16 de set de 2017

Fachin nega desmembramento de investigação contra presidentes do Senado e da Câmara

Ministro não verificou qualquer prejuízo à garantia constitucional da duração razoável do processo ou outro motivo que justifique separação dos fatos sob apuração.


O ministro Edson Fachin, do STF, indeferiu pedidos dos presidentes do Senado Federal, Eunício de Oliveira (PMDB/CE), e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), para desmembrar a investigação em curso contra eles e outros três parlamentares no INQ 4437.

O senador Eunício Oliveira afirma não ter participação nos fatos e pede que a investigação quanto a ele transcorra em separado para que seja concluída com mais celeridade. Já o deputado Rodrigo Maia alega não ter ligação com os fatos sob investigação ou com os demais integrantes do inquérito. O relator, no entanto, não verificou qualquer prejuízo à garantia constitucional da duração razoável do processo ou outro motivo que justifique separação dos fatos sob apuração.


O inquérito foi instaurado com base em informações obtidas a partir das declarações prestadas em colaborações premiadas de executivos e ex-executivos do grupo Odebrecht. De acordo com a PGR, há indícios consistentes de que, no intuito de aprovar legislação favorável aos interesses da companhia, teriam havido repasses indevidos de recursos a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo.

Na petição, o senador argumenta não haver qualquer vinculação entre ele e os demais investigados, seja pessoalmente ou em relação aos fatos em apuração. Eunício afirma não ter tido participação na tramitação da medida provisória que seria objeto do acordo, não sendo possível falar em qualquer ato que possa ter sido praticado com o objetivo de obter vantagem ilícita que caracterize os crimes de corrupção passiva ou lavagem de dinheiro. O deputado Rodrigo Maia, por sua vez, afirma, que a menção a seu nome é isolada e oriunda de conversa fortuita. Sustenta que votação das medidas provisórias objeto da suposta investigação ocorreriam no Senado, onde não poderia influenciar a tramitação. Também afirma não ter participado de qualquer reunião a respeito da votação.

Em relação aos pedidos de cisão, o ministro Fachin não verificou “qualquer prejuízo ao valor constitucional da duração razoável do processo, inscrito no artigo 5º, LXXVIII, da Constituição da República, ou outro motivo hábil a justificar a separação dos fatos em investigação”. Ressaltou que, segundo a jurisprudência do STF, a razoável duração do processo deve ser aferida segundo a complexidade da causa e a atuação das partes e do órgão jurisdicional.

Na decisão, o ministro afirmou que o inquérito tramita regularmente, não tendo sido indicada, pela defesa dos investigados, qualquer evidência concreta de retardo indevido nos atos procedimentais pelos órgãos de persecução criminal ou pelo STF. O relator destacou que, conforme a manifestação do Ministério Público Federal, pelo menos na fase inicial, a investigação exige tramitação conjunta, sob pena de acarretar a desnecessária repetição de diligências comuns e prejuízo à compreensão global dos fatos.

Quanto às teses das defesas dos presidentes das casas legislativas relativas ao mérito das imputações e à ausência de envolvimento dos investigados nos fatos que são objeto de apuração, o ministro observou que o exame é inviável nesta fase processual. Na decisão, o relator também deferiu o pedido de prorrogação de prazo para realização das diligências necessárias à elucidação dos fatos, por 30 dias, e ordenou a imediata remessa dos autos à Polícia Federal.
Veja a íntegra da decisão.


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Delação premiada: mercadoria do Estado pós-democrático


Para compreender criticamente a “colaboração premiada” é necessário contextualizar esse instituto. Para além da previsão legal e da importação acrítica desse instituto, só é possível perceber o funcionamento concreto da colaboração premiada à luz da razão neoliberal como nova razão do mundo, na linha defendida por Christian Laval, Pierre Dardot e Antonie Garapon.

Tudo hoje é tratado como mercadoria. Todos os valores passaram a ser tratados no registro das mercadorias. A “colaboração premiada” é uma mercadoria. Aliás, o próprio nome “colaboração premiada” é para “vender” como algo positivo a delação, que do ponto de vista histórico, sempre foi uma negatividade.

A delação é chamada de colaboração para disfarçar o desvalor ético inerente a todo e qualquer delator. Não poucos autores percebem que, com a delação premiada, o Estado perde a superioridade ética que deveria o distinguir do criminoso.

A liberdade e a verdade, valores da jurisdição penal democrática, passaram a ser tratadas como mercadorias. Os direitos e garantias fundamentais, que na concepção de Luigi Ferrajoli, compõem o conteúdo substancial da democracia, também passaram a ser tratadas como mercadorias.

E o que caracteriza a mercadoria? Mais do que a existência de um valor de uso e de um valor de troca, é a possibilidade de ser negociada, substituída e, quando se torna obsoleta, descartada.

No momento em que o neoliberalismo foi alçado à condição de “nova razão de mundo”, os valores e princípios que condicionavam a atuação dos sujeitos, tanto na vida privada quanto na vida pública tornaram-se negociáveis e, portanto, descartáveis.

Pensem na chamada “operação Lava Jato”. Não se trata de um processo. Hoje, existem vários processos da grife “Lava Jato”. Mais do que um complexo de casos penais, a Lava Jato hoje é um grande produto, explorado à exaustão pelos meios de comunicação de massa.
Vale insistir: a Lava Jato não é um caso penal. Não é uma imputação submetida ao devido processo legal. No que se chama de “Lava Jato” existem diversos casos penais, em diversos juízos, alguns que seguem o devido processo legal, outros que apresentam atipicidades. Impossível tratar todos os casos penais que recebem a etiqueta de Lava Jato como se fossem um só.
Agora, à luz da razão neoliberal, a Operação Lava Jato não passa de um produto, de uma mercadoria. De uma mercadoria espetacular. Lembrando que em meio à sociedade do espetáculo, tão bem descrita por Guy Debord, a dimensão de garantia do Processo Penal liberal cede lugar à dimensão de entretenimento.

O desejo de democracia, ligado ao respeito aos direitos e garantias fundamentais, é substituído pelo desejo de audiência. No caso brasileiro, uma audiência em relação a qual não foi possível construir uma cultura democrática.

A rigor, no neoliberalismo desaparece o sujeito. O subjectum, aquele que depende e necessita se submeter a outro (e o primeiro outro é a mãe que alimente o ser frágil e impotente), passa a acreditar que não necessita do outro, que se basta e que sempre se bastou (o discurso da meritocracia é uma variante desse fenômeno).
No plano imaginário, o sujeito transforma-se em um projeto empresarial. Em apertada síntese, cada um passa a se perceber como um empresário em luta permanente com os outros, tidos como adversários empresariais. Desaparece o diálogo, necessário à construção de vínculos, e, com ele, a possibilidade de um projeto coletivo ou mesmo a consciência da dimensão de classe.

A razão neoliberal levou à superação do Estado Democrático de Direito. Foi a razão neoliberal, ao buscar o lucro ilimitado, que levou à percepção dos direitos e garantias fundamentais como obstáculos à eficiência do Estado e do Mercado.

No Estado Pós-Democrático, desaparece a dimensão substancial da democracia (e mesmo a regra da maioria torna-se descartável). Se o Estado Democrático de Direito se caracterizava pela existência de limites rígidos ao exercício do poder, de qualquer poder, no Estado Pós-Democrático, em que o único objetivo é o aumento do Capital, inexistem limites rígidos ao exercício do poder. Mas, não é só. No Estado Pós-Democrático, que surge em atenção à razão neoliberal, o poder político cada vez mais se identifica com o poder econômico.

O exercício concreto do poder passa a se manifestar ora na forma de poder repressivo, com uso constante da violência de um terceiro necessária à contenção e exclusão daqueles que não interessam ao projeto neoliberal, ora na forma de “psicopoder” (Byung-Chul Han), que se manifeste sem a necessidade do exercício de um poder externo, de forma silenciosa e sutil a penetrar no psiquismo. É o psicopoder que faz com que o indivíduo, que se imagina como um empresário (e, portanto, como um órgão do Mercado, detentor imaginário de parte do poder político e do poder econômico), se submeta, sem perceber, ao poder econômico.

Os indivíduos submetidos ao psicopoder atuam de maneira voluntária, aderem ao projeto de dominação dos titulares do poder econômico sem perceber que também são explorados. São levados a acreditar na eficiência economicista e não na efetividade adequada à Constituição. A delação premiada é um instrumento que busca legitimidade nessa lógica eficientista, que não reconhece limites éticos ou jurídicos aos meios que buscam determinados fins adequados (sucesso econômico) ao projeto neoliberal.

No neoliberalismo, a parcela que se imagina livre do controle penal e da opressão de classe, na realidade, está submetida, vinte e quatro horas por dia, ao autocontrole e à autoexploração voltados aos interesses dos detentores do poder econômico.

Assim, mesmo nos bairros mais pobres das cidades, os indivíduos consideram o Estado um inimigo de seus projetos empresariais, valorizam a meritocracia e desconsideram a dimensão estrutural da crise ética (acreditam, por exemplo, que a “corrupção” é um problema relacionado apenas ao mau comportamento individual).

Os efeitos da razão neoliberal são trágicos onde quer que se façam presentes. Pense-se, por exemplo, no Sistema de Justiça Criminal, que hoje se concretiza através de processos penais que abandonaram os valores “liberdade” e “verdade”, inerentes à jurisdição penal democrática.

Liberdade e verdade, na pós-democracia, foram substituídos pelos valores “punição” e “consenso”. Consenso que, na delação premiada, se dá em torno de uma informação que muitas vezes não guarda relação com a verdade.

A razão neoliberal constrói uma visão de mundo que reduz as complexidades e que aposta em construções discursivas vendidas como positividades (pós-verdade). A realidade, complexa, é formada tanto por positividades quanto por negatividades. A informação a ser negociada, ao contrário, é pura positividade, é aquilo que se quer ouvir.

A liberdade, em especial daqueles que incomodam o funcionamento do Mercado e a lógica do poder econômico (pessoas sem poder de compra ou adversários políticos dos detentores do poder), pervertida pela visão neoliberal, passa a ser vista como uma negatividade, algo de ruim (a eventual absolvição de um réu acaba “vendida” como sinônimo de impunidade: “bandidolatria” para se usar uma expressão, típica do pensamento simplificador da moda), enquanto a prisão e a exclusão/eliminação de sujeitos (não-empresários) como uma ação positiva do Estado.

A verdade, sempre complexa e parcial, sempre positividade e negatividade em relação dialética, é abandonada na jurisdição neoliberal. A impossibilidade da descoberta da “verdade”, também vista como uma negatividade, fez com que esse valor acabasse substituído pelo valor “informação”.

A informação, sempre uma positividade que tem valor de troca e, ao mesmo tempo, pode ser descartada, revela-se mais adequada ao regime das mercadorias próprio da razão neoliberal. Não por acaso, nas “delações premiadas”, as informações selecionadas a partir de critérios subjetivos (não raro, condicionados por perversões inquisitoriais e pelos desejos de punir típicos de sociedades inseridos em uma tradição autoritária) dos agentes encarregados da persecução penal, são mais importantes do que a descoberta da verdade.

A descoberta da verdade torna-se acidental (a verdade deixa de ser uma meta, ou melhor, desaparece o objetivo de se aproximar da verdade no processo penal). Por “verdade” (poder-se-ia dizer aqui “pós-verdade”) passa a ser entendida a confirmação discursiva da hipótese acusatória.

Na realidade, a informação rara (a “raridade” é uma qualidade que se constrói a partir da relação oferta-procura), entendida como aquela que comprova a hipótese acusatória, revela-se a de maior valor, uma mina de ouro tanto para os acusadores quanto para o acusado que quer fazer jus a uma compensação (antiética) pelas declarações prestadas.

A informação tornou-se o objeto de uma declaração despida de qualquer complexidade inerente aos acontecimentos naturalísticos. Mais importante do que retratar a verdade, a informação deve constituir uma positividade, isto é, aos olhos dos agentes da persecução penal e do juiz, confirmar a hipótese acusatória e permitir a imposição de uma pena, “apresentada” também como uma positividade.

No procedimento “probatório”, o que importa para os atores estatais tomados pela razão neoliberal é a positividade consistente em confirmar a hipótese acusatória. E, não raro, a hipótese acusatória não passa de uma certeza delirante do acusador. Se a cultura inquisitorial leva ao “primado da hipótese sobre o fato”, a informação obtida na delação, se for ao encontro da certeza delirante do julgador, torna-se extremamente valiosa (que o digam alguns famosos delatores da recente história brasileira).

A negatividade própria da improcedência da pretensão punitiva deve ser evitada, mesmo que para tanto direitos e garantias fundamentais necessitem ser afastados e que informações que não interessem à construção discursiva da condenação precisem ser abandonadas.
Em resumo, a informação “obtida” nas delações premiadas, muitas vezes obtidas após prisões e coações ilegítimas, em um quadro no qual direitos e garantias fundamentais estão afastados em nome da lógica neoliberal, não guarda qualquer relação necessária com a verdade. Trata-se de um mero negócio no qual o valor “verdade” também é descartável enquanto o significante “verdade” passa a ser manipulado.
O quadro torna-se ainda mais grave diante da tradição autoritária em que a sociedade brasileira está lançada. Há, portanto, um problema hermenêutico.

Como se sabe, há uma diferença ontológica entre texto e norma. A norma é sempre produto do intérprete. O problema é que no Brasil o interprete está lançado em uma tradição autoritária que acaba por condicionar a criação das normas a partir do texto legal.

Tradição que fez com que o instituto da “delação premiada” fosse incorporado ao ordenamento brasileiro sem os controles epistêmicos presentes em outras legislações (por exemplo, vedação de delação de réu preso, admissão só para crimes excepcionais como o terrorismo, necessidade de advogados distintos para cada delator, limites temporais e legais bem definidos etc.).

Vale, ainda, analisar alguns problemas verificados na prática dos “acordos” de delação premiada. Um instrumento legal democrático deve reduzir ao máximo os espaços discricionários e impedir, na medida do possível, o arbítrio. A delação premiada, como ela é tratada no Brasil, não atende a esse fim.

No Brasil, que acredita no uso da força em detrimento do conhecimento para resolver os mais variados problemas, tem se admitido a delação de réu preso cautelarmente. Problemas:

Primeiro: a liberdade, ao menos desde Kant, não pode ser objeto de negociação.

Segundo: vício na formação da vontade do delator. A prisão, por evidente, compromete a voluntariedade necessária à celebração lícita de qualquer negócio, em especial de um negócio processual penal que possa resultar em restrição da liberdade. Há, inegavelmente, um componente de chantagem que afasta a legitimidade do acordo.

Terceiro: se o “delator” está preso cautelarmente, ao menos nas democracias, significa que a liberdade dele gera risco processual, ou seja, que existem dados concretos de que ele fez algo que coloca em risco a ordem pública, a ordem econômica, a instrução criminal ou a aplicação da lei penal. Esse indivíduo que não pode ficar em liberdade (e, nas democracias, a liberdade é a regra) no curso do processo vai fazer jus a um benefício (sempre uma exceção)? Soa absurdo.

Outra questão: a delação de preso já condenado. Aqui também se faz presente o componente de chantagem já mencionado. A voluntariedade está ainda mais comprometida. Admitir delação de réu já condenado significa permitir que alguns juízes apliquem penas desproporcionais como estratégia de coação para produzir delações.

Mais uma: o valor probatório da delação. Há quem diga, e há um voto do Min. Lewandovsky nesse sentido, que a delação premiada não é “prova”, mas “fonte de prova”, um caminho a ser seguido na busca de provas. Mas, não é isso que a lei diz. Um dos parágrafos do art. 4º. da Lei 12.850/13 estabelece que “nenhuma sentença condenatória será proferida com fundamento apenas nas declarações do agente colaborador”. Ou seja, a delação é tida pelo legislador como meio de prova, as declarações são provas. Se o teor das delações for considerado “prova”, tem-se que admitir que o Estado pode “comprar” uma prova. Pensem o seguinte: o réu pode oferecer vantagens a uma testemunha para ela falar, ainda que seja a verdade? Podemos negociar provas?

Questão conexa com a última: o Estado pode exigir do Delator que produza provas que comprovem o conteúdo da sua delação? Isso violaria a dimensão probatória da presunção de inocência? Ou a presunção de inocência está suspensa (relativizada/flexibilizada, segundo a dicção neoliberal) para o delator?

Ainda sobre o valor probatório do conteúdo da delação: uma outra prova oral, vale imaginar a delação de um outro “agente colaborador”, é suficiente para justificar uma condenação, já que não existiria “apenas as declarações de um agente colaborador”? Isso para não se falar da evidente violação ao princípio da legalidade estrita em diversos acordos que estão a ser celebrados em todo o Brasil.      

Mas, o que fazer em um mundo no qual desapareceram os valores (e os princípios democráticos)? Como agir em um mundo no qual tudo é tratado como mercadoria? Hoje, a reação possível encontra-se no campo ético-poético.

Para reagir ao subjetivismo criado pelo neoliberalismo, resta a redescoberta do outro e a poiesis: ações marcadas pelo reconhecimento e compromisso com o outro, visto em sua complexidade, como um ser com positividades e negatividades; e ações que criam o novo, a criatividade posta a serviço da produção de uma nova subjetividade, uma produção que não ecloda em si-mesmo, mas no outro e permita a identificação de um comum pelo qual vale a pena lutar.

Rubens Casara é Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ e escreve a Coluna ContraCorrentes, aos sábados, com Giane Alvares, Marcelo Semer, Marcio Sotelo Felippe e Patrick Mariano.
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Ataque fascista e criminoso ocorrido hoje contra a ocupação do MTST






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Juiz de piso censura peça de teatro


Depois de passar pela capital e várias cidades do interior paulista, a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, de Jo Clifford, deveria ser exibida nesta sexta-feira (15/09), no Sesc Jundiaí (SP).

(Veja mais aqui)

Porém, o espetáculo foi cancelado um pouco antes de começar por liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, atendendo a um pedido que já vinha sendo articulado há alguns dias por fundamentalistas religiosos.

Em sua página no Facebook, a companhia de teatro publicou este comunicado:
Com pesar e indignação comunicamos o cancelamento do nosso espetáculo, que aconteceria hoje no Sesc Jundiaí. O cancelamento aconteceu devido à liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, atendendo a um pedido que vem sendo articulado há alguns dias por congregações religiosas, políticos e pelo TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Citando a autora da peça, Jo Clifford, isto prova a importância do trabalho e como ele se faz necessário hoje no Brasil: o país que mais assassina travestis e transexuais no mundo.

A tristeza é grande, mas o desejo de continuar também. Agradecemos o apoio do Sesc, que acolhe nosso trabalho desde a sua estréia, e daremos mais informações em breve.

“Abençoada sejas se abusam de você ou te perseguem. Isso significa que você está trazendo a mudança. E abençoados sejam aqueles que te perseguem também. O ódio é o único talento que têm, e não vale nada”.

E continuaremos na estrada temos apresentações já agendadas no @sescsantoamaro @sescsantoandre @sescjundiai @sescriopreto
O pedido de antecipação de tutela foi ajuizada por Virgínia Bossonaro Rampin Paiva contra o Sesc Jundiaí, pedindo a suspensão da peça, com este argumento:
“a referida exibição vai de encontro à dignidade cristã, posto apresentar Jesus Cristo como um transgênero, expondo ao ridículo os símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa”.
Em sua decisão liminar (abaixo, a última página), o juiz afirma:
…não se pode produzir uma peça teatral de um nível tão agressivo, ainda que a entrada seja franqueada ao público.
(…) não pode ser tolerado é o desrespeito a uma crença, a uma religião, enfim, a uma figura venerada no mundo inteiro.
malgrado a inexistência da censura prévia, não se pode admitir a exibição de uma peça com um baixíssimo nível intelectual que chega até mesmo a invadir a existência do senso comum, que deve sempre permear por toda a sociedade.

(…)

Do exposto, considerando-se que as circunstâncias jurídicas alegadas em a inicial corroboram o fato de ser a peça em epigrafe atentatória à dignidade da fé cristã, na qual JESUS CRISTO não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim O FILHO DE DEUS, ACOLHO as razões explanadas pela parte autora e assim o faço com o fito de proibir a ré de apresentar a peça “O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU”, prevista para o dia de hoje (15 de setembro de 2017).

Data vênia, discordo de sua excelência, o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior.

A sua decisão revela fundamentalismo religioso, preconceito e cegueira. É a treva total.

Além de censurar a peça, sim, falta-lhe ainda o verdadeiro espírito cristão.

[URGENTE] Após tentarem, sem sucesso, a censura da peça “A princesa e a costureira” durante a Semana da Diversidade Sexual de Jundiaí (interior de SP), alegando doutrinação gay para crianças, fundamentalistas religiosos prosseguem com mais pressão por interferência na política e pedem a censura da peça “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”.

Na peça Jesus é representado por uma atriz trans, o que gerou revolta de intolerantes. Mas dessa vez um juiz apresentou uma liminar proibindo a execução da peça.

É inadmissível que igrejas se manifestem dessa forma sobre arte.

Se alguém tentasse interromper esses cultos, o que aconteceria?

Se alguém tentasse pendurar obras de cunho provocativo dentro de igrejas, como se sentiriam?
As justificativas para a proibição da peça são absurdas e contrariam completamente o princípio da laicidade do estado.
Está sendo mais comum que igrejas interfiram dessa forma sobre o poder público, de modo a criar um tipo de poder paralelo, não apenas regulando expressões artísticas, mas também agredindo pontos importantes da promoção de cidadania e respeito dentro de planos de ensino e buscando privilégios administrativos e blindagem pública a críticas.
Mas o que faltou ao senhor juiz, o pastor Henrique Vieira tem de sobra.



A peça segue na estrada.

E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse travesti? 

O espetáculo é uma mistura de monólogo e contação de histórias em um ritual que traz Jesus ao tempo presente, na pele de uma travesti.

Histórias bíblicas conhecidas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e intolerância sofridas por transgêneros e minorias em geral.

A peça provoca reflexão ao expor estes problemas sociais ao mesmo tempo em que emite uma mensagem de amor, perdão e aceitação. A identidade travesti é elemento chave do espetáculo, que busca a transformação do olhar diante de identidades marcadas pelo estigma e pela marginalização.

FICHA TÉCNICA: 

Texto: Jo Clifford
Tradução/adaptação: Natalia Mallo
Direção: Natalia Mallo
Assistência de direção: Gabi Gonçalves
Trilha sonora*: Natalia Mallo
Iluminação: Anna Turra, Juju Augusta
Construção do altar: Jimmy Wong
Treinamento corporal: Fabricio Licursi e Gisele Calazans
Treinamento vocal: Patricia Antoniazi
Produção: Núcleo Corpo Rastreado
Apoio: TRANSFORM British Council.
*Trilha sonora inclui trechos de “A pele mais fina” (Liniker/As Bahias e a cozinha mineira), “Um Beijo” (MC XUXU) e “New world coming” (Nina Simone).



Desde a nossa estréia, há um ano, passamos por diversas situações de violência: ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet, etc. Mas esta é a primeira vez que o espetáculo é impedido de acontecer.

O conteúdo da liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1º Vara cível de Jundiaí, que resultou no cancelamento, é um tratado de fundamentalismo e preconceito.

“… muito embora o Brasil seja um Estado Laico, não é menos verdadeiro o fato de se obstar que figuras religiosas e até mesmo sagradas sejam expostas ao ridículo, além de ser uma peça de indiscutível mau gosto e desrespeitosa ao extremo, inclusive. De fato, não se olvide da crença religiosa em nosso Estado, que tem JESUS CRISTO como o filho de DEUS, e em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado como um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas”

Todas as situações de violência que passamos tiveram algo em comum: contestam a presença de uma travesti em cena interpretando Jesus.

Afirmar que a travestilidade da atriz representa em si uma afronta à fé cristã ou concluir, antes de assistir o trabalho, que é um insulto à imagem de Jesus é, do nosso ponto de vista, negar a diversidade da experiência humana, criando categorias onde algumas experiências são válidas e outras não, algumas vidas tem valor e outras não. São os discursos e práticas que tornam o Brasil um país extremamente desigual, e um território inóspito para quem vive fora da normatividade branca, cisgênera e heterossexual.

Desde sua estréia no Brasil a peça tem tido uma resposta do público muito positiva, lotando teatros e criando espaços de diálogo, resistência e encontro. Temos passado por diversos espaços culturais e festivais (Filo, Porto Alegre em Cena, Cena Contemporânea, Fiac). Instituições importantes da cultura como SESC, Itaú Cultural, Instituto Tomie Ohtake e outras também abraçaram o trabalho demonstrando disponibilidade em dar visibilidade aos temas que ele aborda. Também recebemos o apoio da Igreja Anglicana do Brasil.

Mas mais importante do que tudo isso, é o fato da peça ter se tornado dispositivo de debate sobre temas sociais urgentes, graças à sua capacidade de questionar mecanismos de opressão estruturais e institucionalizados.

Desde o início temos promovido instâncias de diálogo, educação e debate e buscado levar o trabalho não só a festivais e teatros centrais mas a locais descentralizados, carentes de programação cultural e que abrigam comunidades vulneráveis. Estivemos em prisões, abrigos, centros de acolhida, sedes de coletivos e ativismo, e estivemos na rua.

Conhecemos de perto a realidade de travestis e transexuais, e de outros grupos minorizados, e justamente por isso, fazemos constantemente um chamado à reflexão sobre a desigualdade gritante e naturalizada em que vivemos.

O Brasil é o país mais transfóbico do mundo. Diariamente travestis são espancadas e assassinadas sem que a mídia, a opinião pública ou o sistema de justiça reconheçam a gravidade e o inaceitável do fato. Estas pessoas vivem e morrem na invisibilidade.

Convido você, que está lendo isto, a escrever no google “travesti assassinada em ……….” (preencher com qualquer cidade do Brasil). O resultado vai ser sempre devastador, brutal e alarmante.

Houve uma grande mobilização e articulação para que o espetáculo pudesse ser cancelado, uma verdadeira estratégia reunindo diversos interesses e interessados e incluindo planejamento, timing e construção de narrativas. Censurar um espetáculo, em nome dos bons costumes, da fé e da família brasileira parece ser, para alguns fariseus, mais importante e prioritário do que olhar para a sociedade e tentar fazer alguma contribuição concreta para mudar o quadro de violência em que estamos todas e todos soterrados.

O espetáculo, escrito por Jo Clifford, busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo.

Para tanto, Jesus encarna em uma travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade. A mensagem é de amor. Mas é também queer e provocadora. Não é comportada nem se deixa assimilar. É de carne e fala de um corpo político, alterado, constantemente violentado e oprimido.

Mas também cheio de vida, alegria e potência. A Rainha Jesus contesta a tutela sobre os corpos, o patriarcado e o capitalismo. E abençoa a todos e todas por igual.

Renata Carvalho, ativista, atriz e travesti, convida para os próximos espetáculos.

No Viomundo
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Um novo ser político na praça: o golpista arrependido


Temos um novo ser político na praça, o golpista arrependido. São pessoas que apoiaram abertamente ou não se pronunciaram contra o golpe parlamentar da quadrilha Temer/Cunha/Aécio - bandidos investigados por vários crimes que, como ficou claro até para a samambaia da sala, armaram um impeachment fajuto para derrubar a presidente eleita, barrar as investigações da polícia e escapar da cadeia - e agora parecem surpresos em descobrir que os golpistas são uma quadrilha de criminosos profissionais. Cunha, Geddel e Henrique Eduardo Alves já estão presos, Temer, Padilha, Jucá, Moreira Franco, Aécio e Serra seguem soltos, acoitados no governo ou protegidos pelo Foro Especial.

Os colunistas de direita que apoiaram o golpe, que com seu racismo social e sua pregação diária contra a política inflaram os votos de tipos como Jair Bolsonaro e João Dória, juram que acabam de descobrir a existência do MBL, o movimento neonazista financiado pelos irmãos Koch que levou milhares de paneleiros, descerebrados e inocentes mal informados para as ruas durante o golpe, uma multidão de emburrecidos pela mídia (e seus colunistas amestrados) a ponto de achar que para acabar com a corrupção no Brasil bastava tirar Dilma Rousseff do cargo, uma pessoa honesta e que foi eleita com 54 milhões de votos, e botar em seu lugar Michel Temer, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha, Romero Jucá, Geddel e Moreira Franco, uma quadrilha de punguistas, estelionatários e grileiros. 

Quem acredita nisso acredita em qualquer coisa.

A marca indelével de golpista começa a incomodar e agora eles se apresentam como seres equilibrados, chocados com a existência dos grupos fascistas que eles pariram e alimentaram. Como dizia o mentiroso e corrupto Michel Temer em sua carta chorosa para Dilma, "Verba volant, scripta manent". Ou, como se diz no jogo do bicho, talvez a única instituição confiável no Brasil hoje, "vale o que está escrito".

Jorge Furtado
No Esquerda Caviar
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Entrevista com Eugênio Aragão


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Partido Novo lançará candidato a presidente que já foi envolvido em escândalo financeiro

Legenda que afirma "renovar a política" anuncia que concorrerá ao Planalto em 2018 com o empresário Flavio Rocha, candidato em 1994 que renunciou, envolvido no "escândalo dos bônus eleitorais"

Flávio Rocha, o empresário e 'bom gestor'. Para o Novo, qualidade suficiente para ser presidente do país, mesmo com histórico de velhas práticas
O partido Novo – que muitos chamam de "partido dos banqueiros" –, teve seu registro de fundação aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2015 e surgiu na cena política com o oportunista, além de velho e surrado, discurso de ser um "partido político sem políticos", composto por pessoas "sem experiência na política", que entre si compartilham o "descontentamento generalizado com a política partidária nacional". Conversa para atrair apoiadores. O "dono" do partido é o banqueiro João Dionísio Amoêdo, que além de presidente da legenda é também presidente do Citibank, tendo ocupado a presidência do Itaú BBA e do Unibanco.

Ao lado do banqueiro, assinam a fundação do Partido Novo Marcelo Lessa Brandão, executivo do grupo que controla as redes de fast food Bob's, Pizza Hut, McDonald's e KFC ; João Antonio Lian, presidente do Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) – e Fábio Luis Ribeiro, figura de destaque do setor financeiro, onde atua como gestor de fundo de investimentos.

Entre os amigos idealizadores do partido estão o ex-ministro da Fazenda Edmar Bacha e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, ambos homens fortes do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com nomes como esses em sua cúpula, o partido Novo promete "renovar a política", e já anunciou que vai lançar em breve, como pré-candidato à Presidência da República em 2018, o dono da rede de lojas Riachuelo, Flávio Rocha. Em entrevista, João Amoêdo deu o tom das qualificações que o partido vê em seu candidato para lança-lo na corrida presidencial: "Flávio Rocha é uma pessoa alinhada com os princípios do Novo e um bom gestor".

Logo de cara, já "deu ruim". Renovar a política com Flavio Rocha como candidato é uma contradição para o discurso de "sem experiência na política", já que o partido afirma oferecer ao eleitorado brasileiro a novidade, e o nome escolhido traz o legado da, como eles mesmo dizem, velha política.

O empresário Flávio Rocha, foi deputado federal em 1986 pelo PFL (atual DEM). Tão logo foi eleito, transferiu-se para o PL. Foi reeleito em 1990, mas então já estava no PRN, para onde foi após ser convidado por Fernando Collor. De volta ao PL, foi candidato à Presidência da República em 1994 – quando sua principal bandeira foi a criação do chamado Imposto Único, que substituiria todos os demais. Mas deixou a competição antes das eleições, por força das denúncias de envolvimento no "escândalo dos bônus eleitorais" – um mercado paralelo e ilegal de venda destes papeis, lançados à época como forma de financiamento de campanhas. Candidatos conseguiam compradores por um certo valor, mas os vendiam com deságio, pela metade do que valeria, a fim de legalizar recursos recebidos por empresas e não contabilizados oficialmente.

Largou a política e foi cuidar da empresa da família.

Recentemente, Flávio Rocha apareceu em uma reportagem da revista Carta Capital, desta vez como empresário, queixoso da política econômica e "um dos porta-vozes do empresariado nacional a defender o impeachment" de Dilma Rousseff.

Pela crítica feroz que fez da "política dos campeões nacionais do BNDES", o banco estatal de fomento da economia brasileira, chama a atenção que, entre 2006 e 2009, o empresário tenha recebido financiamentos da ordem de R$ 1,44 bilhão, além de ter se beneficiado de isenção de 75% do Imposto de Renda na construção de fábricas no Ceará e no Rio Grande do Norte.

O partido Novo poderia explicar que novidade há no perfil político e empresarial de seu pré-candidato a presidente. Afinal de novo mesmo, não existe nada, é a velha repetição de vícios e desvios do país, que apenas se repetem com cara de renovação.

Helena Sthephanowitz
No RBA
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Temer vai conspirar com Trump contra a Venezuela?

Às vésperas de inédito exercício militar Brasil-EUA na Amazônia, crise venezuelana deverá ser tema de jantar paralelo à ONU entre os presidentes


Michel Temer abrirá a Assembleia Geral da ONU na terça-feira 19 em Nova York, privilégio dos presidentes brasileiros, não importa quantos votos e denúncias eles tenham. O Itamaraty suava para conseguir marcar reuniões bilaterais de Temer com líderes estrangeiros de peso. O único que ele deverá encontrar será Donald Trump, em um jantar para o qual Colômbia e Peru também foram convidados pelo anfitrião. Um repasto com cheiro de conspiração contra o chavismo.

 A crise na Venezuela deverá ser um dos assuntos dos comensais, segundo fontes diplomáticas. Em 11 de agosto, Trump declarou que considera usar “uma possível opção militar” no país. Duas semanas depois, um de seus assessores de segurança nacional, general HR McMaster, comentou: “Qualquer decisão será tomada em acordo com nossos parceiros na região”.

O Brasil de Temer e historicamente a Colômbia são parceiros do Tio Sam na América do Sul. Em novembro, participarão juntamente com EUA e Peru – ou seja, toda a turma do convescote planejado pela Casa Branca em paralelo à ONU - de um treinamento militar na Amazônia brasileira. Será inédito: jamais as tropas norte-americanas botaram os pés ali.

O exercício militar será na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a uns 600 km da Venezuela. Reportagem recente da versão impressa de CartaCapital mostrou que partidários do chavismo estão desconfiados. Acham que os EUA terão a chance de conhecer o terreno e de estimular mercenários para atiçar a crise interna a ponto de estourar uma guerra civil por lá. Bem ao lado do Brasil.

Desconfianças vistas por aqui também. “Esse exercício devia ser suspenso imediatamente”, afirma Celso Amorim, ex-ministro da Defesa. “Há uma combinação de fatos extremamente preocupante”, diz ele, como o treinamento, as faíscas entre chavistas e opositores, a beligerância de Trump e a postura brasileira em relação ao governo de Nicolás Maduro.

“O Brasil hoje é o maior inimigo da Venezuela, não são os EUA”, comenta surpreendentemente uma autoridade brasileira. “No Itamaraty, há quem defenda uma posição mais branda, mas o Serra radicalizou e o Aloysio continuou nessa linha.”

Primeiro chanceler de Temer, o senador José Serra, do PSDB, foi duro contra Maduro desde o primeiro dia. Seu sucessor, outro senador tucano, Aloysio Nunes Ferreira, faz o mesmo. São inúmeras as notas oficiais contra a Venezuela emitidas pelo Itamaraty desde maio de 2016. Nenhum outro tema mereceu tanto.

“A Venezuela está isolada e radicalizou por causa da posição do Brasil. As declarações do Serra e do Aloysio causaram isso”, diz um embaixador da ativa. “Eles agem assim por razões pessoais e midiáticas, não há qualquer planejamento: ‘Há demanda por endurecimento com a Venezuela? Então vamos criticar’.”

Um exemplo de exploração midiática por Ferreira foi a passagem por Brasília em fins de agosto da ex-procuradora-geral venezuelana Luisa Ortega, rompida com o chavismo. Destituída da Procuradoria pela Assembleia Nacional Constituinte semanas antes, ela disparou ataques ao governo de seu país enquanto esteve na capital brasileira.

Ferreira fez questão de recebê-la no Itamaraty e posar junto para fotos. “Totalmente fora de lugar”, diz o embaixador da ativa. Temer queria recebê-la no Palácio do Planalto, mas foi desaconselhado. Antes de vir ao Brasil, Luisa tinha ido à Colômbia pedir asilo e não falou com o presidente Juan Manuel Santos.

Se encontrasse Temer, teria sido curioso. Ortega acusa Maduro de receber milhões em propina da Odebrecht. O peemedebista não fica atrás, segundo a última “flechada” de Rodrigo Janot, que deixará o cargo de procurador-geral no dia em que Temer decola para Nova York, a segunda-feira 18.

Bandalheiras à parte, a crise venezuelana e a postura brasileira pró-derrubada de Maduro parecem já causar prejuízos financeiros por aqui.
CartaCapital apurou que a Venezuela acaba de atrasar o pagamento de 260 milhões de dólares ao governo brasileiro. Refere-se a uma prestação vencida no início do mês relativa a financiamentos. No total, o governo tem um crédito estimado de 1,2 bilhão de dólares com a Venezuela, entre empréstimos do BNDES e do Credit Suisse, este garantido por dispositivos estatais.

O motivo do atraso seriam problemas técnicos provocados pelas recentes sanções econômicas aplicadas à Venezuela pelo governo Trump, uma tentativa norte-americana de apressar a derrocada do chavismo. No Brasil, há diplomata crente de que o atraso é culpa da radicalização brasileira contra Maduro. E a contar que Ferreira anda nervoso por causa do assunto.

Se o estrangulamento financeiro venezuelano continuar, o setor privado também tem grana gorda a perder. Créditos de 5 bilhões e 6 bilhões de dólares, cifras apresentadas na Câmara dos Deputados em 30 de agosto pelo embaixador Tarcisio de Lima Costa, diretor do Departamento da América do Sul Setentrional e Ocidental do Ministério das Relações Exteriores.

Diante desses bilionários créditos, disse Costa, o Brasil “não pode ficar indiferente ao rumo da Venezuela”. A julgar pelas declarações e gestos do chanceler Nunes Ferreira, o Brasil não tem estado nada indiferente. E a julgar pelo futuro jantar Temer-Trump, não tem estado até demais.

André Barrocal
No CartaCapital
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Vazamentos seletivos são usados para forçar punitivismo, diz ministro do STJ

Hoje em dia é preciso mais coragem para absolver um inocente
do que para tirar a liberdade de alguém, critica Sebastião Reis.
Cesar Viegas
O Ministério Público e a polícia usam a imprensa com o intuito claro de criar pano de fundo favorável à acusação em processos e para defender projetos de lei absurdamente imorais, aproveitando-se da sanha acusatória que toma conta do país. Com isso, qualquer um que discorde dos órgãos de acusação é taxado como inimigo, cúmplice de bandido e favorável à corrupção.

A constatação é do ministro Sebastião Reis, do Superior Tribunal de Justiça, que fez duras críticas à omissão das instituições em relação ao que classifica como “vazamentos seletivos” de processos. “Vejo o Ministério Público, que prega e defende a tolerância zero, silenciando quando procedimento sigiloso é tornado público”, afirma.

Em palestra organizada pelo Instituto Victor Nunes Leal, ele afirmou que há um silêncio “assustador” em órgãos que deveriam protestar contra essa atuação, mas se calam e, pior, muitas vezes aplaudem e incentivam esse tipo de procedimento. “Vejo a Ordem dos Advogados do Brasil se calando e em várias oportunidades pedindo que documentos ocultos sejam tornados públicos”, discursou, aplaudido por todos os presentes, entre eles, os ministros aposentados do Supremo Tribunal Federal Cezar Peluso, Ayres Britto e Sepúlveda Pertence.

Ele lamentou que esse tipo de prática também esteja presente no Judiciário e citou casos em que tornam público um documento porque ele já foi divulgado de forma informal. "É um contrassenso, pois dizem que não adianta preservar como oculto algo que já foi noticiado, mas nenhuma atitude é tomada em relação ao vazamento, [nem para investigar] quem é o responsável ou, ao menos, medidas para complicar, controlar esse tipo de situação”, observou.

A omissão das instituições, apontou, levou o Brasil a uma situação absurda, onde as pessoas precisam ter coragem para defender o que acham justo. A presunção de inocência, segundo ele, acabou. E um dos motivos disso é uso indevido da mídia por instituições. "Quem é exposto na imprensa, independente se de maneira justa ou injusta, do dia para noite está condenado", lamentou.

Ele acredita que a internet piorou esse quadro: “Os sites nunca mais vão apagar qualquer tipo de investigação que houve contra você. Se digitar o nome da pessoa, vai aparecer. E eventuais desmentidos, conclusões negativas em processo, são divulgadas de forma fria, gélida até a contragosto, sem ocupar o mesmo espaço da ocasião da acusação.”

É estranho um país onde se lê reportagens sobre a aprovação pública dos ministros da corte constitucional, afirmou. Para Reis, isso é prejudicial para o devido processo legal, porque parece que o juiz deve decidir pensando no que a população vai achar da decisão, na repercussão positiva, em vez de exercer a função com consciência e decidir de acordo com o que entende. 

Magistrados no tapete vermelho

O ministro, que compõe a 6ª Turma do STJ, responsável por processos criminais, se disse chocado com uma cena que viu no STF recentemente, onde repórteres faziam fila na porta da assessoria para obter informações sobre “alguma dessas famosas lista”.

“Conversando com advogados, eles diziam que não haviam tido acesso e a única forma para conseguir aquilo era pedindo a um repórter, porque no tribunal não era possível. É nesse mundo que vivemos. Essa situação que poucas vozes ousam questionar e quem o faz certamente será massacrado, taxado de bandido”, frisou.

Hoje em dia, não é mais necessário ter coragem para prender alguém, mas para absolver um inocente, criticou. Ao lembrar de seu pai, Sebastião Reis, um dos 70 primeiros juízes federais do país, ele disse que os tempos atuais “são loucos”. “Não estamos mais no tempo dele, quando juízes falavam nos autos e evitavam maior contato com a imprensa”, afirmou.

Reis reconhece que há a necessidade de o magistrado se comunicar com a imprensa, participar de eventos, mas afirmou que é preciso fazê-lo com responsabilidade. “Não posso admitir e concordar com juiz emitindo nota para a imprensa, vídeos na internet, filme com tapete vermelho, dando entrevista para falar não de casos que poderá vir a apreciar, mas de casos que já está examinando naquele momento”, criticou.

E, nesse contexto, há situações em que o magistrado se vê obrigado a “ser parceiro da imprensa” para ter apoio e não ser objeto de critica. “Assim, o juiz começa a decidir de acordo com o que o povo quer ouvir, no que a imprensa quer ouvir, naquilo, vamos dizer, chamado de politicamente correto, mesmo que não seja o que está imposto na lei, não reflita o que está no processo”, pontuou.

Matheus Teixeira
No ConJur
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Janaina Paschoal não ficou em último lugar; ela foi reprovada na USP

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/09/16/carol-proner-desmente-janaina-paschoal-ela-teve-nota-menor-que-7-e-foi-reprovada/

A professora de Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carol Proner, organizadora de uma coletânea de artigos que analisam a sentença do caso triplex, Comentários a uma sentença anunciada: o caso Lula, publicou em seu perfil de Facebook que ao contrário do que a autora do pedido de impeachment de Dilma, Janaína Paschoal, disse em seu twitter, ela “não ganhou em último o concurso da USP”.

Veja a nota de Carol Proner:


“Sobre Janaina Paschoal e o concurso. Deixando de lado o que podemos sentir por ela, triste figura, o fato de ter sido reprovada no concurso de titularidade da USP – diferente de aprovada em último lugar, pois sua média não chegou a 7,0 – é muito bem feito. Janaina representa o pior direito, o uso enganoso , oportunista, sensacionalista, e é também ícone do impeachment sem lastro constitucional e do jogo espúrio que resultou no Golpe de 2016. Parabéns à USP.”

Este é o twett em que Janaína Paschoal comemorou “ganhar” o último lugar:

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Verissimo: O brasileiro está mudando de caráter

Verissimo 
(Foto: Igor Sperotto
O cidadão Luis Fernando Verissimo, 81 anos, nascido em Porto Alegre no dia 26 de setembro de 1936, está oficialmente livre desde 1º de setembro de 2017. Demitido da RBS depois de 40 anos de contribuição quase diária, o escritor, cronista, músico, desenhista e pensador tem agora um imenso desafio pela frente: manter atualizado o recente contrato de comodato que firmou com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

O acervo de textos, rascunhos, traduções, cartuns e outras criações está sendo transferido para a biblioteca do novíssimo campus de Porto Alegre. Tarefa difícil, já que o acervo é composto por 382 livros, entre títulos do autor, antologias e edições estrangeiras, mais de mil títulos de periódicos, além de troféus, quadros, esculturas e outros objetos recebidos pelo escritor como forma de homenagem. Difícil porque Verissimo ainda está em pleno exercício produtivo. E também porque não pretende morrer tão cedo.

“Eu acho que o acervo devia ser apenas de obra acabada, o que evidentemente não é o caso. Então, digamos que seja um meio acervo de um autor meio vivo”, brinca Verissimo com sua ironia contumaz. Formalizado na última quarta-feira, 13, o acervo irá ocupar a partir de agora, segundo Verissimo, “um cantinho” da biblioteca da Unisinos e estará disponível para consulta por estudantes, pesquisadores e público em geral.

Com recorrentes problemas de saúde desde meados de 2013, que lhe renderam algumas semanas em UTIs e muitas horas em salas de cirurgia, o escritor continua sagaz e extremamente crítico, especialmente com os rumos do Brasil.

Elegante e discreto, diz que sua demissão da RBS – depois de uma ruidosa homenagem pelos seus 80 anos, comemorados em 2016 – foi uma decisão administrativa. Mas sabe que, na prática, foi o último laço profissional que o ligava ao Rio Grande do Sul – descoberto pela L&PM, há anos ele publica seus livros pelo selo Cia. das Letras. “Hoje, a única relação do pai com o Rio Grande do Sul é apenas morar em Porto Alegre”, lamenta a filha Fernanda, que junto com a esposa Lucia ajuda a cuidar do acervo do cronista.

A demissão da empresa que ajudou a revela-lo nacionalmente e se tornar um best-seller acabou determinando a interrupção de projetos que tomavam tempo demais do escritor, como as tiras semanais da Família Brasil e os textos semi-ficcionais publicados aos domingos no jornal O Estado de São Paulo. “Eu realmente estava trabalhando com coisa demais, então foi só para trabalhar menos. Como fui demitido da Zero Hora, não tinha mais sentido manter só para um jornal”, diz nesta entrevista para o ExtraClasse, realizada na sexta-feira, 15, no escritório intocado que foi do pai, o romancista Erico Verissimo.

Na conversa, Verissimo relatou um pouco sua relação com a escrita, as preocupações com a onda reacionária que toma conta do país e o arrependimento de não ter seguido a carreira de músico – o escritor é um saxofonista amador desde os 16 anos. “Eu lamento não ter me aprofundado na música porque hoje eu preferiria ser músico do que qualquer outra coisa”, confessou. Divertido, paciente, com sua conhecida parcimônia com a palavra falada, Verissimo chegou inclusive a revelar qual livro seu poderia ser queimado em praça pública pelo MBL – quando esse momento chegar. A seguir, os principais trechos da entrevista.

– Por que essa ideia de ceder seu acervo a uma instituição universitária?

– A ideia do acervo é justamente essa: pesquisadores, estudantes e qualquer pessoa se informar sobre o autor, fazer pesquisa, essas coisas. Está ali para quem quiser ver. Então, o acervo vai ser um cantinho ali da biblioteca da Unisinos (no campus de Porto Alegre). Ficou simpático. Por enquanto reunimos material físico, mas é uma discussão que temos de ter. De vários anos para cá os textos são digitais, não há mais originais impressos. E muito material está só no formato digital, nunca foi para uma publicação física.

– Começa em 1969?

– Sim, com as primeiras publicações na Zero Hora. Algumas coisas de publicidade, também, muitos anúncios publicados, com autoria. Roteiros da TV Pirata, da Comédia da Vida Privada. E vai para lá também um exemplar de cada primeira edição, as traduções em russo, inglês, francês, italiano, coreano, sérvio. Tem troféus, presentes.

– Os horóscopos não?

– Não, acho que não (risos). Tem muita ilustração, também. Campanhas da Ipiranga, da época da (agência) MPM. Coisas que a Lúcia guardou ao longo do tempo. Tem muito rascunho, muitos papéis avulsos. Frases. Muitos desenhos, geralmente de figuras humanas. Mas nada feito para usar em textos, é só passatempo mesmo. Enquanto se está pensando sobre que escrever, vou desenhando. Nesse caso, apelo muito para o jogo da paciência também. Mas isso não está indo para o acervo (risos). A tesoura da Lúcia é incrível.

– Era hora de fazer isso?

– Sim, estava na hora. Todo esse material estava guardado aqui em casa, numa catalogação caseira, doméstica. A ideia da Unisinos, desde o início, há cerca de dois anos, era que o acervo ficasse em Porto Alegre. Viesse junto com a abertura do novo campus, o que acabou ocorrendo. A ideia é de o acervo ser usado por diferentes áreas, o que me agrada.

– Qual é a sensação de virar um acervo?

– Eu acho que o acervo devia ser a obra acabada, o que evidentemente não é o caso (risos). A minha biblioteca pessoal naturalmente não vai para lá, o que é um elemento importante de pesquisa, saber quem me influenciou, o que eu li. Então, digamos que seja um meio acervo de um autor meio vivo (risos). Mas não vou reclamar, não.

– Teus livros têm anotações? Ou páginas dobradas nos cantinhos

 Anotações não. Mas páginas dobradas nos cantinhos têm bastante. Só que às vezes, como não tem anotação, esqueço por que marquei aquela página. (risos)

– Como lidar com um volume tão extraordinário de informação, necessário ao teu ofício?

– O grande problema é que esse ofício, de escrever sobre o que está acontecendo de fato, não me permite mais ler livros, literatura de ficção. Faz anos, nem sei quantos, que não leio um livro de ficção inteiro. Apenas trechos esparsos. O prazer de ler, que me levou a esse caminho, ficou de lado. Leio muita revista, muito ensaio, jornais estrangeiros.

– Isso te incomoda?

– Sim, porque perdi o prazer da leitura descompromissada. Estou perdendo muita literatura boa, de novos autores. Conheço muito pouco do que se produz atualmente. E lamento muito não ter esse tempo para autores novos.

– Tu achas que a tua primeira crônica (publicada em abril de 1969) já era uma credencial do que serias dali para a frente? As tuas características principais já estão ali.

– Eu acho que sim. Eu comecei muito tarde, então já tinha lido muito durante toda a juventude. Nunca tinha escrito nada mas, como tinha lido bastante, sabia como se fazia. Quando comecei eu já sabia, estava formado.

– Nunca ensaiaste nada? Nunca escreveste para ti mesmo?

– Não, nunca. Nunca me vi como escritor, nem como jornalista. Tinha apenas algumas traduções, publicadas na (revista) Mistério Magazine. Nem lembro os autores, mas basicamente americanos e ingleses, de suspense, terror. Mas o fato de sempre ter sido um leitor voraz, quando comecei já conhecia os truques todos.

– E os cartuns?

– Sempre gostei muito de quadrinhos, então comecei a variar entre texto e cartum. Especialmente nas colunas de segunda-feira, em que eu fazia a crônica do futebol do domingo em desenho. Bonequinhos dialogando sobre os jogos do domingo.

– Quem te influenciou nessa área?

– Principalmente Saul Steinberg (1914-1999). Meu desenho era muito rudimentar, não tinha acabamento. Fazia com canetinha mesmo, em qualquer papel. Cheguei a fazer um curso de desenho com o Glênio Bianchetti (1928-2014), desenho, pintura, trabalhávamos com modelo vivo, essas coisas. Por um ano mais ou menos. Mas não passou disso. Nunca fiz uma tela.

– E o fim da Família Brasil?

– Pois é. Eu realmente estava trabalhando com coisa demais, então foi só para trabalhar menos. Como fui demitido da Zero Hora, não tinha mais sentido manter só para um jornal (O Estado de São Paulo).

– Como foi esse episódio?

– Foi um processo normal. Apenas deixei de ter vínculo com a empresa, agora eles compram meu material da Agência Globo. Foi uma decisão administrativa, estão fazendo muito isso com os velhos, que têm salários mais altos. Mas não ficou nenhum trauma, não.

– Tem algum livro novo sendo organizado?

– A Cia das Letras está organizando um volume de crônicas que estão sendo selecionadas pela (roteirista e escritora) Adriana Falcão, que deverá sair até o final do ano. Basicamente com as crônicas mais ficcionais, publicadas aos domingos no Estadão. As crônicas sobre política atualmente perdem a atualidade com muita rapidez.

– Como estás acompanhando a conjuntura política?

– A novidade é essa nova direita, que sempre existiu mas está mais evidente agora. É uma onda de reacionarismo que me preocupa muito. Imaginar um cara como o Bolsonaro com os índices de intenção de votos que ele tem é realmente preocupante.

– Já foste alvo de alguma agressão ou ameaça?

– Recebo muita carta desaforada, dizem para eu viver em Cuba, me chamam de comunista, uma vez até me mandaram viver na Coréia do Norte! Seria uma experiência muito boa. Quer dizer, boa não sei, mas pelo menos diferente (risos). Eu não dou bola, é claro.

– Alguma ameaça?

– Só na candidatura do Collor (em 1989). Me mandaram uma carta ameaçando meus filhos, que sabiam da rotina deles, iam atacar e tal. Mas não fizeram nada. O tom de agressividade subiu nos últimos meses, é verdade, mas não chega ao extremo da ameaça violenta.

– Qual livro teu colocaria à disposição dessa nova direita para que seja queimado em praça pública, quando chegar o momento?

– (risos) Tem um livro meu com crônicas bem políticas, A Versão dos Afogados (L&PM, 1994), que imagino que eles gostariam de queimar. Está meio desatualizado, mas acho que isso não fará muita diferença (risos).

– E a tua relação com a ficção?

– A quase totalidade de meus romances foi feita por encomenda, só Os Espiões (2009) que partiu de uma ideia própria, achei que era hora e fiz. Ficou direitinho. Mas meu preferido é Borges e os Orangotangos Eternos (Cia.das Letras, 2008), que é um pouco melhor do que os outros. Não tenho, de verdade, grandes pretensões literárias.

– Por escrever entretenimento?

– É, acho que sim. No Brasil é uma literatura considerada não muito respeitável, por isso os autores relutam em se dedicar a ela. Como não busco respeito… (risos). Mas é um gênero que precisa existir, até para a sobrevivência do mercado editorial.

– Como esperas contribuir para que novos leitores entendam esse período da história brasileira?

– Meu trabalho é testemunho desse tempo, isso pode ser lido em todos os cronistas. Quem quer saber como era o Brasil nos anos de 1960 vai ler Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria. Se eu puder fazer isso também, estará bom.

– Que tipo de testemunho acha que deste?

– Nós falamos há pouco sobre essa nova onda reacionária, coisas que hoje são preocupantes que há algum tempo, pouco tempo, não eram. Apesar desse conflito social no Brasil ser permanente. O que mudaria no meu jeito de ver a realidade seria um crescimento nesse jeito de ação reacionária evidente e preocupante.

– Na tua opinião, não para por aí?

– Acho que não para. Principalmente por essa desmoralização crescente do Congresso e da política em geral, isso motiva as pessoas que imaginem a solução num governo de força. Não sei se é inevitável, mas é uma ameaça real. Um perigo. Quando se poderia esperar tanta nostalgia da ditadura, mesmo sabendo de tudo que aconteceu? Isso é surpreendente. Comecei em plena ditadura, no governo do general Médici, então a gente já sabia dos limites. Sabia quem citar e quem não citar. A censura era implícita, havia autocensura, e eu tentava escrever nas entrelinhas mas às vezes nem eu entendia o que queria dizer. (risos)

– Temes a volta da censura?

– Acho que isso é possível, sim. Eu me preocupo com isso. Há uma ameaça e uma tendência possível de ser notada aí.

– E o que achas do MBL?

– Começa com a ironia do próprio nome: Brasil Livre. Livre de quê? É só uma das manifestações do que pode nos esperar no futuro. Esse tipo de pressão, esse tipo de censura, tem até características paramilitares, o que preocupa até a imprensa internacional.

– O brasileiro deixou de ser aquele homem cordial do Sergio Buarque de Holanda?

– Quando a gente fala no perigo desse crescimento da direita está se referindo a isso, que não sei aonde vai nos levar. Certamente está havendo uma mudança no caráter do brasileiro, na personalidade comum do brasileiro. Estamos nos transformando, para continuar na comparação que você fez, no brasileiro selvagem. Acho que estamos ficando mais intolerantes.

– Por quê?

– Em parte em razão desse desencanto com a política, culminando no desencanto com o PT. Foi uma promessa que apareceu mas que, no entanto, degringolou. Não sei se é para a gente perder a esperança no PT ou ainda não, se esse partido pode nos dar algum tipo de esperança, mas o fato é que houve um acúmulo de desencanto que culminou no que estamos vivendo.

– Tu és um desencantado com o PT?

– Um pouco, sim. Nunca fui um ativista, um militante, mas tinha simpatias que nunca escondi. Mas nunca fui personalista com o Lula, por exemplo, embora reconheça que é uma figura admirável.

– Como te defines politicamente?

– Eu me defino como um humanista. Meu pai se definia como um socialista democrático, o que me parece adequado para mim também: contra qualquer tipo de totalitarismo, inclusive de esquerda.

– Quando começaste, em 1969, imaginavas ter a carreira que teve no jornalismo e na literatura?

– De forma nenhuma, foi tudo acontecendo, sem planejamento. Como minha escrita: quando começo a pensar em um assunto, muitas vezes descubro o que penso sobre ele ao longo da escrita.

– É muito difícil?

– Varia muito. Mais difícil é começar. Estabelecer um tom. Uma amarrada final também é difícil. Mas às vezes vem com facilidade, não tem muita regra.

– Usas muito o senhor Google?

– Uso bastante. Eu sempre parto do princípio de que ele sabe o que está dizendo, então eu confio nele. Temos uma relação saudável. (risos)

– Tens metodologia?

– Escrevo sempre para ser publicado, nunca para deleite próprio. Só com esse foco. Nunca fiz isso, de escrever para mim. A diferença é que eu escrevia muito mais no passado, tinha mais volume. Não sei se fiquei mais conciso ou mais preguiçoso, mas meu texto diminuiu bastante. (risos)

– Então, não há prazer em escrever?

– Concordo com o que diz o Zuenir Ventura, que não gosta de escrever, gosta de ter escrito. O ato em si não é muito prazeroso, não. Ás vezes, não se tem a mínima ideia do que escrever, mas é necessário, é um modo de vida. Nesse sentido, não é uma coisa que dê muito prazer. Mas ler o que escrevi e gostar do que escrevi compensa, mostra que valeu a pena.

– E a música?

– Quando aprendi a tocar saxofone, com 16 anos, minha ideia era brincar com o instrumento. Nunca pensei em me profissionalizar, apesar de ter aprendido a tocar com partitura e tudo mais. Com o tempo esqueci, embora tenha eventualmente tocado em conjuntos profissionais. Eu até lamento não ter me aprofundado na música porque hoje eu preferiria ser músico do que qualquer outra coisa.

– É mesmo? Por quê?

– É. Um pouco pela minha admiração pelo jazz, por tudo que o jazz proporciona, a improvisação, a criação instantânea. Me parece bem mais completo que a criação literária. Mas em algum momento da vida perdi a oportunidade de me aprofundar, de dominar o instrumento. O que me deu mais prazer nesse tempo todo foi, com certeza, a música.

– Na tua opinião, para onde vai a literatura com essa tendência de textos cada vez menores?

– Para falar a verdade, não tenho a menor ideia! (risos)

Flavio Ilha
No Extra Classe
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