23 de dez de 2017

Mineirim no JN


Leia Mais ►

“Civilização Ocidental Judaico-Cristã de Direito Romano” não passa de mito


O discurso contra os Direitos Humanos e minorias justificado pela defesa da tal "tradição judaico-cristã" não passa de uma ideologia, e das mais cínicas e intelectualmente desonestas, visando a cooptação das pessoas comuns para viabilizar e legitimar um projeto conservador de poder.

Se lemos um livro que afirma que os leões são ferozes e depois encontramos um leão feroz ( estou simplificando, é claro), é provável que nos sintamos encorajados a ler mais livros do mesmo autor e a acreditar neles. Mas, se além disso, o livro do leão nos instrui sobre como lidar com um leão feroz e as instruções funcionam perfeitamente, o seu autor não apenas gozará de grande crédito como será também impelido a tentar a sorte em outros tipos de desempenho escrito. Existe uma dialética de reforço bastante complexa, pela qual as experiências dos leitores na realidade são determinadas por aquilo que leram, e isso, por sua vez, influencia os escritores a escolherem temas definidos antecipadamente pela experiência dos leitores.
Um livro sobre como lidar com um leão feroz poderia então causar toda uma série de livros sobre temas tais como a ferocidade dos leões, as origens da ferocidade e assim por diante. Do mesmo modo, à medida que o foco do texto se concentra mais estreitamente sobre o tema – não mais os leões, mas a ferocidade deles – podemos esperar que as maneiras pelas quais se recomenda que se lide com a ferocidade do leão irá na verdade aumentar esta ferocidade, forçá-la a ser feroz posto que é isso que ela é, e é isso que, essencialmente, sabemos ou só podemos saber sobre ela. (…)
Isso porque, em última análise, o *Orientalismo* era uma visão política da realidade cuja estrutura promovia a diferença entre o familiar (Europa, Ocidente, “nós”) e o estranho (Oriente, Leste, “eles”).
Edward Said em “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”.
Há um ditado bíblico que diz “aquele que julga estar de pé, vigie para que não caia”. Isso é muito proveitoso para chamar a atenção para todo tipo de chauvinismo, pessoal e social. Inclusive quando se julga que a configuração social do momento histórico é uma manifestação “natural” e definitiva. Assim é com o que se julga ser o “Ocidente”.
Uma das novas ondas de movimentos de direita ultraconservadora que nos deixam estarrecidos é a estratégia para incutir xenofobia e justificar aversão ideológica a lutas contra homofobia, machismo, racismo, lutas por justiça ambiental, pelos direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, por equidade e direitos humanos (incluindo sociais). Sua narrativa é que há um “marxismo cultural islâmico gay” que engloba tudo isso, cabendo-lhes defender o “legado judaico-cristão de direito romano”, valores que teriam forjado o “Ocidente”, ou a “cultura ocidental”, como foi proclamada recentemente pelo terrorista Anders Breivik.
Para além da questão ética e moral nos meios e fins dessa argumentação, o mais absurdo é como ela se ergue a partir de um embaralhado com pouquíssimo nexo de consistência. Vamos aqui analisar se há quaisquer fundamentos nessa afirmação, tão recorrente e reverberada em alguns meios coléricos, para sabermos se há alguma coerência no que dizem ou se de fato existe tal legado. Porém, sem a ingenuidade de crer que isso realmente seja o mais importante para esses movimentos.

Ocidentalismo”: O “Ocidente” como invenção

O primeiro exemplo de como o “Ocidente”, na verdade, não tem nada de ocidental e de como as bases e princípios do seu pensamento atualmente se deve muito mais ao dito “não-ocidental” é um caso emblemático.
A chamada hoje “Revolução Copernicana” na verdade é menos copernicana do que se pensa. Copérnico lidava com impasses a respeito do equilíbrio da rotação dos planetas com a equalização do seu centro, o “problema do equante”, que afligia já os ptolemaicos europeus. Não foi sozinho que ele conseguiu transpor o sistema geocêntrico matematicamente para bases centradas no sol. Os teoremas que ele desenvolveu também não se deram a partir de escritos helênicos.









Ciência islâmica em ação.

A geometria que dava fundamentação para o movimento lunar e demais astros, aparece em documentos árabes do século XIX, trabalhados pelo astrônomo damasceno Ibn al-Shatir. Este, por sua vez, compilava trabalhos do astrônomo islâmico Nasir al-Din al-Tusi, que viveu três séculos antes (e que nos legou o conhecido “par de Tusi”, resolvendo o problema de como movimentos circulares geram movimentos lineares). Também hoje se sabe que Copérnico se valeu, para construir seus teoremas dos trabalhos, de Mu’ayyadal al-Din al’Urdi, da primeira metade do século XIII. Os pontos geométricos que o europeu usou eram idênticos às notações da grafia do árabe.
Um livro pode ser escrito só a respeito de como os estudos geométricos árabes proporcionaram revoluções científicas. Séculos antes de William Harvey delinear a forma do sistema circulatório humano nos fins do primeiro terço do século XVII, já havia se atestado em documentos da primeira metade do século XIII o conhecimento geométrico do sistema no mundo árabe, inclusive apontando a passagem do sangue pelos pulmões antes de chegar ao coração. Coisa que a medicina grega, remontando a Galeno, desconhecia[1].
É bem estabelecido que se deve à assimilação da filosofia aristotélica o renascer da antiguidade clássica, da geometria, da aritmética, etc. – nos tempos finais da assim chamada “Idade Média” européia – ao mundo cultural do islã, seus depósitos, registros, cultivos e transmissão de artefatos culturais. Sabe-se hoje que as bases para a reforma no “commom law” inglês, nos séculos XII-XIII, ao contrário do que se poderia pensar, foram influenciadas pela Sharia por meio do mundo islã normando[2].
Mas ainda não é de conhecimento do grande público o quanto o que chamamos de “Iluminismo”, propriamente, foi também beneficiado por esse sistema-mundo, e o quanto deve a ele:
  • O “Penso, logo existo”, de René Descartes, fundamental para a subjetividade moderna, veio de Ibn Sina, ou Avicena[3].
  • A crítica de David Hume , no sentido de que percepções de sucessões constantes não são o bastante para provar relação causal, aparece no sunita Abud Hamid al-Ghazali[4].
  • A ideia da “maioridade do homem”, o processo de se esclarecer, que de Kant passou a ser tão essencial na forma da modernidade ver a si mesma, aparecia em um poema do Sufi Rumi[5].
  • O que se concebe como a fundação da ciência econômica moderna como disciplina própria, tem em Adam Smith o pioneiro a despontar dos fisiocratas. Mas o mesmo extraiu muito da base de seu pensamento, como a “mão invisível” do mercado, a divisão do trabalho, a racionalidade humana do cambismo, de pensadores econômicos persas. Na sua biblioteca continha várias traduções latinas de pensadores persas, como Tusi (13º século) e Ghazali (11° século), plagiando deste último seu famoso exemplo da fábrica de alfinetes, ilustração considerada o marco da ideia de Divisão do Trabalho, após Francis Bacon[6].
A bem da verdade, pode-se inferir que quando alguém fala da “tradição da civilização ocidental”, deve, por questão de honestidade, incluir o sistema-mundo islâmico medieval como parte essencial dessa tradição, em grau maior do que de muitas regiões europeias.
Poderíamos apontar muitos outros exemplos, que abundam. Estes trataram de um dos principais espantalhos e bodes-expiatórios que o chauvinismo contemporâneo invoca, o islã. Também poderíamos tratar de casos a respeito dos legados chineses como a bússola, o papel e a impressão, os antibióticos, princípios das leis do movimento antes de Isaac Newton, bem como muito de sua astronomia, análises químicas quantitativas e estudo dos fósseis. Também poderíamos tratar do legado ariano sânscrito (na Índia), incas, maias, etc. Mais longe ainda, as raízes do conhecimento grego nos egípcios (do qual deriva mais de 20% do vocabulário grego), fenícios e cananeus[7].
Mas, para nossos propósitos, é suficiente para desconstruirmos um dos fundamentos da reivindicação chauvinista, que reclama a “tradição do Ocidente”. Apontamos que sua representação é falsa. Passemos para outros erros deste tipo de discurso do novo “politicamente tosco”.
Essas são as tendências de desdobramento histórico das tradições, nunca sendo prontas, acabadas, pré-moldadas. Porém, algumas pessoas pouco bem-intencionadas cometem a temeridade de comparar com “mercado de ideias” no sentido da economia moderna. É uma grosseria equivalente. As culturas, ideias, símbolos e pensamentos não se desdobram na história como mercadorias. Na economia moderna, as características que transformam um bem em um recurso de mercado necessitam ser “excluíveis”, ou poderem ser propriedade de alguém de forma exclusiva e assim ter poder sobre o acesso ao recurso por outros. Isso é assegurado por instituições modernas.  Precisam ser “rivais”, ou seja, a utilização por alguém impacta na quantidade e qualidade do recurso disponível para outro utilizar.
Nada disso é aplicável à história das tradições, que não são objeto de patenteamentos. Logo, é desonesto usar a analogia com um “mercado de ideias”.

“Civilização judaica-cristã”, mas baseada em qual judaísmo, cara pálida?









Detalhe do Arco de Tito, que descreve os romanos levando despojos de Jerusalém – por Tom Elliott (1988). Publicado pelo Instituto para o Estudo do Mundo Antigo

Quando lê-se este bordão, “civilização judaico-cristã”, ainda tentando ligar o apelo com o “direito romano”, tem que se respirar fundo para lidar com ideias tão infundadas, sem o menor sentido.
O judaísmo é um fenômeno e tradição religiosa essencialmente “não-ocidental”, se tomarmos as convenções conceituais dos discursos públicos. Seu despontar remonta a processos de centralização monárquica no antigo reino de Judá, engendrado pela corte real (com o registro especial das cerimônias de coroação em que o rei se “semidivinizava”, adotado por YHWH, então deus guerreiro das tempestades, passando a ser membro da corte divina).
Com base nas tradições orais dos antigos israelitas que viviam na região canaanita, no século XIII a.C., bem como as tradições dos chamados povos ugaríticos, que também herdaram tradições egípcias, caldeias, sumérias, etc.; com base em tradições engendradas do tempo da chamada “monarquia unida” e do Reino do Norte – sobre o qual não sabemos muito, justamente por termos ficado mais com o legado e as versões contadas no reino de Judá, do sul. Com base em tradições religiosas de todo o meio circundante, inclusive síria, fenícia, aramita, assíria, etc., etc., a tradição religiosa judaica remonta à formação da bíblia hebraica a partir da monarquia do rei Ezequias, no século VIII a.C. (quando viveu também o profeta Isaías). Passou então por períodos especiais de configuração, respondendo a desafios de cada tempo.
A urbanização de Jerusalém e a exploração dos camponeses, a rixa com os “irmãos” do reino do Norte, o império assírio, o debater-se para forjar uma identidade própria, a “globalização” da economia, a formação de um aparato burocrático, a extensão do letramento para além dos círculos restritos aos aristocráticos no século VII a.C., a “reforma de Josias” – um período especial de organização do Estado que moldou os contornos da Torah e formatou muito de suas tradições -, os confrontos entre profetas (que já não eram os adivinhos de séculos atrás) e sacerdotes, confrontos no interior do ambiente sacerdotal e entre profetas, deportação para Babilônia, formação de uma província vassala sob o império Persa… nova constituição de um reinado sacerdotal, conquista helênica, aculturação sob Alexandre, o Grande; confronto vital com governantes das guerras helênicas e insurreições, confrontos entre partidários dos helênicos e resistentes, vitória dos resistentes, rixas e massacres internos, conquista romana… ufa!…
Assim chega-se nos hoje chamados “séculos I a.C. – I d.C.”. Nesta época, não se dá para dizer qual era “o” judaísmo. Essa tradição religiosa possuía várias feições, movimentos, perspectivas, expressões.
No mínimo era muito plural – com fortes tensões internas -, ou mesmo, nas palavras de um dos maiores estudiosos do judaísmo na história, Jacob Neusner, haviam “judaísmos”. Sabemos muito pouco sobre os moldes das ideias do judaísmo da aristocracia sacerdotal daquele tempo, os “saduceus”. Ao que parece, eram partidários de uma cooptação e acomodação sob o poder romano, se não no arcabouço teórico, certamente na expressão pragmática.
Todas as outras expressões judaicas se caracterizavam por fortes ressentimentos contra Roma e sua ideologia imperial, com expectativas de que um dia seu Deus lhes vindicariam. Algumas expressões pregavam que deviam agir já para concretizar esta vindicação. Alguns eruditos judeus tentavam compatibilizar a cultura helênica com suas tradições, até mesmo destacando o que consideravam como fundamentos comuns, como o famoso Filo de Alexandria, que fazia críticas veladas ao império ao mesmo tempo que exortava à paciência.

Outros foram mais além e capitularam, como Flávio Josefo, que teve por sua vez que registrar o amplo antagonismo de seu povo em relação à ideologia e às estruturas romanas.
Após as chamadas “guerras judaicas”, dos fins da década de 60 d.C. e da década de 30 do século II, com os morticínios promovidos pelas tropas romanas e desolação em Jerusalém, prevaleceu no judaísmo aquela que era uma de suas feições, remontando aos Prushins, os fariseus que surgiram nos meados do século II a.C. e possuíam também suas subdivisões. Desenvolveram seu corpo religioso a partir de tradições orais e de 39 livros das escrituras reverenciadas pelos judeus, e com com as tradições escritas da Mishna, Talmud de Jerusalém e Talmud da Babilônia, formaram o judaísmo pós-rabínico. Este se desenvolveu também em grande tensão e oposição à tradição religiosa da que vamos tratar um pouco agora, a cristã.
Ou seja, que é isto de falar da “tradição judaico-cristã ocidental”?? É simplesmente insustentável.[8]

Civilização baseada em Cristianismo e no Direito Romano? Mas eles são excludentes

O cristianismo remonta a um movimento provocado por uma figura que saiu dentre o povo comum na província imperial da Galileia, sob jugo de Roma[9]. Uma província de cultura judaica[10] em suas variadas expressões, como já tratamos brevemente acima, a qual passava por um período de urbanização promovido pelo governante vassalo, ao mesmo tempo ostentando uma exuberância econômica combinada com espoliação das camadas mais pobres, ciclos de dívida, violência, desintegração, perdas de terras por parte dos camponeses e acúmulo por parte de latifundiários não-residentes nas propriedades. 
Por lá passara um pregador judeu bem pitoresco, mas com uma forte mensagem chamado João (Yochanan) anunciando que a divindade estava para promover um grande ato de juízo. Após, veio seu sucessor, Jesus de Nazaré, ou rabi Yeshua bem Yossef (filho de José).
Considerando a impressão que esta figura deixou em seus seguidores devotos, vemos registros impressionantes em termos socioculturais para analisarmos sua interação com a estrutura ideológica romana. O primeiro livro a lhe registrar, conhecido como “Evangelho segundo Marcos”[11], por exemplo, começa com o anúncio “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. O termo “evangelion” – boas novas – era um termo-chave para as proclamações de vitórias, conquistas, feitos e “beneplácitos” do imperador, desde César. Confiram o que diz esta inscrição de Priene, datada de 9 a.C., um ano próximo aos que os estudiosos aventam como de provável nascimento de Jesus (entre 7 e 4):
A providência que ordenou toda a nossa vida, mostrando interesse e zelo, ordenou a mais perfeita consumação da vida humana dando-a a Agusto, enchendo-o de virtude para fazer a obra de um benfeitor entre os homens e, para enviar nele, por assim dizer, um Salvador para nós e para os que virão depois de nós, para fazer cessar a guerra, para criar ordem por toda parte(…). O nascimento do deus [i.e., o imperador Augusto] foi para o mundo o início da boa-nova (evangelion) que veio para os homens por meio dele.[12]
Os ecos são evidentes. Vão muito além do emprego da expressão “evangelion”. O nascimento do Salvador, que traz paz ao mundo, a pax romana, vindo para os homens, e um tema fulcral na proclamação cristã posterior. Como no anúncio da chegada de Jesus ao mundo no belo e ornamentado texto do autor que se chama de “Lucas”. Ali vemos paralelos retóricos explícitos com a proclamação romana dos césares como Salvador, vindo aos homens, muitas também comemorando seu nascimento que traria paz ao mundo, anunciando que um deus caminharia na Terra em carne e osso. “[…] eu vos anuncio a Boa-Nova de uma grande alegria que será para o povo todo: Para vós, neste dia, nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é Messias e Senhor” (Lc 2,10-11).
A hipótese de que ‘neste dia, nasceu […] um Salvador’, de Lucas (2,11) é alegação cristã contrária à propaganda imperial associada à celebração do aniversário de Augusto, que é realçada pelas descobertas em Roma que mostram o cuidado empregado na observância do dia do imperador: os cálculos da direção dos raios do Sol naquele dia tinham um papel importante no alinhamento dos monumentos relacionados a Augusto na cidade, a saber, o obelisco em Montecitorio, o Ara Pacis e o mausoléu[13].
A partir do imperador Tibério, atribuíam-lhes títulos como “Kyrious” – Senhor (Kyrios Kaisaros “Senhor César”) -, “Huios tou Theon” – Filho de Deus -, que se tornaram características marcantes para Jesus no movimento cristão, presentes nos evangelhos e nos escritos paulinos.






Grafite anti-cristão do segundo século de Roma, mostrando um homem crucificado, com uma cabeça de burro; sob este, um escárnio rabiscado: “Alexamenos adora o seu Deus”.

Um aspecto central na proclamação de Jesus como retratada nas tradições, que é reportado como muito provavelmente fidedigna em termos históricos, é o papel do “Reino de Deus” como algo que emergia e que chegaria a um ápice de consumação.
Não há registros de paralelos dessa centralidade em alguma tradição judaica até então. O registro mais próximo estaria na oração judaica conhecida como “Kadish”, “(…) Que estabeleça Seu Reino, em nossa vida e em nossos dias e na vida de toda a Casa de Israel, pronta e brevemente (…)”. Toda a literatura registra a tensão que esta proclamação apontava em relação a ideologia da “pax romana” e sua retórica sociopolítica.
Um episódio que ilustra esta tensão de forma muito vívida é o tradicionalmente chamado de “Entrada Triunfal”, em que na perigosa ocasião da festividade da Páscoa, a qual rememorava a tradição da libertação dos israelitas do império egípcio, com autoexplicativos potenciais para desencadear manifestações de revolta e conseguintes repressões por parte do império.
Retrata a entrada de Jesus na cidade, com aclamações que eram popularmente dirigidas para a chegada dos devotos peregrinos, mas ali com fortes conotações de proclamações reais, e em uma figura nada majestosa, montada em um jumento. Nessas ocasiões da Páscoa era costume que, do outro lado tendo o Templo como referência, a autoridade romana, no caso Pilatos, entrasse cerimonialmente com muita pompa em carruagens de cavalos, saudado por sua corte como a autoridade de Roma sobre os judeus. A sátira que Jesus montou fica evidente com isso em mente.
E o apogeu trágico se deu na crucifixão sob o veredito de conspiração política para subverter a ordem do poder. Ta fica explícita na inscrição do veredito “Rei dos Judeus”, algo que é amplamente reputado pelos especialistas como muito provavelmente factual.
Além disso, é independentemente atestado como razão da execução, como pode visto, no título colocado sobre a cruz de Jesus, que ele se auto proclamou Rei dos Jesus (Marcos 15:26 e João 19:19). Não somente é uma tradição multiplamente atestada e contextualmente crível, como também satisfaz o critério da dissimilaridade. Pois se este não era um título que os cristãos utilizavam para Jesus, porque os relatos afirmam que ele foi executado por reivindicar esse título ? Evidentemente, este foi o resultado do julgamento[14].
A combinação de ditos atribuídos a Jesus a respeito da expressão do “Filho do Homem”, com os ensinamentos sobre o Reinado de Deus, analisados à luz de expressões da fé judaica da época retratadas em materiais como “Apocalipse das Semanas de Enoch”, “As Similitudes de Enoch” e tradições que remontam ao livro de Daniel (de cerca da primeira metade do século II a.C.) trazem elementos suficientes para depreender que o movimento de Jesus e as comunidades cristãs ligada ao círculo de seus discípulos lhe atribuíam o papel da figura que exerceria o Juízo de Deus.
Em uma expectativa de que nesse Juízo, exercido pelo Salvador, tomarão parte os comissionados de Deus (aí entra os ‘Doze’, simbolizando as doze tribos de Israel), e nesta consumação da História se daria o julgamento, a deslegitimação e subversão das estruturas, discursos e lógicas de dominação do mundo arquitetadas ali na ideologia romana.
Em um importante registro deixado sobre as crenças dos primórdios do cristianismo, o missionário Paulo fala a um público da comunidade cristã na cidade de Tessalônica, usando um paralelo instigante para iluminar a expectativa deles da chegada deste Reinado de Deus. Ele emprega aí o famoso termo cristão “Parusia”. Tal termo era usado quando das ostentadoras chegadas do Imperador às cidades, cheio de pompa e esplendor. Uma delegação vinha para cumprimentá-lo e os súditos vinham em festa para o acompanhar o cortejo imperial. Os arautos soavam as trombetas. O slogan do Império Romano era Pax et Securis, Paz e Segurança. Se dizia que o Império trouxera o ápice da civilização, dando estabilidade, harmonia e coesão.
Em uma passagem do livro conhecido como “Atos dos Apóstolos” (capítulo 17,4-7) é retratada uma acusação contra os cristãos: a de que estavam “sublevando” o mundo. Fala-se em “homens que sublevaram o mundo inteiro”, “(…) agem contra os editos do imperador (…)”. O verbo anastatów também quer dizer “agitar”, “tumultuar”, podendo ser traduzido também como “revolucionar”, como na Bíblia de Jerusalém. Remete à acusação do rei Acabe ao profeta Elias, em I Reis 18,17, uma mosca na sopa dos tiranos: “Tu és o perturbador de Israel”. Que sintonia civilizacional, não?
Na carta conhecida como I Tessalonicenses, Paulo afirma que tal estado das coisas estava, na verdade, precedendo algo como um trabalho de parto no qual tudo seria sacudido e o verdadeiro Rei viria para estabelecer uma ordem diferente e mais legítima. E, ao contrário do Império, que se firmava por meio do alegado e vangloriado poder de impor a morte e abreviar a vida, a aurora do Reinado de Deus virá com a ressurreição e a vitória sobre a morte do “deus crucificado” como subversivo ao império[15].
Um libelo de radical oposição à ideologia romana é o conhecido como Apocalipse. Talvez por isso, um dos livros mais arduamente debatidos se seria reconhecido como de autoridade e incorporado no “Cânon” pela igreja romana séculos posteriores. Enfrentou grande rejeição e por muito pouco não ficou de fora. O livro remete a um autor que, a partir de algumas experiências visionárias, compilou e editou uma série de imagens tiradas de literaturas conhecidas como “apocalípticas” que eram produzidas já há poucos séculos por escritores judeus, que aludiam a ascensão e queda de grandes potências.






Cristãos jogados às feras pelo direito romano, para preservar a “paz e a ordem”

Através de alusões, metáforas e símbolos, o livro produz uma forte crítica da opressão romana e aponta que esta ordem política – que se via como “natural”, “de origem divina” e “perene” – iria ser subvertida e desabar. Dele vem a famosa e aterradora expressão do “número da besta”, o 666, que é um código cifrado com numerações do alfabeto hebraico aludindo às expectativas do retorno de um imperador como Nero. 666 = Nero César[16].
Cristãos foram espancados, encarcerados, decapitados, esquartejados, eviscerados, crucificados, jogados aos leões e ao óleo fervente pelo direito romano. Enquanto hoje, pessoas com a mentalidade seguindo uma logica de valor pessoal oposta a que eles abraçavam, lhes instrumentalizam em prol de Roma. Tudo isto como ferramenta cínica para cooptar pessoas comuns.

Considerações finais

O que constatamos com esse balanço?
  • A dita “modernidade ocidental”, um recorte social e histórico artificial e ideológico, deve imensamente a águas que jorraram de legados ditos “não-ocidentais”. Destaca-se especialmente neste momento as realizações intelectuais de sistemas-históricos islâmicos.
  • O judaísmo é uma tradição essencialmente “não-ocidental”, com sistemas simbólicos “não-ocidentais”, e que o processo cujo desenvolvimento desencadeou no judaísmo, cuja linhagem perpassou pela Europa não tem alinhamento com o cristianismo, antes esteve diante de si uma forte tensão com o mesmo, tendo-se desenvolvido em confronto e resistência para com o ideário cristão.
  • O cristianismo despontou – enquanto um sistema simbólico “oriental” – como um sistema de apelos religiosos em oposição frontal com a ideologia do império romano, desde seu fundador aos primeiros seguidores e comunidades. A visão de mundo que moldava era antitética aos valores da ordem social romana.
Logo, a tríade “tradição judaico-cristã-romana” na retórica chauvinista é falsa. Os sistemas de pensamento e instituições que se processaram historicamente com elementos destas culturas, também se processaram com elementos de outras culturas e, ainda assim, aquelas foram retrabalhadas, reconfiguradas e manifestaram-se em diversas formas.
A grande questão hoje é que o problema não está simplesmente no ato de que essas reivindicações são insustentáveis e que é possível demonstrar que são falsas. Mas no momento crítico em que para os seus defensores, isto não importa. O que importa é o “insistir para colar”. Conseguiram criar uma narrativa insólita em que estão envolvidos no levante contra uma conspiração contra o “marxismo cultural”, termo que engloba toda atmosfera e acúmulo intelectual diferente do deles e, assim, blindam-se contra toda a exposição crítica. E podem “soltar suas feras”, liberando mentalidades colonialistas, chauvinistas, todo o podre despudorado que sentiam que estava sendo constrangido pelo “politicamente correto”.
A batalha hoje não é por se chegar à verdade, mas à propaganda. Que usa cortinas de fumaça e manipulações de clima de opinião para dominarem as mentes das pessoas comuns em prol de uma ordem de poder hierárquica, excludente, em que ódios xenofóbicos, preconceituosos, obscurantistas não causem constrangimentos.
Referências
[1]
• George Saliba – Islamic Science and the Making of the European Renaissance
.
[2]
Mahmoud A. El-Gamal – Islamic Finance: Law, Economics, and Practice
.
[3]
Peter Heath – Allegory and Philosophy in Avicenna (Ibn Sina)
.
[4]
• Al-Ghazali, T.J.Winter On Disciplining the Soul
.
[5]
Rumi (Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī)
.
[6]
• Hamid Hosseini  Seeking the Roots of Adam Smith’s Division of Labor in Medieval Persia
.
[7]
• Martin Bernal Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization
.
[8]
• Ben C. Ollenburger  Zion, the City of the Great King: A Theological Symbol of the Jerusalem Cult• Normam K. Gottwald Introdução socioliterária à Bíblia hebraica• Mark S. Smith – O memorial de Deus: História, memória e a experiência do divino no Antigo Israel• Erwin Ramsdell Goodenough – An Introduction to Philo Judaeus• William M. Schniedewind – Como a Bíblia tornou-se um livro• Jacob Neusner – The Rabbinic Traditions About the Pharisees Before 70, Part I: The Masters• David Flusser – Coleção: Judaísmo e as origens do cristianismo.
[9]
• Para explicações a respeito de como as tradições sobre Jesus e o despontar do movimento cristão convergem a uma fonte comum de impactos da pregação e feitos de uma pessoa, ver especialmente:
• James D. G. Dunn Jesus Remembered: Christianity in the MakingBeginning from Jerusalem: Christianity in the Making
.
[10]
• Até poucas décadas atrás muitos estudiosos pensavam que a região estava amplamente helenizada com alguns poucos focos judaicos sob influência de emissãrios da Judeia. Hoje, contudo, o acúmulo da pesquisa aponta que era uma região de cultura e devoção judaica mesmo nos núcleos mais urbanizados como Séforis e Tibérias – de onde Jesus desponta no evangelho de Marcos na pregação ao lago -, diferentemente de Cesareia, essa sim helenizada. Ver A Wandering Galilean: Essays in Honour of Seán Freyne.
[11]
• Não temos como saber com segurança o nome dos autores dos livros conhecidos como evangelhos, havendo fortes debates a respeito. Dentre as teorias já discutidas sobre origem e composição dos mesmos, predomina hoje amplamente que este livro de Marcos foi o primeiro e serviu de fonte para os de “Mateus” e “Lucas”. Para saber mais a respeito, confira Raymond E. Brown – Introdução ao Novo Testamento e/ou Philipp Vielhauer –  História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento.
[12]
• Dittenberger – Orientis Graeci Inscriptiones Selectae [OGIS].
[13]
• Raymond E. Brown O nascimento do Messias: comentário das narrativas da infância nos evangelhos de Mateus e Lucas pg. 297
.
[14]
• Bart D. Ehrmann – Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium 222-223.
• Fernando Bermejo-Rubio – Why is the Hypothesis that Jesus Was an Anti-Roman Rebel Alive and Well?• John Dominic Crossan e Marcus J. Borg – A Última Semana: um relato detalhado dos últimos dias de Jesus.
[15]
• William Horbury Messianism Among Jews and Christians: Biblical and Historical Studies• Delbert Burkett – The Son of Man Debate: A History and Evaluation• Richard A. Horsley  – Paulo e o império Religião e poder na sociedade imperial romana.
[16]
• John Joseph Collins – A imaginação apocalíptica Uma introdução à literatura apocalíptica judaica• J. Nelson Kraybill – Culto e comércio imperiais no apocalipse de João• Pierre Prigent – O Apocalipse

Rodrigo Souza
Leia Mais ►

Demagogia vagabunda: Dallagnol não dá um pio sobre Tacla Durán, mas bate no indulto de Temer

Bolão e Reco-reco
Golbery do Couto e Silva, general articulador do golpe de 1964, se referia com arrependimento ao Serviço Nacional de Informações, o SNI, que idealizou e comandou: “Criei um monstro”.

O golpe, o antipetismo e a louvação insensata à Lava Jato criaram outros monstrengos no Ministério Público Federal.

Por mais indigente e desprezível que seja Michel Temer, não faz sentido procuradores passarem a mão na bunda do presidente da República de maneira tão descarada.

Para variar, Carlos Fernando dos Santos Lima e Deltan Dallagnol, da Lava Jato, são os responsáveis pelo show de molecagem, demagogia e desrespeito.

Lima passou os últimos dois dias no Facebook criticando o indulto de Natal de Temer, “uma afronta à (sic) todos que lutam por um país melhor. Milhares de criminosos na rua”.

“Dupla dinâmica. O que Gilmar faz com as prisões preventivas, Temer faz com as prisões definitivas”, escreveu. “O Governo Temer joga a segurança pública e o combate à corrupção no lixo”.

Dallagnol, mini me de Lima, foi mais longe, afirmando que Temer “resolve o problema do corrupto. Em um quinto da pena, está perdoado. Melhor do que qualquer acordo da Lava Jato!!! Liquidação!!”

“Opa, tem um réu querendo colaborar com a Justiça? Bom, considerando que ele tem um desconto de 80% de pena do indulto e o risco de ser solto e o processo demorar décadas, de o caso prescrever ou ser anulado, será que o réu aceita colaborar se dermos um desconto de 97% da pena?”, questiona.

Finaliza histérico: “Se Marcelo Odebrecht tivesse visto esse indulto de Natal do presidente Temer, não teria feito acordo! Perdão de quatro quintos da pena! Continua aberta a temporada da corrupção. Fraudem licitações. Desviem da saúde, educação e segurança! Venham, roubem, levem embora!! Essa é a mensagem”.

DD não fala nada sobre Tacla Durán, Zucolotto ou do papel da Globo no escândalo da Fifa. Já Michel Temer, que ele ajudou a colocar naquele lugar, é alvo fácil para o valente irmão em Cristo.

O comandante do Exército Eduardo Villas Bôas retirou o general Mourão do posto de secretário de Economia e Finanças da instituição depois que ele se manifestou sobre intervenção militar pela segunda vez em dois meses.

A PGR, no entanto, é a casa da Mãe Joana. Raquel Dodge — e antes dela Rodrigo Janot — deixa funcionários públicos livres para barbarizar e fazer o que quiserem. Talvez porque tenham o rabo preso. Nenhuma democracia séria sobrevive a isso — mas quem disse que somos uma coisa ou outra?

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Venezuela declara personas non gratas a representantes de Brasil y Canadá

La presidenta de Asamblea Nacional Constituyente (ANC) de Venezuela, anunció que el encargado de Negocios de la Embajada de Canadá y el embajador de Brasil son personas non gratas en el país.

La funcionaria rechazó la continua intervención de representantes de EE.UU., Canadá y Brasil en los asuntos internos del país
La Asamblea Nacional Constituyente (ANC) de Venezuela declaró personas non gratas al encargado de Negocios de la Embajada de Canadá y al embajador de Brasil en el país.

En una rueda de prensa ofrecida este sábado, la presidenta de la ANC, , Delcy Rodríguez, explicó que esta medida responde a la grosera intromisión de estos Gobiernos en los asuntos internos de Venezuela.

Asimismo, aseguró que hasta que no se restituya el hilo constitucional, al menos en Brasil, no se restablecerán las relaciones diplomáticas.

En su alocución, la funcionaria también presentó un informe de la Comisión para la Verdad, la Paz y la Tranquilidad Pública, sobre los hechos de violencia que promovieron sectores radicales de derecha contra el pueblo venezolano.
Leia Mais ►

'De cima para baixo': Por que prévias partidárias são raras no Brasil?

Ao contrário de legendas de países como Estados Unidos e Argentina, siglas brasileiras escolhem seus candidatos ao gosto de seus caciques

Alckmin passou por Doria, agora Virgílio o convida para o confronto
Na segunda-feira 11, Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus, enviou ao novo presidente do PSDB, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, uma carta a exigir a realização de prévias no partido para a escolha do candidato à presidente em 2018.

Embora Alckmin seja o preferido do partido para a disputa, Virgílio Neto ainda tem pretensões de concorrer pela legenda ao Planalto. Após nutrir o mesmo desejo do tucano manauara, João Doria, prefeito de São Paulo, tem pedido justamente o contrário. Recentemente, defendeu que o partido abra mão das prévias e lance a candidatura do governador paulista, seu padrinho político, sem a necessidade de uma disputa interna.

No Brasil, as prévias partidárias são raras. Em outros países, são instrumentos fortes que servem como funis para a escolha de políticos. Nos EUA, há estados em que todos os cidadãos, mesmo os não filiados, participam da escolha dos candidatos dos principais partidos, Republicano e Democrata.

Na Argentina, as prévias também servem como um termômetro eleitoral, já que no país vizinho o voto para a escolha dos candidatos dos partidos ao Legislativo é obrigatório. 

Aqui, as primeiras prévias após o fim da ditadura se deram no âmbito municipal durante a redemocratização, em 1988. Nas eleições para a Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina disputou a candidatura do PT com Plínio de Arruda Sampaio, e ganhou.

Interessado diretamente em um processo interno, Virgílio Neto fez uma defesa apaixonada das prévias. "Declare, com a firmeza que o caracteriza, que elas acontecerão e serão amplas, irrestritas, livres e lisas". E continuou: “enfrente-me em campo aberto. Ou perderemos mais uma eleição e nos tornaremos cada vez mais irrelevantes na cena política brasileira.”

Os partidos deverão inscrever as chapas presidenciais até 15 de agosto de 2018. Até lá, o PSDB deverá ter definido o seu candidato, através das prévias ou do conhecido top down ("De cima para baixo", em tradução livre), quando os políticos mais influentes do partido definem os nomes.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu a realização das prévias partidárias até março do ano que vem, quando a pré-campanha eleitoral tem permissão para começar.

O PSDB é um dos poucos partidos políticos que rastreia a possibilidade das prévias. Mas em outras ocasiões, algumas siglas também utilizaram esse procedimento no mesmo contexto. Em 2002, o PT fez prévias para decidir entre Eduardo Suplicy e Lula.

Antônio Imbassahy (à esq.), Arthur Virgílio (centro) e Aloysio Nunes (à dir.) durante a reunião da Executiva Nacional do PSDB, que avaliou o momento político e a permanência na base aliada em junho de 2017
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Segundo o advogado Alberto Rollo, também professor de Direito Eleitoral na Universidade Presbiteriana Mackenzie, as prévias partidárias servem para pacificar o partido internamente e sanar qualquer dúvida antes da convenção eleitoral, quando o partido faz a homologação da candidatura.

O advogado explica que as prévias não têm previsão na legislação brasileira, cuja única demanda são as convenções. “O que define as prévias e a forma como serão feitas é o estatuto de cada partido, já quem vota são os filiados”, afirma.

De acordo com os dados de 2016 da Justiça Eleitoral, o PSDB tem pouco mais de 1,4 milhão de filiados e ocupa o terceiro lugar em número de integrantes. Na frente está o PT, com cerca de 1,5 milhão e o PMDB, com 2 milhões de inscritos.

No total, são mais de 16 milhões de brasileiros filiados a algum partido político. Nesse cenário, o tucano Alberto Goldman afirmou ser “tecnicamente inviável” executar prévias amplas.

O estatuto do PSDB aponta que os inscritos poderão votar somente após seis meses de filiação. Também destina aos diretórios nacionais, estaduais e municipais a responsabilidade de aprovar, realizar e definir as normas para a realização das prévias partidárias “sempre que houver mais de um candidato disputando a indicação do partido”.

“O objetivo das prévias também deve ser o de evitar as decisões da cúpula partidária para baixo e, assim, democratizar a escolha”, afirma Rollo.

Para o cientista político Humberto Dantas, as prévias podem ser um reflexo de democracia interna, mas é necessário enxergar como esse instrumento pode ser inserido, uma vez que “esconde alguns vícios da nossa política”.

“Precisamos saber quem são os filiados aptos a votar nas prévias. É só a Executiva Nacional? São todos os filiados? São aqueles que se filiaram há mais de seis meses, um ano? Existe a possibilidade de filiar muitas pessoas hoje e realizar as prévias amanhã? São perguntas para saber se isso é efetivamente democrático”, afirma Dantas. Para ele, “muitos partidos colocarão as candidaturas como consensuais. Mas não sabemos qual é o preço desse consenso”.

As prévias partidárias para a escolha de um tucano à Prefeitura de São Paulo, em 2016, mostram a fragilidade deste consenso. Nas eleições daquele ano, João Doria foi acusado, pelos concorrentes Ricardo Tripoli e Andrea Matarazzo, de comprar votos de filiados.

Aldo Fornazieri, cientista político e um dos apoiadores do movimento Quero Prévias, concebido inicialmente como um instrumento de organização dessa pauta, acredita que as prévias fazem parte de um processo mais complexo.

Para ele, o uso desse instrumento depende da formação de uma frente democrática e progressista reivindicadora de ferramentas como as prévias. “Mas a lógica partidária exclusivista é um obstáculo”, afirma Fornazieri.

“O partido define seus objetivos em torno de interesses de um círculo de pessoas. Não se leva em conta o conjunto das necessidades sociais e políticas, não só de filiados, mas num campo mais amplo”.

Caroline Oliveira
No CartaCapital
Leia Mais ►

Juiz de piso será processado por Gilmar?

Juiz que prendeu Garotinho ataca Gilmar e diz que "a mala foi grande"


O juiz Glaucenir Oliveira, que prendeu de forma extremamente polêmica o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, decidiu atacar o ministro Gilmar Mendes, que determinou a libertação do político nesta semana.

Na mensagem de áudio, o magistrado acusa Gilmar Mendes de ter recebido dinheiro em troca da decisão favorável: "a mala foi grande".

Ou seja: o juiz eleitoral de Campos, inconformado com a revisão de sua decisão, acusa Gilmar de corrupção passiva e Garotinho de corrupção ativa.

"Os comentários ouvidos aqui em Campos, inclusive do grupo do Bolinha... Eu tenho acesso de pessoas que sabem porque estão no meio. Estou vendendo o peixe conforme eu comprei. O que se cita no próprio grupo dele é que a quantia foi alta", disse ele. 

Em uma série de ataques, Glaucenir diz que a "mala foi grande" e acusa Gilmar de não ter "vergonha na cara".

O juiz Glaucenir, insinuando que é alvo de perseguição, afirma: "Vocês não sabem da missa a metade. Tô tendo de andar com a porcaria de um carro blindado aqui em Campos", diz ainda Glaucenir.

Gilmar soltou Garotinho, apontando que não havia qualquer elemento que justificasse a prisão preventiva.

Procurado pela reportagem do 247, o juiz Glaucenir ainda não se manifestou.

Leia Mais ►

6 motivos por que a religião faz mal para a sociedade


Em 2010, o sociólogo Phil Zuckerman publicou o livro “A Sociedade sem Deus: O que as nações menos religiosas podem nos dizer sobre o Contentamento”. Zuckerman alinhou provas de que as sociedades menos religiosas tendem também a ser as mais pacíficas, prósperas e justas, com políticas públicas que ajudam as pessoas a florescer, enquanto diminuem o desespero e a gula econômica.

Podemos discutir se a prosperidade e a paz levam as pessoas a ser menos religiosas ou vice-versa. Na verdade, as evidências apóiam a visão de que a religião prospera com a ansiedade existencial. Mas, mesmo se este for o caso, há boas razões para suspeitar que a ligação entre religião e sociedades com problemas vai nos dois sentidos. Aqui estão seis indicativos de que religiões fazem com que seja mais difícil alcançar a prosperidade pacífica.

1. A religião promove o tribalismo. Infiel, selvagem, herege. A religião divide entre conhecedores e estranhos. Ao invés de boas intenções, os adeptos muitas vezes são ensinados a tratar estranhos com desconfiança. “Não vos ponhais em jugo desigual com incrédulos”, diz a Bíblia cristã. “Eles querem que você não creia como eles não creem, e então vocês serão iguais; portanto, não sejais amigos deles “, diz o Alcorão (Sura 4:91).

Na melhor das hipóteses, ensinamentos como esses desencorajam ou mesmo proíbem os tipos de amizade e casamentos mistos que ajudam clãs e tribos a passarem a fazer parte de um todo maior. Na pior das hipóteses, os forasteiros são vistos como inimigos de Deus e da bondade, potenciais agentes de Satanás, sem moralidade e não confiáveis. Os crentes podem se amontoar, antecipando o martírio. Quando tensões latentes entram em erupção, sociedades se dividem com falhas sectárias.

2. A religião ancora crentes à Idade do Ferro. Concubinas, encantamentos mágicos, povo escolhido, apedrejamentos… A Idade do Ferro foi uma época de superstição galopante, ignorância, desigualdade, racismo, misoginia e violência. A escravidão tinha sanção de Deus. Mulheres e crianças foram literalmente posses dos homens. Pessoas desesperadas sacrificavam animais, produtos agrícolas, e os soldados inimigos organizavam holocaustos com o objetivo de apaziguar os deuses.

Os textos sagrados, incluindo a Bíblia, a Torá e o Alcorão, preservaram e protegeram os fragmentos da cultura da Idade do Ferro, colocando o nome de Deus para endossar alguns dos piores impulsos humanos. Qualquer crente que queira desculpar o seu próprio temperamento, senso de superioridade, belicismo, intolerância ou destruição planetária pode encontrar validação nos escritos que afirmam ser de autoria de Deus.

Hoje, a consciência moral da humanidade está evoluindo, fundamentada em uma compreensão cada vez mais profunda e mais ampla da Regra de Ouro. Mas muitos crentes conservadores não podem avançar. Eles estão ancorados à Idade do Ferro. Isto os coloca contra as mudanças em uma batalha interminável que consome energia e atrasa a resolução criativa de problemas.

3. A religião faz da fé uma virtude. Confie e obedeça pois não há maneira de ser feliz sem Jesus. O Senhor opera de formas misteriosas, dizem os pastores a pessoas abaladas por um câncer no cérebro ou um tsunami. A fé é uma virtude.

Como a ciência ganhar o território que já foi da religião, crenças religiosas tradicionais exigem cada vez maiores defesas mentais contra informações ameaçadoras. Para ficar forte, a religião treina os crentes para a prática do auto-engano, afastando evidências contraditórias. Esta abordagem se infiltra em outras partes da vida. O governo, em particular, torna-se uma luta entre ideologias, em vez de uma busca para descobrir entre soluções práticas, baseadas em evidências que promovam o bem-estar.

4. A religião desvia impulsos generosos e boas intenções. Sentiu-se triste sobre o Haiti? Doe para nossa mega-igreja. Grades campanhas em tempos de crise, felizmente, não são a norma, mas a religião redireciona a generosidade a fim de perpetuar a própria religião. Pessoas generosas são incentivadas a dar dinheiro para promover a própria igreja, em vez de o bem-estar geral. A cada ano, milhares de missionários atiram-se ao duro trabalho de salvar almas em vez de salvar vidas ou salvar o nosso sistema de suporte de vida planetária. O seu trabalho, livre de impostos, engole capital financeiro e humano.

Os judeus ortodoxos gastam dinheiro em perucas para mulheres. Os pais evangélicos, forçado a escolher entre a justiça e o amor, chutam adolescentes gays para a rua.

5. A religião promove a inação. O que há de ser, será. Confia em Deus. Todos já ouvimos essas frases, mas às vezes não reconhecemos a profunda relação entre religiosidade e resignação. Nas maioria das seitas conservadores do judaísmo, cristianismo e islamismo, as mulheres são vistas como mais virtuosas se deixarem Deus gerir o seu planejamento familiar. As secas, a pobreza e o câncer são atribuídos à vontade de Deus, em vez de às decisões erradas; fieis esperam que Deus resolva os problemas que eles poderiam resolver por si próprios.

Essa atitude prejudica a sociedade em geral, bem como os indivíduos. Quando as maiores religiões de hoje surgiram, as pessoas comuns tinham pouco poder de mudar as estruturas sociais, quer através da inovação tecnológica ou da defesa. Viver bem e fazer o bem, em grande parte, eram assuntos pessoais. Quando essa mentalidade persiste, a religião inspira piedade pessoal sem responsabilidade social. Os problemas estruturais podem ser ignorados, enquanto o crente é gentil com amigos e familiares e generoso para com a comunidade tribal de crentes.

6. As religiões buscam o poder. As religiões são instituições criadas pelo homem, assim como empresas com fins lucrativos. E, como qualquer empresa, para sobreviver e crescer uma religião precisa encontrar uma maneira de construir poder e riqueza e competir por participação de mercado. Hinduísmo, Budismo, Cristianismo, qualquer grande instituição religiosa duradoura é tão especialista nisso como a Coca-cola ou a Chevron. E estão dispostos a exercer seu poder e riqueza no serviço de auto-perpetuação, ainda que prejudiquem a sociedade em geral.

Na verdade, prejudicar a sociedade pode realmente ser parte da estratégia de sobrevivência da religião. Nas palavras do sociólogo Phil Zuckerman e do pesquisador Gregory Paul, “nem uma única democracia avançada que goza de condições sócio-econômicas benignas mantém um alto nível de religiosidade popular.” Quando as pessoas se sentem prósperas e seguras, a dependência da religião diminui.

No DCM
Leia Mais ►

O Segredo dos Deuses — 10/10 — Igreja Universal do Reino de Deus


Neste último episódio revelamos o que aconteceu a Raquel, uma bebé que foi levada da maternidade para um importante bispo.



Assista também outros episódios:

1/102/103/104/105/106/107/108/109/10
Leia Mais ►

Temer manda tirar delegado das perguntas sobre Santos


Não demorou a vingança de Michel Temer por ter sido obrigado, na terça-feira, pelo Supremo Tribunal Federal, a responder às perguntas formuladas pela Polícia Federal no inquérito que investiga supostos favorecimentos à empresa Rodrimar S/A por meio da edição do chamado Decreto dos Portos  em maio deste ano.

A Folha noticia hoje – sem qualquer menção a isso – que o diretor geral da PF, Fernando Segóvia, está destituindo o delegado da corporação em Santos, responsável pelo inquérito onde Temer é investigado por um negócio intermediado pelo “homem da mala” Rodrigo Rocha Loures.

No mesmo dia, Júlio César Baida Filho  recebeu um telefonema avisando de seu afastamento.

Claro, não houve nem um milionésimo da indignação que havia quando se dizia um “ai” dos todo-poderosos agentes da Lava Jato.

Nem mesmo ligação entre uma coisa e outra a mídia faz.

O descaramento é total e me desculpe o honrado André Singer, que na mesma Folha diz que o “desequilíbrio do que aconteceu nos últimos quatro anos (nas investigações sobre petistas e tucanos) é mais do que evidente”.

Não há nenhum desequilíbrio, André. Há uma deliberação.

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Embraer: Folha contesta a TV Afiada!

É o editorialista da “ditabranda”!


O amigo navegante deve estar entre os milhares que já assistiram à TV Afiada , ou “os entreguistas entregam a Embraer ao Pentagono!

É um alerta para o que um conhecido editorialista da Fel-lha desse sábado 23/XII chama de “mítica” e “nebulosa” defesa do interesse nacional brasileiro!

O editorial é um típico exemplo do “jornalismo” de Província, que tira os sapatos para entrar na Metrópole.

O editorialista – conhecido! - confessa que os entreguistas da Embraer não deram detalhes do “take over” nem ao presidente ladrão!

Mas, a Fel-lha não perde a oportunidade de postar-se de forma invariavelmente súcuba!

A TV Afiada não precisou de detalhes.

Basta saber o que a Embraer faz.

E o que o Pentágono quer!

Mas, vamos à analise de trechos desse instigante editorial:

A hipótese de venda (já começa a agressão à Língua Portuguesa: “hipótese de venda”… - PHA) causou excitação e celeuma, em boa parte por mexer com os nervos nacionalistas (sic) brasileiros (não seriam nervos americanos, por acaso… - PHA). Entretanto as reações de pretensos (sic) guardiões dos interesses estratégicos pátrios parecem, nesse caso, ainda mais desinformadas que de costume. (Como se o nobre editorialista tivesse a mais remota ideia de como será o “take over”… - PHA)

(...)

No mais, trata-se de negócios. (Negócios em que tudo vale! - PHA) Quanto à suscetibilidade nacionalista (sic) mais primitiva (Os entreguistas sempre se acham mais sabidos que os outros… - PHA), note-se que o controle da Embraer está pulverizado (e daí, amigo editorialista? E daí? - PHA) , sendo suas ações na maior parte de propriedade de investidores institucionais estrangeiros (Precisa desenhar, amigo navegante? -PHA) .

(...)

Acerca (sic) da natureza da transação, por ora não se conhecem detalhes. (Para uma empresa instalada no sistema de Defesa do Espaço Aéreo brasileiro, trata-se de uma pilantragem, não é, editorialista? - Só quem conhecerá os detalhes será o Wall Street Journal! PHA)

(...)

Em uma parceria com a Boeing, a empresa tem (sic) oportunidade de… aproveitar características complementares e se tornar mais eficiente. (Não dá pra entender… - PHA)

(...)

É bastante provável que a direção da empresa e seus acionistas principais tenham conhecimento mais preciso da transação. (Quá, quá quá! - E o Temer? E o Jungmann, suposto ministro da Defesa. E o Comandante da Força Aérea Nacional brasileira? Não precisam ter “conhecimento”? - PHA)

O governo brasileiro tem poder legal (“poder legal”- o que é isso? - PHA) de veto e motivos razoáveis (sic) de preocupação. Não deveria, porém, ser obstáculo ao crescimento da Embraer, em nome de míticas (sic) e nebulosas (sic) questões estratégicas. De concreto, interessam ao país empresas fortes e eficientes. (Como a Fel-lha, por exemplo… Quá, quá, quá! - PHA)

Em tempo: esse editorialista da Fel-lha deve ser o mesmo autor do inesquecível editorial da “ditabranda”! Além de tudo, analfabeto funcional!

Leia Mais ►

Mulher que estava há 40 anos sem salário nem férias é resgatada

Em troca de lavar pratos, roupas e limpar a casa, a mulher recebia comida, roupas e remédios


Quarenta anos sem salário, folgas, férias ou contato com a própria família. Uma mulher que vivia em condições análogas à escravidão foi resgatada nesta quinta-feira (21) por auditores do Ministério Público do Trabalho e agentes da Polícia Federal. A ação conjunta foi divulgada nesta sexta-feira (22), pela Superintendência Regional do Trabalho na Bahia (SRT/BA).

Quarenta anos sem salário, folgas, férias ou contato com a própria família. Uma mulher que vivia em condições análogas à escravidão foi resgatada nesta quinta-feira (21) por auditores do Ministério Público do Trabalho e agentes da Polícia Federal. A ação conjunta foi divulgada nesta sexta-feira (22), pela Superintendência Regional do Trabalho na Bahia (SRT/BA).

A vítima recebeu uma guia de seguro desemprego especial de trabalhador resgatado e poderá ser beneficiada por uma ação de danos morais - segundo a SRT, o Ministério Público do Trabalho (MPT) analisará a possibilidade de firmar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou ajuizamento por ação civil pública. A Polícia Federal investigará o crime de "redução de trabalhadores a condições análogas às de escravidão".
Leia Mais ►

Empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez aumentam indícios de propinas a Aécio Neves

Ele
A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) encontraram novos indícios que, de acordo com os investigadores, reforçam a suspeita de que o senador Aécio Neves recebeu propina para atuar em nome de empreiteiras na construção da Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia.

Tema de inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), a acusação contra o tucano foi relatada por ex-executivos da Odebrecht em acordos de colaboração premiada. E teve impacto direto na delação de outra empreiteira, a Andrade Gutierrez, que foi obrigada a esclarecer sua participação no episódio. De acordo com os executivos da Odebrecht, Aécio recebeu R$ 50 milhões, repassados pela Odebrecht (R$ 30 milhões) e pela Andrade Gutierrez (R$ 20 milhões).

A Odebrecht sustenta a acusação com comprovantes bancários, entregues nos últimos meses, que, segundo a empresa, comprovam depósitos para o senador tucano, por meio de uma conta de offshore em Cingapura, que havia sido citada por um de seus ex-executivos, Henrique Valladares, em depoimento à PGR. A identificação do titular da conta ainda não foi revelada, mas Valladares diz que está vinculada ao empresário Alexandre Accioly, padrinho de um dos filhos de Aécio e integrante do grupo mais restrito de amigos do tucano. Aécio nega as acusações. Accioly rejeita com veemência a afirmação do delator, o único que sustentava, até aqui, seu envolvimento.

Nos últimos meses, no entanto, ex-integrantes da Andrade Gutierrez levaram à Lava-Jato informações que miram novamente em Accioly: em depoimento à PF, o ex-executivo e delator da empreiteira, Flávio Barra, confirmou o repasse de R$ 20 milhões a Aécio por meio de um contrato com a Aalu Participações e Investimentos, empresa controladora da rede de academias Bodytech que pertence ao empresário carioca, a uma sobrinha dele e a um ex-banqueiro.

(…)

Ao Globo, Accioly confirmou o repasse, mas negou se tratar de propina, e sim investimento da Andrade Gutierrez na rede de academias. Segundo ele, a Andrade nunca recebeu dividendos e “permanece como acionista” da holding controladora da Bodytech, por meio de uma Sociedade em Conta de Participação (SCP) com a empresa Safira Participações, que pertence ao grupo mineiro.

(…)

As duas empresas foram informadas sobre a apresentação de versões contraditórias entre si, mas mantiveram o posicionamento original. A relação entre Andrade e a holding que controla a Bodyech não é explicitada nas demonstrações contábeis das empresas, o que contraria recomendações do Conselho Federal de Contabilidade (CFC).

(…)

Henrique Valladares relatou que o pagamento a Aécio foi acertado em reunião com a presença de Marcelo Odebrecht, em Belo Horizonte, no Palácio das Mangabeiras, sede do governo mineiro, no início de 2008. Em depoimento, Marcelo também citou o pagamento ao tucano e disse ter estimulado Valladares, que cuidava da área de energia do grupo, a levar os pagamentos adiante.

De acordo com o ex-presidente do grupo Odebrecht, o objetivo dos pagamentos a Aécio era influenciar decisões da Companhia Elétrica de Minas Gerais (Cemig) — estatal de energia mineira — e Furnas — estatal federal — a favor da empreiteira baiana.

Na época Aécio exercia seu segundo mandato como governador de Minas e integrava a oposição ao governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), responsável por licitar Santo Antônio. Apesar disso, o tucano tinha influência no setor elétrico devido à sua relação com Dimas Toledo, ex-diretor de Furnas, umas das empresas sócias da usina, além de estar a frente do estado que comanda a Cemig, outra sócia do empreendimento.

(…)

A assessoria de imprensa do senador Aécio Neves (PSDB-MG) negou que ele tenha recebido propina da Odebrecht e da Andrade Gutierrez. Segundo a defesa do senador, todos os recursos recebidos pelo tucano “estão devidamente declarados perante os órgãos competentes, tratando-se de doações oficiais de campanha”.

(…)

Do Globo
No DCM
Leia Mais ►

Ao invés da mesmice de todo ano, Roberto Carlos deveria dividir com o público a superação de sua deficiência

Roberto e Ísis Valverde em mais um especial de fim de ano
Na vida só há três certezas: a morte, os impostos e o especial de fim de ano de Roberto Carlos.

A Globo exibiu na noite desta sexta-feira (22) o 43º programa em que o rei faz tudo igual, alterando apenas perfumarias como o título.

Desta vez a coisa se chamava “Esse cara sou eu”. Em uma hora e meia de show, ele distribuiu aquele conforto às famílias que não têm nada melhor a fazer.

Para dar um ar de modernidade, recebe no palco alguns “jovens” artistas. Desta vez eram Tiago Iorc, Simone e Simaria e a compositora panamenha Erika Ender, uma das autoras do insuportável hit “Despacito”, que ganhou uma versão emprenhada de dormonid de RC.

Roberto, ídolo inconteste, vai morrer se repetindo e sem prestar o maior serviço que um senhor de idade, cuja fonte criativa já secou, poderia prestar: assumir sua deficiência.

Aos 6 anos, perdeu parte da perna direita, abaixo do joelho, num acidente de trem em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo.

Ele contou a história na linda “O Divã”, de 1972: “Relembro bem a festa, o apito/E na multidão, um grito”. O refrão é dolorido: “Essas recordações me matam”.

Desde então, calou-se e fez o possível para esconder sua condição. Em 2013, no meio da polêmica sobre a censura à sua excelente biografia, falou à Globo que ia narrar o caso em um livro que nunca viu a luz do dia.

“Ninguém pode contar melhor sobre esse episódio do que eu”, alegou. “Isso aí só eu sei”.

Roberto vive com esse segredo de polichinelo no armário. Seus assessores, medrosos e puxa sacos, têm que fingir que isso não existe.

Assumir a amputação e mostrar como ele a superou (ao menos fisicamente): eis a grandiosidade e a surpresa que Roberto teria a oferecer hoje a seu público. Essa atitude faria diferença e o colocaria numa agenda da modernidade.

Mas ele prefere dar a seus velhos fãs, a cada dezembro, 90 minutos de tédio, mediocridade e mesmice.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Investigações mostram gritante desequilíbrio

Na segunda-feira, 17 de março de 2014, uma então desconhecida Operação Lava Jato prendia o doleiro Alberto Youssef. O assunto implicava muito dinheiro. Ao concluir o dia, a equipe de Curitiba tinha 80 mil páginas de documentos para analisar. Nos desdobramentos do caso surgiu o petrolão, envolvendo o PT.

Na quarta-feira, 19 de março de 2014, os leitores da Folha encontravam na Primeira Página o seguinte título: "Alstom pagou suborno de R$ 32 milhões, diz ex-executivo". A notícia dava conta da colaboração de um dirigente do grupo francês com o Ministério Público de São Paulo. "O suborno, destinado a servidores e políticos do PSDB, equivale a 12,1% do valor do contrato de R$ 263 milhões", escreviam os repórteres Mario Cesar Carvalho e Flávio Ferreira. Como se vê, bastante dinheiro também.

De lá para cá, uma das investigações se tornou a mais importante do mundo, segundo indicou a Transparência Internacional. Ao completar três anos, a Lava Jato contabilizava 38 fases, 198 prisões e 89 condenações. Ex-ministros importantes, como José Dirceu e Antonio Palocci, haviam sido presos. O tesoureiro do PT, acusado em inúmeros processos, continuava na cadeia. Dilma havia caído. Depois, Lula foi condenado.

Na outra investigação, que envolvia o PSDB, nada ocorreu. Passados quase quatro anos do início da Lava Jato, a Folha voltou a estampar, terça passada (19): "Odebrecht confessa cartel durante gestão tucana em SP". "O esquema, de acordo com o material da empreiteira, operou de 2004 a 2015 em obras que custaram cerca de R$ 10 bilhões", escreveu o repórter Julio Wiziack. As mesmas empreiteiras envolvidas no Petrolão, operando na mesma época, não suscitaram o mesmo interesse do Partido da Justiça.

Ao contrário do ocorrido com a nação petista, no tucanistão não houve sequer uma fase espetacular, dessas que têm nomes curiosos e geram centenas de minutos na TV. Não se conhece ninguém preso. Não há uma figura importante do peessedebismo que tenha sequer sido convidada a depor sobre o tema. Houve apenas a ação solitária de Joesley Batista, que ocasionou a temporária cassação de Aécio Neves, já revogada, e a prisão de sua irmã, também revogada.

Não há como defender meios ilegais de financiamento político e muito menos justificar desvios de recursos públicos. Desde 2014 tenho escrito aqui que os partidos estão em débito com a opinião pública e a sociedade brasileira por não explicarem o que aconteceu e tomarem as medidas cabíveis. Mas não é possível, igualmente, aceitar que o rigor da lei recaia de um lado político só. O desequilíbrio do que aconteceu nos últimos quatro anos é mais do que evidente.

André Singer
No fAlha
Leia Mais ►