21 de mai. de 2017

O fim do principado

Ascensão e queda da família que comandou Minas Gerais por décadas


Um personagem e três momentos

O jovem secretário, 25 anos, tendo vivido mais coisa nos 48 meses anteriores do que muito marmanjo manjado em décadas, despedia-se do avô no leito de morte. Tancredo fora eleito indiretamente, mas não chegou a tomar posse como primeiro chefe de Estado do Brasil depois de 21 anos de ditadura. Aécio, o neto, testemunhou e sofreu in loco, no Hospital das Clínicas de São Paulo, o drama nacional que, antes, era o de sua família. Compadecera-se, possivelmente, a ponto de jurar que um dia envergaria a faixa que o destino negara a Tancredo.

Passados 25 anos, governador reeleito de seu Estado, Aécio homenageou o avô inaugurando a Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Era o legado físico de duas gestões bem-sucedidas e bem-avaliadas à frente de Minas Gerais, com as grandiosidades das curvas de concreto de Niemeyer, cheiros de JK em uma “brasilinha” vislumbrada pela estrela da festa, que não escondia de ninguém visar à capital federal propriamente dita. Março de 2010, tinha chovido pra burro: “é a lama, é a lama”. As autoridades diversas, inclusive o finado José Alencar, então vice-presidente, funcionários e a imprensa, todos em belos trajes. A ocasião pomposa pedia e merecia. Mas havia muitas placas de grama ainda soltas e água barrenta correndo pelos leitos reinventados no chão. Os convidados na estica, mas teve quem saísse da lá descalço. O barro cobriu os sapatos.

Agora, a Presidência é sonho impossível, e os palácios erguidos sobre o pântano, o atual governo mineiro cogita até leiloar.Para um jornalista mineiro que se dedica aos feitos da política, assistir ao ocaso político de Aécio e da irmã Andrea e escrever sobre isso demanda filtros de granito para conter os ímpetos da peçonha e virulência. Quanta notícia, quanta reportagem, quanta informação útil à vida dos mineiros foi escondida na gaveta a mando dela e em favor dele, por um projeto de construção de imagem irretocável. A greve da PM em 2004, o Choque de Gestão, o Estado para Resultados, o reerguimento do aeroporto de Confins e outros diversos acontecimentos, só para ficar nos oficiais, passaram pelo crivo da mentora intelectual do irmão. Eram ligações para chefia, pressão e pedidos de demissão de jornalistas. Se Aécio era tão bom quadro para a política nacional, por que demandava tanto controle, tanta blindagem?

Ainda assim, apesar do cerceamento à liberdade de imprensa e de tantos desmandos que se revelam hoje (entre eles, a denúncia de superfaturamento na Cidade Administrativa), merecem festa a prisão dela e o afastamento e possível cassação do mandato dele? Para aquém dos venenos e das vinganças pessoais, a derrocada dos irmãos é mais uma tragédia contemporânea.

No segundo turno de 2014, o tucano “tocou na taça”: eram 19h30, mais ou menos, quando a apuração dava que ele estava na frente de Dilma, que depois reverteu. Foram 51 milhões de brasileiros que confiaram o futuro do país a Aécio. E, por décadas, tantos milhões de mineiros avalizaram-no para deputado federal, governador por duas vezes e senador. Agora, essa pancada. “Quando um príncipe se apoia totalmente na Fortuna, arruína-se segundo as variações dela”.

A acusação que pesa contra o tucano é contundente, e o conteúdo foi gravado: negociou R$ 2 milhões em propina com os donos do frigorífico JBS em benefício de Andrea e do também senador Zezé Perrella (PMDB-MG) e que, para pegar o dinheiro, escolheu alguém que “a gente mata antes de fazer delação”. O golpe fatal não significa o fim político de um homem público apenas, mas daquele que acumulou mais poder e prestígio em Minas Gerais desde a redemocratização. É um guarda-chuva enorme que se fecha depois de ter abrigado uma dúzia de partidos satélites, com centenas de lideranças apaniguadas. Um grupo que ditava as regras do jogo, ungia chapas e candidatos, nutria-os, financiava-os e elegia-os. Assim foi com governador, senadores, deputados e centenas de prefeitos mineiros. O sentimento de orfandade política, hoje, percorre o Estado de Montalvânia a Extrema, de Ituiutaba a Salto da Divisa. Há um latifúndio aberto para a sucessão estadual, e um guarda-chuva fechado.

Para a sucessão presidencial, Aécio é carta fora do baralho. Já está em curso sua destituição da presidência nacional do PSDB, e o tucanato paulista dá de braçadas. Talvez por ter chegado tão perto e por não ter podido aproveitar a chance ímpar de ir aonde o avô não foi, o candidato derrotado tenha agido como agiu. “Quanto mais próximo o homem estiver de um desejo, mais o deseja. Se não consegue realizá-lo, maior dor sente”.

Ele é um dos principais culpados, sim, pela crise de credibilidade política que assola o país, não só por seus malfeitos, como por sua postura. Primeiro, deslegitimou o pleito e, por meio do partido que controla(va), reivindicou recontagem de votos. Depois, processou a chapa vitoriosa, o que pode levar, ironicamente, à cassação de Temer no mês que vem pela Justiça Eleitoral. Por fim, o ódio e o inconformismo, movidos por sua obstinação pessoal e pela contrariedade de ter perdido em casa (em Minas, não em Ipanema) resultaram no golpe parlamentar, que teve entre os tucanos seus mais contumazes fiadores.

Mas agora vem à tona a desfaçatez de quem só fazia por apontar a corrupção sistêmica como método adversário. A criminalização da prática política, imagem que ele hipocritamente denunciou e reforçou na opinião pública, por mero marketing, agora engole a ele e à irmã. Está perdido e atolado até o pescoço. Triste, nada a celebrar, mas “a culpa não é minha”… Cárceres à parte, “o outro nome de Minas é liberdade”.

João Gualberto Jr.
No O Beltrano
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Autor de laudo citado por Temer usou equipamento amador

Profissional é bacharel em Direito

Temer em pronunciamento para se explicar sobre o áudio com Joesley Batista
Ricardo Botelho / AP
Autor do laudo citado pelo presidente Michel Temer em seu pronunciamento de sábado, o perito judicial Ricardo Caires dos Santos afirma ser profissional em transcrever áudios. Bacharel em Direito pela Unifig, de Guarulhos, onde também diz ter se especializado em Direito Penal, ele se tornou figura frequente em programas sensacionalistas e de celebridade na TV. Antes de se dedicar à degravação da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer, coube a ele, por exemplo, determinar se havia ou não um fantasma em uma fotografia divulgada na internet pela atriz americana Jéssica Alba, em janeiro do ano passado. Embora costume se apresentar como perito do Tribunal de Justiça de São Paulo, ele é um prestador de serviços eventual da Justiça, sem qualquer vínculo com o tribunal.

Procurado pelo Globo, ele afirmou que seu trabalho é apenas inicial e que qualquer conclusão a respeito da conversa depende de uma outra perícia. Negou ainda que o áudio da conversa tenha 50 pontos de edição, como apontado por reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em seu site na sexta à noite. Segundo ele, são 14 pontos de edição, entre 15 e 20 pontos de corte e diversos trechos de ruído. Santos, no entanto, disse não ser possível apontar onde estão os pontos de edição.

— Esse trabalho tem como intuito que outro profissional faça a perícia. E, sobre os pontos que eu mostrei, ele (o outro perito) venha e fale: folha dois é só corte, folha três não dá para ouvir, na folha 33 existe edição. Esse seria o rito para ter a perícia — explicou.

Especialista em 'espionagem'

O laudo feito por Santos, ao qual O Globo teve acesso, é composto da transcrição do áudio da conversa e, em 54 trechos do diálogo, ele identifica os “pontos a serem analisados”. Aos ouvidos de um leigo, esses pontos são apenas inaudíveis. Para elaborar o laudo, ele afirma ter usado um tocador de mídia, o programa Audacity, uma ferramenta gratuita para edições de áudio caseiras e o software Vegas Pro 10, ferramenta profissional para edição de vídeo, embora não haja imagens da conversa de Temer e Joesley. De acordo com especialistas ouvidos pelo Globo, as ferramentas adotadas por Caires são insuficientes para dizer se houve ou não edição da gravação.

- A perícia de um áudio é um trabalho multidisciplinar, exige um grupo de pessoas, diversos softwares e alguns dias de trabalho. Não dá pra fazer em poucas horas - afirmou um perito que pediu para ter a identidade preservada.

Embora se diga experiente no trabalho, Santos cometeu uma série de erros em sua degravação da conversa: a presidente do BNDES Maria Sílvia Bastos foi confundida com Marina Silva, a CVM, Comissão de Valores Mobiliários, foi transcrita como CDN. Em sua conclusão, Santos escorregou ainda na língua portuguesa. Ele escreve: "para melhor identificação está marcados (sic) os pontos em vermelho e amarelo" e "o objeto "áudio" está eivados (sic) de vícios".

Santos defendeu ainda que os trechos editados teriam reduzido o tempo total de conversa de 50 minutos para os 38 minutos apresentados pelo empresário. Ele não considerou na perícia, no entanto, a gravação feita enquanto Joesley estava no carro, antes e depois de entrar no Palácio para conversar com Temer.

No site que mantém na internet, Caires se diz especializado em espionagem. Apesar da carreira de perito, o site também mostra que ele atua no ramo imobiliário, inclusive com registro de corretor de imóveis. O site é onde ele também faz propaganda de suas participações nos programas de TV.

No Globo
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Igrejas cristãs se manifestam por eleições diretas para a Presidência e o Congresso


Além do voto popular, religiosos querem a suspensão das reformas trabalhista e da Previdência, a taxação de grandes fortunas e o fim da violência contra populações e movimentos sociais

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), que representa a Igreja Católica Apostólica Romana, Episcopal Anglicana do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana, Sirian Ortodoxa de Antioquia e Presbiteriana Unida, declarou apoio à realização de eleições diretas para a Presidência da República, para o Câmara e para o Senado como instrumento para restaurar a legitimidade da representação popular.

Em documento divulgado nesta sexta-feira (19), a entidade conclama as igrejas-membro e seus fieis para a oração, intercessão e resistência em favor da democracia que garanta o acesso universal à saúde, à educação, à previdência social e ao emprego.

“Queremos uma democracia que garanta a distribuição de riquezas, garantia de direitos aos povos indígenas, taxação sobre grandes fortunas e que nos permita sonhar por novo céu e nova terra. Nenhum direito a menos!"

No documento, os religiosos denunciam o avanço das forças políticas conservadoras por meio da desestabilização do primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff com a suposta bandeira do combate à corrupção com vistas ao impeachment e a posse de Michel Temer. "Este processo passou para a história como um golpe parlamentar perpetrado em nome da moralização da política brasileira e concretizou a ruptura democrática."

Eles criticam ainda o fechamento do acesso popular ao Poder Legislativo, o cerco de policiais fortemente armados contra trabalhadores, estudantes e indígenas, criminalizando movimentos sociais.

"As discussões são realizadas a portas fechadas, sem a participação da sociedade civil. E que os patrocinadores do golpe levaram ao Executivo e ao Congresso uma pauta de retrocessos, que incluem o corte de programas sociais, o sucateamento dos serviços públicos, venda de terras para estrangeiros, até chegar à reforma trabalhista e à reforma previdenciária e na defesa do interesse de ruralistas, como no caso da CPI do Incra/Funai."

Para a entidade, as revelações de corrupção envolvendo Temer, em pleno exercício do mandato, e empresários do grupo JBS, são "as provas de que falta a esse governo a legitimidade para conduzir os destinos da nação, especialmente, quando se discutem propostas que afetam a vida de toda a população nos próximos cinquenta anos."

No RBA
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Com baixa adesão, Temer cancela jantar de demonstração de apoio

Temer segurando a mão do último apoiador
O encontro pretendia reunir os líderes que mantêm o apoio ao governo, apesar das recentes acusações feitas contra Michel Temer

Sem confirmação de presença da maior parte dos líderes de sua base aliada, o presidente Michel Temer decidiu cancelar o jantar que ofereceria neste domingo (21), no Palácio da Alvorada, em uma tentativa de demonstrar que mantém apoio no Congresso.

Pela manhã, o governo havia convocado aliados e ministros para o encontro, marcado para 19h30. O convite havia sido disparado pelo ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), em nome de Temer.

Parte dos líderes e ministros, entretanto, avisou ao governo que não chegaria a tempo da reunião, uma vez que haviam optado por passar o fim de semana em seus Estados de origem e foram chamados de última hora.

Com a baixa adesão, Temer decidiu cancelar o jantar e transformou a conversa em um encontro informal, com um grupo mais reduzido, que já estava em Brasília. As conversas devem começar por volta de 19h.

Auxiliares do presidente minimizaram a mudança de planos. Admitiram que a ideia inicial era mesmo fazer um encontro amplo, para discutir a atual conjuntura, mas que as conversas serão mantidas nessa reunião informal.
O jantar era um movimento do Palácio do Planalto para tentar demonstrar que mantém apoio no Congresso apesar da crise aberta pelas acusações feitas contra o peemedebista por executivos da JBS em delação premiada.

A ideia de fazer o convite surgira na noite de sábado (20). Aliados de Temer já haviam alertado que haveria dificuldade para o deslocamento dos parlamentares a Brasília de última hora.

Ao menos três líderes da base avisaram ao governo que teriam dificuldade de chegar à capital a tempo do jantar. Lelo Coimbra (PMDB-ES), líder da maioria na Câmara, não conseguiu decolar do aeroporto de Vitória, que ficou fechado por parte da tarde. Arthur Lira (AL), líder do PP, disse que está no sertão de Alagoas e Efraim Filho (PB), do DEM, tinha compromissos inadiáveis em outro Estado.

No Cafezinho
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Primo preso por carregar mala deve delatar Aécio


O tiro de misericórdia no senador afastado Aécio Neves será dado pelo seu primo Fred Pacheco, que foi preso depois de ser flagrado carregando malas de dinheiro para o presidente licenciado do PSDB nacional.

Familiares de Fred estão indignados com a postura de Aécio, que não assumiu a responsabilidade pelos crimes e também disse que o carregador de dinheiro deveria ser alguém que eles pudessem matar antes de se tornar delator.

“Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho”, disse Aécio a Joesley Batista, um dos donos da JBS, num dos grampos interceptados pela Polícia Federal.

Filho de um respeitado desembargador aposentado de Minas Gerais, chamado Lauro Pacheco, Fred já foi orientado pelos familiares a delatar todos os esquemas de Aécio.

Quando esteve com Ricardo Saud, executivo da JBS que lhe entregou uma mala com R$ 500 mil, Fred se queixou do papel que desempenhava para o primo. "Outro dia eu tava pensando, acordei à 0h30, o que eu tô fazendo? O que eu tenho com isso? Eu não trabalho para o Aécio, eu não sou funcionário público, eu sou empresário. (...) Trabalho pra caralho, Ricardo", disse Fred. "Eu tenho com o Aécio um compromisso de lealdade que o que precisar eu tenho que fazer. Eu falei: 'Olha onde eu tô me metendo'."
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O ponto

Um dia o Internacional anunciou a contratação de um grande goleiro. Um goleiro tão bom que muita gente estranhou. Como um jogador extraordinário assim acabara no Inter, e — pelo que se soube — por muito pouco dinheiro?

Mais estranho ainda: o grande goleiro não pedira um grande salário. Aí alguém se lembrou de boatos que corriam sobre o jogador, que ele era um entregador de partidas, um incorrigível subornável. E concluíram que ele não se interessava pelo que ganharia no Inter, se interessava pelo que ganharia de adversários no gol do Inter, deixando passar bolas defensáveis. Se interessava pelo ponto.

São tantos os escândalos envolvendo políticos no Brasil, tanto dinheiro rolando e tantos favores sendo vendidos, que se pode pensar em mandatos e cargos públicos não como oportunidades de servir à população, mas como pontos.

Quanto mais influente e destacado na hierarquia do poder, melhor localizado e lucrativo o ponto do político. E corretores de jogo do bicho, vendedores de drogas, mendigos e prostitutas sabem como é importante um bom ponto.

Pode-se até fantasiar que um dia deputados, senadores e governantes dispensarão seus salários e viverão exclusivamente de propinas, ou do que ganham nos seus pontos.

O que, além de acabar com toda retórica vazia sobre razões nobres para se eleger e servir à nação, trará um grande alívio para os cofres públicos.

A Odebrecht e as outras grandes empresas corruptoras se encarregariam de pagar aos políticos, para cada um de acordo com a localização do seu ponto.

Quanto ao tal goleiro do Inter, só para não deixar a história pela metade — o clube chegou a montar um esquema para vigiá-lo dia e noite. Mas as suspeitas a seu respeito não se confirmaram. Pelo contrario, o Inter deve boa parte do seu sucesso na época às suas defesas. Ele era inocente. O que se pode dizer de cada vez menos políticos brasileiros.

Luís Fernando Veríssimo
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“Parecer” encomendado pela Folha e usado por Temer é uma vergonha, inclusive, gramatical

Temer termina pronunciamento segurando a mão de seu último eleitor
Todo o discurso de Michel Temer no sábado, dia 20, teve como argumento principal a manchete da Folha de S.Paulo, segundo a qual a fita entregue pelo empresário Joesley Batista foi editada.

Pode ser, pode não ser.

Mas não é preciso muito esforço para concluir que o texto do jornal foi exagerado na defesa de Michel Temer.

O perito Ricardo Caires dos Santos fez o que pode ser considerado, no máximo, parecer – uma opinião técnica, sem compromisso com a verdade.

Mas o jornal apresenta esse trabalho como laudo.

E há diferença substancial entre laudo e parecer.

O laudo é um estudo minucioso, em geral demorado, e Caires dos Santos não teria condição de produzi-lo sem examinar, também, o aparelho em que o áudio foi captado.

Atente-se para as credenciais de Caires do Santos apresentadas pela Folha de S. Paulo: perito do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Não existe perito do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Não existe essa carreira no Judiciário.

O que existe é perito particular, nomeado pelo juiz, e nesse caso são muitos, inclusive Caires dos Santos.

Embaralhar uma investigação fazendo uso de pareceres técnicos é um recurso de muitos criminalistas.

O promotor Edilson Mougenot Bonfim, que atuou no 1º Tribunal do Júri em São Paulo durante muitos anos, conta em seu livro “No Tribunal do Júri” como desmascarou essa farsa, no julgamento de uma mulher acusada de matar o marido.

Um caso rumoroso à época, conhecido como Viúva Negra.

Um perito contratado por um criminalista deu parecer que justificava a presença de elementos de pólvora na mão da cliente com fotos dela enxugando lágrimas com um lenço.

A conclusão do perito é que o lenço era do cunhado, que havia manuseado uma bateria de automóvel no dia e contaminado aquele pedaço de pano com componentes que poderiam ser encontrados também na bala de um revolver.

Daí porque, no exame residuográfico, a perícia oficial (esta existe, como departamento da Polícia Civil) concluiu que ela havia feito disparo com revólver.

O parecer continua citações em francês e apresentava gráficos, era bonito na aparência.

O promotor chamou o perito para depor e começou a fazer perguntas em francês, idioma que o perito não conhecia.

— O senhor não sabe francês, mas faz um parecer, que o senhor chama de laudo, porque quer impressionar o júri e o juiz, para confundi-los e tirar a atenção do essencial: esta mulher matou o marido.

O promotor conseguiu a condenação da acusada – que, por sinal, fugiu depois, quando pode recorrer em liberdade.

Este caso, conhecido entre os criminalistas, trouxe à tona a chamada indústria dos pareceres.

Peritos famosos, quando contratados por particulares – exemplo da Folha de S. Paulo ou da defesa de um acusado de crime –, mentem à vontade, sem risco de serem responsabilizados criminalmente.

Parecer é opinião, e opinião cada um tem a sua.

Já o laudo, quando parte integrante da investigação, deve ser verdadeiro, sob pena do crime de falsa perícia.

Daí porque laudo, em geral, não é feito em dois dias, sem todos os elementos de análise.

A Folha de S. Paulo embarcou no Titanic de Michel Temer por razões que não se conhece.

O parecer encomendado para desqualificar a gravação é uma vergonha, inclusive, do ponto de vista gramatical.

Abaixo, a conclusão de Ricardo Caires dos Santos:



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Mais cinco observações sobre o momento atual da crise


(1) A Rede Globo decidiu demonstrar sua força. Por motivos que ainda não estão inteiramente claros, ela resolveu rifar Michel Temer e reorganizar a coalizão golpista em outras bases. Não está sozinha nesse projeto, nem é necessariamente quem o comanda, mas é sem dúvida o grande instrumento de sua execução. Ainda que o restante da mídia corporativa não tenha o mesmo propósito (como demonstra o esforço da Folha de S. Paulo para desacreditar as gravações de Joesley Batista), o empuxo da Globo é forte demais e todos já tratam a queda de Temer como questão de dias. Ou seja: as sucessivas vitórias do PT mostraram que a Globo não tem o poder de definir os resultados eleitorais, mas ela continua capaz de desestabilizar governos a seu bel-prazer. O fato de que o usurpador não mereça que se derrame uma lágrima por ele, muito pelo contrário, não significa que não precisemos entender o que significa esse poder tão desmedido.

(2) Temos hoje dois conflitos sobrepostos. O primeiro é interno à coalizão no poder. O golpismo está dividido, uma vez que Temer decidiu resistir e usa todos os recursos de que dispõe para adquirir os apoios que lhe garantam uma sobrevida, ainda que frágil. O problema, para ele, é que a principal ameaça vem não do Congresso, mas do TSE. A tranquila maioria que ele construiu nos últimos meses, para aprovar a esdrúxula tese da separação da chapa, não existe mais. O colegiado que vai definir sua sorte é menos suscetível aos agrados que o Executivo pode fazer e tende a seguir o consenso das classes dominantes, que cada vez mais aponta para a substituição de Temer. Afinal, com exceção do usurpador e de seus cúmplices mais próximos, todos julgam que rifá-lo é um bom negócio, se com isso superam a crise. O segundo conflito é entre o golpismo e o campo democrático. É aqui que entra a bandeira das diretas-já. O golpe não foi dado para que alguma vontade popular pudesse se expressar, muito pelo contrário. Foi dado para implantar um projeto que as urnas sempre rechaçaram. Por isso, as eleições diretas têm que ser evitadas a qualquer custo.

(3) Entre os problemas que as diretas-já geram, para os donos do poder, está o fato de que não haverá tempo para impedir a candidatura de Lula. Mas as diretas não são para eleger Lula. As diretas são para interromper e reverter o golpe. Por isso, a luta pelas diretas é indissociável da luta contra o retrocesso nos direitos. O povo deve ser chamado a se manifestar não para escolher um nome, mas para escolher um programa. O programa mínimo do campo democrático e popular é a revogação da emenda constitucional que congela o investimento social, o retorno da plena vigência dos direitos trabalhistas, a sustação da reforma da previdência, a plena vigência das liberdades - a partir daí, tentamos avançar, mas esse é o mínimo. Lula vai se comprometer claramente com esse programa? Ou não vai resistir à tentação de acenar para as elites, para recompor a "governabilidade" que deu no que deu? Seja como for, a realização desse programa depende da pressão organizada, mais até do que da eleição de A ou B.

(4) O oposto das diretas é a pressão ostensiva do "mercado" (que, no noticiário, é o nome de fantasia do capital) para que o sucessor não esmoreça nas "reformas" (o nome de fantasia para a retirada dos direitos). É impressionante como, na imprensa, a necessidade de ouvir a população é desdenhada como irrelevante ou estigmatizada como "golpe" (!), mas as vozes do capital são reverberadas cuidadosamente. O recado é claro: a vontade popular não pode atrapalhar a vontade do "mercado". O casamento entre capitalismo e democracia, que sempre foi tenso, agora se mostra claramente como uma relação abusiva. A regra era que o capital impunha sua vontade pelos mecanismos do mercado, o que já lhe dava um poder de pressão descomunal, mas os não-proprietários tinham a chance de limitar esse poder graças ao processo eleitoral. Essa salvaguarda não é mais aceita. Ela terá que ser imposta novamente ao capital, como o foi nas primeiras décadas do século XX.

(5) Não se vê uma única voz se levantar em favor de Aécio Neves. O pragmatismo da direita devia servir de alerta àqueles que a servem: são todos descartáveis. "Acéfalo" com a prisão da irmã, como disse a Folha de S. Paulo; sem poder contar sequer com o abraço amigo de Luciano Huck... Triste fim do Al Capone de Ipanema.

Luis Felipe Miguel
No Esquerda Caviar
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Temer-JBS: a implosão do grupo do impeachment


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JN admite que não há conta de Lula e Dilma, só alegação de Joesley. Assista


Depois de martelar anteontem, minutos a fio, que o delator Joesley Batista havia dito que havia contas de Lula e Dilma no exterior, somando US$ 150 milhões de dólares, o Jornal Nacional se “corrigiu” ontem em alguns segundos.

O apresentador William Waack reconheceu que não há conta dos ex-presidentes, mas apenas a alegação do dono da JBS de que teria mantido contas com finalidade de fazer frentes a gastos políticos.

Depois de espalhada a mentira, é “moleza” dizer que “não era bem assim”.

Assista video do minuto em que o desmentido é feito.


Fernando Brito
No Tijolaço
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As condições do caos

Toda a dramaticidade da situação sintetiza-se em uma pequena frase: não há saída boa. A pior seria a permanência de Michel Temer ainda mais apalermado. Mas nenhuma das outras possíveis evitaria a continuidade das condições caóticas que sufocam o país.

Com alguma sorte, no máximo se chegaria sem tumulto maior às eleições daqui a perto de ano e meio. Isso, se não for gasto tempo demais, enquanto o país deteriora, com a disputa das correntes políticas (não só as partidárias) para definir o que se seguirá ao atual estado crítico.

É preciso considerar ainda que as denúncias, sejam as já iniciadas, sejam novas, podem agravar a situação interna das instituições, com decorrências de efeito extenso. Está visto, para ninguém mais negar, que os motores da corrupção política e administrativa não são só as empreiteiras.

E não falta quem, para receber os generosos prêmios dados aos delatores, mostre mais aos brasileiros como é de verdade o seu país. Nem faltam candidatos a ver-se, de repente, passando de louvados a execrados. Como a estrela do bom-mocismo, Aécio Neves.

Agora senador afastado pelo Supremo, e com Eduardo Cunha preso, Aécio fica mais exposto a que afinal se esclareçam em definitivo as trapaças de contratos em Furnas, cuja lista de beneficiários lhe dá lugar de destaque. Associados nessa lista, os dois retiveram por muito tempo as investigações devidas e suas consequências.

Com esse inquérito em andamento, Aécio se torna um dos senadores mais apreciados por procuradores e juízes: seis inquéritos – um por suborno e fraude na construção da Cidade Administrativa em seu governo mineiro, outro por suborno na construção de usinas hidrelétricas, três por caixa dois, e o de Furnas. Aguarda-se o sétimo.

Não foi sem motivo, portanto, que esse senador e presidente do PSDB (retirado de um cargo e licenciado do outro), conforme suas palavras agora públicas, disse ser necessário acabar com tais investigações e estar "trabalhando nisso como um louco".

E pensar que esse era o presidente da República desejado e proposto ao país pelo "mercado", pelos conservadores de todos os tipos e por imprensa, TV e rádio. Derrotado e ressentido, foi o primeiro a conclamar pela represália que originou o desenrolar político hoje incandescente.

Para onde vai esse desastre em sua fase judicial, continuaremos sem saber. As gravações de Joesley Batista ainda aumentam muito a obscuridade, com pequena menção que a conveniência deu por despercebida pelo pasmo.

Como queixa por perseguições a sua maior empresa, ele conta a Temer ter visto o vídeo da delação de Sérgio Machado, o ex-diretor da Petrobras que gravou Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney. Esta é a cena: procuradores da Lava Jato dizem a Machado que fale sobre a JBS, Machado diz desconhecer fatos que incluam a empresa.

Os procuradores insistem em vão. Até que Machado aparece lendo um pequeno papel, decora o lido, e o recita como depoimento: é uma acusação à JBS. Não há menção a quem lhe passou o dizer exigido. Nem era necessária, para proporcionar a advogados mais um questionamento e a magistrados isentos um problema, sobre certos métodos e motivos da Lava Jato.

A JBS, parte da empresa-mãe J&F, é a maior exportadora mundial de carne bovina e de frango. Seu crescimento no mundo tem sido, em grande parte, decorrente de apoios financeiros e outros, legítimos ou não, dos governos brasileiros. E contraria poderosas multinacionais e governos estrangeiros empenhados na promoção internacional de seus exportadores.

Janio de Freitas
No fAlha
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