3 de nov de 2017

Conexão de R$ 180 milhões entre Meirelles e JBS faz dólar disparar


Uma reportagem da revista Piauí revela que o ministro Henrique Meirelles recebeu nada menos que R$ 180 milhões entre 2012 e 2016 e assinou várias atas do conselho de administração da J&F, a holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, atualmente presos. 

O caso repercutiu imediatamente no mercado financeiro e foi tema de reportagem da agência Bloomberg. "Dólar mantém alta acompanhando o movimento da moeda no exterior. Também contribui para valorização o desconforto gerado pela notícia de que Henrique Meirelles teria assinado atas do conselho de administração da J&F, segundo reportagem publicada pela revista Piauí. Entre 2014 e 2016, a J&F registrou cinco atas do conselho de administração da holding, na Junta Comercial de São Paulo, que teriam sido assinadas pelo hoje ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, todas elas referentes à aprovação de contas, eleição e renúncia de conselheiros, segundo reportagem da revista Piauí publicada no site", diz o texto.

Alheio ao escândalo, Meirelles se colocou como presidenciável no fim de semana, embora tenha menos de 1% na mais recente pesquisa Ibope. “Sim, sou presidenciável. As pessoas falam comigo, me procuram, mas ninguém me cobra uma definição. No mundo político, por exemplo, dizem o seguinte: o senhor tem o meu apoio, estou torcendo para isso”, disse o ministro, completando, no entanto, que é “pé no chão” e não fará nada “baseado no entusiasmo”.

No 247
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Caçavam corrupção, financiados. Agora caçam o nu. Eles são a indecência


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Bolsonaro não é zebra


A zebra não é um dos animais do jogo do bicho.

Por isso, é um resultado impossível e serve como metáfora para aquilo que ninguém esperava acontecer.

Pois bem, é comum nas análises sobre as eleições de 2018 ouvir-se que o pré-candidato Jair Bolsonaro é zebra, mesmo com o desempenho crescente dele nas pesquisas recentes.

Será?

Pelo menos quatro fatores fazem crer que Bolsonaro imprimirá uma concorrência verdadeira nas eleições de 2018 e, assim, ele está no conjunto dos resultados possíveis.

Em primeiro lugar, diversas pesquisas mostram a violência como uma constante reclamação da população brasileira, independente do estrato de renda a que pertencem.

Além disso, outro problema continuamente apontado são as drogas que, contudo, a população compreende como sendo a principal causa da violência.

Ou seja, estes são problemas comumente relatados e que, para a população, estão intimamente relacionados.

Diferente de emprego e inflação, que são problemas que aparecem de acordo com a conjuntura, violência e drogas estão sempre entre as maiores queixas.

Ao apontá-las como problemas constantes com que convive, a população reclama, em outros termos, segurança e ordem, e são estas as duas principais bandeiras de Bolsonaro. Daí, inclusive, seu reconhecido caráter autoritário.

O segundo elemento a favor de Bolsonaro é a desordem política.

A operação Lava Jato vem confirmando o que há muito já se sabia, porém jamais de forma tão clara: a política brasileira é uma desordem plena, cujo único denominador comum reconhecido é a corrupção.

Diante de uma população desacreditada da classe política, Bolsonaro, que dela faz parte, porém ainda está ileso da Lava Jato, ganha crédito e ressonância.

Quando isso se soma ao seu perfil ordenador, intransigente, autoritário, o eleitor nele encontra uma opção para seus anseios imediatos, de segurança e ordem, social e política.

O terceiro ponto é o conservadorismo, espécie de cura para o medo coletivo, fruto da sensação de insegurança e desordem. Brexit e Trump são exemplos de conservadorismos construídos a partir da sensação de desordem que, para americanos e britânicos, a globalização e seu mundo com menos fronteiras e mais imigrantes, construiu.

No Brasil, a desordem tem outras naturezas, o caos político e o social, mas a resposta tem sido similar, polarização e, sobretudo, conservadorismo. E qual a escolha conservadora para 2018?

Não, a resposta não será zebra.

Por fim, um último fator é Bolsonaro não se construir como o anti-Lula, para surfar na rejeição ao ex-presidente.

A estratégia de ser o anti-Lula é a adotada pelo prefeito de São Paulo, João Doria. Porém, é uma estratégia que não convence, pois sugere pouco conteúdo e muito populismo, o “jogar para a torcida”.

Embora alguns achem Bolsonaro um populista no sentido ruim da palavra, como o é Doria, esta é uma análise incorreta.

As falas de ordem e segurança de Bolsonaro, bem como sua marca autoritária, não são de agora, mas o acompanham desde sempre. Isso o confere uma plataforma e uma identidade, algo requerido pelos que buscam um candidato.

Isso é ainda mais o caso quando há desejos conservadores mais aflorados, que normalmente temem a fluidez da modernidade.

Enfim, diversos elementos relevantes para a decisão do eleitor, que atendem seus desejos mais imediatos, porém não apenas de momento, como emprego ou salário, fazem historicamente parte da identidade política de Bolsonaro.

Por sua vez, a circunstância histórica está construindo a convergência destes anseios individuais com o perfil do pré-candidato, tirando-o da condição de zebra.

A história é repleta desses matches, e nos últimos dois anos Trump e Brexit servem de exemplo.

Que o exemplo sirva para não se subestimar o poder competitivo de Bolsonaro.

De outra forma, a narrativa de que ele é um mito pode se transformar em verdade.

Fossem tempos normais, valeriam posturas mais centrais, em termos das escolhas políticas do eleitor médio, que é o que decide a eleição.

Já tempos extremos…

Fábio Terra é professor da Universidade Federal do ABC
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Decreto canalha vende empresas estatais no feriadão!


BB, Caixa, Petrobras, Banco do Nordeste, Eletrobras - passar tudo nos cobres!

Michel Temer publicou no Diário Oficial da União de Hoje um decreto que coloca à venda todas todas as empresas de economia mista.

"Art. 1º Fica estabelecido, com base na dispensa de licitação prevista no art. 29, caput, inciso XVIII, da Lei nº 13.303, de 30 de junho de 2016, e no âmbito da administração pública federal, o regime especial de desinvestimento de ativos das sociedades de economia mista, com a finalidade de disciplinar a alienação de ativos pertencentes àquelas entidades, nos termos deste Decreto".

"§ 1º As disposições previstas neste Decreto aplicam-se às sociedades subsidiárias e controladas de sociedades de economia mista".

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Questão de guerra? Quem vai controlar as fake news eleitorais – Exército ou PF?


Num período em que tanto se discute a segurança do processo eleitoral na internet, e de tudo que o envolve, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, propôs que o Exército faça o monitoramento das chamadas fake news. OAB discorda: é atribuição da Polícia Federal.

De acordo com o Ministro Jungmann, o controle das chamadas notícias mentirosas (fake news) e da disseminação de notícias injuriosas ou mesmo caluniosas poderá ser feito pelo Comando de Comunicações e Guerra do Exército Brasileiro. Este departamento ficaria encarregado de identificar conteúdos e responsáveis pelas postagens consideradas falsas ou mesmo ilegais.

A proposta, no entanto, foi recebida com ressalvas por especialistas no campo jurídico, como, por exemplo, Eduardo Damian, presidente da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Estado do Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Damian definiu a que órgãos deve competir tanto o monitoramento quanto as investigações sobre fake News.

"Essa incumbência de investigar eventuais crimes cometidos pela internet através de fake news, através de afirmações injuriosas, caluniosas, difamatórias, é de competência da Polícia Federal", diz o membro da OAB-RJ. "Acredito que as Forças Armadas possuam outras atribuições para resguardar a soberania nacional, mas a Polícia Federal é o órgão de controle, de investigação, e auxiliar à Justiça Eleitoral nesse sistema. Então, a meu ver, essa é uma incumbência da Polícia Federal e do Ministério Público Eleitoral."

Eduardo Damian também se pronuncia sobre a segurança do processo eleitoral brasileiro no que diz respeito à utilização das urnas eletrônicas. Para o especialista, não há o que temer, pois "o sistema é absolutamente seguro" na medida em que é monitorado pelo Tribunal Superior Eleitoral, pelos Tribunais Regionais Eleitorais de todas as unidades da Federação, pelo Ministério Público Eleitoral, e acompanhado de perto pela Ordem dos Advogados do Brasil.

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Reforma de Macri viola derechos de trabajadores en Argentina


Líderes de organizaciones de trabajadores de Argentina denunciaron que el proyecto de reforma laboral que impulsó Mauricio Macri fue escrito por empresarios y vulnera sus derechos.

Los dirigentes de las dos Central de Trabajadores de la Argentina (CTA), Hugo Yasky y Pablo Micheli, denunciaron este viernes en rueda de prensa que el proyecto de reforma laboral que impulsa el gobierno de Mauricio Macri "viola en prácticamente en todos sus artículos el principio de la no regresividad del derecho laboral".

Ambos dirigentes exhortaron a los legisladores a votar en contra de dicha propuesta y anunciaron que organizarán plenarios intersindicales en todo el país para "discutir y difundir el rechazo, las razones del rechazo y generar acciones en contra de esta iniciativa del Gobierno".

"Este borrador de reforma laboral no fue hecho por asesores jurídicos ni laborales; fue escrito por empresarios. Está hecho directamente en la jefatura de alguna de las empresas que se habrán encargado de aportarle al gobierno el articulado del proyecto de ley (...). Es un proyecto que viola prácticamente en todos sus artículos el principio de la no regresividad del derecho laboral, violatorio de la Ley de Contrato de Trabajo", explicó Yasky.

Tanto Yasky como Micheli aseguran que, a diferencia de la reforma en Brasil, dicho proyecto no tiene posibilidades de realizarse en Argentina, ya que consideran que la constitución del país "desde 1994 incorporó a los tratados internacionales y que mientras no sea derogada, garantiza la progresividad del derecho social".

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Medo de nova vitória de Lula faz Veja apelar por terceira via em capa

Com a pesquisa Ibope mostrando a liderança de Lula, com 35%, e Jair Bolsonaro em segundo, com 15%, revista semanal usa sua velha prática de perseguição contra o ex-presidente, apresenta Lula e Bolsonaro como extremistas e pede um nome de centro para 2018.


Para não perder o costume, a revista Veja, da Editora Abril, reabriu a campanha do medo contra Lula. Diante da pesquisa Ibope, que mostra o ex-presidente com 35% e Jair Bolsonaro com 15%, enquanto as forças alinhadas com o golpe de 2016 continuam incapazes de produzir um candidato competitivo, a revista semanal retrata Lula e Bolsonaro como extremistas e faz um apelo por um nome de centro.

Bolsonaro, de fato, é um extremista de direita e é o resultado da campanha de ódio plantada pelo PSDB e por meios de comunicação, como Veja, contra o petista. Contudo, Lula foi presidente por oito anos, deixou o cargo com 87% de aprovação, batendo recorde mundial, e já deixou muito claro que não é extremista.

“A experiência de seus oito anos de governo comprova que ele sempre atuou como um fator de contenção de atritos entre as classes sociais e promoveu um ciclo de desenvolvimento em que todos progrediram. Tanto ricos como pobres, embora estes tenham maior gratidão e também uma melhor compreensão da falência do sistema político brasileiro e da importância de Lula para conduzir o País a um novo ciclo de paz e progresso”, relata o jornalista Leonardo Attuch, no artigo O Brasil caminha para o impasse político.

É por isso mesmo que ele cresce, refaz alianças e se consolida como o favorito para devolver ao Brasil a democracia que foi roubada pelo golpe.

No Fórum
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Maduro anuncia reestruturação da dívida externa da Venezuela e aumenta salário mínimo em 30%

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou na noite desta quinta-feira (02/11) que o país vai reestruturar e refinanciar sua dívida externa. O anúncio veio no mesmo dia em que o governo decidiu aumentar em 30% o salário mínimo e as aposentadorias em vigor.

“Amanhã [sexta] temos que pagar o total de 1,12 bilhões de dólares de bônus PDVSA [a companhia de petróleo do país] 2017 e tenho dinheiro para cumprir esta obrigação”, afirmou Maduro. “Tenho dinheiro para este pagamento, assim como tenho dinheiro para as exportações que necessitamos em matéria-prima, medicamentos, alimentos”, disse.

Segundo a agência estatal AVN, a reestruturação é uma “reforma” com o objetivo de “cobrir a as necessidades do país em matéria de alimentação, moradia, saúde, educação, segurança e recreação.”

“Vamos fazer uma reforma completa dos pagamentos externos para alcançar o equilíbrio. Vamos romper os esquemas internacionais. São bons para nos cobrar, mas a Venezuela não tem acesso ao refinanciamento de bônus?”, questionou o presidente, que criou uma comissão, liderada pelo vice-presidente Tareck El-Aissami, para liderar as conversas de renegociação.

Nos últimos quatro anos, a Venezuela pagou mais de 70 bilhões de dólares de dívida. No entanto, o risco país continuou alto – acima dos 3.000 pontos – em uma demonstração que do que analistas financeiros chamam de “ataque financeiro” contra Caracas.

Salário mínimo

Maduro também anunciou um aumento de 30% no salário mínimo e nas aposentadorias no país. Com o reajuste, o salário passa de 136.544 bolívares para 177.507 bolívares.

Além disso, 4 milhões de famílias venezuelanas irão ganhar um bônus de 500.000 bolívares para o Natal.

"Aprovei os recursos para entregar um bônus natalino especial para 4 milhões de famílias. São 500.000 bolívares de um bônus por meio do carnê da pátria", disse Maduro. O carnê é um cadastro do governo que gerencia a distribuição de comida subsidiada e outros benefícios sociais.

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Como surgiu a reprodução sexual?


O jogo da ciência

A ciência pode ser vista como um jogo de enigmas cujas regras são as seguintes: inventa-se uma pergunta e tenta-se respondê-la. A construção da pergunta é uma das partes mais importantes do jogo (perguntas bem formuladas favorecem boas respostas, perguntas mal feitas induzem os jogadores a erro). Formulada a pergunta, tenta-se encontrar uma resposta para ela. Boas respostas devem ter conteúdo informacional, ou seja, devem excluir algumas possibilidades. Sugeridas as respostas, deve-se testá-las, quero dizer, tentar mostrar que são falsas. Boas teorias se impõem, tornam-se inegáveis, impossível encontrar qualquer outra possibilidade que não as impostas pela teoria.

Nas linhas que seguem descreverei o meu mais belo gol nesse jogo da ciência. Torçam comigo, ao som dos tabores e sob a agitação de bandeiras. A ciência é uma caixinha de surpresas. Tundundundum...

Antes de começar o jogo, no entanto, precisarei apresentar os pressupostos sobre os quais construí a teoria.

Cooperação: a evolução do mutualismo

A evolução biológica é uma decorrência da seleção natural. Replicadores mais aptos, mais capazes de se replicar (fazer réplicas de si mesmo), multiplicam-se mais que os outros, impondo-se desse modo, tornando-se cada vez mais numerosos, sendo esse o princípio básico da evolução.

Pela simples razão exposta acima, o processo de seleção natural impõe certas dinâmicas. Uma delas consiste em uma tendência a interações amigáveis, conforme explicarei.

Suponha o surgimento de uma doença letal, virulentíssima, capaz de matar suas vítimas em um dia. Coisas assim podem emergir. Bastaria, para isso, apenas a ocorrência de uma mutação exatamente errada em algum dos inúmeros seres com os quais convivemos.

Após infectar e matar a primeira pessoa, a doença mortal, então, se espalharia, atacando aqueles que tivessem tido contato com o doente. Esses infelizes morreriam no primeiro dia, infectando outras pessoas durante esse tempo. Seria uma epidemia catastrófica, mas, se imposta uma quarentena, em um dia todos os portadores da doença morreriam. Em seguida, esterilizando-se o ambiente, a doença desapareceria.

Suponha que, no meio tempo, no entanto, tenha surgido uma variante menos letal da doença, uma que matasse em 2 dias. Embora mais branda, essa variante tenderia a matar mais pessoas, já que os infectados viveriam por mais tempo, tendo, por isso, maior probabilidade de infectar mais gente.

Reduções ainda maiores na letalidade ampliariam esse resultado perverso, de modo que se a doença passasse a matar em 4 dias, teria esse tempo para se propagar após contagiar alguém. Matando em 8 dias as possibilidades de contágio aumentariam, o mesmo valendo para qualquer outro aumento no tempo de vida dos infectados.

Sob o ponto de vista das pessoas, tudo isso seria horrendo, catastrófico. Sob o ponto de vista da infecção, no entanto, ela estaria evoluindo e se tornando mais apta. Note que as linhagens muito letais tendem a se extinguir muito rapidamente, enquanto linhagens mais brandas tendem a se propagar e perdurar mais. Essa propensão tenderia a conservar variantes cada vez menos letais.

Uma linhagem que matasse em um ano teria muito mais tempo para se propagar. Matando em 10 anos, isso se acentuaria; em 100 anos, ainda mais!


Esse fenômeno acontece com todas as infecções que nos ameaçam, por exemplo, com a AIDS. Quando surgiu, nos anos 80 a AIDS arrasava e matava os infectados em pouquíssimo tempo. As formas mais brandas da doença, as que demoram mais a se manifestar e não debilitam nem matam os doentes tão drasticamente vão se multiplicando, enquanto as linhagens mais agressivas tendem a desaparecer. A AIDS não é mais tão agressiva quanto nessa época.

Agora imaginemos a evolução do sistema durante um longo tempo. Linhagens muito letais vão sendo substituídas por linhagens menos letais, até que a infecção acabe por se tornar tão branda que inócua. Mas, suponha, então, que novas mutações acrescentem a essa linhagem anódina, certo potencial para melhorar a vida do infectado. É possível, por exemplo, que algum ser infectante inócuo sofra mutação que o torne produtor de uma dada vitamina. Oh! Nesse caso, o portador da infecção passaria a suprir uma necessidade alimentar do hospedeiro sem custo para este. Recebendo o agente infectante, chamemo-lo, agora, simbionte, os indivíduos infectados obteriam vantagens com a infecção, tendendo a viver por mais tempo que outros, favorecendo, com isso, também, seus simbiontes que, desse modo, obteriam mais tempo para sua própria disseminação. Quanto mais benéfica uma linhagem de simbiontes para seus hospedeiros, maiores serão suas possibilidades de se disseminar.

Esse processo é bem conhecido há muitas décadas. Descreve a tendência dos parasitas de se tornarem menos deletérios e letais, com o tempo, e a prossecução do processo até a transformação dos seres em simbiontes capazes de favorecer os infectados. A flora intestinal ilustra esse nível de cooperação entre os organismos. Em um nível ainda posterior, a associação se tornaria tão emaranhada, que os seres se tornariam dependentes, uns dos outros.

Acredita-se ter sido essa a origem dos animais, colônias de seres infectados por mitocôndrias, originalmente, seres parasitas. Também teria sido a origem dos vegetais, infectados originalmente pelos plastos. Tanto as mitocôndrias quanto os plastos possuem DNA próprio e se reproduzem independentemente, consistindo, provavelmente, em descendentes de parasitas que passaram por todas as etapas acima.

Golaço! Lembro que exultei ao ler isso em “O gene egoísta”, de R. Dawkins. Recapitular essa belíssima passagem é como rever um gol. Tornemos ao jogo.

Como surgiu reprodução sexual nos animais?

A forma sexual de reprodução parece constituir um enorme contrassenso por várias razões:

A forma preexistente de reprodução funcionava perfeitamente e de maneira mais simples, havendo só um tipo de indivíduo. O modo sexual de reprodução é muito mais difícil e complexo em todos os níveis do processo.

É extremamente antieconômica já que, aproximadamente, a metade do esforço reprodutivo é “desperdiçada” na produção de machos. A longo prazo, essa diferença vai se multiplicando e adquirindo quantidades assombrosas decorrentes do crescimento exponencial. Na décima geração, o potencial de geração de fêmeas a partir da reprodução assexuada é 1000 vezes maior que na sexuada, na vigésima, isso sobe para 1.000.000.

      

A reprodução sexual gera outras dificuldades, como a necessidade de encontro entre machos e fêmeas. De maneira geral, no entanto, podemos descrever o modo de reprodução sexual como uma inovação onerosa, dados os gastos com machos; e dificultosa, devido à necessidade de dois tipos distintos (machos e fêmeas). [Esse obstáculo pode ser superado por seres hermafroditas, sugerindo ter sido esse o primeiro modo de reprodução sexual, que teria consistido, assim, apenas em uma complicação desnecessária, mas não tão onerosa].

Como tal complicação teria se imposto em alguma linhagem? De que maneira uma espécie teria passado a complicar uma ação já executada a contento e de modo mais simples e eficiente?

Perguntas como essas costumam ter como resposta algum processo adaptativo. Se um dado evento, ou processo, propicia vantagem seletiva para um dado grupo, ou seja, se facilita a replicação e consequentemente, a multiplicação desse grupo, o processo tende a se espalhar.

A reprodução sexual tende a proteger as espécies de seres grandes (visíveis a olho nu) – muito complexos e que tendem se replicar a uma taxa muito lenta, mantendo número relativamente pequeno de indivíduos –, contra parasitas, por propiciar maior diversidade genética aos organismos (o parasita capaz de matar um ser, tem capacidade de matar todos os seus clones). Tal proteção, no entanto, não propicia uma vantagem seletiva imediata.

Penso que tais vantagens, como todas as outras associadas a esse modo de reprodução, manifestam-se, apenas, passado longo tempo, quando as dificuldades associadas ele já deveriam tê-lo eliminado. Mas, sendo assim, o que teria levado uma espécie a complicar as coisas para ela mesma, reproduzindo-se sexualmente?

A origem da reprodução sexual

Consideremos os primeiros animais já possuidores de órgãos diferenciados a singrar os mares. Embora a divisão de tais seres seja pensável, duplicar e dividir órgãos tende a dificultar esse processo. Seres complexos, estruturados em órgãos, replicam-se mais facilmente através da construção de células embrionárias independentes que, posteriormente, dividem-se e diferenciam-se nos vários tecidos que compõem o indivíduo adulto.

Chamemos essa célula original de ovo.

Originalmente, os animais produziam ovos e os lançavam ao mar, onde as células que os compunham se dividiam sucessivamente até atingir a conformação adulta, quando tais indivíduos passavam a lançar seus próprios ovos, fechando o ciclo.

Imaginemos um minúsculo parasita livre-natante infectando os seres marinhos. Ele encontra um ser, preferencialmente embrionário, um ovo, normalmente frágil, infecta esse ser e se reproduz em seu interior. Talvez a infecção acabe matando o hospedeiro. A dinâmica parasita/hospedeiro, no entanto, sugere uma atenuação constante, ao longo do tempo, da agressividade do parasita: linhagens menos agressivas, que evitam danos ao hospedeiro, tendem a se perpetuar, enquanto as linhagens agressivas pagam o preço por eliminar o hospedeiro do qual sobrevivem.


Assim, o parasita acaba se adaptando para conseguir conviver longamente com o hospedeiro, infectando-o desde o ovo, multiplicando-se enquanto o hospedeiro cresce e se desenvolve. Uma boa estratégia para poupar o parasita, garantindo assim a continuidade do próprio sustento, pode consistir no enquistamento do parasita, concentrado assim, em um único ponto, permanecendo ali quase inerte esperando... esperando o momento de reprodução do hospedeiro, quando ele e outros de seu tipo depositam seus ovos, talvez conjuntamente, de maneira a saciar os predadores. Quando na época da postura, o parasita poderia “acordar”, se multiplicar, e se lançar às águas, livremente, em uma enorme nuvem de minúsculos seres em busca de seus próprios hospedeiros. Uma estratégia assim talvez perpetuasse a linhagem de parasitas, poupando, também, a de hospedeiros, e enlaçando-os, ambos, em um relacionamento tendente à redução de prejuízo e aumento de benesses recíprocas; quero dizer, o tempo se encarrega de fazer prosperar as linhagens tendentes às reações mutualísticas, favoráveis a ambas, e de eliminar linhagens funestas. Pode-se imaginar duas linhagens paralelas de parasita/hospedeiro dependentes uma da outra, coexistindo em benefício mútuo.

Uma relação tão íntima entre as duas espécies poderia permitir, mais de uma vez, a ocorrência de um acidente notável; a incorporação do material genético do hospedeiro ao parasita, que pode passar a utilizar o sistema de reprodução celular do hospedeiro para a fabricação de seus próprios descendentes, misturando com o dele seu material genético.

O surgimento de um parasita que carregasse o material genético do hospedeiro consistiria em um surpreendente e eficientíssimo retroparasitismo efetuado pelo hospedeiro! Ao infectar um novo hospedeiro, o parasita garantiria, não apenas, sua própria reprodução, mas também a de seu hospedeiro, disseminando o seu genoma.

Imaginemos um parasita infectante de ovos, como o descrito acima, carregando consigo o genoma de seu hospedeiro e inoculando-o em outros ovos! O resultado seria contundente: um único hospedeiro/parasita poderia, desse modo, reproduzir-se de uma maneira estrondosa após disseminar uma vasta quantidade de parasitas portadores de seu próprio genoma. Em vez de gerar apenas seus ovos, esse indivíduo usaria seu parasita para perpetuar sua linhagem propagando assim o seu próprio genoma, de uma maneira extremamente econômica.

               

Que vantagem imensa poder se reproduzir desse modo tão barato, gerando uma infinidade de minúsculos portadores teleguiados de seu genoma, em busca de ovos. O gasto com um único ovo, poderia ser trocado pelo investimento em dezenas, talvez centenas de minúsculos parasitas.

Quanto ao “amável” parasita, tão solícito em disseminar o genoma do hospedeiro, em ajudá-lo tão eficientemente em sua replicação, deve ser tratado com amabilidade equivalente. Quanto mais bem tratado for o tão prestativo “parasita”, mais ele retribuirá. Quanto mais um deles for multiplicado, mais o outro o será. Enlaçando genótipos, ambas as criaturas, parasita e hospedeiro, entrelaçam-se, elas mesmas, selando seus destinos em um só.

Essa é a origem do espermatozoide.

Os indivíduos infectados pela parceria composta pelo retroparasitismo adquiririam uma forma diploide, (isto é, contendo 2n cromossomos, 2 conjuntos genômicos completos), incorporando o genoma haploide do hospedeiro/parasita ao seu próprio. Formas diploides tendem a adquirir certa robustez, fortalecidas pela eventual heterozigose.

Cada uma das linhagens infectadas pela surpreendente criatura viriam a se beneficiar do mesmo modo de reprodução barata propiciada pela disseminação parasitária.

Haveria, no entanto, um grave problema, recapitulemos:

O primeiro parasita retroinfectado teria gerado um indivíduo diploide infectado.

O genótipo desse indivíduo seria disseminado pelas miríades de parasitas que o infectassem, atacando seres comumente haploides e gerando seres triploides; esses gerariam tetraploides, e assim por diante, aumentando descontroladamente o material genético dos seres, gerando enorme instabilidade.

Essa instabilidade genética desfavoreceria a seleção, já que a “reprodução” dos seres não copiaria o genoma, mas o modificaria, ampliando-o.

Surgimento da meiose

Qualquer linhagem que conservasse a quantidade de cromossomos conseguiria a enorme vantagem da estabilização, o que poderia advir de um “erro”, interessante:

A divisão celular, a maneira de multiplicação das células, exige uma fase de duplicação cromossômica, quando todo o material genético da célula é duplicado, e posteriormente separado, indo cada metade idêntica desse material para uma das células. Um “erro” providencial, estabilizador, consistiu na repetição dessa última etapa quando na produção dos gametas.

A dupla divisão celular após a duplicação cromossômica reduz o número de cromossomos à metade, gerando assim gametas haploides que se completam ao se unir a seu par gerando seres diploides que recompõem o ciclo, dividindo duplamente suas células germinativas, posteriormente.

A estranha relação parasítica resulta assim, surpreendentemente, em um ser sexuado!

O parasita acabaria, dessa forma, por se tornar o vetor da reprodução de seu hospedeiro, garantindo assim o enorme sucesso de ambas as linhagens!

Um fator adicional surpreendente potencializou ainda mais o fenômeno. O parasita, caçador de ovos, não precisava ser muito exigente em sua escolha, atacando ovos em geral. A infecção de tipos diferentes do de seu hospedeiro tendia a ser arriscada para o parasita. Novos hospedeiros tratariam o agente infectante dessa forma, como agente infectante, que ele realmente é, “desconsiderando” seu potencial imenso como ajudante na confecção de suas próprias cópias. Tenderiam, por isso, a contragolpear o parasita.

Parasitas, no entanto, costumam estar preparados para isso, nesse caso, com um trunfo adicional: o genoma de outro hospedeiro. Ao infectar um novo hospedeiro, o parasita injetaria nele o genoma do antigo hospedeiro. Ambos os genomas lutariam pelo controle da célula, chegando, provavelmente, a um acordo intermediário, compartilhando, ambos, o governo da célula. O genótipo infectado, naturalmente, tenderia a favorecer seu aliado prestativo, o parasita, proporcionando-lhe as melhores condições de sobrevivência e replicação! E, desse modo, todos os 3 seres ganhariam com o sistema cooperativo já previamente desenvolvido por 2 deles. O resultado seria uma verdadeira explosão genômica, a criação de uma enorme diversidade de seres a compartilhar o surpreendente vetor parasítico de disseminação. Uma vasta diversidade de espécies tenderia a resultar de um tal processo.

E assim teria surgido a reprodução sexual entre os animais, com o parasita transformado em espermatozoide, encarregado da detecção e infecção, ou melhor, fecundação dos óvulos.

Desse modo as linhagens infectantes obtiveram enorme vantagem reprodutiva infectando as outras quase sem esforço. O parasita se incorporou definitivamente ao hospedeiro, assim como as mitocôndrias já o haviam feito. Depois de certo tempo, as espécies desenvolveram mecanismos de isolamento reprodutivo, gerados para garantir a estabilidade genômica, em uma espécie de reserva de mercado para a própria linhagem, evitando a infecção por parte de espermatozoides estranhos.

Junto com tais mecanismos de defesa foi criado também um outro, para garantir a infecção do óvulo por apenas um único espermatozoide.

Até hoje, os espermatozoides mantêm a aparência dos animálculos infectantes originais.

E assim teria surgido a reprodução sexual. Êe ôooo, ê ê ôoo, êe ôo êe ôo êe ôo!


Em tempo: incidentalmente, isso explicaria, também, a explosão cambriana, um momento surpreendente e, até agora, inexplicado na história evolutiva do planeta, quando, após bilhões de anos de morosidade evolutiva, uma explosão de vida gerou, repentinamente, uma vasta diversidade de seres, muito mais complexos e diferenciados que os anteriores.

A explosão cambriana teria sido o resultado da implementação da reprodução sexual entre os animais. Uuuuuuuhhhhhhllllllll!

Gustavo Gollo
No GGN
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No mapa, o trabalho escravo no Brasil


Levantamento mostra presença de empreiteiros entre a maioria dos empregadores, composta por fazendeiros e empresários do agronegócio. Irmão da senadora Kátia Abreu, que estava na lista divulgada pela Globo, é o único ausente na nova lista do MTE

Na última sexta-feira (27), o Ministério do Trabalho publicou nova versão da lista dos empregadores autuados por submeter trabalhadores a condições análogas a escravos. A publicação veio apenas após decisão judicial que obrigou a pasta a divulgar o arquivo – a última atualização oficial havia ocorrido em março deste ano. A Pública reuniu todos os 131 empregadores da lista no mapa abaixo, que batem com o arquivo divulgado em reportagem do Fantástico, exceto por uma ausência: o pecuarista Luiz Alfredo Feresin de Abreu, irmão da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), autuado em 2013 por empregar trabalho análogo ao escravo em três fazendas em Vila Rica, no Mato Grosso.

Feresin cumpriu um Termo deAjustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e, pelas próprias regras do cadastro, teve seu nome retirado da lista.

Estabelecimentos incluídos no cadastro do trabalho escravo

Fonte: Cadastro de empregadores do Ministério do Trabalho

De todas as cidades brasileiras, Belo Horizonte é que tem mais empregadores listados no mapa: quatro são do setor de construção civil e mercado imobiliário e um, de restaurantes. Uma das empresas é a Garra Engenharia, autuada pelas condições de trabalho de cinco imigrantes baianos em uma obra. Eles viviam no próprio canteiro, em uma casa com janelas tampadas por chapas de madeira e uma porta improvisada com um colchão velho. Conforme o auto do MTE, durante o dia, recebiam água e comida – almoço e jantar –, mas, à noite e nos finais de semana, ainda no trabalho, tinham de tirar do bolso para comprar alimento. Disseram para eles que, se partissem em menos de dois meses, pagariam os exames médicos obrigatórios. Seria mais um gasto, além dos R$ 250 que cada um tinha pago ao homem que os trouxe da Bahia com a promessa de trabalho na obra em Belo Horizonte.

O diretor da empreiteira, João Nimer Filho, questiona a inclusão no cadastro e alega que os trabalhadores enfrentavam na Bahia condições mais degradantes. “Se você falar ‘João, o apartamento era uma maravilha?’. Não, não era uma maravilha. Mas longe de ser trabalho análogo ao escravo […] Araci, na Bahia, tem uma única fonte de renda, a palma para fazer o sisal, inclusive mutila muitas pessoas porque as máquinas são precárias. […] Eles disseram ‘não queremos ir embora porque Araci é R$ 10 por dia, quando tem serviço’” contrapõe.

Para o auditor fiscal do trabalho em Minas Gerais, Athos de Vasconcelos, a vulnerabilidade dos trabalhadores vindos de regiões pobres é explorada pelos empregadores – e o motivo porque se submetem a condições de trabalho precárias.  “Historicamente há problemas [de trabalho análogo ao escravo] em áreas rurais, principalmente em áreas mais isoladas, mas, de uma década para cá, mais intensamente, começaram a aparecer esses casos na construção civil e na confecção, geralmente explorando trabalhador do próprio país, migrantes de regiões pobres, e também de trabalhadores imigrantes que chegam ao Brasil do Haiti, da Bolívia”, comenta.

Número de empregadores na lista do trabalho escravo por estado

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*Os estados ausentes não tiveram empregadores listados no cadastro atual
Fonte: Cadastro de empregadores do Ministério do Trabalho

Minas Gerais é o estado que lidera o cadastro: dos 131 empregadores listados, quase um terço é mineiro. De acordo com a coordenadora do projeto de combate ao trabalho análogo ao escravo de Minas, Dolores Jardim, “não significa que Minas tenha mais trabalhadores [em situação de trabalho escravo] que outros estados, mas que estamos atendendo a demanda [de fiscalização] por uma questão de gestão”. São 19 gerências no estado, todas com auditores treinados pelo projeto.

O Pará, em comparação, o segundo estado com maior número de empregados na lista, possui apenas um coordenador fixo para combater o trabalho escravo. Os demais auditores são convocados de acordo com a demanda e a disponibilidade dos recursos — escassos. A Superintendência do MTE em Belém, por exemplo, está sem telefone há meses. “Quando tem verba, quando tem dinheiro para colocar gasolina nos carros, quando tem dinheiro pra diária, essas equipes vão a campo combater o trabalho escravo. Está um caos administrativo, está sem telefone, a empresa de limpeza ainda não foi contratada, aqui no Pará nós realmente ficamos numa situação muito difícil”, diz Othavio Paixão, auditor fiscal do trabalho no Pará.

Agricultura é o setor econômico que tem mais patrões no cadastro (31%), a maior parte em lavouras de café (14% do total de empregadores). Em seguida, está a criação de animais (25%), com predominância do gado para corte (19%). Em terceiro lugar, empatados, estão a construção (8%) e o setor madeireiro (8%). Segundo a ONG Repórter Brasil, trabalhadores que se endividam antes mesmo do primeiro salário, com jornadas exaustivas, sem descanso semanal remunerado e, em alguns casos, sem banheiro, foram os motivos que levaram duas gigantes da agroindústria, a JBS Aves e a Sucocítrico Cutrale, a figurar na lista.

Setores dos empregadores na lista do trabalho escravo

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*A categoria outros considera os setores de joias, lazer, pesca, restaurantes, comércio, energia elétrica e vestuário
Fonte: Cadastro de empregadores do Ministério do Trabalho

Para o auditor Athos de Vasconcelos, o número de empregadores listados por explorar trabalho escravo seria ainda maior caso houvesse recursos compatíveis com as necessidades de fiscalização. “A quantidade de casos é subnotificada, para usar uma terminologia da área de saúde. A nossa categoria está cada vez mais diminuída na quantidade. Ao longo dos últimos 20 anos, perdemos muitos quadros, a maioria deles por aposentadoria, e os governos não fizeram os concursos necessários para fazer a reposição. Quando se divulga uma lista com mais de 130 empregadores que cometeram esse crime, poderia ser muito maior”, avalia.

A coordenadora da fiscalização em Minas Gerais, Dolores Jardim, aponta uma queda na verba mais acentuada a partir de 2017. “A gente trabalhava com folga de recursos e agora temos que planejar ação por ação e pedindo esse recurso. A conta-gotas. Afetou a fiscalização de uma forma geral. Como o trabalho escravo utiliza mais, para viagens, foi o mais atingido”, pondera.

O MTE afirmou à reportagem que “o combate ao trabalho escravo é uma ação prioritária da pasta” e que tem “remanejado recursos e buscado alternativas para a realização de ações”. O ministério ainda afirmou que em 2016 “foram realizadas 146 ações de combate ao trabalho escravo”.

Disputas pelo futuro da lista do trabalho escravo

A inclusão de empregadores no cadastro de trabalho escravo é questionada por organizações como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), para a qual empresas podem ser acusadas injustamente “em função de posições subjetivas e até ideológicas de fiscais”; pela Frente Parlamentar Agropecuária, que afirma que a legislação “permite compreensões distintas por parte dos fiscais responsáveis pela autuação, causando insegurança jurídica para o setor”; e pela própria direção atual do MTE, que afirmou que o cadastro de empregadores “deve coexistir com os princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório”.

Pública conversou com uma fonte do MTE que pediu sigilo e afirmou que a lista mais recente, divulgada inicialmente pela Globo e, depois, publicada após sentença da Justiça do Trabalho do Distrito Federal, teria vindo a público neste momento caso a decisão coubesse ao ministro Ronaldo Nogueira (PTB). A assessoria do MTE não quis comentar a divulgação da lista pela Globo e afirmou que responde apenas pelas publicações oficiais.

De acordo com o procurador do trabalho da Coordenadoria Regional de Combate ao Trabalho Escravo do MPT do Pará, Roberto Ruy Netto, a Portaria 1.129 – que alterou os critérios para classificação de trabalho análogo ao escravo e os procedimentos dos auditores fiscais – excluiria boa parte dos empregadores que hoje figuram no cadastro e ainda poderia levar à não publicação de listas futuras. “Você não precisa ter o trabalhador acorrentado para caracterizar trabalho escravo […] basta ter uma condição degradante de trabalho, onde ele esteja alojado em barracões de lona, bebendo água que não seja potável. São trabalhadores que são aliciados em bolsões de pobreza com falsas promessas e muitas vezes acabam endividados porque já têm que pagar o transporte, a ferramenta; quando ele recebe o salário, já está endividado. A portaria vem justamente tentar descaracterizar essa situação: só é escravo agora se houver vigilância extensiva, se houver restrição da liberdade desse trabalhador. O trabalho degradante seria uma mera irregularidade trabalhista”, critica.

Para a procuradora da República e representante do Ministério Público Federal (MPF) na Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo, Ana Carolina Roman, a disputa em torno da inclusão de empregadores no cadastro é a pauta principal dos empregadores acusados de trabalho escravo.“Ficou muito claro: a preocupação do setor produtivo não é com a condenação administrativa, não é com a condenação criminal, é com a lista suja. A lista é o coração da política de combate [ao trabalho escravo]. É a lista que vai rescindir crédito, que vai deixar mal a empresa perante importadores, o setor produtivo, os consumidores”, analisa. A Portaria 1.129 está atualmente suspensa por decisão monocrática da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber. A decisão deve ser julgada em votação no plenário do tribunal.

Bruno Fonseca
No A Pública
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MBL e Frota entram em parafuso com palestra no Brasil de economista liberal e transgênero

Deirdre McCloskey
Deu um tilt nos kataguiris do MBL.

Na próxima terça, dia 7, o Centro Ruth Cardoso, em São Paulo, recebe Deirdre McCloskey, 75 anos, historiadora, economista e polemista.

“Ela é uma das pensadoras mais originais e instigantes de nosso tempo, uma enciclopédia e uma celebridade no mundo acadêmico, talvez um Prêmio Nobel em Economia, uma possibilidade aberta pela premiação do Bob Dylan na Literatura”, diz Gustavo Franco, também economista.

Até os 52 anos, ela se chamava Donald. Em 1995, iniciou os procedimentos de mudança de gênero, para a surpresa da mulher e dos dois filhos.

Relatou a transição no livro “Crossing: a memoir”. Foi professora nas universidades de Iowa e de Chicago, onde foi assistente do economista norte-americano Milton Friedman.

O pastor deputado Marco Feliciano ainda não se manifestou.

No DCM
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O duro acerto de contas da mídia com ela mesma


Fala-se muito na ausência de Estadistas nos diversos poderes da República e nos diversos partidos políticos. Por tal, definem-se aquelas pessoas com visão clara sobre um futuro incerto, que se propõem a construir as bases para a nova era, desviando-se das armadilhas do curto prazo.

Faltou Estadista na mídia.

Ontem, dois diretores de redação procederam a uma autocrítica tardia dos abusos cometidos na Lava Jato. Admitiram que foram a reboque dos vazamentos, que assassinaram reputações de inocentes e que não cumpriram o papel de filtros da informação.

Lembro-me do longínquo 1999, na CPI dos Precatórios. Embora de modo mesmo intenso, havia um vazamento escancarado de informações, de todos os lados, sem que houvesse uma estratégia de cobertura, com cada veículo querendo dar seu furo e comendo nas mãos das fontes.

O principal responsável pelo golpe, ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, conseguia passar incólume pelo noticiário. Desenvolvi uma narrativa à parte da cobertura, juntei peças que estavam soltas e, remontado o quadro, aparecia nitidamente o papel de Maluf.

A não ser o caso do jornalista Fernando Rodrigues, que saiu nitidamente em defesa do ex-prefeito, tentando desqualificar as evidências que apontavam para ele, o restante da blindagem era fruto exclusivo da falta de preparo da cobertura. Narro essa guerra jornalística no meu “O jornalismo dos anos 90”.

Instado por Otávio Frias Filho, apresentei internamente sugestões para coberturas desse tipo.

O primeiro passo seria criar uma Sala de Situação, com jornalistas experientes, na redação, fora do calor das batalhas diárias, juntando as informações e planejando a cobertura. O grande desafio seria montar uma narrativa inicial, plausível, uma espécie de fio de Ariadne que ajudasse a cobertura a se localizar nos labirintos da notícia.

Depois, ir juntando informações em torno da hipótese inicial, com suficiente discernimento e flexibilidade para mudá-la, caso os fatos levassem a isso. Se fugiria da armadilha de procuradores que se tornam prisioneiros da narrativa inicial e passam a enfiar provas a marteladas para manterem a coerência com o errado.

No caso da Lava Jato houve mais do que essa falta de competência da cobertura da mídia. Havia o propósito político claro de usar as informações como armas de guerra. Não apenas na Lava Jato, mas em toda cobertura jornalística desde 2005. Era óbvio que, no mar de notícias fake que se seguiu à ampliação das redes sociais, a grande estratégia do jornalismo seria o filtro. Preferiam ser os alavancadores das falsas notícias.

Em qualquer grande país, há um grande jornal de centro-esquerda, outro de centro-direita, mas ambos respeitando integralmente a notícia. O respeito à notícia faz parte das qualidades intrínsecas do jornalismo, como gelar é função da geladeira, cozinhar do fogão. A geladeira pode ter mil badulaques. Mas sua qualidade intrínseca é de gelar. Os veículos podem ter linhas políticas distintas. Mas sua qualidade intrínseca é bem informar.

Tudo isso foi deixado de lado. Agora se tem esse desafio inglório de divulgar pesquisas para tentar explicar ao leitor que o jornalismo pátrio é o remédio contra as fakenews.

Que jornalismo? O que anunciou a invasão das FARCS no Brasil, os dólares de Cuba remetidos em garrafas de rum, a ficha falsa de Dilma, o respeitado assessor que não passava de um pequeno estelionatário, o esgoto diário e semanal despejado sobre o país durante tanto tempo?

Por trás do macartismo enlouquecido, praticou-se toda sorte de jogadas. E, como não existe Estadista na mídia, permitiu-se, nesse período, a consolidação final do poderio da Globo.

Enquanto jornais transformavam blogs em seus adversários preferenciais, a Globo abocanhava parcelas cada vez maiores da publicidade das estatais.

Hoje se tem essa situação humilhante, dos jornais equilibristas. Na reportagem, denúncias contra Michel Temer, para impedir a desmoralização final dos veículos. Nos editoriais, apoio, para impedir o corte de publicidade.

Ainda vai levar algum tempo para perceberem que os maiores defensores do jornalismo foram os jornalistas que denunciaram essas distorções monumentais, que acabaram por liquidar com a credibilidade do jornalismo pátrio. Mas que só conseguiram externá-las longe dos jornais. O pluralismo dos anos 90 tinha se transformado em muralha intransponível.

Luís Nassif
No GGN
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O “Estadão”, Cantanhêde e seu estilo “Gilmar Mendes”


É como com Gilmar Mendes: mesmo quando conseguem ter uma atitude correta, o “Estadão”, em editorial,  e Eliane Cantanhêde, em sua coluna,  destilam o ódio que não cabe dentro de si mesmos.

A atitude “sem noção” da ministra Luislinda Valois, com a qual não há quem, de bom senso, compactue, é transformada numa oportunidade de sacudirem preconceitos e associar o ato idiota que ela praticou à sua condição de negra, mesmo dizendo que não.

É a negação que afirma, como aquela famosa desculpa do “até tenho amigos negros”.

Quando foi Gilmar Mendes quem disse que a condição de ministro era “trabalho escravo”, observou-se o mesmo silêncio que a  D. Luislinda teve diante da portaria que “flexibilizava” seu combate.

O “problema” de D. Luislinda não é ser negra, nem ser mulher, nem “ter olho grande”.

O problema é ser ministra.

E por isso, sujeita a que se compare o que faz com o que não faz, do jeito com que escreve, com argumentos e leveza, Bernardo de Mello Franco, na Folha.


A ministra sem noção

Bernardo de Mello Franco, na Folha

Existem os ministros insensatos, existem os ministros sem noção e existe a ministra Luislinda Valois. Titular dos Direitos Humanos, ela apresentou um pedido inusitado. Queria furar a regra do teto constitucional para acumular vencimentos e receber R$ 61,4 mil por mês.

Como ex-desembargadora, Luislinda tem direito a uma aposentadoria de R$ 30,4 mil brutos, paga pelo Tribunal de Justiça da Bahia. O cargo que ela ocupa no governo oferece salário de R$ 30,9 mil brutos.

A Constituição estabelece que nenhum servidor pode receber mais do que o subsídio dos ministros do Supremo. Por isso, o contracheque da ministra é mordido pelo chamado abate-teto. Nos últimos meses, o desconto foi de R$ 27,6 mil.

Somando a fatia intocada do salário à generosa aposentadoria do Judiciário, Luislinda ainda recebe R$ 33,7 mil brutos. É o suficiente para garantir seu lugar no topo da pirâmide social brasileira. Segundo a PNAD, o rendimento médio domiciliar no país é de R$ 1.226.

Mesmo assim, a ministra se considera desafortunada. No requerimento revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, ela se queixou do corte e afirmou que sua situação “se assemelha ao trabalho escravo”.

Filiada ao PSDB, Luislinda passou o Dia de Finados tentando defender o indefensável. “O Brasil está sendo justo comigo?”, questionou à Rádio Gaúcha. “Como é que eu vou comer? Como é que vou beber? Como é que vou calçar?”, prosseguiu, em protesto contra o abate-teto.

À CBN a tucana argumentou que é obrigada a “se apresentar trajada dignamente”. “É cabelo, é maquiagem, é perfume, é roupa, é sapato, é alimentação. Se eu não me alimentar, eu vou adoecer e aí vou dar trabalho para o Estado”, disse.

Num governo insensível às minorias, a ministra dos Direitos Humanos era criticada por permanecer quase todo o tempo em silêncio. Pelo que se ouviu no feriado, seria melhor que ela continuasse assim.

Fernando Brito
No Tijolaço
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80 anos dos Processos de Moscou e não aprendemos nada sobre Justiça e Política


Entre 1936 e 1938, ocorreram na antiga URSS uma série de julgamentos públicos conhecidos por “Julgamentos de Moscou”. Os julgamentos eram massificados, com plateia, cobertura da mídia da época, filmes, comentários de diversos “especialistas” e manifestações de partidos e movimentos sociais. É verdade que a URSS estava em uma situação desconfortável desde o início da Guerra Civil espanhola. Ficou claro, neste conflito, que o ocidente não moveria recursos para lutar contra o nazismo. Hitler avançava não apenas com apoio político, mas com tanques e aviões para apoiar o Golpe de Franco na Espanha e encontrava apenas a esquerda como oposição, já que Inglaterra e França declaravam a questão espanhola como “questão de política interna”. Mas os julgamentos, aparentemente seguindo a legislação da época e sendo “neutros e imparciais”, mudaram totalmente a sociedade soviética.

Entre 1936 até 1938, Stalin utilizou-se de uma conhecida forma de espetáculo que faz parte da história do mundo ocidental como um todo. Inglaterra, França, Espanha, Portugal, EUA, entre outros, usaram, em diversos momentos, a ideia dos “julgamentos públicos” para afastarem inimigos políticos internos e unificar a ideia do que é socialmente aceitável para o país. O objetivo de longo prazo de qualquer julgamento público não é o de dar “transparência” ao ato de tornar culpado o réu, criando um falso argumento sobre a necessidade da publicização dos motivos, da condenação e de todo o restante da encenação jurídica. O objetivo é criar uma ética e uma moral massificada que se impõe, a partir da teatralidade judiciária, como uma nova linha social de diferenciação entre o que é “certo” e aceitável e o que é “errado” e, portanto, alvo de punição e perseguição.

Os julgamentos foram dirigidos contra centenas de pessoas acusadas de comporem “células-terroristas” (as “organizações criminosas” da época) comandadas por Zinoviev e Trotsky. Existiam três tipos de acusados: (1) os “mentores” do grande plano para enfraquecer e destruir a URSS (Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e etc.), (2) os “infiltrados” em cargos do governo acusados de ações para enfraquecer a URSS (Piatakov, Livshitz, Radez, Sokolnikov e etc.) e (3) os acusados por disseminar as ideias destes grupos e dividir o povo soviético. Foi usado um fato concreto, o assassinato de Sergey Kirov (1934), para iniciar todo o processo de investigação. Alguns acusados ficaram presos mais de ano antes de serem julgados, sob o argumento jurídico de que seriam perigosos ao país e poderiam reincidir nos crimes. A imensa maioria dos presos reportavam algum tipo de tortura e mesmo os que não sofreram abusos físicos, sofreram diversas formas de vilipendio moral diário. Os documentos falam em alimentos com fezes e urina, privação de ar puro e sol e correntes ameaças feitas por “presos leais” ao regime. As famílias dos acusados eram frequentemente presas e levadas aos locais onde os acusados originais estavam e em seguida separados. A tortura psicológica tem muitas faces.

Tão logo perceberam os réus do terceiro grupo que o objetivo do julgamento era político, passaram a “delatar” todos os “integrantes” das “organizações criminosas”. O número de acusados crescia exponencialmente, sempre envolvendo os acusados principais (do primeiro grupo) mais membros do segundo escalão ainda no governo. Não existiam provas para além das “redes de acusação”. O que levava a mais perseguições e mais prisões. Novas delações eram feitas em suporte às antigas e assim por diante, num processo cíclico em que – desde o início – não interessava a verdade ou qualquer ideia de justiça. A coisa ficou fora de controle e começou-se a “delatar” pessoas do círculo próximo de Stalin, quando o líder soviético fez publicar que “a palavra de um criminoso acusado de nada valia”.

As massas bradavam pelo fortalecimento da ideia nacionalista. Queriam de volta a URSS que “eles” (réus) tentaram destruir. Elegiam heróis entre os líderes que chefiavam os processos, dando a eles ao mesmo tempo mais força política e uma falsa legitimidade popular por suas ações. As massas também frequentemente pediam por “penas maiores”, não raro as “capitais”. Fazendo com que o punitivismo atingisse níveis que nem o imediato pós-revolução tinha conseguido. Ao mesmo tempo, retirava dos sentenciadores a responsabilidade pelas sentenças capitais dadas a pessoas conhecidas e muitas vezes com também forte apoio político. Era a “vontade da população” diziam os que manejavam as fantasias jurídicas da época. A massa, se pensando parte ativa num processo de justiça, como que atingindo um sonho antigo de participação num poder sempre elitizado, aderia em números crescentes às audiências públicas em que os “acusados” tinham o direito de serem “ouvidos”. Os julgamentos de 1938 chegaram a levar dezenas de milhares de pessoas aos locais em que eram realizados. Muito maior número do que os de 36 e 37.

Os processos resultaram em algumas bruscas mudanças dentro do cenário social da antiga URSS. Primeiro, serviram para forjar uma explicação ao povo sobre os problemas econômicos enfrentados pelo país. Foram todos colocados na conta dos “traidores”. Eles, quando no governo, haviam “quebrado o país”. Em segundo lugar, os julgamentos deram origem a um aumento da perseguição e prisões por toda a URSS. Artistas, professores, ativistas e líderes políticos locais começaram a ser alvo do poder de prisão nas mãos de executores locais. A censura atingia peças de teatro, livros, panfletos, falas e tudo o mais que fosse contra esta nova moral, simbolizada pelo tribunal. Sempre e por óbvio amparados no exemplo de Moscou e nas “massas”. Qualquer comportamento ou produção cultural que fosse levemente entendida como antibolchevique ou atentatória à nova moral era alvo dos poderes locais imediatamente. A onda de violência, denuncismo e selvageria cresceu imensamente em todos os lugares.

Stalin fazia publicar em diversas línguas todos os “depoimentos”, as “acusações” e as sentenças contra os diversos acusados. Stalin também fazia manifestações na imprensa (abertas ou veladas), tanto no Izvestia quando no Pravda, dois dos jornais de maior tiragem da época. Sempre apoiando os julgamentos, eles seriam necessários para o “bem do país”. Era preciso, afinal, parar com a corrupção burguesa que invadia a URSS. Stalin também comparecia a reuniões e jantares do partido sempre levando a ideia de que era preciso a “unidade” contra a ameaça que existia ao país. Stalin deu diversos prêmios aos juízes e acusadores dos processos. Prêmios que aumentavam a sensação de legitimidade ao mesmo tempo que as massas pediam “o aprofundamento” dos julgamentos. Cada um em cada região tinha alguém a quem delatar, e quem exigir que a justiça se ocupasse. Era o exemplo próximo da correção dos processos de Moscou.

Os inimigos políticos se transformaram em “organização criminosa”. Em seguida, em “organização terrorista”, com acusações de crimes que nunca ocorreram. Supostamente eram apenas intenção. Os grupos trotskista e zinovievista foram acusados de terem “planos para tomar e se manter eternamente no poder”. Foram acusados de “planejar o assassinato de Stalin, Molotov e vários outros líderes da URSS”. Foram acusados pelo fracasso da economia naquele momento e por terem “colaborado com potências estrangeiras”. Supostamente “traíram os trabalhadores soviéticos” e entregaram parte das suas riquezas para a “burguesia internacional”. Por vezes, os juízes absolviam determinados réus ou davam pequenas penas que eram imediatamente lançadas na mídia e o “clamor popular” se fazia presente. As penas eram então aumentadas.

Hoje, os processos são vistos como mais uma das grandes farsas jurídicas da humanidade, que talvez tenha começado com o julgamento de Sócrates e tenha passado pelos julgamentos jacobinos, pelo macarthismo norte-americano, pelos julgamentos de líderes de oposição negra ou de esquerda pelo mundo todo. O resultado foi um aumento no poder político pessoal de Stalin. Stalin atuava na imprensa em favor dos julgamentos. Stalin atuava corrigindo as acusações dos promotores. Stalin atuava buscando apoios políticos para os processos. Stalin atuava indicando quem “poderia” ser “incitado” a colaborar com as acusações.

E isto que Stalin nem era o juiz.

Agora imagine um juiz nesta posição.

Você compreendeu o Brasil de agora e todas as terríveis mudanças que estamos presenciando.

Fernando Horta
No GGN
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Aula Pública: Escola Sem Partido ameaça o livre pensamento


Organizado nas redes sociais, o projeto Escola Sem Partido busca fiscalizar e combater o pensamento de esquerda na educação. Integrantes do projeto afirmam que o objetivo é evitar a “doutrinação marxista” e também retirar as obras de Paulo Freire das escolas.

Porém, o escola sem partido tem ameaçado o direito de professores se manifestarem nas salas de aula.

Em algumas cidades, por exemplo, educadores correm o risco de demissão no caso se manifestem sobre política ou sobre questões étnicas e de gênero.

Para os setores progressistas, o projeto é uma das estratégias golpistas para silenciar vozes divergentes.

Mas afinal, como a discussão ideológica deve frequentar no cotidiano escolar?

Por que a escola sem partido ameaça o livre pensamento?

Convidado: Edson Fasano Historiador e professor da Metodista



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