17 de set. de 2017

Em defesa da Democracia e da Constituição


O Partido dos Trabalhadores conclama as forças democráticas do País a repelir, com veemência, a gravíssima manifestação do general chefe da Secretaria de Economia e Finanças do Exército Brasileiro, Hamilton Mourão.

Ao pregar publicamente uma intervenção das Forças Armadas sobre as instituições da República, um novo golpe militar, este oficial não só desrespeita os regulamentos disciplinares, mas fere frontalmente a Constituição e ameaça seriamente a Democracia.

O episódio, ocorrido sexta-feira (16) numa reunião em Brasília, é ainda mais grave porque o general Mourão afirma que suas posições correspondem às do Comandante Geral e do Alto Comando do Exército.

Cabe recordar que, em outubro de 2015, por fazer manifestação no mesmo sentido antidemocrático, este personagem foi punido com a perda do Comando Militar do Sul, o que demonstrou, na época, o isolamento de suas posições.

A nova transgressão requereria imediatas providências por parte do Comando-Geral do Exército e do Ministério da Defesa, para ratificar o compromisso das Forças Armadas com a Constituição e impedir que fatos como estes se repitam. Preocupa, em especial, a omissão do governo golpista ante esse fato gravíssimo, pois até agora não houve manifestação ou ação das autoridades competentes em relação ao assunto.

O que o Brasil precisa é recuperar o processo democrático rompido com o golpe do impeachment; precisa de eleições diretas com a participação de todas as forças políticas, e não retornar a um passado sombrio que tanto custou superar.

Gleisi Hoffmann
Presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores
Leia Mais ►

Fala de Mourão causou desconforto em oficiais-generais do Exército


O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, voltou a dizer que "não há qualqur possibilidade" de intervenção militar. "Desde 1985 não somos responsáveis por turbulência na vida nacional e assim vai prosseguir. Além disso, o emprego nosso será sempre por iniciativa de um dos Poderes", avaliou.

Ele ainda revelou que teve uma conversa com Mourão e que o problema já estaria "superado". O próprio general, diante da repercussão, negou que estivesse "pregando intervenção militar", dizendo que a interpretação das suas palavras "é livre", já que falava em seu nome, e não no do Exército.

Em 2015, Mourão se envolveu em outra polêmica. Ele perdeu o posto do Comando Militar Sul depois de atacar a então presidente Dilma Rousseff (PT), afirmando que o impeachment dela não traria mudança significativa e que "a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção".

Desde então, Mourão responde como secretário de economia e finanças do Exército.

No Sputnik
Leia Mais ►

Porto Alegre é uma cidade arrependida


Porto Alegre é uma cidade arrependida. Quem vai às ruas e conversa com as pessoas percebe o arrependimento da população porto-alegrense com a eleição de Nelson Marchezan Júnior [PSDB] para o cargo de prefeito da capital gaúcha.

Os funcionários públicos municipais, que durante os intervalos do trabalho distribuem materiais e esclarecem a comunidade sobre os desatinos do prefeito, testemunham este sentimento que se dissemina fortemente na população.

Ao arrependimento, agrega-se também a repulsa ao modo truculento, odioso e autoritário como este tucano amigo do Aécio Neves governa a cidade. Ele deflagrou uma guerra contra tudo e contra todos.

Nem mesmo durante os governos dos prefeitos nomeados pelo regime militar, de cuja ditadura o pai dele foi um expoente, a cidade conviveu com tal padrão de violência institucional e desrespeito ao Estado de Direito.

Marchezan Júnior age como um soberano: decreta territórios sob "jurisdição especial" para impedir protestos dos servidores; ataca a liberdade de expressão e se opõe à manifestação do sindicato dos trabalhadores na imprensa; mente sobre a realidade financeira da Prefeitura para parcelar os salários dos funcionários; desobedece ordem judicial e, assim, comete crime de responsabilidade; desrespeita e ofende servidores públicos, vereadores, secretários e autoridades do seu governo.

Tem temperamento desagregador – em média, sofreu quase 2 baixas do primeiro escalão por mês – e é também intolerante com pessoas que pensam diferente. Ele incita ódio e violência quando, como prefeito, teria obrigação de promover o diálogo social, a convivência democrática e a tolerância política.

Marchezan representa, em Porto Alegre, a agenda do golpe perpetrado em 2016 pela turma do Temer, Padilha, Cunha, Geddel, Aécio e FHC com o apoio ativo do capital estrangeiro e dos EUA.

Sua gestão está sintonizada com a agenda dos retrocessos civilizatórios, do racismo, do desprezo e abandono dos pobres, da privatização e geração de lucros para grupos privados, da destruição dos serviços públicos, da entrega da administração pública para as consultorias criadas pelos grandes grupos econômicos para modelar e manietar o setor público segundo seus interesses.

Nunca antes a mentira foi tão bem empregada como método de governo. A bizarrice batizada como "banco de talentos" para a seleção de CCse cargos de direção, é a maior prova disso.

Esta falácia, apresentada como "um sistema moderno de gestão estratégica de recursos humanos que prioriza os critérios técnicos e meritocráticos dos candidatos", não passou de um truque propagandístico propagado pelo péssimo jornalismo da RBS: só foram nomeados agentes partidários da coalizão de governo e muitos militantes do MBL que ocupavam o Parcão com suas camisas verde-amarelas [na Itália do Mussolini eram os camisas negras] para bradar pelo herói Eduardo Cunha e defender a fraude do impeachment.

Porto Alegre, uma cidade que no início deste século irradiou ao mundo os valores nobres da participação, da diversidade, da pluralidade, da democracia, da paz, da inclusão social, da cidadania, da humanidade e da tolerância, está arrependida com a escolha na eleição passada.

Parte importante da minoria de eleitores que elegeu Marchezan Júnior em 2016 – 2 de cada 3 eleitores não votaram nele – já deixou de apoiá-lo e passou a criticá-lo ruidosamente.

O trabalho de esclarecimento que fazem os funcionários públicos municipais no diálogo com a população está surtindo efeito. Marchezan está ficando isolado politicamente e socialmente.

A população já entendeu que a guerra que o Marchezan desfechou contra os funcionários públicos é, na verdade, uma guerra para destruir os serviços públicos, os direitos de cidadania; uma guerra que está destruindo a economia da cidade e o futuro de Porto Alegre. Os vereadores da cidade que fecharem os olhos para esta realidade não estarão somente cometendo um equívoco, porque estarão cometendo suicídio político.

Jeferson Miola
Leia Mais ►

O “fora Temer!” só não é escutado no Congresso e no STF


O “fora Temer” é o hit que faz sucesso estrondoso no Brasil. E, também, no exterior, sempre que o usurpador Michel Temer ou algum integrante da sua cleptocracia [“governo de ladrões”, em grego] cumpre alguma agenda no estrangeiro.

A coisa está tão entranhada que, numa das agendas que o usurpador cumpriu no exterior, o locutor da cerimônia oficial chegou a anunciá-lo pelo que supunha ser seu nome, e então convidou para fazer o uso da palavra “o Senhor fora Temer!”.

O “fora Temer!” é ovacionado em formaturas, cultos religiosos, missas, shows, jogos de futebol, assembléias de trabalhadores e, inclusive, em protestos de taxistas.

É quase uma unanimidade nacional; um verdadeiro clamor que só não é defendido por menos de 3% da população brasileira; 97% quer o “fora Temer!”.

O “fora Temer!” é uma manifestação onipresente e onisciente. Está nas esquinas, nos cafés, nos bares, nas conversas de vizinhos, nas filas de banco, nas gôndolas dos supermercados, nos ensaios musicais, nas peladas de futebol, nos estádios, nos terminais de ônibus, nas filas dos mictórios públicos, nas vilas, nos tiroteios entre traficantes e policiais.

Bastam 3 pessoas reunidas e, se alguém grita “fora Temer!”, o encontro restrito e particular vira uma assembléia pública massiva gritando “fora Temer!”, “fora Temer!”, “fora Temer!”.

O “fora Temer!” se converteu numa espécie de saudação entre as pessoas. Quando alguém pergunta: “E aí, tudo bem?”, a resposta é “fora Temer!, tá tudo bem”.

Os gaúchos e paulistas, por exemplo, adotaram uma resposta original para responder à saudação “E aí, tudo bem?”.

Os gaúchos, por razões que a óbvia realidade regional impõe, respondem: “fora Temer, Sartori e Marchezan!, está tudo bem”. Os paulistas, por seu turno, respondem: “fora Temer, Alckmin e Dória!, tá tudo certo”.

No Rock in Rio não foi diferente. Uma multidão humana aderiu à campanha “believe earth” lançada pela modelo Gisele Bündchen gritando incansavelmente “fora Temer!”, “fora Temer!”, “fora Temer!”.

O “fora Temer!” é um sucesso nacional e internacional. O “fora Temer!”, todavia, só não é escutado onde deveria, que é no Congresso e no STF.

Não há nada de anormal nisso. Afinal, tanto o Congresso quanto o STF integraram a engrenagem do golpe jurídico-midiático-parlamentar perpetrado em 2016 através do impeachment fraudulento da Presidente Dilma.

O establishment, que exerce o poder econômico, o poder judicial, o poder midiático, o poder político, o poder parlamentar e o poder cultural, já decidiu que não terá “fora Temer!”.

A oligarquia golpista está decidida a derreter o Brasil até o fim.

Jeferson Miola
Leia Mais ►

General do Exército ameaça 'impor solução' para crise política no país

General Antônio Hamilton Martins Mourão
Um general da ativa no Exército, Antonio Hamilton Mourão, secretário de economia e finanças da Força, afirmou, em palestra promovida pela maçonaria em Brasília na última sexta-feira (15), que seus "companheiros do Alto Comando do Exército" entendem que uma "intervenção militar" poderá ser adotada se o Judiciário "não solucionar o problema político", em referência à corrupção de políticos.

Mourão disse que poderá chegar um momento em que os militares terão que "impor isso" [ação militar] e que essa "imposição não será fácil". Segundo ele, seus "companheiros" do Alto Comando do Exército avaliam que ainda não é o momento para a ação, mas ela poderá ocorrer após "aproximações sucessivas".

"Até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso."

O general afirmou ainda: "Então, se tiver que haver, haverá [ação militar]. Mas hoje nós consideramos que as aproximações sucessivas terão que ser feitas". Segundo o general, o Exército teria "planejamentos muito bem feitos" sobre o assunto, mas não os detalhou.

Natural de Porto Alegre (RS) e no Exército desde 1972, o general é o mesmo que, em outubro de 2015, foi exonerado do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre, pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, e transferido para Brasília, em tese para um cargo burocrático sem comando sobre tropas armadas, após fazer críticas ao governo de Dilma Rousseff. Um oficial sob seu comando também fez na época uma homenagem póstuma ao coronel Brilhante Ustra, acusado de inúmeros crimes de tortura e assassinatos na ditadura militar.

A palestra de sexta-feira (15) foi promovida por uma loja maçônica de Brasília e acompanhada por integrantes do Rio de Janeiro e de Santa Catarina, entre outros. Segundo o vídeo de duas horas e 20 minutos que registra o evento, postado na internet, Mourão foi apresentado no evento como "irmão", isto é, membro da maçonaria do Rio Grande do Sul.

Ele se definiu como "eterno integrante da [comunidade de] inteligência", tendo sido graduado como oficial de inteligência na ESNI (Escola do Serviço Nacional de Informações). Criado após o golpe militar de 64 e extinto em 1990, o SNI era o braço de inteligência do aparato de repressão militar para ajudar a localizar e prender opositores do governo militar, incluindo sindicalistas, estudantes e militantes da esquerda armada.

Um dos organizadores do evento, o "irmão" Manoel Penha, brincou, no início da palestra, que havia outros militares à paisana na plateia, com "seu terninho preto, sua camisa social". Ele afirmou em tom de ironia: "A intervenção que foi pedida, se feita, será feita com muito amor". 



Na sua exposição, de quase uma hora, o general criticou a Constituição de 1988, que segundo ele garante muitos direitos para os cidadãos e poucos deveres, atacou a classe política. "Sociedade carente de coesão cívica. A sociedade brasileira está anímica. Ela mal e porcamente se robustece para torcer pela Seleção brasileira ou então sai brigando entre si em qualquer jogo de time de futebol. Crescimento insuficiente e o Estado é partidarizado. O partido assume, ele loteia tudo. Tal ministério é do sicrano, tal do fulano, e aquilo é porteira aberta. Coloca quem ele quer lá dentro e vamos dar um jeito de fabricar dinheiro."

O general respondeu a uma pergunta lida pelos organizadores do evento, segundo a qual "a Constituição Federal de 88 admite uma intervenção constitucional com o emprego das Forças Armadas". Contudo, "intervenção militar" não é prevista em nenhum trecho da Constituição. O artigo 142 da Carta, que costuma ser citado por militantes na internet, fala apenas que as Forças Armadas destinam-se à defesa da Pátria e "à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes [Poderes], da lei e da ordem". O texto, portanto, condiciona uma eventual ação militar a uma iniciativa anterior dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A pergunta também sugeriu um "fechamento do Congresso".

Na sua resposta, contudo, Mourão não rebateu a afirmação contida na pergunta de que uma "intervenção" seria constitucional e nada falou sobre fechamento do Legislativo. Pelo contrário, elogiou-a como "excelente pergunta".

Em nota neste domingo (17), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização não governamental, disse que vê com "preocupação e estranheza" a sugestão do general de que o Exército poderá "intervir militarmente, caso a situação política não melhore". "Esta declaração é muito grave e ganha conotação oficial na medida em que o General estava fardado e, por isso, representando formalmente o Comando da força terrestre. Ela é ainda mais grave por ter sido emitida pelo Secretário de Economia e Finanças, responsável pelo gerenciamento de recursos da Força e, portanto, soar como chantagem aos Poderes constituídos em um momento de restrição orçamentária."

"O Exército Brasileiro tem pautado sua atuação no cumprimento da lei, buscando ser fator de estabilidade política e institucional. Não é possível, neste delicado quadro, vermos a confiança da população nas Forças Armadas ser abalada por posturas radicais, ainda mais diante da aguda crise de violência que atinge o país", diz a nota.

A Folha procurou na tarde deste domingo (17) o Comando do Exército e o Ministério da Defesa para ouvi-los sobre as declarações do general. Em nota, o Centro de Comunicação Social do Exército informou "que o Exército Brasileiro, por intermédio do seu comandante, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas tem constantemente reafirmado seu compromisso de pautar suas ações com base na legalidade, estabilidade e legitimidade". A Folha pediu um contato com o general Mourão, para que comentasse suas declarações, mas não houve retorno até o fechamento deste texto. A Defesa também não se manifestou. 


A seguir, a íntegra do trecho em que o general falou sobre a "intervenção".

Pergunta: [apresentador lê um papel com a pergunta] "A Constituição Federal de 88 admite uma intervenção constitucional com o emprego das Forças Armadas. Os poderes Executivos [sic] e os Legislativos estão podres, cheio de corruptos, não seria o momento dessa interrupção, [corrigindo] dessa intervenção, quando o presidente da República está sendo denunciado pela segunda vez e só escapou da primeira denúncia por ter 'comprado', entre aspas, membros da Câmara Federal? Observação: fechamento do Congresso, com convocações gerais em 90 dias, sem a participação dos parlamentares envolvidos em qualquer investigação. Gente nova."

Mourão: Excelente pergunta. Primeira coisa, o nosso comandante, desde o começo da crise, ele definiu um tripé pra atuação do Exército. Então eu estou falando aqui da forma como o Exército pensa. Ele se baseou, número um, na legalidade, número dois, na legitimidade que é dada pela característica da instituição e pelo reconhecimento que a instituição tem perante a sociedade. E número três, não ser o Exército um fator de instabilidade, ele manter a estabilidade do país. É óbvio, né, que quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz: 'Pô, por que que não vamo derrubar esse troço todo?' Na minha visão, aí a minha visão que coincide com os meus companheiros do Alto Comando do Exército, nós estamos numa situação daquilo que poderíamos lembrar lá da tábua de logaritmos, 'aproximações sucessivas'. Até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso. Agora, qual é o momento para isso? Não existe fórmula de bolo. Nós temos uma terminologia militar que se chama 'o Cabral'. Uma vez que Cabral descobriu o Brasil, quem segue o Cabral descobrirá alguma coisa. Então não tem Cabral, não existe Cabral de revolução, não existe Cabral de intervenção. Nós temos planejamentos, muito bem feitos. Então no presente momento, o que que nós vislumbramos, os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, né, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução. E essa imposição ela não será fácil, ele trará problemas, podem ter certeza disso aí. E a minha geração, e isso é uma coisa que os senhores e as senhoras têm que ter consciência, ela é marcada pelos sucessivos ataques que a nossa instituição recebeu, de forma covarde, de forma não coerente com os fatos que ocorreram no período de 64 a 85. E isso marcou a geração. A geração é marcada por isso. E existem companheiros que até hoje dizem assim, 'poxa, nós buscamos a fazer o melhor e levamos pedradas de todas as formas'. Mas por outro lado, quando a gente olha o juramento que nós fizemos, o nosso compromisso é com a nação, é com a pátria, independente de sermos aplaudidos ou não. O que interessa é termos a consciência tranquila de que fizemos o melhor e que buscamos de qualquer maneira atingir esse objetivo. Então, se tiver que haver, haverá. Mas hoje nós consideramos que as aproximações sucessivas terão que ser feitas. Essa é a realidade.

Rubens Valente
No fAlha
Leia Mais ►

Foro privilegiado para militares é aprovado em comissão do Senado

Em São Paulo, TJ suspendeu resolução do Tribunal Militar sobre crimes dolosos praticados por PMs contra civis

Justiça suspendeu resolução do TJMSP
A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal aprovou, na última quinta-feira (14), o PLC (Projeto de Lei da Câmara) 44/2016, que dá foro privilegiado para os militares que cometerem homicídios dolosos (quando há intenção de matar) contra civis em missões classificadas como GLO (Garantia da Lei e da Ordem).

O grupo definiu a Justiça Militar como a instância onde esses casos devem tramitar. O projeto foi aprovado com o mesmo texto que veio da Câmara dos Deputados. Portanto, caso seja aprovado pelo Plenário do Senado, deve seguir para sanção do presidente Michel Temer.

A aprovação surge em meio ao debate que acontece em São Paulo sobre o tema. Na última quarta-feira (13), o TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) concedeu outra liminar (decisão provisória) suspendendo os efeitos da Resolução 54/2017 do TJMSP (Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo). A resolução determina que policiais militares recolham instrumentos e objetos de locais onde aconteceram homicídios dolosos cometidos por PMs contra civis – e não mais a Polícia Civil, como ocorre atualmente.

Em 28 de agosto, depois de pedidos do MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) e de delegados da Polícia Civil paulista, o TJSP já havia concedido uma liminar suspendendo a resolução. A liminar, no entanto, foi derrubada no mesmo dia da concessão da nova, na quarta-feira (13).

De acordo com o despacho de suspensão, “a resolução contraria frontalmente a Constituição do Estado de São Paulo, bem como a Constituição Federal”. A liminar ainda aponta que a resolução “ofende ao princípio da reserva legal e à separação dos poderes”.

“A Resolução contraria frontalmente a Constituição do Estado de São Paulo, bem como a Constituição Federal por violar o princípio federativo. Em outro ponto, afirma que tal ação de natureza normativa ofende ao princípio da reserva legal e à separação dos poderes. Por fim, tece argumentação sobre a competência da Justiça Comum para investigação e processamento dos crimes dolosos contra a vida de civis praticados por militares, investigação desenvolvida pela Polícia Civil, função que lhe é própria”, disse o relator Péricles Piza no despacho.

A assessoria do TJMSP disse que não vai comentar a liminar e vai esperar o julgamento do mérito.

Carlos Castro
No Ponte
Leia Mais ►

Julgamento de um episódio infame: os meninos "terroristas"


Há pouco mais de um ano, no dia 4 de setembro de 2016, produziu-se em São Paulo um dos episódios mais escabrosos desse período de estado de exceção e perseguição política, que ainda poderá entrar para a história da mesma maneira que as armações do Cabo Anselmo, as Cartas Brandi e outras grandes falsificações da história.

Dilma Rousseff havia caído. Havia movimentações de protesto por várias capitais brasileiras. O componente militar era uma das saídas políticas para coibir as manifestações, conforme imaginado pela quadrilha que se apossou do poder,

Decidiu-se, então por uma armação, de montar uma arapuca, prender um grupo de jovens e imputar a eles propósitos terroristas.

A armação foi montada pelo ex-Secretário de Segurança Alexandre Morais, que se tornara Ministro da Justiça, com a participação do serviço secreto do 2º Exército.

Um militar de 40 anos infiltrou-se em um grupo de namoro de adolescentes. Há suspeitas, inclusive, que tenha se relacionado com menores de idade. Era um desses inúmeros grupos que se organizam virtualmente, através das redes sociais, e que, até então, não tinham combinado nenhum encontro. O primeiro foi marcado para aquele dia, para participar das manifestaçòes.

Seguiram para a Avenida Paulista. Com eles, o capitão do exército William Pina Botelho, agente infiltrado. Foi de Botelho a sugestão para que fossem até o Centro Cultural. Os meninos reagiram um pouco, não vendo lógica na sugestão, mas acabaram acatando. Enquanto caminhavam, helicópteros sobrevoavam o grupo.

Chegando no Centro Cultural, os meninos foram cercados por dezenas de Policiais Militares. Foram levados a um ônibus-viatura, enquanto o capitão escafedia-se. Dentre os objetos encontrados com o grupo, celulares, um chaveiro com a cara do Pateta, vinagre (que serve para contrabalançar gases tóxicos) e algumas máscaras de enfermeira (uma das moças era da Cruz Vermelha). Um dos PMs tentou enfiar em uma sacola um pedaço de pau, que estava no Centro Cultural, mas não teve sucesso: confundiu as sacolas. Arrancaram a insígnia da Cruz Vermelha da moça, para fortalecer a tese do uso de máscaras. Encontraram alguma dificuldade em transformar uma máscara de enfermeira em capuz de black bloc.

Os meninos foram para o DEIC e contaram com o apoio da mídia alternativa, Jornalistas Livres, Mídia Ninja e Ponte. E de dois procuradores da República (federais) ligados a direitos humanos, que correram até lá para impedir qualquer dano físico.

A tentativa de transformar o grupo em terroristas perigosos não resistiu à análise dos rapazes e moças, jovens, estudantes, alguns trabalhando, sem passagens pela polícia. Dentre eles, até uma moça, neta do ex-governador Paulo Egydio Martins que, em sua gestão, lutou contra os abusos do 2º Exército comandado pelo general Ednardo.

Os meninos permaneceram no DEIC até metade do dia seguinte, em clima de absoluto horror. Colocados de costas, os PMs miravam os lasers por sobre sua cabeça, para simular fuzilamento.

Foram liberados por um juíz que protestou contra os abusos das prisões.

Nos meses seguintes, a vida do grupo virou pelo avesso. Alguns foram impedidos de se matricular nas escolas estaduais, muito perderam o emprego, vários se viram tomadas de pânico à menor aproximação da polícia.

Os autores desse feito humilhante, que envergonha qualquer noção de civilidade, foram promovidos. Alexandre de Morais saltou para o Ministério da Justiça de Temer e, depois, para o Supremo Tribunal Federal. O capitão virou major. Os dois procuradores que correram para garantir a segurança dos meninos foram oficialmente admoestados pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), atendendo a uma reclamação do Ministério Público Estadual de São Paulo, por “intromissão”.

Exército e Secretaria de Justiça do Estado atropelaram a Constituição, que diz que a atuação do Exército nos estados depende de acordo formal. Nos meses seguintes, trataram de varrer a sujeira para baixo do tapete.

Nos próximos dias, o grupo será julgado no Fórum da Barra Funda. A juíza será Cecília Pinheiro da Fonseca. O promotor, Fernando Albuquerque, que decidiu denunciar os jovens por terrorismo e formação de quadrilha – o que poderá significar até 9 anos de prisão para os jovens. O nome do agente infiltrado sequer é mencionado, para não caracterizar a ilegalidade da operação.

O resultado desse julgamento será um bom termômetro para avaliar o processo político brasileiro: se refluiu o macarthismo e o Estado de Exceção, e se as vozes da legalidade e do bom senso já se fazem ouvir.



Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Aldir Blanc: "Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica"

O poeta de "O Bêbado e a Equilibrista" apresenta "Duro na Queda", sua nova parceria com João Bosco, e critica o cancelamento da Queermuseu

"Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos"
Um militante desavisado do MBL depara-se com uma letra de Aldir Blanc. Em rala-rala é que se educa a molhadinha/ se tu não peca, meu bem, cai a peteca, neném/ vira polícia da xereca da vizinha, canta a portuguesa Maria João no álbum recém-lançado A Poesia de Aldir Blanc (Sesc), para horror do jovem conservador empenhado na causa da sigla que esconde por trás de si o pícaro Movimento Brasil “Livre”.

Entre a santa e a meretriz/ só muda a forma com que as duas se arreganha/ eu só me queixo se criar teia de aranha, prossegue Maria João na feminina O Coco do Coco, lançada originalmente em 1996 pela paraense Leila Pinheiro. E lá se vai para a fogueira mais uma obra artística atentatória da “moral e dos bons costumes”.

Não é só O Coco do Coco. Letrista visado pela censura da ditadura anterior, o carioca Aldir teria parte substancial de uma obra colossal destroçada pelos dentes arreganhados e o ouvido que tudo escuta do neofascismo popular brasileiro. Vale para as ásperas parcerias mais recentes com o também carioca Guinga, como O Coco do Coco, e para a série histórica de arranhões musicais dos anos 1970 e 1980 em dupla com o mineiro João Bosco.

É bem possível que o jovem do MBL visse macumba e feitiçaria em versos de Bosco & Blanc, como levou as minhas cuecas pro bruxo rezar/ coou meu café na calça pra me segurar (de Incompatibilidade de Gênios, 1976) ou costurou na boca do sapo o resto de angu/ a sobra do prato que o pato deixou/ depois deu de rir feito Exu Caveira/ marido infiel vai levar rasteira (de Boca de Sapo, de 1979), ambas interpretadas na origem pela mãe preta de todos nós, Clementina de Jesus.

“Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica, fedendo a fezes”, afirma Aldir sobre o episódio da mostra Queermuseu, promovida e cancelada sob pressão pelo Santander Cultural em Porto Alegre (RS), terra da maior intérprete do imaginário de Blanc & Bosco, Elis Regina.

“Coco do Coco inspira-se na belíssima tradição picaresca de músicas nordestinas, baiões, cordel, que tratam o sexo de forma escrachada, e verdadeira”, ensina o mestre das palavras. “Algumas feministas politicamente corretas sentaram o pau, e o fizeram porque se arvoram em saber uma porção de merdas, mas não conhecem picas de cultura popular”, provoca, destemido em tocar pontos vulneráveis.

Hoje com 71 anos, Aldir vive entre a reclusão e altos papos via e-mail, ou entre o silêncio e o grito, como dizia a letra de O Chefão. Cantada em 1974 pela paulistana Marlene, a balada noir O Chefão foi retomada em 2014 pela mineira Maria Alcina, outra intérprete inaugural de Bosco & Blanc, com as antológicas Kid Cavaquinho e Beguine Dodói (1974).

Meses antes da reeleição de Dilma Rousseff, Alcina cantava a necessidade de manter as janelas sempre bem fechadas/ contra o perigo de um golpe/ contra o perigo de um golpe de ar. Pode ser mera simbologia, mas o autor de O Chefão ataca frontalmente temas e termos tornados tabus na oficialidade impopular brasileira de 2017. “Sociólogos, historiadores, professores e artistas (como o imenso Raduan Nassar) mais importantes do que eu já escreveram que estamos num estado de exceção”, afirma.

“Aqui ficaram todos os torturadores soltinhos da silva, conspirando. O golpe voltou, um golpe constitucional. Isso existe. A Constituição pode abrir frestas para vários tipos de golpes, e só babacas dizem ‘se está na Constituição, não é golpe’. Vão se fifar, burros – ou coniventes”, escreve, em pena ferina que transforma Michel Temer em “Temeroso” e “Temereca” e Janaína Paschoal em “Dra. Janaraca”.

“O que vi de palhaço que pegava jabá, corrupto até a alma, considerando julgamentos de pedaladas ‘técnicas e corretas’, sem levar em consideração que Tribunardis levava bola quando parlamentável, Anastasia é corrupto, Cunha já está com a mão na grade, sem falar da Dra. Janaraca. Pelo amor dos meus netinhos, sejam golpistas menos cínicos e safados.”

Jabaculê, jargão usado para designar o “mensalão” com que gravadoras suborna(va)m meios de comunicação para veicular este ou aquele artista, é vocabulário presente desde sempre no léxico de Aldir. Jabaculê/ vixe, espetacular/ assunto assim às vez é mió calar, cantou Maria Alcina em Foi-Se o Que Era Doce, também em 1974, entre referências culinárias a inhame, bobó, frango assado, cuscuz e maracujá.

A verve faminta de Blanc sempre privilegiou os diversos prazeres da carne, mesmo na voz solene de Elis. Os boias-frias quando tomam umas birita espantando a tristeza/ sonham com bife à cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo, gravou Elis em O Rancho da Goiabada (1978), relicário assombroso de um Brasil que viria a resplandecer após três décadas, sob as caravanas de Luiz Inácio Lula da Silva.

São pais de santo, paus de arara, são passistas/ são flagelados, são pingentes, balconistas, desfilava o rancho, quando o comandante plantonista deste bordel dos Estados Unidos era Ernesto Geisel. “Dizem que ninguém é profeta em sua própria terra, mas João e eu fomos.

Veja o caso de De Frente pro Crime”, diz Aldir, citando o samba lançado pela baiana Simone em 1974, o mesmo ano-susto em que Elis apresentou Dois pra Lá, Dois pra Cá (e a ponta de um torturante/ Band-aid no calcanhar) e O Mestre-Sala dos Mares.

“Mais de 40 anos depois, De Frente pro Crime ainda retrata o Rio. Sabe o que parte da crítica dizia desses sambas? ‘João Bosco e Aldir Blanc, com suas habituais obsessões com uma violência inexistente’. Gostaria de soltar todos esses críticos no Jacarezinho para uma injeção de Brasil na bunda.”

Previsto para outubro, o próximo álbum de João Bosco trará uma nova parceria da dupla, retomada em 2009, após duas décadas de afastamento. Duro na Queda trata de uma Janaína que certamente não é a Paschoal: Eu não sei viver sem minha Janaína/ mulata de olhos claros, vale o mundo/ no morro, é meu barraco com piscina.

“Começa com um clima sombrio dos sambas de antes e se abre, como se a Esperança Equilibrista se recusasse a cair”, define Aldir, em referência cruzada ao hino de anistia O Bêbado e a Equilibrista (1979), ápice do trio Blanc-Elis-Bosco.

Tal qual as bijuterias banhadas a ouro dos anos 1970, Duro na Queda encerra muito do mistério poético do ex-médico psiquiatra Aldir Blanc. Nascido no Estácio de Ismael Silva e Luiz Melodia e criado na Vila Isabel de Noel Rosa e Martinho da Vila, ele transpira sensibilidade suburbana a cada verso.

“O que mais me revolta é que esse Brasil sempre esteve na cara de todos, só que aparece maquiado até hoje”, autodefine-se. “Temereca é o maior criminoso e entreguista do País. Sou contra a pena de morte, mas, quando vejo o que esse merda está fazendo, fico em dúvida se não seria melhor julgá-lo com rigor, direito amplo de defesa, mas com fuzilamento incluído na pena. Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos.”

Duro na queda, Aldir também visita a ternura. Ela aparece quando fala das cantoras que o têm interpretado, inclusive Clara Nunes, Maysa, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Nana Caymmi e Dorina (que em 2016 lançou CD devotado a ele).

“Essa relação com as cantoras é uma das grandes alegrias da minha vida profissional. Se as lindas homenagens quase simultâneas de Dorina, Maria João e Mariana Baltar (ainda inédita) não me matarem, nem preciso fazer novos exames. Por trás da pose, sou um tremendo chorão. Às vezes, um neto telefona de outro estado e minha mulher tem de tirar o telefone da minha mão e dizer: ‘Peraí um pouco! Deixa ele acabar de chorar!’ E é assim também com música.”

Há que se acrescentar, aí, a literatura: por meio de financiamento coletivo, Aldir acaba de bater a meta de 28 mil reais para completar a coleção Aldir 70, de crônicas reunidas em cinco volumes.

Por ora, Aldir prossegue incólume ao moralismo de fachada engarrafado na pátria de Donald Trump e encampado pela juventude MBL. Ainda que a sanha venha a colhê-lo, gritarão em silêncio os versos de Querelas do Brasil, eternizada por Elis em 1978 e resistente, até hoje, como um dos nossos mais cruéis autorretratos: O Brasil nunca foi ao Brazil/ (...) o Brazil não merece o Brasil/ o Brazil tá matando o Brasil.

Pedro Alexandre Sanches
No CartaCapital
Leia Mais ►

Carta aberta devastadora da filha de Olavo de Carvalho


Carta aberta a Olavo de Carvalho, meu pai.

Estou escrevendo essa carta aberta por que você só sabe ficar xingando daí dos Estados Unidos, já que nunca teve a decência de enfrentar as pessoas cara a cara. E, quando digo enfrentar, é encarar que tudo o que falo sobre sua vida é a mais pura verdade. Não adianta mais o seu hábito de criar medo nas pessoas, o que fez com que seus filhos e esposas não abrissem a boca nem mesmo para Deus. Sempre foi sua tática chamar os outros daquilo que você é, e depois se sair de vítima quando é desmascarado ou ficar ironizando como uma forma de mascarar a verdade.

Você não se lembra das inúmeras vezes em que você me pegou para passar o final de semana com você, e você nem me respeitava, ficando na sala ao lado enquanto eu dormia na sala do Bolla e era acordada no meio da noite com os gemidos das suas farras?

Lembra-se de que, quando minha mãe, meus irmãos e eu fomos despejados e passamos a morar em um quarto com banheiro nos fundos da sua escola de astrologia, a Escola Júpiter, enquanto você fazia uma farra com a sua segunda esposa, a Silvana, minha mãe tentou o suicídio e, se não fosse por mim, ela teria morrido? Já se esqueceu também de que, quando eu fui morar com você e a Silvana, meus irmãos foram morar com a nossa avó materna, mas você nunca foi visitá-los?

Esqueceu que, quando fomos morar na casa perto do aeroporto, você e sua esposa Silvana me largavam sozinha enquanto você ia dar aula de astrologia, e que depois saíam para jantar fora e chegavam de madrugada enquanto eu, com apenas 13 anos, ficava lá sozinha e sem comida?

Aliás, as suas casas, apesar de ter mais de uma esposa, sempre foram imundas, e as suas esposas faziam questão de ficar a madrugada toda acordadas, batendo papo furado com você, e depois dormiam o dia todo. A sua mãe nunca ia visitá-lo, pois tinha nojo! E eu, quando morei com você, acabei tendo de aprender todo o serviço de casa, já que nunca gostei de sujeira.

E já que estou falando da sua mãe, lembra-se que ela morreu recentemente sem ao menos receber um único telefonema seu enquanto estava consciente, apesar de ter pedido tanto que você entrasse em contato? Essa minha avó, com quem você tantas vezes brigou e deixava com enxaquecas, passando mal por sua causa, sendo que quem estava ao lado dela, muitas dessas vezes, era eu.

E era eu também que, quando você foi internado na clínica psiquiátrica, ia te visitar, apesar de você ter internado minha mãe em um hospício por duas vezes só para que a sua vida ficasse mais fácil, já que assim ela não podia cobrar nada de você.

Nós sempre vivemos contando com a ajuda de familiares. Ou se esqueceu de que minha mãe deu a guarda judicial dos filhos para parentes, para que assim nós pelo menos tivéssemos acesso a tratamento médico, já que você não dava assistência aos próprios filhos?

Já esqueceu que nunca se preocupou nem com a escola dos filhos, mas agora fica postando fotos dos diplomas da Leilah aí nos Estados Unidos, sendo que as pessoas nem imaginam que ela só vai à faculdade porque, depois de 12 anos que estão aí, ela ainda não conseguiu a cidadania e precisa de vínculo com uma universidade para continuar no país?

Não se lembra mais de que nunca visitou a casa de um filho? Hoje, para dar ares de “família margarina”, fica se fazendo de pai de família e bom avô, mas as pessoas não sabem que, quando você surta, culpa a todos à sua volta pelos seus erros com essa sua fúria histérica.

Lembra que, em um surto de loucura, colocou uma arma na cabeça dos seus filhos?

E onde estava o pai da “família margarina” que, quando soube que eu tinha sido abusada sexualmente, não fez absolutamente nada, e que há uns quatro meses ainda me culpou pelo abuso? Acho que você esqueceu de que eu só tinha 9 anos.

Diante de tantos fatos ocorridos em nossas vidas, fatos esses não só da vida familiar, mas também muitas coisas que eu vi você fazer contra os seus amigos, eu agora percebo que você não mudou nada. Eu até cheguei a acreditar que tinha mudado, mas, quando te liguei para defender o Daniel Aragão e te contar sobre o caráter do Jossias Teófilo, você, a Leilah e a Roxane começaram a xingar a mim e ao Daniel numa gritaria cheia de palavrões que mais parecia um surto psicótico. Eu sei que, quando você surta, você fica incontrolável. Eu já vi muitos desses surtos. Daí caí na realidade: você não mudou nada!

Você fala que não sabia que o Tales é muçulmano, mas se esqueceu que quem levou ele e a família toda para o islã foi você, e ainda levou junto um secto de amigos, sendo que alguns deles ainda frequentam seu meio social?

Na comunidade muçulmana que você criou em sua casa na Bela Vista, todos te apoiavam e te seguiam incondicionalmente. Na época, eu não sabia que aquilo era uma seita. Quando tudo explodiu, as pessoas te largaram, muitas sumiram e algumas ficaram loucas. Como no caso da Liana, uma pessoa boa que você usou, de quem você realmente pegou dinheiro indevidamente e que te processou por isso. Ela só não ganhou porque estava perturbada demais para ser sensata no processo, e você acabou beneficiado pelo “in dubio pro reo”.

Em relação a esse post:


Por que não se inspirou nele quando ele disse que eu precisava ter uma vida normal de criança? Talvez por isso é que diga que ele não fosse um exemplo para você.

Quanto a esse outro post:


Quando você ia “treinar” no Michel Weber, eu ficava andando pelo estúdo dele e via coisas macabras, como quadros e objetos que pareciam coisas satânicas. E tinha também aqueles cães sanguinários dele, que pareciam ter parte com o demônio, e, no dia em que quase me atacaram, o Michel, em vez de se preocupar comigo, ficou bravo com você por ter me deixado xeretando nas “coisas” dele.


Então, quem aqui é grotesco, quem aqui sempre foi unido com o macabro, quem aqui não é bondoso para com seus parentes e amigos, quem aqui não teve talento, e eu estou falando em talento de fato, não o de criar um secto de fanáticos e cegos, quem nunca teve coragem perante a vida, quem aqui nunca trabalhou de verdade?

Você pouco sabe da minha vida, das pessoas que me cercam, dos meus amigos, do meu trabalho… Então começa a criar vergonha na cara e pare de dar indiretas (um hábito seu desde que eu me conheço por gente). Você nunca teve coragem e decência para enfrentar a vida real.

Tudo o que escrevi é um recado para você: muda enquanto dá tempo para você se transformar em um ser-humano decente. E não diga que eu me uni ao diabo. Isso sempre foi um direito só seu! Eu não preciso me unir a ninguém para falar e contar sobre você. E pode ter certeza de que lembro de muito mais coisas.

E só não enxerga o que você está criando nas pessoas, usando o nome de Deus, quem é cego, pois eu vejo claramente, como já vi em outras épocas suas, um bando de pessoas insensatas, com ódio de tudo e de todos, que caem cegamente na sua pregação, criando um exército de intolerantes com seus semelhantes, e que, quando enxergarem, não vai ter psiquiatra e nem hospício suficiente para todos.

Pai, você sabe que minha questão não é familiar como você pinta, fazendo parecer somente uma fofoquinha. Eu só falo de fatos familiares para que as pessoas enxerguem quem você é na vida real. Sinto muito que a sua lavagem cerebral sobre as pessoas já tenha tomado essas proporções. Sim, isso mesmo, lavagem cerebral com as técnicas que você domina tão bem, como as da Programação Neurolinguística.

E quanto ao dente de leite que está sendo leiloado e você diz não ser seu, foi a minha avó quem deixou para mim muito antes de morrer. Mas você sabe muito bem que eu sempre fui o baú e memória viva da família. Tanto dos fatos quanto dos objetos. Acredito que você nem sequer tenha uma foto sua de criança, nem o peso de papel do seu pai, nem o seu álbum de bebê. Nenhum de vocês tem nada, pois a única que sempre conviveu de perto com minha avó fui eu. E você sabe bem disso.


Esse quadro, por exemplo, você tinha na parede da Escola Júpiter, não é? Deu para a minha avó e hoje está comigo.


Essa foto, você tirou em Paris. Lembra-se de que você me deu quando se mudou para os EUA?


Esse peso de papel do meu avô, seu pai, que você nem sabia onde estava, está bem aqui na minha casa. E você já até postou sobre isso:


Então não diga que o dente de leite não é seu. Você sabe muito bem que minha avó sempre me deu tudo o que ela guardava de você.

Mas, se mesmo assim, tiver dúvidas quanto ao dente ser seu, eu posso mandar fazer um exame de DNA nele.

Mas você não vai querer passar pela vergonha de ser desmentido novamente, vai?


Decididos a quebrar a espiral de silêncio lançada em torno de Heloisa de Carvalho Martim Arribas, decidimos ceder o nosso espaço para que ela tenha o direito de se expressar e ser ouvida publicamente, especialmente levando em conta a importância do papel público de Olavo de Carvalho e a campanha de difamação lançada por ele contra a sua filha mais velha. De resto, lembramos que em breve, no dia 20 de Setembro, será lançado o leilão beneficente do pingente com o primeiro dente de leite caído de Olavo de Carvalho. Fiquem atentos pois o anúncio será feito aqui no blogue Prometheo Liberto.

No DCM
Leia Mais ►

Requião, em carta a investidores: Se Temer vender o Brasil, podemos tomar de volta


Ao Financial Times, “Se Temer entregar o país, nós o recuperaremos”
Nova Iorque, EUA

Prezados Senhores,

Chegou a nosso conhecimento que se prepara para o fim do mês, em Nova Iorque, sob os auspícios do “Financial Times”, um encontro com investidores internacionais no qual o atual ocupante da Presidência do Brasil, Michel Temer, pretende oferecer oportunidades de investimento oriundas de uma escalada de privatizações.

É possível que Vv.Ss. só tenham informações parciais dos eventos políticos em curso entre nós , os quais se caracterizam por profunda divisão da sociedade em torno, justamente, da questão da privatização, da desnacionalização e da entrega ao setor privado de patrimônio público.

O ocupante da Presidência não tem legitimidade para por em andamento o programa de privatização mencionado, mesmo porque não foi eleito para isso.

O programa que impôs ao país, sob o nome de “Ponte para o Futuro”, é produto de um grupo de arrivistas que, por sinal, está sendo acusado de corrupção pela Procuradoria Geral da República. A maioria parlamentar que, até o fim do próximo ano, deve dar suporte ao Governo não resistirá às eleições do próximo ano, já que se apóia exclusivamente nas manobras de cúpula, sem suporte do povo, que terá oportunidade de tomar a prestação de contas de seus traidores.

Esta carta é, pois, um meio público de advertir a todos os investidores que se reunirão com Michel Temer em Nova Iorque para evitarem, sob risco de perdas financeiras e patrimoniais, a compra dos ativos brasileiros que se prepara para serem levados a leilão.

Como presidente e secretário executivo da Frente Parlamentar Mista pela Defesa da Soberania Nacional, com mais de 200 parlamentares integrantes, já anunciamos à Nação a proposta de convocação de um referendo revogatório de todas as medidas anti-povo e anti-nacionais do Governo ilegítimo, para anulá-las na primeira oportunidade. Este é um compromisso sagrado.

Não reconheceremos direito adquirido acima do interesse público. E se tivemos, no passado, a partir dos anos 30, governos progressistas que construíram as bases físicas da nacionalidade, reagiremos aos que, agora, num golpe oportunista, estão destruindo as próprias bases da Nação.

Aos que acham que o governo golpista e antinacional é eterno, que se lembrem da história brasileira desde os anos 30: com curtos interregnos entreguistas, construímos o desenvolvimento com Vargas, Juscelino, Jango e os próprios militares, nesse caso a despeito do fator negativo do autoritarismo. Se Temer entregar o país, nós o recuperaremos.

Frente Parlamentar Mista pela Defesa da Soberania Nacional

Senador Roberto Requião
Presidente

No Viomundo



Leia Mais ►

Na contramão das sanções dos EUA, China abre linha de crédito de US$ 10 bi para o Irã


Ajudando Teerã a driblar o regime de sanções imposto por Washington, China abriu uma linha de crédito de US$ 10 bilhões destinada a financiar diversos projetos de infraestrutura nos setores de energia, transporte e água do país.

Teerã tem honrado o Plano de Ação Conjunto celebrado em 2015 entre Irã, Rússia, EUA, China, França, Reino Unido, Alemanha e UE. Seguindo as determinações do documento, o país reduziu o seu programa de armas nucleares. Apesar disso, Washington implementou uma série de novas sanções contra o país, incluindo o congelamento de ativos e a imposição de limites de transferência financeira.

De acordo com o presidente do Banco Central do Irã, Valiollah Seif, a empresa de investimento estatal chinesa CITIC abriu uma linha de crédito de US$ 10 bilhões para bancos iranianos com objetivo de financiar projetos de infraestrutura no país, de acordo com Times of Israel.

A volumosa linha de crédito será operada em euros e yuans, para contornar as sanções norte-americanas.

Valiollah Seif acredita que os US$ 10 bilhões, que se juntam a outros US$ 15 bilhões adicionais de investimentos chineses, previamente aprovados em outros projetos não identificados no país, demonstram "uma forte vontade de continuar a cooperação entre os dois países".

A China está buscando ampliar as relações comerciais com toda a região, no âmbito do seu ambicioso projeto da Nova Rota da Seda (One Belt, One Road). Pequim tem investido muitos bilhões de dólares para aprofundar os laços com a África e a Europa. Além disso, China é o maior beneficiário do petróleo iraniano, e representa quase um terço do comércio externo de Teerã.

Respaldando a intenção de ampliar os laços comerciais com o país, Pequim também já abriu duas linhas de crédito equivalentes a US$ 4,2 bilhões para construção de linhas ferroviárias de alta velocidade entre Teerã e as cidades de Mashhad e Isfahan, de acordo com o Iran Daily. O projeto também recebeu um aporte de 8 bilhões de euros graças ao contrato de crédito entre o governo iraniano e o sul-coreano Korea Eximbank, assinado em agosto.

Apesar das instituições financeiras ocidentais continuarem cautelosas, particularmente em função das sanções de Washington, que muitas consideram desnecessárias, as negociações do governo iraniano progridem com bancos na Áustria, Dinamarca e Alemanha para fornecer uma linha de crédito de US$ 22 bilhões para o Irã.

Se continuar assim, as sanções norte-americanas, a longo prazo, podem se revelar um tiro no pé.

No Sputnik
Leia Mais ►

As contradições entre Palocci, Emílio e Marcelo no tal “pacto de sangue”


O dramalhão do tal “pacto de sangue” entre Lula e Emílio Odebrecht, descrito no estilo “novela mexicana” por Antonio Palocci teve hoje na Folha o melhor e mais isento tratamento que se pode dar às versões apresentadas pelo ex-ministro da Fazenda, pelo velho empreiteiro e por seu filho Marcelo, que assumiu o comando do império em 2010.

Simplesmente, comparar o que cada um diz.

Emílio, o primeiro a falar – em junho, para tentar liberar o filho da cadeia onde estava havia então dois anos – disse que o encontro com Lula (e só com Lula) foi durante a campanha de 2010 e que teria prometido ajuda, sem tocar em valores.

Em setembro, Marcelo fala que “a única pessoa que pode dizer que Lula sabia ou deixava de saber (do oferecimento de valores)  é meu pai” e que o encontro entre os dois ocorrera no início da campanha de 2010. E ainda que a “ajuda” prometida ao PT seria de R$ 200 milhões.

Já Palocci falou duas vezes.

Na primeira,  em abril, começava a negociar sua delação e disse ter ouvido de Lula que a Odebrecht destinaria R$ 200 milhões como contribuição ao PT, sem que ele estivesse presente em reunião alguma. Tudo teria ocorrido “antes da eleição de 2010”

Na segunda, no início do mês, apresentou uma história de que teria sido no finalzinho de 2010, já agora num encontro entre Lula, Dilma e Emílio, e o valor muda para R$ 300 milhões.

As versões, você vê, não coincidem em datas, números e personagens.

Passarão a coincidir, porque um ou dois depoimentos serão “emendados”, na base do “eu não me recordava direito”, agora que todos sabem o que os outros falaram.

A diferença de valores vai virar “um engano do papai” e a de datas será resolvida com “foram várias reuniões”.

Basta um telefonema entre os advogados, todos muito interessados na leniência judicial para seus clientes, que lhes pagam bom dinheiro para isso. Até porque são bancas que entraram no caso exatamente para isso: negociar bem as reduções de penas e multas, no valor de bilhões de reais. Quem conhece o mundo da advocacia sabe o que é “taxa de êxito”.

É evidente que valerá a versão mais comprometedora para Lula.

É evidente que o financiamento privado das campanhas políticas ocorreu (e ocorre) com o PT e com todos os partidos. Mas a tentativa de incriminação pessoal de Lula é também evidentemente frágil.

Palocci – e todos o sabem ao menos desde o caso Francenildo – não é homem de grandes pudores, ainda menos com dinheiro e com a verdade.

Faz negócios e este, ao que parece, será o mais lucrativo de sua vida.

Fernando Brito
No Tijolaço

Requiao.jpg
Leia Mais ►

A explicação

Ele só chegou em casa na quinta-feira. Bermuda suja, camiseta de um bloco da Bahia. Quando ia começar a falar, a mulher levantou a mão e disse:

– Espera. Vou chamar as crianças.

As “crianças”, na verdade tinham 18 e 17 anos. Olharam o pai com curiosidade.

– Onde você andou, papai? 

– Eu...

A mulher o deteve outra vez. Foi chamar os vizinhos. Só quando já tinha uma dúzia de pessoas dentro da sala, incluindo o seu Euclides do andar de baixo, ele pode começar a falar. Mas estranhou a cara da mulher. Não era a cara de uma mulher indignada com um marido que desaparecera de casa na sexta-feira antes do carnaval e só voltara na quinta, de bermuda suja e camiseta do “Muqueca com farofa”. Ela estava sorrindo. Ela estava olhando para ele com carinho.

– Que cara é essa, mulher?

– Você não existe, sabia?

– Como, não existo? 

– Você é uma anedota antiga. Marido que foge no carnaval e volta com uma explicação ridícula. Isso é pura nostalgia. Só você, mesmo...

– Deixa ele dar a explicação, mãe.

Ele hesitou. Depois contou que tinha sido sequestrado por alienígenas e, quando vira, estava atrás de um trio elétrico em Salvador. Fora trazido de volta pelos mesmos alienígenas.

Foi aplaudido. O seu Euclides, do andar de baixo, era o mais emocionado. Aquilo lhe lembrava o seu tempo, quando ele também escapava no carnaval e depois precisava inventar uma desculpa para a patroa. Bons tempos. Não voltavam mais. A não ser assim, como reconstrução histórica, para as crianças. 

A mulher estava abraçando o marido, dizendo “Vá tomar seu banho, vá”. Ele devia estar cansado, depois de pular todos aqueles dias atrás de um trio elétrico. Sem falar nas viagens de ida e volta, na espaçonave. Só ele mesmo...

Quando arrombaram a porta do banheiro, horas depois, ele tinha saído pela janela. Ainda bem que a nave dos alienígenas ficara por perto. Ele iria pegar no mínimo mais três dias em Salvador, onde, como se sabe, o carnaval nunca acaba.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

O cotidiano e as bases: dois focos necessários para as esquerdas


Em meio ao caos, à violação da Constituição de 1988 e do primado do voto popular, ao desmonte absoluto de direitos sociais e de instrumentos de soberania nacional, realmente, causa profundo desalento um traço saliente do comportamento das esquerdas: conferir atenção exclusiva à eleição de 2018. Algo totalmente fora de propósito.

Um fenômeno que não guarda a menor sintonia com a realidade brasileira, caracterizando, no momento, a diretriz de atuação e dos esforços de amplas faixas das diferentes correntes políticas e dos organismos partidários de esquerda.

As direitas são tão vendidas e entreguistas, quando não mesmo mergulhadas no larapismo desavergonhado, que, havendo oportunidade, subservientemente, limpariam os coturnos de soldados gringos e as maletas de banqueiros e agentes internos e internacionais ciosos por ganharem fácil sobre o suor do Povo. As direitas são a matriz interna associada ao imperialismo e ao capital estrangeiro para destruir o País. São inimigas da Pátria. Possuem dilatados e semi-irrefreáveis instrumentos de poder para acabarem com a Nação.

Tendo isso em vista, lançando as lentes sobre as esquerdas, me parece que até agora, grossa parte dos aderentes do PT não entendeu o sentido e as limitações, em boa medida, autoimpostas pelos governos lulopetistas: conciliaram os interesses dos grandes com os de baixo, estritamente sob a base do aumento de exportações e de preços dos bens primários no mercado internacional.

Essa onda refluiu bastante. Nem de longe está à vista o seu retorno. Asfixiou o método lulopetista de governo, de distribuição desigual interclasses apoiada em receitas exportadoras. De resto, como já disse o próprio ex-presidente Lula, algumas "reformas” – neoliberais/conservadoras, diga-se – “eram necessárias" e se fosse Dilma, "colocaria Henrique Meirelles na Fazenda".

Realmente, não sei sobre qual base material, de classe e organizacional alguém pode imaginar Lula presidente e, sobretudo, à esquerda, atendendo o Povo Trabalhador.

No mesmo compasso, Ciro Gomes (PDT) caminha no terreno de Lula, só que buscando, mais abertamente, agentes do “capital produtivo” para compor e dar sustentação a um eventual governo seu. Isso em meio ao mais absoluto vendepatrismo das burguesias ditas "nacionais". Talvez Ciro só venha a encontrar donos de restaurantes, minimercados varejistas e padarias.

O grande capital, em diferentes ramos, está sob controle direto de multinacionais ou associa-se, de maneira subordinada, mesmo como “burguesia compradora”, ao capital internacional.  Em todo caso, Ciro é muito articulado e tem contribuído para o debate, para desmontar falácias presunçosas e ilusões veiculadas por reacionários a soldo do desmonte do País.

Mais à esquerda ainda, tem sido ventilado o nome de Nildo Ouriques, como potencial pré-candidato do Psol. Superarticulado, professor renomado, que, intelectualmente, opera com a teoria da dependência, Nildo chama a atenção para as esquecidas questões nacional, do subdesenvolvimento, da inserção subordinada na divisão internacional do trabalho e das raízes da superexploração do trabalho em nossas terras.

O professor e economista pode, seguramente, contribuir e muito para o debate e o esclarecimento político, apesar das franjas cada vez menores de espaço, sobretudo midiático.

Nomes e determinadas visões programáticas e de classe à parte, antes de qualquer coisa me parece que é preciso reconstruir tudo, no campo popular-nacional, democrático e, inclusive, socialista, desde as bases. Reconfigurar "softwares mentais", esquemas de percepção, não raro, colonizados (à francesa), organismos populares e comportamentos políticos.

Incentivar disposições comportamentais ativas e semiautônomas de atuação, sem ilusões eleitorais e imediatistas. Antes de tudo, é preciso (re)criar o Povo Brasileiro, uma identidade em torno de aspirações, desafios, valores e avaliações comuns sobre o que se quer e o que não se quer, entre os trabalhadores humildes, medianos e capas mais altas de classe, além da pequena burguesia. Como dizia Carlos Mariguella: "Base, base, base".

Sem base, sem imiscuir-se no cotidiano das diferentes frações de classes que permitam forjar uma identidade política ao Povo Brasileiro, sem camadas populares e médias articuladas e comungando uma visão, uma convicção segura para agir, laços de confiança e solidariedade interna a um potencial emergente bloco popular, não há sequer uma medida favorável ao Povo que possa durar, minimamente.

Sem base social organizada e mobilizada, qualquer iniciativa, proposta ou governo cai com dois petelecos. A história recente já demonstrou. Ad nauseam.

Concluo fazendo referência a um recente filme argentino, "Eva não dorme". A película é muito ilustrativa, ao menos em um aspecto, sobre o assunto que abordo. Na narrativa, encontra-se um alto oficial militar golpista e submisso ao capital estrangeiro e aos EUA.

Esse personagem, ao ver, nos anos 1940-50, as grandes massas de trabalhadoras e trabalhadores argentinos nas ruas e nas praças, em apoio às medidas adotadas e defendidas por Evita e Juan Domingo Perón, assim classifica o Povo, com todo o seu ódio de classe: "As bestas, as bestas estão soltas".

Nesse sentido, as nossas "bestas" precisam ser libertadas de ilusões e ao menos incomodar, como já incomodou, o condomínio do poder do grande capital. Para isso, faz-se necessário organização e trabalho cotidiano.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.
No GGN
Leia Mais ►

Marcos Coimbra, da Vox Populi: ainda não foi desta vez que mataram Lula

Em artigo publicado neste fim de semana na revista Carta Capital, chamado "As cem vidas de Lula", o cientista político Marcos Coimbra, da Vox Populi, nega que o depoimento do ex-ministro Antônio Palocci tenha sido a "bala de prata" contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Até agora, nenhuma dessas pantomimas foi eficaz. Lula sobreviveu às incontáveis acusações que sobreviveu da imprensa corporativa, às horas de denúncias do Sistema Globo, às capas de revistas e manchetes afirmando sua culpa", diz Coimbra. Não morreu a cada prisioneiro que tiraram da cela para recitar a 'colaboração premiada'. Está vivo depois de ser coercitivamente conduzido a depor e de ser objeto dos jogos de cena dos promotores", diz Coimbra.

O cientista político afirma ainda que não só Lula não perdeu votos, como continua em alta nas pesquisas. Segundo ele, o eleitorado se cansou da narrativa que há três anos tenta criminalizar Lula e também percebe que há provas de sobra contra aqueles que o atacam. "A melhora de Lula em todos os indicadores revela que as pessoas menos politizadas e com menor definição partidária estão sendo a cada dia menos afetadas pelas encenações que lhes são apresentadas", afirma. "Para a maioria dos brasileiros, o ex-presidente continua a ser o Lula velho de guerra, a despeito do show judiciário e do carnaval midiático", conclui.

Ou seja: como será difícil bater Lula no voto, resta o tapetão judicial.

No 247
Leia Mais ►

Um filme de mocinho

Nota prévia necessária: este texto não entrará no mérito da chamada Operação Lava Jato, seja em sua pertinência, seja em seus resultados para a vida política do Brasil. Nem se falará sobre a controversa ocultação dos investidores do filme Polícia Federal, num país em que os patrocinadores estão sempre ávidos por ver seus nomes na tela. Há outros foros mais apropriados para essas discussões. O interesse aqui é falar de cinema, isto é, observar como um determinado ponto de vista sobre a sociedade e o mundo se configura em espetáculo cinematográfico, ou, inversamente, como um espetáculo cinematográfico revela um determinado ponto de vista sobre a sociedade e o mundo.
Polícia Federal (passemos ao largo da piada do subtítulo: A lei é para todos) é um filme de mocinho. O que caracteriza o filme de mocinho, seja ele faroeste, policial, melodrama ou ficção científica, é uma simplificação extrema dos dados do real, eliminando ambiguidades e nuances para construir um universo dramático em que o bem e o mal estão muito bem delimitados. E a estratégia narrativa consiste em manipular o olhar e as emoções do espectador de modo a induzi-lo a tomar partido e torcer por um dos lados do conflito – o lado do “bem”, evidentemente.

O filme de Marcelo Antunez (que anteriormente dirigiu Qualquer gato vira-lata 2Até que a sorte nos separe 3 e Um suburbano sortudo) se encaixa muito bem no figurino. Desde o prólogo, a bem da verdade desde o título, sabemos quem são os mocinhos: um grupo de aplicados e destemidos policiais federais, liderados pelo delegado Ivan (Antonio Calloni), que também faz a narração em off. O vilão, inicialmente, é a corrupção, ainda um tanto em abstrato, mas já sugerida pela epígrafe do filme, um texto célebre de Rui Barbosa.


Narrativa standard

Há uma breve sequência de ação que serve de prólogo e cartão de visitas para mostrar uma agilidade narrativa de policial americano padrão: a abordagem de um caminhão que transporta drogas, filmada com tomadas aéreas, montagem acelerada, alternância de ambientes entre o quartel-general da operação e o local do confronto, música ruidosa num crescendo de suspense, enfim, a receita toda. Corta para um bem-humorado clipe composto de animação e registros documentais para contextualizar a corrupção crônica na história brasileira.

A partir daí o que veremos será o esforço da equipe liderada por Ivan para ir cada vez mais fundo no desvendamento de uma rede de corrupção que entrelaça promiscuamente doleiros, traficantes, grandes empresários, agentes públicos corruptos e, finalmente, políticos próximos ao poder. Um argumento, como se vê, não muito distante dos grandes filmes políticos italianos dos anos 1960 e 70, de cineastas como Francesco Rosi, Elio Petri, Giuliano Montaldo e Damiano Damiani.

Só que, diferentemente do que ocorria naquele longínquo cinema italiano, aqui toda complexidade política e toda ambiguidade moral são abolidas em favor de uma apresentação francamente maniqueísta, em que os integrantes da força-tarefa da Lava Jato são integralmente honrados, sérios, solidários, bem-intencionados, empenhados em acabar com a corrupção no país e, quem sabe, no mundo. Nós os vemos nas suas reuniões de trabalho e, eventualmente, em sua vida privada. Um deles em especial, o delegado Julio Cesar (Bruce Gomlevsky), é o lugar do melodrama na estrutura do filme. Ele acompanha a quimioterapia da mãe, visita o pai no hospital depois de um enfarte, discute política com o velho etc.

O próprio juiz Sergio Moro (Marcelo Serrado), estrela máxima da operação e único representante da lei cujo nome verdadeiro é mantido no filme, tem relativamente poucas aparições, mas todas significativas: aparece lavando louça, conversando amistosamente com o filho adolescente, aquiescendo respeitosamente às decisões da esposa; ouvindo compenetrado os dados apresentados pelos investigadores; meditando em silêncio sobre a conveniência de divulgar escutas ilegais. Lembra o soberano justo e consciencioso que tem o poder absoluto nas mãos, mas escuta seus assessores e conselheiros antes de decidir o que é melhor para o seu povo.

A lei como estorvo

Mas talvez a cena mais significativa de Moro seja a primeira, em que ele aparece dando uma aula na faculdade. Ele está discorrendo sobre a Operação Mãos Limpas e diz, encerrando a aula: “Mas o Parlamento italiano aprovou leis que acabaram por estrangular (ou estancar, ou inviabilizar, não me lembro) a operação”.

E aqui entramos na questão mais delicada do filme. Se os membros da força-tarefa são os mocinhos, quem são os bandidos? O mal absoluto é a corrupção, já sabemos, mas quem são seus representantes? Quem são os inimigos? Eles vão aparecendo, um a um: o doleiro, o diretor de estatal corrupto, o empresário corruptor, até que, da metade do filme para a frente, tudo conflui para um inimigo número um, chamado de “rei” ou de “chefe” – e a narrativa passa a se resumir a uma “caça ao Lula”, assim como os intocáveis de Eliot Ness visam chegar a Al Capone, o capo di tutti capi.

Antes de examinar como esse vilão-mor, vivido por Ary Fontoura, é apresentado no filme, cabe observar quais são os obstáculos que os mocinhos têm que enfrentar para chegar até ele. Aí é que entra a aula de Moro.

Entre os entraves à ação da Lava Jato estão o STF (“Se passar para as mãos do Supremo já era”, queixa-se um investigador), os movimentos sociais (“A CUT, o MST e o MTST vão bloquear os acessos”, alerta outro, quando da condução coercitiva do ex-presidente) e, mais sutilmente, a própria lei. Não por acaso, num momento crucial da história, o juiz-herói decide passar por cima da lei em nome de “um bem maior”. Ao criticar as leis italianas que teriam refreado a Operação Mãos Limpas, ele prepara o terreno para justificar moralmente o eventual desrespeito à lei brasileira. Os fins nobres justificando os meios.

Quanto aos inimigos “de carne e osso” – doleiros, empresários desonestos, agentes públicos corruptos –, eles são sempre apresentados de forma chapada, unidimensional, sem direito a matizes. Tomemos como exemplo a doleira Nelma Kodama, vista numa única e breve cena: nua numa banheira de espuma, com um copo de bebida na mão, enquanto o narrador diz em off que ela era amante de Youssef (Roberto Berindelli). e de um outro doleiro. É o mais batido clichê da depravação moral. O próprio Youssef é invariavelmente sarcástico, cínico. Já Paulo Roberto Costa (Roney Facchini) é pusilânime, medroso, submisso à mulher e à filha.

E chegamos então ao vilão supremo, contra quem os realizadores a esta altura já mobilizaram emocionalmente a plateia. O clímax da narrativa é sua condução coercitiva, vista quase como um trailer de sua aguardada prisão definitiva. Só algum tipo de transe dos espectadores os impede de rir quando o delegado que chefia a operação diz a Lula que o depoimento não pode ser tomado em sua casa e que ele terá que ser levado ao aeroporto de Congonhas (!) para “seu próprio conforto e segurança”, para não ser exposto (sic). Mas esta talvez seja uma contradição da vida real, não propriamente do filme.

O Lula construído por Ary Fontoura é um personagem desagradável, irascível e arrogante, desprovido de carisma e humor (qualidades que não se pode negar ao ex-presidente).

Vejamos um detalhe dessa caracterização. De acordo com o noticiário da época, ao ser abordado por policiais em seu apartamento, o ex-presidente brincou: “Cadê o japonês da Federal?”, provocando risos nos próprios agentes. No filme a cena é bem outra. Lula/Fontoura diz, agressivo: “Não veio aquele japonês? Ainda bem, senão aquele ladrão ia roubar tudo aqui. Já falei para o Cardozo mandar prender esse cara”.

Vilões unidimensionais

O que todos esses personagens “do mal” têm em comum, além da hipocrisia, é a ausência de qualquer vestígio de qualidade positiva, ou mesmo de humanidade. É como se o filme, em seu didatismo, não quisesse correr o risco de permitir uma mínima empatia e causar confusão na mente do espectador infantilizado de nosso tempo.

O problema, a meu ver, é que o terreno da história política é bem mais movediço e complexo do que é capaz de dar conta esse maniqueísmo primário. Sobretudo de uma história política ainda em andamento, com o país dilacerado e as feridas em carne viva.

Mas calma lá. Polícia Federal tenta se antecipar a essa possível crítica e acenar com uma visão mais nuançada: perto do final, o personagem-narrador Ivan se pergunta: “A quem será que estamos servindo? A quais objetivos reais?” Pode ser só um álibi retórico. Mas uma coda documental, mostrando a prisão do primo do senador Aécio Neves com uma mala recheada de dinheiro, aponta para o prosseguimento da investigação e anuncia a realização de um novo filme. A exemplo do que houve com Tropa de elite, essa continuação poderia se chamar Polícia Federal 2 – O inimigo agora é outro. Cabe esperar para ver.

José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou na Folha de S. Paulo e na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton, Brasil: Anos 60 e Futebol brasileiro hoje. Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80, Folha conta 100 anos de cinema e Os filmes que sonhamos, entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.
No Esquerda Caviar
Leia Mais ►