29 de nov de 2017

Grupo Globo surpreso: Novo delator confirma propina da Globo à CBF


A TV Globo voltou a ser acusada de pagar propina a dirigentes por direitos de transmissão de jogos de futebol.

Durante o julgamento do ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin no escândalo de corrupção da Fifa, o empresário José Eladio Rodríguez disse que a T&T, uma offshore da Torneos y Competencias, foi criada na Holanda para receber pagamentos de grupos de mídia, entre eles a emissora brasileira, que então seriam desviados aos chefes do futebol.

Rodríguez foi braço-direito de Alexandre Burzaco, que já acusou a Globo de ter pago US$ 15 milhões de suborno para os direitos 2026 e 2030 da Copa do Mundo.  

Rodríguez citou José Maria Marin como um dos que receberam propina, e ainda Marco Polo Del Nero, atual chefe do futebol brasileiro, e Ricardo Teixeira, que abandonou o mesmo cargo há cinco anos sob uma série de suspeitas.

Nas planilhas da contabilidade paralela da Torneos y Competencias, examinadas em detalhe pela acusação diante do júri, os cartolas apareciam sob o nome "iluminados". Era a designação secreta de Rodríguez para destinatários de pagamentos -durante anos, a testemunha foi responsável por executar as transferências seguindo as instruções de seu ex-chefe.

Nos exercícios fiscais sob a rubrica "iluminados", a palavra Globo aparece pelo menos quatro vezes, associada a pagamentos que chegam a US$ 12,8 milhões relativos aos direitos da Libertadores e da Copa Sul-Americana.

Rodríguez reconheceu diante do júri a mesma troca de e-mails com o ex-chefe em que discutiam a impaciência de Marin e Del Nero, irritados com a demora para receber seus pagamentos – os cartolas, segundo documentos da Torneos, recebiam US$ 600 mil, valor depois atualizado para US$ 900 mil por ano, relativos à manutenção dos contratos de transmissão dos campeonatos da Conmebol.

Rodríguez reconheceu também Alexandre da Silveira, secretário pessoal de Del Nero, e José Hawilla, o brasileiro dono da Traffic, empresa de marketing esportivo, em fotografias mostradas pela acusação.



No 247
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“O poder sem controle é a pior das maldições”: a aula pública sobre a tragédia do reitor da UFSC

O reitor Luis Carlos Cancelier
Um corregedor, uma delegada e uma juíza estiveram ausentes, mas bem que poderiam ter comparecido à Aula Pública realizada segunda-feira, 27 de novembro, na Universidade Federal de Santa Catarina, organizada pela Reitoria e pelo Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção. Certamente o corregedor-geral da UFSC Rodolfo Hinkel do Prado, a delegada da Polícia Federal Érika Marena e a juíza Janaína Cassol Machado teriam muito a aprender.

Afinal, foi uma aula pública sobre abuso de poder. E os três foram protagonistas de uma ação desencadeada com enorme violência psicológica, com grande humilhação e muita insensibilidade (mas caberia, também, a palavra crueldade) que levou o ex-reitor Luis Carlos Cancellier de Olivo a cometer suicídio, poucos dias depois da sua prisão, na chamada Operação Ouvidos Moucos.

É importante lembrar: o reitor foi preso sem acusação formal, sem ser réu e sem ter sido ouvido pela Justiça. Sob a frágil suspeita de que estivesse tentando impedir uma investigação de desvio de recursos usados em cursos de Educação a Distância que, frise-se, não ocorrera em sua gestão, mas em anos anteriores, Cancellier foi levado a uma penitenciária, desnudado, algemado nas mãos e nos pés e submetido à revista íntima.

Solto dias depois por uma outra juíza, teve negado o acesso à universidade onde fora eleito reitor há pouco mais de um ano.

Contra todos esses e outros abusos que se cometem no Brasil, sobretudo a partir da Lava Jato e do golpe contra a presidenta Dilma Roussef, oradores se revezaram na aula pública na UFSC, em defesa dos fundamentos do Estado Democrático de Direito e da Autonomia Universitária, e também pela apuração dos fatos e responsabilização dos agentes envolvidos na crise que vitimou a Ufsc e o ex-reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Entre eles, o senador Roberto Requião (PMDB/PR), relator do projeto que altera a lei do abuso de autoridade (batizada de Lei Cancellier), o deputado federal Pedro Uczai (PT/SC), o procurador-geral de Santa Catarina João dos Passos Martins Neto, o educador popular padre Vilson Groh e Thaís Lippel, do Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça.

O procurador-geral de Santa Catarina, João dos Passos Martins disse que “o poder sem controle, o poder sem limites, é sempre a pior das maldições”. Acrescentou que nas democracias contemporâneas, controlar e limitar o poder é a função primária da Constituição.

“Os direitos são produtos da experiência humana com as injustiças, com os terríveis horrores das Cruzadas, da Inquisição, da escravidão, do Holocausto, das deportações, dos genocídios, do terrorismo, do apartheid e das prisões arbitrárias e ilegais”, registrou.

Portanto, explicou, “os direitos vêm dos erros e são respostas a um passado sombrio, são defesas da civilização contra a repetição de práticas abomináveis”.

O senador Roberto Requião disse que “Hitler jamais teria se instalado na Alemanha se as pessoas tivessem tido, no momento certo, a coragem de criticá-lo e aos nazistas, com força, com ironia, para colocá-los no ridículo. Por isso temos que denunciar a boçalidade, a arrogância e os excessos das autoridades no Brasil”.

Requião fez dura crítica à nota conjunta de juízes, procuradores, policiais federais e auditores que saíram em defesa da operação que levou o ex-reitor à morte.

Classificou a nota como produto da insolência, do cinismo e da estupidez. Na nota, as autoridades denunciaram “quem quer se aproveitar de uma tragédia para fins políticos no Brasil” e tentaram justificar que “os critérios usados para uma prisão processual ou sua revogação são controlados, restritos e rígidos”.

Requião lembrou que foram mobilizados 105 policiais, meia dúzia de delegados, dezenas de carros, helicópteros, armamentos pesados como fuzis e metralhadoras.

“E mais as câmeras da Globo e da GloboNews, os fotógrafos de O Globo e os microfones da CBN, porque sem a mídia, não se faz mais operação policial no Brasil”, assegurou.

Para o senador, “há um casamento da justiça-espetáculo e da mídia, principalmente a mídia televisiva. Se esse aparato, se esse espetáculo não é exagero, o que seria expressivo para as nossas autoridades, para os nossos agentes públicos? As algemas nas mãos e nas pernas, o desnudamento e a vexaminosa revista íntima? A cela, o isolamento, o deboche? Não, porque os critérios para a prisão, dizem os agentes públicos, foram controlados, restritos e rígidos. Disseram, ousaram dizer e repetiram na mídia. Quanta arrogância, quanta insensibilidade desses novos deuses do Olimpo”, ironizou.

O abuso, a overdose, então, seria o cadáver?, perguntou Requião, para em seguida responder: “Não, nem isso. Os infelizes juízes, procuradores, delegados da polícia federal e auditores que assinam a nota não levam em conta a existência de um cadáver porque para eles não há o corpo de Cancellier. Eles anulam a própria morte e só enxergam uma tragédia para exploração política. Não um cadáver, dizem eles. É uma exploração política da universidade e dos democratas de Santa Catarina e do Brasil”.

Para ele, “nem o direito de Cancellier decidir a sua própria morte eles querem conceder. Para eles, a morte nada mais foi do que um pretexto, um meio escolhido pelo ex-reitor para falsear a verdade. Negaram seu direito à vida, negam o seu direito à morte e à reparação da honra pelo próprio sangue”.

O reitor pro-tempore Ubaldo Balthazar levou ao Conselho Universitário da Ufsc a sugestão para que o Centro de Convivência da Ufsc, onde foi realizada a Aula Pública, seja denominado Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Confira “Resistência ao abuso de poder e ao fascismo”, ministrada na tarde do dia 27 de novembro de 2017, no auditório do Centro de Cultura e Eventos da Ufsc, que o reitor pro-tempore Ubaldo Balthazar sugere ao Conselho Universitário para que venha a se denominar Centro de Cultura e Eventos Luiz Carlos Cancellier de Olivo:



Documentário “Em Nome da Inocência: Justiça!”, com direção e roteiro de Sérgio Giron e Edike Carneiro.



Celso Vicenzi
No DCM
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Globo: Estrela vermelha em boné é censurada em programa do Bial — assista


O desenhista Gabriel Bá, um dos entrevistados dessa semana do “Conversa com Bial”, da Globo, costuma a sempre usar um boné com uma estrela vermelha, como o de Fidel Castro. No programa, no entanto, um detalhe em seu boné, cobrindo a estrela, chamou atenção

Internautas estão acusando a Globo de censura pelas redes sociais. Isso por que no “Conversa com Bial”, programa de entrevistas do jornalista Pedro Bial, da última segunda-feira (26), um dos entrevistados, o desenhista Gabriel Bá, estava com um detalhe que chamou a atenção em seu boné.

O boné com a estrela vermelha, parecido com aquele usado por Fidel Castro, já é praticamente uma marca registrada do desenhista, conhecido internacionalmente por suas produções de graphic novels. No programa da Globo, no entanto, duas faixas de fita isolante cobriam a estrela de seu boné.

Após alertas da leitores, Fórum procurou e encontrou, nas redes sociais, fotos do desenhista com o mesmo boné sem a fita isolante. A reportagem entrou em contato com Gabriel, que ainda não deu retorno.

Nas redes sociais, no entanto, internautas já cravaram: a estrela vermelha do boné do desenhista foi censurada pela Globo.




No Fórum



Entre entrar com a estrela coberta ou entrar sem boné, escolhi o boné. Por Gabriel Sá

“Evite números para que não haja associação a marcas ou partidos políticos”.

Essa foi uma das dicas de vestuário da produção do programa. Mesmo assim, fui com meu boné verde com estrela vermelha, que trouxe do Vietnam.

Tenho outros, mas gosto deste, do que ele representa. Foi minha escolha.

Chegando no estúdio, o pessoal do figurino, respondendo à diretoria do programa, disse que a estrela não ia rolar.

Claro que não fiquei contente, mas eu fiz uma escolha antes: a de ir com o boné.

Entre entrar com a estrela coberta ou entrar sem boné, escolhi o boné.

E escolheria novamente.

Poderia ser um tucaninho azul e amarelo ou um número 45, o logo da Adidas ou o escudo do Palmeiras. Seria coberto da mesma maneira.

Prefiro ver agora esse debate todo e o povo refletindo do que simplesmente ter entrado sem boné.

* * *

PS: A Globo não veta escudo de time, algumas marcas comerciais, sim.

Mas já fez campanha para promover o 45, na época em que comemorou os 45 anos. Era ano de eleição, 2010, e associava o 45 à saúde e à educação.

Diante de uma avalanche de críticas, recuou e tirou a campanha do ar — ficou claro que era apoio subliminar a José Serra.

No caso da estrela vermelha, cobri-la equivale a cobrir outros símbolos que não são comerciais, como cruz.

Gabriel Bá sai menor com a explicação que deu. Quis aliviar para a Globo. A verdade é que foi censurado e aceitou a censura.

Ele está certo quando disse que há um lado positivo nisso tudo: despertou o debate sobre censura e o poder da Globo.

No DCM
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Jessé Souza: “Bolsonaro é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo”

Sociólogo lançou livro em Curitiba e explicou por que a operação é vista com bons olhos pelas classes dominantes


Lançamento de livro, palestra e curso sobre a formação da sociedade brasileira. Em pouco mais de 24 horas, o sociólogo Jessé Souza fez da chamada “República de Curitiba” um espaço de debates sobre o Poder Judiciário e a operação Lava Jato.

A passagem do intelectual potiguar pela capital paranaense, na semana passada, foi simbólica. Não só porque Curitiba é a cidade-sede da Lava Jato, mas porque a palestra aconteceu no campus Santos Andrade da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde o juiz Sérgio Moro trabalha há dez anos como professor de Direito.

O curso foi ministrado na Universidade Positivo (UP), também no entorno da praça Santos Andrade, em parceria com Luiz Rocha, presidente da comissão de direito do consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná (OAB/PR).

Jessé Souza é mestre e doutor em Sociologia, pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e presidiu o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) entre 2015 e 2016. Com pós-doutorado em Psicanálise e Filosofia pela Nova Escola de Pesquisa Social, nos Estados Unidos, ele tornou-se livre docente na Universidade de Flensburg, também na Alemanha, em 2006.

A reportagem do Brasil de Fato Paraná acompanhou o bate-papo que sucedeu o lançamento da obra A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato [Leya, 2017], no último dia 23, e apresenta uma síntese das teses defendidas pelo autor nos quatro capítulos do livro.

Histórico

A revolução de 1930, comandada por Getúlio Vargas, é considerada um divisor de águas na história brasileira, porque coloca o Estado pela primeira vez na posição de protagonista do desenvolvimento do país.

Os anos seguintes foram marcados pela ampliação dos incentivos governamentais à pesquisa e à industrialização, por políticas públicas que permitiriam a geração de empregos e pela assinatura do Decreto-Lei nº 5.452, conhecido como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

A elite paulistana, derrotada em 1930, jamais engoliu que Vargas fosse o presidente, e passou a disseminar no Brasil ideias antigetulistas e anti-estatais. Logo, a classe média urbana comprou esse discurso, motivada por uma preocupação em “se distinguir dos de baixo” – mentalidade que remete a uma tradição escravocrata.

Jessé Souza interpreta que não é apenas a renda mensal que define quem é “ralé” e quem é de classe média. Passam a ser importantes, para essa diferenciação, o consumo de certos bens culturais, que demonstrem “sensibilidade e bom gosto”, a valorização do trabalho intelectual sobre o trabalho manual e a crença na meritocracia e na moralidade.

“A suposta superioridade moral da classe média dá a sua clientela tudo aquilo que ela mais deseja: o sentimento de representarem o melhor da sociedade. (…) [A classe média] tem algo que ninguém tem, nem os ricos, que é a certeza de sua perfeição moral”, descreve o autor no penúltimo capítulo do livro. Nesse fragmento, aparecem algumas pistas para entender as condições de existência da Lava Jato no século XXI.
Temos uma sociedade desigual e mal informada, com pouquíssima reflexão sobre si mesma
Sob esse ponto de vista, a operação representa uma continuidade, e não um rompimento na história das elites. Jessé Souza afirma que a escravidão – que não foi herdada de Portugal – engloba todas as instituições da sociedade brasileira, e baseia “desde o ano zero” as concepções de economia, política e justiça que hoje são defendidas pela classe média.

Patrimonialismo

A ampliação dos direitos trabalhistas e a inclusão dos mais pobres na esfera do consumo são encaradas como ameaça no Brasil moderno. Como antídoto ao “intervencionismo estatal”, as classes dominantes apostam no mercado – em oposição ao Estado – como caminho para o crescimento econômico e para uma pretensa moralização do país.

No senso comum, o Estado brasileiro passa a ser visto como patrimonialista, ou seja, incapaz de distinguir os limites entre o público e o privado, porque reproduz o “mito da brasilidade” – que convém aos donos dos bancos e das grandes empresas.

Segundo esse mito, a corrupção e o “jeitinho brasileiro” aparecem em todas as esferas do Estado, desde os pequenos funcionários públicos até os políticos do alto escalão. A sonegação de impostos, a formação de carteis e a superexploração do trabalho, praticadas pelas grandes empresas, são deixadas de lado no debate sobre a corrupção.

Populismo

A mesma palavra que as classes dominantes usaram para demonizar as políticas de interesse dos mais pobres, a partir dos governos de Getúlio Vargas, voltou a ser reproduzida quando Lula (PT) assumiu a Presidência da República, em 2003: populismo.

Vendeu-se, então, a ideia de que a “ralé brasileira”, por não ter instrução, acaba enganada e corrompida por políticos carismáticos – enquanto a classe média é vista como consciente e imune a qualquer forma de manipulação.

Para Jessé Souza, essa aplicação do termo populismo é preconceituosa e equivocada. Afinal, a própria classe média, em capítulos-chave da história política brasileira, posicionou-se contra seus próprios interesses, estimulada pela Rede Globo e pelos demais meios de comunicação empresariais, que representam o capital financeiro.

O exemplo mais recente, segundo o autor, foram as manifestações que pediam o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), sob o pretexto de “combater à corrupção”. Em poucos meses, a mesma classe que comemorou o golpe silenciou diante de uma série de escândalos no governo Michel Temer (PMDB).

“Nós temos uma sociedade desigual, mal informada, com pouquíssima reflexão sobre si mesma, e que é sempre presa das mesmas armadilhas”, declarou o intelectual potiguar durante a palestra, ao analisar as motivações do golpe de 2016.

Síntese

O uso mal-intencionado do termo populismo, somado à ideia de que o Estado – e nunca o mercado – é um antro de corrupção, abriu espaço para que a os pobres fossem vistos como desprezíveis, senão responsáveis pela própria miséria. Jessé Souza sugere, então, que o avanço da Lava Jato foi legitimado por uma elite colonizada, que conseguiu apoio da classe média para enfrentar os avanços de todo e qualquer governo que se proponha a reduzir privilégios: “A Lava Jato criminalizou a bandeira da igualdade social”.

O adjetivo “colonizada”, nesse caso, diz respeito à entrega do petróleo da camada pré-sal ao capital financeiro internacional – um ataque à soberania nacional estimulado, em grande medida, pelas denúncias de corrupção no âmbito da Petrobras. “A Lava Jato expressa o que há de pior na elite brasileira, e isso está começando a ficar óbvio. Daqui a cinco ou dez anos, ela vai ser conhecida como a maior vergonha nacional”, antecipa o sociólogo.

Perspectivas

Não existe, segundo Jessé Souza, nenhuma possibilidade de surgir um movimento transformação social, que favoreça a maioria da população, a partir do ideal de combate à corrupção propagado pela Lava Jato: “Tudo aquilo que se apresenta como novidade é uma simples máscara velha de um jogo antigo”.

O mesmo vale para as eleições do ano que vem. O sociólogo interpreta que o Poder Judiciário e a mídia convenceram a classe média da necessidade de fazer uma “limpeza social”, o que banalizou os discursos de violência e segregação.

Os políticos que ganharam projeção nos últimos quatro anos, e que pretendem disputar a Presidência em 2018, refletem essa tendência: “Bolsonaro é filho legítimo do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo”, afirmou Jessé Souza, ao ser questionado por um dos espectadores sobre as alternativas eleitorais.

Daniel Giovanaz
No Brasil de Fato
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Aécio usava celulares de laranjas para fazer ligações sigilosas e acertar crimes


Para diminuir o risco de vazamento em conversas sigilosas, o senador Aécio Neves usava celulares em nome de laranjas, diz relatório da Polícia Federal feito com base em material encontrado na casa do tucano em operação de busca e apreensão após o escândalo da JBS; pré-pagos, os telefones estavam registrados em nome de duas pessoas diferentes: Laércio de Oliveira, agricultor que trabalha no cultivo de café em fazendas do interior de Minas, e Mitil Ilchaer Silva Durao, montador de andaimes com endereço registrado no Espírito Santo; “tratam-se de aparelhos telefônicos simples/descartáveis normalmente utilizados para conversas ponto-a-ponto (análogo a uma rede fechada) com pessoas determinadas/restritas de modo a evitar eventuais vazamentos do número utilizado na ligação, visando a maximização do sigilo das ligações”, diz a polícia

Um relatório elaborado pela Polícia Federal (PF) após a análise de objetos e documentos que foram apreendidos no apartamento do senador Aécio Neves (PSDB-MG), no Rio de Janeiro, em 18 de maio, aponta indícios de que o tucano usava dois celulares com linhas telefônicas supostamente registradas em nome de laranjas para fazer ligações sigilosas.

Segundo a perícia da Polícia Federal, “aparelhos celulares simples” foram encontrados pelos agentes na sala de TV e no closet do apartamento de Aécio localizado no bairro de Ipanema.

No início do ano, o delator Joesley Batista, da JBS, gravou Aécio pedindo a ele R$ 2 milhões para, supostamente, pagar os honorários do advogado que o defendia nos processos da Lava Jato.

“Pelas descrições dos itens 20 e 25 acima, tratam-se de aparelhos telefônicos simples/descartáveis normalmente utilizados para conversas ponto-a-ponto (análogo a uma rede fechada) com pessoas determinadas/restritas de modo a evitar eventuais vazamentos do número utilizado na ligação, visando a maximização do sigilo das ligações.”

Os telefones pré-pagos estavam registrados em nome de duas pessoas diferentes: Laércio de Oliveira, agricultor que trabalha no cultivo de café em fazendas do interior de Minas e Mitil Ilchaer Silva Durao, montador de andaimes com endereço registrado no Espírito Santo.

Além dos celulares em nome de laranjas, motorista de Aécio virou dono de um Portinari

Além dos celulares em nome de laranjas, a Polícia Federal apreendeu na residência de Aécio Neves, no Rio de Janeiro, 16 obras de arte, entre as quais uma tela assinada por Cândido Portinari e uma escultura.

Segundo o G1, o motorista da família de Aécio foi designado pela PF como fiel depositário do acervo de obras do senador tucano.

Em maio, Aécio havia dito que o quadro fora um presente a seu avô, Tancredo Neves.
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Lava Jato de Curitiba está delirando com o caso do sítio, diz defesa de Lula


A defesa do ex-presidente Lula disse, em nota à imprensa, que a Lava Jato começou a delirar no caso do sítio de Atibaia. Isso porque o Ministério Público Federal aceitou de um delator da Odebrecht uma planilha de obra da Sabesp que não tem nenhuma referência a Lula, mas que está sendo usada como prova de que o espaço recebeu reformas pagas com recursos do chamado departamento de propinas da empreiteira.

Segundo reportagem do Estadão, o engenheiro da Odebrecht Emyr Diniz Costa Junior, responsável pelas obras do sítio de Atibaia, entregou ao juiz Sergio Moro uma planilha que ele diz ter retirado do sistema Drousys. 


A planilha soma R$ 700 mil em gastos de obra, de janeiro a dezembro de 2010. Emyr disse aos procuradores que parte dos recursos, cerca de R$ 500 mil, foi solicitado à secretária que cuidava do departamento de propina, Maria Lúcia Tavares. Ele teria comprado um cofre para armazenar os recursos que recebeu no "escritório do Aquapolo, obra de saneamento localizada na região do ABC."

“O delírio acusatório do MPF chegou ao absurdo de querer usar uma planilha sem nenhuma referência ao ex-Presidente Lula, mas sim a um projeto chamado Aquapolo, envolvendo a Sabesp — empresa ligada ao Governo do Estado de São Paulo —, como 'prova' do pagamento de valores da Odebrecht para obras em um sítio localizado em Atibaia (SP). Ou seja, não há qualquer conexão entre a planilha e o ex-Presidente Lula e o sítio de Atibaia", escreveu o advogado Cristiano Zanin.

"O documento, além de não ter qualquer valor probatório contra Lula, reforça que os fatos discutidos na ação não têm relação com os 7 contratos da Petrobras fundamentam a acusação, e, consequentemente, com a Operação Lava Jato. Reforça, ainda, que essa acusação não se baseia em provas mas sim no mau uso da lei para fins de perseguição política contra Lula, prática conhecida como lawfare", acrescentou.
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Projeto de Lei destaca atividades maçônicas em São Miguel do Oeste/SC

Foto: Portal da Câmara de Vereadores de São Miguel do Oeste
A Câmara de Vereadores, em sessão esvaziada, como mostra a foto do sítio da instituição, aprovou nesta terça-feira, a criação do “Dia Municipal do DeMolay”. O projeto de lei que institui a data é de autoria do vereador Cláudio Barp (PMDB). O PL 131/2017 coloca no calendário do município de São Miguel do Oeste a data de 18 de março como o “Dia Municipal do DeMolay”.

Ou seja, a mesma Câmara que dias atrás queria mudar o Mês da Consciência Negra, agora aprova um projeto de lei que visa incluir na cultura migueloestina uma tradição maçônica norte-americana.

Veja quem são e de aonde vêm a Ordem:

Ordem DeMolay é uma sociedade discreta criada por Frank Sherman Land a partir princípios filosóficos, fraternais, iniciáticos e filantrópicos, para jovens do sexo masculino com idade compreendida entre os 12 e os 21 anos. É uma organização para-maçônica fundada nos Estados Unidos, em 18 de Março de 1919, pelo maçom Frank Sherman Land patrocinada e mantida pela Maçonaria, oficialmente desde 1921, que na maioria dos casos cede espaço para as reuniões dos Capítulos DeMolays e Priorados ou conventos da Ordem da Cavalaria – denominações das células da organização.

A Ordem é inspirada na vida e morte do nobre francês Jacques DeMolay, 23º e último Grão-Mestre da Ordem dos Templários, morto em 18 de março de 1314 junto a 3 de seus preceptores por contestar as falsas acusações de prática de diversas heresias como infidelidade à Igreja, sodomia, adoração de ídolos etc. Pode-se acreditar que o motivo de tais acusações fosse a ambição do Rei Filipe IV, o Belo e o Papa Clemente V, pelas posses da Ordem dos Templários, pois em caso de prisão, os bens do acusado passariam a pertencer ao Estado francês.

No Desacato
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Lula fala com Joel Silva, da Rádio Capital 95,9 FM, do Mato Grosso do Sul


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Biografia de Fidel — vídeo


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Como o STF pode abrir as portas para ataque à soberania popular

À espera do aval do STF, a proposta busca emular o sistema francês, mas com a concessão de poderes ainda mais amplos ao Congresso


Recentemente, o presidente Michel Temer afirmou que governa em um regime “quase” semipresidencialista. “No nosso governo, a Câmara deixou de ser um apêndice, para ser parceira do governo”, comemorou.

Entusiasmado com a adoção do modelo na prática, Temer defende que ele se torne definitivo no País. Defendida por seu “conselheiro” Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, a adoção de um sistema semipresidencialista pode entrar na agenda do Congresso ainda neste ano.

Como o próprio nome sugere, o projeto busca retirar poderes da Presidência e ampliar o poder de barganha dos parlamentares em futuros governos. A iniciativa depende, porém, do aval do STF para ser votada sem uma consulta prévia à população.

Segundo relatos da mídia, uma minuta da proposta para a adoção do semipresidencialismo já está pronta e circula nas mãos das principais autoridades brasileiras. O texto tende a recuperar uma proposta apresentada há mais de 20 anos pelo então deputado petista Eduardo Jorge, atualmente no PV.

O texto de Jorge prevê a adoção do parlamentarismo, mas com algumas peculiaridades. Relator da proposta, o tucano mineiro Bonifácio de Andrada defendeu a adoção no Brasil de um modelo com regras mais próximas do sistema francês, em que o presidente como chefe de Estado indica o primeiro-ministro, considerado o chefe de governo. No parlamentarismo puro, o primeiro-ministro é escolhido diretamente pelos parlamentares.

Atualmente o Brasil adota o sistema presidencialista puro, no qual não há um primeiro-ministro e o presidente acumula as funções de chefe de governo e de Estado, sendo responsável pela escolha da equipe ministerial.

O modelo foi o preferido da maioria dos eleitores brasileiros em dois plebiscitos. Em 1993, mais de 55% dos brasileiros votaram em favor do presidencialismo, enquanto 24% optaram pelo parlamentarismo. Em 1963, em meio ao governo de João Goulart, o sistema atual ganhou com 82% dos votos.

Entusiastas do parlamentarismo, Temer e Mendes não estimulam a convocação de um novo plebiscito, mas buscam atalhos jurídicos e legislativos para aprovar o novo sistema, que tende a conceder ainda mais poderes aos parlamentares na comparação com o modelo francês.

Entenda como o STF pode dar aval aos parlamentares para mudarem o sistema de governo sem consultar a população, além do funcionamento do sistema francês e suas diferenças em relação à proposta abraçada pelo atual presidente.

O debate no STF

Na véspera do feriado de 15 de novembro, o ministro do STF Alexandre de Moraes, ex-ministro da Justiça de Temer, avisou internamente no STF que está pronto para ser julgado um mandado de segurança sobre a adoção de mudanças no sistema no governo.

Em 1997, o então líder do PT na Câmara, Jaques Wagner, hoje secretário estadual na Bahia, entrou com um mandado de segurança no Supremo para brecar a tramitação da proposta de parlamentarismo de Eduardo Jorge.

O mandado de Wagner argumentava que o sistema de governo não podia ser modificado pelo Legislativo, apenas pelo eleitorado. Pautada em 2002, 2015 e 2016, a ação jamais foi ao plenário do Supremo.

Se o mandado for à votação e a maioria dos ministros entenderem que não é necessário consultar a população sobre o sistema de governo, o Congresso tem o caminho pavimentado para debater o semipresidencialismo.

O semipresidencialismo francês

Ao relatar a proposta de parlamentarismo de Eduardo Jorge, o deputado tucano Bonifácio de Andrada defendeu a adoção de um “presidencialismo participativo” no Brasil, inspirado no sistema que vigora na França.

“O parlamentarismo, modelo francês, nos abrirá novos horizontes ao Brasil de amanhã”, afirmou Bonifácio de Andrada em 2001. Recentemente, o parlamentar foi relator da segunda denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra Temer e recomendou a rejeição da acusação.

Em 2015, a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados produziu um estudo comparativo sobre os sistemas de governo no Brasil, na França e nos Estados Unidos. Segundo o estudo, o modelo francês “reserva atribuições muito maiores do que a dos presidentes nos regimes parlamentaristas”.

Na França, o presidente como chefe do Estado nomeia o primeiro-ministro, ou o chefe de governo, que por sua vez nomeia a equipe ministerial. A Presidência tem ainda o poder de submeter matérias a referendo e de dissolver a Assembleia Nacional, o equivalente à nossa Câmara dos Deputados.

Segundo o estudo, na prática os poderes presidenciais variam de acordo com a maioria no Parlamento francês. Se a maioria do Legislativo apoia o presidente, este se torna livre para escolher o primeiro-ministro de sua preferência.

Há, porém, o caso da chamada “coabitação”: quando o presidente convive com uma maioria parlamentar hostil, ele passa a ter pouca influência na política interna do País, embora ainda tenha poder de veto em questões de soberania nacional.

Indicado pelo presidente, o primeiro-ministro tem como principais responsabilidades o encaminhamento de projetos de lei ao Legislativo e as nomeações para postos civis e militares. Ele possui ainda a prerrogativa de exigir que a Assembleia delibere sobre um projeto de sua autoria em 24 horas.

A Assembleia Nacional tem o poder de impor a saída do primeiro-ministro por meio de uma moção de censura. Censurado, o chefe de governo é obrigado a apresentar ao presidente seu pedido de demissão.

Diferenças para a proposta brasileira

Embora inspirado no modelo francês, a proposta que pode ir à votação no Congresso apresenta diferenças importantes, capazes de dar mais poder ao Parlamento e menos ao presidente. No texto relatado em 2001 por Bonifácio de Andrada, o primeiro-ministro tem de ser escolhido dentre os integrantes do Congresso com mais de 35 anos.

Na França, não há essa exigência. Em 2005, o presidente Jacques Chirac nomeou como primeiro-ministro Dominique de Villepin, um diplomata de carreira sem mandato parlamentar. Georges Pompidou e Raymond Barre são outros exemplos de chefes de governo que não ocuparam cargos no Legislativo.

Outra diferença importante é que a proposta brasileira prevê a obrigação de o presidente consultar a maioria parlamentar para a escolha de seu primeiro-ministro. “Compete ao Presidente da República, após consulta aos partidos políticos instituídos que compõem a maioria da Câmara dos Deputados, nomear o primeiro-ministro”, prevê o texto de Bonifácio de Andrada.

É possível que a nova versão do texto garanta ainda mais poderes ao Congresso. Andrada atualizou seu relatório e o fez circular entre deputados simpatizantes do parlamentarismo. Uma das possíveis mudanças é a de que a escolha dos ministros seria responsabilidade apenas ao primeiro-ministro, e não fruto de uma decisão conjunta entre a Presidência e o Parlamento.

Em março de 2016, Aloysio Nunes Ferreira, ministro das Relações Exteriores de Temer, apresentou no Senado uma proposta similar à da Câmara. Esse projeto assemelha-se mais ao modelo francês: o primeiro-ministro seria escolhido “preferencialmente” no Congresso.

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Porque Elena Landau não gostou do pré-plano do PSDB


As críticas da economista Elena Landau à tentativa do PSDB de montar um plano econômico são compreensíveis.

Primeiro, pelo pecado capital do plano não ter sua assinatura.

Segundo, fazer referências ao ex-governador Mário Covas, a última esperança da socialdemocracia do partido.

Landau, assim como outras "divas" do PSDB, como Maria Helena Guimarães, nunca teve como foco de atuação a melhoria da condição econômica, da competitividade sistêmica e menos ainda das condições sociais da população. Seu foco sempre foi preparar o terreno para o que fosse melhor para os compradores, ou prestadores de serviço, independentemente dos reflexos sobre o resultado final para o país. Como se a privatização fosse um fim, e não um meio.

No mesmo enfoque incorreu Maria Helena, cuja carreira na educação foi pautada pela adesão incondicional a princípios ideológicos rasos, sem nenhuma capacidade de análise sobre a estrutura a ser reformada.

O bom reformador é aquele que coloca o foco das mudanças no aumento da eficiência do setor que está sendo reformado. E que tem clareza sobre o objetivo a ser alcançado.

Na privatização, por exemplo, a grande estratégia teria consistido em montar um modelo que respeitasse as características de cada setor, ainda mais se sabendo que a integração comercial do país exigiria empresas competitivas internacionalmente.

O que esses gênios fizeram? Uma pulverização de siderurgias e de petroquímicas, comprometendo os ganhos de escala e o modelo tripartite anterior, que ajudou a criar grandes centrais petroquímicas.

Na telefonia, arrebentaram com a estrutura da Telebras, com os ganhos de escala, com a capacidade de pesquisa e desenvolvimento, enquanto a Telefonica, estatal espanhola, era preparada para competir no mercado privado, passando a dominar a telefonia na América Latina. Lançou-se no mundo com estrutura de gestão privada, mas tendo atrás de si os ganhos de escala de ser uma empresa pública no seu país.

Na privatização, no entanto, optou-se por um modelo pulverizado, bom para os negócios, inclusive com o uso abusivo de papéis podres, títulos da dívida pública sem validade. A lambança que ocorreu na telefonia, com Daniel Dantas, italianos, canadenses, espanhóis, jogadas jurídicas, manipulação de preços – como o esvaziamento da Oi-Telemar nos governos FHC e Lula – dá uma pálida ideia das distorções geradas pelo modelo.

Na educação, esse gerencialismo barato produziu efeitos similares.

Em São Paulo, as tais ferramentas gerenciais de Maria Helena se preocupavam em transformar diretores da escola em administradores de compras, deixando de lado o foco principal, que era o aprimoramento nas ferramentas pedagógicas. Mais ainda: em estruturas pulverizadas, seja um banco comercial, uma loja de varejos ou uma estrutura educacional, não se melhora a gestão sem se conquistar a ponta, os professores.

Mas, nesse país dos slogans vazios, vence quem manobra os bordões. E, no modelo Maria Helena, professor era custo.

Como assessora do ex-Ministro Paulo Renato de Souza, trabalhou em um conceito estapafúrdio: se o MEC se preocupasse com o ensino superior, dispersaria os esforços no ensino fundamental. O Banco Mundial disse que o ensino superior deveria ser pago ou ser privado. E os gênios do gerencialismo absorveram o ensinamento e disseram que o ensino superior não era mais problema do MEC. E essa maluquice pegou. Como se educação não fosse um projeto integrado.

Para se comprovar o sucesso dos bordões nesse país das palavras vazias, na outra ponta, o então petista radical Cristovam Buarque, governador do Distrito Federal, proibia o uso da  palavra qualidade nas suas secretarias, por ser um “termo neoliberal”.

Em São Paulo, Maria Helena conseguiu estagnar os avanços da educação, tratando os professores como adversários. A corporação é difícil, sim, tem associações aguerridas.

Mas o único Secretário de Educação que tentou romper com o imobilismo, Gabriel Chalita, abrindo as escolas às comunidades, abrindo o diálogo com os professores, foi massacrado pelos burocratas tucanos do ensino, que tratavam suas experiências como manobras populistas.

Depois de conseguir estagnar a educação no estado mais rico do país, Maria Helena se propõe a colocar em prática os conselhos do Banco Mundial para a educação superior, com a sutileza de um açougueiro destrinchando a carcaça de um boi.

O Banco Mundial detectou que o custo por aluno, em uma universidade pública brasileira, é três vezes maior que o de uma privada. Seria interessante comparar o custo na 9 de Julho e na USP. Será maior ainda. Só que 90% das pesquisas no país estão concentradas nas universidades – mais que isso, nas universidades públicas; pouco nas empresas; nada nas universidades privadas.

É evidente que há a necessidade de choques de gestão - no melhor sentido - nas universidades públicas. E pode-se e deve-se discutir modelos alternativos de financiamento.

Mas o que Maria Helena está fazendo é literalmente destruir as federais sem que se tenha nada para substituí-las no trabalho de pesquisa e formação de quadros técnicos.

É uma visão burra, de um atraso a toda prova, um desperdício de recursos, uma queima de ativos imprescindíveis ao desenvolvimento de um país.

Os quadros tucanos

Ao longo do governo FHC, dos governos Montoro e Mário Covas, o PSDB conseguiu revelar alguns grandes quadros e alguns blefes monumentais.

Independentemente das críticas atuais, Pedro Parente é um grande quadro; Maria Silvia Bastos Marques, que não conseguiu segurar a peteca no BNDES, uma gestora menor. O grupo tucano de inovação – Américo Pacheco, Brito Cruz, João Furtado – tem visão de futuro. E nenhum deles prescindiria do que é feito nas universidades paulistas. Paulo Renato, Maria Helena a visão dos slogans. Yoshiaki Nakano foi um gestor histórico na Fazenda paulista; Pedro Malan, um Ministro a reboque.

A mediocrização do partido faz com que os porta-vozes, em qualquer tema, sejam aqueles que saibam brandir factoides, palavras vazias, sem nenhuma ficha de trabalhos concretos, de resultados. Tendo os melhores quadros acadêmicos do país, tendo quadros preciosos na USP, quem José Serra colocou como reitor? Um troglodita megalomaníaco que arrebentou a USP com planos mirabolantes, mas que oferecia o que Serra mais apreciava: PM no lombo dos alunos.

Faz bem o senador José Aníbal em rascunhar uma tentativa de programa do PSDB. Faria melhor em montar uma equipe de especialistas com visão de futuro, não esse ideologismo barato. Pena que sua iniciativa chegue com 12 anos de atraso. E a um partido que, em lugar de Covas, tem Geraldo Alckmin como o grande farol em direção ao futuro.

Luís Nassif
No GGN
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O desembarque “pró-forma” do PSDB e o jogo de traíras


O iminente encontro entre Michel Temer e Geraldo Alckmin para tratar da encenação de um desembarque do PSDB do Governo – encenação porque, além de cargos, o comando do partido se mantém decidido a sustentar o único projeto deste governo, a reforma da previdência – lembra os versos  de Gita, a inesquecível música de Raul Seixas e Paulo Coelho: “eu estou em você, mas você não está em mim”.

E olhe que no caso tucano-temerista algo do PSDB continuará no Governo, ao que tudo indica, além do furor privatizante e anti-trabalhador dos tucanos. O desapegadíssimo Aloysio Nunes Ferreira anuncia para quem quiser ouvir que seguirá ministro das Relações Exteriores.

Alckmin terá de lidar com o complicadíssimo “front” interno do PSDB: Aécio e seu desgaste público; João Doria e sua ambição sem limites e as “viúvas do Huck”, que sonhavam em atropelar a máquina partidária e fazer um governo – favas contadas, para eles – no brilho dos salões.

A simbiose PSDB-Temer seguirá e, a rigor, não se pode dizer que haja alguma diferença substancial entre o “Ponte para o Futuro”, com que a dupla Michel Temer – Moreira Franco dourou a pílula do desmonte dos direitos trabalhistas e do patrimônio nacional e o “remake” do ‘choque de capitalismo’ que o tucanato acaba de desenterrar da candidatura Covas de 1989.

Como se o Brasil, logo em seguida com Collor e depois com Fernando Henrique já não tivesse levado um choque de altíssima voltagem privatizante.

Na ribalta da falsa política, aquela que se move em torno de vaidades e ambições, os jornais falam numa aliança de Rodrigo Maia com o “centrão”, para fazer de Henrique Meirelles candidato a presidente.  Passa pela cabeça de alguém que ele possa ser eleitoralmente viável?

Óbvio que não, é jogo para negociar posições. Esta é a política brasileira: um jogo de dissimulações e traição.

Fernando Brito
No Tijolaço
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O que Tacla Durán deve dizer na CPI


Mais uma postagem da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM. Outras matérias da série podem ser vistas aqui.

A imagem da tela do smartphone com a conversa do advogado Carlos Zucolotto é apenas uma das provas que o advogado Rodrigo Tacla Durán pretende mostrar no depoimento à CPI da JBS, na próxima quinta-feira. Tacla Durán entregou o celular e notebook para um perito da Espanha, para que ele atestasse que não houve montagem nas imagens nem nas planilhas arquivadas.

A conversa com Zucolotto foi pelo apliacativo Wickr, que funciona como muitos outros programas de troca de mensagens, com a vantagem de que estas não podem ser rastreadas. Além de serem protegidas por criptografias, desaparecem depois de seis dias e não ficam armazenadas ou passam por nenhum servidor.

Tacla Durán fez print screen das telas com a conversa, e essas imagens é que foram para o perito, que já teria atestado não se tratar de montagem. No livro que Tacla Durán está escrevendo, Zucolotto transcreve o trecho de uma conversa sobre negociações para acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal:

Zucolotto: Amigo, tem como melhorar esta primeira… Não muito, mas sim um pouco.

Rodrigo Durán: Não entendo.

Zucolotto: Há uma forma de melhorar esta primeira proposta… Não muito. Está interessado?

Rodrigo Durán: Como seria?

Zucolotto: Meu amigo consegue que DD entre na negociação.

Rodrigo Durán: Correto. E o que que se pode melhorar?

Zucolotto: Vou pedir para mudar a prisão para prisão domiciliar e diminuir a multa, ok?

Rodrigo Durán: Para quanto?

Zucolotto: A ideia é diminuir para um terço do que foi pedido. E você pagaria um terço para poder resolver.

Rodrigo Durán: Ok. Pago a você os honorários?

Zucolotto: Sim, mas por fora, porque tenho que cuidar das pessoas que ajudaram com isso. Fazemos como sempre. A maior parte você me paga por fora.

Rodrigo Durán: Ok.

Zucolotto: Enviaremos um modelo com um valor alternativo, porque o valor de fora está bloqueado. Portanto, você para um terço em R$. Quando você vir (o modelo), vai entender.


Tacla Durán conta que, de fato, os procuradores Júlio Noronha e Roberson Pozzobon enviaram por e-mail um modelo de acordo com as condições alteradas por Zucolotto. “Recebi o rascunho no dia 27 de maio de 2016, e deveria estar no Brasil no dia 30, para assinar. Sozinho em casa na Flórida, pensei muito e decidi não assinar nem voltar ao Brasil. Não poderia admitir crimes que não cometi. Eu pedi ao meu advogado Leonardo Pantaleão, que me representou na reunião prévia com os procuradores, para discutir o texto e as cláusulas. Os procuradores, ao saberem da minha negativa em admitir os crimes que não havia cometido, não quiseram mais conversar comigo e as negociações terminaram. Este foi nosso último contato”, escreveu no livro que ainda não foi publicado.

Zucolotto é amigo de Sergio Moro e o site de seu escritório apresentava a esposa do juiz, Rosângela Moro, como uma das advogadas associadas. Pessoas próximas a Tacla Durán disseram não acreditar que o contato com os procuradores da Lava Jato seja feito através de Rosângela. As relações são estreitas não só através das amizades de Rosângela, mas entre outros advogados e membros do Ministério Público Federal. O irmão do procurador Diogo Castor de Mattos, Rodrigo, por exemplo, é advogado de João Santana e Mônica Moura, que fizeram acordo de delação premiada.

O procurador Orlando Martello Júnior, que atua com Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima desde a investigação do Banestado, em 2002, é muito próximo de Marlus Arns, advogado que fechou vários acordos de delação premiada em Curitiba.

Marlus também é  profissionalmente ligado a Rosângela Moro, através da APAE e também de uma antiga ação da massa falida da GVA, em Guarapuava, interior do Paraná. Por sua vez, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima já foi cliente do escritório de Zucolotto, em uma ação trabalhista.

A chamada República de Curitiba é quase uma família. Ou "panela', como teria definido o consultor financeiro Ivan Carratu, prestador de serviços da UTC, empreiteira para a qual ambos trabalharam. Tacla Durán também guardou mensagens trocadas com com Carratu quando o dono da empresa, Ricardo Pessoa, preparava um adendo a seu acordo de delação premiada.

Tacla Durán disse aos dois deputados que estiveram com ele em Madri (Wadih Damous e Paulo Pimenta) que foi  avisado por Carratu de que seria citado na delação de Ricardo Pessoa. Ivan Carratu teria lhe sugerido contratar um advogado da “panela” de Curitiba e adiantado que, com a assistência de um desses advogados, o acordo de delação premiada seria favorável.

De fato, Tacla Durán foi citado no adendo ao acordo de delação, mas em um depoimento que é estranho não apenas pelo conteúdo, mas pela forma. Quem toma o depoimento, como se fosse um procurador ou delegado da Polícia Federal, é a própria defesa de Ricardo Pessoa. Na verdade, são dois depoimentos — o de Ricardo Pessoa e o do diretor financeiro da UTC, Walmir Pinheiro Santana.

Um complementa o outro. Walmir diz que Tacla Durán é quem fazia o câmbio das propinas pagas no exterior. A cada dois meses, segundo Walmir, Tacla Durán comparecia à sede da UTC, em São Paulo, e entregava dinheiro vivo, em reais, correspondente aos dólares depositados lá fora. Pessoa diz a mesma coisa, só que nega o contato direto com Tacla Durán. Era Walmir quem recebia o dinheiro, na garagem da empreiteira.

O que enfraquece a versão é a falta de provas. Nos depoimentos, dizem que Tacla Durán não tem registro na portaria da empresa, nem houve gravação em vídeo da presença dela. Outro relato que tira credibilidade da narrativa é que, segundo Walmir Pinheiro, o dinheiro era entregue a ele e levado para ficar sob a guarda do doleiro Alberto Youssef. Não faz sentido. Por que Durán não levava o dinheiro diretamente a Youssef?

Para a defesa de Tacla Durán, essa versão de que teria havido triangulação entre doleiros, foi criada para evitar que Youssef fosse envolvido diretamente na história — ele teria que confirmar. Era mais fácil circunscrever a narrativa no âmbito de Pessoa e Walmir, um confirmando o outro.

O mais estranho no adendo à delação dos diretores da UTC é a forma como o depoimento foi registrado. É como se os advogados, pagos por Walmir e Pessoa, estivessem interrogando os clientes.

“QUE, o colaborador inicialmente gostaria de ressaltar que as informações agora reveladas de forma alguma foram escondidas ou guardadas conscientemente com a intenção de não revelar a movimentação financeira realizada”, escrevem os advogados no adendo de Walmir Pinheiro, como se fosse um depoimento tomado or autoridades constituídas.

Ricardo Pessoa, no depoimento dele, aparece complementando:

“QUE (…) o COLABORADOR solicitou a oportunidade de fazer um levantamento nos arquivos da empresa, estando agora em condições de prestar a presente declaração e documentos a respeito de fatos envolvendo a empresa de TACLA DURÁN”.

Não existe documento, apenas planilha, e o tempo que demorou para Pessoa recobrar a memória sobre a existência de Tacla Durán foi de aproximadamente um ano.

Para a defesa de Tacla Durán, o nome dele foi citado para esquentar a investigação, numa época em que os procuradores precisavam apertar o cerco à Odebrecht — Tacla Durán prestou serviços também para a Odebrecht.

Não existe prova de que Durán esteve na UTC, mas haveria um jeito de saber se houve contato entre eles. Bastaria verificar, nas datas indicadas como de entrega de dinheiro, se o advogado esteve na região da UTC. Basta quebrar o sigilo telefônico. A torre das operadoras tem o registro do deslocamento de seus clientes. Mas isso não foi feito, porque, a rigor, não houve inquérito para apurar as operações atribuídas ao advogado.

O auto-interrogatório de Walmir Pinheiro e Ricardo Pessoa não foi homologado pela Justiça, mas tem sido citado em despachos de Sergio Moro para justificar medidas coercitivas contra o advogado. Tacla Durán deve relatar todo esse episódio à CPI da JBS, para mostrar o calcanhar de Aquiles da Lava Jato: na falta de provas para atingir um alvo, os procuradores arrumam um jeito de ajustar versões e simular cenários de crime.

Joaquim de Carvalho
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