6 de abr de 2017

Jair Bolsonaro na Hebraica mostra o racha irreconciliável entre ser esquerda e sionista


A ida do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ) ao Clube a Hebraica do Rio de Janeiro gerou muita polêmica entre nós, judeus brasileiros. A perplexidade decorreu tanto pelas frases racistas que proferiu quanto pela iniciativa de tão relevante instituição da comunidade judaica convidar uma personalidade ligada a um setor de extrema direita que se aproxima do fascismo para discursar e ser amplamente aplaudida pelo seu público majoritariamente judaico. Inconformados, mais de 200 jovens judeus do Rio de Janeiro se juntaram na frente do clube para denunciar a visita do parlamentar em um movimento que assumiu a hashtag #NãoEmNossoNome.

Um dos mais marcantes detalhes do cenário do discurso do deputado é que, atrás dele, aparecia com grande destaque a bandeira de Israel. Não parece raro que aqueles que advogam pelo Estado Judaico aplaudam e elogiem como um  “mito” um candidato que propôs cortar fundos de ONGs, armar a população e acabar com demarcações de terras para populações indígenas e quilombolas, afinal todas estas práticas são comuns em Israel.



Um detalhe que chamou a minha atenção foi ver que os jovens que protestavam do lado de fora do clube, mesmo mobilizados por ideais de esquerda e fortemente contrários à presença de Bolsonaro nesse espaço judaico, carregavam a mesma bandeira de Israel presente no palco onde o deputado discursou.



Eles cantavam “Judeu e Sionista não apoia fascista”. Para a maioria dos setores de esquerda, existe uma contradição entre “sionista” e “de esquerda”. Historicamente, esses se posicionam solidários à luta palestina e veem o movimento sionista como um dos últimos bastiões da colonização europeia no Oriente Médio.

Quando se conversa com sionistas de esquerda, é comum perceber que em quase todos os aspectos da política eles estão alinhados com a esquerda brasileira. Claro que há aqueles mais radicais e aqueles menos, da mesma forma como existe na esquerda. Porém, quando o assunto se torna a Questão Palestina, surge um grande abismo entre ambos os lados. Isso não é por acaso.

Desde pequenos, nós que somos criados dentro da comunidade judaica fomos expostos à bandeira de Israel e a um bombardeio de informações e apelos emocionais que buscam solidificar uma narrativa na qual Israel surge como a oportunidade para os judeus de atingirem a sua emancipação. Na educação sionista, seja de esquerda ou de direita, a bandeira de Israel é a bandeira da liberdade.

Obviamente que essa narrativa esconde o racismo que o sionismo trouxe enraizado de sua origem europeia e colonial. A partir do momento que Israel se define como democracia judaica exclui a possibilidade de outras minorias se sentirem parte do país.

A constante preocupação em manter uma maioria de judeus à força apenas comprova que, desde a sua origem, o Estado pretende servir a uma população específica. Para isso foi necessário expulsar forçosamente a população nativa palestina que lá habitava. A concretização da ideia de que seria apenas num espaço exclusivo, no qual judeus poderiam encontrar segurança, paz e liberdade, levou à criação de um regime excludente.

Independentemente se é de esquerda ou de direita, o que une a todos os sionistas é enxergar a sua judaicidade como uma característica inata e imutável. Algo com o qual se nasce, e que nunca alguém poderá apagar de sua essência. Nessa perspectiva, ser judeu é uma condição imposta e à qual os judeus têm que se acostumar ao longo de suas vidas. Por isso, apenas na segregação que haveria a  possibilidade de ser livre, já que a judaicidade se tornaria implícita e assumiria um lugar secundário.

Novas formas de judaísmo têm surgido pelo globo. São judeus que entendem sua identidade como algo socialmente construído e, portanto, forjado em conjunto e em relação com seus vizinhos. Jovens que não apenas não acreditam na segregação, mas, contrariamente a isso, só conseguem se ver como judeus a partir da troca de valores com outras culturas. Estes jovens, que não precisam de um Estado, acreditam que apenas na convivência plena num país laico e democrático – onde vivam lado a lado com os palestinos, gozando dos mesmos direitos – é que sua identidade judaica fará sentido. Ser judeu pode ser o que bem quisermos, e nossa relação com o mundo pode se construir a partir desta nova identidade.
Em tempos de Bolsonaros, Trumps, Le Pens e outros fascismos ganhando força, Israel torna-se cada vez mais uma referência para esses grupos de extrema direita.
No dia 26 de março, mais de mil jovens judeus saíram às ruas em Nova Iorque para protestar contra o encontro anual do AIPAC (lobby americano pró-Israel) e seu apoio ao governo Donald Trump. O grupo If Not Now, responsável pela mobilização, deixa claro na sua página que sua proposta é ser uma resistência judaica ao novo presidente norte-americano. Nessa manifestação não se viu nem uma única bandeira de Israel, pelo contrário, houve apelos em solidariedade ao povo palestino, ao movimento Black Live Matters e contra a violência policial dirigida a qualquer população.



Em tempos de Bolsonaros, Trumps, Le Pens e outros fascismos ganhando força, Israel torna-se cada vez mais uma referência para esses grupos de extrema direita, fazendo cair sua máscara progressista. O projeto do Estado de Israel inspira muito a formulação do pensamento destes políticos. Um Estado onde haja uma maioria planejada, onde o voto se torne irrelevante já que os resultados de todas as eleições estão expressos no próprio nome do regime: Democracia Judaica. No caso de Bolsonaro, basta acessar os registros feitos de sua última viagem ao país feita em 2016 nos quais demonstra como o Brasil deveria se inspirar no caráter bélico e nos sistemas de vigilância e controle impostos aos palestinos.

O que deixa a nós judeus brasileiros de esquerda inconformados vai além do discurso de  Bolsonaro em frente a uma bandeira de Israel. O problema real é perceber que, progressivamente, os tradicionais apoiadores do Estado judaico se aproximam do emergente fascismo e vice-versa, deixando a esquerda sionista num limbo cada vez mais explícito entre a esquerda antissionista e a direita pró-Israel. O dilema que vivemos hoje se expressa de maneira clara na ida de Bolsonaro à Hebraica. Será que essa instituição judaica, que é declaradamente sionista, errou ao convidar o deputado para discursar? Ou será que isso era o esperado vindo de um grupo que apoia as políticas segregacionistas do Estado Israel? Talvez tenha chegado a hora de aposentar a bandeira azul e branca. Quem sabe, para atingir a verdadeira emancipação judaica, o que realmente precisamos é nos emancipar da narrativa sionista e de Israel.

Shajar Goldwaser
No Intercept Brasil
Leia Mais ►

Confraria e Promiscuidade da Direita na Lava Jato


Osvaldo Bertolino - O outro lado da notícia

Leia Mais ►

Novo ministro do TSE indica que Corte pode absolver Temer levando em conta também momento do país


O advogado e futuro ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Admar Gonzaga indicou que a Corte poderá eventualmente decidir absolver o atual presidente Michel Temer e punir apenas a ex-presidente Dilma Rousseff no julgamento da chapa vitoriosa em 2014 levando em conta não apenas o que está nos autos da ação, mas também o atual momento do país.

“Não só a circunstância política e econômica, mas a circunstância do jogo político à época (da eleição)”, disse Gonzaga em entrevista exclusiva à Reuters, em seu escritório de advocacia, na quarta-feira.

Gonzaga, que assume o mandato no dia 16 no lugar do ministro Henrique Neves, citou a Lei de Inelegibilidade (Lei Complementar 64 de 1990) em seu artigo 23.

“O tribunal formará a sua convicção pelo livre convencimento de fatos públicos e notórios, desde que preservem o interesse público e lisura eleitoral”, disse. “Isso deve ser aplicado a todos, a gente tem que julgar diante da nossa visão do ambiente político.”

O advogado argumentou ainda que todo juiz “tem responsabilidade política”.

“Um juiz de primeiro grau da instância de piso, tem responsabilidade com aquilo que faz na comarca. No TSE, nós temos a participação de três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal por conta do viés constitucional e os ministros são guardiões de uma carta política”, disse. “O TSE tem responsabilidade política, tem que observar todos os elementos que seja razoável e proporcional.”

O futuro ministro do TSE disse que o depoimento do casal João Santana, marqueteiro da campanha de Dilma e Temer em 2014, e da mulher dele, Mônica Moura, podem trazer “elementos fundamentais” para o julgamento porque trabalharam na eleição.

Ele observou, entretanto, que com base nas informações vazadas até o momento pela imprensa o casal foi “bastante enfático” a respeito da não-participação de Temer nas supostas irregularidades e que o TSE terá de analisar essa circunstância no julgamento.

Gonzaga disse que a tese da separação de contas da campanha entre o titular e o vice –que vem sendo advogado pela defesa de Temer para livrá-lo de punição– não é um entendimento consolidado pelo TSE e que há, sim, casos de pena a um e não a outro. Questionado se teria simpatia pela tese, ele se esquivou.

“Eu não tenho como te avaliar e se tivesse, pela legislação, não poderia te adiantar porque é ilegal.”

Os comentários de Gonzaga ocorrem num momento em que tanto governo como líderes empresariais defendem a importância da estabilidade política para que a retomada da confiança e da atividade econômica não sejam prejudicadas.

O futuro ministro concordou com a extensão de prazo à defesa pelo TSE para apresentação de alegações finais.

“Porque essa questão poderia chegar, por cerceamento de defesa, ao Supremo Tribunal Federal e aí que se teria um prejuízo enorme para o enceramento desse processo.”

Mas discordou da decisão tomada na terça-feira pelo tribunal de tomar o depoimento de quatro novas testemunhas do processo ao considerar que essa posição pode atrasar ainda mais o julgamento da chapa Dilma-Temer e abrir margem para novos pedidos, por exemplo, de diligências e perícias.

“Se a gente continuar nessa toada, o processo fica nessa coisa sem limite e sem termo”, avaliou.

Ainda assim, ele considera que o julgamento pode ser concluído até agosto pelo TSE.

Odebrecht

O advogado afirmou que a Corte também vai analisar uma eventual exclusão de provas do processo, como a delação feita por executivos da Odebrecht, por não constar do objeto inicial do pedido, segundo alegam as defesas de Dilma e Temer. Segundo ele, a causa tem de ser bem delimitada.

“Não pode ficar aí atirando em qualquer lugar e depois ver quem você matou”, disse.

Gonzaga brincou com a torcida de integrantes do Palácio do Planalto de que, empossado, votará para absolver Temer. Afirmou que é natural essa torcida pelos governistas, mas, questionado se pode haver surpresas, frisou: “É que nem futebol, você está torcendo e pode ser surpreendido pelo adversário”.

Gonzaga disse que não vai se declarar impedido para julgar Dilma-Temer, mesmo tendo sido advogado da mesma chapa na eleição anterior, a de 2010. Ressaltou que não se envolve com as pessoas da causa, mas apenas com a causa e frisou já ter advogado para a chapa adversária do PT nas eleições de 2002 e 2006.

“Sou advogado, advogado é isso. Eu não me envolvo com um criminoso porque eu advoguei para um criminoso. Se eu advogar na matéria penal para alguém que cometeu um crime eu vou fazer o meu trabalho para dar um tratamento de justiça adequado”, resumiu.

Ricardo Brito
Leia Mais ►

A Reforma da Previdência é uma mentira

É para engordar a Globo!


Leia Mais ►

Globo e Itaú sustentam “movimento” que apoia reforma de Temer


O Estadão noticia que ” foi lançado um novo movimento favorável à mudança [da Previdência], batizado de Apoie a reforma, cujo objetivo é esclarecer a população sobre a questão e pressionar os parlamentares a aprovarem a medida”. O “movimento” que usa vídeos de propaganda em favor das propostas de Temer, tem como articulador  Luiz Felipe d’Avila, “presidente do Centro de Liderança Pública, uma organização voltada para a formação de líderes governamentais”.

Faltou, porém, dizer quem são os dirigentes e financiadores deste Centro, informação que está disponível na internet e deveria ser relevante quando se quer mostrar ao leitor que interesses movem esta posição.

Integram o Conselho Diretor  – veja o time – os senhores João Roberto Marinho (Globo), Ana Maria Diniz (ex-Pão de Açúcar). Eduardo Muffarej (Abril Educação), Fábio Barbosa (ex-Santander e ex-Abril), entre outros, e é mantido pelo BTG Pactual (André Esteves e Persio Arida), pelo Armínio Fraga, o bancos Credit Suisse e Itaú, Shoppings Iguatemi e Bovespa.

Gente, claro, extremamente preocupada em ter com o que sobreviver na velhice.

É a “sociedade civil”, não é , Dra. Cármem Lúcia, participando do debate democrático com o discurso terrorista que a gente antecipou aqui:

“A Previdência é uma bomba-relógio que precisa ser desarmada ou não haverá dinheiro para pagar a aposentadoria.”, diz o tal “movimentista”.

Só haverá para pagar aos bancos, à Globo, aos ricos…

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Greve geral na Argentina interrompe circulação de trens, ônibus e aviões

Houve queda no tráfego de veículos em Buenos Aires, e empresa Aerolineas Argentinas cancelou voos nacionais e internacionais; ato é para protestar contra medidas econômicas de Macri


A Argentina começou esta quinta-feira (06/04) com uma greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), para protestar contra as medidas econômicas do governo de Mauricio Macri, com grande impacto no transporte público. Há piquetes por todo o país.

Houve uma grande queda no tráfego de veículos a partir da meia-noite (hora local), na Grande Buenos Aires, com relação aos dias normais de trabalho.

Poucos veículos de transporte público estão funcionando – praticamente, somente os táxis estão circulando pelas ruas da capital argentina. Também diminuiu o trafego de caminhões que circulam à noite pelas avenidas Huergo e Madeiro, que ligam os principais setores portuários de Buenos Aires.

A empresa Aerolíneas Argentinas cancelou seus voos nacionais e internacionais, que sairiam dos aeroportos de Ezeiza e Aeroparque, por conta da greve, da qual participam a Associação do Pessoal Técnico Aeronáutico (APTA) e a Associação do Pessoal Aeronáutico (APA).

Avenida Madero, em Buenos Aires, completamente vazia nesta manhã por conta da greve geral
O governo de Buenos Aires decretou a gratuidade dos pedágios das estradas e dos estacionamentos públicos durante o dia de greve, a fim de incentivar os trabalhadores a comparecerem em seus postos de trabalho em seus próprios veículos.

O ministro do Sistema Federal de Meios Públicos, Hernán Lombardi, disse, em entrevista à emissora TN, que há uma “dimensão política” no ato patrocinada pela oposição. Para o representante da Casa Rosada, esses grupos teriam passado a vislumbrar uma “melhora na situação econômica” do país. Lombardi denunciou também a existência de “lideranças ocultas” que estariam planejando uma “interrupção abrupta” do governo de Mauricio Macri.

Os índices econômicos, no entanto, não apontam para esta melhora na economia citada por Lombardi. Em fevereiro, a inflação no país, por exemplo, atingiu 2,5%, de acordo com números divulgados pelo Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos). Em janeiro, o aumento havia sido de 1,3% e, em 12 meses, o índice já atingiu 25,4%, com crescimento de 3,5% só no primeiro bimestre do ano.

A meta do Banco Central do país é de 17% para 2017, mas analistas ouvidos pela imprensa do país já consideram difícil que ela seja atingida, tamanho o incremento nos dois primeiros meses. A título de comparação, os mercados esperam para o Brasil, neste ano, uma inflação – no acumulado dos 12 meses – em torno de 4,5%.

A greve coincide com a realização em Buenos Aires do Fórum Econômico Mundial para a América Latina.

No Desacato
Leia Mais ►

Nildo Ouriques - Palestra na UFFS (Chapecó-SC)


Leia Mais ►

Como o “gestor” Doria escapou da condenação na Embratur por um voto político do TCU

Ele
O prefeito de São Paulo, João Doria, gosta de se definir como um gestor, não um político. Mas a leitura do relatório do processo a que ele respondeu no Tribunal de Contas da União (TCU) permite várias conclusões, menos a de que fez boa gestão como presidente na Embratur, entre 1987 e 1988.

Os inspetores do TCU encontraram nas contas de Doria “impropriedades de várias ordens”, como a contratação de empresa sem o julgamento das propostas dos concorrentes e a “não contabilização de verbas obtidas em convênio no exterior” (em bom português, desvio).

Os técnicos do Tribunal também identificaram repasses de dinheiro público a outras entidades sem a celebração de convênio ou a assinatura de contrato, e a falta de prestação de contas por parte de instituições que receberam os recursos.

A lista de “impropriedades” é grande. Os fiscais descobriram que assessores de Doria recebiam diárias para viagem ao exterior, mas ficavam no Brasil mesmo, às vezes recebendo verbas de empresas terceirizadas.

Na administração de Doria, os dirigentes, assessores e parentes recebiam de presente passagens aéreas e outros benefícios de prestadores de serviços, em situação de flagrante conflito de interesses.

Dois negócios foram definidos como especialmente “ruinosos” para a administração pública: a locação de programas de computação junto à empresa PROCON Informática Ltda. e a contratação, sem licitação, da FOCO-Feiras, Exposições e Congressos Ltda., para realização de eventos turísticos, no Brasil e no exterior.

Segundo auditoria realizada nas contas da gestão Doria logo depois que ele deixou a Embratur, a Foco, além de ter sido contratada sem licitação, celebrava contratos aditivos, que elevavam os preços a patamares que foram considerados muito acima dos de mercado.

O dono da Foco, Luiz Octávio Themudo, chegou a responder a uma ação popular na Justiça Federal no Rio de Janeiro, juntamente com João Doria, por superfaturamento nos contratos com a Embratur.

Captura de Tela 2017-04-06 às 08.09.03

Alguns anos depois, quando participava da organização da Eco-92, teve a prisão decretada sob a acusação de desvio de dinheiro para a organização de uma feira – esta realizada por outra instituição, não a Embratur.

Em sua defesa no processo do TCU, João Doria disse o que pode ser interpretado como “eu não sabia de nada” e colocou a culpa nos assessores e outros diretores – ele disse que, como presidente, não era sua atribuição verificar a contabilidade da Embratur.

O argumento não foi aceito, mas Doria acabou livre da condenação, por um entendimento expresso no voto do ministro Adhemar Paladini Ghisi, ex-deputado federal, e aceito pelos demais colegas da corte.

No julgamento realizado em 1994, Ghisi concordou com a defesa de Doria em alguns pontos. A culpa pela desordem orçamentária e financeira da Embratur foi debitada da conta da alta inflação do período, da moratória da dívida externa, que exigiria rapidez nas decisões, e da mudança da personalidade jurídica da Embratur – que havia deixado de ser empresa pública e se transformado em autarquia.

Pela fragilidade da fundamentação, fica claro que a aprovação das contas de Doria “com ressalvas” foi uma decisão política do TCU, que contrariou a conclusão do ministério público, de auditores e dos inquéritos administrativos realizados pela própria Embratur.

É irônico contatar que o homem que se apresenta como “gestor”, não político, tenha sido salvo por um voto político do TCU. Na Embratur sob Doria, em 1988, era difícil separar o privado do público, como mostrou o esse processo no TCU.

Qualquer semelhança com a prefeitura de São Paulo em 2017, com doações que se confundem com orçamento, certamente não é mera coincidência.

É a marca de um estilo. Ou seria de um método?

Esta é a primeira reportagem da série financiada pelos leitores através de crowdfunding.

Joaquim de Carvalho
No DCM
Leia Mais ►

Em comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa. O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem - ou, mais provavelmente, a mulher - sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala? O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos. A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam. No século 17, um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês. (Sempre a má vontade com os franceses.) Na sua infância - a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” -, a humanidade não produzia palavras, mas, certamente, produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum. Foi chamada de “teoria bow wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão. Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava Jato, etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Projeto contra abuso de poder encontra uma via inesperada

O destino do projeto contra abuso de autoridade entra em inesperada via e ruma para o que tanto pode ser o êxito, como um confronto agravante da crise. Entusiastas e exploradores dos vazamentos da Lava Jato contra Lula e o PT, as eminências e as bancadas do PSDB movem-se agora para articular medidas contra os vazamentos.

Espicaçadas por Aécio Neves, estão indignadas com o vazamento que acusa esse seu chefe de receber alto suborno da Odebrecht, por intermédio de uma conta da irmã em banco de Nova York. Os peessedebistas passam a achar que o projeto contra abuso, por eles rejeitado, é mesmo necessário.

De fato, está demonstrado que sem uma lei rigorosa, os atingidos por vazamentos ficam à mercê dos que façam usos políticos e pessoais das acusações. Os conselhos nacionais do Ministério Público e da Justiça, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal nada se dispuseram a fazer contra os vazamentos que vêm desde 2014.

Se por serem contra Lula e o PT, não vem ao caso. No reconhecimento recente da própria presidente do Supremo, Cármen Lúcia, eram e são crimes. Permitidos, explorados, aplaudidos. E sensacionalizados em imprensa e em TV. Um atrás do outro, dezenas.

O vazamento contra Aécio e sua irmã Andréa não inclui sequer indício. Está negado por ambos. Como tantos outros, é um vazamento esquisito. Há algum tempo, ao menos parte da Lava Jato está irritada com seus aliados no Congresso, dada a falta de combatividade com que acompanham a gestação do projeto contra abuso de autoridade – uma ameaça de ferir de morte muitos usos e abusos que estão na alma da Lava Jato e no cerne da ação de Sérgio Moro.

Rodrigo Janot, por seu lado, acabou por ir ele mesmo ao Senado com sugestões para moderação do projeto. É estranhável, sim, o repetido lançamento do protegido Aécio no fogaréu da Odebrecht, passado tão pouco de sua festiva e pública confraternização com Sérgio Moro. (Graças a esse momento, descobriu-se um traço de Moro: ele ri).


Aécio ficou de pedir ao ministro Edson Fachin uma "investigação rigorosa" do vazamento. Em causa própria, os peessedebistas se mexem. Se isso confirmar também a disposição de apoiar o projeto contra o abuso de autoridade, a aprovação está garantida. E a reação da Lava Jato, prometida.

A protelação

A defesa de Dilma defendeu, como a de Temer, a protelação do julgamento de ambos no Tribunal Superior Eleitoral. Têm o que comemorar. Só se não perceberam que, com a protelação, Dilma ficou absolutamente vulnerável. Espichado o julgamento até o ano que vem, como agora está previsto, ficará mais fácil e menos escandaloso deixar Temer completar o pequeno restante do mandato, e a ela cassar, impedindo sua (provável) candidatura.

A vitória

Durante seus dois mandatos, o equatoriano Rafael Correa foi tratado pelo jornalismo brasileiro como um presidente tirânico, inimigo da imprensa democrática e administrador fracassado.

Quem acompanha os países latino-americanos sabe o que sempre foi a imprensa equatoriana, como sabe que Correa deixa substancial redução da pobreza e muitos outros feitos de justiça social. Quanto ao seu autoritarismo, não foi mais do que o pulso forte que lhe permitiu bem concluir dois mandatos, eleger o sucessor e fazer maioria parlamentar, em um país que apenas nos dez anos anteriores tivera sete presidentes e três golpes de Estado consumados.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►