8 de jun de 2017

Operação da polícia em Furnas joga luz sobre esquema de Aécio no setor elétrico

Polícia Civil do RJ cumpre mandados na sede de Furnas
A Polícia Civil do Rio de Janeiro e São Paulo fez uma grande operação em busca de provas de corrupção em Furnas, mas ainda não se tem notícia de que essa força tarefa chegou a Minas Gerais, onde está vivo e em plena atividade um dos tentáculos desse esquema.

Dimas Toledo, que fez fortuna dirigindo a estatal, é sócio da Tabocas Participações e Empreendimentos S.A., conforme se pode verificar no site da Receita Federal.

A Tabocas foi criada em 1999, no mesmo ano em que Djalma de Morais assumiu a presidência da Cemig, cargo que manteve durante todo o governo de Aécio Neves e de Antônio Anastasia.

Quando saiu da Cemig, Djalma de Morais assumiu da Tabocas, uma das empresas contratadas pela própria Cemig para obras de infraestrutura no setor elétrico do Estado.

Morais já era sócio da empresa quando, na condição da presidente da Cemig, contratava a Tabocas para prestar serviços ao Estado.

No Diário Oficial do Estado de Minas Gerais, estão publicadas atas em que a presidente do Conselho de Administração da Cemig, Dorothea Werneck, indagava aos conselheiros se havia ali situação de conflito de interesse.

Djalma de Morais, sócio da Tabocas, sempre permaneceu em silêncio, embora tivesse interesse nos dois lados do balcão.

Djalma de Morais era ligado a Itamar Franco. Tanto que foi seu ministro das Comunicações e chegou à Cemig no governo de Itamar. Mas se tornou homem de confiança de Aécio Neves.

No governo dele, Djalma chegou a desviar a linha de transmissão que passava sobre a fazenda da família Neves, em Cláudio, apenas para que não passasse sobre a propriedade, onde Aécio criava (cria) cavalos de raça.

Essa obra, desnecessária do ponto de vista técnico e que beneficiou exclusivamente o então governador, deixou a cidade de Cláudio sem luz durante um dia inteiro.

Dimas Toledo é ligado tanto a Djalma Morais, de quem é sócio na Tabocas, quanto a Aécio Neves, a quem, segundo o doleiro Alberto Yousseff, pagava propina para se manter na diretoria de Furnas.

Dimas também atuou dos dois lados do balcão. Como diretor de Furnas, contratava a Tabocas, empresa da qual aparece hoje como sócio.



Haras na fazenda de Aécio, onde a rede da CEMIG foi desviada



Quando deixou Furnas, no primeiro governo de Lula, assumiu o conselho de administração da Tobocas.

A Tabocas tem hoje contratos em todo o Brasil e um de seus principais clientes é o governo federal, para quem faz obras gigantescas, como a Usina Belo Monte.

Seja com contratos em Furnas, Eletrobras ou na Cemig, o elo político da Tabocas é Aécio Neves.

Além de Dimas Toledo e de Djalma de Morais, a Tabocas tem oficialmente como sócios: Caio Marcio Barbosa Barra, Flavio Barbosa da Silva Resende, Newton Jose Leme Duarte e Guilherme Pereira da Silva Barra.

Para enfrentar a corrupção no setor elétrico brasileiro, a polícia deve investigar a Tabocas. Isso pode provocar um curto-circuito político e resultar num novo choque no presidente nacional do PSDB (licenciado) Aécio Neves.

É em Minas Gerais e não apenas no esquema de Eduardo Cunha que está a chave geral do sistema de corrupção que correu o setor elétrico brasileiro.


Na Tabocas, os homens do esquema político de Aécio

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Xadrez da indústria da leniência e do compliance


Cena 1 – o procurador que mudou de lado

Marcelo Miller era procurador de ponta no Ministério Público Federal. Bem formado, com visão liberal da economia, conhecimento do mundo dos negócios e das offshores, conduziu a Operação Norbert que, atrás de um casal de doleiros no Rio de Janeiro, acabou identificando contas da família Neves em Liechtenstein.

Indicado Procurador Geral, um dos primeiros atos de Rodrigo Janot foi trazer Miller para sua assessoria pessoal, envolvendo-o também nas investigações da Lava Jato.

Causou surpresa a notícia de que, no início de março, largou o MPF por um contrato de advogado na Trench Rossi Watanabe, um dos maiores escritórios de advocacia do país, representante do influente escritório nova-iorquino Baker McKenzie.

O escritório defende a SAAB-Scania, alvo de uma operação do MPF conduzida pelo próprio Miller, visando apurar as circunstâncias da licitação FX da FAB. Apesar de ter sido conduzida de forma transparente, a licitação caiu nas garras do MPF e transformou uma denúncia vazia em um contrato de bom valor para a Trech Rossi Watanabe.

Vamos entender um pouco melhor esse jogo e como a indústria da leniência se transformou no negócio do momento para os escritórios de advocacia.

Cena 2 – a indústria dos acordos de leniência

As práticas jurídicas, acordos de leniência, acordos de delação, estimularam uma disputa feroz entre escritórios de advocacia e empresas de auditoria em todo mundo.

É uma indústria em franca expansão, na qual as estratégias consistem em se aproximar de órgãos públicos, cooptar procuradores, advogados com influência nos órgãos de controle, empresas de auditoria, atuando muitas vezes nas três pontas: nas empresas acusadas de corrupção, nas empresas vítimas da corrupção e nos governos nacionais.

É um mundo pouco conhecido, mas que mereceria um holofote em cima, para ser melhor entendido. E o caminho é analisar alguns episódios recentes envolvendo o mais influente dos escritórios do gênero, o Baker McKenzie.

Cena 3 – o acordo de leniência da Embraer

Confira-se o que ocorreu com a Embraer.

Em outubro de 2016, a Embraer assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público Federal. Era a finalização de um caso envolvendo corrupção em diversos países.

Nos Estados Unidos, a Embraer pagou mais de US$ 200 milhões de multa. No Brasil, a multa foi bem menor. Os termos do acordo geraram desconforto no MPF.

O procurador do caso era Marcelo Miller. O escritório que representava a Embraer, a Trench Rossi Watanabe; o escritório para os EUA, o Baker McKenzie.

Aqui (https://goo.gl/z8TFVb) as referências a Miller, no Brasil, e à Baker McKenzie nos Estados Unidos.

Cena 4 – o acordo de delação da JBS

A JBS decide fazer um acordo de delação com a Procuradoria Geral da República (PGR). Seu escritório é o mesmo Trench Rossi e Watanabe.

Desde fins de 2016, a JBS vinha se preparando para uma delação-bomba, que lhe permitisse arrancar um grande acordo de delação com a Procuradoria Geral da República brasileira, ao mesmo tempo em que negociava um acordo de leniência com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Um dia antes das gravações de Joesley Batista, da JBS, no presidente Michel Temer, o procurador pede afastamento do Ministério Público Federal e vai trabalhar na Trench Rossi e Watanabe.

Aqui, a forma de saída de Miller e a maneira como convenceu Janot a aceitar a delação (https://goo.gl/ubAHLX).

Miller foi contratado com salário de R$ 30 mil mensais mais bônus anual garantido de U$ 450 mil. Pouco aparece no escritório Trench Rossi Watanabe. O escritório saiu do acordo de leniência, mas continua trabalhando para a JBS em casos bastante lucrativos. O referral fee (o pagamento recebido pela indicação do cliente) do contrato é de Miller.

Nos EUA, a JBS conseguiu um acordo de leniência com o Departamento de Justiça sendo representada pela... Baker McKenzie, é claro (https://goo.gl/BiHVh4).

O procurador geral da Divisão do Ministério Público Norte Americano responsável pelo caso JBS é Trevor McFadden (https://goo.gl/jDWDBK). Onde Trevor trabalhava antes de assumir essa função? Até janeiro de 2017, na Baker McKenzie (https://goo.gl/kII9lv).

Cena 5 – as investigações na Petrobras

Odebrecht e Braskem são grandes clientes da Trench Rossi Watanabe e da Baker McKenzie. Essas informações foram omitidas da Petrobras, quando contratado para conduzir as investigações internas na empresa.

É um custo bastante alto, também omitido do site da empresa, provavelmente bem maior do que os valores recuperados pela Lava Jato.

A mesma Baker McKenzie foi contratada pela Braskem para celebrar a leniência nos Estados Unidos (https://goo.gl/vwEf7t).

Já em 2014, a Trench Rossi Watanabe foi contratada para investigações internas na Petros, o fundo de pensão da Petrobras. Nada encontrou sobre a JBS. Quem a assessorou foi a empresa de auditoria EY, autora de relatório controverso sobre a Eldorado Celulose, no qual não identificou nenhuma irregularidade (https://goo.gl/xiGvSv). Posteriormente, na delação o próprio Joesley admitiu as irregularidades (https://goo.gl/9H7afW).

Um de seus advogados era Dalton Miranda, ex-conselheiro do CARF (https://goo.gl/eUwKZI), denunciado em fevereiro de 2017 na Operação Zelotes (https://goo.gl/bifJKb). A sócia administrativa da Trench Rossi Watanabe é Simone Musa, que também contratou Marcos Neder, advogado bastante influente e controvertido que, a exemplo de Miller, passou a advogar para empresas investigadas por ele (https://goo.gl/FIId7).

Conclusão

Puxa-se uma pena, vem a galinha toda, já dizia o preclaro Ministro Gilmar Mendes.

Os dados acima são as penas e algumas partes da galinha. Indo mais a fundo, é capaz de aparecer o galinheiro completo.

Luís Nassif
No GGN
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O texto do Haddad e o fator Serra

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/06/07/o-texto-haddad-e-o-fator-serra/


Quase tudo já foi dito sobre o texto que o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, publicou na revista Piauí, mas que foi lido por dezenas de milhares por conta da força das redes digitais. Como acontece nesses casos de textos que “bombam” teve para todos os gostos.

Gente que achou grande e vai esperar virar filme, gente que achou simplesmente sensacional, gente que considerou ter faltado auto-crítica, gente que o tratou como um depoimento histórico. E assim por diante.

É do jogo que um artigo tecido por um importante ator político com capacidade de análise para além do óbvio produza reações diversas e entusiasmadas.

Mas, no balanço de perdas e ganhos, Haddad passou com louvor pelo seu primeiro teste público pós-eleitoral. Conseguiu colocar vários assuntos para serem debatidos. E o fez de forma civilizatória. Sem acusações ou caneladas. Algo cada vez mais comum.

Mas não são os pontos defendidos aqui e ali por ele que me levam a escrever este artigo. É o fator Serra. Quase nada tinha sido dito até o momento sobre a participação de Serra no golpe contra Dilma. E Haddad teve o grande mérito de levantar essa poeira.

O trecho em que ele traz o assunto à tona é este:

Ao longo do ano de 2015, Serra trabalhou intensamente pela causa. Seu papel no impeachment foi subestimado. O ex-governador tucano aproximou-se muito de Michel Temer e lhe garantiu apoio. Era Serra quem telefonava para os governadores, sobretudo do Nordeste, e depois de uma conversa política passava a ligação a Temer, que a concluía com a senha “Precisamos unir o Brasil”. A articulação de Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal com Hélio Bicudo, autores do pedido de impeachment contra Dilma, teve participação direta de Serra.

Pois bem, isso me fez lembrar de uma conversa que tive com um sociólogo que tinha (e ainda tem) muitos colegas tucanos. Uns seis meses antes do impeachment, sentado ali naquele balcão do bar Estadão, este amigo me disse.

– Tô preocupado, conversei ontem longamente com um tucano muito bem informado que me garantiu que o Serra está na coordenação do impeachment.

Eu, do alto da arrogância de quem achava ele carta fora do baralho, disse:

– Se for assim, Dilma governará até o final do mandato.

Mas durante o papo este amigo foi contando os bastidores da operação. Serra estaria articulando isso de forma direta com congressistas democratas e republicanos e teria o jogo combinado com Temer. No enredo de Serra, Dilma cairia, Temer assumiria e o parlamentarismo seria implantado na sequência, com ele se tornando o primeiro ministro.

Este amigo naquela época já confirmava o que Haddad revela no seu texto. Que o senador tucano estava conversando com vários atores para convencê-los de que era melhor derrubar Dilma o quanto antes. E que em suas andanças pelo país só tratava disso.

Ontem, conversando com outra fonte fiquei sabendo que Marta foi convencida a ir para o PMDB muito mais por Serra do que por Temer. Foi ele quem fez a ponte com o partido, imaginando que Alckmin (como fez) imporia o seu candidato a prefeito.

Do alto de seu pendor pelo sucesso Marta teria, inclusive, confidenciado isso a Chalita. A ex-prefeita disse a ele que Dilma sofreria impeachment  e ele (se fosse bonzinho) se tornaria ministro da Educação. Porque Temer seria presidente. E ela prefeita.

Serra a havia convencido disso.

O papel de Serra no golpe contra Dilma, sua indicação para o ministério das Relações Exteriores e sua saída de lá ainda são situações muito nebulosas e que precisam ser estudadas. Com Serra, nada acontece por acaso. Ele é o quadro mais preparado do tucanato, depois de FHC. Só não chegou mais longe, porque sua arrogância é maior que o preparo.
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Chefe militar de Médici pedia propina; qual a diferença hoje?


Um dos principais chefes militares do governo Médici pedia propina a empresários americanos. Com mediação da Fiesp ou por meio de extorsão, ele costurava os laços entre a embaixada americana, a iniciativa privada e o porão. É o que revela um documento secreto recém-aberto ao público.

Se nossa podridão é de longa data, qual a diferença entre o esquema dos homens de farda e a mala de Rocha Loures, o infame assessor presidencial?

Há duas alternativas.

Uma delas é a tese das máfias enquistadas: organizações criminosas teriam ocupado o Estado brasileiro há tempos. Unidos por laços de amizade e parentesco, esses grupos teriam conseguido sobreviver à troca de regime e de governos. Sem importar as circunstâncias, a corrupção passaria incólume.

Segundo essa concepção, a Lava Jato não conseguirá sanar o problema. Ela pode causar alguma marola, mas dificilmente quebrará o cartel das máfias que hoje mantém a sociedade brasileira rendida. Ao fim do dia, a operação não passará de uma nota de rodapé nos livros de história.

A outra resposta é mais sofisticada. Ela diz que a corrupção endêmica não é apenas um mecanismo para enriquecer os membros das organizações criminosas vinculadas ao Estado. Antes, a corrupção cumpriria uma função mais precisa: a geração de rendas necessária para dar sustentação política a quem governa.

Assim, à época da ditadura, quem ocupava o Palácio do Planalto precisava garantir a adesão dos principais chefes militares do país, além dos caciques civis de plantão. Como? Liberando verbas para suas comarcas, empregando aliados, promovendo familiares, criando novas oportunidades de negócio para amigos e fazendo vista grossa às propinas de grandes grupos empresariais.

Na Nova República o jogo mudou. Agora, a sobrevivência de quem ocupa o Palácio do Planalto depende de mais atores, pois a sociedade vota. Nesse sistema, o presidente depende, acima de tudo, da fidelidade dos partidos da base aliada. É deles –não da popularidade– que seu destino depende.

No "presidencialismo de coalizão", esse jogo é caro. Para garantir o apoio de deputados e senadores aliados, o governo precisa ajudá-los a garantir a própria reeleição. Mas como nossas eleições estão entre as mais caras do mundo, não basta o Planalto liberar emenda parlamentar a rodo. Precisa também nomear gente da base aliada para as empresas estatais, boquinha infalível, nas quais licitações polpudas abrem o fluxo de caixa de JBS, Odebrecht e tantas outras.

Esse é o mecanismo que a Lava Jato expôs. Sozinha, ela não resolverá o drama nacional. Ao diagnosticá-lo, entretanto, abre uma rara possibilidade histórica de superação.

Matias Spektor
No fAlha
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Aécio Neves, o playboy cafajeste e provinciano que acabou com o Brasil para 'encher o saco do PT'


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‘O Edgar que trabalha para o presidente’

Executivo da J&F filmou e gravou no dia 28 de abril conversa com o ex-deputado Rocha Loures, ex-assessor especial de Temer preso na Papuda, acertando entrega de R$ 500 mil em espécie por meio de um suposto aliado 'do chefe'


Quando já havia acertado sua delação premiada com o Ministério Público Federal, o executivo Ricardo Saud, da J&F, filmou e gravou, no dia 28 de abril deste ano, encontros nos quais acertou e repassou a Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), a mala dos R$ 500 mil, em um restaurante, em São Paulo. Hesitante em pegar o dinheiro naquela ocasião, o peemedebista chegou a sugerir um tal ‘Edgar’ para buscar os valores, já que ‘todos os outros caminhos estavam congestionados’.



Nesta semana, a Polícia Federal encurralou Temer com 82 perguntas sobre as suspeitas que o circundam no âmbito da Patmos. Uma delas questionava o presidente sobre quem seria ‘Edgar’. O presidente ainda não respondeu o interrogatório da PF.




Loures foi flagrado, em ação controlada da Polícia Federal, correndo com a mala dos R$ 500 mil – 10 mil notas de R$ 50 – na porta de uma pizzaria, em São Paulo.

Gravações mostram que ele tentou outras possibilidades para buscar o dinheiro com o executivo da J&F Ricardo Saud.

“Eu vou verificar com o Edgar se ele… tem duas opções, ou o Edgar, ou seu xará”, afirmou Loures a Saud, em gravação.

Em outro áudio, Loures ainda afirma que vai ‘pedir para o Edgar’ para avaliar a maneira com a qual o repasse pode ser feito.

“Vou pedir para o Edgar primeiro consultar com ele e ver se o procedimento pra ele. O nome dele é Edgar. Eu vou perguntar para o Edgar, Ele fica em São Paulo e ele que faz a gerência”, afirma.

Uma das alternativas sugeridas por Loures foi a emissão de notas fiscais, mas, no áudio, Ricardo Saud diz preferir o uso do interposto, já que a utilização de empresas poderia deixar rastros do repasse.

“O negócio está bom. Semana que vem, tem um milhão e meio. Podemos fazer a nota, mas quanto ia dar de imposto? 300 paus. Ou então, pra mim Se esse Edgar for um cara confiável, o melhor jeito sabe qual é? Ele vai lá no estacionamento. Já foi lá, né?”, afirmou.

O estacionamento mencionado por Saud faz parte da escola Germinare, projeto social bancado pelo Grupo JBS desde 2009. No mesmo lugar, a irmã do doleiro Lúcio Funaro foi filmada pela Polícia Federal pegando R$ 400 mil do porta malas de um carro deixado lá pelo executivo da J&F.

Na conversa, Saud ainda questiona se o interposto é ‘o Edgar que trabalha para o presidente’. “Bom, se é da confiança do chefe, não tem problema nenhum”.

“Você não conhece e ele também não te conhece”, respondeu Loures a Saud.

Apesar das indicações, o então deputado federal acabou combinando, no mesmo dia, de pegar a mala de propinas em uma pizzaria indicada por ele, em São Paulo na rua Pamplona. Saud também filmou o diálogo, em um estacionamento.

O valor seria entregue semanalmente pela JBS ao peemedebista, em benefício de Temer, como foi informado, nas gravações, pelo diretor de Relações Institucionais da holding.

“Eu já tenho 500 mil. E dessa semana tem mais 500. Então você te um milhão aí. Isso é toda semana. Vê com ele [Michel Temer]”, afirmou Saud a Loures.

O homem da mala é acusado de exercer influência sobre o preço do gás fornecido pela Petrobrás à termelétrica EPE – o valor da propina, supostamente ’em benefício de Temer’, como relataram executivos da JBS, é correspondente a 5% do lucro que o grupo teria com a manobra.

Com a palavra, Temer

A reportagem procurou o presidente Michel Temer, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço está aberto para manifestação.

Com a palavra, a defesa de Rocha Loures

O advogado Cezar Bitencourt afirmou que, por enquanto, não se manifestará sobre o mérito das investigações e informou a reportagem de que pediu acesso ao material colhido pela Polícia Federal, mas ainda não o obteve. “Devo ter acesso nesta quinta-feira”, afirmou.

Luiz Vassallo e Julia Affonso
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Ministro do TSE citado pela JBS dará o voto decisivo que irá salvar Temer


Ainda está bem no começo, no entanto, dá para dizer que o voto do ministro Napoleão Maia tende a ser decisivo no julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Na primeira sessão, ontem, houve um ambiente positivo para o presidente Michel Temer.

É esperado um voto duro do relator do processo, o ministro Herman Benjamin, a favor da cassação da chapa Dilma-Temer. A depender da dureza desse voto e dos argumentos apresentados, o desfecho do julgamento poderá ser desfavorável a Temer.

No entanto, se levarmos em conta os apartes e as sinalizações dadas ontem, não deve ser descartada uma decisão favorável ao presidente.

O ministro Napoleão Maia terá peso decisivo. Se ele der um voto contrário a Herman Benjamin, poderá abrir uma dissidência e pavimentar um caminho para absolver a chapa.

As defesas de Dilma e Temer pedem a retirada de depoimentos de delatores da Odebrecht e do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura. Afirmam que não havia alusão a tais fatos no pedido inicial da ação e que esses depoimentos não poderiam ser considerados como provas.

A decisão do pleno do TSE será importante. Se houver um posicionamento no sentido de descartar algumas partes do processo, sob o entendimento de que não poderiam ser examinadas, cresce a chance de absolvição da chapa. Se as provas forem aceitas como válidas, aumenta a possibilidade de cassação de Dilma e Temer.

Mesmo assim, será importante prestar atenção ao voto do ministro Napoleão Maia, que pode viabilizar uma vitória apertada dos defensores de Dilma e Temer. Mas é difícil ser categórico neste momento, porque cada cabeça é uma sentença, como diz o dito popular.

Fôlego

A decisão do ministro Edson Fachin de conceder prazo até sexta para Temer responder ao questionário da PF (Polícia Federal) tira um pouco a pressão política sobre julgamento no TSE, apesar da dureza das perguntas ao presidente, que o colocam na defensiva.

Para Fachin, a decisão funciona como resposta às acusações da defesa de Temer de que ele age com parcialidade. Do ponto de vista jurídico, faz sentido dar um prazo maior ao presidente para responder às questões.

O inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) é uma batalha diferente do TSE, mas também bastante dura para o presidente. Até o fim da próxima semana, é provável que haja uma denúncia do procurador-geral da República contra Temer, que já mobiliza seus aliados no Congresso para tentar barrar a autorização para que o STF a examine e dê prosseguimento ao processo. Serão duas semanas tensas para a política brasileira.

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TRF-4 suspende julgamento de Vaccari com voto por absolvição e pedido de vista

Pela primeira vez um desembargador reconhece que houve condenação com base exclusiva em delação, o que não está na lei, diz advogado Luiz Flávio D'Urso, sobre voto no tribunal sediado em Porto Alegre

Após suspensão do julgamento do recurso de João Vaccari Neto, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), por pedido de vista do desembargador federal Victor Laus, nesta terça-feira (6), a defesa do ex-tesoureiro do PT está confiante na sua absolvição e vê elementos significativos na atual fase do caso, na corte sediada em Porto Alegre. “O importante e até simbólico nesse momento é que, pela primeira vez, um tribunal superior, ou pelo menos um desembargador, reconhece que houve condenação sem nenhuma prova, com base exclusiva em palavra de delator, o que não é possível pela lei brasileira”, diz o advogado de Vaccari, Luiz Flávio D'Urso. Vaccari encontra-se em prisão temporária em Curitiba desde 15 de abril de 2015.

O voto do revisor do processo no TRF-4, Leandro Paulsen, foi pela absolvição de Vaccari por falta de provas. "Nenhuma sentença condenatória será proferida apenas com base nas declarações de agente colaborador. O fato é que a vinculação de Vaccari não encontra elementos de corroboração. É muito provável que ele tinha conhecimento, mas tenho que decidir com o que está nos autos e não vi elementos suficientes para condenação", disse o magistrado.

O voto pela absolvição foi divergente do proferido pelo desembargador João Pedro Gebran Neto, que acolheu pedido do Ministério Público, aumentando a pena de Vaccari de 15 para 18 anos. Diante da divergência, o desembargador Victor Laus pediu vista. O processo deve voltar a julgamento até o final de junho, segundo o tribunal.

Para D’Urso, as delações terem se tornado válidas como prova e condenação não é uma interpretação generalizada, mas restrita à 13ª Vara Federal de Curitiba. “Penso que ainda é cedo para dizer isso (que a tese virou regra), uma vez que tem acontecido na vara do juiz Sergio Moro. Ele tem proferido condenações com base em delação. Agora é que os tribunais de recursos começam a examinar essa matéria. Um desembargador do TRF-4 a decidir assim, com isenção e técnica, é um alento para que isso que aconteceu não se torne uma realidade permanente.”

O advogado afirma que sua expectativa é de que, ao ser retomado, o julgamento seja jurídico e técnico. “Se assim for, acredito na absolvição do Vaccari. O que considero importante é que efetivamente no caso do Vaccari não há prova nenhuma que confirme as palavras do delator”, diz D’Urso. “Embora Moro tenha condenado severamente, o tribunal que está revendo teve um olhar isento e técnico, como deve ser. Isso é muito positivo no sentido de trazer o processo penal para os eixos da legislação brasileira, independentemente de preferência, emoção ou partidarismo.”

O julgamento do recurso de Vaccari no TRF-4 é o mesmo do qual consta o ex-diretor de serviços da Petrobras Renato de Souza Duque, os empresários Adir Assad e Sônia Mariza Branco, e o economista Dario Teixeira Alves Júnior, todos condenados por Moro.

Em novembro, Vaccari já havia sido absolvido pela juíza Cristina Ribeiro Balbone Costa, da 5ª Vara Criminal de São Paulo, em ação penal relativa à sua gestão como presidente da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop).

Eduardo Moretti
NO RBA
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O que quer a Rede Globo?


A delação dos donos da JBS precipitou o declínio do governo Temer. Poucos na bolsa de apostas de Brasília acreditam na possibilidade de mantê-lo até 2018, apesar dos esforços desesperados de salvação. Temer perdeu as condições políticas para governar o País. Pesam contra ele não apenas denúncias, mas provas, vistas e escutadas amplamente.

O peemedebista aposta na tática de arrastar a crise, ao rechaçar a opção de renúncia e criar um falso ambiente de normalidade. Não tem outra saída. Mesmo se decidir renunciar, não poderá fazê-lo sem a busca de um acordo que salve seu pescoço. Caso contrário, corre o risco de sair do Palácio do Planalto direto para a prisão, dado que perderia o foro especial.

Convenhamos, não há surpresa no conteúdo da denúncia. Que o governo Temer depende do silêncio de Eduardo Cunha até mesmo a crédula Velhinha de Taubaté desconfiava. Que Cunha não daria o silêncio em troca de nada é quase uma obviedade. Portanto, embora gravíssimos, os fatos não geraram perplexidade nacional.

O que surpreendeu foi a postura da Rede Globo no episódio, partindo para o ataque decidido e rápido contra Temer, exigindo sua queda. Essa guinada criou uma divisão na mídia e no campo que apoiou o golpe. Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo não seguiram a toada dos Marinho e relativizaram o teor das denúncias.

É preciso compreender o que está em jogo na decisão política da Globo neste momento e em sua aliança com setores do Ministério Público. Existem hipóteses.

Há quem sugira que a Globo e os setores político-econômicos que ela vocaliza tenham chegado a uma avaliação de que Temer não conseguiria entregar as reformas. Improvável, pois o governo caminhava para aprovar a reforma trabalhista no Senado e, possivelmente, a da Previdência na Câmara, após algumas concessões e um jogo pesado de compra de apoio.

Outra possibilidade na mesa é o fator Lula. Sua força eleitoral cresceu muito nos últimos meses, em paralelo à perda de apoio social de Temer. O interrogatório de Curitiba, que visava constrangê-lo, teve efeito inverso. Lula saiu fortalecido de lá, ampliando a visão geral de falta de provas para condená-lo. Sergio Moro e a Globo, nesse sentido, ficaram num impasse. Agora, com o nível de repercussão das acusações contra Temer e, em especial, contra Aécio Neves, cria-se um clima mais favorável à condenação e, quiçá, à prisão de Lula. É evidente que enfraquecem a percepção de seletividade e perseguição política contra ele. E, como confessou um delegado da Lava Jato, o que vale é o timing.

Esse fator, embora relevante, não explica por si só que a aliança Globo/Ministério Público derrube o governo Temer e coloque em risco a aprovação das reformas. Creio ser possível supor uma aposta mais estratégica, pensando na hegemonia política de longo prazo.

O sistema político da Nova República está em ruínas. Crivado por denúncias, desmoralizado, esse modelo perdeu a capacidade de levar à coesão a sociedade brasileira. Perdeu hegemonia, embora ainda represente o poder de fato. Cabe uma analogia com a crise da ditadura sob o comando do general João Figueiredo. A ditadura ainda tinha o comando, mas havia perdido completamente a capacidade de criar maioria social. Em situações como essa, sempre há o risco de soluções por baixo, expressas na revolta popular contra um regime sem representatividade. A casa-grande tem verdadeiro pavor de alternativas como esta e, historicamente, antecipou-se para construir acordos de transição seguros e conservadores.

Foi assim no fim da ditadura, pode ser assim agora. Não é de hoje que a Globo aposta na narrativa do Judiciário como salvador nacional. Criaram heróis do combate à corrupção, que podem representar a opção a um sistema que perdeu a credibilidade. Uma forma de “limpar” o Estado brasileiro, manter a agenda dominante e recobrar a hegemonia social pode ser com protagonismo do Judiciário. Não por acaso constrói-se a figura de Cármen Lúcia como possível saída em caso de eleições indiretas. Seria uma nova Operação Golbery, com juízes e procuradores à frente.

Embora somente uma hipótese, é preciso muita atenção em relação aos interesses dessa coalizão. Se a crise da Nova República for canalizada nessa direção, isso pode significar o fechamento democrático, com institucionalização de medidas de exceção aplicadas. Não se deve descartar inclusive que se apropriem da bandeira de uma nova Constituinte.

De todo modo, a desconfiança ante os interesses dessa coalizão não pode legitimar o envolvimento de setores da esquerda em arranjos de salvação. Nem para a manutenção de Temer, tampouco por eleições indiretas. Quaisquer que sejam os nomes, devem ser prontamente rechaçados pela ilegitimidade do processo.

A única saída possível é engrossar o caldo pela saída de Temer e por eleições diretas, construindo uma frente ampla e fortalecendo as mobilizações populares. A rua é o melhor desinfetante contra soluções antidemocráticas.

Guilherme Boulos
No Blog do Miro
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O elo entre a Lista de Furnas e o mensalão tucano

O diretor de Engenharia, Planejamento e Construção de Furnas, Dimas Toledo, que a lista revela como o mentor do esquema de corrupção
Esta matéria está sendo republicada. Ela faz parte de um projeto de crowdfunding do DCM. 

No ano de 2001, ao emergir do subterrâneo da política, Nilton Antônio Monteiro entregou ao Ministério Público e a um deputado do Espírito Santo documentos que revelavam o envolvimento da mineradora Samarco no pagamento de propina a autoridades do estado, à época governado pelo tucano José Ignácio Ferreira. Alguns meses depois, alguns políticos estavam presos e secretários foram demitidos.

Em 2005, Nilton Monteiro entregou a políticos do PT e à Polícia Federal recibos de depósitos, procurações e uma lista com nomes de políticos mineiros que receberam em 1998 dinheiro desviado do governo de Eduardo Azeredo através do publicitário Marcos Valério, no esquema que ficou conhecido como Mensalão de Minas Gerais.

Demorou dez anos para sair a primeira condenação no caso do Mensalão de Minas Gerais. O ex-governador Eduardo Azeredo foi condenado a 20 anos e 10 meses de prisão. Foi uma decisão de primeira instância, ainda sujeita a recursos, mas na sentença chama a atenção o número de vezes em que Nilton Monteiro é citado: 66 vezes, numa sentença que tem 125 páginas.

Nilton Monteiro é também o autor da denúncia da Lista de Furnas e a pergunta que sobressai da leitura do texto que condena Azeredo é: se Nilton Monteiro acertou quando denunciou o esquema de propina no Espírito Santo e teve suas revelações confirmadas pela sentença do Mensalão de Minas Gerais, por que a Procuradoria Geral da República ainda não investigou os políticos que integram a Lista de Furnas?

No início da semana passada, eu fiz esta pergunta à assessoria de imprensa da Procuradoria Geral da República, em Brasília, que me pediu para formalizar o questionamento via e-mail. Foi o que fiz, e até agora não recebi resposta.

Também procurei a assessoria do senador Aécio Neves, em razão do protagonismo dele na Lista de Furnas, seja por indicar pessoas que deveriam receber recursos, inclusive sua irmã, Andrea, seja por ser apontado como padrinho político do diretor de Engenharia, Planejamento e Construção de Furnas, Dimas Toledo, que a lista revela como o mentor do esquema de corrupção.

“Não posso. Tem pressão do Aécio, tem pressão do Aécio”, teria dito em 2004 o então ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, quando o deputado delator do Mensalão de Brasília Roberto Jéfferson, presidente do PTB, cobrou a indicação de um apadrinhado seu para o posto de Dimas Toledo. A assessoria prometeu enviar uma nota do senador, que é presidente do PSDB, ou me colocar em contato com ele, mas não fez nem uma coisa nem outra.

Lendo a sentença da juíza que condenou Azeredo, Marisa Pinheiro Costa Lage, o que se vê é o esforço da defesa do ex-presidente Azeredo em desqualificar o denunciante Nilton Monteiro. O próprio Azeredo, ao ser interrogado no ano de 2011, diz:

“É inacreditável que uma figura dessas seja levada em consideração. Quando eu vejo, aí, fatos novos que acontecem no dia a dia, hoje, eu me lembro muito disso. Eu estou vendo aí, hoje mesmo, nesses episódios de hoje, uma coisa parecida: falsificação de assinatura, cartório, coisa parecida com o que aconteceu comigo”, disse Azeredo.

Os “episódios de hoje” a que Eduardo Azeredo se refere são os desdobramentos da denúncia da Lista de Furnas. Naquele ano, a imprensa repercutia a investigação da Polícia Civil de Minas Gerais, estado à época governado pelo aliado de Aécio Neves, Antônio Anastasia, que apontou Nilton Monteiro como chefe de uma quadrilha de falsários.

A juíza que condenou Azeredo cita também o trecho de um depoimento prestado no Senado por Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha de Azeredo. A então senadora Ideli Salvatti pergunta se Mourão ameaçou Nilton com a expressão “vou te pegar, acabar com a sua vida e vou te arrebentar.” Mourão responde: “Pode ter sido. Já passou a raiva. Falei com ele na hora, mas o que ele merece é isso.”

A sentença menciona ainda o episódio em que um carro de Nilton foi incendiado, fato já revelado nesta série de reportagens. Ao falar sobre Nilton Monteiro, a juíza lembra que não existem condenações contra ele e, ainda que houvesse, “qualquer pessoa pode ser testemunha, dando-se ao seu depoimento o valor devido, devendo ser consideradas suas declarações desde que sejam corroboradas pelas demais provas dos autos.”

E, no caso das denúncias de Nilton Monteiro, provas não faltaram.  “É necessário que seja dada credibilidade às declarações de Nilton Monteiro, haja vista que diversas de suas afirmações foram confirmadas pelas testemunhas, como Marcos Valério, que o recebeu em seu escritório, para tratar de assuntos relacionados à campanha tucana em Minas Gerais.”, escreveu a juíza.

A magistrada lembra também que Nilton Monteiro apresentou documentos, como a procuração que Cláudio Mourão entregou a ele, para cobrar dívida de campanha junto a Azeredo e recibos de depósitos, além de anotações de Walfrido dos Mares Guia, vice-governador de Azeredo, com o “resumo da movimentação financeira ocorrido no ano de 1998”.

Tudo confirmado por perícia ou pelo próprio autor das anotações. Denise Landim, amiga de Cláudio Mourão, deu um depoimento que revela a proximidade de Nilton Monteiro com o grupo de políticos tucanos. Ele esteve em sua casa, levado por Cláudio Mourão, para tratar do investimento em uma ilha de Cabo Frio, Rio de Janeiro.

Na semana passada, eu fui para Bauru, no interior do Estado, para levantar informações sobre uma das empresas que se destacam na Lista de Furnas como doadora de recursos de caixa 2 para os políticos. Para testar a credibilidade de Nilton Monteiro, tirei foto da casa onde o dono da Bauruense, Airton Daré, morou, uma mansão que ocupa um quarteirão inteiro, e enviei por mensagem a Nilton Monteiro.

Você conhece esta casa? Perguntei. “É a casa do Daré, em Bauru.” Você já esteve aqui? “Muitas vezes” Fazendo o quê? “Pegando malas de dinheiro, para entregar a políticos que o Dimas indicava.” Por conta própria, Nilton acrescentou: “E eu viajei muito no avião dele, com um pau mandado do Daré, o Carlos Braga, que era genro dele”.

Airton Daré, fundador da Bauruense

Airton Daré, fundador da Bauruense
O genro e o avião faziam parte das minhas anotações, citados em entrevistas que fiz com pessoas que conviveram com Daré, mas eu não havia comentado nada com Nilton Monteiro. Daré morreu no dia 19 de junho de 2011, mas a empresa que fundou continua ativa e muitos dos diretores que o auxiliaram nos negócios da empresa continuam no mercado. Alguns até dão entrevista, sob a condição de anonimato.

Comecei a levantar informações sobre a Bauruense depois que o doleiro Alberto Youssef contou, em delação premiada na Operação Lava Jato, que a empresa repassava mensalmente propina a dois deputados federais, José Janene, do PP, para quem ele trabalhava, e Aécio Neves, do PSDB, ambos da base de sustentação política do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Youssef diz que o dono da Bauruense repassava pelo menos 100 mil dólares por mês (390 mil reais pelo câmbio atual) a Janene e uma quantia não especificada para Aécio Neves. O vídeo com o trecho dessa delação foi vazado e se encontra disponível na internet.

Nesse vídeo, Janene, de camiseta cinza de mangas curtas, demonstra muita tranquilidade e, com as mãos sempre cruzadas, pressionando e afastando os dedos, conta como soube do envolvimento de Aécio no esquema.

O dono da Bauruense, ao discutir valores de propina com José Janene, na presença de Youssef, dizia que não podia aumentar a quantia porque “ainda tem a parte do PSDB”. Youssef era o operador de Janene e o procurador pergunta quem era o operador do PSDB.

“Sei por ouvir dizer que era a irmã do Aécio”, afirma. No vídeo, ouve-se o procurador dizer que tinha uma foto de Andrea Neves e fazer menção de mostrá-la a Youssef, que diz não poder reconhecer. “Estamos falando de coisa de vinte anos atrás”, diz. O procurador insiste se ele teve contato com Andrea, e Youssef diz: “Não.”

O que Youssef demonstra não ter dúvida era sobre a divisão da diretoria de Furnas: “Ele (Janene) dividia essa diretoria com o então deputado Aécio Neves”. O procurador pergunta se a propina entregue à irmã de Aécio era em espécie, assim como para ele: “Acredito que sim”.

Dinheiro em espécie existia na casa de Airton Daré. “O Daré era um homem muito discreto e muito inteligente”, conta Nilton. Ele esteve na casa de Daré em Bauru, levado de avião particular, para recolher mala. Diz que foi lá em nome do Dimas Toledo, então diretor de Construção, Engenharia e Planejamento de Furnas.

No mesmo endereço, à rua José Salmen, número 28 da quadra 4 (os números em Bauru são diferentes, contados por quadra) os vizinhos se recordam de que, em 2006, entraram policiais federais, para uma operação de busca e apreensão.

“Os homens estavam armados e com colete preto, com Polícia Federal escrito”, recorda um vizinho. “Igual a essas cenas que a gente na televisão”, acrescenta. Só que, ao contrário dos tempos da Operação lava Jato, a apreensão na casa de Daré não passou na televisão. Os policiais estiveram nesta casa, na sede da empresa e no apartamento do dono da Bauruense, no condomínio Mônaco, na Vila Universitária.

Os policiais encontraram no apartamento mais de 1 milhão de reais em espécie e cerca de 350 mil dólares, também em espécie. Em sua defesa, Daré disse que era dinheiro para pagar funcionários de suas fazendas, mas não conseguiu provar o saque das contas.

Entre 2000 e 2005, a Bauruense recebeu cerca de meio bilhão de reais por serviços prestados a Furnas. A Corregedoria Geral da União, criada em 2003, investigou os contratos da Bauruense e, segundo a procuradora da república Andréia Bayão, encontrou indícios da existência dos crimes de corrupção passiva, peculato e de fraude a licitação, “antecedentes aos de lavagem de dinheiro”.

Entre os fatos suspeitos citados, está o superfaturamento de preços, o pagamento por reajustes e vantagens que caberiam exclusivamente à empresa e até a contratação pela Bauruense de um irmão do funcionário responsável pelas licitações da estatal.

A procuradora diz ter encontrado nos relatórios da CGU e também do Tribunal de Contas da União “evidências de que Furnas estava inserida dentro de um esquema criminoso voltado para obtenção de vantagens ilegais em benefício de funcionários públicos e políticos”.

Daré é apontado pela procuradora Andrea Bayão como beneficiário do “esquema criminoso” e, para sustentar a acusação, a procuradora solicitou à Receita Federal um estudo sobre a evolução patrimonial dele, a partir da quebra do sigilo fiscal. Em 2002, Daré declarou bens e direitos no valor aproximado de 35 milhões de reais. Em 2006, seu patrimônio declarado era de R$ 58 milhões.

“Sua evolução patrimonial ou é superior aos seus rendimentos ou fica no limite dos seus rendimentos, o que lhe impediria de fazer quaisquer outros gastos com moradia, lazer, consumo”, escreveu a procuradora na denúncia à Justiça, em que pede a condenação de onze pessoas, entre elas o diretor de Furnas Dimas Toledo e o empresário Daré.

Daré e Dimas Toledo são dois lados da mesma moeda, cada um de um lado do balcão, mas unidos por negócios em estatais, que só a corrupção política pode proporcionar. Dimas começou a trabalhar em Furnas no ano de 1968, logo depois de se formar em Engenharia pela Faculdade de Itajubá, Minas Gerais, o mesmo ano em que Daré fundou a Baruense, para prestar serviços em Ilha Solteira, inaugurando um longo e duradouro relacionamento com a estatal paulista de energia CESP.

Daré também era formado em Engenharia pela Universidade de Londrina, só que no ramo florestal, o que lhe permitiu fazer negócios de reflorestamento no Estado do Mato Grosso antes de entrar no setor de energia.

Segundo o inquérito da Polícia Federal, Dimas, quando ausente, era chamado de Gordo pelos empresários que prestavam serviços em Furnas. Daré também tinha muitos quilos além do peso ideal. Ambos investiram em imóveis. Dimas é dono de uma fazenda na Serra da Bocaina, Minas Gerais, seu Estado Natal, e comprou muitos imóveis em Resende, no interior do Rio de Janeiro.

Segundo pessoas que trabalharam com ele em Bauru, Daré adquiriu mais de 150 imóveis urbanos e comprou algumas fazendas, entre elas uma às margens do rio Tietê, onde criou uma espécie de clube de campo para seus mais de mil funcionários. No local, todo fim de ano, realizava uma grande festa de confraternização.

“Ninguém saía sem presente da festa”, conta um ex-diretor do grupo. E eram presentes caros, de televisores a carros. Mas a forma como ele realizava o sorteio revela como conduzia seus negócios. “Os ganhadores dos carros eram escolhidos antes. Todos os nomes estavam no saco, menos aqueles que ganhariam os carros. Estes estavam na mão do próprio Daré. Ele colocava a mão no saco, mexia, mas não pegava nenhum papel. Ele já estava com ele na mão”, diz.

Ninguém percebia e, se percebesse, havia motivos para não ligar. Daré era um homem de hábitos simples e generoso, não só com empregados. Quando o genro, Carlos Braga, quis ser deputado estadual, em 1998, pelo PP de Paulo Maluf, Daré bancou a campanha, ao custo de quase 70 reais o voto.

Era conhecido o patrocínio que dava às campanhas do vereador Paulo Madureira, embora não tivesse negócios significativos com a administração pública do município. Não que ele não quisesse. Chegou a comprar 28 caçambas, na expectativa de assumir a coleta de lixo na cidade, mas teve que destinar a frota a outro município onde já prestava o serviço, Campinas.

Apaixonado por esporte desde seu tempo de pessoa simples em Pederneiras, onde nasceu e ajudava o futebol amador, bancava o time do Parquinho, de Bauru, e financiava uma escola de samba.

Um dos aviões da Bauruense, um jatinho Citation

Tentou fazer do filho, que também se chama Airton, uma estrela da Fórmula Indy, mas Darezinho não chegou a obter grandes resultados, embora patrocínio não lhe faltasse, inclusive um do Banestado, o banco público do Paraná, que protagonizou na época das privatizações de Fernando Henrique Cardoso um dos maiores escândalos de evasão de divisas do Brasil.

Os vizinhos de sua casa da rua José Salmen, Jardim Estoril, lembram que ele dava grandes festas, inclusive uma com a dupla sertaneja César e Paulinho. Perto desta casa, ele comprou na planta quatro apartamentos de um andar inteiro, no edifício Marselha, o metro quadrado mais caro de Bauru. Lá moram seu filho, o Darezinho, e a ex-mulher Cláudia. A Bauruense tem cinco aviões, sendo um deles o jato Citation.

Na década de 90, comprou uma rádio Auri Verde, de Bauru. Mas a emissora foi parar em suas mãos por caminhos, digamos assim, tortuosos. O prefeito de Bauru era Antonio Tidei de Lima, e a rádio Auri Verde, AM de grande audiência nas classes populares, o apoiava. Mas ainda não pertencia a Daré.

Em troca do apoio, conseguiu dinheiro da prefeitura para reformar todo o prédio. Um locutor lembra que, para driblar a restrição da lei eleitoral, a rádio noticia que haveria evento em determinado lugar. No encerramento do boletim, o locutor informava: “Tidei a dica.”

O relacionamento entre Tidei de Lima e o dono da rádio, azedou e as verbas deixaram de ir para a rádio, que ameaçou fazer oposição. Para evitar desgaste político e a perda de popularidade, o prefeito telefonou para amigos no Palácio dos Bandeirantes, onde o chefe era Luiz Antônio Fleury Filho, também do PMDB.

Tidei pediu ajuda, a solução encontrada foi propor a Daré comprar a rádio. “Uma pessoa ligada ao governador ligou para o Daré e disse que ele deveria comprar a rádio”, conta. Daré teria dito: “Mas eu não entendo nada de rádio e por que vou gastar dinheiro comprando a rádio?” O governo viabilizou a compra, autorizando Daré a interromper o pagamento de propinas a três autoridades do Estado, incluindo um dirigente da CESP.

Na rádio, era proibido dizer o nome de Daré. Quando Daré bateu um carro, a caminho do aeroporto, a rádio ignorou o fato, e funcionários da Bauruense pressionaram os jornais a não dar a notícia. A informação foi publicada no Jornal da Cidade, o maior de Bauru, mas sem nenhum destaque, como queria Daré.

Quando ele morreu, em 2011, um executivo da empresa telefonou e disse que não era para noticiar a morte. A ordem não foi acatada, em razão da relevância da notícia. “Todo mundo em Bauru sabia que ele era o dono da rádio. Como é que não íamos dar?”

No aspecto pessoal, assumia ser mulherengo. Certa vez, na companhia do genro em um avião, telefonou para um amigo e disse que queria vê-lo em seu escritório, em Bauru.

O amigo foi até lá e ele o recebeu na companhia de uma mulher muito bonita e bem mais nova do que ele. Daré pediu que o amigo aguardasse na antessala. Pouco depois, ele voltou, sozinho, com uma revista Playboy na mão, e mostrou a capa, dizendo, baixinho: “É ela”. O amigo viu que a mulher que lhe fora apresentada minutos antes era a mesma da capa da revista.

As pessoas com quem conversei fazem relatos com detalhes, como do dia em que um deles foi até o Café Photo, conhecido prostíbulo de luso em São Paulo, para entregar a um intermediário mala de dinheiro. “Parecia filme do 007”, afirma.

A orgia de malas e contratos fraudulentos que uniu a Bauruense de Daré a Furnas de Dimas Toledo, sob a proteção de um esquema político, é muito bem contada na investigação da Procuradoria da República no Rio e confirmada sem muita dificuldade com o levantamento de informações em Bauru. Mas esta é uma pequena parte da história.

Eu procurei a Bauruense e fui orientado a enviar as perguntar por e-mail ao diretor jurídico, Rinaldo. Foi o que fiz, na terça-feira, dia 22 de dezembro e até agora não recebi resposta.

Além da Bauruense, há outras empresas envolvidas no esquema de Furnas e uma penca de consultorias de fachada que celebravam contratos milionários com os prestadores de serviços da estatal apenas com o objetivo de desviar dinheiro para as malas da corrupção.

O ex-superintendente administrativo da Toshiba do Brasil, José Antonio Csapo Talavera, contou à Polícia Federal que a multinacional utilizava “notas frias, retratando serviços de consultorias inexistentes por empresas de fachada com a finalidade de esquentar recursos não declarados pela Toshiba ao Fisco.”

Talavera ouviu de um colega da Toshiba, Dieickson Barbosa, superintendente técnico comercial, que a usina termelétrica que a Toshiba construiria para Furnas em 2001, em um contrato obtido sem licitação, já trazia embutido em seu preço o valor da propina que seria paga a políticos que controlavam Furnas.

Detalhe importante: contratos como estes foram assinados sem licitação em razão de uma medida provisória editada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que alegava o risco de apagão para acelerar a contratação de empresas, sem a necessidade de concorrência pública.

Com o depoimento recente de Alberto Youssef, envolvendo Aécio Neves no esquema de corrupção de Furnas, a Polícia Federal consultou o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, para saber se não seria o caso de abrir inquérito.

O procurador, única autoridade com poderes para investigar um senador da República, entendeu que não era o caso, em razão da dificuldade de levar adiante a apuração, já que o deputado José Janene e o dono da Bauruense estão mortos.

Minha apuração em Bauru, com a localização de testemunhas que conheceram os negócios de Daré por dentro, e a simples leitura da denúncia da procuradora Andrea Bayão, com os nomes e os fatos que levam à conclusão de que houve um grande esquema de corrupção em Furnas, mostram que compor este quebra-cabeças não é uma tarefa difícil. A primeira prova já está pronta. É a Lista de Furnas, com a assinatura autêntica de Dimas Toledo, o Gordo.

O lobista Nilton Monteiro, autor da denúncia da Lista de Furnas

O lobista Nilton Monteiro, autor da denúncia da Lista de Furnas



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Furnas: operação cumpre mandado de condução coercitiva contra Dimas Toledo

Ação é baseada na delação de Delcídio, que disse que Dimas teria “vínculo muito forte” com Aécio

Policiais civis cumprem nesta quinta-feira (8) 33 mandados de busca e apreensão para investigar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro na empresa de energia Furnas, subsidiária da estatal Eletrobras. A operação, chamada de Barão Gatuno, tem como base a delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral, durante as investigações da Operação Lava Jato.

Há ainda dois mandados de condução coercitiva. Um deles é contra contra o ex-diretor Dimas Fernando Toledo.

Os mandados de busca e apreensão foram expedidos pela Justiça estadual e estão sendo cumpridos pela Delegacia Fazendária, responsável pela investigação do esquema, com o apoio de 15 delegacias, da Coordenadoria de Combate à Corrupção do Laboratório de Tecnologia e Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil do Rio e da Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Em delação premiada, Delcídio do Amaral afirmou que o hoje senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) foi beneficiário de um "grande esquema de corrupção" na estatal Furnas.

Esse esquema, segundo Delcício, era operacionalizado por Dimas Toledo, ex-diretor de engenharia de Furnas, e que teria “vínculo muito forte” com Aécio. O responsável por intermediar e viabilizar a operação teria sido o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

"Questionado ao depoente quem teria recebido valores de Furnas, o depoente diz se que não sabe precisar, mas sabe que Dimas operacionalizava pagamentos e um dos beneficiários dos valores ilícitos sem dúvida foi Aécio Neves, assim como também o PP, através de José Janene; que também o próprio PT recebeu valores", diz o texto da delação premiada.

Segundo interlocutores, um esportista teria frequentado também Furnas para se encontrar com Dimas Toledo. O assunto não seria sobre academias de ginástica, embora este fosse a especialidade deste esportista.

No JB
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Xadrez da incógnita militar e do pós-Temer


Peça 1 – Michel Temer, presidente que mente

Michel Temer mente tão desbragadamente, que transforma em pecado capital até mentiras desnecessárias.

Para pegá-lo em mentiras, não há necessidade de engenho, nem de arte. Basta apontar uma suspeita, esperar o desmentido e apresentar a prova ou testemunho.

Confira no que ele transformou um episódio de carona em jatinho:

1. Informa-se que ele e família viajaram para Comandatuba no jatinho da JBS, quando já era vice-presidente. Uma falta média.

2. O Palácio nega qualquer viagem. Sustenta que a única viagem na época foi em avião da FAB. Apresentado o plano de vôo da aeronave, volta atrás. Foi a primeira mentira.

3. Admite, então, que voou, mas sem saber o nome do dono do avião. Além de mentiroso, revela-se tolo.

4. Em sua delação, Joesley Batista contou que Marcela Temer foi recebida com flores despertando ciúmes em Temer. Para aplacar a ira de Otelo, o comandante informou que foi presente da mãe de Joesley. Temer telefonou então para a matriarca para agradecer. Passou por duplamente mentiroso e duplamente tolo.

Peça 2 – os tsunamis pela frente

Tudo isso acontece antes da delação de Rodrigo Loures Júnior, do doleiro Lúcio Funaro e provavelmente de Eduardo Cunha, antes de se saber mais detalhes das delações não divulgadas da JBS e antes do STF (Supremo Tribunal Federal) julgar a nomeação de Moreira Franco e, derrubando-a, se tornar mais um candidato à Papuda. Sem contar a delação de Antonio Pallocci, que poderá provocar um furacão no sistema financeiro.

Quem aposta que Michel Temer ficará até o fim do interinato? Ninguém. Sua frase altissonante - "só se me matarem" - é ridícula. Basta mostrar que é desonesto e que mente.

O governo tem reagido com um festival de factoides. Ontem, mesmo, fontes do Palácio acionaram seus jornalistas para espalhar que Rodrigo Janot tinha pedido autorização para colocar escuta ambiental no Palácio. O factoide não durou uma hora. Passou por dois repórteres oficialescos e se perdeu nas brumas da fantasia.

É questão de tempo para o Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot denunciar Michel Temer. Aí a bola passa para o Congresso, que precisa autorizar por 2/3.

Parte do Congresso foi comprada pela camarilha de Temer. São deputados montados em aparelhamento de cargos públicos, em negócios com leis, à luz do dia, e com a cabeça a prêmio se perderem o poder.

Como será resolvido o impasse? O STF (Supremo Tribunal Federal) vai enfrentar? O Congresso vai reagir?

Peça 3 – as vozes dos quartéis

Vive-se um quadro de ampla desordem institucional, um tiroteio sem fim entre o Executivo, Congresso, Ministério Público, Supremo, Tribunal Superior Eleitoral, acirrado pela reforma trabalhista e da Previdência. Externamente, uma indignação popular que se alastra, que já resultou em uma greve geral, resultará em outra.

A grande incógnita é como o único poder silencioso – o militar – se manifestará.

No comando das Forças Armadas se tem um militar legalista, o general Eduardo Villas Boas. No Gabinete de Segurança Institucional outro nem tanto, o general Sérgio Etchegoyen.

As discussões políticas internas, que se consegue acompanhar em alguns sites especializados, mostram dois temas bastante sensíveis à corporação: a corrupção e os resquícios da guerra fria.


Recentemente, foi divulgada a reunião do Comandante do Exército com representantes de alas político-militares, os generais da reserva Alberto Cardoso, ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Augusto Heleno, que sempre defendeu protagonismo maior das Forças Armadas, Bolívar Goellner, ligado a Etchegoyen e o general de divisão Rocha Paiva, teórico militar.

Os conceitos de "guerra híbrida” já foram assimilados pelos estrategistas militares. Sabe-se que há movimentos internacionais que, através de redes sociais, provocam burburinhos populares, as chamadas primaveras, e que por trás há posições nitidamente antinacionais, interessadas no pré-sal, na derrocada das empresas brasileiras, na venda das terras a estrangeiros.

Os diagnósticos divergem quanto às motivações.

Parte dos analistas entende se tratar de movimentos conduzidos por grandes corporações e governos estrangeiros ligados ao grande capital. Parte vê traços da influência russa e dos chamados países bolivarianos.

Em uma dessas análises, o observador juntava os quebra-paus em Brasília com as denúncias aos organismos internacionais de direitos humanos e a supostas ofensivas diplomáticas de vizinhos bolivarianos. Dizia que 24 de maio marcou oficialmente o início da guerra híbrida.

Nota-se que ao pouco conhecimento que o mundo externo tem da corporação militar, corresponde o pouco conhecimento da corporação sobre o mundo externo.

De todo modo, é esse tipo de sentimento que explica a ideia fixa do ex-chanceler José Serra e de seu alter ego Aloysio Nunes Ferreira, de insistir na guerra diplomática com a Venezuela.

Não se trata meramente de condenar o governo venezuelano, mas de conduzir uma cruzada, transformar em tema único da diplomacia brasileira. Em parte, se explica pela absoluta carência de conhecimento e de projeto diplomático. Mas, seguramente, o que mais pesa é a tentativa de se aproximar de segmentos militares anti-bolivarianistas.

Ao estimular a Lava Jato, foram devorados pelas investigações. Mas a síndrome do escorpião não os abandona.

Ainda há carência de informações para um diagnóstico mais preciso sobre os rumos dos ventos na caserna. Mas, como em política não existe o vácuo, não custa prestar atenção.

Luís Nassif
No GGN
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Após 13 anos de sucesso, “Farmácia Popular” é extinta por Temer

Programa criado por Lula já atendeu 43 milhões de brasileiros. Governo golpista de Michel Temer anunciou o fechamento das farmácias até o fim do ano


Nesta quarta-feira (7) completaram-se 13 anos que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou um dos programas mais bem avaliados e queridos dos brasileiros: o “Farmácia Popular”. Pela primeira vez, a população teve acesso a 125 medicamentos oferecidos gratuitamente ou com desconto de 90% nos preços em uma rede própria de farmácias.

Dois anos depois de lançar o programa, Lula expandiu e criou o “Aqui Tem Farmácia Popular”, disponibilizando medicamentos também em redes privadas conveniadas. Nesses 13 anos, 43 milhões de brasileiros foram beneficiados.

Esse seria um dia para comemorar não fosse o fato do governo golpista de Michel Temer ter “presenteado” a população com o anúncio do fechamento de todas as farmácias da rede até o final deste ano. Desde janeiro, foram fechadas 111 das 533 unidades, segundo informou o Ministro da Saúde em entrevista coletiva concedida nesta terça-feira (6).

Ana Flávia Gussen
No Bem Blogado
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Temer precisa responder mais perguntas além das 82 já feitas pela PF

Michel Temer nem entregou as respostas às 82 perguntas da Polícia Federal e novas indagações já precisam ser juntadas à listinha.

Com elas não faz sua estreia no setor aéreo, é um retorno merecido pela contribuição à desordem moral do governo.

A começar pelo episódio mais recente, depara-se com Temer em São Paulo, noite da última sexta-feira, para conversar com Geraldo Alckmin. O noticiário avisara da visita para pedir a permanência do PSDB no governo.

Sem dúvida, foi mais do que isso. Um negócio: Alckmin conteria a ruptura, defendida por parte da bancada paulista, e em troca já teria assegurado o apoio do governo na eleição presidencial de 2018. Temer propunha pagar com o futuro que não tem.

A volta a Brasília se dá na mesma noite. Se dormiu, muito cedo Temer foi acordado pelo aviso de que Rodrigo Loures, o seu auxiliar "de toda confiança" e da mala com R$ 500 mil, era preso naquele momento, ainda seis e pouco. Temer não dirá se foi esse fato ou uma súbita lembrança, um raio de memória no correr da noite, que o levou a providenciar, tão cedo, uma volta urgente a São Paulo.

Temer recebeu no seu escritório paulistano o advogado que o defende, ou defenderá. Mesmo sendo o exótico Temer, não é admissível que o presidente da República precisasse viajar a São Paulo, na manhã de sábado, para estar com um advogado. Se necessária a conversa, dada a prisão de Loures, o normal seria o chamado ao defensor, caso o receio de gravação telefônica predominasse.

Assim foi em encontros, no Jaburu e no Planalto, de Temer com o advogado Antonio Claudio Mariz.

A viagem, em suas condições anômalas, se decorrente da prisão de Loures, seria como uma confissão de envolvimentos a requererem decisões advocatícias, considerada a possibilidade de delações do auxiliar. Não seria conveniente fazê-la, razão bastante para que o advogado experiente não a aprovasse e, muito menos, dela participasse.

O que Temer buscou na inexplicada ida ao seu escritório em São Paulo?

Em termos genéricos, sem precisão identificadora, as hipóteses são poucas, e bastam. Coisas sugeridas por se tratar da viagem e do escritório de alguém que se cerca e enche o governo de inválidos morais. Indicação suficiente a seu próprio respeito.

A viagem de Temer sugere variadas perguntas da PF. Mas não só. Pede o que tem sido raro, como se delações bastassem: pede investigação.

O mesmo requer o caso mais simples da viagem aérea do casal Temer a Comandatuba, Bahia. O uso de um avião de Joesley Batista foi negado pela assessoria de Temer, que disse haver viajado em avião da FAB.

Mentira que até impressiona mais pelo primarismo, sem prever o mais óbvio: a verificação na FAB. Então Temer se lembra, ah, sim, era avião particular, mas nunca soube de quem. Mentira outra vez: o dono delatou o telefonema de Temer para queixar-se de florida gentileza com sua mulher.

Na desordem moral instalada no Brasil, não bastam as grandes patifarias que seguem a história. O governo desce até às miudezas das tapeações infantis ou obtusas, protegido pelos interesses de retrocessos legais e sociais.

Em falta

Não é um fato banal a contradição do PSDB, que integra e sustenta o governo encabeçado por aquele cuja cassação, hoje sob julgamento no TSE, foi pedida pelo próprio PSDB. Há nisso uma falta de dignidade que compromete todos os comandos do partido, política e pessoalmente.

Janio de Freitas
No fAlha
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