21 de dez. de 2017

Ho, ho, ho, é Natal, alegrem-se! Está no ar o Brasil Maravilha de Papai Temer

http://www.balaiodokotscho.com.br/2017/12/21/ho-ho-ho-e-natal-alegrem-se-esta-no-ar-o-brasil-maravilha-de-papai-temer/

Como num passe de mágica, entrevistados voltaram a sorrir ao lado de repórteres felizes e, de um dia para outro, só boas notícias inundaram a pauta da mídia.

É como se fábricas e lojas tivessem reaberto suas portas, oferecendo vagas de emprego a granel, os serviços públicos estivessem novamente funcionando, o dinheiro já não faltasse antes do final do mês, as pessoas voltando a viajar e sonhar, tudo uma beleza.

Já nem dá para saber o que é notícia e o que é propaganda oficial, as canções maviosas se sucedendo a embalar gente feliz.

Anuncia-se que “o Brasil voltou”, produzindo a todo vapor, de vento em popa, como naquelas campanhas ufanistas dos tempos do general Médici e do “milagre brasileiro”.

É o Brasil Maravilha de Papai Temer no ar, com seu saco de bondades, em todos os canais, o dia inteiro, invadindo os lares enfeitados de Natal à espera do bom velhinho.

Qual foi o milagre para tudo mudar tão rapidamente?

Uma pequena notícia publicada na página A7 da Folha desta quinta-feira, sob o título “Presidente teve encontro com a cúpula da Globo”, talvez ajude a entender esta mudança radical.

Diz a nota: “O presidente Michel Temer teve um encontro reservado no início de outubro em São Paulo com João Roberto Marinho, do Grupo Globo, para discutir a cobertura de seu governo pelos veículos da empresa, além de pedir apoio para a reforma da Previdência”.

Apoio para a reforma da Previdência não precisava nem pedir, já que toda a mídia está a seu favor, como o próprio presidente já tinha afirmado por estes dias.

O objetivo era outro, relatam os repórteres Marina Dias e Bruno Boghossian: “O presidente reclamou da cobertura do caso JBS pelos veículos do grupo, que tinha, segundo o político, o objetivo de derrubá-lo (…) Uma das reclamações centrais de Temer foi o editorial de O Globo, em 19 de maio. Intitulado “A renúncia do presidente”, defendia a saída de Temer do cargo como a melhor opção do país”. O colunista Ricardo Noblat chegou a anunciar na véspera que a renúncia era uma questão de horas.

De fato, a partir daquele dia, o maior grupo de comunicação do país deflagrou em todos os seus veículos uma campanha sem tréguas contra o governo de Temer, que chegou a lembrar os meses que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff.

Só se falava da crise do fim do mundo e de escândalos em todos os níveis, a Lava Jato dominava todos os noticiários e o baixo astral se instalou no país.

Tudo começou a mudar depois de Temer derrubar a segunda denúncia de Rodrigo Janot na Câmara, quando o ministro Moreira Franco assumiu o controle da propaganda oficial do governo e iniciou uma contraofensiva junto aos principais veículos.

Da recessão profunda à euforia consumista no comércio de Natal, das delações sem fim às conquistas da economia, foi um passo.

O Brasil saiu do inferno para o paraíso num piscar de olhos, sem disfarces nem aviso prévio.

Por trás destas conversas com a Globo e os demais, havia um inimigo comum a assombrar a todos, como se dissessem uns aos outros: “Se nós não nos unirmos agora, o Lula vai acabar ganhando estas eleições” (ver coluna anterior sobre a busca de um candidato anti-Lula), como já tinha alertado o ministro tucano Aloysio Nunes.

Na falta de outras opções, o próprio Michel Temer ousou apresentar seu nome como candidato de união na quarta-feira. “Temer não descarta disputar a reeleição”, anuncia a manchete da mesma página em que saiu a nota sobre o encontro do presidente com a direção da Globo.

Apesar de ostentar 1% de intenção de votos para 2018 na última pesquisa Datafolha, empatado com Levy Fidélix, aquele do aerotrem, como bem observou a coluna de Bernardo Mello Franco, o que animou o presidente foi a divulgação de um novo Ibope em que a a avaliação de ótimo e bom do governo oscilou positivamente de 3% para 6%, dentro da margem de erro, enquanto 74% consideram seu governo ruim ou péssimo (eram 77% em setembro).

Empatado com os mesmos 1% na pesquisa está o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que pegou uma carona no programa do PSD apresentado nesta quinta-feira para fazer seu primeiro discurso de campanha:

Com o mote “o brasileiro não quer mais saber de aventuras”, Meirelles pregou “o reencontro dos milhões de brasileiros que são maioria e que não estão nos extremos do ponto de vista político e ideológico”, ou seja, Lula e Bolsonaro, que vêm liderando todas as pesquisas.

Ao apresentar sua trajetória ao eleitorado, o ministro da Fazenda só se esqueceu de incluir os oito anos em que foi presidente do Banco Central nos dois governos do “aventureiro” Lula.

Resta saber o que sua excelência, o eleitor, está achando de toda esta movimentação do establishment em busca de um candidato governista, que agora pode ser até o próprio presidente Temer, quem diria.

José Sarney, em circunstâncias muito semelhantes, não ousou tanto em 1989, quando todos os candidatos eram contra o seu governo e Fernando Collor acabou vencendo a eleição.

Quem seria o Collor da vez para enfrentar novamente o mesmo Luiz Inácio, quase três décadas depois?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares para o cada vez mais imprevisível ano de 2018.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
Leia Mais ►

“Ele se salvou de perder o posto de capitão por causa de um general amigo dele”

O que o ex-ministro da ditadura Jarbas Passarinho pensava de Bolsonaro

Jarbas Passarinho: “Nunca pude suportar Jair Bolsonaro”
Eu já escrevi aqui sobre o desprezo que o general Ernesto Geisel nutria por Jair Bolsonaro, “um mau militar” e “fora do controle”.

Bolsonaro se auto outorgou o papel de herdeiro do regime, atendendo aos anseios de alguns milhares de analfabetos funcionais e fascistas que acreditam que o Brasil emanou leite e maná do chão entre 1964 e 1985.

O “capitão” era considerado um “bunda suja” no Exército — a maneira carinhosa com que os oficiais graduados tratavam os militares que não faziam carreira.

Além de Geisel, Bolsonaro causava asco a outra figura emblemática daqueles tempos: Jarbas Passarinho, tenente coronel que foi governador, senador e ministro do regime, além de signatário do AI 5 (“Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”, foram suas imortais palavras no momento da assinatura).

Morreu em 2016, aos 96 anos. Numa entrevista de 2011 para o site Terra Magazine, Passarinho falou de Jair, então às voltas com a polêmica em torno de suas declarações no CQC sobre a cantora Preta Gil.

Ele descreveu o colega de armas. “Ah, esse homem eu nunca pude suportar!”, afirmou. Transcrevo alguns trechos:

Já tive com ele aborrecimentos sérios. Ele é um radical e eu não suporto radicais, inclusive os radicais da direita. Eu não suportava os radicais da esquerda e não suporto os da direita. Pior ainda os da direita, porque só me lembram o livrinho da Simone de Beauvoir sobre “O pensamento de direita, hoje”: “O pensamento da direita é um só: o medo”. O medo de perder privilégios.

(…)

Ele irrita muito os militares também, porque quando está em campanha, em vez de ele ir ao Clube Militar, como oficial, ele vai pernoitar no alojamento dos sargentos (risos). Pra ganhar a popularidade dele. Quando eu fui ministro da Justiça, recebi a visita de uma viúva de um brigadeiro de quatro estrelas. Ela era pensionista, portanto. Sabe que a pensão dela, naquela ocasião, no governo Collor, era o que um cabo recebia na ativa? O Collor me autorizou a tentar fazer uma modificação daquilo, pra ter pelo menos um pouco mais de dignidade. Ele (Bolsonaro) me viu fazendo isso. Ficou calado, veio com a esposa dele lá do Rio (de Janeiro), e em seguida ele foi pra tribuna e deu aquilo como projeto de lei dele. Por aí tu vês qual é a pessoa.

(…)

Foi mau militar, só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar (STM). O ministro (do Exército), que era o Leônidas (Pires Gonçalves), rompeu com esse general por causa disso (em 1986, Bolsonaro liderou um protesto pelo aumento do soldo dos militares). Ele começou a se projetar quando aluno da escola de aperfeiçoamento de capitães. Deu uma entrevista falando dos baixos salários que nós recebíamos.

Bolsonaro faz proselitismo sobre o golpe militar em 2014
Foto de Orlando Britto

(…)

Ele já teve um aborrecimento comigo. Um cadete meu, que depois foi paraquedista e fez parte da luta contra a guerrilha do Araguaia, Lício Maciel, que esteve à morte, uma guerrilheira atirou na boca dele… Quase foi o fim. E o Lício Maciel foi na conversa do Bolsonaro, que o levou para uma sessão (no Congresso). Ele entrou e levou o Lício, que foi na conversa dele e começou a dizer: “(José) Genoíno, você tenha a coragem de dizer aqui na minha frente que foi torturado… Você mente! Você foi preso por mim, pelo meu grupo”. Depois eu soube, por uma mulher da esquerda, que ele (Genoíno) confessou que lá ele não foi torturado, mas depois.

Então, Bolsonaro submeteu esse rapaz a um vexame, porque ele entrou numa sessão do Congresso. Eu escrevi um artigo e mostrei a total imprudência e irresponsabilidade do deputado. Submeter um oficial brilhante, digno, que tinha exercido sua atividade contra a guerrilha sem nunca ter participado de uma violência física, e ao contrário, sofreu, para depois ser expulso de uma sala da maneira vergonhosa como foi!… Ele escreveu para o “Correio Braziliense” me metendo o pau.

Era a primeira vez que ele tinha coragem, depois de tantos atritos. Ele (Bolsonaro) me insultou, dizendo que eu era um escondido da esquerda, um infiltrado, não sei o quê. E mais ofensas de natureza pessoal. O “Correio” não publicou. Ele ficou indignado. Eu não gosto nem de falar sobre ele, porque tudo isso vem à mente.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Temer fez permuta no jantar com a cúpula da Globo

João Roberto Marinho e um popular
No começo de outubro, o presidente Michel Miguel Temer reuniu-se com os irmãos Marinho, donos da Globo, num jantar ‘reservado’, algo camuflado na agenda oficial.

Pegos no pulo, tanto Michel Temer quanto os Marinhos soltaram notas esclarecendo que o encontro tinha sido apenas para pedir apoio para a reforma da Previdência e que a conversa se deu de maneira “absolutamente republicana, sem pedidos ou promessas de qualquer das partes”.

Segundo a Folha, o convescote ocorreu na casa de Roberto Irineu Marinho e contou com seu irmão João Roberto Marinho, além do vice-presidente de Relações Institucionais da Globo, Paulo Tonet.

Temer se queixou sobre a cobertura de seu governo pelos jornais, rádios e canais de TV do grupo. Reclamou que o Globo foi o veículo que divulgou a conversa entre ele e o empresário Joesley Batista. Falou de um editorial que pedia sua renúncia.

E de um outro que praticamente sentenciava Michel Miguel como culpado na compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Provavelmente o presidente golpista deve ter reclamado ainda da próstata, de dor no ciático, etc.

Por que os Marinhos teriam marcado um jantar se só Temer fez pedidos, é algo a se debruçar. O que mais se sabe do encontro é que, depois de tanto chororô, o presidente soltou um ‘veja bem’.

Como se insatisfeito com a receptividade oferecida pelo alto comando ali sentado diante de seus apelos, Michel Miguel começou um discurso acerca das ‘injustiças’ contra ele.

Afirmou que delações não podiam ser tomadas a sério daquela forma, que o conteúdo delas nem sempre é conclusivo, que muitos o fazem para se livrar das penas, que não comprou o silêncio de Eduardo Cunha, que isso, que aquilo. E então veio o ‘veja bem’.

Michel Miguel mencionou o caso Fifa, as denúncias envolvendo a Globo, a delação de J. Hawilla, da agência Traffic. O presidente enviou um claríssimo ‘vocês sabem do que estou falando’ para os irmãos Marinho. Chantagem? Uma espetada? Ou só o roto falando do remendado?

Dinheiro.

Coincidentemente, a partir dali a Globo passou a pegar leve com ele. Os telejornais noticiam diariamente uma retomada da economia e o aumento do índice de empregos. Nos intervalos, propaganda oficial.

Sumiram dos destaques e manchetes os R$ 500 mil que rolavam na mala de Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor especial e um de seus homens de confiança, sumiu Geddel Vieira Lima, parou-se de perguntar de quem afinal são os R$ 51 milhões que estavam no bunker em Salvador.

Não existe almoço – nem jantar – grátis. O que aconteceu naquela noite de 4 de outubro foi um acerto informal de propaganda gratuita do seu governo, além de uma demonstração clara, claríssima, de que a velha mídia não sobrevive sem a promíscua relação com os cofres públicos.

A Globo colocou Temer lá e quis mostrar que poderia também catapultá-lo, como fez com Collor e Dilma. Perdeu a briga e ainda teve que pagar o prato de comida e ser condescendente com alguém que possui 3% de aprovação.

Pela suavidade do tratamento recente do clã Marinho que o governo tem recebido, é de se supor que na hipótese de um novo encontro, o presidente irá agradecer com um “Tem que manter isso aí, viu?”

Mauro Donato
No DCM
Leia Mais ►

Fernando Morais entrevista Fernando Haddad


Leia Mais ►

Quanto ganham alguns juízes do TRF-4

Com base no post Escândalo: quanto ganham todos os juízes do Brasil!, segue o salário de alguns juízes do TRF-4:

Lembrando que o teto salarial do Judiciário, previsto em lei, é de R$ 33,763 mil.








Leia Mais ►

Escândalo: quanto ganham todos os juízes do Brasil!

Programador abriu a caixa preta do Judiciário!


Amigo navegante chamou a atenção do Conversa Afiada para o Twitter do programador e ativista Álvaro Justen:

O C Af trata com grande atenção o tema dos fura-tetos do Judiciário.

Aqui, o amigo navegante já viu que desembargadores ganham mais de 100 mil reais e que o Judge Murrow e o Dallagnol são marajás.

Os leitores do Conversa Afiada também desvendaram o labirinto do Portal da "Transparência" (sic) e descobriram que 99,88% dos magistrados de São Paulo ganham salários acima do teto constitucional de R$ 33.753.

Álvaro Justen foi além: extraiu as planilhas de salários de todos os magistrados do país, como estão no site do CNJ.

O resultado está disponível no GitHub, uma plataforma de hospedagem de projetos de software livre, e também no Google Drive.


Os salários dos magistrados estão disponíveis na coluna "total de rendimentos", à direita da tela.

Aproveite! Os dados são públicos!

Em tempo: também no Twitter, o advogado Jeff Nascimento revela os vinte maiores contracheques do Judiciário brasileiro. O campeão teve rendimentos equivalentes a 261,79 salários mínimos em novembro deste ano:

Leia Mais ►

O Segredo dos Deuses — 8/10 — Igreja Universal do Reino de Deus


Neste episódio, revelamos o momento em que “Clara” vai tirar satisfações com a mãe, devota da IURD. E contamos como tem sido a vida dos seus filhos, Filipe e Pedro.


Assista também outros episódios:

1/102/103/104/105/106/107/109/1010/10
Leia Mais ►

Maluf e a chocante covardia que se tornou a justiça brasileira


Sou de uma geração para quem Maluf era o exemplo mais bem acabado do problema do Brasil. Todos sabiam que era corrupto, todos sabiam que roubava, e ainda assim ele fazia tudo e dava gargalhadas sobre nossas cabeças. Maluf ensinou que não se deve mexer com corruptos em altos postos. Era o exemplo da tese do Caligaris no livro "Hello, Brasil". Maluf fazia e o Estado brasileiro, por conivência ou inépcia, aceitava.

Por anos quisemos Maluf preso. Quisemos ver aquele sorriso cínico atrás das grades. Por anos o Estado brasileiro nada fez.

O problema é que quem está sendo preso não é aquele Maluf. Aquele que roubava e tinha desde delegado até presidente para lhe proteger as costas. Aquele Maluf que chamava general de exército pelo apelido. Aquele Maluf sambou na cara do povo brasileiro por décadas. O que está sendo preso é um velho doente, sem mais qualquer ligação ou serventia aos atuais corruptos. O Maluf que está sendo preso é usado como troféu para mostrar como as "instituições brasileiras estão funcionando".

O Maluf de hoje está na presidência. Zoando com a cara de toda a população. Tendo de delegado chefe da pf, até ministro para lhe proteger as costas. O Maluf de hoje rouba e coloca o dinheiro em malas filmadas e o Estado brasileiro nada faz. O Maluf de hoje, aquele da presidência, manda até prender o Maluf de verdade.

Manda e o STF obedece porque o Estado brasileiro continua inepto ou conivente. Só que agora adicionou também o sadismo e as quebras das próprias leis. O novo Estado brasileiro, o que prende velhos decrépitos de 80 anos, tortura pessoas para obter "delações premiadas", e forja e manipula provas para usar contra seus desafetos é pior que aquele Maluf, o velho Maluf. O Estado brasileiro se tornou putrefato e ao prender velhos de 80 anos com histórias criminosas continua mostrando que sempre existirá um Maluf que manda e que não tem nada a Temer.

Fernando Horta
Leia Mais ►

“O bom senso vai prevalecer neste país”


“Faz muito tempo que a gente não conversa. Eu então tomei a decisão de, neste final de ano, tomar um café com vocês e tentar matar a saudade. E ver o que vocês tanto querem perguntar e se eu vou saber responder”, disse Lula.

“Vou tentar ter o melhor humor possível. De vez em quando eu vejo alguém dizer que estou mal humorado. Eu não poderia estar mal humorado porque sou corintiano. E estou em primeiro lugar nas pesquisas [eleitorais]. Se tem alguém que está mal humorado neste país não sou eu.”

O ex-presidente afirmou que “a gente continua vivendo no Brasil um momento atípico na política” que só será normalizado quando “o povo eleger diretamente um presidente ou uma presidenta da República”.

Lula, que será julgado no dia 24 de janeiro pelo caso do tríplex, disse que não teme ser condenado nem preso e que será candidato “enquanto o PT quiser” e ele puder recorrer à Justiça para se manter na campanha.

Leia abaixo trechos da conversa:

Julgamento

A minha condenação será a negação da Justiça. Porque a Justiça vai ter que fazer um esforço monumental para transformar uma mentira em verdade e julgar uma pessoa que não cometeu crime.

A sentença do juiz [Sergio] Moro me condenando, aos olhos de centenas de juristas, até de fora do Brasil, é quase que uma piada.

Eu tenho a tranquilidade de que vou ser absolvido porque para um cidadão ser condenado ele tem que ter cometido um crime. E não tem [crime]. É por isso que eu tenho desafiado a Polícia Federal, o Ministério Público da Lava Jato, a mostrarem uma única prova. Eu não peço duas. Eu peço uma.

Na verdade estamos vivendo uma anomalia jurídica e política. Esse processo começou com uma mentira de um jornal, de uma revista, que foi transformada num inquérito pela Polícia Federal. O resultado do inquérito é mentiroso. Foi enviado ao Ministério Público, que mentiu e fez uma acusação. E o Moro aceitou a mentira.

Tudo isso poderia ter terminado se a Polícia Federal tivesse sido sincera e se o Moro tivesse feito papel de juiz.

Acontece que estamos vivendo um momento muito delicado. Você subordinou o processo ao que a imprensa fala dele. Numa linguagem popular, eles estão sem rota de fuga. Ou seja, mentiram e não têm como sair.

Qual é a única chance que eu tenho? É pedir provas. Tem que ter algum documento, algum contrato, aluguel, pagamento [do tríplex], algum ato de ofício, alguma coisa.

Eu tenho até o dia 24 para esperar que alguém diga qual foi o crime que eu cometi. E dizer que o apartamento [tríplex] é meu. Me entrega a chave. Quem sabe a nossa próxima conversa será na sacada do apartamento, tomando sol. Enquanto não for, por favor, parem de mentir a meu respeito.

Eles [desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que vão julgá-lo] têm mais obrigação diante da sociedade no dia 24 do que eu. A minha inocência eu já provei. Quero que agora eles provem a minha culpa.

Eu às vezes tento encontrar um roteiro para comparar com o meu. O mais próximo que eu encontro é o da invasão do Iraque [em 2002].

O [então presidente norte-americano George] Bush sabia que o Iraque não tinha armas químicas. O [então primeiro-ministro inglês] Tony Blair sabia. Inventaram uma mentira, sustentaram a mentira e conseguiram fazer a invasão por conta de uma mentira. Já faz 15 anos. Cadê a arma química?

Eu tenho 72 anos de idade e acredito na Justiça e na democracia. Senão eu vou fazer o quê? Propor a luta armada? Com a minha idade? Prefiro continuar acreditando.

Eu penso que meus acusadores vão ficar ridicularizados. Ridicularizados.

Reinaldo Azevedo

Eu aconselho vocês a lerem as peças [do processo] para me defenderem, como o [jornalista e colunista da Folha] Reinaldo Azevedo está fazendo [risos]. Ele todo dia fala “Eu li. Eu li o processo”. Eu não peço para dizerem que eu sou inocente, não. Peço que vocês leiam. E se acharem uma vírgula de culpa, por favor, me telefonem. É só isso.

Tesão

Como eu acho que eu vou ser cada vez mais inocentado, eu acho que no final vai prevalecer o bom senso nesse país. Como eles podem tentar evitar que um velhinho [como eu] de 72 anos de vida, energia de 30 anos e tesão de 20 seja candidato? Não é possível. É tanta coisa boa junta que eles têm que deixar, porra. Ainda mais um cara que tem um otimismo, sozinho, que todos não têm juntos.

Pirotecnia

Eu fico feliz que o Brasil seja um país dotado de mecanismos para combater a corrupção. Agora, o que incomoda é quando você tem as instituições que têm que apurar se transformando em partido político. E criando factóide, trabalhando com show de pirotecnia.

Não vou esquecer nunca o show que a PF deu quando veio aqui no Instituto. O espetáculo. Parecia que estava invadindo uma casa que tinha bombas, arma química do Iraque aqui dentro.

Quando vão na casa do Sergio Cabral, na casa do Geddel [Vieira Lima] encontram dólar, dinheiro, fazem um carnaval com aquilo.

Agora, quando vão na minha casa e não encontram porra nenhuma, eles deveriam pelo menos dizer “desculpa, Lulinha”. Não fizeram.

Eu não vou morrer enquanto não me pedirem desculpas. Eu quero ouvir o William Bonner pedindo desculpas na Globo. [Imita o apresentador do Jornal Nacional]: “Boa noite. Queríamos pedir desculpas para o Luiz Inácio Lula da Silva porque tudo o que se falou dele foi mentira”.

Caráter

Se tem uma coisa que eu tenho de sobra é caráter. E não vou permitir que um juiz me chame de ladrão, ou um promotor. Eles têm que ter uma prova. Se não tiver, se pegarem essa gente toda e fundir numa prensa, não dá um cara mais honesto que eu.

Eles mexeram com um homem honesto. E é isso o que vai me fazer brigar com eles até o último dia da minha vida. Vamos ver quem vai vencer essa história.

Delações

Já são milhares de empresários presos, centenas de delações. E até agora não existe uma única prova [contra mim].

Eu fico até com pena. Conheço casos e casos, contados por advogados, de pessoas que eram perguntadas [pelos investigadores]: “E o Lula? Ele sabia?”. Então tinha uma senha.

Eu duvido que tenha na história do Brasil um presidente ou um partido que tenha tomado as providências que nós tomamos para combater a corrupção. Eu espero que a história um dia faça justiça ao PT. Desde a proclamação da República não fizeram o que fizemos em apenas 12 anos.

Mas o combate à corrupção exige seriedade. As pessoas que investigam e julgam têm que ter muita responsabilidade. Por isso são concursadas, têm estabilidade, ficam eternamente no cargo. É uma coisa importante e nobre. Tem que ter QI acima da média. Mas tem que ter caráter também.

A delação, que nós [governos do PT] fizemos, está sendo utilizada para fins políticos.

E vocês diziam: “Quando prenderem o [pecuarista José Carlos] Bumlai, o Lula tá ferrado. Quando prenderem o Marcelo [Odebrecht], o Lula tá ferrado. Quando prenderem o Emílio [Odebrecht], o Lula tá ferrado. Quando prenderem o Aécio [Neves], o Lula tá ferrado. Quando prenderem o [Antonio] Palocci, o Lula tá ferrado”.

Pode prender o papa Francisco! Eu duvido que nesse país tenha alguém com a consciência mais tranquila do que a minha. Mesmo os que escrevem contra mim.

Se as pessoas estão acostumadas a lidar com quem não tem caráter e honra, eu tenho. Porque caráter não está à venda. Não adianta ir para Miami que não encontra. A gente tem de berço. E eu tenho de sobra.

Candidato condenado

Eu estarei candidato se o partido quiser porque no fundo o PT que vai decidir até o dia em que uma instância [da Justiça] diga que eu não posso ser candidato.

A minha vontade é sair com o meu atestado de inocência no dia 24. Se não for nesse dia, recorrer. Porque eu não vou passar para a história como um inocente condenado. Eu prefiro moralmente condenar quem me julgou, condenar parte da imprensa que mentiu três anos seguidos contra mim.

Essa semana houve o depoimento de um cidadão chamado [Rodrigo] Tacla Duran [advogado que trabalhou para a Odebrecht e faz acusações à força-tarefa da Lava Jato]. E a grande imprensa não deu nada. Imagine se ele estivesse acusando o PT. Nós teríamos sido capa e contracapa. Há um conluio para fazer com que a mentira vença.

E eu tenho a certeza absoluta que o que vai vencer é a inocência de um ser humano que só tem um problema neste momento: ter mais chance de ser presidente do que os outros.

Então faz chapa única [para concorrer à Presidência], junta todo mundo, não tem debate na televisão.

Medo de ser preso

Eu não penso, querida. Porque preso só pode ir quem cometeu um crime.

O Ministério Público… Quando eu digo Ministério Público eu quero fazer uma distinção entre a instituição e alguns de seus componentes.

Esse [Deltan] Dallagnol [procurador da Lava Jato] não tem tamanho para fazer o que ele está fazendo.

Aquele Power Point [apresentado à imprensa com acusações contra Lula], ele deveria ser exonerado a bem do serviço público [por ter feito a peça].

O cidadão que fez três anos de concurso, ganha R$ 30 mil [por mês] para falar uma mentira daquela para a sociedade brasileira? Esse cidadão deveria ter sido exonerado. Porque não é possível alguém ganhar tanto do Estado para contar a mentira que ele contou.

Está provado também, depois do papelão do [ex-procurador-geral da República Rodrigo] Janot com o Joesley [Batista, da JBS], está provado o que era aquilo.

Você não pode dar muito destaque a quem não tem biografia. [Ergue a voz] Biografia é uma coisa que exige respeito. E você conquista biografia com trabalho e não com mentira.

É por isso que eu não vou ser preso. Porque para eu ser preso tem que provar alguma coisa. É mais fácil eu provar que eles mentiram do que eles provarem que eu cometi um crime.

Então esse é o jogo que está jogado, querida. É esse o jogo que está jogado.

Se alguém está fazendo isso comigo para que eu não seja presidente, que dispute uma eleição. Me derrotaram em 1989, eu fiquei quieto. Me derrotaram em 1994, eu fiquei quieto. Me derrotaram em 1998, eu fiquei quieto. Você me viu fazendo passeata de protesto? Não.

Então o que eu não aceito é a construção de uma mentira. Não dá. Não dá.

Ódio

Você viu como a Gleisi [Hoffmann, presidente do PT] foi agredida ontem no avião. Isso é parte do ódio que foi disseminado neste país.

Daqui a pouco passam a divulgar a casa onde eles moram, a escola onde estudam os filhos deles. Para eles saberem o que passam as pessoas que eles acusam inocentemente.

O ódio que foi disseminado nesse país… Eu vou pacificar esse país. Pode estar certa de que eu vou pacificar. As pessoas vão voltar a viver em harmonia. Da mesma forma que um corintiano e um palmeirense podem subir no mesmo elevador, um petista e um tucano podem subir, sem um morder o outro.

Essa sociedade tem que voltar a ser alegre.

Essas pessoas que têm ódio porque as pessoas ascenderam socialmente precisam ser preparadas psicologicamente para aceitar repartir 8,5 milhões de km², que é o tamanho desse país.

Todo mundo aqui tem o direito de ter as coisas.

Então é isso que está em jogo e eu vou me dedicar de corpo e alma.

Eu sei que tem gente que quer que eu seja preso. Tem gente que quer que eu morra antes de ser preso. É um alívio, até para quem vai me julgar.

Mônica Bergamo
No fAlha
Leia Mais ►

Estereotipagem

Arthur, do Grêmio, é uma das mais recentes revelações do futebol brasileiro. Como estava lesionado e não pôde viajar com o time para os Emirados Árabes (onde fez muita falta), foi convidado pela Globo para comentar os jogos do campeonato mundial de clubes - e foi outra revelação. Bem articulado e bom observador, mostrou-se uma raridade no mundo do futebol, um jogador que foge do estereotipo e da frase feita e diz mais do que o óbvio.

Mas a estereotipagem pode ser injusta. É difícil imaginar jogadores de futebol usando palavras como “estereotipagem”, mas não há por que pressupor que todos serão primitivos monossilábicos na hora de falar. Como Arthur, eles podem surpreender.

- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.

- Minha saudação aos aficionados do clube e aos demais esportistas, aqui presentes ou no recesso dos seus lares, acompanhando a partida através dos modernos meios eletrônicos.

- Como é?

- Aí, galera.

- Quais são as instruções do técnico?

- Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada, com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe agudo com parcimônia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação.

- Ahn?

- É pra dividir no meio, ir pra cima e pega eles sem calça.

- Você está bem, fisicamente?

- Sim. Meu sistema metabólico, reagindo bem à aplicação de pressões seletivas, também chamadas de massagens localizadas, aliadas a recursos térmicos, conhecidos vulgarmente como “calor”, debelaram a anomalia que impedia minha dedicação integral às atividades em campo.

- Como é?

- Tou bem, tou bem.

- Certo. Você quer dizer mais alguma coisa?

- Posso dirigir uma mensagem de caráter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?

- Pode.

- Uma saudação para a minha progenitora.

- Como é?

- Alô mamãe!

- Estou vendo que você é um, um...

- Um jogador que confunde o entrevistador, pois não corresponde à expectativa de que o atleta seja um ser algo primário com dificuldade de expressão e assim sabota a estereotipagem?

- Estereoquê?

- Um chato?

- Isso.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

O que houve na segunda turma do Supremo não pode ser o correto

A última semana de atividades do Judiciário e do Ministério Público foi como uma homenagem dos seus setores influentes aos desmandos e arbitrariedades com que desorientam a opinião pública. A variedade de novos atos e decisões dessa linhagem parece reunida para simbolizar os três anos completos, descontados alguns meses de ensaios em 2014, de divergências e críticas recebidas apenas com indiferença por aquelas duas faces do mais arrogante dos Poderes.

As recentes decisões encabeçadas por Gilmar Mendes na segunda turma do Supremo estão vistas como debilitadoras da Lava Jato. Não chegam a tanto. Mas repõem outra variável de deformação do Supremo e da ideia de justiça. O que houve na segunda turma não pode ser o correto para uma decisão judicial. Ali se deu um favorecimento escancarado a três congressistas merecedores dos inquéritos no entanto dispensados.

Ausentes por doença Celso de Mello e Ricardo Lewandowski, Edson Fachin propôs o adiamento da sessão. Dois a um, resultado feito por Gilmar Mendes e Dias Toffoli pela sessão e para as decisões em seguida.

No âmbito da Lava Jato, o deputado Arthur Lira estava apontado por suborno depositado na conta do pai, senador Benedito de Lira. Enquanto Eduardo da Fonte foi acusado de intermediar R$ 10 milhões para o senador Sérgio Guerra (falecido) proteger empreiteiras na CPI da Petrobras, como ocorreu. Sob o argumento de que as denúncias se basearam só em delações, Dias Toffoli e Gilmar Mendes recusaram os inquéritos e as arquivaram. À falta de investigações, os inquéritos deviam seu úteis.

Eis, portanto, como no Supremo se decide a sorte de acusados: cair na primeira ou na segunda turma, caso de azar ou sorte, já é meia decisão contrária ou favorável. O mal-estar de um ou dois ministros faz o restante.

Decisões assim são mesmo do Supremo? Correspondem à responsabilidade dada ao Supremo pela Constituição? Correções desse e de outros monstrengos só dependem de alteração no regimento do tribunal, mas ninguém por lá se importa com a continuada descaracterização.

A liberação de três da Lava Jato decorreu também do erro de origem. Assim será ainda muitas vezes: sob a cômoda teoria do seu coordenador em Curitiba, Deltan Dalagnol, a Lava Jato depositou crença quase religiosa nas delações, em detrimento de investigações. Com isso, a Lava Jato favorece denunciados e abre outra frente de choque, quando chega a fase das denúncias e inquéritos.

Também de Gilmar Mendes, a proibição preliminar de conduções coercitivas confundiu muitos dos seus intérpretes. No sábado (16), dois dias antes da proibição, artigo do advogado, colunista da Folha e escritor Luís Francisco de Carvalho Filho dizia : "Conduções coercitivas, tal como se disseminaram a partir da Lava Jato, são inconstitucionais e inúteis".

Sobre ser ainda pendente do plenário, a proibição pedida pela OAB federal e pelo PT não reduziu a margem de ação da Lava Jato. Reduz o desmando e impõe o respeito à Constituição e à própria lei regulamentadora das delações.

Ainda assim, os juízes estão advertidos: se não pode deter, para ouvi-las, pessoas que nem foram chamadas a depor, a Lava Jato vai querer ordem dos juízes para fazer prisão provisória, por cinco dias, daquelas pessoas. Comunicada no anonimato próprio dos vazamentos, a advertência atesta o nível de arbitrariedade em vigor.

De sua parte, a procuradora-geral Raquel Dodge tem tomado providências positivas, como a ação contra a lei, por inconstitucional, que fez Moreira Franco ministro para não cair na Lava Jato curitibana. Dodge, porém, adota a ação de Rodrigo Janot para anular a delação de Joesley Batista.

Janot quis compensar o seu erro de dar imunidade judicial a Batista, mas a coisa não é assim primária.

Joesley Batista proporcionou informações e comprovações tão importantes como a falta de condições morais do próprio presidente, obtendo o direito ao acordo. A concessão ilimitada não foi erro seu, mas de quem a fez. Erros posteriores de Joesley são isso mesmo: posteriores, outro capítulo.

Além disso, tudo na Lava Jato começou com a concessão de Sergio Moro e procuradores a Alberto Youssef, que não podia gozar de delação premiada por haver transgredido o seu acordo de delação na bandalheira do Banestado.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►