10 de dez de 2017

A capivara de um quase banqueiro


O Dr. Meirelles sonha com a presidência. Sei não. Suas credenciais, para o mundo político, não são lá grande coisa. Acho difícil, em eleições diretas, livres, o povo o eleger um quase banqueiro, milionário, que esteve muito ligado a empresários suspeitos de intensa atividade criminosa.

Henrique Meirelles, ministro da Fazenda do governo Michel Temer, é engenheiro pela POLI/USP. Uma escola pública de elite da melhor universidade brasileira. Um homem preparado, capaz, fez carreira de sucesso no setor financeiro. Atingiu o ápice e se aposentou como CEO do Bank of Boston, centenária instituição dos EUA, extinta há cerca de dez anos.

As razões do sucesso de um executivo são sempre múltiplas. Ele se destacou dirigindo a filial do banco no Brasil, a partir de São Paulo, tendo como cliente a plutocracia nacional, em grande parte porque sempre foi muito mais fácil ganhar dinheiro com bancos no hemisfério sul do mundo do que lá em cima.

É simples entender: as taxas de juros praticadas, do crédito ao governo e às pessoas jurídicas, são por aqui muito maiores do que por lá; e quando vamos às pessoas físicas as taxas juros e de cobrança de serviços são escandalosas, mas tão elevadas que se praticadas nos EUA os banqueiros por lá receberiam voz de prisão por crime de usura.

Resultados espetaculares no Brasil cacifaram Henrique Meirelles para o comando da matriz da instituição. Daí a confusão que muitos fazem qualificando-o como banqueiro. Nunca foi banqueiro – banqueiro é dono de banco. Encerrou a carreira como alto executivo. Como passou a pensar como seus patrões é, digamos, um quase banqueiro.

Aposentadoria precoce e generosa, como mandam as regras corporativas da elite do setor privado, Dr. Meirelles achou que era hora de tentar brilhar também na política. Nas eleições de 2002 buscou a indicação do PSDB ao Senado Federal, pelo seu estado natal, Goiás. Inteligente, percebeu que seria fritado na convenção do partido. Recuou e saiu candidato a deputado federal. Nunca fez política no estado, mas esse é sempre um detalhe para quem tem muito dinheiro. Bancou sua eleição com grana do próprio bolso, gastando cerca de R$ 1 milhão, declarados ao TRE, com uma campanha profissional, com avião, equipe de TV e promoção de shows. Dizem que a conta foi muito mais alta. Foi o mais votado no estado.

Eleito deputado federal, renunciou ao mandato, após a diplomação, por ter aceitado o convite do então presidente eleito, Lula, do PT, para presidir o Banco Central. Deixou também o PSDB. Um caso clássico da junção da “fome com a vontade de comer”. Lula precisava acalmar o mercado e a banca – que são donos de grande parte do país – e o Dr. Meirelles sonhava em dar as cartas no setor financeiro. Lá ficou os oito anos dos mandatos de Lula. Não comprometeu, mas por lá nada fez de diferente que os seus antecessores.

O Banco Central no país é uma espécie de guarda circunspecta, engomada, dos interesses dos grandes bancos, patrocinando as fusões que salvam os banqueiros incompetentes da bancarrota e alavancam os negócios dos mais espertos, controlando o câmbio e a taxa de juros básica da economia (que remunera os bancos privados nos seus empréstimos ao governo).

Findo o governo Lula, Dr. Meirelles pensou em reiterar seu interesse pela política, sonhou com o governo de Goiás, agora pelo PMDB. Mas de novo viu dificuldades, sentiu que estavam mais interessados no seu dinheiro que na sua liderança, e se recolheu.

No mercado, convites choveram. Aceitou, em 2012, o chamado dos magnatas da carne, os notórios irmãos Batista – que encontram-se em prisão preventiva desde setembro passado, por estripulias várias -, para implantar um banco inovador, digital, de nome Banco Original, com 100% do controle nas mãos da J&F Participações, holding dos bacanas.

Foi bem pago, o Dr. Meirelles. Recebeu algo como R$ 180 milhões pelos serviços prestados à J&F entre os anos de 2012 e 2016. O valor está revelado no seu perfil, feito pela jornalista Malu Gaspar, publicado na edição de novembro da revista Piauí. À jornalista ele disse que o valor “é até muito pequeno”, uma vez que o Banco Original, montado por ele para a família Batista durante esse período, “vale uma fortuna, e que será paga em dez, vinte anos”. Ao se despedir do Banco Original, o Dr. Meirelles deixou também um prejuízo de R$ 36 milhões na instituição (Balanço de 2016). O banco até o momento nunca deu lucro.

Sobre sua relação para lá de especial com os Batista, a Piauí conta que o agora ministro, quando presidente do conselho de administração da J&F, entre 2014 e 2016, assinou, como manda a lei, atas de reuniões e balanços de final de ano. Entretanto ele confessou, num momento de deslize ou franqueza, que era tudo fake. “O conselho nunca se reuniu”, declarou à revista.

Nossa imprensa investigativa – com tantos intrépidos (sic) jornalistas que se destacam em VEJA, Folha de S.Paulo, Estadão e Rede Globo, que quase tiveram orgasmos nas matérias infindáveis sobre apartamentos de 150 m2, pedalinhos e reformas em edículas de sítios – não se interessou pelo tema da relação entre o quase banqueiro, que tinha dirigido o Banco Central por quase uma década, e os magnatas da carne e da celulose, hoje enjaulados, e que tentavam uma ponta, para ganhar uma graninha, também no setor financeiro.

Há poucos meses, após divulgação da existência de um “trust” de sua propriedade nas Bermudas, um paraíso fiscal, o Dr. Meirelles afirmou que o objetivo do mesmo seria filantrópico, para gerir o destino de sua fortuna pessoal após o seu passamento.

Ministro da Fazenda do governo Michel Temer, ele afirmou, no início do mês, pela primeira vez, que se considera um presidenciável para as eleições de 2018. Em entrevista à Veja, cutucado por um jornalista, respondeu: “Sim, sou presidenciável. As pessoas falam comigo, me procuram, mas ninguém me cobra uma definição.”

O Dr. Meirelles sonha com a presidência. Sei não. Suas credenciais, para o mundo político, não são lá grande coisa. Um quase banqueiro, milionário, que esteve muito ligado a empresários suspeitos de intensa atividade criminosa, ministro da Fazenda de um governo cuja agenda principal é a diminuição de direitos do mundo do trabalho, que promove uma reforma previdenciária rejeitada por quase todos os brasileiros e cujo resultado em termos de crescimento econômico é medíocre.

Acho difícil, em eleições diretas, livres, o povo o eleger. Não é impossível, mas improvável. Talvez pudesse o Dr. Meirelles se dedicar, ao deixar o governo Temer, a patrocinar ações filantrópicas pelo Norte e Nordeste do país dando destinação social à sua considerável fortuna, esquecendo essa história esquisita de “trust” nas Bermudas e aí, quem sabe, em 2022, ele possa ter alguma chance como candidato à presidência da República. Continuará difícil, a idade será mais um complicador, mas pelo menos ele terá algo a apresentar ao povo, além do seu trabalho, como bancário eficientíssimo, de multiplicar o patrimônio dos muito ricos.

Claudio Guedes
No Nocaute
Leia Mais ►

Abusos e amadorismo da mídia para cobrir as truculências da Polícia Federal


Paula Cesarino Costa é uma ombudsman à altura dos melhores que a precederam, como Marcelo Beraba e Mário Magalhães.

Sua crítica de hoje, ao espaço dado às operações policiais contra Universidades, permite levantar uma característica não muito nova, mas que se estratificou nos últimos anos: a incapacidade dos jornais de se renovarem. Nos programas de qualidade existe o método PDCA, ou Planejar, Fazer, Checar e Agir. Trata-se do bê-a-bá da qualidade.

Os jornais, que tratam a questões da eficiência, da qualidade como palavras mágicas, são incapazes de reavaliar procedimentos básicos. No caso, como se comportar ante uma denúncia da polícia.

Desde o caso Escola Base já se sabia do risco de se fiar na palavra de um delegado - ou de um procurador, ou de um juiz, ou de um repórter quando acha que conseguiu o grande furo.

Nos últimos anos, com a disseminação das forças tarefas, da operação-espetáculo, a submissão à versão do policial se tornou uma epidemia.

Explica o editor de “Cotidiano: “a cobertura segue o mesmo critério jornalístico de outras ações policiais e não há adesão à qualquer campanha. Publicamos o fato, as alegações da corporação e os outros lados dos citados.

Evidente que há um conjunto de falhas na cobertura.

Fossem empresas do setor moderno da economia, os jornais procederiam ao PCDA desse processo de cobertura de operações policiais.

A incapacidade de relativizar denúncias

É ampla a  incapacidade da imprensa de relativizar episódios. É só conferir o discurso dos jornalistas econômicos da Globo sobre o fim de recessão, com a economia no fundo do poço. A economia estava em 10. Caiu para 2 e subiu para 2,1. Todos os comentários salientam a recuperação, sem qualificá-la: a intensidade, a comparação do PIB com o de pré-crise etc.

É como se uma recuperação de 4% tivesse o mesmo significado de outra de 0,1%.

No campo penal, é pior. Todos os crimes são tratados da mesma maneira, seja um desvio de verba, uma irregularidade administrativa ou a alta corrupção. Essa ignorância da mídia acaba se espraiando por toda a sociedade, ajudando a consolidar o espírito de linchamento cada vez mais presente.

A apuração da denúncia

Segundo o editor, o repórter publica a denúncia e ouve o outro lado. A polícia falará genericamente em desvios. Para valorizar a manchete incluirá o valor total do empreendimento como se fosse desvio. E só. Não há um detalhe sobre a natureza do objeto investigado.

Principalmente porque nesses tempos bicudos de abusos policiais, as vítimas sequer sabem do que estão acusadas.

No caso da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) só depois do suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier apareceram as informações de que não havia nenhuma espécie de envolvimento dele com os fatos denunciados. A ficha do delator apareceu apenas nas reportagens dos Jornalistas LIvres, não dos jornalões. E os abusos da delegada Erika Marega apareceram apenas nos sites e blogs independentes. Mesmo tendo torrado dinheiro público para transportar 120 policiais para deter 8 pacatos professores universitários.

No caso da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tome-se a sentença da juíza Raquel Vasconcelos Alves Lima, que articulou com a Polícia Federal a invasão.  A sentença vazou apesar do processo ser considerado sigiloso. Lá se fala em organização criminosa e apresenta como um dos crimes a distribuição de bolsas. Diz que o crime é suficientemente grave para justificar a condução coercitiva. E a mídia aceitou normalmente, porque no pé da matéria, escondido, havia algum outro lado negando sabe-se lá o que.

Ora, um mínimo de discernimento mostraria o ridículo dessa armação, de uma perigosíssima quadrilha que desviava dinheiro para bolsas de estudo.

Em nenhum momento, os jornalistas procuraram entender a natureza do trabalho denunciado. Nem se preocuparam em checar o ridículo da acusação com a juíza ou os delegados.

Pior. Havia a informação de que o Ministério Público Federal (MPF) de Minas Gerais considerou abusivas as ordens de condução coercitiva. Mas não se procurou um procurador para apresentar suas razões.

Coube a portais alternativos - como o GGN - apurar a armação da juíza com os delegados, visando impedir os procuradores de segurar a condução coercitiva.

Um Manual de Bom Jornalismo 

O que se tem claramente - do mesmo modo que nos episódios da Escola Base e Bar Bodega - são repórteres policiais comendo nas mãos de policiais repórteres, juízes delegados, e procuradores juízes.

Se se quiser praticar um mínimo de jornalismo, há que se seguir um conjunto de princípios da boa técnica:

Toda declaração de delegado é, em princípio, suspeita. O delegado é um vendedor do seu trabalho, assim como o repórter pretendendo emplacar a manchete.

O último veio descoberto pelas milícias de Estado é a criminalização de procedimentos administrativos nas Universidades. Se se quiser impedir o transbordamento do arbítrio e praticar um jornalismo minimamente decente, os jornais deveriam orientar seus repórteres na seguinte direção.
  1. Nunca confiar na palavra do delegado. A informação é ponto de partida. A delegada Erika é responsável pelo suicídio de uma pessoa meramente porque pretendeu turbinar uma operação corriqueira, de suspeita de desvio de recursos.
  2. Não se fiar nas conclusões do despacho do juiz, se não vier acompanhado de elementos de provas. O despacho que autorizou os abusos na UFMG não foi questionado em nenhum ponto pela mídia, mesmo quando apresenta como prova da organização criminosa a concessão de bolsas.
  3. Procurar qualificar a natureza do suposto crime que está sendo apurado. Na burocracia pública, desvios de verba nem sempre são indicativos de corrupção. Podem ser recursos remanejados de um lugar para tapar buracos em outro. Enquadram-se no campo das irregularidades administrativas, sujeitas a multas pecuniárias. Mas não são crimes de corrupção.
  4. Se não tiver discernimento, o repórter deve ouvir especialistas para analisar a dimensão da operação, ante o crime tratado. Por exemplo, supostos desvios de verbas podem ser apurados nos registros da Universidade, do Ministério que liberou as verbas. A condução coercitiva só se justifica quando há riscos do acusado ser alertado e eliminar provas. Se são ilícitos administrativos, e se são convidadas a depor pessoas sem suspeita direta, nada justifica a violência.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Cão de guarda de Cunha ganha gabinete no palácio


Diz o ditado que o melhor amigo do homem é o cachorro. Se o homem for filiado ao PMDB e estiver fugindo da polícia, seu melhor amigo é o Carlos Marun.

O deputado despontou no baixo clero como cão de guarda de Eduardo Cunha. Fazia tudo o que o chefão da Câmara mandava. Chegou a organizar sua festa de aniversário, regada a uísque e com bolo de chantilly.

Quando o correntista suíço caiu em desgraça, Marun virou líder de sua tropa de choque. Rosnou para os adversários e tentou derrubar o presidente do Conselho de Ética, que se recusava a participar de um acordão.

As manobras fracassaram, mas ele não jogou a toalha. Foi o único deputado a discursar contra a cassação em plenário. Apesar de seus apelos, o peemedebista foi varrido do Congresso por 450 votos a 10.

Cunha perdeu o mandato, mas não perdeu o amigo. Para reafirmar sua fidelidade canina, o deputado foi visitá-lo na cadeia. Depois soube-se que ele usou verba pública para bancar a viagem a Curitiba. A contragosto, teve que devolver o dinheiro aos cofres da Câmara.

Quando Michel Temer foi gravado nos porões do Jaburu, Marun encontrou outro investigado para bajular. Passou a se comportar como dublê de deputado e porta-voz do Planalto.

Como prêmio por defender o indefensável, virou relator da CPI da JBS. Mostrou os dentes para procuradores da República e quase mordeu um delator da Lava Jato. O senador Randolfe Rodrigues o chamou de "lambe-botas" e "bate-pau".

Marun nunca se esforçou para contestar os apelidos. Na noite em que a Câmara engavetou a última denúncia contra Temer, ele cantou e dançou em plenário para festejar a impunidade presidencial.

Agora o pitbull de Cunha deve ganhar um gabinete no palácio. Como não teria votos para se reeleger, ele distribuirá cargos e emendas a parlamentares que abanarem o rabo. Sua promoção a ministro é um retrato da fase final do governo Temer.

Bernardo Mello Franco
No fAlha
Leia Mais ►

Globo terá grande desafio em honrar seus compromissos no futebol


As transmissões de futebol pela Globo, seja em canal fechado ou aberto, têm papel importante no faturamento da empresa – quase de 1/3 do total. Sabe-se que o retorno com o esporte sempre foi altamente satisfatório, ainda que tivesse que se submeter a achaque de dirigentes e intermediários – ou a se associar a eles, como apontou depoentes do Caso FIFA.

A questão é que hoje a situação mudou. Por causa do Caso FIFA, a Globo passou a ser acusada publicamente de pagamento de propina em contratos com dirigentes e empresas, como a argentina Torneos y Competencias, comercializadora de direitos de televisão da Copa Libertadores, entre outras competições continentais. Mas é provável que os norte-americanos já suspeitassem disso faz tempo.

Como se sabe, J. Hawilla, em prisão domiciliar nos Estados Unidos, é um dos principais delatores do esquema. E foi um dos motivadores diretos da prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, na Suíça, em 2015 – tanto que os acusados na época, de Ricardo Teixeira a Kleber Leite, trataram de desqualificá-lo.

A justiça norte-americana deve saber desde quando estourou o Caso FIFA das relações que J. Hawilla mantinha com a Globo – afinal, ele foi intermediário dos negócios da emissora com as entidades de futebol e, inclusive, sócio da Globo em afiliadas importantes no interior de São Paulo. Qual o processo investigativo no mundo que não trataria essa relação logo no primeiro momento como indícios primários, ainda que se tenha que buscar provas – como parece estar acontecendo agora?

A Globo e seus executivos que fizeram supostos “negócios” escusos correm sérios riscos de serem formalmente denunciados pela Justiça lá fora. Há suspeição de fraude e lavagem de dinheiro nos EUA, e esse é um dos motivos daquele país estar investigando o caso.

E os diretos de transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030, com suspeitas de pagamento de propina pela Globo, de acordo com depoimento de uma testemunha? A pressão será grande por que são megaeventos por vir.

Soma-se a isso ao fato das negociações recentes da Globo fechadas com clubes e a própria CBF para ter direitos de transmissão de futebol. Nesse caso não se discute se houve ou não alguma ilegalidade nesses contratos, mas foram valores muito acima do anteriormente acertados.

Um dos motivos disso é que os clubes resolveram endurecer desde o ano passado na venda dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro entre 2019 e 2024, por que o canal Esporte Interativo, do grupo norte-americano Turner, também resolveu entrar na concorrência oferecendo muito dinheiro. Mas não foi só isso: havia uma grita geral do pouco que a Globo sempre pagou pelas transmissões; e também o Caso FIFA, que fizeram com que clubes desconfiassem das ações da dupla CBF-Globo.

Assim, contratos da Globo com clubes grandes subiram sobremaneira – e olha que a emissora já perdeu equipes importantes na transmissão de partidas do Brasileirão entre 2019 e 2024 para o Esporte Interativo, pelos menos na TV fechada, como Palmeiras e Santos, além de outros pelo Brasil afora.

Para manter a exclusividade de direitos na televisão aberta e fechada, dos clubes que dão grande audiência à emissora, a Globo fez até adiantamento, como ao Corinthians (calcula-se em R$ 80 milhões). Os acordos futuros já combinados com a elite do futebol brasileiro que conseguiu manter debaixo de seu guarda-chuva – como também o São Paulo (que se estima ter recebido de luvas R$ 60 milhões) - envolvem centenas de milhões de reais e são bem maiores do que foi firmado no passado.

Com a CBF, fechou contrato recente para a transmissão de jogos da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa do Mundo 2022 e de amistosos. Até ano passado, a Globo pagava US$ 2,5 milhões por partida na TVs aberta, fechada e internet – com o novo acordo e nas mesmas mídias, terá que desembolsar US$ 3,5 milhões (portanto, quase dobrou).

Aqui não está nem se falando da perda de audiência da TV (seja aberta ou fechada) para a internet, algo que ocorre a largos passos. E também a perda de patrocinadores para a web, como o Google, que em breve deve superar a Globo e se tornar o canal de anunciantes no País que mais fatura. Sem falar da persistente crise econômica.

O fato é que há uma conta de direitos de transmissão muito grande a ser paga pela Globo a clubes, entidades e competições nacionais e internacionais. Resta saber se, com todo esse momento adverso que vem passando, a emissora terá capacidade de atrair anunciantes para honrar esses compromissos de longo prazo. 

Augusto Diniz
No GGN
Leia Mais ►

O incansável lobby de Rosângela Moro a favor de APAEs


O tema é controverso e a figura que encabeça o lobby mais ainda: Rosângela Wolff Moro, mulher do juiz de piso Sergio Moro. Ela luta pela aprovação do PL 22/2017, que cria um 'fundo de reserva' nas parcerias entre administração pública e organizações da sociedade civil. Segundo consta, o fundo seria utilizado 'para atender a situações emergenciais, imprevistas ou imprevisíveis'. 

O projeto foi protocolado a pedido de representantes das APAEs e, entre eles, Rosângela Moro, que é a procuradora jurídica da Fenapaes (Federação Nacional das Associações). Segundo esses atores, os atrasos nos repasses prejudicam a saúde financeira das instituições. O lobby valeu e a matéria está pronta para ser votada na Comissão de Constituição e Justiça.

As Apaes pedem um estudo aprofundado. O GGN já publicou extenso material a respeito que pode ser lido em Mutirão do tema. Clique aqui para acessar.

Rosângela Moro defende causas das APAEs em 33 dos 49 processos que levam seu registro da OAB, na Justiça Federal do Paraná. Além do trabalho jurídico, o lobby se espalha por suas redes sociais, trazendo o nome do marido famoso em mais de uma situação. A mulher de Moro vai para todo canto levar o recado de sua representada, seja em conferências seja em encontros. Moro alavanca este trabalho, fazendo cena para a causa, como em postagem de sua mulher informando que a palestra dada por ele arrecadou dinheiro para projeto da associação. 

E o apelo vai forte. APAEs, no imaginário popular, é uma benção para crianças especiais. Não é bem assim. A educação inclusiva é uma realidade no país, comprovadamente importante para o desenvolvimento de potencialidades e socialização de alunos com deficiência. As APAEs não praticam inclusão, em sua maioria, e as escolas públicas estão desassistidas neste quesito.

Segundo a procuradora regional Eugênia Gonzaga, a Fenapaes, representada por Rosângela Moro, tornou-se um grande empecilho para a inclusão. E Eugênia ressalta a importância de que todas as crianças convivam no mesmo espaço educacional.

A história das Apaes

A história é longa. Se, por um lado, o início se deu com bem intencionados cidadãos que passaram a trabalhar com recursos públicos, sem prestação de contas formais. Isso abriu espaço para desvios e também para a utilização política das Apaes, através das suas Federações estaduais.

Quando Haddad assumiu como Ministro da Educação, decidiu bancar a tese da educação inclusiva, que reza que o melhor local para o desenvolvimento de crianças com necessidades especiais seria as escolas convecionais, no convívio com crianças sem problemas. Desde então as APAEs resistiram, pois a segregação é o seu negócio. 

Haddad pensou em um modelo de dupla matrícula: a escola pública que acolhesse um aluno com deficiência receberia 1,3 vezes o valor original da matrícula; e uma segunda matrícula de 1,3 se houvesse um projeto pedagógico específico para aquela criança. Imaginava-se que essa parcela seria destinada à APAE de cada cidade, atraindo-a para os esforços de educação inclusiva.

As APAEs mais sérias, como a de São Paulo, aderiram ao projeto do ministério, sabendo dos benefícios da educação inclusiva para as crianças.

Mas algumas Federações fizeram um jogo sem tamanho, pressionando o Congresso para que as próprias ficassem com as duas matrículas, preservando o modelo anterior. A pressão ganhou uma proposta do senador Romário, que tentou canalizar para as Apaes e Instituto Pestalozzi todos os recursos da educação inclusiva.

O caso das APAEs, de acordo com levantamentos feitos por Luis Nassif, conta com dois lobistas de peso. Um é o ex-senador Flávio Arns e o outro é Eduardo Barbosa, mineiro, ex-presidente da Federação das Apaes, que sempre se serviu dos recursos da entidade para sedimentar sua carreira política.

No Paraná, basta uma consulta ao site da Secretaria da Educação para confirmar o poder de lobby das APAEs. Flávio Arns, então Secretário de Educação, direcionou R$ 450 milhões do estado para as entidades, 'com o objetivo de enfrentar a melhoria do ensino inclusivo da rede federal'. 

Aí entra Marlus Arns. No site do Tribunal de Justiça aparecem como de sua autoria quase todas as ações envolvendo as APAEs. Quando a Lava Jato entra em cena aparece então Rosângela Moro, mulher do juiz de piso, como sendo do jurídico da Federação das APAEs do Estado. O que não significaria nada se viesse desacompanhado de outros fatores. O irmão de Marlus tem um curso de direito à distância, e no corpo docente aparece integrante da força tarefa da Lava Jato.

Por fim, Beatriz Catta Preta, advogada forte nos acordos de delação da Lava Jato, desiste de participar dos acordos. Sai Catta Preta, não se sabe o motivo, e entra em seu lugar Marlus Arns, que pouco antes condenara o instituto de delação premiada.

A história ainda precisa ser mais explorada. Mas estes elementos ajudam na busca futura.

No GGN
Leia Mais ►

Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos


A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em colégios influenciados por ele. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.
Conhece e apoie nossa campanha de financiamento coletivo

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência?

Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.
No Bem Blogado
Leia Mais ►

Remontagens

Volta e meia relançam filmes com a inclusão de cenas cortadas ou não aproveitadas na primeira edição. O chamado “director’s cut”, ou montagem do diretor. Blade Runner do Ridley Scott e Apocalypse Now do Coppola são dois exemplos notórios. Mas se pode imaginar uma série de filmes famosos remontados com cenas que, por uma razão ou outra, ficaram de fora da versão original.

Casablanca, por exemplo, relançado com os dez minutos cortados do fim, a cena do desastre com o avião do qual só sobrevive a Ingrid Bergman. Ela fica com o Rick em Casablanca e a última cena é dela suada, com os cabelos em desalinho, mas feliz, dando ordens na cozinha do café.

Ben-Hur com meia hora a mais de metragem, justamente o segmento no qual o coautor do roteiro, Gore Vidal, enfatiza o subtexto homossexual no relacionamento de Ben-Hur com o oficial romano, e que inclui uma famosa cena – cuja existência, muito comentada no meio cinematográfico, e pela qual o Charlton Heston disse que pagaria qualquer preço, nunca foi confirmada – do tango na sauna.

Uma nova versão de Cantando na Chuva com uma longa sequência de hospital que ficou no chão da sala de montagem, na primeira edição. Nela, Gene Kelly, restabelecendo-se de uma pneumonia depois de dançar irresponsavelmente na chuva sem galochas, que atrapalhariam a coreografia, recebe Debbie Reynolds e Donald O’Connor e os três saem a dançar por todo o hospital, inclusive interrompendo uma cirurgia, o que foi considerado de mau gosto.

Lawrence da Arábia com quatro horas a mais, só podendo ser assistido na presença de médicos, para casos de insolação na plateia.

A nova Cleópatra com sete horas de duração, incluindo a cena em que Elizabeth Taylor e Richard Burton ignoraram os gritos de “corta!” do diretor, continuaram e tiveram que ser apartados com um balde de água fria.

Todos os filmes do Goddard remontados, desta vez com as cenas em sequência lógica, com começo, meio e fim, nesta ordem, o que os torna ininteligíveis.

Todos os filmes do Hitchcock como o diretor pretendia que fossem, antes da interferência dos produtores: as cenas em que ele antes aparecia rapidamente com a duração que ele queria e em algumas ele, inclusive, abanando para a câmera.

E uma nova versão de A Noviça Rebelde com as cenas de flagelação dos filhos do barão no porão do castelo, pelo barão e a noviça, ambos nus, e que não entraram na primeira versão porque mudariam todo o sentido da história – embora servissem para explicar a disciplina das crianças.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

O desespero analítico dos derrotados morais


O fracasso moral do golpe se assemelha a um grande depósito de lodo e lixo acumulado ali por uma imensa enxurrada que devastou as praças, ruas e avenidas de uma grande cidade. Neste depósito não estão apenas os líderes do golpe, hoje os políticos mais rejeitados do país, mas também os seus escudeiros intelectuais, dentre eles jornalistas, economistas e cientistas sociais, que aberta ou envergonhadamente apoiaram um impeachment sem crime de responsabilidade. Junto com a Constituição, políticos e analistas, rasgaram os preceitos da democracia e produziram o governo mais corrupto e mais impopular da história do país, com um presidente denunciado duas vezes.

A certeza de que não houve crime de responsabilidade e o resultado monstruoso que foi produzido pelo movimento da moralidade, que se traduziu num governo ilegítimo, corrupto e rejeitado, são os dois pontos cardeais da derrota moral do ajuntamento inescrupuloso que se formou e que agora se estilhaça, desorientado e dividido. Mas, como resultado, o golpe produziu também uma devastação institucional, social, material, cultural, nacional e econômica. Tivesse a Dilma permanecido no governo, a economia teria, provavelmente, se recuperado de forma mais rápida, pois o ciclo recessivo e a redução da inflação já se anunciavam no horizonte. O seu retardo ocorreu por conta da exasperação artificial e criminosa da crise política.  

O desespero dos derrotados morais começou a se acentuar na medida em que foi ficando evidente o afundamento do governo e dos políticos do seu entorno tendo como contraface a paulatina, constante e firme recuperação de Lula - um dos alvos principais do Putsch parlamentar-judicial e da ação persecutória movida pela Lava Jato e pelo juiz Sérgio Moro. No mesmo passo em que a perseguição vai sendo desnudada, a própria popularidade do juiz toma o caminho da ladeira abaixo.

O nó angustiante que se formou na cabeça dos derrotados morais se atou em definitivo quando perceberam que eles mesmos produziram uma hidra: a candidatura de Bolsonaro, hoje consolidada em segundo lugar. Dessa angústia surgiu a ânsia da busca da novidade salvadora, primeiramente encarnada em Dória e depois em Luciano Huck. Dória,  pelo seu charlatanismo, por ser um vendedor do Monumento dos Bandeirantes, tal como um famoso charlatão vendeu a Torre Eiffel, teve o mérito de se auto-inviabilizar.

As esperanças dos angustiados foi depositada, então, no aventureirismo irresponsável, representado por Luciano Huck. Viram um inovador político, um salvador, em alguém que nunca foi político como se fosse possível fabricar um líder pelo artificialismo da vontade desesperada de moralistas sem moral. Penduraram um manto de diplomas em seus ombros, inteligência estelar em sua cabeça, sem que ele tenha liderado qualquer coisa a não ser um programa medíocre de entretenimento, destinado a iludir um povo desesperado, vitima da sonegação da educação e da cultura.

Confundiram inteligência pessoal com virtudes políticas e éticas, experiência e competência para o agir político. Pensam que é  possível transformar uma celebridade em um líder autêntico, algo que só é possível a alguém que tem uma história social e política de lutas, enraizada em segmentos sociais significativos. Agora, a imbecilidade analítica julga que Dória e Huck soçobraram por um problema de timing. Insatisfeitos com a candidatura Alckmin que, aceite-se ou não, tem uma história política, os derrotados morais continuam caçando ilusões para vender engodos. Impacientes, sequer cogitam que, no contexto da campanha, Bolsonaro possa se esvaziar e que se produzirá um segundo turno com os protagonistas do PT e do PSDB, que é a hipótese mais provável.

No artigo publicado na Folha de S. Paulo em que anuncia a desistência de sua candidatura, Huck mostrou-se mestre em tecer comentários do nada sobre o nada, exercendo o pleno direito à frivolidade. Sem rubor, foi doutor no exercício da vaidade e da arrogância dos bem viventes da zona sul do Rio, ao comparar-se a Odisseu envergonhando a todos os leitores circunspetos de Homero. Qual foi a grande tragédia na vida de Huck? Qual foi a sua epopéia? Qual foi seu grande feito histórico? De que batalhas participou? Quais foram os grandes feitos que legaram resultados extraordinários ao povo? Esse autoelogio seria risível  se não tivesse gente disposta a levá-lo a sério.

As novas investidas salvacionistas e contra Lula

Para além disso, agora, os derrotados morais desenvolvem três movimentos visando recuperar terreno e credibilidade: 1) ensaiam um incensamento, meio envergonhado, dos resultados do governo Temer. O problema é que Temer é contagioso e não conseguirá construir um pólo alternativo de poder, mesmo que a economia continue se recuperando; 2) querem vender a polarização Lula versus Bolsonaro como o grande mal, como a polarização de dois radicais. Mentem sem pudor, pois Lula nunca foi e nem será radical. Pelo contrário: é excessivamente conciliador. É certo que Bolsonaro é radical. Mas ele é filho legítimo dos golpistas, desses derrotados morais que o abrigaram e o alimentaram no processo de derrubada da Dilma.

O terceiro movimento consiste em marcar Lula como populista. Aqui, mais uma vez, se trata de imbecilidade analítica ou de má fé. Ou das duas coisas juntas. É certo que Lula é um líder carismático. Mas nem todos os líderes carismáticos são populistas, assim como nem todos representam algo negativo. Pelo contrário, muitos líderes carismáticos se tornaram grandes heróis, paradigmas de muitos povos.

Uma das características principais do populismo na América Latina, do ponto de vista da definição conceitual aceita, consiste em que ele governa numa relação direta com as massas, sem a mediação das instituições democráticas e representativas. Se a prática política é a prova do pudim, é preciso apontar em que momento, nos seus 8 anos de governo, Lula exerceu práticas populistas. Pelo contrário, foi acanhado e contido em usar a sua imensa força política junto ao povo para influenciar os rumos do país e do governo.

O desespero dos derrotados morais aumenta porque, acuse-se Lula do que se quiser, as acusações já não produzem efeitos negativos. A população já percebeu que não existem provas materiais nas acusações, ao contrário de contas bancárias no exterior, de malas de dinheiro e de bunkers com estoques de jóias e milhões de reais. Já percebeu que Lula foi condenado sem provas por um juiz que o persegue, algo denunciado por juristas brasileiros e estrangeiros.

Então, o que resta aos desesperados é a esperança de uma interdição judicial da candidatura Lula, algo que não pode ser aceito pelos democratas, pelos progressistas, pelos movimentos sociais e pelo próprio Lula. Será preciso barrar nas ruas este último ato golpista, possivelmente patrocinado por um Judiciário que se tornou alcoviteiro de bandidos e corruptos de colarinho branco, que abriu mão de exercer o controle constitucional em última instância, entregando-o a um Senado corrompido para salvar Aécio Neves. Chegará a hora de confrontar a parcialidade de um Judiciário que se desmoralizou, que usa odientos instrumentos persecutórios contra uns e garante a impunidade de outros.

Admitindo-se a hipótese, inaceitável, de que Lula possa ser interditado ou preso, a derrota moral do agregado imoral se aprofundará, pois Lula passaria para a história como vítima, como um perseguido pelas elites e se tornará ainda mais um paradigma do povo pobre. Uma eleição sem Lula, ademais, fará emergir um governo ilegítimo e a desobediência civil.

Aldo Fornazieri, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
Leia Mais ►

O anarquismo do mercado perfeito

“A maioria dos trabalhadores, se perderem algo, saem direto da pobreza decente para a miséria doentia”. (Cesar Itiberê/Fotos Públicas)
Uma bomba atômica social que vai desabar sobre o próximo Governo, cujos efeitos ainda são imponderáveis, é a desorganização social e produtiva que será causada pela reforma trabalhista, particularmente pela aplicação desenfreada do trabalho intermitente e precário, de acordo com as regras já vigentes, de uma parte, e com a “pejotização” acelerada, de outra parte, que transformará uma boa parte da mão de obra assalariada em falsos empresários de si mesmos. A queda da arrecadação que advirá para o financiamento da Previdência Social, o sentimento de desresponsabilização do trabalhador-nômade com os destinos da empresa tomadora “eventual” dos seus serviços e a ausência de pertencimento a uma comunidade social – aquela comunidade primária solidária que é a base de uma sociedade de convívio, como asseverara Durkheim – vai ter severas consequências políticas e econômicas.

Estamos tratando de uma sociedade – a brasileira – na qual a maioria dos trabalhadores, se perderem algo, saem direto da pobreza decente para a miséria doentia, diferentemente das sociedades europeias, mais desenvolvidas em termos sociais e de organização estatal, na qual os trabalhadores que perdem alguma coisa com reformas desta natureza, saem das suas condições de consumo – com uma certa folga para a sobrevivência – para um padrão de consumo próximo à pobreza, mas não ainda miserável. As grandes transformações tecnológicas que ocorreram nos últimos 30 anos foram apropriadas integralmente pelos ricos e pelas classes médias altas, nos países de maior concentração de renda, cuja situação de classe permitiu uma maior influência sobre o próprio conteúdo das reformas.

Na verdade o contrato social-democrático, que se espalhou pelo mundo, de formas dramaticamente diferentes em cada país – gerador de políticas sociais de proteção aos mais excluídos (como políticas compensatórias) ou de conquistas salariais importantes (em vastos setores das classes trabalhadoras), chegou ao seu fim. Os sujeitos políticos e sociais que compuseram as classes trabalhadoras da segunda revolução industrial e as burguesias industriais que lhe são correlatas, ao mesmo tempo que vem perdendo a sua força política, perdem a sua capacidade negocial, para a instauração de contratos políticos “setoriais”, que não são mais tolerados pela “sanha” da acumulação financeira. Esta, transforma toda a sociedade em refém das suas necessidades: acumulação com menos trabalho produtivo, em sentido clássico, e “rentismo” transformado em rede de interesses legitimados pela grande mídia.

É óbvio que uma luta de resistência deve ser travada nos tribunais em defesa do sistema protetivo constitucional da CLT, que ainda poderia permitir contratos de trabalho decentes para uma grande parcela dos trabalhadores “por conta alheia”, mormente aqueles que vivem com os mínimos profissionais ou com o próprio salário mínimo, que já vem sendo corroído de forma acelerada. Mas, a hora é também de pensar num outro sistema de tutelas, a partir do Estado, para repartir, não somente o direito ao trabalho remunerado previsível – trabalharmos menos para trabalharmos todos – como para repartir os benefícios das transformações tecnológicas ainda em curso, que até agora só foram apropriados por uma minoria privilegiada, a saber nem um por cento da população economicamente ativa.

Temos que transitar de uma visão de “renda mínima obrigatória” como direito cidadão devido, independentemente de que a pessoa possa trabalhar, ou não, para uma “socialização do direito ao trabalho” com o “direito a uma renda mínima do trabalho produtivo” ou dos serviços prestados à sociedade – seja qual for o tipo de prestação – para que a descoesão social que se aproxima, seja corrigida, desviando os rumos do desastre social a que o golpismo nos levou. Não se trata, na minha opinião, de uma revolução, mas de uma poderosa reforma neo-socialdemocrata, que capture o Estado para o povo soberano e retire a organização estatal da condição de mero gerenciador da dívida pública. O verdadeiro populismo que nos assola é o populismo do mercado perfeito, que tem sido impingido pela grande mídia, sobre setores das classes assalariadas e particularmente nos setores médios, convencendo que a saída é o “fim do Estado Social”, uma espécie de anarquismo de gosto do capital financeiro, que transforma vida num pesadelo em que a maioria vive a solidão da precariedade e do trabalho intermitente.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
No Sul21
Leia Mais ►

Em busca de Justiça

Não sou historiador nem sociólogo. Não consultei nenhum livro para escrever o texto abaixo. Minha memória está se movendo como estilhaços do amado caleidoscópio que perdi, menino, em Vila Isabel.

Viva a Comissão da Verdade para que nunca mais coloquem uma grávida nua sobre um tijolo, atingida por jatos d'água, com ameaça: "Se cair vai ser pior";

Para que senhoras que fazem seu honrado trabalho não sejam despedaçadas por cartas bombas;

Para que um covarde que bote a boca de um homem torturado no escapamento de uma viatura militar não passe por homem de bem onde mora;

Para que orangotangos que se tornaram políticos asquerosos não babem sua raiva na internet: "Nosso erro foi torturar demais e matar de menos";

Para que presos em pânico não sofram ataques de jacarés açulados por antropóides;

Para que nunca mais teatros e livrarias sejam vandalizados e queimados;

Para que um estudante de psiquiatria não seja obrigado a passar por sentinelas de baioneta calada para ouvir um coronel médico dizer que "histeria é preguiça";

Para que os brasileiros possam homenagear um autêntico herói nacional, João Cândido, com um monumento, sem que surjam energúmenos prometendo "voltar a explodir tudo se isso apontar para o Colégio Naval";

Para que a nossa Força Aérea, que nos deu tanto orgulho na Itália, com seus valentes pilotos de caça, não atire pessoas, como se fossem sacos de lixo, no mar;

Para que um pai, ao se recusar a cumprir a ordem de manter o caixão lacrado, não se depare com o corpo destruído do filho, jogado lá dentro feito um animal;

Para que militares honrados não sintam "constrangimento" na busca de Justiça; para que cavalos ( aqueles de quatro patas, montados por outros) não pisoteiem um garoto com a camisa pegando fogo por estilhaço de bomba, na Lapa;

Para que torturadores não recebam como "prêmio" cargos em embaixada no exterior;

Para que uma estudante não desmaie num consultório médico ao falar sobre as queimaduras do pai, feitas com tocha de acetileno;

Para que esquartejadores não substituam Tiradentes por Silvério dos Reis;

Para que inúmeros Pilatos ainda trambicando naquela casa de tolerância do Planalto vejam que suas mãos continuam cheias de sangue e excremento;

Para que nunca mais na vida de uma jovem idealista - o queixo firme, olhos faiscantes de revolta, com a expressão da minha Suburbana no 3X4 que guardo na carteira – seja ceifada por encapuzados. Uma delas, quem sabe?, pode chegar a Presidência da Republica e enquadrar a récua de canalhas.

Aldir Blanc
Leia Mais ►

Para unir PSDB rachado, Alckmin parte para cima de Lula

http://www.balaiodokotscho.com.br/2017/12/09/para-unir-psdb-rachado-alckmin-parte-para-cima-de-lula/

“Não vai ter golpe, vai ter voto”.

Quem chegasse desavisado à convenção do PSDB em Brasília para entronizar Geraldo Alckmin como novo presidente do partido não deve ter entendido nada.

Os gritos de guerra não eram de manifestantes petistas, mas vinham de militantes da Juventude do PSDB que brigavam  por causa de um impasse sobre as regras eleitorais.

Foi neste clima que começou o grande encontro nacional dos tucanos com o objetivo de selar a união em torno do governador paulista como candidato à sucessão de Michel Temer.

Nos bastidores agitados, ainda rolavam os últimos acertos para evitar atritos em público num partido que nunca esteve tão rachado e sem rumo.

Dividiram a nova Executiva nacional entre representantes dos grupos de Aécio e Tasso, a favor e contra o governo Temer, respectivamente, mas surgiu um fato imponderável: Arthur Virgílio, prefeito de Manaus, queria porque queria disputar prévias com Alckmin, que esperava ser aclamado na convenção.

O PSDB era, até recentemente, ao lado do PT e do PMDB, um dos três grandes partidos nacionais que ocuparam o poder desde a redemocratização em 1985 e afundaram juntos na Lava Jato.

Nascido de uma dissidência do antigo MDB de Orestes Quércia, o PSDB logo chegou ao Palácio do Planalto nos anos 1990, no embalo do Plano Real que elegeu Fernando Henrique Cardoso duas vezes em primeiro turno.

De lá para cá, perdeu quatro eleições presidenciais seguidas para o PT e só voltou ao poder no ano passado, na carona do PMDB de Temer, após o impeachment de Dilma Rousseff.

Primeiro e último grande líder nacional do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, 86, deu mais uma longa entrevista à Folha na véspera da convenção, que pode ser resumida em poucas linhas, mostrando que ele também não tem mais nada de novo a dizer.

FHC recomendou que  o partido deve defender valores como o reformismo, ainda que seja para perder.

“Em política, é preciso ter valores. Você pode ganhar ou perder, mas não pode perder a cara. No caso das reformas, tem de ter sensibilidade, mas não se omitir”.

Beleza. O problema é que o PSDB, como os outros grandes partidos, perdeu os valores e a cara, virou tudo uma geleia geral na falência do sistema político brasileiro.

O discurso de FHC envelheceu, não surgiram novos líderes à sua altura e, ao defender a indicação de Alckmin, conseguiu destacar apenas uma qualidade no candidato:

“Precisamos ter uma liderança mais simples, de gente mais normal, sem fanfarronice e pose. O Geraldo tem essa certa simplicidade”.

Convenhamos que é muito pouco para empolgar o eleitorado, o que explica sua posição empacada em um dígito nas pesquisas, enquanto Lula e Bolsonaro abrem folgada vantagem.

Para romper esta barreira, nas últimas horas Alckmin resolveu partir com tudo para cima de Lula, única estratégia à mão capaz unir o partido: escalar um inimigo comum.

No melhor estilo anti-Lula adotado por seu afilhado João Doria, antes de desistir do voo presidencial, Alckmin desistiu de “jogar parado” e subiu o tom:

“Os brasileiros não são tolos. Sabem, hoje, do método lulo-petista de confundir para dividir, iludir para reinar. Mas vejam a audácia dessa turma. Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder, ou seja, meus amigos: ele quer voltar à cena do crime”.

Alguém deveria lembrar ao governador paulista que ele adotou esta mesma tática quando estava atrás de Lula nas pesquisas em 2006, e acabou tendo menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Bater no adversário costuma ser o último recurso quando não se tem nada de novo a oferecer ao eleitorado _ não o primeiro, quando a campanha ainda nem começou.

Desta vez, sem seus aliados históricos, a começar pelo PMDB, e os tradicionais coadjuvantes DEM, PPS e agregados, num país hoje dominado pelo Centrão de Eduardo Cunha, Alckmin e o PSDB correm o risco de ficar falando sozinhos. Já não conseguem unir nem a Juventude do PSDB.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
Leia Mais ►

Os planos do general


Leia Mais ►

Vaias saíram barato: Aécio foi à convenção do PSDB visitar as ruínas do partido que destruiu

Acabou
Aécio Neves pode encarar a convenção tucana como o ponto alto de sua obra de destruição.

Golpista de primeira hora, fomentador da direita indigente das ruas, ele foi sendo engolido pelos monstros que criou até terminar humilhado num convescote de seu próprio partido.

Licenciado da presidência do PSDB por causa da propina da JBS, responsável por destituir Tasso Jereissatti, Aécio se isolou. Chegou sozinho ao salão de eventos, não teve assento no palco com os demais líderes, foi vaiado, cumprimentou apenas Fernando Henrique e saiu pelos fundos em 40 minutos.

A imprensa que sempre o adulou não lhe deu folga. Numa coletiva vapt vupt, ele defendeu que o PSDB dê os votos para a aprovação da reforma da Previdência e se mantenha unido para combater adversários “externos”.

Ao final, no Facebook, tentou vender seu peixe.

“Estive hoje na Convenção do PSDB Nacional que celebrou a eleição do governador Geraldo Alckmin como presidente do partido”, escreveu sua assessoria.

“Tenho muita confiança de que estamos prontos para ser o ponto de equilíbrio que o Brasil precisa para voltar a crescer. Estou muito feliz com a unidade que ajudei a construir. E nesses últimos quatro anos em que administrei como presidente o PSDB foi o seu período mais fértil, de maior crescimento do partido”.

Pilhado em gravações mafiosas, desmoralizado, impossibilitado de sair na rua sem ser xingado, Aécio virou um constrangimento para seus colegas. Não que eles sejam melhores, mas ficou claro que permanecer abraçado ao sujeito é suicídio.

Detonou uma carreira que parecia promissora em nome de um projeto vagabundo de poder e de fomentar um ódio insano. Luciano Huck cospe publicamente na amizade que eles tiveram. A mulher, Letícia, deve se perguntar onde foi amarrar seu bodinho.

É um zumbi da democracia. Falta apenas a sova moral de perder em Minas Gerais em 2018. Ninguém vai assistir ao formidável enterro da última quimera do Mineirinho.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

O jogo político que organiza a perseguição seletiva a pessoas e instituições


Quando a Polícia Federal fez aquela operação de guerra para invadir a UFSC e prender o reitor, houve muito espanto, alguma indignação e pouca solidariedade. Por um lado, a ação policial era claramente desproporcional ao que a situação exigiria - mas nós já nos habituamos a isso, uma vez que a Lava Jato transformou a repressão em espetáculo. Por outro lado, havia as manchetes da mídia, falando no colossal desvio de 80 milhões. Manchetes mentirosas, ficaria claro em seguida; no momento, porém, funcionou a dependência cognitiva que faz com que a gente se baseie no jornalismo para saber do que ocorre fora de nosso círculo imediato.

A fraca reação à agressão à UFSC mostra como mesmo setores mais críticos e melhor informados estão narcotizados pelo discurso do combate à corrupção a qualquer custo, pouco sensíveis à degradação dos direitos individuais e refratários a entender o jogo político que organiza a perseguição seletiva a pessoas e instituições. Seria de investigar o papel dos "isentões" e do "lavajatismo de esquerda" na produção desse estado de coisas.

O ataque à UFMG já suscitou uma reação bem mais forte, tanto em Minas quanto no resto do Brasil e mesmo no exterior. Não há dúvida de que o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier foi fundamental para essa mudança. A comoção causada por seu gesto extremo fez aflorar a insensatez da operação policial, sua arbitrariedade, o desrespeito aos preceitos legais e mesmo a banalidade das acusações. As pessoas foram presas e humilhadas sem que fossem rés, antes mesmo de serem convidadas a depor, numa ação cujo custo, para a PF, superou o valor pretensamente desviado. Fica evidente que os motivos por trás dela não eram a defesa da moralidade pública ou a proteção às boas práticas administrativas.

Quando script similar é seguido em Belo Horizonte, é fácil entender o sentido da operação da PF e suas implicações.

Cau sempre foi um moderado, um conciliador. A surpreendente radicalidade de seu ato final cumpriu um importante papel político. Não abalou as autoridades no judiciário ou na polícia, que continuam firmes na trilha do arbítrio, amparadas pela impunidade que o retrocesso em curso no Brasil lhes garante. Estão aí a ação na UFMG, a nova ação na UFSC ou mesmo a promoção da delegada da PF de Florianópolis para provar. Mas ele sacudiu a comunidade universitária, quebrou parte de nosso marasmo e fomentou nossa mobilização. A história da resistência ao desmonte dos direitos, no Brasil de hoje, há de guardar seu nome, com destaque.

Luís Felipe Miguel
Leia Mais ►

Este Brasil

Ninguém, parece mesmo que ninguém, tenta pensar o Brasil em seu pleno sentido e em seus possíveis amanhãs. É um país sem estratégia, sem ideia do que é e conviria vir a ser no mundo. Na grande tecitura internacional, não vive do que faça para uma inserção desejada, mas do que cada dia lhe traz. Segue adiante porque os dias se sucedem. Condicionado integralmente pelo mundo exterior, perplexo, lerdo, segue.

Com uma gama invejável de minérios, tantos outros recursos e grandes necessidades de consumo, nunca teve uma política industrial. País de latifundiários e fazendeiros, suas políticas agropecuaristas são mera distribuição discricionária de dinheiro e privilégios, de uso à vontade. E nem isso, para uma ciência coordenada com objetivos nacionais e contingências externas.

É difícil pensar um país assim. É difícil pensar mesmo o Brasil atual, o país de hoje. Já a partir do mais grotesco e rudimentar na situação imediata: como explicar, por exemplo, o convívio familiar entre a empolgação generalizada com os êxitos contra a corrupção e, de outra parte, a tolerância indiferente com a Presidência da República ocupada e usada por um político acusado de corrupção, formação de quadrilha, obstrução de justiça, e salvo de processos mediante a corrupção de deputados com cargos e verbas do Orçamento?

Presidência povoada por notórios como Moreira Franco, marginais como Geddel Vieira Lima, acusados como Eliseu Padilha, e deputados, senadores e ministros com lastros semelhantes na polícia e na Justiça?

É difícil pensar um país assim, capaz de contradição tão corrosiva.

Mas esse país é o da contradição em que militares americanófilos e a classe dominante deram um golpe em nome da democracia e por 21 anos aprisionaram a nação na ditadura. Muitos dos artífices dessa contradição ali completavam uma outra, de que foram parte quando em 1945 derrubaram o Getúlio para o qual deram um golpe e impuseram uma ditadura.

Convertidos à democracia, como diziam, em sua pequena convivência com oficiais americanos na Itália da Segunda Guerra, os derrubadores de Getúlio ajudaram a entrega do poder, por via de "eleição democrática", ao general que sustentou a ditadura até a queda. A vasta fraude que contribuiu para o resultado eleitoral, movida pelos "coronéis" do interior, foi silenciada a pretexto de não se desmoralizar a primeira eleição da "democracia".

Contradição em cima de contradição. O normal no país em que os primeiros bafejos de democracia vieram de uma ditadura, com a legislação social de Getúlio – inclusive as Leis Trabalhistas agora estupradas.

É difícil desenvolver a compreensão desse Brasil, tão inculto, tão controvertido, tão amalucado. Esse Brasil exultante com as ações contra a corrupção e indiferente à ocupação de sua Presidência por uma declarada quadrilha de corruptos.

O Brasil é você. O Brasil somos nós.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Xadrez do fator Marun e dos fake prosecution

Peça 1 – o significado da nomeação de Marun

Um velho conhecido, que consegue tirar lições da história aplicáveis ao momento atual, me alerta para os seguintes pontos:

A nomeação do gaúcho-matogrossense Carlos Marun para a articulação política do governo Temer, é sinal de guerra. Tem o mesmo significado da nomeação de Benjamin Vargas, o Bejo, em fins de 1945, que acendeu todas as luzes da oposição para os propósitos continuístas de Vargas, quando foi nomeado para o Departamento Federal de Segurança Pública, o equivalente à Polícia Federal de hoje. A nomeação recebeu a leitura geral no meio politico e militar de que as eleições presidenciais prometidas não se realizariam. Não havia outra explicação para a nomeação do agressivo Bejo Vargas.

- São nomeações indicativas de uma intenção. Qual a intenção clara a meu ver? Temer deseja sua candidatura à reeleição e Marun tem o perfil de um tanque Panzer para ser o aríete desse projeto.

Peça 2 – as fantasias de Michel Temer

Conhecedor da psicologia dos políticos, não teve dificuldades em identificar o óbvio Michel Temer e, por trás dele, o notório Eduardo Cunha.

Temer foi convencido de que a recuperação econômica é consistente. Acha que o mérito é dele e que Henrique Meirelles é apenas um usurpador. Porque, então, entregar o capital da suposta recuperação econômica para Meirelles, mero executador de uma politica que é politicamente sustentada por ele Temer a duras penas?

Ele não tem dúvida de que o projeto Temer é uma fantasia, mas políticos têm sempre um lado fantasioso nas suas vidas ao lado do puro calculo politico. Temer é político de ambição grande, mas de voo pequeno. Sua megalomania é alimentada por Eduardo Cunha, do qual se tornou mera criatura.

A aliança temporária Temer-Meirelles é casamento de conveniência apenas, constata o Espírito da Política. Fora das conveniências de ocasião nada mais os une, da mesma forma que foi a aliança Lula-Meirelles. Uma forma fácil de queimar Meirelles é trazer à tona sua hoje esquecida ligação com o grupo JBS, que não foi tão rasa como se vendeu.

Peça 3 – a busca do outsider

Meu interlocutor achou “coisa de maluco” o convite de Carlos Siqueira a Joaquim Barbosa para ser candidato a Presidência pelo PSB.

Ele, que acompanhou o PSB de João Mangabeira, considera Siqueira um “nó cego”, uma derrapada na história digna do PSB, que só assumiu o comando por conta da morte de Eduardo Campos. É um político desagregador e confuso, se curvou convidando Barbosa e recebendo a resposta imperial, de que responderá apenas em janeiro.

De um lado, um megalomaníaco esnobando um partido histórico; de outro, um medíocre que aceita esperar a prima-dona a quem falta tudo: carisma, traquejo, discurso.

O episódio mostra a dificuldade na busca do cavaleiro andante, o tertius capaz de encarnar o novo.

Peça 4 – Alckmin, o chihuahua que ruge

Do lado do PSDB, mais uma vez o partido tem que se curvar ao mais limitado de seus presidenciáveis, Geraldo Alckmin. De cara, Alckmin adotou a postura pitbull contra os adversários, tentando disputar espaço com Bolsonaro. Mais uma vez, comprova a falta de timing político, repetindo o erro da campanha presidencial.

Sua linha política tem afinidades com Bolsonaro. Sob seu governo, a Polícia Militar atingiu níveis inéditos de violência e letalidade. É conservador nos costumes, na política. Mas seu trunfo é disfarçar essa tendência autoritária com uma postura pública discreta.

Ao sair atirando, mostra a falta de traquejo para o grande palco nacional. Alckmin é do tamanho da política paulista, pequena, sustentado apenas pela incapacidade política do PT paulista e pelo antipetismo do estado.

É óbvio que sequer o antipetismo plantado nos últimos anos será suficiente para torna-lo competitivo nacionalmente.

Peça 5 – os porões do Estado de Exceção

Tem-se, então, de um lado a incapacidade dos parceiros do impeachment – PSDB e PMDB – de articular uma candidatura minimamente competitiva. De outro, a candidatura Lula crescendo a cada pesquisa. E, no meio, o avanço do estado de exceção, os personagens subterrâneos, dos porões do Estado de Exceção, cuja sobrevida depende fundamentalmente do pacto anti-Lula ou da alternativa Bolsonaro.

Setores da direita estatal, atuando de forma coordenada no Ministério Público Federal, AGU, TCU e CGU passaram a se valer dos fake prosecution – a variante jurídica das notícias falsas.

Trata-se de uma aliança, inicialmente tácita, que se robusteceu quando radicais de cada repartição se encantaram com seu poder político e passaram a atuar de forma articulada visando preservá-lo.

A invasão da UFMG é apenas a ponta mais truculenta desse jogo, ainda mais sendo reiteração do episódio que levou ao suicídio do reitor da UFSC. E não vai se parar aí enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF), Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Conselho Nacional do Ministério Público não tomarem medidas drásticas de contenção dos abusos.

Agora, dá para confiar em órgãos presididos pela Ministra Carmen Lúcia? Tenho fundadas desconfianças que não.

Por isso mesmo, meros problemas administrativos continuarão servindo de álibi para ações truculentas, invasão de domicílios, intimidação e humilhação de cidadãos, visando ampliar o clima de repressão.

Registre-se que, dando cobertura intensiva a esse jogo, a Globo é a principal estimuladora da barbárie.

Peça 6 – o fake prosecution

Entra-se, então, em um campo minado que exigirá cautela e posições firmes. Existe uma nítida perda de controle sobre a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.

No caso do MPF, a Constituição previu unidade, indivisibilidade e independência dos procuradores. Ou seja, confere autonomia funcional a cada procurador, mas equilibrada pelos conceitos de unidade e indivisibilidade – teoricamente definidos pelas câmaras de coordenação.

Mas a militância nas redes sociais e a radicalização política dividiu o MPF em grupos políticos que acabaram rompendo com qualquer veleidade de coordenação, submetendo o CNMP aos interesses corporativistas mais estreitos, permitindo a explosão dos fake prosecution – as falsas denúncias.

Os últimos integrantes desse jogo são os procuradores Claudio Gheventer, Gino Augusto de Oliveira Liccione, André Bueno da Silveira e José Silva Nunes, do MPF-RJ, que denunciaram Dilma Rousseff, Graça Foster e Guido Mantega, entre outros, pelo congelamento dos preços dos combustíveis, com vistas às eleições de 2014 – medida condenável, do ponto de vista econômico, mas a léguas de distância de ilícito penal ou administrativo.

Da mesma lavra é o abuso de denunciar Lula pelo acordo FX, os aviões da Aeronáutica, cuja decisão se deu no governo Dilma, atendendo à recomendação expressa da própria Aeronáutica. Ou a ação extremamente truculenta contra dezenas de funcionários do BNDES, pretendendo criminalizar até financiamentos a exportações de serviços.

Peça 7 – fera à solta

Há uma alcateia à solta, devorando todos os que atravessam a sua frente. Em algum momento, as diferenças terão que ser deixadas de lado e Congresso, Supremo, partidos políticos, Procuradoria Geral da República, terão que se unir para botar ordem na suruba. E como exigir esse pacto democrático de quem não tem a expectativa de vitória em eleições democráticas?

Cria-se a ciranda fatal:
  1. Quanto menos competitivos eleitoralmente, mais o PSDB-mídia alimentará o antipetismo.
  2. Quanto mais antipetismo, mais poder se confere aos porões.
  3. O antipetismo é o alimento mais estimulador de fantasias de intervenção militar.
No extremo, poderá ocorrer o mesmo que no pós-impeachment, o mesmo que no golpe de 64: os civis que alimentaram a fera serem os primeiros a serem devorados por ela.

Por tudo isso, chegará um momento em que o bom-senso se imporá. Resta saber quanto tempo terá pela frente para impedir a grande fogueira.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►