1 de jul. de 2017

Especula-se em Brasília que Rocha Loures pode ter feito acordo de delação premiada

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/07/01/especula-se-em-brasilia-que-rocha-loures-pode-ter-feito-acordo-de-delacao-premiada/


Começa a circular em Brasília a informação de que o deputado Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, pode ter sido solto pelo ministro do Supremo Edson Fachin por ter realizado acordo de delação premiada com o MP.

Desde o dia que foi preso, já se especulava acerca desta possibilidade. Já que as provas contra Loures não lhe permitiam defesa.

Este tipo de decisão do Supremo não seria inédita.

Depois de 87 dias em prisão preventiva, o ex-senador Delcidio do Amaral também foi solto pelo então ministro Teori Zavascki que, na ocasião, afirmou que o “quadro fático” seria bem distinto daquele que possibilitou a prisão.

Nada foi dito sobre delação.

Só depois com a reportagem da revista Isto É que este blogue revelou ter sido “vazada” por Aécio Neves é que se soube do acordo com o MP.

Se essa informação vier a se confirmar, Temer não terá como se defender. Loures era seu auxiliar de copa, cozinha, quintal e, como se soube recentemente, também de malas.

Entre outras coisas, a frase de Rodrigo Janot dizendo que vê a soltura de Loures “com tranquilidade, sem nenhum problema” foi um dos fatores que levou muita gente a achar que Loures não saiu de grátis. A conferir.
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Neogarantismo do STF cria saia justa para Moro no caso Lula


A última semana de junho terminou com duas decisões surpreendentes do Supremo Tribunal Federal e sem a sentença que vinha sendo aguardada ansiosamente pela direita brasileira. De um lado, o homem da mala Rodrigo Rocha Loures foi solto pelo ministro Edson Fachin e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) teve seu mandato devolvido pelo ministro Marco Aurélio Mello. De outro, o juiz Sergio Moro fechou a semana sem soltar a sentença sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do "triplex do Guarujá".

Embora os casos não sejam conexos, todos fazem parte da disputa política brasileira. Aécio, flagrado numa negociação de R$ 2 milhões em propinas, foi um dos principais responsáveis pela propagação do discurso de ódio no Brasil e vinha incentivando a condenação ou prisão de Lula. Loures, ex-assessor de Temer, foi filmado com o chamado "batom na cueca", quando corria com uma mala com R$ 500 mil em propinas pelas ruas de São Paulo.

Contra os dois, existem provas devastadoras, segundo aponta editorial da Folha de S. Paulo deste sábado. No entanto, contra o ex-presidente Lula há bem mais convicções do que provas. E as evidências só existem em delações – insuficientes para uma condenação, segundo demonstrou o TRF-4 recentemente no caso Vaccari – extraídas após muita pressão psicológica.

Portanto, por mais que Moro venha a condenar Lula, essa eventual sentença só servirá para reforçar ainda mais a imagem de que, no Brasil, existem pessoas acima da lei – como Aécio e Rocha Loures – e outras abaixo da lei, como Lula. Ou seja: uma condenação, em vez de destruir Lula, deverá fortalecê-lo ainda mais, ao evidenciar a seletividade da Justiça brasileira.

No 247
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Denúncia descreve corrupção de Temer com detalhes constrangedores


O afastamento de Michel Temer é mais complexo que o de Dilma Rousseff. O crime de responsabilidade é julgado pelo Senado. O crime comum, pelo Supremo Tribunal Federal. O que há de coincidência nos dois processos é o juízo prévio de admissibilidade (sempre político) da Câmara dos Deputados.

Se o veredito do Senado não se atém a tecnicalidades conceituais, salvo em matéria de procedimentos, a decisão do Supremo de receber a denúncia contra o presidente da República — depois da autorização de dois terços dos deputados —, que determinaria o afastamento temporário do cargo, é jurídica.

Na Câmara e no Senado, a questão da culpabilidade pode até ser secundária. O governante é afastado por crime de responsabilidade quando a falta de suporte parlamentar é definitiva. Por isso ecoa entre aliados que Dilma (apesar de não faltarem motivos reais para o impeachment) teria sido vítima de golpe.

Na fase inicial Temer tem pressa porque a sua capacidade de resistência se esvai com o passar do tempo. A reprovação do governo já é avassaladora. A economia patina. Os votos de hoje podem migrar.

Se vencer na Câmara, o processo estanca e, por ser crime comum, só prosseguiria em outra instância, depois de encerrado o mandato presidencial. Se for derrotado, estará nas mãos da cúpula do Judiciário, onze juízes togados.

A denúncia da Procuradoria da República contra Michel Temer tem 60 laudas e descreve, com detalhes constrangedores, o crime de corrupção passiva : recebimento da mala com R$ 500 mil por intermédio do corréu Rodrigo Loures e aceitação de promessa de vantagem indevida no montante de R$ 38 milhões, tendo como pano de fundo percentagem de arranjo contratual com a Petrobras, no âmbito do Cade, que beneficiaria empresa do grupo J&F, de Joesley Batista.

Temer terá direito a defesa escrita e oral. Reclamará de perseguição e de delação premiada ardilosa, apontando nulidades e ilações desacompanhadas de evidências materiais.

Os ministros do STF, evidentemente, também estão sujeitos a injunções políticas, mas o território é da jurisprudência. A análise de caso criminal por juristas recai, teoricamente, na viabilidade técnica da peça acusatória, se ela preenche ou não os requisitos legais, se apresenta o mínimo de prova necessário do envolvimento doloso do acusado na trama, enfim, se há justa causa para a ação penal.

Aceita a denúncia, o Supremo inquire testemunhas, aprecia a força das evidências e julga o réu em até 180 dias, ou o presidente afastado retoma o poder.

As peças do tabuleiro se movem. Rodrigo Janot promete sucessivas denúncias contra o presidente, o que tornaria mais aguda a estratégia de desgastá-lo, mas em setembro assume a procuradora-geral Raquel Dodge, depois de sabatinada, é irônico, por senadores investigados — outro estilo, outro ímpeto, outra equipe?

O país vive sob um atípico estado de calamidade, decretado pelo emparedamento presidencial (Dilma e Temer, chapa de charlatões), pela artilharia acusatória voltada contra empresários e políticos de quase todos os matizes ideológicos, pela erosão de valores éticos, pelo descrédito generalizado de pessoas e instituições, pelos efeitos nefastos da recessão. Quem sobreviver verá.


Luís Francisco Carvalho Filho, é advogado criminal. Foi presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos instituída pela Lei 9.140/95.
No fAlha
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Como a Globo manipulou estudo que (não) diz que Globo é confiável


O Jornal Nacional (1) de quinta-feira (29/06/2016) deu destaque para um estudo feito pelo Instituto Reuters – Universidade de Oxford – sobre a “confiança (sic)” do público em relação a mídia e que “o foco (sic) é a confiança do público numa época de notícias falsas, as fake news”. 



Mais uma vez, a Globo contou uma meia-verdade que deixa no ar uma meia-mentira. Para começar, o estudo (anual) é sobre o mercado de notícias. Na introdução do estudo - 136 páginas em formato PDF (2) - publicado este ano, o diretor David Levy diz que o escopo são as preocupações sobre o financiamento do jornalismo no tempo em que as organizações de jornalismo se deparam com as novas plataformas de notícias – e que este estudo trata 'também' das “fake news” (notícias falsas). Assim, é rebaixar demais o sentido e a abrangência do estudo deixando o telespectador entender que ele só faz medir a confiança do público em relação ao veículo X ou Y no contexto da praga das fake news.

A notícia do JN diz também que o “estudo cita o Portal G1 e o jornal O Globo como veículos de informação (sic) que criaram equipes para verificar a veracidade das notícias publicadas na internet”. É curioso como o G1, com sua duvidosa novidade do “É ou não é” (3), tenha entrado em destaque no estudo no “combate às fake news” quando já existem sites que atuam nisso há mais tempo, como “E-farsas” (desde 2002) ou “Boatos.org” (desde 2013) e, claro, a chamada blogosfera que tenta fazer contraponto às mentiras e boatos espalhados pela mídia - como é o caso deste espaço, que costuma desmentir o próprio JN (4). Por ironia, uma matéria (5) da Globo dá dicas para o público saber se uma notícia é “fake”. Uma das dicas (procedentes, aliás) é verificar a ausência de link para fonte de informação. E a página do JN com o estudo (da Reuters – Oxford) não traz o link para o mesmo, de modo que o internauta precisa pesquisar até encontrar não só o site da Reuters Institute, mas também o estudo em si. No hiperlink do JN “Universidade de Oxford”, você é conduzido para... a notícia do JN! Ou seja: ser uma empresa de mídia é ser “A" Verdade, o que isenta o veículo de apresentar as fontes da notícia. É aí que mora o perigo.

Correspondente da Reuters é “da casa”, Globo.

Em tempos de internet, é um perigo o veículo jogar a notícia como se não houvesse amanhã. Se foi estranho um estudo aparentemente sério jogar o Grupo Globo (!) com uma referência elogiosa, a estranheza se desfaz quando pegamos o nome do correspondente da Reuters no Brasil, Rodrigo Carro: é colunista do Valor (leia-se Globo) (6). Assim sendo, com todo respeito ao correspondente, qual o seu grau de isenção para concluir que a mídia no Brasil tem tanta credibilidade se estudos recentes apontam algo bem diferente? (7). A despeito deste detalhe, a melhor definição para o trabalho de Rodrigo Carro pode ser a comparação com o seu colega Alejandro Rost, correspondente na Argentina. Este fez o dever de casa e apontou a grande concentração de mídia, no caso, referente ao Grupo Clarín — o que foi fundamental para a vitória à Presidência de Mauricio Macri, que, ainda segundo o estudo, tenta revogar itens da Ley e Medios, um modelo de democracia, segundo a ONU (8), que visa acabar com o monopólio das telecomunicações. E os gráficos que apontam o domínio do Grupo Clárin tanto na mídia tradicional – TV, rádio e jornal – quanto na plataforma online são similares aos que apontam o Grupo Globo com igual domínio no Brasil. Ou seja: a diferença entre as pesquisas no Brasil e na Argentina é a explicação do fenômeno do monopólio da informação que, no caso brasileiro, está ausente no estudo – mas muito presente na realidade.

Fontes:

1- Jornal Nacional de 29/06/2017 - "Brasil é segundo país com a maior confiança na mídia, diz estudo":


2- Estudo completo do Instituto Reuters - U. Oxford (PDF):


3- É ou Não É - site "anti fake news" do G1 (Globo):


4- Exemplo de quando o Jornal Nacional deu asas às fake news e foi desmentindo neste espaço:


5- "G1 ajuda internautas a checar fatos para não cair em notícias falsas."


6- Rodrigo Carro - LinkedIn:


7- Estadão - 28/10/2016 - "Confiança no Judiciário é de apenas 29% da população" - Confiança nos jornais: 37%; confiança nas emissoras de TV: 33%


8- "Ley de Medios da Argentina -  legislação democrática que deveria servir de modelo para as telecomunicações no mundo" - Frank La Rue, correspondente da ONU dos Direitos Humanos para Liberdade de expressão e de opinião, em pronunciamento na Casa Rosada, sede do governo argentino:

Michel Arbache
No GGN
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Cunha manda, ainda e sempre

A verdade factual diz que um presidiário, como define Renan Calheiros, continua a decidir os destinos do governo Temer

O pior Congresso da história republicana
Não foi por mero acaso que o senador Renan Calheiros, na noite de quarta-feira 28, puxou pesada acusação da garganta e a atirou contra Michel Temer. Despojado da condição de líder governista, à qual tinha renunciado pouco antes, perguntou: “Como continuar com um governo comandado por um presidiário como Eduardo Cunha?”

O que ele falou sobre o governo foi surpresa. Do controle da Câmara por Cunha já se sabia.
Calheiros pisou mais fundo. Valeu-se de outra pergunta: como mudar o pensamento de um governo comandado por Cunha, que, mesmo da prisão, mantém o recebimento de propina?

Há um trecho expressivo dos 40 minutos da gravação feita pelo empresário Joesley Batista com Michel Temer. Ali está claro o poder de Cunha.

Joesley: “Dentro do possível eu fiz o máximo. Ele foi firme... veio e cobrou... eu tô de bem com o Eduardo”.

Temer: “Mantenha isto, viu?”

Ao desempenhar por trás dos bastidores o papel que haveria de caber ao presidente, Cunha não só influencia, manda. Manda igualmente na Câmara dos Deputados. Como se sabe, a ideologia do atual PMDB é a do poder pelo poder. A arquitetura de Niemeyer dá a entender que a Câmara se abre aos interesses populares. Peemedebista, no entanto, só cuida do seu.

Horas depois do discurso veemente feito pelo senador Calheiros, foi protocolada na Câmara a denúncia por corrupção passiva, que lá estava aguardando uma decisão. E é lá que a cobra vai fumar.

A Câmara dos Deputados é denominada “Casa do Povo”. Melhor seria “Casa do Polvo”, caso se considerasse o alcance dos tentáculos perturbadores do processo político.

Antes da deposição de Eduardo Cunha já se falava que sob o comando dele havia cerca de cem deputados. Quase todos eleitos com as verbas liberadas pela JBS. Tudo isso resultaria, ao fim e ao cabo, na eleição de Cunha para a presidência da Câmara.

Emergiu uma bancada de evangélicos ligada a empreiteiras e construtoras, além das risíveis bancadas da Bola e da Bala. Com eles, os parlamentares fabricados por Cunha, é que Michel Temer conta para alcançar os 172 deputados habilitados a mantê-lo na Presidência.

Este Congresso é o pior de todos. O menos representativo da história republicana, intérprete da força do dinheiro da minoria privilegiada. Quem roubou mais? Quem roubou menos? Quem não roubou?

Maurício Dias
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Ex-prefeita tucana de Camboriú é presa pelo Gaeco


A ex-prefeita Luzia Coppi Mathias (PSDB) foi presa na manhã desta sexta-feira (30) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, Gaeco, como desdobramento da Operação Terra Prometida.

Seu advogado, Ruy Samuel Espíndola, de Florianópolis, está se deslocando às pressas para a região e não soube informar detalhes do motivo da prisão.

O ex-vereador, Alexsander Alves Ribeiro, o Canidia, também foi preso.

As prisões são temporárias, por cinco dias.

Estava marcado para esta sexta-feira o depoimento do ex-secretário da Fazenda de Camboriú, Sérgio Venâncio. Ele está preso e um dos advogados que assessoram a sua defesa disse que a disposição é colaborar com as investigações.

Sérgio Venâncio é acusado de corrupção e outros crimes e pode ser a peça-chave para elucidar a participação de vários políticos de Camboriú acusados pelo Gaeco.

Numa das passagens registradas pelo Gaeco surgiu a acusação de que alguém fazia pagamentos mensais de R$ 100 mil ao casal Mathias.

Gaeco investiga espantoso enriquecimento de Luzia e seu marido

No ano de 2008, segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) a ex-prefeita de Camboriú Luzia Coppi Mathias e seu marido João José Mathias não tinham bens e dias atrás quando levada a efeito a Operação Terra Prometida, o patrimônio do casal foi estimado em R$ 84 milhões.

A desconfiança dos investigadores é que a Construtora e Incorporadora Brasileira (CIBEA), pertencente a família, “serve como instrumento para lavagem de dinheiro obtido ilicitamente” por Luzia em seus dois mandatos de prefeita.

O Gaeco aponta alguns argumentos:

— O endereço da CIBEA na Receita Federal é um apartamento, não uma empresa;

— A verdadeira sede da CIBEA é no local onde o marido de Luzia é sócio de outra empresa, a Itapema Box e Alumínio Ltda (IBEA Alumínios).

— Os prédios em construção mostrados no portal de internet da CIBEA são de outra construtora e os que ela realmente está construindo não são divulgados. Essa divulgação do nome da construtora não ocorre sequer no local das obras.

A evolução patrimonial de Luzia e Mathias, segundo o Gaeco, foi a seguinte:



Bens estimados pelo Gaeco em 2017



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Uma voz judaica no centro do movimento de boicote a Israel

Rebecca Vilkomerson (direita) em julho de 2016 com Caroline Hunter, que fez parte do movimento contra o
apartheid na Africa do Sul
Entrevista da diretora do Jewish Voice for Peace Rebecca Vilkomerson

A nova proibição de viajar de Israel, proibindo a entrada de estrangeiros que pedem abertamente um boicote a Israel ou aos assentamentos, evocou uma mistura de pesar pessoal e satisfação profissional para Rebecca Vilkomerson, diretora executiva da Jewish Voice for Peace.

Por um lado, a activista de Brooklyn – que escreveu famosamente o Washington Post-Ed intitulado “Sou judia, e quero que as pessoas boicotem Israel” – diz que se sente “realmente triste. Tenho parentes envelhecendo e pessoas que amo lá, tanto Palestinos como Judeus Israelenses. A idéia de não poder retornar, mesmo para visitar a família – eu vou pelo menos uma vez por ano – é realmente angustiante a nível pessoal “.

Ao mesmo tempo, a notícia da proibição “sentiu como um momento real de realização que Israel está realmente com medo deste movimento e entende que está crescendo”, diz ela. “Tão triste como eu senti, eu também senti como se fosse uma vindicação do [movimento] BDS que cresce em força e poder.”

A organização para a qual Vilkomerson dedicou os últimos oito anos de sua vida não endossa simplesmente boicote, desinvestimento e sanções contra Israel: adota com entusiasmo a tática, trabalhando ativamente para encorajar sua disseminação pelos Estados Unidos em uma série de instituições. Os braços locais da JVP defendem um boicote total de todos os organismos israelenses (comerciais, culturais ou acadêmicos) que contribuem, direta ou indiretamente, para a ocupação e a opressão dos palestinos.

A organização também exige a suspensão da ajuda militar dos EUA a Israel até a ocupação terminar.

Membros JVP na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana, quando a igreja votou por desinvestir de empresas
cúmplices na ocupação em 2012.
Isso a coloca no extremo esquerdo da comunidade judaica americana organizada. Para muitos grupos populares, moderados e até mesmo de esquerda – e certamente para o governo israelense – a JVP está fora do comum, ajudando e instigando aqueles que prejudicariam, ou mesmo eliminariam Israel se fosse possível.

Vilkomerson rejeita fortemente essa visão e a demonização de sua organização. “Nós vemos o BDS como uma ferramenta não violenta extremamente importante para trazer mudanças,” disse para o Haaretz, na véspera da conferência bianual de JVP que ocorreu em 31 março de 2017.

“Na nossa análise, os Estados Unidos desempenha um papel-chave ao permitir que Israel continue as suas políticas de opressão contra o povo palestino e os EUA usam toda a sua força diplomática, económica e militar para permitir que Israel faça isso. É nosso trabalho como judeus americanos mudar essa equação”, ela afirma.

A seu ver, o BDS é o método mais eficaz até agora de efetuar mudanças. E assim, em conjunto com outros grupos pró-palestinos da esquerda, uma série de empresas, governos e universidades são pressionados a cortar os laços com Israel, ou entidades ligadas à opressão palestina, desde fabricantes de equipamentos até companhias de seguros.

“BDS tem sido incrível para nós”, diz Vilkomerson. Para um grupo como o dela, “uma das grandes belezas” das tácticas de boicote e desinvestimento é a maneira pela qual eles despertam sentimentos de participação de base e dão às pessoas o senso de que há algo concreto que podem fazer a nível local.

Protesto no Grand Central Terminal durante a visita de Netanyahu a Trump, em 15 de fevereiro de 2017
Os capítulos locais “podem encontrar os melhores alvos, e executar essas campanhas para mudar as coisas localmente”, diz ela. “Então eles estão conectados a uma rede nacional e global de pessoas que estão fazendo a mesma coisa, e essas campanhas reforçam uma outra.” Sua definição de “melhores alvos” para BDS são aquelas companhias ou entidades com “as histórias que mostram realmente o que a ocupação é,” assim que recai a cada capítulo para “escolher um alvo que os afeta e comove.”

Isso inclui dificultar que acadêmicos afiliados a universidades israelenses participem de conferências, a músicos israelenses e grupos de dança cujos passeios são apoiados pelo estado para mostrar os aspectos positivos de Israel, não importa qual seja a visão política desses indivíduos. “Eu entendo que as pessoas estão experienciando isso como indivíduos e isso é muito doloroso – mas é baseado em instituições”, diz ela.

Desafiando todos os estereótipos

Fluente em hebraico e casada com um israelense com família próxima no Estado Judeu, Vilkomerson desafia qualquer estereótipo da esquerda americana-judaica assimilada, alienada do judaísmo e ignorante da sociedade israelense dominante.

Ela cresceu em uma comunidade judaica conservadora em Princeton, New Jersey. Se algo se destacava sobre sua família judaica, eram seus laços incomumente estreitos com Israel. Sua tia imigrou para Israel nos anos 50 e os avós de Vilkomerson seguiram nos anos 60. Como resultado, Vilkomerson cresceu visitando Israel regularmente e, até hoje, permanece perto de sua tia, tio e primos, alguns dos quais, ela observa, moram na Cisjordânia.

Ela começou a trabalhar como organizadora comunitária na década de 1990 e obteve seu mestrado em política da Johns Hopkins University. Em seus primeiros anos profissionais, porém, ela se concentrou na política doméstica, com algum tempo trabalhando em questões sul-americanas. Ela confessa que, no início, ela “evitou” ativamente casar sua política esquerdista pró-direitos humanos com seu relacionamento com Israel: “Não me senti bem – foi muito difícil”.

Marcha conduzida por JVP-Philly em protesto da proibição de viagem muçulmana 
(Muslim Ban)
Tudo isso mudou com a segunda intifada em 2001. “Acho que há momentos de pico em que jovens judeus começam a pensar nessas coisas. Já ouvi histórias semelhantes de judeus judeus de 22 anos sobre a guerra de Gaza em 2014 “, diz ela.

Foi então que ela girou para o ativismo na frente israelense-palestina. “Eu já tinha um quadro político abrangente em que acreditava. Uma vez que conseguir enfrentar Israel, pude colocá-la nesse quadro”. Ela se juntou à JVP como membro em 2001. Na época, era um pequeno grupo que “se encontrava nas salas de estar das pessoas” na área da Baía de São Francisco, onde vivia e onde conheceu o estudante israelense da Berkeley University que se tornaria seu marido.

Em 2006, eles levaram seus filhos pequenos e se mudaram para Israel por três anos, onde ela melhorou seu hebraico, trabalhou para uma variedade de organizações de direitos humanos e se juntou em protestos e ativismo com grupos como Taayush e Anarquistas Contra o Muro. Em 2009, eles voltaram para os Estados Unidos, se estabeleceram em Brooklyn e ela assumiu o comando da JVP.

Em sua ausência, expandiu-se em uma organização nacional, incorporando outros grupos pequenos em torno do país. Ela se tornou a quarta empregada em tempo integral do grupo, que na época tinha um orçamento de US $ 400.000, diz ela. Cresceu desde então a $ 3.2 milhão, com mais de 70 capítulos regionais e subgrupos múltiplos para estudantes e vários profissionais.

Quando eles realizam sua convenção em Chicago, eles esperam 1.000 participantes (“E há uma lista de espera”, ela aponta). Em contraste, a última conferência, em 2015, atraiu 600.

O evento deste ano fez manchetes devido à sua inclusão de Rasmea Odeh como um dos principais oradores. Odeh, de 69 anos, uma ativista palestina e feminista de Chicago, foi condenada por dois atentados em 1969, mas diz que foi torturada para confessar. Israel libertou Odeh em uma troca de prisioneiros em 1979. Um dia antes de Vilkomerson falar com Haaretz, a notícia quebrou que Odeh concordou em se declarar culpada de acusações de que ela não revelou seu tempo em uma prisão israelense quando ela obteve a cidadania dos EUA e sairá voluntariamente do país. Odeh alegou não ter revelado seu passado por causa do transtorno de estresse pós-traumático.

Em apoio à vítimas de tortura

Vilkomerson disse que apesar das críticas, ela não tem remorsos de haver convidado Odeh, que, de acordo com o que ela sabia ainda iria falar na conferência.

“A maneira que nós a vemos, nós estamos dando boas-vindas a uma mulher que sobreviveu à tortura e à agressão sexual por Israel e fez uma confissão falsa no tribunal militar israelense, e eu penso que deve notar que os tribunais militares [israelenses] têm uma taxa de condenação de 99,7 por cento. A rotulagem dela como alguém que foi condenado por terrorismo permite que a comunidade judaica evite algumas verdades realmente difíceis sobre as formas como Israel trata as pessoas sob seu controle “, diz Vilkomerson. “Rasmea – penso especialmente agora – é um aviso e um lembrete sobre táticas usadas pelos EUA e Israel. [O Presidente Donald] Trump falou sobre querer trazer de volta a tortura … e a tortura que a polícia usou em Chicago contra suspeitos negros está amplamente documentada. Estamos juntos apoiando as vítimas da tortura e contra os torturadores “.

Ela rejeita as acusações de que seu grupo está mostrando, de alguma forma, insensibilidade às vítimas do ataque que Odeh foi condenada por ter participado, convidando – ou negando o pedido do grupo de defesa de Israel StandWithUs de realizar um evento comemorativo para as vítimas do terrorismo israelense conferência. “Em nossa declaração de missão, dizemos que lamentamos a perda de toda a vida e condenamos a violência contra civis. Isso inclui vidas perdidas sob a ocupação, e civis mortos em bombardeios em Jerusalém. Valorizamos toda a vida e somos contra a violência contra civis”, diz ela.

Outra oradora é Linda Sarsour, uma das líderes da Marcha das Mulheres em janeiro. Vilkomerson descreve Sarsour como “apaixonante e encantadora, muito inteligente, comprometida e uma pessoa impressionante”, e que sua recente entrevista em The Nation, que suscitou um diálogo sobre a compatibilidade do sionismo e do feminismo, era “perfeitamente clara e perfeitamente brilhante”.

Linda Sarsour falando no palco durante a Marcha das Mulheres em Washington, 21 de janeiro de 2017
Esse debate, diz ela, ressalta “a potencial desconexão entre ser feminista e entender que as mulheres palestinas são terrivelmente afetadas pelas políticas de Israel. Para mim, é parte de uma conversa mais ampla que está acontecendo na era Trump. Na comunidade judaica, houve uma floração bonita de resistência às políticas de Trump. A proibição de viagem muçulmana levou as pessoas às ruas.

“Mas há uma proibição muçulmana em Israel há décadas. E uma proibição cristã – os cristãos palestinos não podem voltar, tampouco – e as políticas contra os refugiados palestinos “, ela continua. “Então o desafio que eu colocaria para as pessoas é que sejam coerentes com seus valores. Israel não recebe um licença, se você tem certos valores nos EUA, você tem que sustentá-los quando se trata de Israel. “

As queixas de que Israel está sendo injustamente destacado entre os progressistas golpeiam Vilkomerson como uma falácia do espantalho. “Da mesma forma que você veria a África do Sul chamada nos anos 80 e não em outros países da África”, diz ela, “eu acho que diferentes movimentos têm momentos diferentes. … As batalhas são muitas vezes sobre onde está a energia, não tanto sobre o que é mais importante e menos importante para o outro.

A JVP tem um relacionamento tenso com grupos sionistas liberais que se consideram “pró-Israel” e “pró-paz”, mas assumem fortes posições contra o movimento BDS – embora ela acredite que muitos de seus membros são mais simpáticos do que seus líderes. Vilkomerson foi convidado para J Street em 2011, para falar sobre BDS. Ela não foi convidada de volta, embora “o quarto estava lotado”, observa ela.

Nenhuma posição em um ou dois estados

Apoiar BDS não é a única questão que os grupos judiciais esquerdistas têm com a JVP. Seu fracasso em endossar uma solução de dois Estados deixa seu guarda-chuva suficientemente amplo para incluir aqueles que eliminariam completamente o Estado judeu, argumentam os críticos. Também tem sido criticado por sua disposição para se associar e aceitar o apoio de grupos e indivíduos que são vistos como ativamente hostis a Israel e apoiar ações violentas contra o Estado.

Vilkomerson defende o grupo em ambas as acusações: “Nós não tomamos uma posição em um estado contra dois estados. Isso é em grande parte porque nossa missão é mudar a política dos EUA – não ditar em quantos estados judeus e palestinos devem viver. Obviamente, quanto mais assentamentos crescem, mais dois estados parecem improváveis.

“Mais do que isso, eu pessoalmente sinto que a idéia do número de estados como linha divisória entre posturas políticas é a pergunta errada. Enquanto, sim, ainda é teoricamente possível ter dois estados onde as pessoas possam ter direitos plenos, existem modelos de um estado que são apartheid puro e outros modelos de um estado que são nacionalistas seculares. Para mim, não se trata do número de estados; É sobre o que acontece dentro desses estados.”

Em sua declaração de missão oficial, o grupo “busca o fim da ocupação israelense da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental; Segurança e autodeterminação para israelenses e palestinos; Uma solução justa para os refugiados palestinos baseada em princípios estabelecidos no direito internacional “, mas não especifica precisamente como isso deve ser alcançado.

Quanto aos parceiros do BDS e de outras coalizões, ela afirma que a JVP está “contra todas as formas de intolerância, racismo e antissemitismo”. Sem nomear nomes, ela observa que há indivíduos e grupos com os quais sua organização se recusou a se aliar, em razão de seu antissemitismo ou racismo. Enquanto JVP “não está em consonância com todos que trabalhamos, temos um conjunto abrangente de valores e trabalhamos com pessoas que compartilham esses valores.”

Ela diz que foi impressionante ver aqueles na direita que condenaram JVP para fazer causa comum com anti-semitas olhar para o outro lado em elementos no governo Trump simplesmente porque eles dizem que apoiar Israel, quando “há uma abundância de antissemitas que apoiam Israel por suas próprias razões de supremacia branca. … Apoiar Israel não significa que você gosta ou ama os judeus, e o apoio a Israel não é um substituto para dizer que você não é antissemita “.

Quanto aos parceiros da JVP na coalizão BDS, ela diz que todos os grupos formalmente afiliados estão “muito, muito claros colocar limites para anti-semitismo e apoiaram isso com ações concretas”. Além disso, “eles são claros sobre seus princípios sobre quando um Boicote terminaria. Não é um apelo perpétuo contra um Estado judeu porque é judeu. Trata-se de condições específicas de opressão que eles estão tentando acabar. “

Enquanto J Street pode ter um problema com JVP, Vilkomerson diz que o contrário não é verdade. Na era Trump, ela diz, eles concordam em muitas questões, mas discordam fundamentalmente sobre filosofia e táticas.

Ela diz que seu maior problema pessoalmente com a J Street é que “passou muito tempo tentando ser o grupo de esquerda que fala contra o BDS, e usa suas credenciais de esquerda para lutar contra isso. O que eu gostaria de ver do J Street e de outras instituições judaicas à esquerda é neutralidade em relação ao BDS.

“Eu entendo totalmente porque não é a tática certa para algumas pessoas, mas é uma tática não-violenta e é uma tática de pressão, e está funcionando melhor do que qualquer outra coisa funcionou durante as últimas décadas”, acrescenta. “Vamos trabalhar usando nossa abordagem e vocês usam sua abordagem. Ninguém sabe o que vai ser a coisa que funciona. “

Uma coisa que ela sabe: até que os sionistas liberais mudem sua abordagem de minimizar o lado mais sombrio de Israel – ela cita uma coluna recente de Peter Beinart, na qual ele explica por que ele está ensinando seus filhos a amarem Israel primeiro e contar a verdade sobre a ocupação mais tarde – JVP continuará a crescer e atrair jovens membros das fileiras do judaísmo americano liberal, à procura de um tipo diferente de casa judaica política e espiritual.

“Vemos com muitas pessoas entrando em JVP que aquilo que sentem é uma sensação incrível de traição de que lhes mentiram e foi apresentado uma versão ‘Disneyland’ de Israel que não existe. Eles têm que repensar todo o quadro de referência que eles foram ensinados por pessoas que amam e confiam. Eles estão procurando algo que é novo e real que se alinha com seus valores. “

Quanto maior e mais forte esse grupo, ela afirma, menos os incomoda que a grande maioria das organizações judaico-americanas os mantem a uma distância na melhor das hipóteses, e os condenam duramente na pior delas.

Vilkomerson acredita que a posição de sua organização evoluiu ao longo do tempo. Nos primeiros dias, “nós tínhamos mais de uma atitude ‘vamos entrar’, e sentimos que precisávamos quebrar as paredes dentro da comunidade judaica para conseguir isso”. Hoje, ela diz: “Nós crescemos e nos tornamos mais poderosos e mais dinâmicos. Nossa atitude mudou para “Não precisamos das instituições do mundo judaico: estamos construindo uma instituição judaica”.

Allison Kaplan Sommer
Tradução por Iara Haasz
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Primeira mulher indígena governadora no Equador

No Equador assume a primeira mulher indígena – os lutadores equatorianos necessitam tornar os aspectos de Classe cada vez mais visíveis.

Foto: Metro Equador
Em 27 de junho Lenín Moreno, o presidente eleito no Equador, apresentou no Palácio de Carandolet os novos governadores das províncias equatorianas. Entre eles aparece a primeira mulher indígena a se tornar governadora: Paolina Vercoutére Quinche. Filha de pai francês e mãe indígena Paolina, que é da etnia Kichwa, será governadora de Imbabura, uma das províncias mais importantes do norte do País. É uma mulher bastante influente, tendo sido diretora do Ministério de Inclusão Econômica e Social, uma representação respeitável devido a sua trajetória marcada pelo estudo e luta social.

Paolina é a única indígena, mas mais cinco mulheres foram nomeadas.

•    Chimborazo: Margarita Beatriz Guevara Alvarado;

•    El Oro: Rosa Luz López Machuca;

•    Santo Domingo de los Tsáchilas: Mary Nesbith Verduga Cedeño;

•    Sucumbíos: Jessenia Marisela Rojas Solano;

•    Galápagos: Lorena Tapia.

Entre os novos governadores designados por Lenín Moreno cabe ressaltar que alguns foram ex-funcionários do anterior presidente Correa. Percebe-se que ainda com poucos meses no governo, Moreno tenta se aproximar dos laços que foram cortados por Correa, abrindo diálogos com os indígenas, militares e alguns políticos. Também se disponibilizou a dialogar com os prefeitos da oposição em Guayaquil (Jaime Nebot) e Quito (Mauricio Rodas), convidando-os a trabalhar em conjunto. Um convite paradoxal, mas parte da forma de “fazer política” tradicional, da harmonia entre projetos sociais aparentemente distintos. Contudo, é de suma importância sair do debate das frações de classe e falar da formação da população no Equador que espera-se que este homens e mulheres, agora governadoras, se atentem.

No Equador os afro equatorianos autodeclarados compõem 15% da população total do país, por volta de 15 milhões de habitantes (1) . Assim como em outros países da América Latina, a população negra no Equador enfrenta desafios como os altos níveis de pobreza, marginalização e exclusão, tanto que é praticamente impossível saber quantas mulheres e homens negros existem nas Universidades ou em outros espaços de debate.  O movimento mais conhecido e organizado no país é o MONUME  (Movimento de Mulheres Negras da Fronteira Norte de Esmeraldas) (2). Cabe ressaltar que a partir deste movimento das mulheres afro equatorianas do Norte foi realizado um Congresso em 1999 numa tentativa de visibilizar a luta de todas as mulheres negras no Equador, e não apenas daquelas que vivem no Norte de Esmeraldas, apesar de ser este o local onde vive a maioria. A CONAMUNE (3)  possui o intuito de unir as mulheres negras na promoção de direitos e de cidadania. Segundo o censo de 2014 realizado pelo INEC (4), do total de afro equatorianos já mencionados apenas 1% acederam ao Curso Superior em 2010 (8440 equatorianos na Graduação e na Pós Graduação, sendo 458 afro equatorianos).

Das declarações da Coordenação de Mulheres Negras no Equador publicadas em 2008 (5) – apoiadas por movimentos de mulheres afro de várias regiões do país – o que se vê é uma exigência de revisão das políticas de educação formal e do reconhecimento e valorização da educação não formal. Efetivando reparações históricas por meio de políticas públicas (cotas, inclusão da Etno-educação na matriz curricular), ou seja, acesso, regularização, ampliação e permanência da participação destas mulheres em todos os setores da sociedade. Dado este ponto, observa-se que se abre uma luta para que as mulheres negras também estejam no governo. É certo que elas devem estar em todos os espaços, bem como os homens negros e todos aqueles que continuam desvalidos, em suas diversas formas de opressão nesta sociedade, porém isto é insuficiente.

Estes grupos, abandonados, esquecidos, que perdem direitos ou que nunca os tiveram, que perdem terras e que morrem diariamente, formam uma classe e, assim sendo, o formato de fachada democrática da representatividade por meio de frações não garante que o projeto revolucionário avance, ainda que seja a chamada “Revolução do Século XXI”. Uma revolução que nos últimos anos tentou se descolar dos grupos “de abajo”, contradizendo seu próprio projeto inicial.

A questão fundamental deste texto é ressaltar a importância de uma mulher indígena no governo, a primeira, algo histórico. Contudo, não se pode incorrer no erro de absorver apenas sob o espectro da representatividade institucional uma sociedade culturalmente heterogénea. Somos povo, somos classe de trabalhadores, de resistência indígena, de mulheres e homens negros seja qual for a denominação dada aos que não controlam seu destino, temos um laço comum escamoteado pelo capitalismo. Que os levantes populares continuem, para não caminharmos novamente no rumo da institucionalização confusa diante os anseios da população. Basta olhar para os nossos vizinhos para perceber como não bastou ser um operário do ABC no Brasil ou uma mulher ativista no período ditatorial. Estejamos atentos para a forma como a política equatoriana está se consolidando, para que tudo não permaneça no lugar ou se agrave (mais).

Notas

[1]  Segundo Instituto Ecuatoriano de Estadística y Censos. Consultado a 25.06.2016

[2] Site oficial consultado a 25.06.2017 <https://momune.wordpress.com/>

[3] Coordenadora Nacional de Mulheres Negras no Equador.

[4] Instituto Ecuatoriano de Estadística y Censos.


Elaine Santos | IELA
No Desacato
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Sentença de acordo com o freguês? A lei é “erga omnes” ou “erga uns”?


Duas colunas, as de André Singer, na Folha, e a de Merval Pereira, em O Globo, tratam da falta de uniformidade das decisões da Lava Jato e seus arredores, o caso JBS.

Singer, com toda a razão, compara os diferentes procedimentos do STF com Rodrigo Rocha Loures e Delcídio do Amaral, ambos pegos em crimes por gravações (o primeiro de vídeo; o segundo de áudio), pelo mesmo tribunal. Aliás, Loures solto por decisão de Edson Fachin, que  sucedeu Teori Zavascki na função que o fez prender Delcídio:

Compare-se o tempo de estadia, no mesmo cubículo da Polícia Federal, destinado ao então líder do governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral, e, agora, ao assessor de Temer. Preso em novembro de 2015, Amaral ficou detido 85 dias e só saiu porque concordou em fazer delação premiada. A peça extorquida por meio do que hoje a família Loures chama de condições torturantes tinha como centro a afirmação de que Lula e Dilma conheciam o esquema de corrupção na Petrobras.

O vazamento da colaboração “voluntária” de Delcídio virou edição extra da revista “Isto É” no meio da semana, com direito a uma extensa cobertura eletrônica. Dois dias depois o ex-presidente Lula sofria condução coercitiva. No domingo subsequente, veio a gigantesca manifestação de rua, a qual iria selar o destino político de Rousseff.

Ele lembra que a “sacralidade” do mandato parlamentar, invocada para devolver Aécio ao Senado, de nada valeu contra Eduardo Cunha enquanto este dedicava-se ao labor de encaminha o impeachment de Dilma. Mas deixou de valer quando se tratava da cassação do próprio ex-presidente da Câmara, sumariamente afastado do cargo e do mandato.

A desmoralização da Justiça provém, está visto, menos do mérito de suas decisões que do fato de suas decisões estarem sendo “de acordo com o freguês”.

Já Merval Pereira, o jurisconsulto do antipetismo, prega justamente isso em sua coluna em O Globo.

Diz que a absolvição de João Vaccari Neto pelo Tribunal Regional Federal, porque dois dos três desembargadores simplesmente seguiram o que diz a lei – ao fixar que delação não basta como prova condenatória – foi “um caso pontual em que uma divergência na avaliação da prova e da interpretação da lei pesou na revisão da pena”.

“Nada que deva ser superdimensionado, segundo a interpretação que prevalece em Curitiba”, meca do direito seletivo.

Por isso, diz Merval, segue a convicção que, com Lula será diferente: “o quadro de provas é consistente, independentemente de qualquer colaboração”.

Ora, quem acompanhou este processo viu que nada surgiu que materializasse a doação, mas Merval diz que “dono da OAS “deu o apartamento” (mas não explica como deu sem qualquer documento que o indique e cedeu, ao mesmo tempo, o imóvel á Caixa, como garantia de crédito) em troca de “favores prestados, descontando o valor de uma conta-corrente da propina”.

Assim, com esta precisão e certeza que as convicções lhe dão.

Aí está a chave para se compreender o que é, afinal, a tal prática do “Direito Penal do Inimigo”.

Para os amigos, decisões frouxas como roupas folgadas, com toda a liberdade de movimentos.

Para os desafetos, camisa de força, garrote e sufocamento.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Greg News com Gregório Duvivier | Carne


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Fachin descentraliza processos das mãos de Sérgio Moro


O ministro relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, retirou diversas ações das mãos de Sérgio Moro, da Vara Federal do Paraná, e encaminhou a outras Justiças Federais do país. 

O processo que envolve o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi remetido à Justiça Federal paulista. Apesar de ser um desdobramento da Operação Lava Jato, iniciada no Paraná, o inquérito é baseado na delação do empreiteiro Marcelo Odebrecht e não guarda relação com os desvios investigados na estatal brasileira Petrobras, que compete a Moro.

O pedido partiu do próprio ex-ministro, que é acusado de ter solicitado R$ 1 milhão, em nome do Partido dos Trabalhadores, para um repasse a uma editora. Mantega justificou que o seu caso fosse remetido à outra instância. Na análise, Fachin entendeu que não cabe a 13ª Vara Federal de Curitiba os processos que não tem relação com a Petrobras.

"Do cotejo das razões recursais com os depoimentos prestados pelo colaborador não constato, ao menos em cognição inicial, relação dos fatos com a operação de repercussão nacional que tramita perante a Seção Judiciária do Paraná", disse o relator. 

Por isso, encaminhou a um juiz de São Paulo, uma vez que os fatos narrados pela delação da Odebrecht teria ocorrido no estado. "Tratando-se, portanto, de supostos fatos que se passaram na cidade de São Paulo, na qual teriam sido realizadas as negociações, devem as cópias dos termos de depoimento ser remetidas à Seção Judiciária daquela cidade, para adoção das providências cabíveis", completou.

Outro pedido de Mantega era sobre a investigação que tramita também nas mãos de Sérgio Moro sobre irregularidades no fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil (Previ), avisando que já há uma apuração similar pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Fachin permitiu a continuidade da apuração em Curitiba, mas alertou Moro sobre a existência do inquérito na Suprema Corte, para que não haja conflito de investigações.

Na mesma linha, o ministro do STF encaminhou a outro Tribunal um inquérito aberto contra o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também com base nas delações da Odebrecht. A Justiça de São Paulo também investigará Skaf, uma vez que as acusações não guardam conexão com o Paraná e nem com a Petrobras.

O presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht, afirmou que Skaf recebeu R$ 2,5 milhões de caixa dois durante a campanha de 2014, a pedido do presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e o repasse não declarado partiu do Setor de Operações Estruturadas da companhia, denominado pelos investigadores como o "setor de propina".

O ministro vem descentralizando das mãos do magistrado de primeira instância de Curitiba diversos processos envolvendo esquemas de corrupção. Na última semana, Fachin já havia tirado da competência de Moro a investigação contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva relacionada às acusações da Odebrecht, encaminhando à Justiça de São Paulo. 

Outra, ainda, foi remetida à Justiça Federal do Distrito Federal, onde o ministro do Supremo também encaminhou uma outra investigação contra o ex-deputado federal Eduardo Cunha relacionada a empresa de segurança privada Kroll por suposta obstrução à Justiça.

Ainda nesta semana, Edson Fachin determinou que três processos relacionados aos depoimentos da JBS fossem encaminhados à primeira instância: dois casos envolvendo o ex-governador do Mato Grosso, Silval Barbosa, remetidos à Justiça do Mato Grosso, e um terceiro de irregularidades em créditos tributários à Justiça de São Paulo por guardarem relação com a Receita Federal do Estado.

No GGN
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O plano Temer-Gilmar para anular a delação da JBS

Escolhida pelo presidente para PGR, Raquel Dodge será decisiva – e usou “homem da mala” de elo com o Planalto

Fora da agenda, Mendes e Temer se reuniram na noite anterior à nomeação de Dodge
Na luta para escapar da acusação de corrupto e de uma futura condenação à prisão, Michel Temer quer anular a delação do criminoso empresário Joesley Batista. Um de seus planos já está na praça pela voz do amigo Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). E precisa da participação decisiva da pessoa que acaba de escolher como sua investigadora, Raquel Dodge, a qual usou o “homem da mala” como ponte com o Palácio do Planalto.

Mendes (ou melhor, Temer) quer anular o acordo de Batista com a Procuradoria-Geral da República (PGR) caracterizando o empresário e sua JBS-Friboi como líderes de organização criminosa. A Lei da Delação (12.850, de 2013) proíbe que seja dada anistia total a chefes de quadrilha. O acordo de Batista com a PGR é camarada, prevê anistia total, sonho de qualquer delinquente.

Na primeira sessão do julgamento do STF sobre a validade da delação, em 21 de junho, Mendes abriu o jogo sobre a tese jurídica capaz de salvar Temer. Citou a fortuna doada pela JBS na eleição de 2014 (450 milhões de reais, a mais de 2 mil candidatos, segundo Mendes) e seguida comentou: “E não é líder de organização?”.

O plano foi captado pelo ministro Luis Roberto Barroso, que na segunda sessão do julgamento, em 22 de junho, disparou: “Todo mundo sabe o que se quer fazer aqui lá na frente”. Tradução: anular o acordo futuramente.

Na quarta e definitiva sessão, nesta quinta-feira 29, o procurador-geral, Rodrigo Janot, tratou do assunto, em posição defensiva. Segundo o “xerife”, se em algum processo “ficar demonstrado que eles (os Batista e a JBS) eram líderes de organização criminosa, isso é cláusula contratual de revisão e de rescisão do contrato” e daí eles vão perder “todos os benefícios da colaboração”.

O entendimento de quem é chefe de quadrilha no escândalo Temer-Friboi dependerá futuramente da sucessora de Janot, Raquel Dodge. Que acaba de ser escolhida para o cargo de PGR pelo presidente denunciado como corrupto. Uma situação absurda, dizia o ex-PGR Claudio Fonteles logo após o estouro do escândalo JBS-Friboi.

“Temer não tem legitimidade alguma para nomear o procurador-geral”, teorizava Fonteles. “Está sendo investigado, então como é que uma pessoa nessa condição vai escolher o chefe da instituição? Não tem condições morais para isso.”

Quando o mandato de Janot acabar, em setembro, caberá a Dodge conduzir as investigações contra Temer, esteja o presidente no cargo ou não. Pode ser que até lá o peemedebista tenha saído, caso os deputados autorizem o STF a processá-lo, e depois a corte o converta em réu. Nesta hipótese, Temer seria afastado por até 180 dias, à espera de uma sentença.

Raquel Dodge namorou a Presidência, enquanto sonhava em chegar ao topo da carreira abraçada há 30 anos. Um de seus elos com Temer foi Rodrigo Rocha Loures, o “homem da mala”. CartaCapital apurou que há informações tanto em Brasília, entre os sete concorrentes de Raquel na eleição à lista tríplice de candidatos a PGR, quanto no Paraná, terra do “maleiro”, a respeito de contatos da dupla.

Loures trabalhou de 2011 a 2017 como assessor direto de Temer no Palácio do Planalto, com apenas dois intervalos. O primeiro foi na eleição de 2014, época em que deixou Brasília para concorrer a uma vaga de deputado federal pelo Paraná. O outro, de março a maio de 2017, quando exerceu mandato na Câmara na qualidade de suplente.

Na denúncia por corrupção apresentada por Janot contra Temer e Loures, o “homem da mala” é descrito como “da mais estrita confiança presidencial”. Foi assim que o próprio mandatário caracterizou Loures perante Joesley Batista, na conversa tida por ambos no Palácio do Jaburu.

Além do contato com o “maleiro”, Raquel Dodge foi ao Planalto para reuniões noturnas e secretas, conforme CartaCapital apurou. E ao gabinete de Gilmar Mendes, conselheiro e advogado informal do presidente. Temer e Mendes jantaram na casa do juiz no dia da eleição à lista tríplice, na terça-feira 27. O anúncio do pinçado pelo peemedebista para a PGR saiu no dia seguinte.

André Barrocal
No CartaCapital
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Programa Pensamento Crítico: A Colômbia e as lutas sociais


Programa de análise da conjuntura brasileira e latino-americana, produzido pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos, com a participação de Elaine Tavares, Waldir Rampinelli, Natália Pérez Torres. Nesta edição discutindo a Colômbia e as lutas sociais.


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