7 de nov. de 2017

Dez dias que abalaram o mundo, a Revolução Russa de 1917


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Revolução Russa deixou sua marca na América Latina, diz o filósofo cubano


Os fenômenos políticos da esquerda latino-americana têm suas raízes na Revolução Russa que completa 100 nesta terça-feira, disse o filósofo cubano Enrique Ubieta, diretor da revista Cuba Socialista, à Sputnik.

"Todos nós que lutamos hoje pelo socialismo, a Justiça social, somos filhos da Revolução de Outubro, de Vladimir Ilyich Lenin (1870-1924)", disse Ubieta.

Para Ubieta, os revolucionários latino-americanos herdaram a estrada aberta na Rússia em outubro de 1917 (dia 7 de novembro, no calendário gregoriano).

"Viajamos por essa rota à nossa maneira, com nossas ideias e nossa criatividade, mas temos essa dívida histórica", disse ele.

sse antecedente é importante e está vivo porque o que parecia que ia "se apagar em meio da onda neoliberal na década de 1990 renasceu no continente, isto é, as raízes estão vivas", disse ele.

Para salvar a humanidade de sua autodestruição hoje é necessário lutar contra o imperialismo "predatório", acrescentou Ubieta. Ele ressaltou ainda que, após a derrubada do regime czarista na Rússia, houve "uma espécie de onda de choque" que deixou uma influência marcada na América Latina e no Caribe.

Lênin, o líder dessa revolução, abriu o caminho de forma inesperada, "em um grande país e multinacional, mas na periferia", e não como Karl Marx e Frederick Engels tinham previsto nas nações desenvolvidas, explicou.

Lênin, Martí e Cuba

Ubieta enfatizou que Lênin e o poeta e o herói da independência cubana José Martí (1853-1895) não se conheciam, mas concordaram com a advertência sobre o perigo do imperialismo, particularmente porque analisaram a emergência nos Estados Unidos.

Lênin descreveu tal fenômeno em seu livro Imperialismo, a Fase Superior do Capitalismo, no qual explicou que a primeira guerra com esse personagem ocorreu precisamente com a intervenção em 1898 da Marinha dos EUA em Cuba, quando o domínio espanhol já estava morrendo.

Martí, por sua vez, morou nos Estados Unidos de 1880 a 1895, viu e estudou a gênese desse sistema e advertiu em seus escritos sobre esse perigo para Cuba, Caribe e América Latina, disse Ubieta.

Estas coincidências explicam por que, em agosto de 1925, quando um colaborador socialista idoso de Martí nos preparativos para a independência, Carlos Baliño, e o jovem estudante universitário Julio Antonio Mella fundaram o Partido Comunista de Cuba, em um congresso clandestino, uma foto do autor de Versos Simples e outra de Lênin presidiram a reunião, observou.

O governo de Cuba celebra a data nesta terça-feira com uma festa de gala política e cultural no Teatro Karl Marx, com um programa de atividades para o centenário da Revolução Russa.

Diversas formas de celebração têm ocorrido há várias semanas em todas as províncias cubanas e em instituições como a Biblioteca Nacional, o Instituto de História Cubana, a Amizade com os Povos, e o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias.

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O deslumbrado vazio que "se decepcionou com a esquerda"


O tipo que "se decepcionou com a esquerda" é bem conhecido. É uma das personagens mais estranhas do mundo cão civilizatório, praticamente uma garrafa vazia, à deriva, sem rum e sem recado. Eu vos apresento o "deslumbrado vazio".

O deslumbrado vazio começou sua saga nos anos 80. Não lutou contra a ditadura, não fez nenhuma greve e até gostava de um general. Mas, um dia, ele se deparou com uma coisa chamada "esquerda". Ele não sabia o que era tampouco entendia seus princípios e pressupostos. Mas percebia que dava ibope. Viu-se, então, sob um dilema: se ele não aderisse àquilo, ele corria o risco de continuar desinteressante e solitário. Aderiu. Sorriu. Chegou mesmo a gritar coisas como “revolución”. Balbuciava "Marighela" em noites insones e, quando bêbado, arriscava pronunciar "Che Guevara" e "Lamarca". Lula, para ele, era a inspiração máxima. Nunca entendeu absolutamente nada sobre o que o metalúrgico dizia. Mas gostar de Lula naquela época dava um certo glamour intelectual.

O deslumbrado vazio achava que Lula era socialista. Em alguns churrascos, chegava a dizer "comunista". Mas, depois, ficava confuso e ia embora para não ter que se explicar. Quando algum intelectual de esquerda dos nichos acadêmicos chegava perto dele, ele ia logo se afastando. Não entendia nada do que eles diziam. Aprendeu a repetir as frases "hasta la vitoria", "hasta luego" e até "hasta la vista, baby", mas nunca realmente soube o que significavam. Achava que Trótski era Tólstoi, que Bakhtin era Bakunin e que matrioska era caipiroska. Jurava que Cuba Libre era um movimento revolucionário que mais tarde deu nome à bebida - chegou a convencer uma universitária do Mackenzie sobre isso, o que lhe rendeu a alcunha de "dopadão da revolução". Mas ia levando.
O deslumbrado vazio se sentia bem em "pertencer" à esquerda. Sentia-se "certo", do lado "lúcido" da história. Sentia-se até mais viril, mais assertivo e mais "aceitável". E, uma vez no nicho, sempre no nicho. Largar o osso àquela altura do campeonato, nem pensar. Seria a ruína até de seu casamento, afinal a Paulinha só aceitou sair com ele quando viu um livro do Leonardo Boff cirurgicamente jogado no banheiro de sua casa (ele jamais lera aquilo, apenas a orelha do Frei Betto e olhe lá).

Eis que, um belo dia, o deslumbrado vazio, eleitor contumaz de Lula, já acostumado com suas derrotas sucessivas, vê-se vitorioso. A esquerda, afinal, havia chegado ao poder. 2002. Ele bebeu tanto, que chegou a jurar que o Maradona tinha nascido no Brasil (em Santana do Livramento, que era no Uruguai). O deslumbrado vazio, enfim, estava feliz e realizado.

Mas, não se pode esquecer um detalhe importante do deslumbrado vazio: ele era deslumbrado, mas vazio. Sua cultura eram praticamente apenas as novelas da Globo e as crônicas que o Cony publicava no Jornal do Brasil. Não tinha lastro (nem sabia o que era lastro, achava que era "aquele troço que tinha no navio").

Veio o mensalão. Joaquim Barbosa. Começou uma nova moda: odiar a esquerda. Era bom e dava status. O glamour afrancesado dos anos 80 havia sido superado pelo status americanizado dos anos 2000. Ele aceitou essa realidade rapidinho. Começou a falar mal do PT, do Lula, de Deus e o mundo (não nessa ordem). Rifou seus discos do Chico Buarque - aquele "comunista enrustido" - e trocou os livros do Boff, do Darcy Ribeiro e do Sérgio Buarque por discos de vinil do Wilson Simonal (que ele começava a admirar pensando ser um delator da ditadura). Pobre deslumbrado vazio. Ficava cada vez mais confuso. Até o guarda noturno o ludibriava, dizendo que tinha que cobrar um adicional noturno em função de... Ah, deixa pra lá.

O fato nu e cru era que o nosso deslumbrado vazio estava em crise. A esquerda no poder não parecia aquela esquerda romântica à qual ele tinha devotado tanta fidelidade. Via toda aquela inclusão, aqueles dados estatísticos de que 40 milhões tinham saído da pobreza, de que a dívida externa estava paga, de que o Brasil havia emprestado 10 bi ao FMI e colocado mais 10 bi no banco dos Brics e não acreditava. Achava que eram dados comprados, falsos, mentirosos, mesmo sendo do IBGE, da FVG ou da ONU. Não importava. Era mentira e pronto. Ele sabia.

O deslumbrado vazio, finalmente repleto de ódio e de inconformismo - afinal, como ele poderia ter sido enganado durante tanto tempo "pelo PT, pela esquerda, por esses comunistas vermelhos larápios salafrários?" - sucumbiu em sua própria dor cognitiva. Era fato: ele fora traído! A partir daquele momento, costumava dizer: "Eu acreditei. Fui enganado. O sonho acabou". John Lennon morreu, Muhammad Ali morreu, Marx morreu, Fidel morreu e ele já não ia se sentindo muito bem. Decidiu bater panela. Fez check-in em manifestação – levando babá e o netinho Pablo a tiracolo (a babá de branco).

O deslumbrado vazio era, finalmente, um reacionário. Era a evolução natural. Socialmente falando, ele apenas seguia o curso natural das coisas e da história. Era uma peça de um quebra-cabeça complexo, basicamente sem vontade própria e sem capacidade de ação. Para que agir? O mundo não iria mudar. Uma gota no oceano, um grão de areia, um ponto fora da curva? Bobagem. Ele jamais fora um ponto fora da curva. Ele era uma reta, do começo ao fim.

Ao cabo de tantos devaneios narrativos, em noites solitárias e chuvosas, quando o deslumbrado vazio punha a cabeça no travesseiro e tentava pensar em tudo o que lhe acontecera, na paixão pela esquerda, pela solidariedade, pelo coletivismo, pelo semelhante e em toda a desilusão que tomara conta de seu ser mas que simplesmente não se apresentara como uma dimensão racional, ele simplesmente trocava o tema que martelava em sua cabeça pela imagem das misses peruanas denunciando o feminicídio ou da Beyoncé beijando o Obama na cerimônia de posse de seu segundo mandato. Era o máximo que ele conseguia fazer ou pensar. Basta. Não conseguia mais empenhar neurônios diante daquele dilema existencial e ideológico que lhe corroía a alma e a própria história.

Diante da insônia e da culpa, pegou seu celular emaranhado entre os lençóis, desenhou a senha na tela-touch - um quadrado simples - e acessou seu perfil na rede social. Latejava em seu feed de notícias uma imagem de Michel Temer, acompanhada de uma crítica tímida à reforma trabalhista redigida por um intelectual de esquerda. Piscou os olhos com dificuldade, rolou a barra do feed a contragosto, olhou para o seu travesseiro, para o ventilador de teto, para Paulinha e decidiu: nunca mais falaria de política na vida.

Gustavo Conde
No Esquerda Caviar
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Os degenerados que queimaram a “bruxa” Judith Butler nos atiraram de vez na Idade Média




Se alguém tinha alguma dúvida de que regredimos à Idade Média, basta ver a boneca de Judith Butler sendo queimada na frente do Sesc Pompeia.

Dezenas de cidadãos de bem resolveram nos transportar para o século 13 e reencenar os espetáculos macabros em que mulheres eram atiradas à fogueira como bruxas.

É resultado de uma campanha incessante de ignorância e manipulação capitaneada por gente como Marco Feliciano, a Escola Sem Partido, o MBL, Alexandre Frota.

Os mesmos batedores de panela que gritavam contra a corrupção e instalaram uma canalhocracia no poder agora se preocupam com a palestra de uma filósofa perto de cujos livros jamais chegaram.

Butler, segundo essa matilha, é a profeta da ideologia de gênero, coisa que não entendem mas, segundo o pastor lhes garantiu, vai destruir a família numa sacanagem sem limites.

Em entrevista à Carta Capital, Judith falou que o ataque a ela e ao que ela prega “emerge do medo a respeito de mudanças”.

É isso. O boçal na multidão não vai mudar o fato de que o filho querido do papai talvez seja gay, a filha possa gostar de meninas, ambos eventualmente gostem de garotos e garotas comunistas — mas essa veadagem se combate com cura gay, porrada, Jesus, tiro na cara.

No meio deles há corruptos, pedófilos, homossexuais no armário e fora dele — e, sobretudo, burros. 

O que os incomoda, perturba, causa repulsa e os faz babar de cólera são reflexos de sua sombra.

Já temos ataques a centros de umbanda e candomblé, alguns deles realizados por traficantes evangélicos. Temos gays sendo mortos. Temos condenações sem provas. Temos censura à arte.

O que faltava para chegarmos ao medievalismo moleque, brejeiro, moreno, cheio de molejo? Nada. Bolsonaro é o sujeito que veio para legitimar esse brasileiro retrógrado, doente, cheio de ódio, e que veio para ficar.

O Brasil fornece aulas dolorosas diárias de algo que não achávamos necessário saber ou ser lembrados: quanto mais a história muda, mais ela continua a mesma. A Inquisição está ali na esquina e o próximo a ser queimado é você.

Kiko Nogueira
No DCM



Em 2017, a direita brasileira tenta censurar a palestra de uma FILÓSOFA e, retornando à Inquisição, grita “queimem a bruxa!”. Assumem, com isso, que adotam a lógica do passado e a este pertencem.

Também gritavam palavras de ordem pró-Bolsonaro, obviamente.

O que essas criaturas não entendem é que não podem parar a evolução do mundo. Atrasar, sim; não interromper. Por esta razão, serão vistas como aberrações pela História; serão os equivalentes, em 2017, dos segregacionistas e daqueles que combateram o sufrágio feminino.

Essa direita bolsodemente, MBLoide, pode ter um destaque hoje graças ao ódio propagado pela mídia - que, por sinal, já percebeu ter perdido o controle sobre o monstro que criou -, mas está condenada ao fracasso. Afinal, como cantava Cazuza ainda na década de 80, o tempo não para - e essas aberrações que querem manter o mundo na era da intolerância sabem disso.

No fundo, compreendem que o mundo que querem será rejeitado pela simples evolução de ideias, o que os estabelece como fósseis ambulantes.

E é por isso que são tão raivosos.

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Tenho que ficar vivo e lutar, diz Othon ao ser solto da Lava Jato


Após quase dois anos detido em um processo penoso da Operação Lava Jato, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, agora solto, trouxe traumas de seu isolamento em uma cela, em duras condições. Para ele, os culpados de sua detenção foram os "interesses internacionais".

Othon foi condenado em primeira instância a uma das maiores penas da Lava Jato: 43 anos de prisão por supostamente ter cometido cinco crimes - corrupção passiva, lavagem de dinheiro, embaraço às investigações, evasão de divisas e participação em organização criminosa.

Considerado o pai do programa nuclear no Brasil e um dos mais importantes cientistas nucleares no país, teve que aprender a comer com as mãos e chegou a tentar suicidio quando lutava, sem mais esperanças, aos 77 anos, por sua liberdade. Com a idade, os 43 anos de prisão seriam equivalentes a pena perpétua.

A primeira prisão de Othon, de 77 anos, foi decretada pelo juiz Marcelo da Costa Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal de Brasília, ainda em julho de 2015. Então investigado, o cientista conseguiu passar ao regime aberto em dezembro daquele ano, sendo novamente preso em julho de 2016.

A suspeita alegada pela Justiça do Distrito Federal era que o pai do programa nuclear brasileiro ainda mantinha influência na Eletronuclear, onde desvios e irregularidades em contratos foram detectados, a exemplo do que ocorreu com a Petrobras.

A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) sustentava que o almirante recebeu  R$ 4,5 milhões por meio de propina, que seria 1% dos contratos firmados entre a Eletronuclear e as empreiteiras Andrade Gutierrez e Engevix, para a construção da Usina Nuclear Angra 3, no complexo nuclear de Angra dos Reis.

Mas para Othon, a sustentação que partiu do Ministério Público tinha outra origem. Certificando-se de sua inocência, acredita com "forte sentimento" que sua prisão teve as mãos dos "interesses internacionais". 

Em entrevista à Monica Bergamo, na Folha, afirmou as suas motivações para acreditar nos interesses externos: "Tudo o que eu fiz [de avanços na área nuclear] desagradou. Qual o maior noticiário que tem hoje? A Coreia do Norte e suas atividades nucleares. A parte nuclear gera rejeição na comunidade internacional. E o Brasil ser potência nuclear desagrada. Disso eu não tenho a menor dúvida", disse.

Mostrou também que, apesar da idade e dos traumas que levou da cadeia, seu conhecimento na área permanece vivo: "[Se necessário, o Brasil produziria uma boma buclar] em uns quatro meses. Com a tecnologia de enriquecimento que nós usamos, podemos fazer a bomba com o plutônio, como a de Nagasaki, ou com o urânio, que foi a de Hiroshima. Temos os dois porque quem tem urânio enriquecido pode ter o plutônio também."

Mas defende o não uso da arma: "O artefato nuclear é arma de destruição de massa e inibidora de concentração de força. Mas, no nosso caso, se tivéssemos a bomba, desbalancearíamos a América Latina, suscitando apreensões. E a última coisa que a gente precisa na América Latina é de um embate."

Contrariando um dos eixos das acusações que recaiu sobre ele, de que o almirante teria contribuido para a desvalorização da Eletronuclar, lembrou que antes de assumir a presidência, a empresa era chamada de "vaga-lume". 

"Em poucos anos, passou a figurar entre as centrais de melhor desempenho do mundo. As ações se valorizaram. Como então eu contribuí para desvalorizar as ações? Nada disso foi levado em conta no meu julgamento. O meu passado serviu como agravante. Eu peguei cinco anos de cadeia a mais porque, se eu tinha aquele passado, eu tinha que ter um comportamento [exemplar]. É a primeira vez que antecedente virou agravante. Vida pregressa ilibada virou agravante."

Neste momento da entrevista à jornalista, as emoções de Othon Luiz tomam conta: "Tá lá, escrito [na sentença]. É só ler. Eu li. Me deu uma revolta tão grande...", chorando ao se lembrar.

Nas polêmicas de sua condenação e de sua filha, contou ainda que ficou sabendo de sua pena pela televisão. E também para a sua filha. Logo viu que o suicidio não alertaria para nenhum abuso do processo contra ele, e tudo seria esquecido.

"Pensei 'os caras ficaram loucos'. E mais 14 anos para a minha filha [Ana Cristina]. E ela não fez nada. Tive um desespero... não é desespero. É revolta. Uma profunda revolta. Eu queria chamar a atenção. E pensei 'vou fazer um ato de revolta'. Eu reuni os cadarços do calção e com eles eu ia me enforcar. Pela câmara, a oficial viu e [impediu]. Mais 15 minutos ela não pegava mais. Na hora eu fiquei pau da vida. Mas depois eu vi que era bobagem. Me enterravam e em três dias tudo acabava. Vou bancar o japonês, confissão de culpa? Não. Hoje penso que tenho que ficar vivo e lutar."

No GGN
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Estados Unidos querem Alcântara para controle da América do Sul e África e confronto com China e Rússia


1. Os Estados Unidos, além de suas frotas de porta aviões, navios e submarinos nucleares que singram todos os mares, possuem mais de 700 bases militares terrestres fora de seu território nacional nos mais diversos países, em muitas das quais instalaram armas nucleares e sistemas de escuta da National Security Agency (NSA).

2. Os Estados Unidos têm bases de lançamento de foguetes em seu território nacional, como em Cabo Canaveral, perfeitamente aparelhadas com os equipamentos mais sofisticados, para o lançamento de satélites.

3. Os Estados Unidos não necessitam, portanto, de instalações a serem construídas em Alcântara para o lançamento de seus foguetes.

4. O objetivo americano não é impedir que o Brasil tenha uma base competitiva de lançamento de foguetes; isto o governo brasileiro já impede que ocorra pela contenção de despesas com o programa espacial brasileiro.

5. O objetivo principal norte americano é ter uma base militar em território brasileiro na qual exerçam sua soberania, fora do alcance das leis e da vigilância das autoridades brasileiras, inclusive militares, onde possam desenvolver todo tipo de atividade militar.

6. A localização de Alcântara, no Nordeste brasileiro, em frente à África Ocidental, é ideal para os Estados Unidos do ângulo de suas operações político-militares na América do Sul e na África e de sua estratégia mundial, em confronto com a Rússia e a China.

7. O Governo de Michel Temer tem como objetivo central de sua politica (que nada mais é do que o cumprimento dos princípios do Consenso de Washington) atender a todas as reivindicações históricas dos Estados Unidos feitas ao Brasil não só em termos de política econômica interna (abertura comercial, liberdade para investimentos e capitais, desregulamentação, fim das empresas estatais, em especial da Petrobras etc.) como em termos de política externa.

8. À politica externa cabe cooperar com a execução deste programa de Governo, cujo objetivo é atrair investimentos estrangeiros, além de ações de combate à Venezuela, de afastamento em relação aos vizinhos da América do Sul, de destruição do Mercosul, a partir de acordo com a União Europeia, cavalo de Troia para abrir as portas de um futuro acordo de livre comércio com os Estados Unidos, de adesão à OCDE, como forma de consolidar esta política econômica, e de afastamento e negligência em relação aos países do Sul.

9. Nesta política geral do Governo Temer, o acordo com os Estados Unidos para a utilização da Base de Alcântara configura o caso mais flagrante de cessão de soberania da história do Brasil.

10. Os Estados Unidos, se vierem a se instalar em Alcântara, de lá não sairão, pois de lá poderão “controlar” o Brasil, “alinhando” de fato e definitivamente a política externa brasileira e tornando cada vez mais difícil o exercício de uma política externa independente.

Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário Geral do Itamaraty (2003-2009), Ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010)
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Para associação, presidente do TST fala em nome próprio e não pela magistratura

Em entrevista, Gandra defendeu corte de direitos como meio de manter empregos. Posição é questionada no próprio TST. Sindicalistas reagem


Ao defender corte de direitos como medida para manter empregos, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Filho, fala em nome próprio, sem representar o pensamento da magistratura, diz a vice-presidenta da Anamatra (associação dos magistrados do Trabalho), Noemia Porto. Durante audiência pública no Senado, nesta segunda-feira (6), ela comentou entrevista de Gandra publicada na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo. Segundo Noemia, a entrevista deve ser vista com respeito, por conter a interpretação do ministro, mas ele "fala em seu nome e não em nome da Justiça do Trabalho", formada por quase 4 mil magistrados. As declarações mostram, mais uma vez, que há discordâncias no Judiciário em relação à chamada "reforma" trabalhista, representada pela Lei 13.467, que entrará em vigor a partir de sábado (11). Não há novidade no teor da entrevista de Ives Gandra, que desde a sua posse na presidência mostrou-se um defensor da flexibilização e, em certa medida, crítico da própria Justiça do Trabalho, que teria um papel excessivamente "protecionista", conforme afirmou mais de uma vez. Em audiência no Senado, chegou a sugerir que trabalhadores podem se mutilar para conseguir indenizações trabalhistas.

Mas o ponto de vista de Gandra a respeito das mudanças na legislação é minoritário no próprio órgão máximo do Judiciário trabalhista. Em maio, por exemplo, 17 dos 27 juízes que compõem o TST manifestaram-se contra o então projeto de lei da "reforma", que seria aprovado no mês seguinte. Para esses magistrados, o projeto eliminava ou restringia "várias dezenas de direitos individuais e sociais'.

A lei prestes a entrar em vigor sofre críticas de entidades de magistrados e procuradores do Trabalho, que por sua vez têm recebido ataques por uma suposta "rebeldia" contra a aplicação do texto. "Todo texto normativo exige um contexto de interpretação jurídica", argumenta Noemia.

Para ela, "apenas uma discussão, plural, técnica e abrangente pode talvez legar, para as presentes e futuras gerações, uma legislação capaz de incorporar os problemas reais do mundo do trabalho, sem nenhuma dessas falácias sobre modernidades, geração de empregos a partir da redução de direitos, ou a partir da ideia jamais comprovada de que a produtividade do setor econômico tem relação direta com a degradação da pessoa do trabalhador".

A vice da Anamatra participou de audiência pública que tem como tema a elaboração de um estatuto do trabalho. O assunto é discutido em uma subcomissão temporária, presidida pelo senador Telmário Mota (PTB-RR). Quem conduziu a sessão de hoje foi o vice, Paulo Paim (PT-RS).

O presidente da CUT, Vagner Freitas, também reagiu às afirmações de Gandra, dizendo que o que Temer fez com a reforma foi "legalizar o bico".

"Emprego depende de fortes investimentos públicos e privados, acesso ao crédito, fortalecimento do mercado interno e uma série de decisões políticas que um governo ilegitimo e corrupto não tem condição nem competência para fazer", disse Vagner em rede social. "Fome, miséria e subemprego não resolvem o problema, só pioram."

A CUT organiza os sindicatos filiados em uma campanha por um projeto de lei de iniciativa popular para anular a Lei 13.467. São necessárias 1,3 milhão de assinaturas. Entidades fazem coletas de assinaturas por todo o país.

O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, considerou "inoportunas" as afirmações do presidente do TST. "Entendemos que as declarações do ministro erram na forma e no conteúdo, já que revelam um posicionamento arcaico, demonstram falta de sensibilidade social e não valorizaram a importância dos representantes dos trabalhadores no equilíbrio das relações entre empregados e empregadores", afirmou em nota.

O presidente da CTB, Adilson Araújo, diz que a entrevista foi "uma afronta à trajetória de luta da classe trabalhadora pela conquista, ampliação dos direitos e proteção social". Segundo ele, com esse posicionamento Gandra "assina sua defesa de que a nova legislação trabalhista foi elaborada para servir aos patrões, e não para equilibrar a relação de trabalho".

No RBA
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Depoimento de Henrique Eduardo Alves




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Corazón conservado en coñac de Chopin revela causa de su muerte

Científicos determinaron que el famoso músico y compositor Frédéric Chopin falleció por una extraña complicación de la tuberculosis crónica que padecía.

La causa de la muerte del artista fue tema de discusión para la comunidad científica hasta este estudio

Un grupo de científicos escudriñó el corazón conservado en coñac del genio musical Frédéric Chopin y descubrieron que fue víctima de una pericarditis.

Chopin falleció en 1849 a los 39 años de edad por el motivo antes mencionado, una complicación poco usual de la tuberculosis crónica.

La causa de su lento desgaste y posterior muerte fue objeto de discusiones durante muchos años. Algunas de las opciones que tenían los expertos en mente eran muerte por fibrosis quística, una deficiencia genética de alfa-1 o el estrechamiento de las válvulas cardíacas.


El gran compositor y pianista polaco tenía un miedo atroz a un entierro prematuro por lo que su deseo fue que le extrajeran el corazón cuando muriera.

El órgano fue almacenado en un recipiente bañado en coñac, que se encuentra enterrado en la cripta de la iglesia de la Santa Cruz, en Varsovia, Polonia.

El resto de sus huesos descansan en París, donde también descansan los de Marcel Proust, Oscar Wilde y Jim Morrison, entre otros grandes artistas.

"Desde el estado de su corazón podemos decir con gran probabilidad que Chopin sufría de tuberculosis mientras que la pericarditis por complicaciones fue probablemente la causa inmediata de su muerte", aseguró el líder del equipo de científicos, el profesor Michael Witt.

"Podría destruir el corazón y en cualquier caso estaría bastante seguro de que ahora sabemos qué mató a Chopin", opinó Witt.

Este nuevo estudio es el último capítulo en la extraña historia sobre el fallecimiento de Chopin. En primer lugar porque la causa de su fallecimiento fue inexplicable pero también por los hechos que tuvieron que ver con su corazón.

Al morir Chopin en París, su hermana debió ingresar de manera ilegal el corazón conservado a Polonia y consiguió dejarlo en la iglesia de la Santa Cruz, en Varsovia.

Sin embargo, durante el levantamiento de Varsovia durante la Segunda Guerra Mundial, un alto cargo de la SS nazi y admirador del pianista decidió conservar el corazón. Una vez finalizada la ocupación el corazón fue devuelto a la iglesia polaca donde permanece hasta la actualidad.

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MPF denuncia 32 por fraudes na Lei Rouanet; nenhum deles é de esquerda

Após CPI que não deu em nada, agora é investigação do MPF que passa atestado de idoneidade a José de Abreu, Tico Santa Cruz, Leticia Sabatella e outros difamados


Assim como, em maio, a CPI da Lei Rouanet inocentou todos os artistas de esquerda acusados pela direita de utilizar a renúncia fiscal possibilitada por ela como “prêmio” por apoiar o PT, agora foi o Ministério Público Federal quem passou atestado de idoneidade a José de Abreu, Wagner Moura, Tico Santa Cruz, Marieta Severo, Chico Buarque, Leticia Sabatella, Jô Soares e tantos outros difamados nas redes sociais. Hoje, o MPF anunciou o indiciamento de 32 pessoas por fraude usando a lei. Nenhuma delas é de esquerda.

O Ministério da Cultura aproveitou a deixa para explicar pela enésima vez aos desinformados da direita que o dinheiro da Lei Rouanet, criada em 1991, não sai dos cofres públicos e sim de empresas privadas. “O Ministério da Cultura esclarece que não repassa recursos públicos de seu orçamento para realização de projetos culturais via Lei Rouanet. O MinC é responsável por analisar os requisitos objetivos e aprovar os projetos culturais apresentados. Tais projetos são apoiados financeiramente por pessoas físicas ou jurídicas. Em contrapartida, o governo federal abre mão de até 100% do valor desembolsado deduzido do imposto devido (artigo 18 da Lei 8.313/1991), dentro dos percentuais permitidos pela legislação tributária”, disse o ministério em nota oficial.
O MinC aproveitou para explicar pela enésima vez que o dinheiro da Lei Rouanet não sai dos cofres públicos e sim de empresas privadas
O MinC também informou que iniciou investigação interna deste caso em 2011, durante o governo Dilma Rouseff, a partir de denúncia recebida pelo Ministério Público. “As irregularidades identificadas nos projetos do Grupo Bellini foram informadas ao Ministério da Transparência e Controladoria Geral da União em 2013 e resultaram na Operação Boca Livre, deflagrada pela Polícia Federal em 2016”, relatou. As empresas identificadas foram inabilitadas e não tiveram mais nenhum projeto admitido.

As 32 pessoas denunciadas pelo MPF são acusadas de participar de um esquema que desviou 21 milhões de reais utilizando a Lei Rouanet. Os acusados de participar das fraudes descobertas pela Operação Boca Livre, deflagrada em junho de 2016 pela Polícia Federal devem responder pelos crimes de organização criminosa, estelionato contra a União e falsidade ideológica. A 3ª Vara Federal em São Paulo vai apreciar a denúncia e decidir se dá prosseguimento ao processo.

Segundo as investigações que, além do MPF, envolveram a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, o Grupo Bellini Cultural desenvolvia projetos fictícios e apresentava contrapartidas ilícitas ao mecanismo de fomento cultural por renúncia fiscal.

De acordo com a denúncia, os acusados usavam diversos meios, como notas fiscais falsas, para simular a execução ou superfaturar a prestação de contas dos projetos culturais. Eles apresentavam projetos duplicados, usando a mesma ação para justificar a prestação de contas de duas propostas enviadas ao Ministério da Cultura. Ainda segundo a procuradoria, espetáculos e apresentações financiados com os recursos públicos acabaram se tornando eventos institucionais fechados.
Nenhuma pessoa da área artística está entre os denunciados. Pobre de quem acredita em tudo que lê na internet
Os recursos que deveriam ser usados para apresentações de orquestras e realização de exposições em cidades do interior ou em áreas periféricas, chegaram até, conforme apontam as investigações, a custear o casamento de um dos sócios do grupo acusado.

Além dos diretores e funcionários da Bellini, são acusados de participar das fraudes representantes das empresas doadoras. Entre as companhias estão uma montadora, um escritório de advocacia, rede de farmácias, rede de loja de eletrodomésticos e empresas de consultoria e auditoria. Ou seja, nenhuma pessoa da área artística. Pobre de quem acredita em tudo que lê na internet.

No Socialista Morena
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Com a Carta de Ipojuca, o MPF assume de vez sua função sindical


O encontro anual da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), o sindicato de fato dos procuradores da República, gerou uma “Carta de Ipojuca”, em torno do tema “O Ministério Público Federal na defesa da ordem econômica”.

É uma demonstração cabal que não se deve julgar o MPF por seus luminares, os grandes procuradores envolvidos nas grandes causas civilizatórias, porque não representam o pensamento majoritário do setor.

Trata-se de um setor eminentemente sindicalista, sem nenhuma visão de interesse nacional, com visão de mundo superficial e corporativista, como pode se conferir na “Carta de Ipojuca”, documento oficial na última reunião associativa do MPF.

O primeiro CONSIDERANDO é o que se segue:

CONSIDERANDO que a ordem econômica, nos termos da Constituição da República, tem por finalidade assegurar a todos existência ​digna ​e ​justiça ​social;

CONSIDERANDO que a atuação do Ministério Público Federal na defesa da ordem econômica, seja na proteção à livre concorrência, aos consumidores, ao meio ambiente ou à busca do pleno emprego, é essencial para que se concretizem direitos fundamentais, ​reduzindo-se ​as ​desigualdades ​regionais ​e ​sociais;

Observação o “à busca do pleno emprego” é uma maneira da ANPR mostrar que procurador também tem coração. Não há nenhuma decisão, no âmbito do Ministério Público Federal (MPF), que tenha relação com o pleno emprego. Para atuar, teria que questionar a política econômica em vigor, mas aí seria ir muito além das chinelas curtas, que a ANPR determinou para o MPF.

CONSIDERANDO que o MPF tem enfrentado os maiores casos de corrupção da história do País, os quais envolvem empresas relevantes ​e ​dominantes ​em ​diversos ​mercados;

Observação – o MPF destruiu cadeias produtivas inteiras, sem a menor preocupação com emprego e nível de atividade.

(...)

E, como não poderia deixar de ser, vindo de um órgão eminentemente sindical:

CONSIDERANDO que as magistraturas são as únicas carreiras federais às quais vem se negando recomposição salarial, ainda que parcial, tornando-as, em prejuízo do interesse público e da isonomia, defasadas em termos remuneratórios e em condições de trabalho, e crescentemente pouco atrativas, em afronta ao princípio ​constitucional ​da ​irredutibilidade ​de ​vencimentos;

CONCLUEM que:

1. A atuação do MPF na defesa da ordem econômica contribui para a segurança jurídica, para um ambiente saudável de negócios, com o combate à corrupção, e para o desenvolvimento econômico sustentável de longo prazo, na medida em que enfrenta os ​vícios ​estruturais ​do ​sistema;

Observação -  o governo Temer, colocado no poder com ajuda inestimável do MPF, está leiloando o país, montando um balcão de negócios só ocorrido, antes, em países africanos. Trata-se do efeito mais visível da Lava Jato e da atuação política do MPF. Leiloar estatais na bacia das almas, abrir reservas indígenas para exploração comercial, leiloar áreas da Amazônia legal, para a brava ANPR, não comprometem em nada o “ambiente saudável de negócios”.

2. A responsabilização das pessoas físicas e jurídicas envolvidas em atos de corrupção é dever inafastável dos membros do Ministério Público e essencial para que haja desenvolvimento social e econômico, sendo que, quanto às empresas corruptoras, essa responsabilização é imprescindível para que se garantam os parâmetros da concorrência adequada e justa, da existência do livre mercado ​e ​da ​livre ​iniciativa;

Observação -  Como já demonstrado na série “A indústria das delações premiadas”, a Lava Jato livrou todas as grandes multinacionais envolvidas em corrupção com a Petrobras. O “desenvolvimento social e econômico” será alcançado como? Destruindo a engenharia nacional.

(...) 5. Dada a concomitante atribuição cível e criminal, é o Ministério Público o órgão melhor posicionado para coordenar os esforços de celebração de acordos de leniência, garantindo o interesse ​público ​e ​a ​necessária ​segurança ​jurídica;

Observação quando se tentava avançar em acordos de leniência, no início da Lava Jato, medida que preservaria centenas de milhares de empregos, um mero procurador regional deu o berro contra – para não perder poder – e o próprio Procurador Geral da República recuou. Uma organização assim, sem coluna vertebral, estaria apta a ser a avalista final dos acordos de leniência?

6. No âmbito interno do MPF, os acordos de leniência da Lei Anticorrupção devem contar com a colaboração entre os diversos membros legitimados e a Câmara de Combate à Corrupção, ​respeitando-se ​sempre ​o ​promotor ​natural;

Observação o princípio do promotor natural foi amplamente desrespeitado pelo MPF na Operação Lava Jato. Com que autoridade volta a defender o princípio?

7. É fundamental a atuação da Câmara de Combate à Corrupção do MPF na homologação e na expedição de orientações para os procedimentos e parâmetros da elaboração de acordos de leniência, indicando diretrizes que deem maior segurança jurídica aos ​membros, ​aos ​investigados ​e ​à ​sociedade;

Observação – Ufa! Robalinho teve um assomo de anti-corporativismo. Deve ter ficado com medo de perder votos nas próximas eleições.

8. A obrigação da criação de sistemas de compliance em empresas que firmem acordo de leniência é fundamental para garantir que as empresas possam balizar suas práticas com base na ética ​e ​na ​legalidade;

Observação -  Defesa do mercado de trabalho futuro, para os procuradores que se aposentarem, conforme já alardeado por integrantes da Lava Jato.

9. O combate eficiente e efetivo ao crime pressupõe a manutenção integral das garantias constitucionais de inamovibilidade, irredutibilidade de subsídios e autonomia, atribuídas ​às ​magistraturas ​judicial ​e ​ministerial;

Observação – nenhuma menção ao Estado de Direito, ao respeito aos direitos individuais.

10. É necessário o contínuo e intenso engajamento da classe, da Instituição e da sociedade em defesa das prerrogativas institucionais ​do ​Ministério ​Público ​e ​da ​magistratura ​judicial;

Observação – Obviamente, ajudando a garantir a recomposição salarial.

Seguem-se vários parágrafos sobre o papel do MPF e da Polícia federal.

17. É imprescindível e urgente a reposição das perdas inflacionárias que corroem os subsídios das magistraturas federais, únicas carreiras de estado da União que não têm reajustes desde 2015 (e que repuseram parcialmente a inflação apenas de 2013 e anteriores). A defasagem absoluta e relativa dos subsídios põe em risco a preservação do próprio status constitucional da Instituição, e é particularmente injusta aos aposentados, que não têm acesso a verbas ​remuneratórias ​e ​indenizatórias ​recebidas ​na ​ativa;

18. Para que se recupere a existência efetiva de uma carreira nas magistraturas e se reponha a paridade entre ativos e inativos, é urgente, e deve continuar a ser prioridade da carreira e da instituição a retomada e aprovação da PEC nº 63/2013, que institui o adicional ​de ​Valorização ​de ​Tempo ​de ​Magistratura;

Observação – nenhuma linha a respeito da PEC do Teto, que está sendo alvo de análises e ações da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), da própria PGR. O que mostra que a massa dos procuradores têm exclusivamente visão sindical de defesa dos próprios interesses.

(...)20. O Ministério Público Federal e o CNMP devem manter diálogo permanente para o fortalecimento das prerrogativas institucionais e para que a atuação do colegiado não afete e não interfira na atividade finalística desempenhada pelos órgãos ministeriais;

Observação – ah, bom! Achei que a visão institucional do item 7 tivesse se sobreposto ao corporativismo dos que consideram cada procurador uma ilha de poder.

23. O respeito à lista tríplice para escolha de Procurador-Geral da República se mostrou, uma vez mais, salutar para o País. Reforça-se a necessidade de os membros do MPF continuarem envidando esforços para a institucionalização da lista tríplice, bem como da sua inclusão formal na Constituição da República, consagrando a escolha democrática e republicana de representante ​máximo ​da ​Instituição;

Observação – um órgão com poder de Estado, sem ter voto nem mandato, pretendendo ser dono absoluto do seu próprio poder. Uma notável falta de senso sindical.

(...) 25. Os membros do Ministério Público Federal devem reforçar o apoio à sociedade civil organizada para atuação na fiscalização e controle da gestão pública, visto que a sociedade civil é ​fiscal ​e ​parceira ​fundamental ​do ​MPF ​no ​combate ​à ​corrupção.

Observação -  o primeiro passo é abrir as informações e submeter a indústria da delação premiada a um controle externo. O poder absoluto de fixar pena, de bloquear e liberar dinheiro, com base na avaliação subjetiva de um procurador e um juiz colide com qualquer forma de transparência pública.


Luís Nassif
No GGN
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Os barões midiáticos não falam mais sozinhos


Ela não nasceu hoje. A bem da verdade, ela sempre existiu para dar vazão às ideias não hegemônicas, para denunciar os poderosos, para dar visibilidade aos excluídos. Desde o tempo do linotipo, do mimeógrafo, passando pelo rádio amador e pela radiodifusão comunitária.

Em tempos de internet, ela ganhou escala e alcance nunca antes possíveis em função das barreiras econômicas que o modelo de negócio da comunicação impunha.
A mídia alternativa vem se tornando referência e assumindo papel determinante para divulgação de fatos e acontecimentos que são omitidos pela mídia hegemônica. É essencial para a disputa de ideais e valores na sociedade e está cada dia mais pulsante e viva.
Conforme a web foi se desenvolvendo, foram surgindo novos mecanismos de distribuição de conteúdos. Os setores historicamente excluídos do debate público, estruturalmente invisibilizados pela mídia hegemônica, começaram usar a internet para se comunicar, para contar suas próprias histórias, para manifestar sua opinião sobre acontecimentos e, inclusive, contradizer o que a mídia divulgava como “verdade”.

Os microblogs, depois os blogs, as primeiras redes sociais e a possibilidade de se criar plataformas digitais para distribuir conteúdos produzidos de qualquer lugar do Brasil fizeram nascer um novo ecossistema de comunicação, que foi se fortalecendo e ganhando cada vez mais relevância no debate público.
Apesar de ainda ter um alcance restrito, frente ao poder da radiodifusão privada, a mídia alternativa, independente, popular, comunitária já não permite que os barões midiáticos falem sozinhos. O monólogo passou a ser um diálogo, um “multiálogo”.
Novos temas pautados pela nova mídia

São centenas de coletivos, sites, blogs, jornais e revistas online (muitos guerreiros que mantém, também, suas versões impressas), ativistas digitais que interagem e criam movimentos por redes sociais na internet, rádios comunitárias, tevês comunitárias, webrádios, webtvs, youtubers, e quantas mais denominações se pode dar e encontrar para falar deste novo mundo comunicacional que está causando uma mudança na forma como se produz e acessa comunicação e informação.

Esse amplo campo de comunicação passou a falar sobre temas ignorados até então. Direitos humanos e interesse público passaram a estar no centro da agenda produzida por esta nova comunicação, que desmistifica a ideia de que é possível ser um corpo neutro na sociedade. Qualquer relato, história e conteúdo comunicacional parte de um ponto de vista, de valores social e culturalmente construídos e, por mais objetiva que seja a construção de uma notícia, ela está inserida neste contexto.

E comunicação é poder. Nada humaniza mais que a palavra, nada nos confere mais a noção de coletividade do que a possibilidade de narrar histórias que mostram os dilemas comuns das pessoas.

Se o monopólio está a serviço da manutenção do status quo, a possibilidade de falar e tornar públicos os problemas da sociedade e de desnudar a perversidade da exclusão, da miséria e do preconceito empoderou movimentos e setores sociais que passaram a fazer parte da agenda pública.

A comunicação é um direito e como tal é uma instrumento essencial para o exercício e garantia de outros direitos, é um meio de formação e de fortalecimento da cidadania.

Os conteúdos construídos pelos coletivos de comunicação, coletivos culturais, jornalistas, comunicadores sociais, pela imprensa popular e sindical têm um forte sentido transformador e libertário, têm o povo como protagonista e objetivam promover um debate amplo e participativo, estimular a reflexão, o engajamento e a mobilização social. Como afirma Maria Cristina Mata no livro Construindo Comunidades: Reflexões atuais sobre a comunicação comunitária: “Não é possível ser cidadão se não for possível expressar na esfera pública a carência de direitos e a luta por novos direitos”.

Os barões midiáticos não falam mais sozinhos

É verdade que nesse novo ecossistema comunicativo há muitas diferenças. Essa nova mídia não é una e blocada. Há enfoques e métodos distintos, há inclusive pontos de vistas divergentes sobre como fazer comunicação, mas é inegável que estão todos no mesmo campo, buscando um novo modo de comunicar e narrar a vida social.

E como não se pode falar de comunicação fora do contexto político e econômico em que ela está sendo realizada, no Brasil dos últimos anos, a comunicação assume um engajamento mais aberto. Seja na mídia hegemônica ou alternativa, os conteúdos refletem a polarização social.
Essa nova mídia foi colocando em questão o comportamento da mídia hegemônica. Mais e mais pessoas passaram a buscar fontes alternativas de comunicação, passaram a confrontar as informações e notícias e isso abalou o castelo midiático hegemônico.
Como na casos emblemático da eleição de 2010, o da bolinha de papel, quando as emissoras de rádio e tevê difundiram amplamente que o então candidato a presidente da República, José Serra, tinha sido alvo de uma “pedrada”, atirada por um militante do PT. Imediatamente a mídia alternativa desmentiu a notícia e comprovou que a pedra não passava de uma bolinha de papel atirada por um correligionário de Serra para tentar criar um fato político.

Episódios como esse passaram a se suceder e a credibilidade da mídia hegemônica foi sendo, pelo menos, arranhada pela ação ação da mídia alternativa. Vira e mexe algum veículo hegemônico é obrigado a reconhecer o “erro” em alguma notícia, ou corre para mudar manchetes, é chamado a se explicar ou tornar mais explícito seus métodos. Como na cobertura da Folha de S.Paulo sobre as manifestações pelo e contra o impeachment em São Paulo, onde eles explicam os cálculos utilizados e comparam as fotos para dizer como chegaram à estimativa de pessoas presentes em uma e outra passeata.

A possibilidade de cada pessoa ser um midialivrista, midiativista, um comunicador, registrando com fotos e vídeos acontecimentos e permitindo que uma multiplicidade de informações sejam difundidas tem, inclusive, pautado a mídia hegemônica em alguns casos. Como ignorar, por exemplo, a ocupação do MTST em São Bernardo do Campo e a marcha de 23 km realizada nesta terça-feira pelos sem teto até o Palácio dos Bandeirantes? Em tempos pré-internet, muito provavelmente esse movimento teria sido solenemente invisibilizado. Aliás, no mesmo ABC paulista, na cidade de Santo André, há 35 anos uma outra ocupação envolvendo mais de 500 famílias aconteceu e não teve visibilidade do noticiário da época.

A ocultação e manipulação da informação produzida pela mídia hegemônica já não se sustentam em função da ação desta nova comunicação, referenciada no interesse público e na defesa de valores explícitos como a soberania do país, a defesa do meio ambiente, dos direitos indígenas, das mulheres, dos negros, da comunidade LGBT, e tantos setores sociais que passaram a ter voz ativa.
São tantos os casos em que a cobertura da mídia alternativa furou o bloqueio do monopólio que é impossível citar todos.
O caso da crise hídrica em São Paulo, onde os coletivos de comunicação denunciaram a responsabilidade do governo paulista na falta de água e a existência do racionamento, a cobertura das ocupações secundaristas contra a reforma do ensino médio e a reestruturação das escolas em SP, o caso Amarildo, a cobertura do crime ambiental de Mariana, a da primavera feminista, a denúncia do golpe midiático, jurídico, parlamentar em curso no Brasil são apenas alguns destes casos.
Ampliando a diversidade e a pluralidade na marra

Fortalecer a mídia alternativa, independente, popular, comunitária é uma tarefa prioritária. Potencializar a produção, impulsionar e dar ampla visibilidade aos vários conteúdos disponíveis, sem querer rotular ou homogeneizar esse campo amplo e diverso, respeitando as diferenças e compreendendo que cada blog, site, jornal, revista, coletivo, enfim, que cada iniciativa é importante e complementar, que a existência de cada um fortalece o todo é fundamental para enfrentar o golpe e resgatar a democracia no Brasil.

Os desafios são muitos. Estão no campo do financiamento e da sustentação dos veículos, da remuneração dos produtores de conteúdos (muitos voluntários), de enfrentar os dilemas causados pela força das plataformas privadas como Facebook e Google que estão derrubando a audiência da mídia alternativa (tema para outro artigo), da fundamental luta pela universalização do acesso à banda larga para garantir que mais pessoas possam ter acesso à internet e, portanto, a possibilidade de tomar contato com os conteúdos da mídia alternativa.

Mas esses desafios só alimentam o desejo de crescimento dessa nova comunicação, herdeira dos primeiros jornais independentes do país, que remontam ao século XIX, pequenos volantes, jornais, semanários, alguns mais longevos outros menos. A maioria vinculada a causas políticas (abolicionistas, republicanos, sindicais, democratas). Muitos tornaram-se ícones da história da imprensa brasileira, A Lanterna, A Plebe, A Classe Operária, Almanhaque, O Pasquim, Opinião, Movimento, O Sol. Veículos que entraram para a história da comunicação no Brasil e que ajudaram a escrever a história do Brasil, pela influência e a importância que tiveram.

É verdade que uma das lutas estruturantes da atualidade é pela democratização dos meios de comunicação, é pressionar para que o Estado cumpra o seu papel de promover um ambiente plural e diverso de comunicação, alterando o marco legal que define os critérios para a concessão de outorgas de rádio e televisão, tornando-as mais transparentes e garantindo que a sociedade participe deste debate; fortalecendo a comunicação pública e a radiodifusão comunitária; criando mecanismos de fomento à mídia alternativa; dentre várias outras políticas que são essenciais para o fortalecimento da democracia e da nação.

Mas, ao lado disso, já há um movimento que está, na prática, contribuindo para democratizar a circulação de informações e ideias na sociedade, que está efetivamente construindo um ambiente de mais pluralidade e diversidade na marra e na garra.

Renata Mielli, Jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
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Entre os maiores países, um corre o risco de se tornar o 'corno da rua'

http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/134/o-corno-da-rua


Se, como dizia Von Klausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios, na encarniçada guerra em que se transformou a política, a missão do jornalismo deveria ser a de escrever a história enquanto ocorre e acontece. Isso se a mídia não estivesse, na maioria das vezes, a serviço de seus próprios interesses e de projetos de poder mendazes, hipócritas e manipuladores.

Só os ingênuos acreditam em imprensa isenta em uma sociedade capitalista – na qual ela defende o interesse de seus donos e anunciantes. E mais ainda em um país como o Brasil, em que praticamente inexistem meios de comunicação públicos, tampouco democráticos e de qualidade, como em outros lugares do mundo.

A “história oficial” que tenta contar a mídia brasileira hoje é a de que vivemos em um país subitamente assaltado, nos últimos 15 anos, por “quadrilhas” e governos populistas e incompetentes. E que tenta, por meio de uma justiça corajosa e impoluta, livrar-se desse flagelo “limpando” a ferro e fogo a nação. Enquanto isso, um governo, coitado, que não é perfeito, alçado ao poder pelas “circunstâncias”, tenta modernizar o Brasil com reformas inadiáveis para tirá-lo de uma terrível bancarrota em que o governo anterior o enfiou.

Mas a história real que ficará registrada nos livros do futuro falará de um Brasil que, no início do Século 21, chegou a sair da 14ª economia do mundo para sexta nos últimos 15 anos – e que ainda ocupa nono lugar entre as nações mais importantes do mundo. De uma nação que mais que triplicou seu PIB nesse período – sem aumentar a sua dívida pública, seus débitos com principais credores internacionais e quadruplicou sua renda per capita, além de economizar mais de US$ 340 bilhões em reservas internacionais.

Um país que cortou o número de pobres pela metade, quadruplicou o número de escolas técnicas federais, construiu quase 2 milhões de casas populares, com qualidade suficiente para atrair até mesmo o interesse de altos funcionários do Estado, como procuradores da República. Um país que tinha voltado a construir refinarias, navios, grandes usinas hidrelétricas, gigantescas plataformas de petróleo e descoberto, com tecnologia própria, abaixo do fundo do mar, a maior província petrolífera do mundo nos últimos 50 anos.

Que expandiu o crédito e o consumo, duplicou sua safra agrícola, projetou-se internacionalmente e forjou uma aliança geopolítica com potências espaciais e atômicas, como Índia, China e Rússia, montando um banco com a missão de transformar-se no embrião de uma alternativa ao sistema financeiro internacional.

Que estava construindo submersíveis – entre eles, o seu primeiro submarino nuclear – tanques, navios de patrulha, cargueiros aéreos, caças-bombardeiros, radares, novos mísseis ar-ar, sistemas de mísseis de saturação, uma nova família de rifles de assalto, para suas forças armadas, por meio de forte apoio governamental a grandes empresas de engenharia de capital majoritariamente nacional, integrando esses esforços com outros países, também do próprio continente, para fortalecer a defesa e a soberania regional contra eventuais agressões externas.

Um Brasil que, por estar fazendo isso, sofreu, nos últimos quatro anos, um ataque coordenado, ideológico e canalha, de inimigos internos e externos. Primeiro, com a revelação do escândalo de espionagem do país, do governo e de empresas, que seriam “coincidentemente” acusados de corrupção por parte de governos estrangeiros.

Depois, por meio de um golpe iniciado com manifestações financiadas de fora do país, desde a época da Copa do Mundo, e de uma ampla campanha de sabotagem midiática e de operações de contrainformação permanentes, com o deslocamento para cá de embaixadores que estavam presentes quando do desfecho de golpes semelhantes e recentes em outros países sul-americanos, como o Paraguai, por exemplo.

Um golpe que, iniciado no ano de 2013, foi finalmente desfechado em 2016 para gáudio do que existe de pior na política brasileira e de nossos concorrentes internacionais. Concorrentes que, como vimos, pretendiam não apenas parar o Brasil no caminho que estava seguindo, de seu fortalecimento econômico, social e geopolítico, mas destruir a economia brasileira, para se apossar, por meio de uma segunda onda de destruição e de desnacionalização de nossas empresas, de nosso mercado interno e de nossos mais importantes ativos públicos e privados a preço de banana, colocando no poder “governos” de ocasião, entreguistas e dóceis às suas determinações e desejos.

Para fazer isso, os inimigos do Brasil agiram e continuam agindo na frente política e na econômica, sustentados por paradigmas tão falsos quanto mendazes. O principal deles, é o que reza que a corrupção é o maior problema brasileiro, e que trata-se, ela, de um fenômeno recente em nossa história, ou que alcançou supostamente “gigantescas” proporções a partir de chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder em janeiro de 2003.

Na economia, por outro lado, era e é preciso vender o peixe de que o país está quebrado, quando no grupo das 10 principais economias do mundo, pelo menos seis países – EUA, Japão, Reino Unido, França, Itália, Canadá – têm uma dívida pública maior que a nossa. O governo encontrou R$ 200 bilhões no caixa do BNDES , “adiantados” em “devolução” ao tesouro, no lugar de serem investidos em infraestrutura para a geração de emprego. E temos mais R$ 380 bilhões, ou mais de R$ 1 trilhão, em reservas internacionais acumuladas nos últimos 15 anos, boa parte, mais de R$ 270 bilhões, emprestada aos Estados Unidos, como se pode ver pela página oficial do tesouro norte-americano.

Como já afirmamos aqui antes, se a situação real da dívida brasileira era e continua sendo essa, com relação às outras nações que concorrem no pelotão das maiores economias do mundo, por qual razão isso nunca foi divulgado de forma clara, ampla, transparente, pelo governo e pela grande mídia, e seus “especialistas” de plantão, desde a saída de Dilma? Porque isso quebraria a espinha dorsal da “história oficial”, do discurso único, neste momento, que afirma e reafirma a todo momento: que o PT quebrou o Brasil; porque é necessário fazer reformas como a trabalhista e a previdenciária (vamos ver o que nos reserva a tributária), senão o Brasil vai quebrar, inexoravelmente, no futuro próximo.

Precisam justificar um teto para os gastos do governo para os próximos 20 anos, dizendo que o Estado é superdimensionado e perdulário, quando os EUA, por exemplo, apenas na área de defesa, tem mais funcionários públicos do que o Brasil; quando eles se endividaram para se desenvolver e continuarão a se endividar – e a se armar – livremente, no futuro; enquanto nós estaremos sendo governados por imbecis ou espertalhões a serviço de terceiros, vide os mais de R$ 200 milhões recebidos pelo ministro da Fazenda no exterior nos últimos três anos – como se fôssemos uma mercearia, preocupados não com geopolítica, mas apenas, supostamente, com receitas e despesas, sendo condenados a subir no ringue da disputa em um mundo cada vez mais complexo e competitivo com um olho vendado e um braço e uma perna amarrados nas costas, com nações sem limite real de endividamento, que privilegiam a sua própria estratégia nacional no lugar dessa estúpida modalidade de austericídio.

Finalmente, precisam dizer que diante da supostamente calamitosa situação que o país vive, não há outra saída a não ser privatizar tudo – quando não entregar de mãos beijadas até mesmo a empresas estatais estrangeiras – nossas próprias estatais e seus ativos, na bacia das almas e a toque de caixa, porque elas trabalham mal, dão prejuízo; e servem como cabides de emprego – como se empresas privadas não fossem useiras e vezeiras em tráfico de influência e o genro do rei da Espanha, por exemplo – um ex-jogador de handebol – não tivesse ganhado milhares de euros por reunião, em escândalo conhecido, “pendurado” como membro do conselho de empresas “privatizadas” para capitais espanhóis por estas bandas.

Como seria possível para o governo Temer entregar o pré-sal por menos de R$ 20 bilhões, o controle da Eletrobras, a empresa líder de nossos sistema elétrico, por R$ 13 bilhões, e até a Casa da Moeda – país que repassa a terceiros o direito de imprimir o seu dinheiro não merece ser chamado de nação – se ele admitisse que tem, deixados pelo PT – que acusa de ter quebrado o país – mais de um trilhão de reais em caixa, à disposição do Banco Central, além de uma quantia superior ao que está querendo arrecadar com privatizações apenas nos cofres do BNDES?

Da mesma forma é preciso vender o peixe de que a corrupção é o maior flagelo do país para justificar a morte da engenharia brasileira, a destruição de nossas principais empresas nas áreas de energia, defesa, indústria naval e infraestrutura, e interditar judicialmente centenas de bilhões de dólares em projetos, obras e programas – vide o sucateamento e venda para a Gerdau, para derreter, de 80 mil toneladas de aço em peças de duas megaplataformas da Petrobras que estavam prontas para serem montadas, com a eliminação de milhões de empregos.

Com tudo isso, o Brasil não apenas perdeu centenas de bilhões de dólares em obras, empresas, desvalorização de ações, como também entregou e continua entregando de mão beijada, suas prerrogativas e instrumentos de desenvolvimento ao exterior, apesar de estarmos vivendo, nesta primeira quadra do século 21, em um mundo cada vez mais nacionalista, complexo e competitivo.

A doutrina da viralatice, do mais abjeto e abnegado entreguismo, tomou conta das redes sociais e de sujeitos que desgraçadamente – para a nação – nasceram em solo brasileiro, e não tem pejo de pedir na internet ao governo Temer que entregue tudo, nosso petróleo, nossos minerais, nossas terras, nosso mercado, nossas empresas estatais aos gringos.

Já não basta o desprezo pelo PT e o Nordeste, ou – como se viu nas reações à morte da turista espanhola morta por um bloqueio da PM no Rio de Janeiro – a tudo que esteja ligado à periferia das grandes cidades. É preciso bradar, cinicamente, vestido de verde e amarelo, o ódio que ficou por tanto tempo represado, dentro dos pulmões de uma gente tão calhorda quanto desprezível, contra o próprio país e tudo que lembre nacionalismo, brasilidade, soberania, nestes tempos imbecis e vergonhosos que estamos vivendo.

A desculpa é sempre a mesma. As empresas estatais seriam – contradizendo o próprio discurso anticorrupção que está acabando com dezenas de empresas e grupos econômicos privados nacionais – mais “corruptas” e propícias à criação de “cabides de empregos” que as empresas privadas ou privatizadas, embora sujeitos que participaram diretamente da privatização da Telebras tenham pendurado depois durante anos seu paletó na cadeira de presidente de grandes grupos estrangeiros que retalharam entre si o mercado brasileiro de telefonia móvel e até mesmo o genro do Rei da Espanha, especialista em handebol, tenha participado da farra, ganhando milhares de euros para participar de reuniões do Conselho dessa mesma empresa na América Latina.

Com a aprovação da PEC do teto dos gastos – que nos obriga a limitar nossos investimentos estratégicos quando nenhuma das maiores economias do mundo utiliza um gesso semelhante – a entrega do pré-sal a gigantes internacionais como a Shell e a Exxon, a “venda” de refinarias e outros ativos da Petrobras a mexicanos a preço de banana; a propalada “privatização” da Eletrobras, do Banco do Brasil, e da própria Petrobras, apesar dessas empresas já serem, na verdade, “privatizadas” por terem ações em bolsa; a defesa da isenção de vistos para países que não nos oferecem reciprocidade, a crescente, e desigual, “cooperação” militar entre o Brasil e os EUA; a discussão da entrega da Base Espacial de Alcântara aos Estados Unidos, e a vitória da mentalidade privatista que afirma que somos incompetentes, como país ou Estado, para cuidar do que é nosso, estamos nos transformando cada vez mais, de fato e doutrinariamente, naquele sujeito que, incapaz de administrar sua casa, seus negócios e sua família, decide resolver o problema chamando o vizinho para colocar, no cinto, moral nos seus filhos, e dormir na mesma cama que a sua esposa, e, achando que está fazendo um grande negócio, coloca uma coleira e se muda, de mala e cuia, para a casa do cachorro.

Com o perdão da imagem e da carapuça – no caso, bem fornida na parte de cima – estamos correndo o risco de que nos transformem definitivamente, por abjeção explícita, no corno da rua entre os maiores países em PIB, território e população do mundo.

A criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, neste ano, com centenas de deputados e senadores, e sua interação com organizações dignas e centenárias como o Clube de Engenharia, mostra, no entanto, que a nação não está entregue, apenas, a uma patética e miserável estirpe de entreguistas oportunistas e invertebrados.

O recuo do governo em questões como a da Renca e do trabalho escravo nos diz que não há luta que seja em vão, quando estão em jogo os direitos do povo brasileiro e os perenes interesses da Pátria. É necessário, no entanto, que se amplie urgentemente a resistência e a mobilização em torno dessa e de outras bandeiras.

O país precisa, mais do que nunca, negociar a estruturação de uma frente ampla, nacionalista e antifascista, de Defesa da Soberania e da Democracia, neste momento.
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Como a Lava Jato beneficiou a principal concorrente do Brasil na África


Um dos mistérios da “delação premiada” é o que ocorreu com Mariano Marcondes Ferraz.

Graças aos seus conhecimentos na Petrobras, Mariano passou a representar duas empresas: a italiana Decal e a holandesa Trafigura.

A Decal é uma empresa italiana que trabalha com gestão para terceiros de terminais de petróleo e produtos químicos. Fatura 190 milhões de euros, ou o equivalente a R$ 703 milhões por ano. Mesmo para os padrões brasileiros, seria uma empresa média. E seu faturamento é quase 450 vezes menor que o da Trafigura.

A Trafigura é uma empresa suíço-holandesa, uma das maiores comercializadoras de petróleo do planeta. Fatura mais de U$$ 120 bilhões, ou R$ 384 bilhões ano. É a 54º maior empresa na lista da Fortune.

Ambas tinham três pontos em comum: os negócios com a Petrobras; o mesmo lobista, Mariano Marcondes Ferraz; e a mesma área de negócios, a Diretoria Internacional da Petrobras, sob supervisão do notório Paulo Roberto Costa. Donde se conclui que o grande trunfo do lobista comum, era o mesmo diretor Paulo Roberto Costa.

Eram diferentes as relações de Mariano com as duas empresas.

Na Decal, foi apenas um freelance que conseguiu um contrato com a Petrobras para a instalação de um terminal de tancagem e movimento de navios em Suape. Por conta do contrato, ganhou 5% de participação na empresa.

Já na Trafigura, Mariano fazia parte do Conselho mundial da empresa, ajudando a consolidar as relações com a Petrobras e com o mercado africano.

Sâo gritantes as diferenças de valores entre os contratos da Petrobras com a Decal e a Trafigura.

Entre 2004 e 2015, a Trafigura firmou contratos de afretamento de navios para a Petrobras no valor de US$ 169 milhões; entre 2003 e 2015, contratos de compra e venda de derivados no valor de US$ 8,7 bilhões, ou de US$ 580 milhões/ano. O último contrato da Decal com a Petrobras envolveu valores de R$ 56 milhões, ou US$ 18,7 milhões/ano, 31 vezes menor que os da Trafigura.

Não apenas isso.

Números
Trafigura
Decal
Trafigura/Decal
Faturamento Global (US$)
703.000.000
546 vezes
Negócios com Petrobras (US$/ano)
580.000.000
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A Decal atua em um mercado controlado. A Petrobras paga pelo uso dos terminais. O máximo que se consegue é o reajuste das tarifas.

Já a Trafigura opera no mercado de compra e venda de combustíveis, que chega a 300 mil barris dia de petróleo cru, a grande mina de ouro da corrupção.

A prisão de Mariano Marcondes Ferraz poderia abrir o leque de investigações da Lava Jato para uma macrocorrupção de dimensão global, dezenas de vezes maior que o da construção pesada, o da comercialização de combustíveis, conforme atestaram duas delações de pessoas chaves, Nestor Cerveró e Delcídio do Amaral.

Em sua delação, Nestor Cerveró revelou que os negócios de comercialização de combustíveis eram muito maiores do que o de afretamento de navios (clique aqui). Ambas as operações não precisavam ser aprovadas previamente pela diretoria e cada centavo, nas compras, equivalia a milhões de dólares, dizia Cerveró, “razão de sempre ter havido ingerência política no setor”.  Apontava como as maiores tradings do setor a Glencor e a Trafigura. E indicava Mariano Marcondes Ferraz como o grande operador de trading, “acreditando que estivesse vinculado à Glencor ou à Trafigura”.

Na página 80 da delação de Delcídio do Amaral, se lê:

DELCIDIO DO AMARAL tem conhecimento que uma das áreas mais cobiçadas da PETROBRAS e a de Abastecimento, principalmente, em razão da comercialização de petróleo no exterior, na medida em que são comercializados 300.000 barris diários de petróleo leve, em números atuais, isso representaria em media quase US$ 10 milhões por dia.

DELCIDIO sabe que as operações financeiras são todas feitas em Londres através de "brokers", tal modo de comercialização permite que pequenas variações no preço do petróleo representem altos ganhos aos seus principais operadores, dando azo a um terreno fértil para várias ilicitudes, vez que os preços podem ser alterados artificialmente,

No entanto, Mariano foi indiciado pelas operações relacionadas com a Decal. Dez dias depois de detido foi liberado, mediante o pagamento de irrisórios R$ 3 milhões, e o nome da Trafigura sumiu das investigações e do noticiário.

O que aconteceu com a chamada maior operação anticorrupção do planeta?

Vamos entender esse jogo em cinco movimentos

Movimento 1 – de playboy a lobista

O primeiro passo é saber um pouco mais de Mariano Marcondes Ferraz.

Uma consulta nos sites especializados indica que, até 2.001, sua atividade empresarial não sugeria o super-lobista global dos anos recentes. A única empresa da qual participava era a Blue Moon Produções Ltda., uma produtora de vídeos aberta em 16/10/1997 (clique aqui).

Era mais conhecido por suas festas, sua vida social e pelo fato de ser filho da mitológica Silvia Amélia de Waldner, neé Silva Amélia Melo Franco Chagas, como diria o colunismo dos anos 70, neta do cientista Carlos Chagas, casada em primeiras núpcias com Paulo Marcondes Ferraz e, no já longínquo 1973, com Gerard de Waldnere, um autêntico barão francês.

Dos tempos de solteira, tornou-se musa de Roberto Carlos e Tarso de Castro e deixou a imagem de uma jovem alegre e cativante, estrela de um único filme, “Roleta Russa”, de 1972. Do casamento com Paulo Marcondes Ferraz, restou o rebento Mariano que, até 2001 era mais conhecido pelas festas de arromba e pelas colunas sociais.

Um artigo no JB, no início dos 90, descrevia o playboy e dizia que ele arrumou emprego em uma multinacional só para fazer número. O artigo mereceu uma carta queixosa do rapaz ao jornal.

Mariano fazia parte de um grupo de playboys, os meninos maus de famílias boas, frequentadores do Baixo Leblon, como Júlio Lopes e Antenor Mayrink Veiga, com quem disputava campeonatos de conquista. Durante todos os anos 90, das 39 menções ao seu nome, no Jornal do Brasil, apenas duas não se referiam a conquistas ou a eventos sociais.

Uma de 1995, quando furou o pneu de um carro na calçada do Country Club que atrapalhava a passagem do carrinho de sua filha recém-nascida. E outra, do início da década de 90, anunciando a criação de uma corretora, com mais um amigo e o apoio do Banco Icatu, que acabou desaparecendo com a crise da Bolsa do Rio.

Frequentador assíduo da prestigiosa Coluna do Zózimo, aparecia ora dançando lambada com Elba Ramalho, destroçando corações com seu amigo Antenor Mayrink Veiga, ou sendo derrotado, em uma vibrante semifinal de tênis no Country Club, enfrentando o campeão amador Jorge Paulo Lehman.

Foi nesse ambiente, na divina decadência nos estertores do Rio internacionalizado, que naufragou com o crack da Bolsa de Valores, que Mariano montou sua rede de relações.

Aliás, o fim do Rio, como centro financeiro, mudou o destino de dezenas de filhos de famílias tradicionais, que historicamente mantinham contatos com o exterior, especialmente na fase áurea da internacionalização do Rio, do período da guerra até os anos 1970. Foram aproveitados nos novos bancos de investimentos, como quadros da AMBEV, e em outros setores abertos pela internacionalização da economia e onde contam as redes de relacionamentos internacionais.

Internamente, Mariano se valeu das ligações da família Marcondes Ferraz e, no plano internacional, certamente das ligações da mãe, baronesa de Waldner, com o alto mundo europeu.

Suas aventuras petrolíferas começaram em 2001.

Em 12/09/2001 montou a Up Offshore Apoio Maritimo Ltda, com capital respeitável de R$ 50 milhões. Em 10/07/2002 a Firma Consultoria e Participações Ltda, para atividades não especificadas e com a qual se tornou sócio da Decal Brasil.

Quando as cotações do petróleo explodiram e a Petrobras se projetou no mundo, a rede de relações de Mariano, no Rio e na Europa, passaram a valer ouro negro.

Especialmente porque, no mundo do petróleo, surgia um candidato a gigante que via na explosão das commodities, com o advento da China, e nas riquezas minerais da África e da América Latina - e na sua capacidade de suborno -, o seu grande salto.

Movimento 2 - A gigante Trafigura

E, aqui, faz-se uma pausa para conhecer melhor esse gigante, a multinacional Trafigura.

Nos grandes números, sabe-se que tem escritórios em 36 países. Hoje em dia é o segundo maior comercializador de metais e o terceiro maior comercializador independente de petróleo do mundo, comercializando mais de 4 milhões de barris de petróleo por dia (clique aqui).

A Trafigura nasceu em 1993 com um pecado original. Foi fundada por ex-colaboradores do empresário norte-americano Marc Rich, condenado por evasão fiscal em grande escala e depois indultado pelo presidente Bill Clinton. O grande líder do grupo era Claude Dauphin, um dos mais atrevidos gestores dos últimos 50 anos, falecido em 2015. Irônico, sagaz, parecido com Mr. Bean, incutiu na equipe princípios que aprendeu no mercado de commodities, como controle compartilhado, participação nos lucros, foco total na rentabilidade, vida regrada em público, evitando ostentações com a riqueza, regra seguida por quase todos os grandes bilionários que surgiram nas últimas décadas.

Em uma época de grandes terremotos na geopolítica mundial, Dauphin apostou fortemente na corrupção como componente intrínseco da sua estratégia, porque focada na busca de reservas minerais – petróleo, ferro e outros –, e em investimentos complementares em infraestrutura em países de baixo controle institucional e democracia não consolidada.

No obituário do fundador  Dauphin, falecido em 2015, explica-se sua estratégia:

 A decisão de seguir adiante foi devidamente justificada após a virada do milênio, com o crescimento dos mercados emergentes e a decolagem na demanda de minerais industriais. A existência de duas divisões de negociação possibilitou um negócio mais estável e diversificado, e permanece um pilar da estratégia da Trafigura.

(...)  Investimentos dirigidos em infraestrutura poderiam ajudar a empresa a obter acesso a volumes de negociação, especialmente em um momento de mudanças estruturais significativas nos fluxos comerciais internacionais.

A nova geografia mundial foi exemplarmente aproveitada pela empresa:

O crescimento de economias emergentes desde a China até a África e a América Latina gerou novos desequilíbrios no mercado e novas oportunidades globais de negociação para aqueles com os sistemas e infraestrutura necessários.

Em segundo lugar, houve uma aceleração na demanda de energia e matérias-primas industriais conforme as economias emergentes embarcavam em uma nova rota de crescimento, lideradas pela China.

Em um setor tradicionalmente corrupto, conseguiu algumas proezas. Como ser acusado pelo Greenpace de ter comprado os depoimentos de nove testemunhas da Costa do Marfim, para se safar de uma acusação de ter despejado lixo tóxico no mar. O que não impediu que Dauphin passasse seis meses na cadeia. Foi acusado também de ter desviado recursos de fundos humanitários da ONU, do programa de petróleo por comida montado na guerra do Iraque.

Nos últimos anos associou-se a fundos russos para investir pesadamente na Índia, em refinarias, tanques de armazenamento e infraestrutura de importação e exportação estrategicamente relevantes para Vladimir Putin.

O auge da corrupção foi a conquista da Angola. E aqui se juntam os destinos da Trafigura e do ex-playboy Mariano Marcondes Ferraz, que se tornou um dos meninos de ouro de Claude Dauphin.

Movimento 3 – Mariano e a conquista de Angola

Mariano entrou na Trafigura em 2009. E foi alocado para comandar a Puma Energy, o mais promissor braço de negócios da empresa.

A Trafigura adquiriu a Puma em 2000, com a intenção de construir uma rede de intermediários na cadeia da comercialização de petróleo.

Em 2010 surgiu a operação Angola, e a Puma ganhou uma posição estratégica. Criou uma subsidiária, a Pumangol, associação da DTS (a empresa que controlava a Puma) com a Cochan S.A., empresa criada em 6/04/2009, de propriedade dos principais políticos do país. A DTS ficou com 51% e a Cochan com 49%. E esse feito foi de responsabilidade de Jean-Pierre Valentini e Mariano.

Em 13/02/2014, o Foreign Policy  publicou reportagem detalhada da jornalista Michael Weiss sobre a corrupção angolana. Consultor chefe do Ministro de Estado e Chefe do Gabinete de Segurança e testa-de-ferro do presidente José Eduardo dos Santos, o General Leopoldina Fragoso de Nascimento tinha 15% da Puma Energy, em valor estimado de US$ 750 milhões, o que o fazia o segundo homem mais rico do país.

De acordo com a reportagem, além do general Dino, participam do regabofe o vice-presidente da República Manuel Vicente, e o general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”.


Além da Trafigura, a Cochan tornou-se parceira da norte-americana Cobalt International, que opera os blocos 9 e 21 do pré-sal angolano. A Cobalt está sendo investigada nos EUA por suspeitas de violação das leis anticorrupção.

Os ganhos da Trafigura foram monumentais.

Em agosto de 2010, o presidente José Eduardo dos Santos assinou cinco contratos de investimento com o grupo avaliados em US$ 931 milhões.

O contrato garantia à Trafigura monopólio virtual sobre as importações de derivados e venda da produção própria em Angola através de seus escritórios em Singapura.

Dessa sociedade nasceram a Angofret (de cargas e logística), a AEMR, explorando a indústria siderúrgica, ferro e manganês, a DT Agro, para projetos agropecuários, a DTS Commercial & DTS Refining, comercializando petróleo e derivados, e a DT Shipping, operando transporte marítimo, a DTS Serviços, de serviços financeiros, e a DTS Imobiliária.

Apenas as importações de produtos petrolíferos em Angola renderam 3,25 milhões de toneladas métricas de derivados de petróleo, contrato avaliado em US$ 3,3 bilhões.

Tratava-se de um megaescândalo internacional, motivado pelas descobertas do pré-sal angolano.

No site Africaintelligence, edição de 16/11/2016, Mariano era apresentado como protegido de Claude Dauphin.


Entre os administradores do referido grupo encontram-se também Claude Dauphin, um dos fundadores da Trafigura, e o brasileiro Mariano Marcondes Ferraz, considerado como o ponta-de-lança da Trafigura em Angola. Foi este último quem assinou os acordos com o executivo angolano, no valor de quase um bilião de dólares.

Por todos esses sucessos, em setembro de 2014 Mariano foi elevado à condição de um dos nove membros do Conselho da Trafigura. Seria o mesmo que pertencer ao grupo de sócios controladores de uma Inbev.

Afinal, a estratégia da Puma Energy, agora, se voltara para a América Latina, preferencialmente atrás dos ativos da Petrobras na Colômbia e no Chile.

Uma mera consulta ao DHS, o departamento do governo dos Estados Unidos incumbido da cooperação internacional, bastaria para se saber da dimensão do fator Trafigura. Mas o MPF brasileiro não se interessou.

Movimento 4 – a Lava Jato e a delação de Mariano

Desde 09/10/2014 a delação de Paulo Roberto Costa já vazara para a imprensa, através da revista Época, alertando Mariano e a própria Trafigura sobre o que vinha pela frente.

Dizia a matéria que Paulo  Roberto Costa

Entregou, também, multinacionais poderosas da indústria do petróleo, como Trafigura e Glencore, as grandes vendedoras de derivados de combustível no mercado internacional.

Quando a notícia vazou, advogados paulistas envolvidos com a Lava Jato perceberam que, ali, abria-se o leque para uma nova etapa, em que a corrupção se contava na casa dos bilhões. Batia-se no centro da mais deletéria das corrupções globais, a das empresas petrolíferas na África.

Após o vazamento, nenhuma medida preventiva foi tomada, visando resguardar provas, não se sabe de nenhuma investigação adicional. No fundo, o vazamento serviu para conceder dois anos de prazo para que Mariano e a Trafigura montassem suas estratégias de defesa.

Alertado pelo vazamento do MPF, nos meses seguintes Mariano tomou duas providências: em outubro de 2015 formalizou união com a atriz Luiza Valdetaro e a despachou para Londres com a filha, com a intenção óbvia de se mudar do Brasil; e tratou de montar seu álibi, junto com a Trafigura.

Quando se consumou sua prisão, não passou de jogo de cena, uma obrigação legal, já que seu nome foram mencionado em quatro delações.

No dia 26/10/2016, dois anos após o vazamento, a pedido do Ministério Público Federal o juiz Sérgio Moro autorizou busca e a prisão preventiva de Marcondes Ferraz.

Como a prisão se baseara nas delações, na fase inicial não havia modos de tirar a Trafigura do noticiáriol.


“Com a prisão preventiva do empresário Mariano Ferraz, detido no aeroporto de Guarulhos nesta quarta-feira, 26, quando estava prestes a embarcar para Londres, a força-tarefa da Lava Jato avança sobre uma área ainda não investigada na Petrobrás: o setor de compra e venda internacional de combustíveis e derivados”.

No pedido de busca e apreensão solicitado pelo Ministério Público Federal, e autorizado pelo juiz Sérgio Moro, (clique aqui) o nome da Trafigura aparecia claramente no mandado:

“Envolve o pagamento de propinas pelo Grupo Trafigura ou pela DECAL do Brasil, por intermédio de Mariano Marcondes Ferraz, ao então Diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, em decorrência de contratos com a estatal brasileira. Mariano Marcondes Ferraz, de nacionalidade brasileira, é um dos diretores executivos do Grupo Trafigura (http://www.trafigura.com/aboutus/leadership/board­member? Member=Mariano+Marcondes+Ferraz&Board=Board+Of+Directors).”

Mais. Mencionam delação de Paulo Roberto Costa atribuindo as propinas à Trafigura, representada por Mariano:

“Paulo Roberto Costa, ex­Diretor de Abastecimento da Petrobrás, revelou, após ter celebrado acordo de colaboração premiada, que a empresa Trafigura, representada por Mariano Marcondes Ferraz, ofereceu e pagou vantagem indevida em contratos da Petrobrás (termo de colaboração n.º 38, evento 1, anexo3).

No despacho em que autorizou a prisão preventiva de Mariano, eram elencados diversos motivos: o fato de ter dupla cidadania, de possuir recursos vultosos no exterior, de ter residência em Londres.

Apenas oito dias após sua prisão, Mariano Marcondes Ferraz foi liberado pelo juiz Sérgio Moro mediante a módica fiança de R$ 3 milhões, aceitando as explicações dos advogados do réu.

Os advogados explicaram que Mariano passou a morar em Londres devido à gravidez de sua esposa, com receio da epidemia de zika, por isso veio pouco ao Brasil; que todas as vezes que veio ao Brasil, foi publicamente, sem se esconder; e que a esposa pretende voltar ao Brasil etc.

Foi o que bastou, para conseguir a liberdade imediata, ampla total e quase irrestrita. A única proibição mantida foi a de viajar para fora do país.

Movimento 5 – a Trafigura desaparece da Lava Jato

Quando o escândalo explodiu, com a prisão de Mariano em 26/10/2016, a Trafigura já tinha pronta uma nota oficial, atribuindo as propinas para Paulo Roberto Costa exclusivamente às operações de Mariano com a Decal.

Essa versão foi imediatamente divulgada através de nota oficial e aceita pelo Financial Times e pela Reuters. Afinal, do lado das autoridades investigadoras, não havia nenhuma informação em contrário.

Nos meses seguintes Mariano contratou o advogado Figueiredo Bastos, o mais antigo e mais influente dos advogados das delações premiadas da Lava Jato. E a Trafigura magicamente sumiu do noticiário.

Quando saiu a denúncia da Lava Jato contra Mariano, a Trafigura não mais constava dela.


Síntese: Em 2006, a Petrobras contratou a Decal do Brasil para a prestação de serviços de armazenagem e acostagem de navios no Porto de Suape (PE), com prazo de duração de cinco anos. Ao final do contrato, havia resistência da estatal em realizar nova contratação da empresa, que insistia em renovar o contrato com preços majorados. Para resolver a situação a favor da Decal do Brasil, Mariano Marcondes Ferraz ajustou o pagamento de propina com Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da estatal petrolífera.

Na íntegra da denúncia apresentada, datada de 11/01/2017, o MPF encampa totalmente a versão de que Mariano operara apenas para a Decal. A Trafigura aparece em uma nota de rodapé, em uma citação do depoimento de Paulo Roberto Costa, com um sic – termo que serve para apontar inconsistências do autor original dos trechos citados. Isso, apesar da informação colhida pela Lava Jato de que Mariano estivera em 13 oportunidades na sede da Petrobras, todas em nome da Trafigura.

Em despacho no dia 02/03/2017 o juiz Sérgio Moro aceitou a denúncia. É uma sentença curta de 6 páginas. As duas primeiras são as referências de praxe ao esquema de corrupção na Petrobras.

Depois, sintetiza a denúncia contra Mariano, mencionando que a corrupção se destinava a beneficiar o grupo Trafigura e/ou Decal.

Igualmente, instruída com o teor do depoimento do colaborador Fernando Antonio Falcão Soares, no qual ele afirma haver participado de um jantar na residência de Paulo Roberto Costa, no qual estava também presente Mariano Marcondes Ferraz, e no qual teria sido discutida a renovação de contrato de aluguel de tanques que a empresa Trafigura mantida com a Petrobrás na Refinaria do Nordeste Abreu e Lima ­ RNEST, embora não tenha sido tratado especificamente do pagamento de propinas (anexo 15).

No despacho em que ordenou a prisão de Mariano, Moro deixava claro as dúvidas sobre as propinas, se provenientes da Trafigura ou da Decal.

Na página 6:

Não está totalmente claro se agiu, na ocasião, representando os interesses da Trafigura ou da Decal.

O despacho do juiz Sérgio Moro assegurava uma inédita tranquilidade a Mariano.
Tendo à sua frente um dos grandes lobistas internacionais, homem capaz de desvendar os segredos da corrupção da Trafigura no mundo, e tendo à sua mão a arma da delação premiada, Sérgio Moro e os procuradores nada fizeram.

No dia 17/10/2017 Mariano foi ouvido pelo próprio Moro e por procuradores.

Foi um interrogatório amável, de apenas 30 minutos, sem pegadinhas, sem agressividade. E sem nenhuma pergunta sobre a Trafigura.



No final, Moro indaga se alguém tem mais questão. Manifesta-se o procurador que considera o depoimento “bem completo” e se limita a indagar se houve algum contrato celebrado para disfarçar as propinas, entre outras perguntas igualmente irrelevantes. Quando saiu do Brasil? Passou a residir na Suíça? Todas as contas têm sua identificação? Quando saiu do Brasil deixou de pagar Imposto de Renda aqui?

Aos 27:52 minutos a audiência termina com uma formidável levantada de bola do procurador:

- Esse contrato da Decal com a Petrobras O senhor tem ideia de quanto representa de economia para a Petrobras em relação ao modelo anterior?

Modestamente, Mariano estimou em um ganho de R$ 30 milhões anuais para a Petrobras.

Seguiu-se uma breve sessão arrependimento de Mariano e a terminou com todos se dando por satisfeitos.

Movimento 6 – as razões inexplicadas

Como entender essa blindagem da Trafigura por parte da Lava Jato? Deslumbramento com um lobista internacional, frequentador do alto mundo, da mesma maneira que se deslumbraram com madames cariocas? Desinteresse pelo fato de não ter nada a declarar contra Lula? Displicência? Confirmação de que o único objetivo da Lava Jato era destruir as empresas brasileiras mais competitivas internacionalmente, especialmente as que atuavam na África? Suborno, através da indústria da delação premiada?

Hoje em dia, o portal da Lava Jato esmera-se em apresentar estatísticas sobre a maior operação anticorrupção do planeta. Não há explicações para o fato de ter estendido a rede, nela caído o principal tubarão da corrupção planetária, e a Lava Jato ter facilitado a sua fuga.

Não há explicações para a dupla vitória da Trafigura com a Lava Jato. De um lado, destruindo a influência brasileira em Angola, as principais concorrentes tanto no setor petrolífero quanto da infraestrutura, criminalizando financiamentos e até ação diplomática. De outro, por tê-la deixado escapar sem uma mancha sequer.

Manifestação do MPF

Em resposta às indagações do DCM e Jornal GGN, a Assessoria de Comunicação do Ministério Público do Paraná, respondeu o seguinte.

Boa tarde

Prezado,

A denúncia e ação penal em andamento referem-se ao pagamento de propina relacionada ao contrato da Petrobras com a Decal. Os demais fatos seguem sob apuração.

Sobre colaboração, a força-tarefa do MPF/PR não faz comentários sobre supostas negociações de acordos ou a existência ou não dos mesmos.

Att.

Rubens Chueire Jr.

Assessoria de Comunicação - Ascom
Ministério Público Federal no Paraná

Na quinta matéria da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, um mistério ainda não revelado: as ligações com Mariano Marcondes Ferraz, o lobista da Trafigura, concorrente da Petrobras. As outras matérias da série podem ser vistas aqui.

Luís Nassif
No GGN
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