10 de nov. de 2017

A lei pode ser o instrumento da exceção


Hoje, Judith Butler foi agredida no Aeroporto de Congonhas, por manifestantes ensandecidas que certamente não têm a menor ideia do que a filósofa escreve ou fala. O pensador que estimulou o protesto - que, segundo relatos, incluiu tanto xingamentos quanto ataques físicos - foi Alexandre Frota.

No começo da semana, foi divulgado que está em andamento o inquérito contra a presidente Dilma Rousseff, acusada de ter assassinado seu cão, Nego, em setembro do ano passado. O cachorro sofria de uma doença incurável, que causava grande sofrimento, e, por orientação médica, a presidente lhe proporcionou a eutanásia. A "denúncia" de maus-tratos foi feita pelo deputado Ricardo Izar, em meio à histeria do impeachment ilegal. Depois ele confessou candidamente que seu objetivo era apenas provocar sensação e "não acreditava nunca que [o caso] iria para a frente". Mas o delegado deu seguimento, sustentado num indício muito incriminador: Nego era cuidado por alguém que trabalhava com Dilma.

São dois episódios muito diversos, mas que me parecem ilustrar de forma complementar o que vivemos no Brasil hoje.

Por um lado, não vigora mais no país nenhuma regra de convivência, nenhuma norma para civilizar as relações entre as pessoas. Uma passageira, uma mulher, uma pessoa está num espaço público - e outras julgam que podem intimidá-la e agredi-la, apenas porque discordam de quem ela é ou do que ela pensa. Não foi uma manifestação, não foi um protesto, caso em que certamente poderíamos questionar a demência da pauta (Butler seria "assassina de crianças", "destruidora da família", "promotora da anarquia sexual"), mas não o direito de se pronunciar. Foi uma violência, prova que estamos nos tornando o país do vale-tudo.

Mas, por outro lado, a lei não foi abolida. Ela continua a vigorar, só que, cada vez mais, apenas para ser torcida conforme as circunstâncias e usada para perseguir os desafetos. Império da lei e Estado de exceção são muitas vezes vistos como antônimos, mas - como o nosso infeliz Brasil bem demonstra - a lei pode ser o instrumento da exceção.

Luís Felipe Miguel
No GGN
Leia Mais ►

Contratos futuros em yuanes desvalorizarão o dólar?


A China está mudando as regras do jogo no mercado de petróleo. A Bolsa de Energia Internacional de Xangai está se preparando para iniciar negociações utilizando contratos futuros petrolíferos, expressos em yuanes, com a possibilidade de troca em ouro.

O surgimento de um novo contrato futuro coloca pela primeira vez em perigo a liderança do dólar nas negociações internacionais do petróleo cru. Recentemente, o jornal japonês Nikkey, citando suas próprias fontes anônimas, informou que as negociações de novos futuros serão iniciadas até o fim deste ano.

Essa notícia agitou a mídia ocidental, o que não é surpreendente. Pela primeira vez, o papel do dólar como meio de pagamento internacional pelo principal produto de matéria-prima está ameaçado. Por enquanto, no mercado são negociados dois contratos padrão petrolíferos – BRENT e WTI. Os dois são expressos em dólares. Contudo, se levarmos em conta que a China virou o principal importador de petróleo, não podemos descartar que o novo contrato futuro, expresso em yuanes, pode virar mais um contrato padrão para os negociantes.

Há muito que a China demonstra seu desejo de ter seu próprio contrato futuro petrolífero. Por exemplo, em maio o vice-chefe da Comissão Reguladora do Mercado de Títulos da China, Fang Xinghai, afirmou que o regulador ativará as preparações para o lançamento de seus próprios contratos futuros, expressos em yuanes. Depois, o chefe da Bolsa de Energia Internacional de Xangai, Jiang Yan, assinalou que a criação do contrato futuro está terminando.

A ordem financeira internacional, com o papel dominante do dólar, foi estabelecida em sua maior parte devido ao negócio firmado entre os EUA e Arábia Saudita.

Em 1971, os Estados Unidos acabaram unilateralmente com a conversibilidade do dólar em ouro, estabelecida antigamente pelo Sistema de Bretton Woods. Este evento decepcionou a Arábia Saudita, que naquela época era o maior exportador de petróleo e, como país oriental, confiava no dólar. Os dólares, recebidos pelo fornecimento do petróleo não poderiam ser trocados por ouro a um preço garantido. Então, o país árabe começou comprando ouro no mercado de Londres com dólares. O volume de transações era tão grande que o dólar se tornou menos confiável.

Então, os EUA inventaram uma saída. Os norte-americanos prometeram abastecer a Arábia Saudita com qualquer quantidade de armas que lhe garantisse a defesa contra outros Estados do Oriente Médio. Em resposta, a Arábia Saudita concordou em vender todo o petróleo extraído apenas por dólares norte-americanos e investir o rendimento dessas vendas em obrigações do Tesouro dos EUA. Já que todos precisam do petróleo, então todos precisam de dólares para o comprar. O sistema de petrodólares criou uma demanda ilimitada pela moeda norte-americana e lhe deu uma posição dominante na economia mundial.

Na situação atual, a China superou os EUA e virou o maior importador do petróleo no mundo. É lógico, que agora a China tencione efetuar compras do "ouro preto" em sua própria moeda. O país ganhará muito se transferir um volume grande de negociações para yuanes.

Primeiro, caso os contratos futuros sejam expressos em yuanes, o rendimento recebido da venda do petróleo regressará à economia chinesa. As economias dos países exportadores de petróleo não estão tão desenvolvidas para "digerir" eficazmente tanta quantidade de liquidez. A experiência dos EUA demonstra que os petrodólares se acumulavam nos bancos norte-americanos e em títulos de empresas dos EUA, o que por vários anos assegurou para os EUA um nível estável da atividade econômica e de investimentos. Parece que a China resolveu aproveitar a experiência norte-americana e, assim, apoiar o crescimento desacelerado da sua própria economia.

Segundo, a transferência do comércio para yuanes vai formar na China o défice da balança de pagamentos, já que, além do país asiático, aparecerão outros compradores de petróleo que irão acumular yuanes para efetuar pagamentos. Quer dizer, a China deverá comprar mais dos outros atores do mercado petrolífero do que vender. Até agora, o país tem permanecido um exportador líquido. Como a China vai se adaptar ao novo papel é, por enquanto, uma questão aberta.

Terceiro, para assegurar a confiança de investidores, negociantes e outros agentes econômicos nas novas negociações expressas em yuanes, a moeda chinesa deverá ser livremente convertível, ou seja, uma moeda que não tenha limitações à efetuação de quaisquer operações monetárias, incluindo operações relacionadas com o fluxo de capitais. Contudo, é preciso levar em conta que ultimamente o país asiático vem reforçando seu controle sobre o fluxo de capitais, já que no mercado de capitais doméstico sobressaturado há poucas oportunidades de investimento. Assim, as empresas buscam retirar o capital da China para o estrangeiro.

Mesmo assim, as vantagens superam as desvantagens e, apesar dos riscos, a China vai prosseguir rumo à internacionalização do yuan, afirmou em entrevista à Sputnik China o economista Cheng Fengying.

"O lançamento de negociações de contratos futuros petrolíferos expressos em yuanes é um passo para internacionalização da moeda chinesa. […] Já nos preparamos para os riscos. Por exemplo, foi criado um comitê estatal para questões de estabilidade e desenvolvimento na área financeira. Porém, além de riscos, a internacionalização de yuanes cria grandes possibilidades. […] No momento, o preço do petróleo está baixo, a oferta supera a demanda. A China é o maior consumidor de petróleo. Caso nós percamos a oportunidade de afetar os preços, mais tarde, quando a situação no mercado mudar e a demanda superar a oferta, iremos perder."

Por sua vez, outro especialista em ciências econômicas, Wang Zhimin, aponta para a possibilidade de converter contratos futuros em ouro como uma séria vantagem em relação aos padrões petrolíferos de hoje, BRENT e WTI.

"As negociações em yuanes serão convenientes, já que os yuanes petrolíferos podem ser convertidos em ouro. É bom, […] já que o ouro é um produto sólido. Além disso, levando em consideração a instabilidade da economia mundial, esta propriedade ganha mais atualidade. Vários países já acordaram sobre negociações do petróleo em yuanes. Por exemplo, a China e a Rússia. Com a possibilidade de converter em ouro, aparecerão mais agentes que desejem substituir os dólares por yuanes nas negociações."

É verdade que, desde junho deste ano, a Rússia tem aceitado yuanes como pagamento pelo petróleo por parte da China. Recentemente, também a Venezuela denominou em yuanes preços pelo petróleo para venda ao exterior. Para vários países se torna um benefício evitar o dólar nas negociações para contornar as sanções que os EUA introduziram contra esses países. Vale ressaltar que esses países, que são a Rússia, Irã e Venezuela, são dos principais fornecedores do petróleo. Só que por razões evidentes a Arábia Saudita continua insistindo em usar o dólar nas negociações. Porém, no fim das contas, o país árabe deverá concordar com a nova realidade, acredita Wang Zhimin.

"A revolução do xisto nos EUA fará com que o país comece importando cada vez menos petróleo. As importações chinesas não vão diminuir, mas sim aumentar. […] Por isso, a Arábia Saudita não vai querer perder o mercado chinês", explica ele.

Além do mais, a Rússia pode ocupar esse nicho. Neste ano, a Rússia superou a Arábia Saudita vendendo à China 52,5 milhões de toneladas do petróleo, a Arábia Saudita forneceu 51 milhões de toneladas. Assim, parece que a Rússia pode ajudar a China a substituir o dólar nas negociações internacionais. Os sauditas o entendem. Ao menos, o país árabe já anunciou sobre preparações para emissão de obrigações expressas em yuanes.

No Sputnik
Leia Mais ►

Desculpa, Judith Butler! Nosso país virou um lugar de gente tapada

A toscolândia em que o ódio ao PT transformou o Brasil nos faz sentir vergonha alheia a todo momento; pagar mico diante do mundo virou rotina

Micão: senhora vestida de princesa protesta contra Judith Butler.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
É indescritível a vergonha alheia que sinto diante da filósofa norte-americana Judith Butler. Uma das principais pensadoras do feminismo contemporâneo e da teoria queer, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, ela foi convidada para dar uma palestra no Sesc Pompeia, em São Paulo, no seminário Os fins da democracia. Foi o suficiente para reaças que jamais leram um livro dela e não têm a mais remota ideia sobre o que Judith pensa organizarem um abaixo-assinado para proibir sua fala. Até agora, 367 mil tapados assinaram.

Judith, pelo amor de Deus, não somos todos assim. Vem aqui tomar um café, querida. Eu adoro bruxas


A toscolândia em que o ódio ao PT transformou o Brasil está a todo momento nos fazendo pagar mico diante do mundo. Gente que nunca foi a uma exposição de arte querendo censurar exposições; gente que nunca assistiu a uma palestra querendo proibir palestras. Curiosamente, os que desejavam impedir Judith Butler de falar são os mesmos que vivem exigindo o direito de lançar impropérios contra gays, mulheres e negros em nome da “liberdade de expressão”.

Me encolhi de vergonha alheia ao ver o bando de obtusos que foram para a frente do Sesc Pompeia, crucifixos em punho, bradar coisas como “viva as princesas do Brasil” e “menos bruxa, mais príncipes e mais princesas”. Que micão! Judith, pelo amor da deusa, não somos todos assim. Vem aqui tomar um café, querida. Eu adoro bruxas.

Claro que não podia faltar o atual guru intelectual da reaçada, o ex-ator Alexandre Frota. Imagina a filósofa voltando para casa e dizendo: “Gente, no Brasil fizeram uma manifestação contra mim liderada por um brucutu que nunca leu um livro da vida. Eles queimaram um boneco representando uma bruxa, ou seja, eu, e outro do milionário George Soros, aos gritos de ‘queimem a bruxa!'”. Ai, Judith, perdoa! Juro que nós, de esquerda, não temos nada a ver com isso.


Eu vi, Judith, o quanto você foi compreensiva com a burrice dessa gente. “A maioria das pessoas que assinam esse tipo de petição formam sua própria ideia do que seja ‘gênero’ e ‘Butler’ a partir de comentários feitos nas redes sociais e em sites conservadores. Nesses espaços, a teoria de gênero é descrita como uma caricatura, o que causa medo e ansiedade”, você disse, em entrevista ao Estadão. “As mudanças sociais conquistadas pelo feminismo, pelas políticas LGBTQ e por mobilizações contra o racismo geraram ansiedade naqueles que baseiam suas ideias de gênero, desejo ou parentesco em uma noção fixada a respeito do que é natural ou determinado por Deus. Se gênero é uma forma de falar sobre os vários significados que o corpo pode assumir, a consequência é que a intimidade das pessoas conservadoras, os arranjos sociais nos quais elas confiam, suas ideias de família e de nação estão ameaçadas.”

Ufa! Me sinto aliviada de perceber que você entendeu tudo, que vivemos hoje em um lugar de gente manipulada por notícias falsas e sites de direita patrocinados sabe-se lá por quem. Vou te contar, até pouco tempo atrás não era assim. Inclusive elegemos uma mulher presidenta da República, sabia? Essas pessoas que você viu hoje em frente ao Sesc Pompeia começaram a sair do esgoto recentemente, incentivadas por uma mídia que apostou no obscurantismo como tática para arrancar o PT do poder. E agora finge que não tem nada a ver com isso.

Nos últimos anos, querida Judith, a imprensa brasileira, em vez de cumprir seu papel social de disseminar conhecimento, resolveu investir na ignorância. Colocou para assinar artigos em suas páginas gente desprezível, sem estofo intelectual algum, com o objetivo de influenciar pessoas com pouco conhecimento e dificuldade cognitiva como as que estiveram no Sesc Pompeia. Um dos líderes do movimento contra você, por exemplo, um jovem com cabeça de velho do século passado, foi colunista de um jornal que se autointitula “o maior” do país.

A imprensa, em vez de cumprir seu papel social de disseminar conhecimento, resolveu investir na ignorância como tática para derrubar o PT

Nossa mídia, controlada por meia dúzia de famílias, contratou direitistas do mais baixo nível intelectual possível para escrever barbaridades e assim conseguir formar uma massa de manobra antiesquerdista. Conseguiu. Mas agora essa turba ignara se volta também contra os jornais e TVs que os criaram. Cría cuervos y te sacarán los ojos, sei que você conhece essa frase, Judith.

A única coisa que posso fazer neste momento de master vergonha alheia diante de tão ilustre convidada estrangeira é pedir desculpas. Da próxima vez, espero que você encontre uma nação diferente. Costumávamos ser bons anfitriões, Judith. O ódio ao PT nos transformou nisso que você viu: um país de ignorantes que só falam em censura, em religião e em intervenção militar. Viramos uma nação de tapados.

Cynara Menezes




Leia Mais ►

A defesa do mercado de ódio no caso Waack


O caso William Waack tem desdobramentos interessantes e que estão sendo pouco percebidos.

Nos últimos anos, abriu-se um mercado de trabalho novo, no segmento do chamado jornalismo de esgoto, do ódio vociferante que acabou contribuindo para a desmoralização da grande mídia.  Até então, era restrito a jornais menores.

Muitos jornalistas veteranos ou desconhecidos mergulharam nessas ondas turvas, de cronistas musicais diáfanos a pessoas com passado jornalístico respeitável, mas que tinham se colocado fora do mercado.

O esgoto saiu dos guetos e entrou em algumas publicações consideradas de primeira linha, disseminando-se, pelo efeito demonstração, por veículos menores.

A grande onda foi estimulada por dois dos veículos mais influentes, Veja e Globo, aqueles que – com exceção da Folha no pós-redemocratização – sempre comandaram as mudanças de vento, no mercado de opinião. Os demais tendem a segui-los.

Agora, a onda está refluindo no jornalismo de 1ª classe.

Desde a saída de Eurípides Alcântara da Veja, a revista vem tentando lentamente limpar o seu nome, assumindo um conservadorismo de melhor nível e mandando embora colunistas pirados e youtubers.

A próxima reforma das Organizações Globo também deixa claro o desembarque desse modelo de jornalismo, a começar das mudanças anunciadas na revista Época – que pretendeu seguir os caminhos da Veja.

Há vários motivos para esse desembarque.

Há uma questão de qualidade do leitor. O tropel dos ignaros acabou expulsando dos veículos os leitores de melhor formação. Agora que as redes sociais invadem todos os poros da sociedade, a única maneira da imprensa tradicional se diferenciar é tentando recuperar um mínimo de seletividade do público leitor. Afinal, se seu público tem preconceito a pobre, mas também às bestas vociferantes.

O segundo fator é que o jornalismo de guerra exigiu um protagonismo maior dos soldados da linha de frente. Ganharam visibilidade nos veículos, se alavancaram nas redes sociais, amparados pelas hordas guerreiras da direita. Some-se o fator Lava Jato que criou uma espécie de exército autônomo, com jornalistas mais fieis às fontes que ao próprio veículo.

De certo modo, William Waack representava esse estilo de jornalismo enraivecido, que projetava a personalidade para além dos parâmetros definidos pelo próprio veículo.

Embora tivesse reputação jornalística consolidada, era o representante máximo de um estilo que consagrou vários atores medíocres que tinham em comum com ele apenas a ira sagrada.

O terceiro fator é o fenômeno Bolsonaro. Ele já demonstrou, à exaustão, que ganhou vida propria nas redes. Não depende mais da mídia para consolidação de imagem. Ele é a prova viva – e ameaçadora - de que a mídia perdeu o controle absoluto sobre a criação de imagens públicas.

As mudanças na Veja e na Globo indicam a curto prazo um esvaziamento desse estilo na primeira divisão da velha mídia.

A explosão de solidariedade a Waack, por parte de representantes desse estilo, em parte é por solidariedade ideológica. Mais ainda, por pânico com o fim de um modelo que, por mais de uma década, trouxe à tona todos os dejetos acumulados pela mídia.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Guru de Bolsonaro: mulher ganha menos porque “há menos mulheres geniais”


O economista Adolfo Sacshida, atual guru econômico de Jair Bolsonaro, gravou, em 2013, um vídeo onde reconhece que as mulheres têm salários menores que os homens mas nega que haja uma discriminação no mercado de trabalho.

Claro, ele passa pelas explicações convencionais (e discriminatórias) de que a mulher não pode ter o mesmo “plus” de produtividade – que em princípio seria igual, mas, no caso delas, limitadas pelas tarefas domésticas – ou  porque não querem trabalhar mais horas pois  vão cuidar da casa e dos filhos, ou porque largam o trabalho, na idade mais produtiva, para engravidar, ter filho e cuidar dele por um tempo, ou porque têm maior custo com licença-maternidade, ou por “levar o filho ao médico”.

Mas tem uma que eu nunca tinha ouvido, nem dos maiores energúmenos, que está aos 4’35” do vídeo. Diz Sachsida que a inteligencia da mulher, em média, é igual à do homem. Muito bem, “Seu” Sachsida, parecia que o senhor iria dizer alguma coisa útil afinal…

Mas veja o que ele diz: como existem muitos homens ”otários” e muito menos mulheres imbecis, para que a média seja igual, há muito mais homens geniais do que mulheres geniais, que não são tantas quanto eles! Uau!

A conclusão, claro é que “quanto mais proteção vocês derem às mulheres, maior vai ser o desemprego entre as mulheres”.

Eu não sei em que ponta colocar o guru de Bolsonaro, mas como ele mesmo diz que há muitos homens imbecis, suponho que esteja com a maioria.

O único consolo que se tem diante de tanta asneira é o comentário de um economista que conhece o Dr. Sachsida e que me chegou por um amigo: “a coisa boa nisso tudo é que, se o Saschida está no meio, não tem risco de dar certo”.

Assista e veja se pode dar certo.



Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

70 milhões de brasileiros vivem em deserto de notícias

Jornais e sites noticiosos foram mapeados em 1.125 cidades, o que significa que ficaram de fora cerca de 4.500 municípios, representando mais de 70 milhões de habitantes. São os chamados “desertos de notícias” no segmento impresso e digital, e representam até quase 40% da população nacional. Crédito: Atlas da Notícia/Projor
O Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo em parceria com o Volt Data Lab publica nesta edição especial do Observatório da Imprensa o “Atlas da Notícia“, levantamento inédito com base em jornalismo de dados sobre a presença ou ausência da imprensa em todo o território nacional.

Foram identificados, nessa primeira etapa do projeto, 5.354 veículos — entre jornais impressos e sites —, em 1.125 cidades de 27 unidades federativas. Um universo que compreende aproximadamente 130 milhões de pessoas, mais de 60% da população brasileira.

Para se entender o conceito de “desertos de notícias”, é preciso, entretanto, olhar para os espaços não contemplados na pesquisa: 4.500 municípios representando 70 milhões de habitantes não têm registros de meios noticiosos impressos ou digitais.

“O Atlas da Notícia é, antes de mais nada, uma ferramenta para conseguirmos enxergar quais as localidades mais carentes de jornalismo no Brasil”, explica Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, agência de jornalismo de dados que conduziu o levantamento e a pesquisa. “Dessa forma, ao criar conhecimento sobre esses desertos informativos, o Atlas servirá como ponto de partida para entendermos melhor a configuração do jornalismo no país.”

Esta legião de brasileiros — quase 35% da população nacional — não dispõe de notícias sobre sua própria comunidade, vivendo nos chamados “desertos de notícias”, onde não se cobre, entre outras coisas, nem a Prefeitura ou a Câmara Municipal. Não há, nesses territórios, a produção jornalística, o que compromete a capacidade decisória dos cidadãos.

O Atlas é um ponto de partida necessário para possíveis pesquisas imersivas nesses vazios e também nas comunidades em que o jornalismo está presente. Em função do caráter quantitativo do nosso primeiro levantamento, ainda não se pode avaliar a integridade — qualitativa — da prática profissional jornalística.

Num momento de mudanças de paradigmas e de emergência da ideia de pós-verdade, é necessário se voltar a perguntas básicas, como: para que servem as notícias locais ou regionais? Como elas se relacionam com uma noção mais ampla de cidadania?

O projeto se inspira no America’s Growing Deserts of News da revista Columbia Journalism Review. Os números apurados pelo Volt Data Lab se baseiam em três fontes de informações: Secretaria de Comunicação do Governo Federal, Associação Nacional de Jornais (ANJ), além de uma campanha de crowdsourcing.

Metodologia

Nesta primeira etapa, foram considerados apenas os jornais e sites de notícia e buscou-se, além de números absolutos, um recorte proporcional considerando a presença de veículos a cada cem mil habitantes.

Quando consideramos a população das capitais, Fortaleza foi a pior: com grande população (2,42 milhões) a metrópole registrou apenas 0,87 veículo por 100 mil habitantes. Salvador (2,65 milhões) ficou logo atrás, com 1,1 veículo. (Crédito: Atlas da Notícia/Projor)

O Volt Data Lab observa que não se trata, nesse caso, propriamente de alcance populacional mas da diversidade de veículos nos territórios pesquisados. Outras questões como circulação, abrangência geográfica efetiva e taxa de consumo deverão ser contempladas em outras etapas do projeto.

Os dados dos veículos impressos e online também foram cruzados com o IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, considerando três indicadores socioeconômicos: população, escolaridade e renda. Mas, por dificuldades cadastrais, 47 cidades ficaram de fora dessa relação com o IDHM. As relações de 100 mil habitantes por veículo foram apuradas apenas em cidades com mais de cem mil habitantes para evitar distorções metodológicas.


Os números

Eles indicam o predomínio dos meios impressos (63% contra 37 % dos  digitais). Como já se poderia prever, em termos absolutos, São Paulo é o  estado com maior número de veículos noticiosos (1.641), seguido do Rio  Grande do Sul (600) e Santa Catarina (547).

Mas se levarmos em conta a concentração populacional, Santa Catarina,  Distrito Federal e Rio Grande do Sul são as unidades da federação com  maior concentração de veículos a cada cem mil habitantes, média de 8,8.  Em compensação, todos os estados do nordeste possuem, em média, um  veículo mapeado a cada 100 mil habitantes.

De um ponto de vista da proporcionalidade, Santa Catarina é a unidade  da federação com maior número de jornais impressos do Brasil, seguida  do Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

Já nos veículos online, a liderança proporcional é do Distrito  Federal, seguido de Rondônia e Santa Catarina. O Maranhão é o estado com  menor número de veículos online, considerando a relação por cem mil  habitantes.

No recorte por regiões do Brasil, há, novamente, uma diferença entre  os números absolutos e os proporcionais considerando a relação para cada  cem mil habitantes e a presença de veículos impressos e digitais. O  sudeste ocupa o primeiro lugar nos números absolutos, com 2.643 veículos  impressos e online, mas se considerarmos a proporcionalidade na relação  a cada cem mil habitantes ocupa o terceiro lugar.

A região Sul é a região com o maior número de jornais impressos e  online mapeados (5,49) para cada 100 mil habitantes. (Crédito: Atlas da  Notícia/Projor)

A liderança, nesse caso, é da região sul com média de 5,49 veículos  para cada cem mil habitantes, seguida do centro-oeste com 4,5 veículos,  norte com 1,31 veículos. A média mais baixa está no nordeste com 0,72  veículos. Os números do impresso acompanham a tendência do ranking  geral. Mas se consideramos, os veículos online a liderança passa a ser  da região centro-oeste, seguida pelo sul, sudeste, norte e nordeste.

A média é de cerca de 1,11 veículo online mapeado por região para cada 100 mil habitantes. (Crédito: Atlas da Notícia/Projor)

As regiões metropolitanas também foram ranqueadas a partir do  critério da proporcionalidade de presença de veículos impressos e  digitais a cada cem mil habitantes. A liderança, nesse caso, é do  Distrito Federal, seguida de Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Rio de  Janeiro e Belo Horizonte. Das capitais de outras regiões do país, Belém  aparece na sétima posição, seguida de Salvador, Fortaleza e Recife.

De forma análoga à distribuição de jornais de suas respectivas  regiões, as regiões metropolitanas de Recife, Fortaleza, Salvador e  Belém têm concentrações mais baixas de veículos mapeados. (Crédito:  Atlas da Notícia/Projor)

Das cidades do interior com mais veículos mapeados digitais e  impressos são Campinas e Santos, empatadas em 12º lugar, com 30 veículos  mapeados, seguida por Ribeirão Preto, em 19º lugar, com 22 veículos.

30 cidades com mais veículos de notícia (impresso e online), em 2017,  e comparativo por tipo de mídia e taxa a cada 100 mil habitantes.  (Fonte e crédito: Atlas da Notícia/Projor)

Ao considerarmos apenas os veículos impressos Porto Alegre assume o  1º lugar no país, seguida do Distrito Federal, Curitiba, São Paulo, Belo  Horizonte e Rio de Janeiro.

Crédito: Atlas da Notícia/Projor

Quando se trata de veículos online, porém, o Distrito Federal ocupa a  primeira posição, São Paulo a segunda e Porto Alegre a terceira.

Crédito: Atlas da Notícia/Projor.

O diagnóstico da situação atual do desertos de notícias no Brasil  poderá ser melhor compreendido a partir de parcerias e análises de  profissionais e pesquisadores de todo o país. O Atlas marca  o início de um processo de conhecimento não só das boas práticas de  jornalismo, como da falta que elas podem fazer para a construção de um  país mais cidadão e justo.

Pedro Varoni é jornalista e editor do Observatório da Imprensa | Vitor Haddad do Prado é jornalista e editor assistente.
Leia Mais ►

Balneário Camboriú deve ganhar ícone que modifica paisagem do município e incrementa o turismo


Um novo investimento que deve impactar significativamente o turismo de Balneário Camboriú e do Estado foi aprovado pelo Conselho da Cidade, na noite de quinta-feira (09), no plenarinho da Câmara de Vereadores. A proposta prevê a instalação de uma roda gigante de 65 metros de altura e de um parque que contará com trilhas e mirantes.


A Roda Gigante, chamada de Balneário Camboriú Big Wheel, será a maior da América do Sul, e contará com 32 cabines climatizadas, que proporcionarão vistas panorâmicas da cidade e da orla, num passeio silencioso, limpo e seguro. A atração tem como local, uma área privada de 37.500 m2, no costão da Barra Norte, e contará com uma estrutura que se conecta à passarela do costão, além de áreas de convivência, banheiros, segurança, iluminação e Wi-fi.

Após a aprovação pelo Conselho da Cidade como projeto especial, a proposta segue agora para o crivo dos vereadores da cidade e depois deve ser submetida aos técnicos da Secretaria de Planejamento. Ao todo, serão injetados no empreendimento um total de R$ 40 milhões, recurso privado. A previsão dos investidores é de que as intervenções para a instalação da atração comece já em maio do ano que vem e que a inauguração seja em março de 2019. O empreendimento deve gerar no mínimo, 40 empregos diretos e 40 vagas indiretas, mas o grande potencial está no incremento turístico, inclusive do Estado.


Conforme o empresário responsável pelo projeto, Cícero Fiedler, da Big Wheel S.A., o parque prevê a construção de edificações de baixo impacto ambiental, utilizando menos de 1% da área total do terreno. O acesso ao local será público e deverá ser cobrado só o que for consumido. Similar a de Londres, a roda gigante poderá operar em horário diferenciado, tornando uma opção para lazer noturno. O passeio deverá ficar entre R$ 20 e R$ 30. Já os acessos aos mirantes e trilhas ainda não tem definição se terão custos ao visitante ou não. 

Apoio do poder público

O projeto tem o apoio da administração municipal uma vez que prevê um forte impacto no turismo e na urbanidade do município catarinense. A expectativa é de que o parque contribua para projetar a imagem de Balneário Camboriú em nível internacional, a exemplo de outros grandes destinos turísticos como Londres, Las Vegas, Chicago e Hong Kong. “Será um marco para Balneário Camboriú, um novo cartão postal, um novo ícone do turismo como ocorreu em outros grandes destinos no mundo. Tenho certeza de que será assim na nossa cidade também, além de contribuir para minimizar riscos de violência e depredação daquela área” avalia o prefeito, Fabrício Oliveira. Ele destaca que o empreendimento além de despertar o retorno de muitos turistas à cidade deve complementar os equipamentos turísticos atuais e se tornar uma nova atração para Santa Catarina.


A análise

Só passam pela avaliação do Conselho da Cidade, os projetos considerados especiais, ou seja, que não tem uma lei clara que o rege ou que não estão previstos pelo plano diretor.
Leia Mais ►

A origem e o significado da expressão “coisa de preto”

Afonso Henriques de Lima Barreto
A expressão “coisa de preto”, usada por Willam Waack em sua debacle, é um clássico do anedotário racista nacional.

Em sua biografia do gênio Lima Barreto, “Triste visionário”, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz explica a origem do dito popular.

Em Triste fim [de Policarpo Quaresma], Lima anota a paisagem do porto do Rio, onde repara também nas cores. “Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes e operários de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer” (Barreto, 2011: 343). Cores aqui aparecem junto com a ideia de “inferioridade” e de “obediência” – duas heranças impiedosas de tempos não tão distantes da escravidão [o livro é de 1915]. Novamente por meio dos detalhes podem ser traduzidas as denúncias mais constantes desse escritor, para quem a literatura tinha um papel a cumprir diante da realidade do país. Devia ser militante, como temos dito, e a favor dos mais humildes.

A associação entre cor e trabalho é ainda sublinhada nos relatos de Lima, quando descreve, por exemplo: “Uma madrugada fui passear uma hora antes de sair o sol para admirar, à minha vontade, o solene silêncio da paisagem, mas, bem depressa ouvi elevar-se nos ares o hino que cantam em coro os negros no 145 artigo | lilia moritz schwarcz momento de começar o trabalho” (Barreto, 1919). Relacionar negritude e trabalho vem dos tempos da escravidão, quando Antonil (2011), em 1711, em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, mostrava como os negros eram “as mãos e os pés do senhor de engenho”. O dito vingou e vinculou de forma indelével os africanos ao trabalho, assim como reproduziu e ampliou o preconceito ao trabalho manual, considerado “coisa de preto”. No entanto, o relato traz também elementos da sociabilidade negra, feita nas brechas, com os cantos que ajudavam a fazer o tempo passar, ao mesmo tempo que construíam novas formas de solidariedades e irmanavam.

O momento mais forte da associação da negritude com a pobreza e a humilhação pode ser encontrada em Diário do hospício e no romance incompleto Cemitério dos vivos. Duro consigo mesmo, Lima denuncia seu próprio preconceito: “Não deixava de influir também nesse grande desprezo que tinha pelos homens do Brasil, uma boa dose de preconceito de raça. Aos meus olhos, todos eles eram mais ou menos negros e eu me supunha superior a todos”.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Xadrez da Maçonaria no Brasil - uma contribuição — 4


Ao iniciarmos esta quarta parte, deixo aqui, para os que não tiveram a oportunidade de ler as partes 1, 2 e 3 deste artigo, ou mesmo o “Xadrez da Maçonaria no Brasil”, de Luís Nassif, a sugestão de que o façam, de preferência antes dessa.


Hoje iremos detalhar como a Maçonaria atua politicamente a nível estadual e municipal.

Primeiro, vamos mostrar como que “entra governo, sai governo”, seja de que partido for, a Maçonaria sempre estará no poder, diretamente, através do integrante de uma Loja (por sinal, o modo preferido pela “Ordem”), ou através de um amigo de estrita confiança, indicado por um membro de alta patente, que empresta a esse amigo todo o seu prestígio.

E o exemplo que vamos passar vem do Estado do Mato Grosso do Sul. Um Estado bastante interessante, do ponto de vista “maçônico”, visto que o mesmo foi criado em 1977 atendendo interesses da Maçonaria. Nada muito diferente do que aconteceu em 1988, quando criaram o Estado do Tocantins, e do que vai acontecer com o Estado do Pará.

Então, vamos ver o que temos sobre os três últimos governadores deste Estado.

Pra começar, a foto do atual governador, Sr. Reinaldo Azambuja, do PSDB, o mesmo que recebeu Michel Temer neste fim de semana para assinatura de um decreto atendendo interesses da bancada ruralista com o firme propósito de livrá-lo da 2ª denúncia da PGR.

Depois, temos do ex-governador, o Sr. André Puccinelli, do PMDB, que precedeu ao Sr. Reinaldo Azambuja, do PSDB, uma foto semelhante a esta, anexada a uma matéria feita por um blog maçônico, e um vídeo onde o Sr. André Puccinelli, alvo da Operação Lama Asfáltica da PF, na qual seu aliado político, o ex-deputado federal Edson Giroto (PR), foi preso. Neste vídeo, Puccinelli aparece em “reunião” com funcionários públicos, passando “orientações administrativas”. Vejam vocês! 



Temos também uma foto do ex-governador, Sr. Zeca, do PT, que precedeu ao Sr. Puccinelli, do PMDB, tirada “na solenidade onde o querido amigo Ovalto foi agraciado com Grau 33° da Maçonaria”. Lembrando que o grau 33 é o mais alto posto do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Portanto, se o Sr. Zeca do PT não for maçom, como são os Srs. André Puccinelli e Reinaldo Azambuja, ele, o Sr. Zeca, se enquadra, perfeitamente, no segundo caso, qual seja, a do “amigo de um maçom de alta patente, que a ele empresta todo o seu venerável prestígio”.

Vale destacar que são políticos de três partidos diferentes: um de esquerda (PT), um de direita (PSDB) e um de não sei o que (PMDB).

Por último, uma matéria com Wesley, irmão sem aspas do Joesley da JBS, acusando estes mesmos três governadores de “participação num esquema” em troca de redução de ICMS.

Passemos para o Distrito Federal. O que temos lá. Primeiro a foto do ex-governador José Roberto Arruda (aquele do mensalão do DEM), junto ao senador Mozarildo Cavalcanti (PTB), ambos incluídos pelo GOB na lista dos 110 maçons ilustres deste Grande Oriente do Brasil.

Trata-se de matéria da revista Época, intitulada “Arruda e a crise na Maçonaria”.

A matéria aponta “suspeitas” sobre a Fundação Gonçalves Lêdo, vinculada à maçonaria e que fechou convênios, sem licitação, de quase R$ 30 milhões com o Governo do Distrito Federal.

Interessante observar como essa matéria destaca o fato de um membro da maçonaria estar batendo de frente com o Arruda como se a instituição quisesse “passar a limpo” o ocorrido.

Temos também um discurso feito da tribuna do Senado em 2011, pelo mesmo senador Mozarildo, que chegou a ser candidato à presidência do Grande Oriente do Brasil em 2013, prestando homenagem aos 40 anos de fundação do Grande Oriente do Distrito Federal.

Nesse discurso são citados como maçons vários políticos e membros do Judiciário, entre eles o ex-vice-governador do DF na gestão Agnelo Queiroz (PT), Sr. Nelson Tadeu Filipelli (PMDB).

Vale lembrar que os dois, Tadeu Filipelli e Agnelo Queiroz, juntos com José Roberto Arruda, chegaram a ser presos pela Polícia Federal na Operação Panathenaico, acusados de desvio de quase um bilhão de reais das obras do Estádio Mané Garrincha, um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro. Ironicamente, um Mané que nem sepultura decente recebeu.

Dizia o agora ex-senador Mozarildo: "... dentre elas o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Antônio Cezar Peluso; o Vice-Governador do Distrito Federal, que é maçom, Nelson Tadeu Filippelli; o Vice-Presidente do Superior Tribunal de Justiça, também maçom, Ministro Félix Fischer; o Ministro do Superior Tribunal de Justiça, também maçom, José de Jesus Filho; o Desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, também maçom, Lécio Resende da Silva; este Senador da República ..."

E quem é o Sr. Tadeu Filippelli? Bom, além de ex-vice-governador do DF, ele é presidente regional do PMDB do Distrito Federal, e era, até ser preso pela PF (depois foi solto), assessor especial da Presidência da República, despachando no 3º andar do Palácio do Planalto junto ao presidente Michel Temer.

Aí estão mais três nomes e mais uma vez a mesma situação: dois deles (o Arruda e o Filipelli), flagrados sem ter como negar sua pertença aos quadros maçônicos, e um terceiro (o Agnelo), que, se não é maçom, tem, ao menos, um amigo maçom (e de alta patente, claro). E, mais uma vez, tal como no caso do Mato Grosso do Sul, os três são de três partidos diferentes: um de esquerda (PT), um de direita (DEM) e um de não sei o que (PMDB).

Por falar nisso, temos um outro assessor especial de Michel Temer que também despachava no 3º andar do Palácio do Planalto. Ele é conhecido como Sandro Mabel, um dos homens mais ricos de Goiás. Mas o nome dele mesmo é Sandro Antônio Scodro, ex-deputado federal pelo PMDB, autor do PL 4330/2004 que regulamentou a terceirização.

Depois da delação do Joesley, ele deixou a função de assessor presidencial e nem precisou pedir demissão, pois estava "trabalhando" de graça no Palácio do Planalto. No link, você poderá ver a foto do Sr. Sandro Mabel no nº 235 da lista de “obreiros”.

Ainda sobre os assessores palacianos de Michel Temer, vale destacar o Sr. Rocha Loures do PMDB. Mas vamos deixar pra falar sobre o “Zé Alencarzinho do Paraná” quando formos detalhar a relação do ex-presidente Lula com a Maçonaria. Por hora, fica só o registro. OK?

Um dos Estados onde a Maçonaria se mostra politicamente bastante atuante é o Estado de São Paulo. Todo Grande Oriente Estadual tem dentro da sua estrutura um grupo de políticos maçons que forma a sua Assessoria Parlamentar. O interessante no caso do GOSP é que o próprio vice-governador do Estado, Sr. Márcio Luiz França Gomes (PSB) faz parte dessa assessoria. Além dele, estão lá, o deputado federal Baleia Rossi (PMDB), líder do PMDB na Câmara, filho de Wagner Rossi, ex-ministro da agricultura de Lula e Dilma; o ex-prefeito de Ribeirão Preto, Welson Gasparini (PSDB) e o dep. estadual Itamar Francisco Borges (PMDB).

Muitos maçons afirmam não haver atuação política articulada dentro da Maçonaria. Então, para os incrédulos, temos, no link abaixo, como as três “obediências maçônicas” do Estado de São Paulo trabalharam nas eleições municipais de 2012. Juntaram-se GOSP - Grande Oriente de São Paulo, GLESP – Grandes Lojas de São Paulo e GOP – Grande Oriente Paulista para formar o GEAP – Grupo Estatual de Ação Política da Maçonaria Paulista.

Interessante observar que, além dos diversos partidos tradicionalmente alinhados à direita, o GESP apoiou diversos candidatos do Partido dos Trabalhadores, dois quais destacamos os casos:

- o de São Paulo (capital), onde dois candidatos a vereador pelo PT, o “irmão” Luiz Carlos Corrêa Mendonça, vulgo “Marronzinho do Trânsito” e o Sr. Carlos Augusto Sousa Silva, receberam apoio da maçonaria paulista junto com o “irmão” Mario Covas Neto, do PSDB;

- e o de Ribeirão Preto, onde dois candidatos a prefeito foram apoiados pela Maçonaria paulista, um pelo PSDB, o “irmão” Antônio Duarte Nogueira Junior, e outro do PT, o também “irmão” João Agnaldo Donizeti Gandini.

Mas, não é só isso. Muitos outros candidatos do PT foram apoiados pelo GEAP:

- em Araraquara, o “irmão” Nicolau Waldemar Lambort,  candidato a vereador;

- em Campos do Jordão, o “irmão” Pr. Jesus Anacleto Rosa, candidato a vice-prefeito;

- em Jacareí, o “irmão” Adel Charaf Eddine, candidato a vice-prefeito;

- em Lucélia, o “irmão” José Fernando de M. Mendonça, candidato a vice-prefeito;

- em Santo André, o Sr. Waldir Persona, candidato a vereador;

- em São José do Rio Preto, o “irmão” Marcos Antonio Ferreira, candidato a vereador;

- em São Vicente, o “irmão” Dr. Ulisses R. Morozetti Martins, candidato a vereador.

Pior que depois de todo o trabalho feito em 2012, em julho de 2016, já com o país fervilhando em denúncias de corrupção, inclusive contra o governador apoiado pela Maçonaria paulista, o jornal “O Estado de São Paulo” publica um artigo do Grão Mestre Estadual do GOSP, Sr. Benedito Marques Ballouk Filho, onde ele, como “representante de mais de 24 mil maçons presentes em centenas de municípios paulistas”, tem a coragem de escrever o seguinte: “... fazendo parte desse coro que clama por medidas emergenciais de mudança, ... a Maçonaria do Estado de São Paulo busca seu protagonismo e o resgate do seu passado histórico de lutas e conquistas para a construção da nossa Pátria.”

A que “resgate do passado histórico”, o Sr. Ballouk Filho está se referindo? E que “reinserção” é essa? Será que é aquela que ele articulou em 2008 para a criação da Petrobras Biocombustíveis, onde conseguiu abrigar uma penca de “irmãos maçons petroleiros”, já citados aqui no Jornal GGN (vide “Xadrez da Maçonaria no Brasil”, por Luís Nassif)?

Mas, sobre isso, voltaremos com detalhes em outra oportunidade. Por hora, é só.

Luiz Cláudio de Assis Pereira
No GGN
Leia Mais ►

PF prende advogado suspeito de vender influência no STJ e STF

Ele teria cobrado R$ 2 mi para mudar curso de processo. Denúncia é do CNJ e não há indício de participação dos servidores públicos nos fatos.


A PF deflagrou nesta sexta-feira, 10, a Operação Mercador de Fumaça. A ação tem como objetivo cumprir um mandado de prisão preventiva e dois mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal contra um advogado que atua em Brasília.

Em nota, a PF informou que o inquérito policial, instaurado a partir de uma notícia-crime encaminhada pelo CNJ, aponta que o investigado solicitava valores para influenciar no curso de processos pendentes de julgamento no STJ e STF.

Foi apurado que o advogado teria cobrado R$ 2 milhões de um prefeito que havia sido afastado do cargo. Parte dos valores seria usado para o pagamento de assessores de ministros de tribunais superiores, para viabilizar uma decisão favorável que proporcionaria um rápido retorno do prefeito ao cargo.

Não há qualquer indício de participação de servidores públicos nos fatos investigados.

O investigado será indiciado pelo crime de exploração de prestígio, previsto no art. 357, parágrafo único, do CP, que prevê pena de reclusão de um a cinco anos, com a causa de aumento de pena de 1/3.

De acordo com a PF, a prisão preventiva foi solicitada à 10ª vara Federal de Brasília porque o causídico já é réu por prática de crimes semelhantes, acusado de "vender" ministros do TSE.

O nome da operação se dá em razão dos crimes de tráfico de influência e exploração de prestígio serem conhecidos na prática forense como "venda de fumaça".

Leia Mais ►

Sheherazade reaparece e é detonada nas redes por defender William Waack

A jornalista, que ganhou fama ao destilar ódio e defender justiceiros ao vivo, estava no ostracismo e reapareceu para sair em defesa de William Waack, afastado essa semana após ser flagrado proferindo uma declaração racista. Seguidores de Sheherazade, no entanto, se decepcionaram: “Gostava de você, até defender esse escroto. Perdeu um fã”

Sem repercussão já há algum tempo nas redes sociais, a jornalista Raquel Sheherazade (a do “Tá com pena? Leva pra casa”, que defende milícias de justiceiros) reapareceu na madrugada desta sexta-feira (10) para defender o colega William Waack, afastado de suas funções na TV Globo após ser flagrado proferindo uma declaração racista.

Em uma postagem no Facebook, a apresentadora de telejornal do SBT, que já chegou a afirmar que o partido nazista era o “PT da Alemanha”, disse que Waack foi vítima de uma “armadilha de esquerdistas acéfalos”  e ainda lançou a hashtag #semWaacknãodá .

Um dos jornalistas mais brilhantes da TV brasileira foi o último alvo dos fundamentalistas da moral seletiva. Caiu na armadilha pérfida dos coleguinhas invejosos, esquerdistas acéfalos e medíocres de todas as nuances. O “hipocritamente correto” venceu mais uma vez. Feriu de morte o brilhante Paulo Francis, atropelou Boris Casoy, trapaceou Reinaldo Azevedo e agora condenou à execração pública William Waack. E o jornalismo brasileiro fica a poucos passos da total acefalia. #semWaacknãodá“, escreveu.

A publicação, que teve um bom alcance, no entanto, não foi bem recebida, nem mesmo entre seus próprios seguidores. Quase todos os comentários são criticando a apresentadora e suas posições reacionárias. Antigos fãs, inclusive, se desapontaram.

Gostava de você, até defender esse escroto!!!! Perdeu mais um fã do seu trabalho”, comentou um internauta. “COMO ASSIM, MULHER? todos esses anos você se mostrou uma pessoa tão inteligente, não nos mostre o contrário agora”, postou outro.

No Fórum
Leia Mais ►

Quadrilha criminosa tucana se desmancha no ar


O PSDB rumo ao precipício

O PSDB deu mais um passo na direção do precipício. O dedaço de Aécio Neves radicalizou o processo de autofagia do partido. Agora os tucanos correm o risco de enfrentar um cisma a menos de um ano das eleições presidenciais.

Com o filme queimado pela Lava Jato, o senador mineiro foi para o tudo ou nada ao destituir Tasso Jereissati do comando provisório da sigla. A intervenção implodiu as pontes que restavam entre a ala governista e o grupo que defende o rompimento com o Planalto.

Há poucos dias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso avisou que o PSDB precisava se decidir: ou deixava o governo ou assumia de vez o papel de coadjuvante em 2018. Os aecistas parecem ter escolhido a segunda opção. Preferiram continuar agarrados a seus quatro ministérios.

O clima agora é de guerra fratricida. Os aliados de Tasso definem sua degola como um "golpe" articulado com Michel Temer. "Foi um ato covarde, violento e indigno. Aécio mostrou que não tem limites para alcançar seus objetivos espúrios", ataca o senador Ricardo Ferraço. "Já estávamos passando por um desgaste brutal. Agora estamos vendo o PSDB cometer um harakiri", acrescenta.

O senador Cássio Cunha Lima, que também defendia a permanência de Tasso, reforça a metáfora do suicídio partidário. "Se deixarmos que o governo interfira na nossa eleição interna, será o fim do PSDB", afirma.

Depois de perder quatro eleições presidenciais, os tucanos pareciam ter caminho aberto para voltar ao poder em 2018. Em vez de aproveitar o vento a favor, o partido se enroscou na impopularidade de Temer e nos rolos de Aécio com a polícia. Perdeu espaço para Jair Bolsonaro e outros aspirantes ao papel de Anti-Lula.

Hoje os dois presidenciáveis do PSDB não conseguem ultrapassar os 8% das intenções de voto. O encontro com as urnas pode ficar ainda mais ingrato. Basta que a convenção da sigla, no mês que vem, termine com a debandada dos derrotados.

Bernardo Mello Franco
No Esquerda Caviar
Leia Mais ►

Criar um, dois, três, mil comitês em defesa de Lula

O ano de 2017 seguramente se encerra de forma tragicômica, com o espetáculo da Suprema Corte e do Senado fazendo justiça unicamente para Aécio Neves.

Antes valia tudo: ônus da prova cabendo ao acusado, condenação sem provas (por convicção ou pela literatura jurídica), domínio do fato (uma aplicação que nem o autor da teoria aprova) e trânsito em julgado parcial, com execução penal após condenação em segunda instância.

Paralelamente, o país assiste, bestificado, ao festival de compra de votos e de barganhas para livrar o usurpador de ser processado por denúncia apoiada em delações altamente suspeitas, forjadas a fórceps. À base de chantagem, fraude e escutas arquitetadas a quatro mãos, entre a Procuradoria Geral da República e investigados também suspeitos de tramarem nas sombras a montagem de falsas provas e flagrantes.

Tudo pode acontecer. Menos anular delações, por mais ilegais que sejam. Não importa se fraudadas e montadas por meios criminosos, sob a suspeita de colaboração com os delatores, inclusive de membros da própria PGR.

A ladainha é que ilegalidades e práticas condenáveis não contaminam as delações, como se elas se constituíssem em provas em si e de per si, por um sopro divino. Mas o que se constata é a interferência da mão um tanto demoníaca, vingativa e punitiva da PGR.

Enquanto isso, vende-se o país, violentam-se e extinguem-se direitos. Até o da liberdade do próprio trabalho, por meio de um decreto infame, restabelecendo a escravidão.

Nada detém a sanha dos que traíram o juramento constitucional e o pacto social e político que refundou nossa democracia. Por dinheiro e poder, não descartam o uso da força, como alertam seus apaniguados mercenários, pois há que proteger e sustentar o rentismo e a usura, em nome de promessas que jamais serão cumpridas. Como não foram no passado recente, seja na ditadura ou na era FHC.

Não satisfeitos com o golpe, praticam o poder sem limites, delegado por um Congresso Nacional submisso e vendido em praça pública. Não se inibem com a vizinhança de uma Suprema Corte entretida com discursos retóricos sobre a moralidade e os princípios constitucionais que os próprios ministros rasgaram ao darem passagem a um golpe parlamentar agora desmascarado, porque comprado com dinheiro da corrupção. Fato que se tornou público e notório e que todos os integrantes do STF estavam cansados de saber – é vedado a eles o direito de alegar desconhecimento, engano ou engodo.

E a força do poder real se manifesta no mercado, no capital financeiro bancário, nos interesses dos rentistas. Assim como na tecnoburocracia policial e judicial encastelada no Estado, ávida por ascender à faixa do 1% habitada pelos mais ricos, com seus estilos de vida luxuosos e faustosos, almejando ser celebridade. Manifesta-se também na mídia controlada pela família Marinho, uma das mais ricas do país – riqueza conquistada à sombra da ditadura, manchada pelo sangue dos torturados e assassinados, pela corrupção sistêmica e impune da era militar.

Essa tríplice aliança decretou que Lula não pode ser candidato, que nosso povo não pode ser nacionalista, que o Estado não deve e não pode ser de bem-estar social. E que o trabalho e sua renda, como toda renda, devem servir ao deus mercado – leia-se, ao interesse da minoria dominante.

A eleição acontecerá, apesar de desejo explícito das elites de acabarem com ela, seja pelo prolongamento do golpe parlamentar, com um quê de legalidade e moralidade via parlamentarismo e voto distrital.

Mas o medo do povo — afinal, os políticos têm que salvar a própria pele e precisam pensar nas próximas eleições — emperra as reformas “salvadoras” e já derrotou o distritão. E a reação dos trabalhadores das cidades e do campo e das classes médias, duramente atingidos pelas reformas, certamente irá colocar em risco a reeleição de centenas dos hoje servidores fieis do golpista – e que amanhã serão opositores desde sempre.

Tudo estava preparado para a eliminação civil e, se possível, física de Lula, com condenação de dezenas de anos de prisão, sem direito de responder em liberdade, após condenação em segunda instância. Mas eis que o povo não desiste e insiste em eleger Lula presidente pela terceira vez, incapaz de entender os desejos dos senhores da vez. Não por ignorância, mas por desconfiança, conhecimento e experiência passada.

Não podemos nos comportar como se nada tivesse ocorrido. Nem o golpe e nem a perseguição implacável a Lula e ao PT, com sistemática campanha de criminalização do ex-presidente e do nosso partido. Tampouco toda a violência estimulada pela mídia contra nós, desde as manifestações de 2013. Manifestações copiadas e manipuladas pela direita e pelos golpistas com apoio externo – hoje comprovado -, a serviço das privatizações e da entrega do patrimônio nacional. Indignação, revolta e protestos que desapareceram não só da mídia e dos tribunais, mas também das ruas, quando chegou a hora do PSDB, da mídia, dos bancos e da própria Justiça.

Nenhum de nós poderá, de boa-fé, alegar desconhecimento do que significa o golpe em marcha, até pela experiência histórica do caráter violento e da total ausência de qualquer compromisso moral por parte de nossos adversários, da nossa direita e da nossa elite. Eles jamais vacilam e são capazes de toda violência e do uso da força, como vimos várias vezes em nossa história e das quais estamos agora mesmo sendo vítimas.

Daí, a necessidade urgente de dizer em alto e bom som que é preciso se preparar para fazer Lula candidato, garantir seu registro, fazer sua campanha, vencer a eleição e garantir sua posse. Uma vez no governo, garantir o exercício do poder para fazer as mudanças estruturais que o país exige, sob pena de governamos para eles, para gerir sua crise e atender a seus interesses, não os da nação e do povo.

E só há uma forma, uma maneira de garantir a eleição de Lula e o exercício do governo: com poder. E o único que temos para garantir o poder é a consciência política e social de nosso povo, sua organização e mobilização, a luta nas ruas, bairros, fábricas, campos, escritórios, comércios, escolas de todo o país. Começando por organizar um, dois, três…centenas, milhares de comitês em defesa de Lula, com o povo, ao lado do povo e pelo povo trabalhador. Fora disso, vamos lançar nosso país e nosso povo numa aventura e, como sempre acontece, quem pagará o preço da reação dos de cima será o próprio povo trabalhador e seus filhos, incluindo seus legítimos líderes e condutores.

Não temos o direito de errar de novo, como no impeachment, quando não fomos capazes de defender a Constituição e o mandato popular soberano da presidente eleita em 2014.

Que a lição nos ensine que não há alternativa, a não ser a luta e o combate no nosso campo, com nossas armas. E não no campo e com as armas do adversário, ou inimigo – se formos tratá-los como eles nos tratam.

A hora é de definições, de escolher o lado e a luta, criar um, dois, três…muitos comitês, tantos quantos forem necessários para fazer Lula candidato, vencer a eleição, tomar posse e governar com o povo.

ZéDirceu
No Nocaute
Leia Mais ►

Porque é preciso ter a “Lei Cancellier”


É mais que um belíssimo e sensível trabalho dos repórteres   Monica Weinberg e  Thiago Prado, da Veja. É um libelo acusatório contra as monstruosidades que estão sendo feitas, em nome da moral e da Justiça, humilhando pessoas, prendendo-as antes de serem ouvias, violando suas intimidades até físicas. A morte do reitor Luiz Cancellier não foi, até agora, tão bem descrita, nem a brutalidade que o levou ao suicídio tão bem narrada. O dia em que, finalmente, este país tiver uma lei que puna o abuso de autoridade, que ela seja conhecida como Lei Cancellier, como a Maria da Penha deu nome à da violência contra a mulher.

Crônica de um suicídio

 Monica Weinberg e  Thiago Prado, na Veja

Na noite do domingo 1º de outubro, um antigo cliente do Macarronada Italiana, de onde se avista a deslumbrante Baía Norte de Florianópolis, entrou no restaurante à procura de Zé. O garçom José de Andrade, de 63 anos, irrompeu no salão e aproximou-se para registrar em seu bloquinho o pedido de sempre do freguês de quase quatro décadas: talharim à bolonhesa.

— Não, Zé, hoje só vim te ver e tomar um café contigo.

O garçom percebeu um timbre diferente e retrucou:

— Te conheço, Cau. Você está bem?

Dali, Cau foi ao Shopping Beiramar, uma caixa de concreto de sete andares, subiu até o último piso e andou em torno das escadas rolantes mirando lá embaixo, como quem calcula o território. Caminhou duas, três, cinco vezes ao todo. E decidiu ir ao cinema. Assistiu a Feito na América, o mais recente filme de Tom Cruise, e voltou para casa. No dia seguinte, na última manhã de sua vida, Cau deixou seu apartamento, no bairro de Trindade, e pegou um táxi. No meio do caminho, talvez à espera de que o shopping abrisse as portas, às 10 horas, encerrou a corrida na Praça dos Namorados, onde costumava levar o filho quando pequeno. Sentou-se num banco. Uma conhecida o cumprimentou, ele perguntou as horas. Eram 9h20. Quando o shopping abriu, Cau não demorou a chegar. Cruzou com um estudante universitário, a quem saudou protocolarmente, e tomou o elevador até o 7º andar. As câmeras de segurança do shopping captaram o momento em que Cau, sem nenhuma hesitação, se postou na escada rolante, colocou as mãos no corrimão de borracha, em seguida subiu ali com os dois pés — e jogou-se no vão da escada, projetando-se no precipício. Despencou de uma altura de 37 metros, a uma velocidade de 97 quilômetros por hora. Seu corpo bateu no chão como se tivesse 458 quilos. Ele morreu na hora, às 10h38 de 2 de outubro de 2017.

O suicídio de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, aos 59 anos, o Cau, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi o desfecho trágico de dezoito dias dramáticos. Sua vida começou a desabar na manhã de 14 de setembro, quando agentes da Polícia Federal deflagraram a Operação Ouvidos Moucos, com o objetivo de apurar desvios de verbas para cursos de ensino a distância na UFSC. Às 6h30 daquela quinta-feira, o reitor ouviu tocar a campainha de seu apartamento e, enrolado em uma toalha de banho, abriu a porta para três agentes da PF, que subiram sem se fazer anunciar pelo porteiro do edifício. Os agentes traziam dois mandados — um de prisão temporária e o outro de busca e apreensão. Recolheram o tablet e o celular do reitor e conduziram-no à sede da Polícia Federal em Florianópolis, dentro de uma viatura.

Atônito, sem entender o que estava acontecendo, o reitor só se lembrou de chamar um advogado quando estava prestes a começar seu depoimento, às 8h30. Durante as cinco horas em que foi arguido, passou duas sem saber por que estava à beira da prisão. Ainda respondia a perguntas sobre os meandros operacionais do ensino a distância, com o estômago embrulhado pelo jejum matinal e pelo tormento das circunstâncias, quando a delegada Érika Mialik Marena, ex-coordenadora da força-tarefa da Lava-Jato, à frente agora da Ouvidos Moucos, adentrou o local. Apressada para iniciar a coletiva de imprensa que começaria logo mais, Érika finalmente esclareceu ao interrogado o motivo de tudo aquilo: “O senhor não está sendo investigado pelos desvios, mas por obstrução das apurações”. E correu para comandar o microfone na sala ao lado.

Desde cedo, já voava nas redes sociais a notícia de que a Polícia Federal deflagrara uma operação de combate a uma roubalheira milionária na UFSC. A página oficial da PF no Facebook, seguida por 2,6 milhões de pessoas, destacava a Ouvidos Moucos: “Combate de desvio de mais de 80 milhões de reais de recursos para a educação a distância”. Ainda acrescentava duas hashtags para celebrar a ação: “#euconfionapf” e “#issoaquiépf”. A euforia não encontrava eco nos fatos. Na coletiva, a delegada Érika explicou que, na realidade, não havia desvio de 80 milhões de reais. O valor referia-se ao total dos repasses do governo federal ao programa de ensino a distância da UFSC ao longo de uma década, de 2005 e 2015, mas não soube dizer de quanto era, afinal, o montante do desvio. Como a PF não se deu ao trabalho — até hoje — de corrigir a cifra na sua página do Facebook, os 80 milhões colaram na biografia do reitor. Em seu velório, uma aluna socou o caixão e bradou: “Cadê os 80 milhões?”.

Encerrado seu depoimento, o reitor deveria ficar retido na sede da PF, mas, como a carceragem havia sido desativada, foi para a Penitenciária de Florianópolis, um complexo de quatro pavilhões construído em 1930. Acorrentaram seus pés, algemaram suas mãos e, posto nu, ele foi submetido a revista íntima. Um dos agentes ironizou: “Viu, gente, também prendemos professores!”. Cancellier vestiu o uniforme laranja, foi fichado e passou a noite em claro. Seus dois colegas de cela, presos na mesma operação, choravam copiosamente. Cancellier estava mudo, como que em transe, e cada vez mais sobressaltado com os rigores do cárcere. Ficou trinta horas na cela na ala de segurança máxima. Teve sintomas de taquicardia: suava muito e a pressão disparou para 17 por 8. Seu cardiologista foi autorizado a examiná-lo, trazendo os remédios que ele havia deixado em casa (desde dezembro, quando implantou dois stents, Cau tomava oito medicamentos).

Quando deixou a cela, Cancellier era um homem marcado a ferro pela humilhação da prisão. Sua família o recebeu em clima de festa e alívio. Os irmãos, Julio e Acioli, tinham comprado de tudo um pouco no Macarronada Italiana para um jantar regado a vinho branco Canciller, rótulo argentino escolhido pela similaridade com o nome de origem italiana da família. Também ali estava o filho do reitor, Mikhail, de 30 anos, doutor em direito como o pai, com quem ele mantinha um laço inquebrantável. Mas, entre piadas e risos, Cancellier exibia um semblante sem expressão. “Ele estava chocado. Revivia aquelas cenas o tempo todo”, lembra o irmão Julio, jornalista de 51 anos. Mais que tudo, o reitor estava sendo esmagado pelo peso da proibição de pisar na universidade até o final das investigações. A decisão fora tomada junto com o mandado de prisão e, para o reitor, soou como uma punição cruel.

Depois de ter visto seu nome nas manchetes do noticiário na internet e na TV, Cancellier deu boa-noite a todos e recolheu-se. Não era um homem aliviado pelo fim do martírio da prisão nem reconfortado pelo reencontro com a liberdade. Deixou o jantar como um derrotado. Um dos convivas, o desembargador Lédio Rosa de Andrade, de 58 anos, amigo da infância pobre passada em Tubarão, a 130 quilômetros de Florianópolis, percebeu o peso que o reitor carregava. “Ele entendeu que o episódio deixaria uma marca incontornável em sua biografia”, diz Andrade, colega de colégio de Cancellier.

A UFSC era uma extensão da casa do reitor. Seu apartamento, de três cômodos, onde viveu dezenove anos, dois deles casado e o restante na companhia do filho, fica a 230 passos do câmpus. Nos fins de semana, o reitor fazia uma ronda informal, bem à vontade em seu moletom. Na UFSC, ele teve, para os padrões acadêmicos, uma carreira meteórica. Em apenas dezoito anos, concluiu o curso de direito, fez mestrado, fez doutorado em direito administrativo, virou diretor do Centro de Ciências Jurídicas e, numa eleição acirrada, elegeu-se reitor — cargo que ocuparia por dezesseis meses. Na eleição, a paciência para tecer alianças foi arma decisiva em um jogo embaralhado. “Ele não era um orador brilhante, mas era um articulador que conseguia trazer para o mesmo lado gente de todos os espectros ideológicos”, define o amigo Nelson Wedekin, de 73 anos, ex-senador pelo PMDB local.

Desde a juventude, a rotina universitária era a bússola da vida de Cancellier. Em 1977, aos 19 anos, época em que fazia política estudantil com o cabelo desgrenhado e bolsa de couro a tiracolo, ele se encantou com a universidade. “Não quero nunca sair daqui”, confessou ao amigo Osvaldir Ramos, hoje presidente do Conselho Estadual de Educação em Santa Catarina. Acabou forçado a sair, no regime militar, em decorrência de sua militância no Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão, e da chamada novembrada: em 30 de novembro de 1979, o presidente João Figueiredo, o último ditador do ciclo militar, baixou em Florianópolis, bateu boca com estudantes na rua e o episódio terminou em pancadaria e prisões. Cancellier teve de desaparecer da faculdade de direito. Ressurgiu cinco meses depois trabalhando em um jornal e acabou tornando-se assessor de políticos, inclusive de Wedekin, função que o levou a se mudar para Brasília. Só voltou à UFSC em 2000, aos 42 anos, para cumprir uma fulminante trajetória acadêmica — e ser de novo expelido da universidade, agora em plena democracia e na condição de reitor, num banimento que lhe pesou como uma suprema humilhação. No muro da universidade, um anônimo grafitou: “Fora Cancellier”.

“A humilhação é a bomba nuclear das emoções”, afirma a psicóloga alemã Evelin Lindner, uma autoridade mundial num ramo da psicologia que estuda o peso da vexação em sociedade e sua relação com atos de violência — como o terrorismo e o suicídio, que, não por acaso, andam juntos. Se a culpa é uma dor que vem de dentro, a humilhação é como uma dor que vem de fora, imposta pelo olhar alheio. É sentida como uma falência em público. Sai cortando fundo no orgulho, na honra, na dignidade, e tende a ficar marcada como uma cicatriz. Escreve o psiquiatra Neel Burton, professor em Oxford e autor do livro Heaven and Hell: The Psychology of the Emotions (Céu e Inferno: a Psicologia das Emoções): “As pessoas que foram humilhadas carregam a marca da humilhação, são lembradas pela humilhação. Em um sentido muito real, elas se tornam a própria humilhação que sofreram”.

Os estudos científicos sugerem que, quando estão em jogo elementos que constituem a razão de ser de uma pessoa, como princípios, posição ou status, o peso da vergonha pode até desfigurar a identidade pessoal e tornar-se insuportável. “Em alguns casos, ser submetido a uma situação vexaminosa gera condutas irracionais e pode desencadear uma resposta violenta, como o suicídio”, diz o professor Helio Deliberador, do departamento de psicologia social da PUC de São Paulo. O filho mais velho de Bernard Madoff, um dos nomes mais cintilantes de Wall Street, suicidou-se depois da descoberta de que seu pai era, na verdade, um farsante que aplicara golpes bilionários. Jacintha Saldanha, enfermeira em um hospital onde a duquesa Kate esteve internada em 2012, caiu no trote de radialistas australianos que se fizeram passar pela rainha da Inglaterra, facilitou o acesso a dados sobre o estado de saúde da duquesa e foi publicamente achincalhada. Matou-se aos 46 anos. Como escreveu Albert Camus em Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo: “Matar-se, em certo sentido, é confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos”.

Nos dias que se seguiram à sua soltura, Cancellier começou a ser ultrapassado pela vida. “Passou a alternar momentos em que achava que ficaria tudo bem com outros em que mergulhava no desânimo”, diz o ex-senador Wedekin. Em 16 de setembro, dois dias depois da prisão, seu irmão Acioli levou-o para falar com advogados. Ao entrar e sair do táxi, Cancellier tremia, com medo de ser reconhecido na rua e hostilizado. Com o celular confiscado pela PF, quase não atendia o telefone fixo de casa. Não ligava a TV e, ao irmão Julio, disse que cometera “suicídio digital”, pois retirara fotos do Facebook e parara de navegar nas redes sociais. Ensimesmou-se a tal ponto que os irmãos decidiram levá-lo a uma psiquiatra, a primeira vez na vida que buscava ajuda dessa natureza.

A consulta com a médica Amanda Rufino ocorreu em 19 de setembro, cinco dias depois da prisão. Ele saiu de lá com o diagnóstico de “sintomas de stress pós-traumático desencadeados por impactante fator estressor no âmbito profissional” e um quadro de “intensa sensação de angústia, de opressão no peito e taquicardia”. A psiquiatra prescreveu um ansiolítico e um antidepressivo, ambos em doses moderadas. Cancellier tomou obedientemente os remédios e voltou à médica em 29 de setembro, a três dias do suicídio. Ao final da segunda consulta, a psiquiatra comentou com um dos irmãos do reitor que a situação parecia sob controle. “O quadro está evoluindo bem”, disse. A João dos Passos, procurador-geral do estado, o reitor deu uma pista do que sentia: “Vou te confidenciar, João. Meu estado é de pós-catástrofe, como se eu fosse o sobrevivente de uma queda de avião. Não consigo me situar, raciocinar direito”. O amigo Lédio Andrade, com quem o reitor jogava xadrez, descreve um Cancellier irreconhecível: “Seu raciocínio ficou lento e os olhos fixavam o infinito. Não parecia o Cau”.

Em situações normais, o reitor tinha entusiasmadas conversas sobre Shakespeare, Freud e o cristianismo, temas que despertavam sua curiosidade intelectual. Agora, nada parecia atrair seu interesse. O irmão Acioli, engenheiro que mora em São José dos Campos, tentando tirá-lo da clausura de si mesmo, alugou um Fiat Uno e provocou: “Agora você vai me mostrar essa ilha”. Era sempre o irmão ao volante, pois Cancellier, apesar de ter carteira de motorista, só dirigia moto. Nesses passeios, o reitor até relaxava, mas logo voltava a cerrar-se em casa.

Em Foz do Iguaçu, sua ex-mulher, Cristiana Jacquenin, de 48 anos, externou seu temor aos mais chegados: “Tenho medo do que ele possa fazer. Ele não vai aguentar ficar longe da universidade, é a vida dele”. Crica, como Cancelllier a chamava, foi uma paixão fulminante — em dois meses, eles subiram ao altar, ele com 28 anos, ela com 18. Conheceram-se no jornal O Estado (que já não existe) e, apesar da separação, mantiveram um elo até o fim. Ela afirma: “Aquela humilhação toda atingiu o Cau. Era como se alguém acertasse com uma bazuca uma escultura de pecinhas bem encaixadas que nunca mais se rearranjariam”.

A Polícia Federal pediu a prisão de Cancellier e outras seis pessoas da UFSC com base em um relatório de 126 páginas. Nele, o reitor é acusado de tentar obstruir as investigações da universidade sobre os desvios de dinheiro com base em apenas dois depoimentos. Em um deles, Taisa Dias, coordenadora do curso de administração, contou à polícia que, certo dia, levou ao reitor suspeitas de uso indevido de verbas no curso que coordena. Cancellier, segundo ela, perguntou se aquilo não seria um “problema de gestão” e, em seguida, lhe disse o seguinte: “Guarda essa pastinha”. Taisa entendeu que, com essa frase, o reitor estava querendo enterrar as investigações. A Polícia Federal, por sua vez, considerou a interpretação de Taisa como uma suspeita suficientemente clara de que Cancellier queria embolar a apuração. A defesa do reitor admite a conversa com Taisa, mas afirma que, ao dizer “guarda essa pastinha”, ele queria lhe pedir apenas cautela nas apurações e nas acusações. Ao reitor, nada foi perguntado sobre suas intenções, antes de ele ser preso.

O outro depoimento foi prestado pelo corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado, um senhor calvo de olhos claros que nunca altera o tom de voz e fez fama de investigador obsessivo no câmpus da universidade. Em novembro do ano passado, o centro acadêmico da faculdade de engenharia postou no Facebook um texto que dizia que a universidade mantinha uma lógica desigual, punitiva para alunos e benevolente para professores. Hickel do Prado debruçou-se sobre a questão. Queria entender o que era aquela lógica desigual. Convocou nada menos do que uma centena de estudantes para depor. A apuração se encerrou sem nada concluir, mas ajudou a sublinhar sua fúria investigativa. Aos que lhe censuram o ímpeto de xerife, Hickel do Prado rebate com segurança pétrea: “Quem faz tudo certo não tem por que ter medo de nada”. (Na terça-feira 7, o corregedor pediu licença médica de dois meses da universidade.)

Em seu depoimento, Hickel do Prado fez cinco acusações ao reitor. Disse que ele lhe recomendou que instalasse uma sindicância, em vez de abrir um processo administrativo, e tentou subordiná-lo a uma secretaria ligada à reitoria. (A defesa do reitor confirma as duas providências, mas diz que eram uma tentativa de evitar os conhecidos excessos do corregedor, e não de sabotar a investigação.) Também afirmou que ele cortou sua remuneração numa “tentativa de constrangê-lo”. (A defesa do reitor afirma que houve uma ampla reforma na UFSC com cortes na remuneração de vários cargos comissionados, e não uma medida exclusiva contra o corregedor.) Ainda acusou o reitor de tê-lo chamado para uma conversa reservada na qual lhe pediu que não apurasse as suspeitas. (A defesa do reitor nega que a conversa tenha existido.) E, por fim, disse que ele lhe pediu para ter acesso formal às investigações depois de ter visitado a Capes, órgão federal que financia o sistema de pós-­graduação no Brasil, que havia acabado de cortar as verbas para o programa de educação a distância da UFSC. (A defesa do reitor confirma que ele pediu acesso às investigações exatamente para saber as razões que levaram a Capes a cortar as verbas.)

A polícia não ouviu as explicações do reitor, antes de pedir sua prisão. Ainda que os dois depoimentos se limitassem a acusá-lo de tentar obstruir as investigações, a polícia incluiu o nome do reitor em uma lista de doze pessoas suspeitas de terem tido “efetiva participação na implementação, controle e benefício do esquema criminoso”. Não há no inquérito nenhum indício ou acusação de que o reitor fosse membro do “esquema criminoso”, nem mesmo a descrição do que poderia vir a ser esse “esquema criminoso”. VEJA perguntou à Polícia Federal por que Cancellier foi apontado como integrante da quadrilha, mas a PF preferiu não responder.

No final do relatório, na página 123, estão as cinco razões para prender o reitor. O texto afirma que ele:

“Criou a Secretaria de Educação a Distância para estar acima do já existente Núcleo Universidade Aberta, vinculando-a diretamente à reitoria.” (O inquérito não traz nenhuma prova de que a criação da secretaria tenha relação com desvios de verba.)

“Nomeou no âmbito do EaD (educação a distância) os professores do grupo que mantiveram a política de desvios e direcionamento nos pagamentos das bolsas do EaD.” (O reitor, ao assumir o cargo, fez mais de cinquenta nomeações. No âmbito do EaD, fez apenas três, e outros três professores que já integravam o grupo antes mesmo de sua gestão foram mantidos.)

“Procurou obstaculizar as tentativas internas sobre as irregularidades na gestão de recursos do EaD.” (O inquérito, neste caso, baseia-se no depoimento da coordenadora Taisa Dias e do corregedor Hickel do Prado.)

“Pressionou para a saída da professora Taisa Dias do cargo de coordenadora do EaD do curso de administração.” (É uma afirmação gratuita. O inquérito não informa de onde saiu essa suspeita nem aponta nenhum elemento que lhe dê consistência.)

“Recebeu bolsa do EaD via Capes e via Fapeu.” (O inquérito também não informa de onde saiu essa suspeita, nem mesmo se existiu alguma irregularidade na concessão das bolsas.)

A juíza Janaína Cassol, da 1ª Vara Federal de Florianópolis, analisou o pedido da PF em 25 de agosto e concedeu as prisões. Sobre o reitor e os outros seis acusados, ela escreveu: “Essas pessoas podem efetivamente interferir na coleta das provas, combinar versões e, mais do que já fizeram, intimidar os docentes vitimados pelo grupo criminoso”. Em 12 de setembro, a juíza pediu licença por problemas de saúde e foi substituída por Marjorie Freiberger. Dois dias depois, em 14 de setembro, a polícia lançou a Operação Ouvidos Moucos e prendeu o reitor e os outros seis. No dia seguinte às prisões, a juíza Marjorie Freiberger, sem que houvesse recurso da defesa do reitor e dos outros seis, resolveu revogar a decisão de sua colega e suspendeu as prisões. Ao contrário da antecessora, a juíza Marjorie não conseguiu ver motivo para tê-los levado para a penitenciária. Escreveu ela: “No presente caso, a delegada da Polícia Federal (refere-se a Érika Marena) não apresentou fatos específicos dos quais se possa defluir a existência de ameaça à investigação e futuras inquirições”. Mandou libertar todo mundo. Até hoje, a advogada do reitor, Nívea Cademartori, não entende por que seu cliente foi preso sem que tivesse a chance de se explicar. “Bastaria que a PF intimasse o reitor para depor, o que seria imediatamente atendido. Há uma banalização das prisões temporárias no país.”

Em seus últimos dias, Cancellier chegou a dar sinais de que não abandonaria o ringue. Em artigo publicado no jornal O Globo em 28 de setembro, quatro dias antes do suicídio, saiu em defesa própria e dos demais professores presos: “A humilhação e o vexame a que fomos submetidos há uma semana não têm precedentes na história da instituição”. O reitor também tentou recorrer da proibição de pisar no câmpus. Alegou que, como orientava teses de mestrado e doutorado, não podia deixar os alunos à deriva. A resposta da Justiça veio no sábado 30 de setembro, dois dias antes do suicídio: Cancellier estava autorizado a entrar na UFSC por três horas em um único dia. A decisão o devastou. “Como pode?”, perguntava. “Se demorar um minuto a mais, serei preso?”

A humilhação a conta-gotas ajudou a reforçar o quadro de stress pós-traumático do reitor, como a psiquiatria define a reação descontrolada do cérebro diante de um evento que está além de sua capacidade de absorção. “É como se o sistema de defesa do organismo entrasse em pane”, compara o psiquiatra Marcelo Fleck, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Maria Oquendo, uma porto-riquenha baixinha que se tornou um gigante da psiquiatria americana e autoridade mundial em suicídio, diz que é dificílimo evitar a morte de vítimas desse tipo de stress. Elas nunca falam em suicídio, embora pensem no assunto constantemente. Um trauma como o que consumiu o reitor vira motivo de obsessão — mas, de acordo com as estatísticas, raramente conduz ao atentado à própria vida.

O reitor foi um dos raros casos. Na véspera de seu suicídio, sabe-se hoje, já estava tudo calculado. Ele recusou o convite dos irmãos para assistir a uma partida de futebol em que o clube de coração da família, o Hercílio Luz, tinha chance de voltar à elite catarinense. Preferiu sair com o filho Mikhail. Almoçaram, ele quis ver se estava tudo em ordem em sua casa, mas recusou-se a ficar para uma sessão de filmes na TV. “Preciso descansar”, despistou. Em vez de descansar, foi ao shopping em que morreria, assistiu a um filme e levou consigo a chave do apartamento, de modo a forçar seu irmão Acioli a dormir em outro lugar. Queria ficar sozinho na última noite. As cinzas de cigarro espalhadas pelo apartamento mostram que fumou ferozmente, quebrando a abstinência imposta pelo cardiologista. Escreveu quatro bilhetes. Um para o filho, outro para os irmãos, um terceiro para um amigo e o quarto carregou no próprio bolso. É o único cujo conteúdo é conhecido. “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”, diz o bilhete, com a ênfase dos três pontos de exclamação. No dos irmãos, referiu-se à imensidão do amor pelos dois, mas disse que a dor que o dilacerava era maior que tudo. Deixou bilhetes e documentos separados em uma pequena caixa no escritório de casa, encontrada por Mikhail. O filho disse: “O pai cumpriu a missão aqui”.

Até hoje, sabe-se apenas que o “esquema criminoso” durou principalmente de 2005 a 2015, quando Cancellier nem estava na reitoria. A Capes, que investigou o assunto, diz que o “esquema criminoso” era uma coleção de pequenas falcatruas de servidores escroques, sem a dimensão que se divulgou. O coordenador do programa do ensino a distância da Capes, Carlos Lenuzza, não revela detalhes da investigação, mas adianta: “Os valores dos desvios são muito distantes daquilo que se falou”. Até agora, um mês depois do suicídio do reitor, ninguém foi acusado formalmente de nada, e a polícia não chegou ao valor real que foi desviado. Ao ver a notícia do suicídio na TV, Zé, o garçom, desabou. Nem sabia que o amigo de toda a vida era reitor.

No Tijolaço
Leia Mais ►