo desse lugar.

Porém, naquele tempo, os impostos eram pagos pelas pessoas no lugar onde viviam e não existia "uma base econômica ou administrativa para viajar para um distante lugar de nascimento de um ancestral remoto para pagar impostos", diz o artigo do The Telegraph. Também não há nenhum registro de que tal decreto tenha sido emitido no Império Romano.

O dia

Além do lugar, é difícil determinar em que dia do ano nasceu Jesus. A Bíblia não especifica nem o dia nem até a estação, o que não é surpreendente, pois os judeus e os primeiros cristãos não costumavam celebrar a data de nascimento das pessoas. Na verdade, era de tão pouca importância que os Evangelhos segundo Marcos e João não dizem nada em relação ao assunto, começando suas narrações quando Jesus já era adulto.

É muito provável que a Igreja primitiva tenha estabelecido o aniversário de Jesus em 25 de dezembro porque já era um dia tradicional festivo. No calendário romano, 25 de dezembro era o solstício de inverno. Durante o Império Romano, nesse dia se celebrava a festa 'Natalis Solis Invicti' (Nascimento do Sol Invicto).


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Estaleiro pagou propina por contrato da Petrobras no governo FHC


O estaleiro de Cingapura Keppel Fels, um dos maiores do mundo, relata em acordo que assinou com autoridades de três países que pagou propina para assegurar que ganharia um contrato no governo de Fernando Henrique Cardoso para a construção da plataforma P-48 para a Petrobras.

O suborno de US$ 300 mil (equivalente hoje a R$ 994 mil) teria sido pago em 2001 e 2002 para "funcionários do governo", de acordo com documento que está no Departamento de Justiça dos EUA.

É a primeira vez, porém, que o estaleiro fala de pagamento de propina também no governo FHC, ainda que em escala mais reduzida.

No caso da propina paga durante o governo de FHC, ela corresponde a 0,03%, já que a P-48 custou por volta de US$ 800 milhões.

O acordo de leniência narra ainda que o Keppel Fels pagou um total de US$ 55,1 milhões ao PT e executivos da Petrobras ligados ao partido entre 2003 e 2012, num total de cinco contratos. O montante equivale a R$ 182,6 milhões em valores atuais.

Os contratos eram para a construção de plataformas para o pré-sal -P-53, P-56, P-58, P-61- e uma para a Sete Brasil, empresa que era dirigida por petistas.

No 247
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