12 de abr de 2017

A manipulação grosseira da GNews

Como diz o Mino: jornalistas piores que os patrões

O jogo é inverter o sentido e dizer que é jornalismo

De um navegante indignado:

GROSSEIRA MANIPULAÇÃO

A GloboNews acaba de botar no ar longo trecho de depoimento de Marcelo Odebrecht em que ele cita Dilma.

Uma história com flagrante tom de fofoca.

A emissora vende a notícia como se fosse uma denúncia de envolvimento da ex-presidenta.

Mas o vídeo demonstra exatamente o oposto: Dilma não sabia do caso de suborno abordado no interrogatório e, quando soube, cobrou responsabilidades dos supostos envolvidos. Marcelo relata que o então ministro Edison Lobão contou a ele que foi duramente interpelado por Dilma, depois deste encontro. E diz que Dilma surpreendeu-se, inclusive, ao ser informada por ele que gente do PT também poderia estar recebendo propina. Marcelo ressalta que esta foi a única vez em que tratou este tipo de assunto com Dilma.

Posteriormente, depois desta suposta conversa, Dilma afastou vários executivos da Petrobras, justamente por ter passado a suspeitar da idoneidade deles.

Mas a imprensa transforma a declaração do delator no seu exato oposto.

Interpreta como sinal de suspeita o que na verdade é uma indicação de lisura.

Os comentaristas da Globo News fazem este jogo.

Invertem o sentido da declaração do delator.

AS TVs e os jornais impressos de amanhã farão o mesmo.

Cinco minutos depois de ter ido ao ar, o trecho é repetido, introduzido pela chamada: "Neste trecho do depoimento Marcelo Odebrecht cita a ex-presidente Dilma".

Esta farsa será repetida à exaustão, até que ganhe ares de verdade.

Em tempo: há minutos, a âncora da Globo News entendeu que precisava incitar ainda mais os dois comentaristas: "Marcelo revelou que Lula e Dilma sabiam do A-P-O-I-O que a Odebrecht deu às campanhas do PT".

Como não saberiam? A Odebrecht apoia as campanhas de praticamente todos os partidos desde sempre.

No depoimento exibido, Marcelo não diz em nenhum momento que Lula e Dilma conheciam alguma irregularidade nas doações. E acrescenta que sempre patrocinou as candidaturas de Aécio e que o senador tucano nem precisava pressionar porque receberia o que fosse necessário a qualquer momento.

Bastava ligar ou mandar algum preposto ligar.

No CAf
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Xadrez da lista de Janot, o Senhor do Tempo - 2



Ontem, minimizei aqui no Xadrez as consequências dessa lista de Janot. Não será apenas a tentativa de inviabilizar Lula em 2018. Significa a destruição da política.

Um dia ainda será escrita a maneira como o Brasil se permitiu destruir. Nunca a fábula do nazismo foi tão elucidativa.

Primeiro, levaram os petistas e peemedebistas suspeitos. Como eu não fiz nada – diria Dilma Rousseff – deixei o campo livre para o Ministério Público e a Polícia Federal, para resolver, por mim, os problemas do presidencialismo de coalisão.

Depois passaram a prender petistas a torto e a direito. Como eu não era petista – diria Fernando Henrique Cardoso – ajudei a colocar lenha na fogueira.

Depois, destruíram o setor mais dinâmico da economia. Como não eram grandes anunciantes – diriam os donos de jornais -, coloquei mais combustível na fogueira. E como brotou do pântano a ultradireita mais raivosa, abriguei-a em minhas páginas por uma questão de mercado.

Depois, espalharam o ódio por todos os poros da Nação. Como era ódio a favor – diriam Serra, Aécio, Aloysio – discursei em todos os eventos, eu também babando de ódio.

Agora, chega-se a isto, a lista de Janot, um dos episódios mais trágicos e irresponsáveis da história do país. Uma corporação tresloucada, sem controles, criminaliza praticamente todos os políticos do país, todos os partidos políticos, inclui cinco ex-presidentes, todas as lideranças civis ao menor indício de uma modalidade de financiamento de campanha que era generalizado.

O mais irresponsável jornalismo da história celebra o incêndio de Roma, estampando na cara o gozo dos completos ignorantes. O pior Supremo Tribunal Federal da história é incapaz de colocar limites a essa aventura.

O problema não é a apuração de ilícitos, mas o jogo politico em torno da operação praticado abertamente pela Lá a Jato, PGR e Globo

Esperam o quê? Que das cinzas do sistema político-partidário brote uma nova política, virtuosa? A queda de Dilma Rousseff transformou o governo em uma praça pública de negociatas, porque derrubou o ponto aglutinador – o Executivo, mesmo que pessimamente conduzido – e entregou o poder a uma quadrilha.

Agora, o fim dos partidos vai acabar com o reinado dos atuais coronéis e colocar o quê em seu lugar? Uma malta de coronéis municipais, mais atrevida ainda, porque livre de qualquer vínculo programático, de qualquer sistema partidário de controle.

E o país será governado pela Rede Globo e por corporações públicas, com a destruição final das políticas sociais, o desmonte da Previdência, a criminalização da política e dos movimentos sociais.

Finalmente, chega-se na era do Grande Irmão. Mas como a política não foi substituída pelos robôs da quarta revolução industrial, pela frente haverá a guerra e o caos.
Sobre o tempo de Janot

Em Harvard, com a retórica estridente de adolescente mudando a voz, o procurador Deltan Dallagnoll lembrou que as instituições são virtuosas, não os homens. Ou, a ocasião faz o ladrão.

Presume-se que o princípio valha para todas as organizações, não apenas para a política. E como o Ministério Público é uma organização, presume-se que as virtudes de seus membros dependem fundamentalmente da forma como as circunstâncias dispõem.

Se nenhuma pessoa está a salvo das tentações proporcionadas pelas ocasiões, há um risco evidente das circunstâncias da Lava Jato permitirem a aplicação da subjetividade, ante-sala dos abusos, ante-sala da corrupção.

Trata-se da maneira como a Procuradoria Geral da República está conduzindo a chamada Lista de Janot. A lista é uma mera abertura de inquérito, com amplo vazamento para a mídia. Essa abertura de inquérito podia ter sido pedida há muito tempo, e não foi. Ou então, o Procurador Geral Rodrigo Janot poderia ter oferecido diretamente a denúncia, e não o fez.

Com isso, Janot manteve tudo em suspenso e sob seu exclusivo arbítrio. Assim, vai continuar sendo o senhor absoluto do tempo, vazando, vazando, com os inquéritos pairando como uma espada de Dâmocles sobre todo o mundo político.

É inconcebível esse tipo de poder. Cabe ao STF definir regras claras, apurar os vazamentos dos inquéritos e punir exemplarmente os responsáveis – sem prejuízo das investigações – ainda que seja o próprio Procurador Geral.

Aliás, caberia ao STF atentar para este fato ao receber esse pedido tardio de inquérito. Nada explica essa demora e nada absolverá não apenas o STF, mas o próprio CNMP (Conselho Nacional do MInistério Público) se não apurar os fatos e exigir a demissão do próprio Janot, diante do abuso explícito cometido.

Espera-se que os partidos políticos deixam de lado a pusilanimidade e entrem imediatamente com uma representação junto ao CNMP e ao próprio Supremo.

Afinal, como lembra Dalagnoll, as pessoas não são virtuosas: virtuosas são as instituições.

Luís Nassif
No GGN
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Dilma faz a conferência “Democracia no Brasil: desafios e perspectivas”, na Columbia Universit


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Já está passando da hora de pedirmos — todos nós — desculpas a Dilma


Se eu escrever cem vezes desculpas para Dilma em nome dos brasileiros, ainda assim vai ser pouco.

A cada lista de delatados que emerge, maior é o tamanho do crime político que cometemos contra Dilma.

Relembre aquelas cenas infames de corruptos das duas casas do Congresso vociferando contra Dilma em nome da “honradez”, dos “elevados princípios morais” etc etc.

Todos eles, em tempo recorde, foram desmascarados. Não sem antes chacinar uma mulher honesta e, com ela, 54 milhões de votos.

Aquelas cenas, se antes davam raiva, agora dão nojo.

Jamais se apagarão da memória de horrores políticos nacionais aqueles momentos em que um gânguester do naipe de de Eduardo Cunha comandava a destituição de Dilma.

E os deputados corruptos que em série pronunciavam o fora Dilma pelos filhos, filhas, noras e o que mais fosse?

Um dia alguém haverá de selecionar as palavras mais cínicas e mostrar o que se descobriu sobre os autores. (No dia seguinte ao da sessão final do impeachment, o marido de uma deputada ensandecida foi posto num camburação por roubalheita.)

Como esquecer, no Senado, Aécio, o Mineirinho, despejando sobre Dilma todas aquelas acusações de trampolinagem que na realidade ele mesmo cometeu? E Cássio Cunha Lima? E Jucá?

Dilma foi sacrificada para que a escumalha da política brasileira pudesse ser varrida.

E a triste verdade é que não fizemos nada para ajudá-la no bom combate que ela estava travando.

A esquerda estava mais interessada em criticá-la por alegados erros no segundo mandato do que em ajudá-la a enfrentar a selvagem plutocracia nacional.

Que Dilma poderia fazer tendo Temer ao lado, Cunha em suas costas, Aécio tramando desvairadamente e a mídia boicotando-a com sede assassina?

Um governo é, sob vários aspectos, como uma empresa. Que empresa funcionaria mesmo que tivesse no comando Steve Jobs se todos os executivos estivessem contra ele, e ele não possuísse poderes para demiti-los?

Com nossa omissão, ajudamos a empurrar Dilma para o abismo.

É uma culpa que levaremos para sempre.

Paulo Nogueira
No DCM
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Marcelo Odebrecht assume que Lula não lhe pediu dinheiro


Marcelo Odebrecht, em seu depoimento a Sérgio Moro, agora tornado formalmente público – antes, só um site de extrema-direita tinha acesso a ele – algumas questões vão ficando mais claras, apesar da forma que são expostas na grande mídia.

Tal como em relação a Dilma Rousseff, o executivo não recebeu nenhum pedido de recursos de Lula e disse ter certeza apenas por episódios em que “ficou evidente para mim” esse destino.

“As duas únicas comprovações que eu teria de que Lula de certo modo tinha um conhecimento dessa provisão foi quando veio o pedido para compra do terreno do Instituto IL, que eu não consigo me lembrar se foi via Paulo Okamotto ou via Bumlai. Com certeza foi um dos dois e depois eu falei com os dois. Deixei bem claro que se fosse comprar o terreno sairia do valor provisionado. A gente comprou o terreno, saiu do provisionado e depois o terreno acabou… A gente vendeu o terreno e voltou a creditar.”

O empreiteiro delator disse ainda. “E teve também, faz parte da minha colaboração, uma doação para o Instituto Lula em 2014 que saiu do saldo ‘amigo’. São as únicas duas coisas que eu consigo dizer. O resto, essa informação vinha do Palocci, quando ele pedia para Brani pegar o dinheiro em espécie. Ele dizia: ‘Olha, era para abater do saldo ‘amigo’ ou do saldo ‘Itália’ que era gerido por ele’.

Será que com tanto contato com Lula, como se alega, com ajuda à empreiteira em obras no exterior e viagens em jatinho, a sós, o empresário não teria dado um jeitinho de fazer Lula “assinar recibo”, com um comentário casual, do tipo “aquele assunto do Palloci chegou direitinho para o senhor”?

Nada mais conveniente a quem está, supostamente, “comprando” alguém do que passar-lhe um laço no pé. “Isso é pra você ficar sabendo que eu sei tudo, certo?”

Ainda mais quando a “prova” que se tem – e que deram “certeza” a Marcelo – é a compra de um terreno para o Instituto Lula, teoricamente a pedido de Lula, negócio que foi desfeito em seguida, por desinteresse, provavelmente de Lula. Ora, não seria óbvio que os supostos mensageiros de Lula tivessem ir pedir a compra do terreno quando esta já estivesse definida pelo principal interessado?

Os repasses em dinheiro, numa quantia volumosa (R$ 13 milhões), implica em outro problema? Onde guardar esta fábula? No armário? Como gastar, recebendo das mãos de Lula? É evidente que ele mandar entregar a alguém um “paco” de dinheiro criaria uma situação em que haveria dúzias de “recebedores” dizendo: “Lula me deu 50 mil em dinheiro, Lula me deu R$ 100 mil em dinheiro” e por aí…

A história, até agora, só tem como provas as declarações e papéis da empreiteira. Falta uma conta, um destino físico para o dinheiro. Falta o que se chamava, na Justiça de antigamente, materialidade.

Mas, como este é um processo nas mãos de Sérgio Moro, isso não vem mais ao caso.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Depoimento de Marcelo Odebrecht a Sérgio Moro na Operação Lava Jato










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Fachin devassa a República Federativa da Cloaca


A força-tarefa da Lava Jato tinha uma missão: pegar o Lula, destruir o PT e, no caminho, acabar também com a indústria do Brasil. Para isso, derrubou Dilma e colocou uma quadrilha no lugar.

Mas o ministro Edson Fachin do STF não teve medo do Moro.

O Fachin não é de dizer "não vem ao caso..."

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Informativo Paralelo — Preconceito - Racismo - Xenofobia


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Estrela da lista de Fachin: como funcionava o esquema de Aécio na Cidade Administrativa de MG

A posse de Aécio na Cidade Administrativa
O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, autorizou a abertura de cinco inquéritos contra o senador Aécio Neves.

Um deles foi a partir dos relatos de Sérgio Luiz Neves, superintendente da Odebrecht em Minas, e Benedicto Barbosa da Silva Junior.

Trata de esquemas que funcionaram quando Aécio estava no segundo mandato como governador de Minas Gerais.

Segundo os delatores, em 2007, o tucano operou para fraudar processos licitatórios, mediante organização de um cartel de empreiteiras, na construção da Cidade Administrativa, sede do governo.

O objetivo, dizem os colaboradores, era obter propinas com as obras.
Em fevereiro, o DCM explicou como funcionava o esquema. Estamos republicando a matéria, à luz da presença incontornável de Aécio na lista de Fachin.

A delação de um diretor da Odebrecht que envolve o ex-governador Aécio Neves no esquema de corrupção milionária para a construção da Cidade Administrativa pode ser a peça que faltava num quebra-cabeça que o Ministério Público de Minas Gerais tenta montar desde 2007, quando recebeu a denúncia de que as cartas estavam marcadas na maior licitação do governo da época.

Naquele ano, a promotora Elisabeth Vilella recebeu em seu gabinete um diretor da empreiteira Convap, que fazia parte do Consórcio liderado pela Construcap, com a denúncia de que houve fraude na concorrência para a construção da Cidade Administrativa, que custou aos cofres públicos de Minas Gerais 2,1 bilhões de reais.

O consórcio do qual faziam parte Construcap e Convap apresentou uma proposta que tinha o menor preço, mas ainda assim foi desclassificado. A Convap fez a denúncia ao Ministério Público e a Construcap foi à Juistiça e, mediante uma liminar, conseguiu ter seu nome incluído na relação dos licitantes.

Mas, por uma decisão do governo, a licitação foi suspensa até que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais derrubou a decisão de primeira instância. Foi então que um representante do consórcio Construcap/Convap procurou o Ministério Público de Minas Gerais e denunciou a trama, num depoimento formal.

O representante do consórcio deixou com a promotora Elisabeth Cristina dos Reis Villela o envelope com sua oferta na licitação. Era menor que todas as outras.

Ao mesmo tempo, a Construcap continuou com seu recurso no Poder Judiciário. Três anos depois, a Construcap desistiu do recurso, na mesma época em que assinou com o governo de Minas Gerais o contrato de Parceria Público Privada para administrar o Mineirão pelos 25 anos seguintes.

Com a desistência da Construcap na esfera judicial, o inquérito civil público perdeu força e, por decisão da promotora Raquel Pacheco, que havia herdado o caso, foi arquivado até o surgimento de novas provas.

As novas provas surgem agora, na delação da Odebrecht.

O presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Barbosa Júnior, contou “se reuniu com Aécio Neves (PSDB-MG) para tratar de um esquema de fraude em licitação na obra da Cidade Administrativa para favorecer grandes empreiteiras”, segundo a Folha de S. Paulo.

Depois da reunião, Benedicto foi orientado a procurar o presidente da Codemig (empresa do governo de Minas que construiu a Cidade Administrativa), que definiu o valor da propina a ser paga para o esquema de Aécio Neves: 2,5 a 3% do valor do contrato.

O presidente da Codemig era Oswaldo Borges da Costa Filho, o mesmo que a Construcap denunciou em 2007, por fraude na licitação.

“Com a delação da Odebrecht, a história fecha. Se quiserem esclarecer os fatos, é só desarquivar o inquérito civil, e acho que o Ministério Público de Minas Gerais não terá como fugir disso”, diz uma autoridade que acompanhou o depoimento do diretor da Convap.

Oswaldo e um dos carros de sua coleção
Oswaldo e um dos carros de sua coleção
Oswaldo Borges da Costa Filho é genro do banqueiro Gilberto de Andrade Faria (banco Bandeirantes), que morreu em 2008 e era casado com a mãe de Aécio – portanto, padrasto do senador.

Ele também foi “tesoureiro informal” da campanha de Aécio, segundo a denúncia de mais de um empreiteiro ouvido na Lava Jato.

Ao tomar posse de seu primeiro mandato como governador de Minas, Aécio chegou à Assembleia Legislativa num Rolls Royce, que, soube-se depois, estava em nome do seu “tesoureiro informal”.

Durante muito tempo, a Cidade Administrativa, que leva a assinatura de Oscar Niemeyer, foi a grande vitrine do governo Aécio Neves.

Foi apresentada como resultado do “choque de gestão”, e quando ele a inaugurou, em 2010, convidou muita gente, inclusive o ministro do STF, Gilmar Mendes, ao lado de quem Aécio aparece na revista Fotos & Festa (estilo Caras, edição número 51, de março de 2010).

Na mesma edição da revista, Aécio é retratado em outra solenidade, a de transmissão do cargo de governador para Antonio Anastasia. Numa das fotos, um Aécio sorridente está ao lado do amigo Luciano Hulk e da atriz Maitê Proença.

Aécio deixou o governo, mas não a relação estreita com seu “tesoureiro informal”. Eleito senador, ele foi visto algumas vezes se deslocando no jato PT-GAF (as iniciais de seu padrasto, Gilberto de Andrade Faria, então já falecido).

O avião particular, que alguns adversários chamavam de AeroAécio,  pertencia a uma empresa que também estava registrada em nome do seu “tesoureiro informal” e de Cemente Faria — filho do padrasto de Aécio –, a Banjet.

Ao se defender agora da delação do presidente da Odebrecht Infraestura, de que participou do conluio para beneficiar empreiteiras na construção da Cidade Administrativa, juntamente com Oswaldo Borges,  Aécio divulgou em que nega as acusações e diz:

“O edital de construção da Cidade Administrativa foi previamente apresentado ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado e as obras auditadas durante sua execução por empresa independente contratada via licitação pública, não tendo sido apontada qualquer irregularidade durante todo o processo”.

Curioso: em 2013, o então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que foi casado com uma prima de Aécio e tem três filhos com sangue Neves, foi homenageado num seminário organizado pelo Tribunal de Contas da União. O motivo: sua gestão era exemplo de retidão fiscal e seu governo, o único a submeter editais de licitação previamente aos Tribunais de Contas.

Hoje, Sérgio Cabral é presidiário de Bangu, acusado de assaltar os cofres públicos. Aécio continua com o discurso comum dos dois, o “choque de gestão”.

* * *

PS: A notícia do inquérito civil público com a denúncia da Construcap/Convap de que houve fraude na licitação para a Cidade Administrativa foi publicada pelo site Novo Jornal, de Minas Geais, que foi tirado do ar depois de uma ação movida por policiais e promotores ligados ao grupo de Aécio Neves. Seu proprietário, Marco Aurélio Carone, acabaria preso durante nove meses, em 2014, durante a campanha de Aécio a presidente.  Carone nunca foi condenado e, no entanto, durante seu cárcere, passou três meses em isolamento total.

Procurei a Construcap, à qual adiantei por escrito os principais pontos da reportagem. Entrei em contato também com o Ministério Público do Estado de Minas Gerais. A assessoria da construtora disse que nenhum diretor foi localizado para comentar. O Ministério Público ainda não se pronunciou sobre o desarquivamento do inquérito civil público, mas uma fonte do MP revelou que o órgão prepara a divulgação de uma nota, para dizer que, em 2016, outro inquérito foi aberto e a licitação da Cidade Administrativa já está sendo, outra vez, investigada.

A promotora que tocava o inquérito, Raquel Pacheco, pediu para sair da Promotoria Pública, depois que um colega seu, Eduardo Nepomuceno, que investigava a família do Zezé Perrella, foi punido pelo Conselho Nacional do Ministério Público, com remoção compulsória.

O jatinho que Oswaldo emprestava para Aécio
O jatinho que Oswaldo emprestava para Aécio

Joaquim de Carvalho
No DCM
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A República no Tribunal – 2: a terra arrasada é fértil para a ditadura


Lula, Dilma, Fernando Henrique, Aécio, Calheiros, Jucá, Temer, Maia, Eunício, Serra, Anastasia, Paes, Cabral, Mantega, Wagner, a lista vai até onde você quiser. E se alguém ficou fora, ainda há outras, além da Odebrecht, para mostrar os favores que fez.

A imagem acima, capa do site da Veja, mostra bem a culpa ampla, geral e irrestrita dos que foram escolhidos, sejam os de esquerda ou de direita.

Se é verdadeiro ou falso, pouco importa. Se é o método de financiamento das campanhas políticas sabido de todos, ou se é negociata para enriquecimento pessoal, também não tem relevância.

O que importa é que toda a política brasileira está nas mãos de homens que não foram escolhidos pela população.

Um acerto obscuro entre um juiz, promotores e policiais produziu “verdades” que, embora não sejam desprovidas de algum fundamento – porque está para aparecer uma democracia burguesa onde o dinheiro não busque o poder -, é hoje a alma mater da política no Brasil.

Trocamos a busca da felicidade pela “retidão moral” (ou o que a corporação punitiva e a mídia nos deixam ver  descuidada) e os rumos pelos juízos de honradez, apenas.

Pessoalmente, procuro ter ambos, mas sabendo que por isso este é o Tijolaço, blog modesto, não a Veja ou a Globo. Mas isso é ficar fora da disputa de poder e, mesmo na minha pequenez, sei que isso é um fustigamento, não uma guerra em que é, indispensavelmente, preciso vencer em nome do país e de seu povo.

A disputa política é uma guerra, como todas elas com seus lances ocultos e nada angelicais.

Estamos vendo um deles, agora, onde a direita corta fundo em sua própria carne, destruindo seus ícones, para buscar legitimar a exclusão de Lula da disputa de 2018.

Ou alguém acredita que o objetivo seria o de “restaurar a moralidade” quando se vive um processo que entrega o governo a escroques e a Presidência a um quadrilheiro que fica, explicitamente, fora do processo por uma questão temporal de seus achaques?

Quando se institui um governo que tem como “méritos” cortar verbas da Saúde, da Educação, pensões e aposentadorias humildes, vender as terras e os minérios do Brasil, entregar nosso agora abundante petróleo?

Só o que isso tem aberto de horizontes ao Brasil são neanderthals políticos, como Bolsonaro e Dória, nem mesmo uma alternativa conservadora minimamente capaz de conviver com a realidade, transformando-a.

O Brasil é terra fértil para os selvagens.

Se não entendermos isso e soubermos aglutinar as parcas resistências ao autoritarismo, agindo para além de um moralismo primário, estaremos condenados a viver sob o tacão de um suposto moralismo que legitima o saque corrupto da riqueza e do futuro deste pais, onde o “imoral” é alguém se aposentar aos 60 anos de idade e não sermos drenadores de nossas riquezas.

Eu quero que o futuro do meu país seja decidido nas urnas, não nos tribunais.

Nelas, quem condena e absolve sou eu, é você, somos todos.

Não merecemos ter sequer a chance de que alguém não nos usurpe este direito.

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Quanto menos entendemos, mais julgamos.” – Mia Couto


No ano de 2007, Mia Couto participou, em Campinas – SP, de um Congresso sobre leitura. O homenageado era o poeta Ferreira Gullar e Mia iniciou o seu discurso falando na importância de “desarmadilharmos” o mundo. Segundo ele, “compete-nos desarmadilhar o mundo para que ele seja mais nosso e mais solidário. Todos queremos um mundo novo, um mundo que tenha tudo de novo e muito pouco de mundo. A isso chamaram de utopia.”

O escritor passa, então, a discorrer sobre as armadilhas do mundo contemporâneo, abordando desde o maniqueismo até a “biologização da identidade” que, segundo ele, são itens a serem “desarmadilhados”.

Esta intervenção de Mia Couto foi registrada no livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, onde poderá ser lida em sua integralidade. Segue o texto de Mia Couto:

As armadilhas de dentro

A nossa tentação é quase sempre maniqueísta. A visão simples que separa os “bons” dos “maus” é sempre a mais imediata. Quanto menos entendemos, mais julgamos.

A cilada maior é acreditarmos que as armadilhas estão sempre fora de nós, num mundo que temos por cruel e desumano. Ora, por muito que nos custe, nós somos também esse mundo. E as armadilhas que pensávamos exteriores residem profundamente dentro de nós. Quebrar as armadilhas do mundo é, antes de mais, quebrar o mundo de armadilhas em que se converteu o nosso próprio olhar. Precisamos de passar um programa antivírus pelo nosso hardware mental. Escolhi falar dessas ratoeiras interiores que nos convertem em nómadas deambulando entre ecos e sombras.

A armadilha da realidade

Uma das primeiras armadilhas interiores é aquilo que chamamos de “realidade”. Falo, é claro, da ideia de realidade que actua como a grande fiscalizadora do nosso pensamento. O maior desafio é sermos capazes de não ficar aprisionados nesse recinto que uns chamam de “razão”, outros de “bom-senso”. A realidade é uma construção social e é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. Nós não temos sempre que a levar tão a sério.

Quando Ho Chi Minh saiu da prisão e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos tão cheios de ternura numa prisão tão desumana ele respondeu: “Eu desvalorizei as paredes”. Essa lição se converteu num lema da minha conduta. Ho Chi Minh ensinou a si próprio a ler para além dos muros da prisão. Ensinar a ler é sempre ensinar a transpor o imediato. É ensinar a escolher entre sentidos visíveis e invisíveis. É ensinar a pensar no sentido original da palavra “pensar” que significava “curar” ou “tratar” um ferimento. Temos de repensar o mundo no sentido terapêutico de o salvar de doenças de que padece. Uma das prescrições médicas é mantermos a habilidade da transcendência, recusando ficar pelo que é imediatamente perceptível. Isso implica a aplicação de um medicamento chamado inquietação crítica. Significa fazermos com a nossa vida quotidiana aquilo que fizemos neste congresso que é deixar entrar a luz da poesia na casa do pensamento.

A armadilha da identidade

A mais perigosa armadilha é aquela que possui a aparência de uma ferramenta de emancipação. Uma dessas ciladas é a ideia de que nós, seres humanos, possuímos uma identidade essencial: somos o que somos porque estamos geneticamente programados. Ser-se mulher, homem, branco, negro, velho ou criança, ser-se doente ou infeliz, tudo isso surge como condição inscrita no ADN. Essas categorias parecem provir apenas da Natureza. A nossa existência resultaria, assim, apenas de uma leitura de um código de bases e nucleótidos.

Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma. Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade. Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente.

A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela não nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se não nos deixarmos dissolver por outras identidades e não reacordarmos em outros corpos, outras vozes.

A questão não é apenas do domínio de técnicas de decifração do alfabeto. Tratase, sim, de possuirmos instrumentos para sermos felizes. E o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil
mesmo é sermos os outros.

A armadilha da hegemonia da escrita

Uma terceira armadilha é pensar que a sabedoria tem residência exclusiva no universo da escrita. É olhar a oralidade como um sinal de menoridade. Com alguma condescendência, é usual pensar a oralidade como património tradicional que deve ser preservado. O culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade.

Certa vez, um menino de rua em Maputo veio-me devolver um livro que ele vira nas mãos de uma estudante à saída da escola. Notando a minha fotografia na capa, esse menino acreditou que a estudante me tinha roubado o livro. Me comoveu esse menino que atravessou a cidade para me devolver algo que, no entender dele, me pertencia. Mas o que ele me entregava era mais do que um objecto. Ele me entregava a inquietação profunda, a interrogação: a quem pertence realmente um livro? Ele é nosso porque o adquirimos, sim. O livro deve ser objecto e mercadoria para chegar às nossas mãos. Mas só somos donos desse objecto quando ele deixa de ser objecto e deixa de ser mercadoria. O livro só cumpre o seu destino quando transitamos de leitores para produtores do texto, quando tomamos posse dele como seus co-autores.

A mais importante linha divisória em Moçambique não é tanto a fronteira que separa analfabetos e alfabetizados, mas a fronteira entre a lógica da escrita e a lógica da oralidade. A absoluta maioria dos 20 milhões de moçambicanos vive e funciona num tipo de racionalidade que tem pouco a ver com o universo urbano. Mas em Moçambique, como no resto do mundo, a lógica da escrita instalou-se com absoluta hegemonia. Nesses casos, pressupostos filosóficos do mundo rural correm o risco de ser excluídos e extintos. Algumas das ideias que venho defendendo nesta comunicação estão claramente presentes na epistemologia da ruralidade africana. A concepção relacional da identidade, inscrita no provérbio: “Eu sou os outros”; a ideia de que a felicidade se alcança não por domínio mas por harmonias; a ideia de um tempo circular; o sentimento de gerir o mundo em diálogo com os mortos: todos estes conceitos constam da rica cosmogonia rural africana. É evidente que não se pode romantizar esse mundo não urbanizado. Ele necessita de enfrentar o confronto com a modernidade. O desafio seria alfabetizar sem que a riqueza da oralidade fosse eliminada. O desafio seria ensinar a escrita a conversar com a oralidade.

Não são só os livros que se lêem

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

Lembrei aqui o episódio do menino de rua porque tudo começa aí, na infância. A infância não é um tempo, não é uma idade, uma colecção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo.

A verdade é que mantemos uma relação com a criança como se ela fosse uma menoridade, uma falta, um estado precário. Mas a infância não é apenas um estágio para a maturidade. É uma janela que, fechada ou aberta, permanece viva dentro de nós.

Recordo-me de que a guerra tinha deflagrado no meu país e o meu pai me levava a passear por antigas vias-férreas à procura de minérios brilhantes que tombavam dos comboios. Em redor, havia um mundo que se desmoronava mas ali estava um homem ensinando o seu filho a catar brilhos entre as poeiras do chão. Essa foi uma primeira lição de poesia. Uma lição de leitura do chão que todos os dias pisava. Meu pai me sugeria uma espécie de intimidade entre o chão e o olhar. E ali estava uma cura para uma ferida que eu não saberei nunca localizar em mim, uma espécie de memória de alguém que viveu em mim e fechou atrás de si um cortinado de brumas.

Pois eu vivo praticando a lição de leitura do meu pai que promove o chão em página. E estou aplicando o ensinamento de Ho Chi Minh que despromove a prisão em possibilidade de página. Deste modo aprendendo algo que sei que nunca chegarei a saber.

Enquanto escrevia o meu romance O último voo do flamingo viajei pelo litoral do sul de Moçambique à procura de mitos e lendas sobre o mar. Mas tal não aconteceu. Dificilmente havia histórias ou lendas. O imaginário destes povos pertencia invariavelmente à terra firme. Apesar de habitarem o litoral, os seus sonhos moravam longe do oceano.

Aos poucos fui entendendo — aquelas zonas costeiras eram habitadas por gente que chegou recentemente à beira-mar. São agricultores-pastores que foram sendo empurrados para o litoral. A sua cultura é a da imensidão da savana interior. Em suas línguas não existem palavras próprias para designar barco. O pequeno barquinho toma o nome a partir do inglês — bôte. O navio grande é chamado de xitimela xa mati (literalmente, “o comboio da água”). O próprio oceano é chamado de “lugar grande”. Pescar diz-se “matar o peixe”. Deitar a rede é “peneirar a água”.

As armadilhas de pesca são construídas à semelhança daquelas usadas na caça. Os territórios de colecta de mariscos na praia são parcelados e sujeitos a pousio, exactamente como se faz nos terrenos agrícolas. Ao contrário do que sucede no centro e no norte de Moçambique, estes povos pescam sem serem pescadores. São lavradores que também colhem no mar. O seu assunto continua sendo a semente e o fruto. Os seus sonhos moram em terra e os deuses viajam pela chuva.

Nós estamos todos como esses povos que desconheciam a relação com o mar. O chamado “progresso” nos empurrou para uma fronteira que é recente, e olhamos o horizonte como se fosse um abismo sem fim. Não sabemos dar nome às coisas e não sabemos sonhar neste tempo que nos cabe como nosso. Os nossos deuses dificilmente têm moradia no actual mundo.

Mas é exactamente nesse espaço de fronteira que estamos aprendendo a ser criaturas de fronteira, costureiros de diferenças e viajantes de caminhos que atravessam não outras terras mas outras gentes. A poesia de Gullar deu mote a este encontro. O poeta Gullar defende que a poesia tem por missão desafiar o impossível e dizer o indizível. O que o poeta faz é mais do que dar nome às coisas. O que ele faz é converter as coisas em aparência pura. O que o poeta faz é iluminar as coisas. Como nos versos com que encerro:
Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.
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