29 de jul. de 2017

No Brasil a luta para barrar o golpe é por eleição, na Venezuela os golpistas tentam impedir as eleições


No Brasil o povo tem ido as ruas em todo o país para exigir eleições diretas para acabar com o golpe que derrubou a presidente Dilma eleita pela maioria do povo brasileiro, e hoje fica mais claro, que ela não cometeu nenhum crime, e sua derrubada foi para surrupiarem nosso petróleo e também segundo gravações, Dilma não “estancava a sangria”, ou seja permitia sem nenhuma interferência as investigações da Lava Jato, que amedrontava a base governista golpista (3). 

Os golpistas no Brasil, capitaneados pela Globo, acenam com o golpe dentro do Golpe, tentam “eleger” de forma indireta, através de um colégio eleitoral, o presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia, para dar continuidade a politica de terra arrasada, iniciada pelo golpista, Michel Temer. Essa eleição indireta, de triste lembrança, foi usada no Brasil na ditadura militar. 

O golpe além de retirar direitos trabalhistas e previdenciário, acabando com as aposentadorias, extirpou com a Engenharia Nacional, a Indústria Naval tirando o emprego de milhões de brasileiros. 

Na Venezuela o presidente Nicolás maduro propõe eleição para este domingo, 30/07/17, para integrantes á assembleia Constituinte, e a oposição tenta a todo custo barrar a votação. 

A oposição, acusa o presidente Nicolás Maduro de querer se perpetuar no poder. Os EUA retiram seus funcionários da embaixada e declaram apoio a oposição. 

Vale lembrar que em 2002 a Venezuela foi vitima de um golpe claramente patrocinado pelos EUA que por 47 horas tirou o saudoso, Comandante, Hugo Chavés do governo. Chavez voltou ao palácio do governo nos braços do povo e os articuladores do golpe fugiram para Miami (1). 

Chavéz assim como seu sucessor, Maduro, são acusados de ditadores e de quererem se perpetuar no poder. Os números mostram que poucos ou nenhum governante se submeteu tanto as urnas como o comandante Hugo Chavéz. 

E Maduro agora é vitima do mesmo golpe de tentativa de impedimento de eleição pela oposição, através de uma pseuda greve geral. 

Não é a primeira vez que os EUA patrocinam golpe na América Latina na década de 60 o Brasil foi vitima do golpe militar patrocinada claramente pelos EUA. Esses golpes se estenderam também para Chile, Uruguai, Argentina e Bolívia (2).

Na década de 60 as intervenções em nosso continente pelos EUA se fundamentavam em falsas especulações que insinuavam que havia no cone sul, avanço do comunismo. Não podemos esquecer dos milhares de perseguidos, presos, torturados e mortos por essas ditaduras. Muitos dessas vitimas foram os próprios militares que se oporam ao golpe em seus países. 

Esses movimentos golpistas de hoje em nosso continente, novamente com a participação dos EUA visam, por parte dos yankes se apropriarem do petróleo, tanto na Venezuela que possui as maiores reservas de hidrocarboneto do planeta e no Brasil da descoberta do pré-sal que multiplicou nossas reservas de petróleo. 






Emanuel Cancella, OAB/RJ 75.300, ex-presidente do Sindipetro-RJ, fundador e ex diretor do Comando Nacional dos Petroleiros, da FUP e fundador e coordenador da FNP , ex-diretor Sindical e Nacional do Dieese, sendo também autor do livro “A Outra Face de Sérgio Moro” que pode ser adquirido em: http://emanuelcancella.blogspot.com.br/2017/07/a-outra-face-de-sergio-moro-pontos-de.html.
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Se Temer é inocente, Dirceu merece desculpas, diz Lava Jato


Se Michel Temer for inocentado do processo em que é acusado de receber propina da JBS por meio de Rodrigo Rocha Loures, o Judiciário terá de pedir desculpas a José Dirceu por ter sido condenado com base em indícios muito mais frágeis do que os que existem contra o presidente da República. É o que dizem investigadores da Lava Jato ouvidos pelo jornal Valor Econômico, em condição de anonimato.

"Em conversas reservadas, investigadores apontam que, se Loures for condenado e Temer inocentado, o Judiciário teria que fazer um "pedido de desculpas" ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que teria sido condenado no processo do mensalão com base no chamado 'domínio do fato', com provas que seriam bem mais frágeis que as existentes hoje contra Temer", publicou o Valor, nesta sexta (28).

A opinião dos investigadores está inserida em reportagem sobre o futuro do processo contra Loures caso a Câmara rejeite a abertura de investigação contra Temer, por corrupção passiva.

Se Temer só puder ser processado quando tiver encerrado o mandato, o Supremo Tribunal Federal deverá fatiar o inquérito e enviar as informações contra Loures para a primeira instância. Na tentativa de evitar isso, 'a defesa de Loures tentará argumentar que o caso dele também deve ficar suspenso, aguardando o julgamento de Temer."

A reportagem ainda especula qual seria o destino do processo contra Loures. Relator da Lava Jato, o ministro Edson Fachin poderia remeter o caso para a Justiça de Brasília, uma vez que o pagamento de propina a Loures foi combinado na capital, em reunião com um executivo da JBS. Nesse caso, o caso iria para as mãos do juiz Vallisney de Souza Oliveira, que também cuida da Zelotes e da Greenfield.

Outra possibilidade seria enviar a Justiça Federal de São Paulo, onde Loures foi filmado recebendo a mala de propina da JBS com R$ 500 mil.

As chances do processo parar nas mãos do juiz Sergio Moro, no Paraná, são "remotas".

"Se a acusação contra Loures for remetida à primeira instância, tudo indica que será julgada de forma mais rápida que no STF, complicando a situação do ex-deputado e, indiretamente, também a imagem de Temer. Se a Câmara rejeitar a autorização para a denúncia contra o presidente, a acusação contra ele ficará suspensa, mas voltará a correr após a perda do foro privilegiado", acrescentou o jornal.

No GGN
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Advogado desmonta a farsa de que Lula teria destruído provas

Policiais na frente do prédio onde Lula mora: sem encontrar provas, era preciso criar a farsa de que
o ex-presidente fora avisado
Dois eventos marcados para 11 de agosto, Dia do Advogado, serão marcos na revelação da verdadeira face de Sérgio Moro, do juiz que se tornou parte.

Em Curitiba, será realizado o Tribunal Popular da Lava Jato, e no Rio de Janeiro haverá o lançamento do livro dos 100 juristas sobre a sentença de Sérgio Moro que condenou o ex-presidente Lula a 9 anos e meio de prisão.

Nesses dois eventos, não pode deixar de ser mencionado o ataque que Moro fez à liberdade de expressão, quando determinou a coordenação coercitiva do jornalista Eduardo Guimarães para prestar depoimento.

Passados quatro meses do fato, o que começa a ficar claro é que o ataque pode não ter sido apenas à liberdade de expressão, mas à verdade factual do processo.

Ao que parece, Moro tentou construir uma versão para justificar o fracasso na operação de busca e apreensão à casa de Lula, um ano e um mês antes, no dia 26 de fevereiro.

Como se recorda, houve uma operação de guerra, com a intensa cobertura da imprensa, com homens fortemente armados, entrando no apartamento de Lula e depois saindo com ele, para levá-lo a prestar depoimento.

Na busca, os policiais pegaram até os celulares e o ipad dos netos do ex-presidente, levantaram colchão, reviraram as gavetas e não encontraram provas para incriminar Lula.

Das duas uma: ou Lula é inocente, ou ele havia eliminado previamente todas as provas.

Como a primeira hipótese não faz sentido para a tese de Moro e dos procuradores da república de Curitiba, era preciso demonstrar a eliminação das provas, e é aí que entra outra condução coercitiva, a de Eduardo Guimarães.

Um dos argumentos levantados para levar à força o jornalista para depor é que ele teria vazado à equipe de Lula a decisão de busca e apreensão no apartamento.

O problema de Moro é que esta hipótese não se sustenta.

“Trata-se de uma incompatibilidade objetiva entre a hipótese suscitada por V. Exa. e o calendário gregoriano”, escreveu Anderson Bezerra Lopes, advogado do presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, em uma petição entregue a Moro.

É que o juiz federal de Curitiba assinou o decreto de busca e apreensão no apartamento de Lula no dia 24/02/16 e determinou o sigilo da decisão até o dia da operação, 26/02/16.

Nem o Ministério Público Federal foi formalmente informado.

Admitir que Guimarães sabia da busca e apreensão é o mesmo que aceitar que alguém da Vara de Moro vazou a informação para ele.

“Nesse sentido, especular sobre o vazamento de informação sobre as buscas domiciliares necessariamente implica desconfiar da lisura e correção dos servidores desse Juízo que tiveram acesso à decisão proferida por V.  Exa. em 24/02/16, o que não cremos ser o caso”, observou o advogado.

O que o jornalista divulgou em seu blog no dia 26 de fevereiro é que Moro havia quebrado os sigilos bancários e fiscal do ex-presidente Lula, e a fonte da informação, como se sabe, é uma funcionária da Receita Federal.

Moro não conseguiu colocar de pé a versão de que, informado por Guimarães, Lula eliminou provas, mas o que aconteceu depois do depoimento faz lembrar os piores momentos do regime militar.

Pouco depois do depoimento, o blog Antogonista noticiou que Guimarães havia revelado sua fonte à Polícia Federal – alguém avisou o Antagonista.

Na ditadura, vazava-se o conteúdo de depoimento tomado sob tortura, com objetivo de desmoralizar adversários do regime militar.

A PF já sabia o nome da fonte de Guimarães – a funcionária da Receita Federal – e o que disse o jornalista não mudou nada em relação a isso.

Mas, ao dizer que Eduardo Guimarães contou quem era sua fonte, o informante do Antagonista – será Moro? Será sua mulher, Rosângela, propagadora do site? – tinha o objetivo de desmoralizar o jornalista, como a ditadura fazia com seus adversários.

Depois do depoimento de Guimarães, Moro se declarou suspeito para continuar com a investigação sob seu poder.

Eduardo Guimarães e a tentativa de criar a farsa de que ele teria avisado Lula para eliminar provas.

Esta reportagem faz parte do nosso projeto de crowdfunding sobre a Lava Jato. Outras virão. Fique ligado.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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A história do Macarthismo no Brasil: da Guerra Fria aos dias atuais

Seja propaganda do IPES/IBAD no passado ou a panfletagem de think tanks neoliberais hoje, o anticomunismo no Brasil se mostrou essencial para a sobrevivência da ideologia conservadora.


“O Brasil precisa de você” e “A Máquina Comunista” são dois documentários brasileiros de teor antissocialista. A mensagem de ambos é praticamente a mesma: “há um perigo iminente que precisa ser extirpado. Caso contrário, o Brasil caminhará para uma ditadura totalitária e sanguinária.” A corrupção, a desordem e a crise econômica e institucional seriam as provas inequívocas da ameaça que ronda a sociedade.

No primeiro caso, “O Brasil precisa de você”, o narrador faz um convite direto ao telespectador, convocando-o para participar de forma ativa na sociedade. A missão proposta seria a conformação de uma “nova democracia” no Brasil.

Mas o que seria exatamente essa “nova democracia”? O documentário não explica. Porém, em outro momento, fica claro que o que está sendo sugerido não é exatamente a ampliação da representação popular. É um “projeto civilizacional”. Seria necessário levar a democracia a quem não a “conhece”: “um novo conceito de democracia precisa ser levado aos estudantes, aos operários e aos homens do campo”.

Tratava-se, portanto, de uma cruzada para “esclarecer” grupos específicos e impedir que tais pessoas fossem vítimas de “ideologias exógenas”, perigosas. “Muitos estão de braços cruzados, esquecidos que a democracia não pode ser defendida por comodistas”, lembra a voz grave do narrador.

O perigo, obviamente, é o comunismo. Apresentado como o projeto totalitário sucessor do nazismo. Essa conclusão é recheada com imagens dos mortos, cercas de arame farpado e pessoas famintas. A antítese do que seria a liberdade liberal.

No segundo exemplo, “A Máquina Comunista”, a narrativa é semelhante. O documentário inicia com a fala de um sujeito, Ricardo Gomes (apresentado como empresário e advogado), afirmando que o projeto marxista é inverter a classe exploradora. E, para isso, “eles estariam tomando o Estado por dentro”. E o empresário alerta: “espero que ainda não tenhamos passado pelo point of no return, do estado de coisas além do qual é impossível voltar”.

A duas montagens cinematográficas são produzidas de modo a dar um recado ao telespectador. Mas quem seria essa pessoa? Certamente não é um indivíduo qualquer. É o sujeito que precisa civilizar o homem do campo, no primeiro caso; ou aquele que teme uma opressão dos de baixo, no segundo.

Se o interlocutor não é o operário, não é o homem do campo, restariam apenas as classes média e alta. O VOCÊ, do título do primeiro documentário, é absolutamente o mesmo VOCÊ da capa da Veja, que alertava sobre os perigos de expandir os direitos trabalhistas. O restante: “ELES”, o outro, as classes perigosas, que, como lembra Ricardo Gomes, querem nos explorar do mesmo modo que nós os exploramos. Em suma, é a empregada doméstica que, ao ter direitos, assusta VOCÊ com a possibilidade de um dia precisar lavar louça.

Há, porém, um detalhe que estava sendo omitido. Esses dois exemplos, apesar das semelhanças, não são contemporâneos. Não foram feitos pela Editora Abril, pela Rede Globo ou por qualquer órgão tradicional da imprensa. Muito pelo contrário, há mais de cinquenta anos separando a primeira película, produzida pelo IPES, órgão criado em 1962 por empresários para financiar a propaganda anticomunista; do segundo caso, retirado de uma de uma série de cinco documentários, lançados ano passado, num evento intitulado “Brasil Paralelo”.

Segundo os organizadores, esse “congresso virtual” foi realizado por jovens cansados de “ouvir sempre o mesmo lado de história”. Eles seriam os pioneiros de uma revolução intelectual que iria devolver a “verdade sobre o nosso povo”. Escondida pelos professores e pela mídia, “infestadas de esquerdistas”. “‘O Brasil Paralelo’ se propõe a trazer outra versão da história do Brasil. Após muito trabalho. Noites sem dormir. Viagens exaustivas. Colocamos dinheiro do nosso próprio bolso. Assumimos o risco.”


Anúncio do documentário Brasil Paralelo: só a nata do conservadorismo brasileiro.
O depoimento é comovente. Alguns jovens, cansados de ser manipulados, recebem uma revelação e resolvem sair numa empreitada arriscada. Trabalhando duro e desembolsando uma enorme quantia em dinheiro, sem sequer saberem se haveria retorno. Tudo em nome do conhecimento. A impressão é que, mais de 50 anos depois, esses rapazes ouviram a convocação do IPES e colocaram a “mão na massa” para construir “a nova democracia”.

O depoimento, porém, é tão cativante quanto irreal. O projeto tem mais de 123 horas de entrevistas com “especialistas” de todo o Brasil. Os cinco documentários foram produzidos de forma profissional, com imagem e edição de alta qualidade. Só para ter uma ideia, nenhuma universidade pública brasileira teria dinheiro para fazer algo dessa magnitude. Certamente, a aventura dos garotos custou alguns milhões. De onde veio tanto dinheiro? O que estaria por trás da sublime iluminação intelectual desses jovens?

Esse não é um caso isolado. Movimentos como o MBL já possuem escritório próprio, militantes profissionais, programas de notícias e entrevistas no Youtube. Organizaram manifestações em que cada trio elétrico foi alugado por cerca de 30 mil reais. Segundo os responsáveis pelo MBL, também formado por “garotos iluminados”, os gastos são financiados com venda de camisetas, chaveiros, broches e doações. Difícil de acreditar.

Quem estaria fomentando esse discurso? Bem, nesse caso, seria preciso uma ajudinha do passado. Conhecemos melhor a história dos seus avós, IPES e IBAD, do que dessas novas ramificações.

A história é importante, pois nos dá uma perspectiva temporal. Assim, evita certas manipulações discursivas. O documentário do IPES convoca a “sociedade” para levar um novo conceito de democracia ao “homem ingênuo”. Hoje sabemos que essa nova democracia representou, na prática, 21 anos de ditadura militar.

No fim, as vítimas foram as mesmas pessoas mobilizadas contra um perigo imaginário e em nome de uma democracia que ninguém conseguia definir ou explicar. VOCÊ também pagou o pato.

A Máquina de Propaganda Anticomunista

O que estamos chamando de “macarthismo brasileiro”, a grosso modo, começa em 1945. Após um duplo movimento: a democratização e o início da Guerra Fria. (Como este texto pretende ser curto, não vou abordar a propaganda anticomunista anterior à Guerra Fria).

Há também um importante deslocamento na esfera política/ideológica. Ao longo da década de 1930, o nacionalismo estava associado à direita política. Tanto o varguismo quanto o integralismo tinham como um dos seus principais motes a luta contra o “comunismo internacionalista”. No pós-guerra — com a vitória dos aliados e o renascimento do liberalismo, de um lado; e com a configuração de um modelo de desenvolvimentismo latino-americano e do trabalhismo, de outro —, há uma inversão. Essa duas variáveis irão promover a rearticulação do discurso ideológico. Doravante, o internacionalismo se identificará com a direita e o nacionalismo com a esquerda do espectro político.

A política partidária passou a ser rivalizada por dois projetos de país. De um lado, o nacionalista trabalhista, que defendia um crescimento autônomo e com distribuição de renda. O principal partido a representar tais anseios era o PTB. Do outro, estavam os liberais, que viam o mercado como o agente do crescimento e do progresso. A UDN era a trincheira institucional desse pensamento. O PSD, partido de centro e mais pragmático, era o fiel da balança entre esses projetos rivais.

A UDN tinha dinheiro, muito influência na mídia e uma base social sólida. Porém, convivia com um dilema. O partido era visto como elitista. Antipovo. Seu eleitorado era o VOCÊ da propaganda. Não se elege um presidente apenas apelando para uma classe social. O discurso liberal tinha pouca aceitação entre os trabalhadores, pois estes entendiam que a CLT era o que os protegia das oscilações do mercado e das arbitrariedades dos mais poderosos. Como, então, defender o liberalismo e ao mesmo tempo ser popular? Tarefa difícil. Nas eleições de 1945, por exemplo, após uma fala infeliz do candidato Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), o PTB lançou a campanha: “marmiteiro” não vota em “grã-fino”. Referência ao elitismo do militar, que havia dito num comício que desprezava o voto dos getulistas, uma “malta de desocupados”.

Na impossibilidade do liberalismo seduzir grande parte da opinião pública, num país tão desigual quanto o Brasil, a estratégia empregada pela direita pode ser representada por um tripé. Primeiro, houve um apego à moralidade. Os jornais manipulavam de modo seletivo os casos de corrupção, com o objetivo a deslegitimar certas agendas. Um exemplo, que voltou a ser lembrado recentemente, foi o apartamento em Ipanema, na Vieira Soto, que os jornais acusaram Juscelino Kubitschek de ser o proprietário e de ter colocado no nome de um amigo para ocultar esse patrimônio.

Por que discutir sobre a importância estratégica da Petrobrás? Melhor acusá-la de balcão de negócios. As histórias dos escândalos de corrupção acompanham de forma impressionante a estruturação de um projeto nacional autônomo. Além do já mencionado Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas e João Goulart também sofreram com o cerco moralista. A oposição, diziam, não passaria de populistas demagogos, que querem comprar o apoio das camadas desfavorecidas com benesses quiméricas. O objetivo deles, contudo, seria se perpetuar no poder e usá-lo em benefício próprio.

Ora, se um pequeno grupo “compra” a maior parte da população “ignorante”, incapaz de decidir por conta própria, não há democracia. Essa era a lógica subjacente ao chamado do IPES direcionado aos “homens esclarecidos”.

Mas qual seria exatamente o perigo? Se ele não existia no mundo concreto, precisaria ser criado no imaginário. Vamos, então, para a segunda perna do nosso tripé. A retórica alarmista. O estímulo do medo. Materializada na propaganda anticomunista, que é o foco principal do presente artigo.

O historiador Geraldo Coutinho, no livro “Segredos da Propaganda Anticomunista” (todos os documentos apresentados abaixo sobre o IRD, foram retirados deste livro), compilou uma série de telegramas altamente secretos sobre a ação do Information Research Departament (IRD). O IRD era a unidade secreta, do Ministério das Relações Exteriores britânico, responsável pela propaganda antissoviética no Brasil.

Segundo os documentos, as informações divulgadas pelo órgão não poderiam ser percebidas pela população como propaganda, para não perderem a eficácia. A estratégia adotada seria a de “cavar e empacotar”. Ou seja, seriam selecionadas notícias negativas para serem distribuídas pela imprensa mundial. Em outros casos também seriam plantadas na imprensa informações falsas. “O principal papel desempenhado pelo IRD foi, então, o de disseminar a propaganda cinza e sem determinar a origem, com o objetivo de atrair a atenção ou confundir o público leigo.” (Geraldo Cantarino).

Essa estratégia escondia os laços entre empresários brasileiros e as agências internacionais de inteligência. Um cidadão lia uma reportagem fabricada pelo IRD, digamos, no jornal O Globo e não sabia da sua procedência e nem da veracidade dos dados apresentados. Como a agência abastecia praticamente toda a imprensa, a mesma narrativa era encontrada no Jornal do Brasil ou na Folha de São Paulo, apresentando os mesmos dados. Assim, a “propaganda cinza” ia sendo massificada, modelando o imaginário anticomunista. “A capacidade da CIA e da IRD de disfarçar seu apoio financeiro a diversas atividades por muitos anos foi decisiva para o sucesso da propaganda ocidental, sendo que grande parte dela não era reconhecida como propaganda.” (Geraldo Coutinho).

Entre os parceiros do IRD no Brasil estavam jornalistas, intelectuais, sindicalistas e padres. E, claro, praticamente todos os donos de jornais, incluindo marcas conhecidas e ainda hoje em atividade, como: O Globo, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil.

Durante o período stalinista, a imprensa mundial pouco sabia o que acontecia para além da cortina de ferro. Assim, as agências estrangeiras de informação preenchiam essa lacuna, municiando a mídia brasileira com informações falsas.

Segundo Geoffrey Stow, oficial de informação da embaixada britânica no Brasil, o país não correria o risco de uma revolução comunista, pois a imprensa, os militares e a Igreja Católica eram fortemente antissocialistas. E foi com essas instituições que o IRD e a CIA trabalharam em parceria. Por meio da imprensa, as agências se comunicavam com a classe média. A Igreja Católica era o canal com o homem pobre. E os militares, o último elo da nova democracia, ou seja, aqueles que poderiam substituir as eleições, caso estas saíssem do controle.

Mas as rivalidades internas não deixavam de criar dificuldades. Nos primeiros anos de atividade do IRD, Stow se queixava da dificuldade em “plantar” notícias em São Paulo. O governador Adhemar de Barros teria advertido os jornais a não publicarem esse tipo de material, ele queria o apoio dos comunistas nas próximas eleições presidenciais. O jornal O Globo também criou dificuldades. Segundo o mesmo Geoffrey Stow, havia uma séria questão que precisava ser resolvida para que o material anticomunista se alastrasse pelo Brasil: “A queda é em função do fato de que um de nossos clientes regulares, O Globo, insistiu que só publicariam esses itens se no futuro obtivessem exclusividade”. Tal contratempo logo foi resolvido com um afago: “estamos enviando para eles cinco itens exclusivos por semana”. Mas Stow não deixou de lamentar a teimosia dos marinhos: “isso, claro, reduz o número de itens disponíveis para outros jornais”.

Nos anos 1960, há o recrudescimento dos movimentos de esquerda, sobretudo no campo. “É muito curioso porque o país nos anos 1960 toma consciência da necessidade de dar um passo. Um passo na direção da democracia. Um passo na direção da nação.” (Plínio de Arruda Sampaio, O Dia Que Durou 21 Anos). O que o socialista Plínio de Arruda Sampaio entendia como “um passo em direção à democracia” era visto pela embaixada americana como um passo (largo) para o totalitarismo. A vitória da Revolução em Cuba também acendeu o “sinal de alerta”. O Brasil entrava definitivamente no radar americano.

O documentário “O dia que durou 21 anos” (todos os documentos abaixo, referidos à embaixada americana, foram retirados desse documentário), reproduz as correspondências trocadas entre o embaixador dos EUA, Lyndon Gordon, e o presidente John Kennedy. Em um desses telegramas, Gordon informa: “Goulart discursou defendendo o nacionalismo verde-amarelo. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, desapropriou duas empresas norte-americanas (Amforp e ITT), tais ações são uma ameaça aos interesses econômicos dos EUA e são consideradas totalmente inaceitáveis.”

Como podemos observar, o critério que unia “nacionalismo” e “comunismo” eram os interesses americanos. O nacionalismo bom era aquele anticomunista, enquanto o ruim era o que buscava maior autonomia frente à influência dos EUA.

A opinião de Gordon, porém, essa não era a mesma do IRD, agora dirigido por Robert Evans. Evans demonstrava uma percepção da realidade nacional mais refinada que a do embaixador americano: “muito tem sido escrito sobre o perigo de insurreição no campo. Eu acho um exagero”. Em outra passagem do relatório, Evans diz que o nacionalismo, que tanto incomodava os EUA, era uma faca de “dois gumes”: do mesmo modo que dificultava a hegemonia americana na região, também afastava outras ideologias como a comunista.

A agência britânica propunha novos métodos para isolar os comunistas. Para Evans, seria preciso estimular a “esquerda saudável”, ou seja, a esquerda não-comunista. “Ela continua a ser um fator estabilizador, que atua como um freio no movimento de esquerda.”

Mas essa tarefa era arriscada. Os conservadores tinham dificuldades de diferenciar essas esquerdas e tal prática poderia alarmar a direita. O oficial britânico conclui defendendo mais recursos em palestras para o público brasileiro sobre o trabalhismo inglês (mais moderado), visitas de professores e pesquisadores ao Reino Unido, assistência a autores brasileiros, apoio a projetos selecionados, bolsas de estudos etc.

Evans entendia que a esquerda era uma realidade política inevitável. Havia certa indignação e uma crescente vontade de mudanças estruturais no interior da sociedade brasileira. Essa energia política não seria dissipada pelo discurso conservador. Por isso, a necessidade de fortalecer a esquerda reformista, única capaz de conter o avanço do “radicalismo” dentro da classe média. “Estou convencido de que a mistura de nacionalismo, patriotismo, antiamericanismo, marxismo e muitos outros ismos se consolidará gradualmente em um partido de centro-esquerda.”

Essa definitivamente não era a opinião dos americanos e dos conservadores brasileiros. A estratégia destes grupos foi oposta à de Evans. Ao invés de separar a esquerda “saudável” da esquerda marxista, eles colocaram todos no “mesmo saco”. A ideia era confundir de modo proposital as Reformas de Base com a economia planificada. Desse modo, poder-se-ia jogar todo o peso de anos de propaganda anticomunista nas costas da esquerda reformista. Se os britânicos desejavam amenizar as tensões empurrando a esquerda para o centro, a CIA queria acirrar os conflitos, os antagonismos, para justificar uma solução armada.

O complexo IPES/IBAD: o ovo da serpente do golpe


Ilustração de Andy Parker.
É nesse contexto que é criado o complexo IPES/IBAD Ou seja, uma rede financiada por empresas estrangeiras e nacionais, além da CIA e do IRD, para combater o avanço comunista em várias frentes. Os documentos do IRD definiam o IPES como um canal confiável: “mantenho contato muito próximo com o escritório do IPES no Rio de Janeiro sobre as edições em português das publicações do IRD e para passar material para as Forças Armadas” (Robert Evans). Lincoln Gordon também mencionou esse canal para infiltração estrangeira, nas correspondências com Kennedy:

Gordon: o IPES, que é progressista, precisa de alguma ajuda financeira. Acho que temos de ajudá-lo.

Kennedy: Quanto vamos ter que colocar nisso?

Gordon: isso é coisa de uns poucos milhões de dólares.

Kennedy: isso é muito dinheiro. Afinal, você sabe que numa campanha presidencial aqui, você gasta cerca de 12 milhões.

Gordon: mas nós não podemos correr riscos.

(O Dia que Durou 21 anos)

No Brasil, o IPES se apresentava como alternativa à radicalização política, tanto à direita quanto à esquerda. Dizendo ser um centro de estudos científicos e, por isso, “apartidário”, o órgão se colocava contra a “esquerda radical” e a “direita tradicional”. Enquanto a primeira supostamente queria transformar o Brasil numa “república sindicalista”, e a segunda não aceitava qualquer forma de mudança, eles estariam propondo as verdadeiras reformas estruturais.

As reformas não passariam pela redistribuição de terra, mas pela modernização do campo. Era preciso levar o capitalismo para o interior do Brasil. Diminuir a burocracia. Controlar a inflação. Estabilizar a economia. Acabar com a corrupção. E, principalmente, abrir o mercado brasileiro e pôr fim ao controle de fluxo de capitais.

Segundo o historiador Moniz Bandeira, tais agências funcionavam como holding, coordenando várias subsidiárias. Dentre elas: Ação Democrática Parlamentar (ADP), Campanha da Mulher Democrática (CAMDE), Frente da Juventude Democrática (FID) e Movimento Sindical Democrático (MSD). Para financiar essa sofisticada rede, houve ativa participação também do capital privado, dentre as empresas mais ativas, Moniz Bandeira destaca: Texaco, Shell, Bayer, IMB, Coca-Cola e Souza Cruz. É interessante notar a forte presença das petroleiras no financiamento da propaganda anticomunista.

Para massificar a narrativa liberal, o complexo IPES/IBAD produzia filmes e documentários (14 no total). Publicava revistas. Atuava nos quartéis. Financiava pesquisas. Chegando, inclusive, a comprar vários deputados nas eleições de 1962.

Em depoimento, Plínio de Arruda Sampaio lembrou:

“Na eleição em que eu fui candidato, eu fui procurado por um cidadão que queria me oferecer dinheiro para a campanha. Aí eu perguntei: qual é a contrapartida? Ele respondeu: nós só queremos que você defenda a democracia.” Meses depois foi aberta uma CPI na Câmara, para investigar o IBAD, que constatou que ele recebia dinheiro do exterior para comprar deputados. “Foi um desfile de deputados dizendo: eu recebi, mas eu não sabia. Não havia nenhum minuto do Brasil, das 24 horas do dia, em que não houvesse uma emissora financiada pelo IBAD dizendo algo contra o presidente João Goulart.” (Plínio de Arruda Sampaio).

Essa rede permitiu a circulação da propaganda comunista em vários segmentos sociais. Consolidando uma narrativa alternativa às reformas. Pior, a estratégia buscava convencer a população de que o país caminhava para uma ditadura sanguinária, aumentando as tensões políticas e os conflitos. O objetivo era justificar uma solução pela força. A ideia do IRD, de fomentar a “esquerda saudável” para barrar o avanço dos comunistas, havia sido abandonada em definitivo. O que se pretendia era construir uma base social capaz sustentar o golpe militar, que já estava sendo gestado.

Considerações Finais

Foi, portanto, com a criação do complexo IPES/IBAD que o cerco propagandista contra as Reformas se estruturou em definitivo. Os efeitos foram profundos.

O leitor atento deve ter percebido que, ao me referir à estratégia política dos conservadores, mencionei um tripé. A primeira perna era o discurso moralista. A segunda, o estímulo do medo e o seu substrato, o ódio. Ficou faltando explicar a última perna: o golpe!

A retórica alarmista, provocada pela propaganda anticomunista, obviamente, não é desinteressada. O discurso oficial da Guerra Fria separava a política em duas esferas antagônicas: o “Mundo Livre” e o “Império do Mal”. A fronteira entre essas duas realidades, aparentemente inconciliáveis, seria justamente a democracia e a liberdade. Porém, para evitar um desenvolvimento autônomo e manter a hegemonia americana no continente, o conceito de democracia precisou, e muito, ser alargado.

Como lembrou o filósofo Noam Chomsky, há pelo menos duas acepções possíveis para a palavra “democracia”: a primeira seria aquela em que o povo participa ativamente dos destinos coletivos e, portanto, tem acesso a educação de qualidade e os canais de informações são acessíveis e diversificados.

A outra considera que o povo deve ser mantido afastado dos assuntos públicos e, por isso, o acesso à informação, assim como a percepção da realidade, deve ser restrito. Podemos concluir, dessas duas noções propostas por Chomsky, que, durante a Guerra Fria, os EUA promoveram a primeira definição no plano simbólico e a segunda na prática.

Esse era o significado da “nova democracia” do IPES. A propaganda funcionou. Entre os dias 19 de março e 8 de junho, aconteceram as famosas Marchas da Família com Deus Pela Liberdade (contra a ameaça comunista). Estava consolidada a base social necessária para um golpe de estado.

Apenas olhando para o nome dessas manifestações, percebe-se a influência da Igreja, que os documentos do IRD chamavam de parceira confiável. Os símbolos religiosos foram manipulados, de forma sistemática, para a conformação do imaginário anticomunista: a figura do comunista era frequentemente associada à sombra, às trevas e ao mal.

O discurso liberal também usava de forma paradoxal com o conceito de “liberdade”. E as ambiguidades foram muitas, começando pelo fato de que essa liberdade representou 21 anos de Estado de Exceção. Instaurou-se uma ditadura em nome da democracia.

A partir de junho de 2013, o discurso alarmista anticomunista reapareceu no Brasil. Não por coincidência, tal fenômeno ocorreu durante um governo com características muito próximas às posições defendias pelo presidente deposto João Goulart. A presidenta Dilma Rousseff também não concluiu seu mandato, sofrendo impeachment num processo extremamente duvidoso, para usar um eufemismo.

A maior dificuldade nos anos 1960, era a distribuição de material propagandista. Com o advento das redes sociais, essa barreira desapareceu. Os think tanks ultraliberais se espalharam de forma espantosa em poucos anos. Replicando um discurso plastificado. Ou melhor, “cavado e empacotado”.

Bem, o restante da história você conhece. Vou deixar, portanto, a análise crítica do atual momento para o leitor. Termino por aqui. Não vou convidar você para nenhuma cruzada salvacionista. Mais importante do que acertarmos é não repetirmos os mesmo erros. Ou melhor, não cairmos nas mesmas armadilhas.

Para Saber Mais

BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas socais no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

CATARINO, Geraldo. Segredos da Propaganda Anticomunista: documentos diplomáticos revelam a atuação do IRD, um departamento secreto do governo britânico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2011.

CHOMSKY, Noan. Mídia: propaganda política e manipulação. Martins Fontes, 2013.

DREIFUSS, René Armand. 1964 — A Conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis (RJ): Vozes, 1981.

Documentários

O Dia Que Durou 21 Anos

Congresso Brasil Paralelo, capítulo 04: A Máquina Comunista

IPÊS: O Brasil precisa de Você

Eduardo Migowski
No Voyager
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Ordem do Dia: todo poder emana do povo

“Está nas mãos dos cidadãos brasileiros a oportunidade de, nas eleições de 2018, sinalizar o rumo a ser seguido”. Sob a discreta tutela dos generais.


entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, para a Folha de 29 de julho de 2017, merece uma análise cuidadosa. E uma dolorosa reflexão.

A começar pelo tempo investido para que as respostas fossem elaboradas – 23 dias desde o recebimento das perguntas. Não é de se crer que um comandante e uma pessoa tal qual se mostra ser o general Villas Bôas fizesse o jornal esperar por mais de três semanas em função de desinteresse ou indelicadeza – não. Logo, resta a conclusão de que as respostas foram muito bem pensadas antes de serem dadas.

Outra característica que salta aos olhos, quando lemos a entrevista, é o cuidado de contextualizar cada resposta. Mas cuidar também para que cada resposta contivesse, na maioria das vezes, uma frase conclusiva que não deixasse dúvidas de como pensam as Forças Armadas sobre a questão suscitada.

Sim, nas respostas dadas, o general deixa claro estar falando em nome das Forças Armadas.

A memória nacional ainda guarda forte as lembranças das intervenções das Forças Armadas na política interna brasileira, desde a derrubada do 2º Império em 1889 até 1985, quando do fim da ditadura de 1964 – 100 anos. Pela maior parte do século XX, as intervenções das Forças Armadas foram o fator preponderante na nossa organização sócio-política.

Logo, um posicionamento claro tal qual o do general Villa Bôas rechaçando qualquer intenção a esse respeito poderia, à primeira vista, parecer a principal colocação da entrevista.

“O Brasil e suas instituições evoluíram e desenvolveram um sistema de pesos e contrapesos que dispensa a tutela por parte das Forças Armadas. Hoje, elas estão cientes de suas missões e capacidades e mantêm-se fiéis aos ditames constitucionais”.

É possível discordar-se do general em relação a que as instituições brasileiras tenham evoluído. O golpe parlamentar de 2016 pode até ser mais sofisticado, mas é do mesmo tipo do golpe tentado em 1955. Apenas que, desta vez, sem a intervenção de alguém das Forças Armadas para garantir o respeito às urnas. Mas, tampouco, para suprir a democracia como em 1964. Evoluíram, isto sim, as Forças Armadas, quando deixaram que a sociedade civil resolvesse suas questões.

Ocorre que as questões não estão resolvidas. O golpe transformou-se em crise. E entre as consequências possíveis dessa crise, teme-se pela supressão das eleições de 2018 como forma das forças golpista manterem-se no poder.

E é em relação a esse temor a principal colocação do general. A fiança dada à realização das eleições. E o general não poderia ser mais claro: “neste momento, o que deve prevalecer é a Constituição Federal e todos, repito, todos devem tê-la como farol a ser seguido”.

Prevenindo-se contra um possível distraído que não percebesse o teor de suas palavras, o general é enfático: “…todos, repito, todos…”. Já seria ênfase suficiente em uma resposta verbal, agora, em uma resposta escrita e pensada por 23 dias, é para que não reste dúvida alguma.

E segue o general: “está nas mãos dos cidadãos brasileiros a oportunidade de, nas eleições de 2018, sinalizar o rumo a ser seguido”.

O general sabe que nossas instituições estão esfaceladas. A insubordinação aos resultados das urnas e o aparelhamento da Lava-Jato para a consumação do golpe levaram a insubordinação das instituições como um todo. Do STF à Presidência da República e ao Congresso, passando pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.

Falta-nos uma identidade e um projeto estratégico de país. País com letra maiúscula. Por isso, costumo dizer que estamos à deriva. Acho que a falta de um projeto nacional tem impedido que a sociedade convirja para objetivos comuns. Isso inclui, até mesmo, a necessidade de referências claras de liderança política que nos levem a bom porto.

Restaram o povo e as Forças Armadas. Estas últimas poderiam estar tomadas de desejos. Estão sóbrias.

“… como tenho dito, vemos tudo isso com tranquilidade, pois o Exército brasileiro atua no estrito cumprimento das leis vigentes e sempre com base na legalidade, estabilidade e legitimidade”.

E aparentam estar conscientes de que não há solução fora de um novo pacto nacional. Lúcidas de que tal pacto passa por eleições livres e democráticas em 2018.

“…em última análise, é a população quem vai julgar os partidos e os candidatos, por intermédio do voto…”.

A população e o seu voto como juízes maiores da cidadania.

Não poderia e nem deveria ser de outra maneira. Porém, que ainda dependamos do legalismo militar como único e último aval da democracia só nos mostra que falhamos como sociedade civil em consolidá-la e que dolorosamente ainda necessitamos de “tutela por parte da Forças Armadas”. Depois do tanto que foi sonhado e foi construído no pós-democratização, é entristecedor que assim seja.

Mas que assim seja, enfim: que o povo decida nas eleições de 2018 o rumo a ser seguindo. Ainda que sob discreta tutela do general Villas Bôas.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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Estudo mostra a influência dos parlamentares nas redes sociais

Senador Lindbergh Farias lidera

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Moro é pouco para Lula

Por mais que se empenhe para cumprir a tarefa de eliminar o ex-presidente do pleito de 2018, o juiz curitibano não lhe abala a grande popularidade

Em Curitiba, um juiz que não julga
Enquanto não forem divulgadas as primeiras pesquisas feitas depois da condenação de Lula, é impossível dizer como ficaram as intenções de voto para a eleição presidencial do ano que vem. Podemos, no máximo, conjecturar.

De acordo com o que estávamos vendo nos últimos meses, o mais provável é que, no fundamental, tenham mudado pouco: quem se dizia propenso a votar no ex-presidente deve manter a opção. O que significa que o favoritismo de Lula deve permanecer.

Em breve, teremos novos levantamentos, mas os primeiros talvez não sejam definitivos. É bem possível que o cenário só volte a se estabilizar em alguns dias ou mesmo semanas. A notícia foi dada de modo a produzir agitação e muitas pessoas podem ter ficado inseguras, o que tenderia a deixá-las indecisas ou a fazer com que preferissem não externar sua opinião. Quando a poeira assentar é que conseguiremos avaliar os efeitos do ocorrido.

Não sabemos, portanto, se Lula mantém os níveis de intenção de voto que tinha até outro dia, se perdeu tamanho ou se cresceu. As três hipóteses são plausíveis, embora a de manutenção dos patamares anteriores seja a mais forte.

A razão para isso é simples: no dia 12 de julho, quando Sergio Moro formulou sua condenação, nada de realmente novo aconteceu. Ou havia alguém que supusesse que a sentença do juiz curitibano seria outra?

É possível que existam pessoas que acreditavam que Moro, nos dias que antecederam a decisão, dedicava-se a estudar com cuidado e imparcialidade as manifestações do Ministério Público e da defesa. Que tenha proferido seu voto após longa meditação, sopesando os fatos provados à luz da Lei e do Direito.

Pessoas assim, tão desavisadas, podem existir, mas são raras. Na sociedade, quem tinha opinião a respeito do assunto não duvidava de que Moro condenaria Lula ao final do processo, pois já o havia condenado há tempo. Para aqueles que se interessam por questões políticas, era uma história com final previsível, a crônica de uma condenação antecipada.

Eram quase que unicamente os antipetistas que viam a atuação de Moro como justa, aplaudindo-o porque o percebiam como um aliado e porque fazia o que queriam. Do outro lado, os eleitores de Lula sabiam que iria fazer o que sempre deixou claro que faria, desde quando começou a atuar na política nacional. Apenas os mal informados chegaram ao dia 12 sem conhecer o desfecho.

A mídia corporativa reservou à notícia o tratamento dispensado às “grandes novidades”, em especial a revista Veja e a Rede Globo, com suas “edições extraordinárias”. Tentaram apresentar a decisão de Moro como um “fato novo”, mas não conseguiram ocultar que a condenação de Lula estava pronta antes de o processo sequer começar.

Do dia 12 em diante, repetiram o script. Os “grandes jornais” publicaram editoriais e comentários que poderiam estar escritos há meses (e que talvez já estivessem de fato prontos). De novidade genuína, apenas alguns toques cômicos, como o apelo do jornal Folha de S.Paulo para que a Justiça de segunda instância confirme logo a condenação de Lula, atendendo “ao interesse de todos” (como se “todos” compartilhassem a preferência da família Frias).

No mesmo tom burlesco, houve políticos que encenaram uma reação à “novidade”. Marina Silva, por exemplo, reuniu-se com aliados para dizer-se candidata ao Planalto em razão do “grande vácuo” criado pela condenação de Lula. Aparentemente, era ela a única pessoa, no sistema político, que desconhecia as intenções de Moro e que aguardava seu pronunciamento para decidir o caminho que seguiria.

Os cidadãos comuns, que dispensam essas hipocrisias, não se surpreenderam com o veredicto. Gostando deles ou não, sabiam o que ocorria em Curitiba: que lá havia um juiz que não julgava, procuradores que atuavam ignorando sua função pública, policiais que não investigavam a todos com o mesmo empenho. Cada um, a seu modo, buscando atingir o ex-presidente.

A condenação de Lula por Moro já estava no cálculo da grande maioria da opinião pública. Quem afirmava estar inclinado a votar em seu nome não imaginava uma absolvição. Quem o rejeitava não passou a desgostar mais por causa do ato de Moro. A maioria dos indecisos, que costumam se resolver por fatores extrapolíticos, é dificilmente afetada à distância em que estamos do pleito.

Vai ser preciso mais do que uma sentença de Moro para atingir a imagem de Lula. Para destruí-lo, a aliança antipetista terá de empregar armas de calibre muito mais grosso.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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Curso - Estudos Latino-Americanos - Módulo III - Aula 3


Aula com Roberta Traspadini, do Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), na Pós-Graduação em Serviço Social. Tema: Questão agrária, Imperialismo e Dependência.


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O povo deve ser destruído

Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Um dia após a condenação de Lula por Sergio Moro, um motorista de táxi me perguntou: contente com a condenação de Lula? Quando me ouviu dizer que não, ficou muito alterado e desfiou uma lista de crimes que teriam sido cometidos por Lula para justificar que o Brasil necessitava se livrar dele. Dia 17 de julho, o jornalista, escritor e apresentador de TV, Marcelo Tas, perdeu a costumeira fleuma no programa que coordena na GNT (Papo de Segunda), quando um dos seus companheiros referiu a falta de provas da propriedade do triplex, que fora o mote da condenação de Lula. Tas alterou-se e disse que o triplex era um crime menor e nem tinha importância, mas que Lula deveria ser condenado porque era o responsável pela recessão, por 13 milhões de desempregados, por toda a corrupção e também pelo governo Temer, uma vez que havia feito aliança com o PMDB.

Lula tem mais de 50% de rejeição nas pesquisas de opinião, em que pese ser o pré- candidato com a maior intenção de voto, mas a pergunta que não quer calar é: por que o discurso de ódio contra Lula, que faz sentido a um motorista de táxi, é o mesmo do intelectualizado Marcelo Tas? Uma resposta ligeira e do gosto de todos seria que os motoristas de táxi “são assim” e que Tas é funcionário da Rede Globo (GNT), portanto, parece óbvio que se colocaria desta forma. Entretanto, estas explicações estão longe de dar lastro para ensaiar uma reflexão sobre a crise da esquerda, do PT, sobre o avanço de discursos conservadores, reacionários, racistas , machistas.

O primeiro discurso exitoso contra Lula se expressou em um discurso contra Dilma, mais frágil politicamente, mulher, sem grande apoio no próprio PT, portanto mais fácil de atacar. Dilma foi o primeiro fator unificador do discurso da direita política brasileira em 2014. De fato o objetivo não era ela, mas o afastamento do PT e a retirada do perigoso e popular Lula do campo da disputa política. Inventaram as pedaladas fiscais, afastaram Dilma e não a incomodaram mais. A culpa de Lewandowski , que estava participando da farsa, resultou na não cassação dos direitos políticos da então presidenta.

Afastar Dilma foi só um primeiro passo. Havia importantes políticas neoliberais de ajuste a serem feitas pelos representantes do capital financeiro, da FIESP e da banca internacional. Entre os aspectos centrais das políticas neoliberais, aqui e alhures, estão a retirada dos direitos sociais e a desqualificação das conquistas dos trabalhadores como privilégios. Para que possam ser implementadas, não bastam um golpe e um presidente fantoche, é necessário haver garantias a longo prazo de que não haverá reação do povo. Por isso, é necessário destruir o povo como agente político, como sujeito político coletivo. Esta é a grande missão dos que agora estão no poder, secundados por parte do judiciário e parte do ministério público. Não importa se a reforma da previdência não passar agora, interessa é que ela passe, no ano que vem ou em 2019. Mas é necessário derrotar o povo de forma cabal.

O que Lula tem a ver com isto? Tudo. Lula foi e ainda é um grande líder popular, se identifica com as classes populares que, durante seu governo, viram mudar as suas vidas, as possibilidades educacionais de seus filhos. O mundo viu Lula como uma nova esquerda. Como líder, Lula deu significado ao povo como sujeito político. Maior que o PT, maior que a esquerda, ele articulava as demandas populares, era o povo no poder.

As forças de esquerda em geral e o PT, especificamente, não conseguiram construir lideranças para substituí-lo, não porque Lula não deixou, ou porque o partido não quis, mas porque a existência de Lula impediu que houvesse condições de emergência de novas lideranças, por mais que ele tivesse oposição, dentro e fora do partido.

O poder simbólico que Lula representa precisa ser extirpado do Brasil para que o projeto neoliberal em curso se concretize. Por isso há esforço de arrancar Lula do centro do discurso popular e caracterizá-lo como o grande traidor, o corrupto, o operário que enriqueceu, o responsável pelas mazelas do Brasil, pela desordem, pela violência. É preciso romper o lastro discursivo do povo. Isso não se faz prometendo vantagens, mas exatamente prometendo sacrifícios. Recriando um novo sujeito político, individualizado, “responsável “, trabalhador, que não se interessa por “privilégios”, mas quer trabalhar em qualquer condição. Um individuo que não se preocupa se pessoas sem-teto são acordadas nas ruas geladas por jatos d‘agua, se usuários de drogas são caçados como bichos, se prédios ocupados por famílias que não têm onde morar são desocupados por batalhões de choque da polícia militar. Essas pessoas não importam, são “vagabundos“, perdedores, obstáculos para o restabelecimento da ordem.

Na nova ordem neoliberal não há espaço para povo, para o sujeito coletivo. O que importa é cada um cuidar de si. O fracasso é pessoal, o sucesso está na compreensão dos novos tempos, do trabalho intermitente, do fim das políticas sociais. A nova ordem é a do individuo, não importa se ele é um trabalhador ou um intelectual da mídia. Para que a nova ordem se instale, é necessário acabar com o povo, com a ação do povo como coletivo, por isso é essencial destruir quem melhor o representou na política brasileira contemporânea – Luis Inácio Lula da Silva. Mas não basta colocá-lo na cadeia, antes é preciso destruí-lo como símbolo, o que só acontecerá ao destruir o povo, já que Lula significou o povo por longos anos, décadas.

O motorista de táxi e o intelectual mediático representam muito bem este sujeito individualizado, que se constitui em um discurso de ódio contra Lula, contra o povo. São exemplares característicos dos tempos de pós democracia que vivemos.

Céli Regina Jardim Pinto é Profa Titular do Departamento de História da UFRGS.
No Sul21
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Lembremos 1961


A reflexão, a crítica e a autocrítica (lamentavelmente em desuso) podem oferecer ao sujeito do processo histórico condições objetivas de intervenção segura.

Por isso mesmo talvez seja este o momento de nos perguntarmos o que as forças progressistas e de esquerda aprenderam com o estudo da História e, de particular, com sua história específica e recente, inventariando acertos e sopesando os erros.

Optando pela via democrática de conquista do poder, conquistamos o governo, mas confundimos coligação partidária-parlamentar, a composição necessária com o outro, diverso e divergente, com aliança final de propósitos.

Daí foi só um salto para cair na ilusão do fim da luta de classes.

A esquerda apostou na quimera com a qual a direita, todavia, jamais se comprometeu.

O processo democrático tout court, compreendendo a realização de eleições e o respeito ao seu resultado, jamais foi um compromisso da direita brasileira, que, derrotada pelo voto popular, opta, como regra, para chegar ao poder ou apear a esquerda, pelo caminho mais curto, o da ruptura das regras do jogo, isto é, o golpe de Estado em suas variadas formas, inclusive a militar.

Em outras palavras: a conquista ou conservação do poder é, para a classe dominante e seus representantes, o grande fim, sem limites éticos para a escolha dos meios, porque o fim último, a conquista do poder, tudo pretende justificar.

Esta é a marca mais distintiva da política brasileira da última metade do século passado, que lamentavelmente ameaça projetar-se no Terceiro Milênio, frustrando a consolidação de um primeiro projeto de democracia de massas, insinuado pela ascensão de significativos setores populares à vida política e ao mercado de consumo.

Não é respeitável o currículo das forças liberais e conservadoras, as quais jamais admitiram a conciliação de classes (a coabitação no mando político) – a ingênua aspiração do varguismo dos anos 50, reiterada pelo lulismo. Em ambos os casos com os resultados conhecidos.

Em 1954, respondendo à sua derrota para Getúlio Vargas nas eleições de 1950, a direita civil-militar logrou a tomada do Palácio do Catete com o golpe de 24 de agosto e a consequente e imediata posse de Café Filho, substituindo no posto o presidente suicida.

Impossibilitada de evitar as eleições presidenciais de 1955, pretendeu impedir a candidatura de Juscelino Kubitscheck, que ameaçava varrer do Catete seus novos ocupantes; consolidada essa candidatura, tentou impedir sua eleição; consagrada esta, a última cartada seria impedir sua posse, seja com a tese inconstitucional da exigência de maioria absoluta, seja pelo golpe militar pura e simplesmente.

Solução frustrada com a reação do Ministro da Guerra, general Teixeira Lott, no famoso e já histórico ‘11 de novembro’.

A primeira possibilidade de conquista do poder, pela via eleitoral, pela direita, surgiu em 1960, quando saltou no colo do populismo irresponsável de Jânio Quadros, com quem, todavia, no governo, logo se desentenderia.

O pomo da discórdia foi a política externa independente. Com o fracasso da tentativa de golpe de Jânio Quadros, de que decorreu sua renúncia cair no vazio, viu a reação civil-militar configurar-se, com a iminente posse de João Goulart, vice-presidente e sucessor constitucional, a insuportável ameaça de retomada do poder pelas forças populares. Jango era tido como o sucessor de Vargas.

Derrotada nas ruas a intentona militar de 1961 pela resistência comandada por Leonel Brizola, sobraram-lhe, porém, forças para impor a um Congresso de joelhos a reforma parlamentarista que, em duas noites, mudou o regime brasileiro e ceifou poderes do presidente, condição para a posse de Jango.

Quando foi dado ao povo, outra vez, a oportunidade de manifestar-se, desta feita em plebiscito (1963), o golpe do parlamentarismo foi desfeito e restabelecido o regime presidencialista de governo.

Mas a direita não se deu por vencida e engendrou o golpe militar de 1964, assimilado pelo Congresso, de novo de cócoras, e por um Supremo Tribunal Federal associado.

No seu discurso de posse, o Marechal Castello Branco, eleito pelo Congresso, anunciou a manutenção das eleições presidenciais de 1965, para as quais, porém, despontava, incômodo, de novo ele, o ex-presidente Juscelino Kubitscheck.

Resultado: ficamos sem eleições diretas até 1989, para surpresa dos que então supunham que tudo não passaria de ‘uma quartelada’!

Em 2014, a derrota para Dilma Rousseff se afigurou como insuportável, e a direita valeu-se de todos os meios para anulá-la, objetivo alcançado, por fim, com o impeachment, e a posse do vice-presidente perjuro.

O projeto dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto, é, finalmente, destruir a ‘era Vargas’, sonho herdado de FHC e do tucanato, experimento que começa a materializar com a desmontagem das bases da legislação trabalhista.

Armam-se para estender, quanto possível, a estada no poder.

A direita, porém, vê crescer nas ruas a candidatura de Lula, a cuja força eleitoral não consegue antepor outro nome em condições de disputa. Se é preciso, pois, que haja eleições, é preciso que Lula não seja candidato; se candidato, que não seja eleito; se eleito, que não tome posse; se tomar posse, que seja defenestrado, como foram Getúlio, Jango e Dilma.

A sabotagem ao processo democrático se opera por partes.

É preciso, primeiro, preparar o terreno político. E os grandes jornais já começam a falar das inquietações do imperador mercado em face das eleições, quaisquer, pois elas ‘ameaçam a recuperação fiscal’. 

No Valor, na sexta 21, respeitado porta-voz do sistema, Armínio Fraga, eventual ministro no eventual governo de Rodrigo Maia, declara: “O que mais atrapalha a recuperação (econômica) neste momento provavelmente ainda é [o pleito de] 2018”.

No dia seguinte, o jornal estampa mensagem ainda mais explícita: “Eleições podem impor retrocesso às reformas”. É o título-resumo do artigo de  ngela Bittencourt, que traz à lide um investidor “que não quis identificar-se”, e esse fantasma sussurra: “A eleição presidencial de 2018 poderá minar o esforço empreendido até agora para aprovar reformas estruturais com o objetivo de promover uma recuperação econômica, capaz de minimizar os efeitos inquestionáveis da Operação Lava Jato sobre a atividade”.

Mas é preciso pensar, também, na inevitabilidade de eleições, e pensando assim, ainda segundo a colunista, o ‘entrevistado’, lamenta que Henrique Meirelles – seu candidato in pectoris – não tenha viabilidade eleitoral. Em tal hipótese, diz, o candidato deve sair do PSDB.

São, ou seriam, palavras do anônimo: “O PSDB é um atestado de qualidade de politica econômica. Qualquer candidato seria recebido dessa forma”, e, aproveitando o diapasão, logo indica Geraldo Alckmin e Doria Jr.

Esses nomes, mais o de ACM Neto, são os festejados por Alfredo Setúbal, presidente da Itaúsa, a holding do grupo Setúbal-Moreira Salles. Descrente da alternativa Maia, o banqueiro dita ao Estadão: “O cenário ideal seria de continuidade para evitar uma nova crise. E preciso dar continuidade às reformas, como a da Previdência”.

Em síntese é isso: o leitmotiv do grande capital são as tais ‘reformas’. O resto que se lixe. 

Se de todo for impossível evitar essas eleições, ou se elas não puderem se desenvolver sob segurança, se não for possível deter Lula (o Estadão de 15.7.17 já anuncia: ‘Supremo deve manter condenação de Lula’) ou afastar de vez a ameaça de qualquer candidato à esquerda, a alternativa já está costurada: é o parlamentarismo, que, entre nós, não é um regime de governo mas instrumento de golpe de Estado que visa a afastar o povo das eleições.

O senador José Serra abandona seu silêncio e levanta a tese golpista com roupagem constitucional, e o presidente do Senado de imediato anuncia a criação de uma Comissão Especial para examinar a proposta, indicando para relatá-la o senador paulista em retirada da vida pública.

O  Globo, na terça 25, traz sua contribuição na coluna de Merval Pereira que descobriu mais um ‘cientista politico’, para quem, diz o jornalista, “aqueles que desde 1985 (…) têm militado pela substituição do atual presidencialismo puro pelo parlamentarismo puro ou pelo semipresidencialismo, do tipo francês ou português, as condições políticas encontram-se cada vez mais maduras para que o desejo se transforme em realidade”. A hora é esta. 

A alternativa parlamentarista é o ‘plano B’ de que dispõe a direita para, realizando-se as eleições, assegurar-se de que, qualquer que seja o resultado, o poder permanecerá em suas mãos, nas mãos de um Congresso corrupto, sem representação e sem legitimidade, apropriado pelo poder econômico, como assinala, com conhecimento de causa e insuspeição, o ex-ministro Delfim Netto (Carta Capital, 19/07/2017): “Todo o nosso sistema eleitoral foi montado para permitir a apropriação do poder político pelo poder econômico”.

O leitor poderá julgar que, na vigência da atual Constituição, o parlamentarismo é inviável, pois foi vencido no plebiscito de 1993, tornando o presidencialismo cláusula pétrea em nossa Carta Magna.

Ora, objeta o velho articulista: não se esqueça de 1961. Como lembramos acima, nosso Congresso, rasgando Constituição, Regimento Interno e atropelando normas parlamentares, derrogou o presidencialismo da Carta de 1946 e impôs um parlamentarismo de ocasião, em apenas duas noites.

O Parlamento que aí está já demonstrou, reiteradas vezes, desconhecer limites e pudores.

Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia
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Ofício contradiz ministro e mostra que governo federal pediu tornozeleira de Loures

Documento da Secretaria de Segurança de GO diz que pedido foi do Depen, órgão do Ministário da Justiça

Documento assinado pelo sercetário de Segurança Pública de Goiás mostra que tornozeleira foi pedida pelo governo federal - Reprodução / Reprodução
Ao contrário do que diz o ministro da Justiça, Torquato Jardim, sobre a tornozeleira eletrônica usada pelo "deputado da mala", o secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás, Ricardo Balestreri, escreveu em um documento do último dia 14 que a tornozeleira foi cedida pelo governo de Goiás "em vista de um pedido do Depen/MJ". Segundo o secretário, a solicitação do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) foi para que o fornecimento do dispositivo ocorresse de maneira "emergencial". Em entrevista coletiva à imprensa na tarde de ontem, Torquato negou que o pedido do dispositivo a Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), ex-assessor especial do presidente Michel Temer, tenha partido do Depen, órgão vinculado ao Ministério da Justiça.

O empréstimo da tornozeleira garantiu a saída de Loures da prisão em Brasília e, por consequência, esfriou as possibilidades de delação premiada do ex-deputado gravado pela Polícia Federal (PF) com uma mala contendo R$ 500 mil. Segundo denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR), o dinheiro era propina paga pelo grupo JBS e tinha como destino final o presidente da República.

OFÍCIO DE SECRETÁRIO DE SEGURANÇA CONTRADIZ MINISTRO: DEPEN PEDIU TORNOZELEIRA A LOURES - Reprodução / Reprodução
O ofício do secretário de Segurança Pública foi remetido ao Ministério Público de Goiás, que investiga a concessão da tornozeleira ao amigo de Temer. "Esta secretaria, via de seu superintendente de Administração Penitenciária, foi demandada sobre a cessão de uma tornozeleira eletrônica, em vista da inexistência do referido equipamento por parte dos órgãos federal (Depen/MJ) e estadual (Sesipe/DF)", explicou Balestreri. "Esclarecemos que o órgão demandante, Departamento Penitenciário Nacional - Depen/MJ, é o responsável pela gestão do sistema prisional federal e coordenação dos sistemas prisionais dos estados", continuou.

O secretário afirmou ainda no ofício que se pauta pela "cooperação federativa" e que não leva em conta "questões de ordem político-partidária". "A nova doutrina para busca de maior efetividade na segurança pública aponta para a integração total entre todos os órgãos de segurança pública, não só a nível de um único estado, mas também a nível federativo. O equipamento em comento foi cedido em vista de um pedido do Depen/MJ, cujo direcionamento se fez via DPF/MJ." DPF é o Departamento de Polícia Federal.

O Depen alegou "apoio emergencial", conforme o secretário. "Imprimir avaliação sobre a destinação do uso da tornozeleira, impondo filtros avaliativos ou restritivos, seria politizar uma decisão eminentemente técnica e profissional. Não atender ao pedido de apoio, legitimamente apresentado por componente do organismo de segurança de nosso país (...), seria natural apenas diante de quantitativos expressivos e que pudessem comprometer a monitoração eletrônica no estado de Goiás."

O posicionamento do secretário de Segurança Pública reforça as declarações de seu ex-subordinado Victor Dragalzew Júnior, que exerceu o cargo de superintendente de Administração Penitenciária em Goiás até segunda-feira, quando foi demitido pelo governador Marconi Perillo (PSDB). Em entrevista, Dragalzew sustentou que o pedido foi feito pelo Depen e que nunca havia recebido uma solicitação desta natureza do órgão federal desde o início de sua gestão, em março de 2016.

Nesta sexta-feira, a Justiça em Goiás voltou a negar um pedido do promotor Fernando Krebs para apreensão e devolução da tornozeleira usada por Loures. Na decisão, o juiz Reinaldo Alves Ferreira citou a participação do Depen no episódio: "Ao que tudo indica, como se depreende das informações prestadas pelo secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, o Depen seria o órgão que teria solicitado a cessão da tornozeleira, a qual teria sido cedida como forma de cooperação federativa."

Na entrevista coletiva de ontem, o ministro da Justiça jogou para a PF a responsabilidade pelo pedido da tornozeleira eletrônica que garantiu a saída de Loures da prisão:

– O pedido saiu da Polícia Federal. O Depen foi consultado se havia tornozeleira em Brasília, e não havia em Brasília. O órgão então avisou que havia em Goiás. E quem requereu a Goiás foi a Polícia Federal – disse Torquato.

Diante da negativa sobre a participação do Depen no episódio, a reportagem perguntou ao ministro:

– O Depen não pediu a tornozeleira?

– Quem pediu por escrito foi a Polícia Federal – respondeu o ministro.

– E por telefone, o Depen não pediu a tornozeleira?

– Procurou saber se havia, mas não pediu.

– O senhor tinha conhecimento de um pedido do Depen? Foi um gesto correto?

– Não tinha conhecimento. O gesto foi correto, não há nenhuma restrição ao Depen, que foi apenas um órgão de consulta.

O ex-superintendente de Administração Penitenciária de Goiás afirmou ao MP que o pedido da tornozeleira partiu do "coronel Jeferson" do Depen. O coronel chegou a dizer que enviaria um ofício com o pedido, o que acabou sendo feito por um delegado da PF, segundo o ex-superintendente.

Loures foi preso pela PF em 3 de junho, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). No último dia 1º, a prisão preventiva foi convertida em prisão domiciliar, sob monitoramento com uma tornozeleira eletrônica.

O Globo mostrou na quarta-feira que o amigo de Temer furou uma fila onde estão um acusado de traficar 3,5 quilos de maconha, que permaneceu preso por faltar tornozeleira; um agressor enquadrado na Lei Maria da Penha, que permanece sem monitoramento mesmo depois de ter ameaçado de morte a ex-mulher; e empresários que lesaram centenas de clientes de pacotes de viagens.

Ministério da Justiça nega

Por nota, a assessoria do Ministério da Justiça informou que reitera as informações prestadas pelo ministro Torquato Jardim na quinta-feira. "O Depen não solicitou a referida tornozeleira. Mais do que a afirmação contida no documento demonstrado na reportagem, é importante que o autor do documento apresente o ofício ou solicitação atribuídos ao Depen. Essa solicitação não foi realizada", diz a nota do ministério.

Vinícius Sassine
No O Globo
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Ainda liderando: cada pesquisa pós-condenação deixará mais explícito por que Moro persegue Lula

Na frente
A cada nova pesquisa, vai ficar cada vez mais claro por que Lula tem de ser impedido no tapetão de disputar as eleições de 2018.

Sergio Moro é a grande esperança branca para barrar a caminhada do ex-presidente.

Moro já foi longe demais e, como disse o próprio Lula em sua depoimento ao juiz, não pode mais recuar e deve cumprir o script dado pela Globo.

No primeiro levantamento depois da condenação a 9 anos e meio de prisão na Lava Jato, feito pelo Instituto Paraná, ele lidera em todos os cenários.

Num primeiro, Lula tem 25,8% da preferência dos eleitores, seguido pelo deputado Jair Bolsonaro (18,7%) e por João Dória (12,3%).

Joaquim Barbosa aparece com 8,7%, Marina Silva com 7,1% e Ciro Gomes com 4,5%.

Em outro cenário, em que aparece Geraldo Alckmin, Lula tem 26,1%, Bolsonaro 20,8%, Joaquim Barbosa 9,8% e o governador de São Paulo 7,3%.

Nas simulações de segundo turno, Lula também sai vencedor com 38,7%, seguido de Bolsonaro, com 32,3%. Contra Doria, seria 38,5% a 32,2% para Lula. Contra Alckmin, 39% a 26,9%.

A tábua de salvação era a rejeição. A de Lula aumentou — bem como a de seus concorrentes (veja o quadro abaixo).

Movido pela vaidade e pela farsa em que passou a acreditar — o poeta é um fingidor, finge tão completamente que finge ser sua a dor que deveras sente —, Sergio Moro vai continuar como o principal adversário de Lula para 2018.

O justo seria ele sair do púlpito e ir para a disputa nas urnas com seu inimigo, de igual para igual.

Afinal, eis o magistrado do cidadão de bem, cujo semblante aparece em estandartes de 10 entre 9 protestos fascistas, aclamado pela direita.

Mas não se trata de justiça e todo brasileiro sabe disso. Daqui em diante, cada pesquisa vai explicitar isso como um filme pornô.


Kiko Nogueira
No DCM
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