2 de abr de 2017

Paraguai, um relato desde dentro


Relato e análise da jornalista Desirée Esquivel sobre os fatos que se sucederam no Paraguai, culminando com a queima do Congresso.

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A minha despedida de Luís Roberto Barroso


É a última vez que critico o Ministro Luís Roberto Barroso, e por uma razão bastante objetiva.

Até então, minha indignação com ele era devido ao fato de aparentar ser uma referência em direitos civilizatórios (termo, aliás, que ele gosta de utilizar). Quem tem essa dimensão, tem que ter uma responsabilidade correspondente.

Mas, à medida em que o tempo passa, fica claro meu erro de avaliação: o Ministro Luís Roberto Barroso é apenas um Ayres Brito ao creme brulle.

Os grandes humanistas – os agentes “civilizatórios”, como gosta de apregoar Barroso – sempre conseguiram enxergar o outro como expressão de toda a humanidade. Seriam capazes de se indignar com reformas que condenam idosos pobres à morte antecipada, que tiram direitos de pessoas com deficiência, que abrem mão da universalização da educação, que reduzem o acesso dos mais pobres à universidade.

Por outro lado, os verdadeiros estadistas enxergam nas políticas públicas o modo de garantir a coesão social, criar um país próspero e justo, através do aproveitamento das potencialidades de toda a população, com a universalização de oportunidades.

O humanismo seletivo, que não consegue olhar além do seu meio social, é próprio do humanismo de boutique, que trata os grandes valores civilizatórios apenas como um modismo, o deslumbramento de brilhar em um salão, como se fosse um farol em meio aos botocudos, do mesmo modo que identificam o último filme da moda, o passam dicas sobre o último livro que encanta os círculos intelectuais de Nova York.

Minhas desculpas, então, ao Ministro Barroso, por exigir dele algo que estava a léguas de distância de sua verdadeira dimensão como homem público. Barroso está despedido de minha relação de implicâncias. Entre outros motivos por não passar de um intelectual do eixo Rio-Miami.

Luís Nassif
No GGN
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10 dicas para você saber identificar notícias falsas na era da pós-verdade

Um guia básico em 10 passos para todos aqueles que não querem ser vítimas da desinformação, nem querem correr o risco de compartilharem "fake news" com parentes e amigos, por prezarem a verdade dos fatos e a credibilidade jornalística.


Desde que a palavra pós-verdade foi escolhida como a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2016 [1], uma luz de alerta se acendeu no já antigo problema da proliferação de falsas notícias e informações.

O conceito de pós-verdade implica em que notícias e informações podem ser usadas politicamente para atingir as pessoas não pelo seu teor de veracidade e sim pelo seu impacto no público: ao trazer à tona emoções e reações mais fortes ou exageradas do que uma notícia verdadeira causaria.

Tendo sido comprovada a influência e relação de tais notícias sendo viralizadas pelas redes sociais e os resultados das eleições americanas [2], podemos ver que nem tudo é apenas uma brincadeira quando se trata da crescente fábrica de páginas e sites que produzem e disseminam essas informações.

Tão preocupante quanto o fato de boatos, meias verdades e explicitamente falsas notícias terem tido peso real numa eleição presidencial em um país como os Estados Unidos, é o fato de que muitos de nós não estamos sendo capazes de diferenciá-las da verdade.

Um estudo feito pela Universidade de Stanford apontou que entre mais de 7 mil jovens em idade escolar, a maioria não conseguia discernir entre notícias reais e falsas, inclusive entre perfis reais e falsos dentro das mídias sociais, contrariando a crença de que as crianças já nascidas e integradas à vida nas redes teriam mais facilidade em detectar estas mentiras ou saberiam usar ferramentas que as ajudassem a chegar na informação correta. [3]

No Brasil, a assustadora quantidade de sites de notícias falsas e as infames correntes de Whatsapp também já vem causando grandes discussões no âmbito familiar, escolar e do trabalho, muitos parecem não ter o interesse em ponderar no que está sendo compartilhado antes de apertar o botão de enviar.

Este artigo tem como objetivo trazer a vocês as ferramentas necessárias para identificar notícias falsas. O debate sobre as razões da existência de tais notícias e os impactos que elas causam é amplo e pode ser tratado sob inúmeras óticas (sociologicamente, filosoficamente, politicamente…), mas por hora, vamos focar em ter a munição contra esta crescente avalanche de desinformação, aprendendo a identificar notícias falsas em 10 passos.

1. Faça uma análise do veículo de informação



Inúmeros sites de notícias falsas fazem um ótimo trabalho para suas publicações parecerem reais. Para conseguir isso, recorrem apelando a uma identidade visual bem feita, usando recursos gráficos, como imagens, animações e vídeos. Qualquer site que invista em sua identidade visual pode passar uma aura de credibilidade e autenticidade. Existem até mesmo sites que copiam descaradamente a identidade visual de portais de notícias para se passarem por verdadeiros.

Para não nos deixarmos enganar pelas aparências, uma das primeiras coisas que podemos fazer é buscar dentro do site informações sobre quem o representa. Um veículo de mídia sério terá uma seção do site dedicada a trazer aos seus leitores sua história, compromisso, sua equipe, informações de contato como e-mails e telefones e seu editorial. E, portanto, sites de humor ou de paródias de notícias reais devem ter um aviso (“disclaimer“) sempre a vista, deixando claro o intuito humorístico de seu conteúdo.

Um site que não deixa claro suas intenções, que não possui ou esconde informações sobre si, deve entrar na lista daqueles que devemos ter cuidado.

2. Considere o conteúdo geral da mídia



Às vezes clicamos em uma notícia que parece ter todas as características de ser verdadeira, mas, na dúvida, verifique outras publicações do mesmo veículo. Se os títulos ou a temática parecerem extremamente dissonantes da notícia que você está lendo, desconfie.

Alguns jornais, principalmente tabloides, tem a característica de mesclar notícias reais e verificáveis, com conteúdos sensacionalistas, inventados ou deliberadamente exagerados, portanto, quando acessar conteúdo destes meios, mesmo que eles possam ser reais, tenha também uma fonte alternativa sobre o mesmo assunto.

3. O autor e as fontes



Uma mídia séria e comprometida com a transparência e verdade, vai fornecer o nome do autor da matéria ou artigo, salvo em casos de editoriais (e mesmo estes, devem ser de fácil identificação o autor, podendo ser o editor-chefe da publicação, ou o CEO/dono da mídia, etc.).

Caso esteja desconfiando do conteúdo que está acessando, uma boa opção é procurar o nome do autor em uma ferramenta de pesquisa. Caso o suposto autor não aparecer claramente nos seus resultados como a pessoa que ela diz ser, já é um ponto negativo na veracidade do artigo, ou mesmo caso a pessoa não exista de forma alguma.

Uma notícia real deve, além de ter um autor real, ter também suas fontes listadas, seja no corpo da matéria ou ao fim dela, e estas fontes também devem ser de fácil localização em poucos cliques ou em pesquisas de sites de busca como o Google. Tenha receio de notícias sem fontes e referências. Um material que seja reprodução de conteúdo de outras fontes e autores, ou mesmo que seja uma tradução, precisa explicitar esse fato e você deve ser capaz de encontrar a fonte primária com facilidade. Fontes como agências internacionais de notícias, como a Reuters e a BBC podem ajudar a reconhecer uma notícia verdadeira com mais tranquilidade do que aquelas sem fontes aparentes.

4. Leia além do título e atente-se à data de publicação



Muitos títulos podem parecer ter a resposta para tudo que você sempre quis sobre determinado assunto e você quer rapidez em talvez, sei lá, esfregar isso na cara de algum colega, mas devemos ter calma quanto a isso. Títulos são feitos para atrair mesmo, além de inúmeras matérias terem um título e um conteúdo que não batem. Um título pode dizer “Medicamento contra o Alzheimer está sendo testado com resultados positivos”, fazendo com que muitas pessoas compartilhem essa notícia felizes, achando que também estão compartilhando esperança com as pessoas que sofrem ou possuem parentes que sofrem com essa doença, porém, ao checar a matéria, trata-se apenas de um teste de medicamento contra Alzheimer feito em camundongos. O que era para ser esperança compartilhada, torna-se frustração generalizada.

Não só o título, como também a data da publicação, são elementos chaves para identificar conteúdo falso ou colocado fora de contexto. A notícia sobre uma greve que terminou em pancadaria em 2007 pode ser ressuscitada em debates acalorados em que os participantes podem acreditar ser uma notícia recente, por exemplo.

5. Rastreabilidade, reconhecimento e a pós publicação


Já falamos sobre o que deveria ser feito antes de uma notícia ser publicada, que é ter um autor real, um veículo de publicação comprometido, fontes confiáveis, mas, como nem sempre recebemos o que gostaríamos, também podemos identificar uma notícia falsa pelo que acontece tempos depois dela ser publicada, isto é: a rastreabilidade da matéria, o reconhecimento da mesma por outros veículos de mídia e a reação do público.

Isso significa que ao procurar novamente uma notícia em um sistema de busca para checar sua autenticidade, é bom sinal que ela esteja sendo reproduzida e endossada por agências de notícias, outros autores, portais, etc., considerados sérios. Caso a matéria apareça apenas em outros pequenos sites similares àqueles da origem dela ou, pior, apareça sempre compartilhada e replicada por sites de nomes parecidos, desconfie.

Outra coisa a se atentar na pós publicação é justamente como as pessoas que leram o material podem se manifestar. Sites que não possuem seção de comentários, por exemplo, podem estar querendo esconder algo ou evitar serem desmascarados. Caso eles possuam uma sessão de comentários, veja o que está sendo falado e debatido, pois, quando a notícia é falsa, muito provavelmente os leitores falarão sobre isso nos comentários.

6. Reconheça suas próprias crenças e interesses perante os conteúdos


Tirinha de Benneh.
Em tempos de pós-verdade, é primordial que não se deixe levar pela notícia que mais te agrade ou te revolte logo de cara. Se você preza a sua credibilidade, isso deve ser evitado.

Quem produz notícias falsas deseja que o conteúdo seja compartilhado e viralizado o mais rápido possível. E isso é mais facilmente alcançado quando se provoca uma forte reação nas pessoas por meio de títulos e imagens que são usadas nas chamadas das matérias, portanto, por mais que seu alívio, raiva, felicidade, empolgação te digam para compartilhar determinada matéria, assim que ela aparece na sua timeline ou no seu whatsapp, segure a emoção e leia a matéria antes! E siga os outros passos caso desconfie da sua autenticidade.

7. Click Bait, bom demais para ser verdade


Por trás dos interesses daqueles que produzem notícias falsas, está o nada surpreendente desejo de se ganhar muito dinheiro.

Existem mecanismos que garantem retorno financeiro para sites com milhares de cliques e acessos, por meio da venda de espaço de propaganda. Fazer com que você seja tentado a clicar em uma matéria é uma arte. Conhecidos como click baits (iscas de clique), estes títulos tem como intenção um tráfego de acessos intenso e, com sorte, conseguir que seus visitantes também cliquem nos anúncios espalhados pela página, muitas vezes até de forma velada (já clicou em um link comum e este abriu uma página de propaganda? Pois é…). Desta forma as publicações que usam títulos click baits tendem a ser como cantos de sereia, apesentando uma chamada que parece ser boa demais pra ser verdade, mas contendo uma matéria que provavelmente também não é uma verdade, enquanto o dono do site vai monetizando com as visitas no seu site e as clicadas em seus anúncios.

8. O Senso de Falsa Credibilidade: uso de supostas pesquisas, estatísticas e frases para embasar notícias falsas


Poucas coisas fazem uma notícia parecer verídica como o uso de “ciência” para validá-la.

“Pesquisa aponta que comer chocolate emagrece 1kg por dia” – esta é uma matéria que eu clicaria em um piscar de olhos: é chocolate, emagrece e foram pesquisadores que disseram isso! Nada pode estar errado! “7 entre 10 homens possuem marcas de nascença no pênis, confirma estudo de Harvard” – olhou né? “Presidente Obama poderia morrer em uma vala – afirma Kim Kardashian em entrevista”. E certamente aqueles que escrevem notícias falsas sabem muito bem que temos a tendência a aceitar como verdade os conteúdos que estão supostamente embasados por pesquisas científicas, estatísticas ou por celebridades e especialistas, isso porque tendemos a confiar na palavra de especialistas, em dados e números quando somos leigos em certos assuntos.

Mas, assim como as notícias, estes tipos de fontes podem ser facilmente desmascaradas.  Pesquisas e estudos científicos devem estar ligados a instituições de pesquisa ou de ensino, estatísticas também devem partir de institutos de pesquisa, faculdades, órgãos governamentais e ter sua metodologia facilmente consultada, frases de celebridades e especialistas podem ser verificadas ao procurar vídeos ou transcrições de quando foram ditas e para quem foram ditas, para averiguar o contexto das declarações e se realmente foram ditas.

Uma recomendada ferramenta para verificar estudos, pesquisas e estatísticas é o Google Acadêmico, com a qual pode-se consultar o nome da pesquisa, os nomes dos especialistas e seus trabalhos acadêmicos, metodologias e instituições.

9. Pesquisa reversa de imagens


Além dos títulos irresistíveis, outra maneira de garantir cliques fáceis para estes sites é o uso de imagens impactantes, curiosas ou polêmicas. Estamos em 2017 e ainda temos que apontar o óbvio: uma foto não é um fato, é uma versão do fato.

Além disso, uma imagem pode ser usada inúmeras vezes para diferentes chamadas e matérias. Um bebê refugiado pode ser sírio num dia e turco no outro dependendo do que a matéria falsa está “cobrindo”, aquela mulher dando a luz na rua pode ser brasileira hoje e sul africana amanhã, é uma reciclagem toda errada.

Estas imagens usadas em larga escala costumam ser facilmente rastreáveis, levando às agências internacionais de notícias e aos bancos de fotografia jornalística.

Você pode arrastar uma foto para a caixa de busca do Google, fazer a consulta reversa da mesma e descobrir rapidamente quem a tirou, em qual país, data e quais veículos de mídia já a usaram.

Como usar fotos fora do contexto é outra forma enganosa de ganhar o clique do público e manipular informações, vale a pena sempre pesquisar sobre a origem das fotos quando necessário.

10. Pergunte a um especialista ou consulte um site antiboatos


Alguns de vocês podem considerar que este deveria ser o primeiro item, mas é extremamente importante ter sua própria autonomia em descobrir por si mesmo quando não for possível usar estes métodos.

Claro, às vezes, a forma mais fácil de saber se uma informação é real ou não, é perguntar para alguém que saiba mais do que você sobre ela, um professor, um amigo, seus pais ou seu gato (brincadeira).

Existem também sites que se dedicam a desmascarar boatos, correntes e notícias falsas, como o americano Snopes, e os brasileiros Boatos.org  e o E-Farsas, mas nem sempre eles possuirão as matérias mais recentes ou menos polêmicas, já que focam em conteúdos de grande alcance e compartilhamentos. Esses sites fazem um trabalho incrível e vem nos últimos anos ajudando a combater as notícias falsas na internet e fora dela.

Conclusão


“Pinocchio liar” de Abubu.
É crescente o número de sites e páginas que se dedicam exclusivamente a ser uma fábrica de cliques e disseminadoras de meias verdades ou notícias falsas.

No Brasil, o problema chamou a atenção da mídia de massa, devido ao tamanho da repercussão e dos malefícios destes sites e seus conteúdos sendo compartilhados nas redes sociais. Um impacto como o observado nas eleições americanas poderia ocorrer em breve no nosso país também, e isso é assustador.[4]

Devemos estar atentos a estas práticas, já que, legalmente, existem bem poucas maneiras de combater a mídia de notícias falsas. Não é possível, por exemplo, proibir a publicação destas, não é legal intervir na produção e compartilhamento destas farsas. A própria velocidade em que os conteúdos virtuais são criados é um desafio quanto ao controle do que é expressado. E a punição posterior, em casos de difamação, calúnia, danos morais, etc., parece não ser dura o bastante para impedir que continuem a fazê-lo. Mesmo a mídia de massa sofre poucas punições quando envolvida em casos de publicação de conteúdo falso ou difamatório (uma pequena nota de desculpas, um editorial emocionante de apologias e está tudo bem).

Por hora, cabe a nós deixarmos de ser meros receptores de informação e passar a ter também a responsabilidade de informar, por mais absurdo que isso possa parecer.

Por outro lado, governos (recentemente Alemanha e República Checa encabeçaram um largo combate contra as notícias falsas) e empresas estão em busca da solução para este problema por meio do uso de tecnologia, apesar da ideia de ter conteúdos bloqueados ser muito delicada (para não ferir a liberdade de expressão ou soar como censura). Redes sociais como o Facebook e Twitter já anunciaram um trabalho de extensões que impeçam a visualização e compartilhamento de conteúdos previamente analisados por fact checkers (verificadores de fatos) tanto humanos quanto os de inteligência artificial. [5]

Enquanto as questões legais e tecnológicas que pairam sobre estas ferramentas de bloqueio de conteúdo são resolvidas, ainda teremos um caminho a percorrer em também educar as pessoas a serem capazes de discernir entre informações reais e aquelas inventadas.

A partir de hoje, quando se deparar com uma notícia suspeita, use estas dicas. Caso se deparar com uma notícia falsa, informe e compartilhe  com seus amigos sobre os fatos e aproveite para orientá-los a respeito de como se proteger da era da pós-verdade.

Minerva
No Voyager
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A indignação fajuta de Aécio


O vídeo em que Aécio mostra indignação com uma delação que o atinge é um retrato perfeito dele mesmo, Aécio.

Nunca antes, quando a mesma coisa atingia seus adversários, ele fez o menor tipo de restrição.

Jamais Aécio disse que os fatos deveriam ser apurados antes de publicados.

E agora, com incrível cara de pau, ele exige para si mesmo o que jamais reivindicou para os outros.

É como se num jogo de futebol Aécio aceitasse, estimulasse e aplaudisse gol de mão — mas apenas contra os outros.

Por isso mesmo, o vídeo tem efeito zero em comover. Aécio não transmite nele sinceridade, princípios morais elevados, nada disso.

Passa apenas, como sempre, a imagem de um garoto mimado contrariado.

O vídeo, publicado na página de Aécio no Facebook, está tomado de comentários contra a suposta vítima.

Num mundo menos imperfeito, a mídia tomaria imenso cuidado antes de veicular vazamentos e denúncias não ainda comprovadas.

No caso da Veja, por exemplo, a revista teria ido atrás da alegada conta em Nova York usada pela Odebrecht para abastecer Aécio de propina.

Neste mundo menos imperfeito, a Justiça seria implacável com veículos que publicassem acusações sem provas.

Mas este nosso mundo é extremamente imperfeito. E denúncias não comprovadas sobretudo contra o PT infestaram o panorama da mídia nos últimos anos.

Quando Aécio fez qualquer tipo de ponderação?

Nunca.

Ele atiçou o fogo, pelo contrário. E só se incomodou quando as chamas o atingiram.

Na verdade, ele achava que isso jamais aconteceria. Tinha certeza de proteção eterna.

Esse choque de realidade doi ainda mais para Aécio por um motivo: a capa da Veja mostra que ele foi descartado pela mídia — o real poder do país.

Acabou sua festa. Agora ele é um na multidão. E a mídia irá publicar denúncias contra ele até para mostrar — pausa para gargalhadas — que é isenta e apartidária.

Paulo Nogueira
No DCM



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Ocaso dos Irmãos Neves


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Tudo que você precisa para ser explorado pelo Uber


Caro motorista do Uber. Esse texto é para você. Principalmente para você que entrou no Uber com a esperança de ter o seu próprio negócio e ganhar o suficiente para sustentar a sua família. O Uber vende o sonho de ser o seu próprio patrão para uma massa de desempregados e para aqueles que caíram no conto do vigário da nova religião: o empreendedorismo, particularmente na sua corrente mais picareta, o empreendedorismo de um homem só, a Você S.A. Agora eu sou meu próprio patrão e o Uber é meu parceiro, um parceiro que me presta um serviço, um app que conecta o meu negócio a milhões de possíveis clientes na cidade. Simples, fácil, prático, eu só preciso me preocupar em dirigir, certo? Errado.

Vamos direto ao ponto: o Uber te explora. E não é pouco. Mas vamos deixar as reflexões para depois. Vamos por outra tática. Vamos aos números, pois eles são muito convincentes. Eles são chocantes.
Publicidade no site do Uber.
Vamos falar de grana, de r.o.i., vamos fazer uma análise do negócio. Uma simulação. Suponha que você acabou de perder o seu emprego, mas, por sorte, acabou de pagar as prestações do carro. Eis que o Uber bate à sua porta com lindos anúncios de liberdade e independência. E você decide: vou virar motorista do Uber.
No seu antigo emprego, você ganhava 3.600 reais e espera ganhar o mesmo no Uber para sustentar sua família: você, cônjuge, dois filhos. Para o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), você deveria tentar ganhar pelo menos R$3.991,40, o salário mínimo realmente necessário para uma família do tamanho da sua viver com modesta dignidade.

Tudo bem. Você acha que se vira com R$3.600. Mas sabe que vai precisar também de um plano de saúde, afinal, o SUS que já não era bom está para acabar ou ser sucateado. Você vai ficar grande parte da sua vida, todo dia, por horas sentado dirigindo e isso faz muito mal. Também vai precisar de um smartphone razoável, com GPS, e um plano de internet móvel. Nem pense em negligenciar isso ou pode sair mais caro na hora em que estiver com o GPS e o app do Uber ligado. O carro você vai trocar de 2 em 2 anos, dando o seu usado como entrada e juntando mais 24 mil reais para comprar um zero, e assim por diante, de 2 em 2 anos.

Resumindo, você vai ter custos fixos como: IPVA, seguro do carro, smartphone, internet móvel, poupança para troca do carro de 2 em 2 anos e plano de saúde. Tudo isso são suas ferramentas e custos de trabalho e você não pode tratá-las como despesas pessoais para avaliar o potencial do negócio. Podemos ver suas despesas fixas como motorista do Uber na tabela abaixo:



Mas não é só isso. Existem as despesas para cada dia que você trabalha. São elas: gasolina, alimentação, manutenção do carro em geral, pneus, troca de óleo, limpeza do carro, água e balinhas para os passageiros.

No seu antigo trabalho, você tinha 2 folgas semanais e 30 dias de férias. Gostaria de manter o mesmo padrão, afinal, é casado e tem dois filhos. Apesar de o Uber dizer que você trabalha o quanto e quando quiser, você sabe que não pode ganhar menos de R$3.600,00 no mês sob hipótese alguma e que vai ter que trabalhar de acordo com a demanda do mercado, dos passageiros. Então, em relação à sua folga semanal e férias, vamos manter as opções abertas. Na tabela abaixo você pode ver as demais despesas relacionadas aos dias trabalhados. Se você trabalha, você gasta, desgasta, consome. Se não trabalha, não. Essas despesas por dias trabalhados serão somadas às despesas fixas. Fica assim:



Estes são os custos por dia de trabalho. Você ainda não ganhou 1 mísero centavo! E ainda nem contamos os 25% que o seu “sócio” Uber toma de você sem participar de nenhuma das suas despesas. Transformamos tudo em despesas diárias para que você saiba o quanto precisa trabalhar para meramente sair do zero quando estiver dirigindo seu Uber. Por exemplo: você vai ter que trocar o óleo do carro todo mês. São R$180,00 em média, o que dá 6 reais por dia. Pneus, R$6,50/dia; manutenção, R$10,00/dia…

Na tabela a seguir, vemos o quanto você precisa trabalhar só para sair do zero. Por exemplo: se você decide ter apenas 1 folga por semana, sem férias, sem feriado, sem Natal, Reveillon, Carnaval, sem ficar doente o ano inteiro (!!!), você só vai começar a ganhar alguma coisa quando o total das suas corridas passarem dos R$409,73 no dia. Aí você vai começar a ganhar o seu primeiro real. E você consegue tirar isso por dia, mesmo se matando de trabalhar? Para garantir os seus R$3.600,00 no mês, você precisa ganhar ainda mais, pelo menos R$547,31 ao dia, tendo um lucro líquido de apenas R$118,03. É tudo que te sobra no fim do dia.



Os números anuais são:



Quando você olha para esses números tem a real dimensão de como é um péssimo negócio ser motorista do Uber e como é uma ilusão se considerar um autônomo dono do próprio tempo, do próprio negócio e que decide quanto quer ganhar. Ser motorista de Uber é ter um subemprego, ser explorado, é precarização das relações trabalhistas disfarçada de empreendedorismo. E o pior: com cada motorista do Uber se considerando uma "Você S.A.", cada um fica isolado do outro, cuidando da sua "empresa", da sua vida, enquanto o Uber cuida de todos vocês ao mesmo tempo.

Sem férias, só com uma folga na semana, sem feriados, se você conseguir produzir R$171.855,34 no ano, apenas R$43.199,44 serão seus. Os outros R$128.655,90, que você ralou sentado dirigindo, ficando com hemorroidas, problemas nos rins, de coluna, são do Uber, do Leão e despesas com as quais só você arcou.

Vamos a algumas contestações possíveis desses números: “Ah, eu lavo meu próprio carro!” Ok. Você gasta sua água, seu sabão, sua cera, seu aspirador de pó para a parte interna, sua energia elétrica, sua mão de obra, seu tempo “livre”. E na lógica capitalista, tempo é dinheiro. O tempo que você gasta lavando o seu carro, poderia estar ganhando dinheiro com o Uber. Acredite, não vai fazer muita diferença no fim…

Nem pense em demorar mais para trocar de carro, pneus ou o óleo, em usar um celular qualquer, em escolher a pior e mais barata operadora da cidade… Você vai perder mais dinheiro no fim com essa falsa economia.

“Eu posso colocar o kit gás!” Pode! E você vai economizar com o combustível, de fato. Em torno de 30% no primeiro ano e 50% no segundo ano. Essa é a única economia relevante e apenas sobre o combustível. Mas não se esqueça de incluir o valor da instalação do kit gás e lembre-se de que terá de fazer isso de novo quando trocar de carro, além dos custos e taxas adicionais, como a revisão do cilindro. Mesmo assim, você ainda está dirigindo um péssimo negócio. Literalmente.

Outra opção é alugar um carro e não ter os custos de manutenção, compra e troca de carro etc. Fizemos os cálculos e dá praticamente na mesma. Pagando R$1.500,00 por mês de aluguel a uma locadora ou R$700,00 por semana (R$2.800,00 por mês) com um particular, que normalmente já vem com o kit gás e a responsabilidade de dividir a manutenção. Fica ao seu gosto, mas o resultado final é trocar 6 por meia dúzia.

Você pode tentar de tudo. Lavo meu carro, faço minha comida e levo marmita (ou passa o dia sem comer e bate aquele pratão montanha de comida quando chega em casa, ótimo para sua saúde…), vou pra fila do hospital público, não junto dinheiro e financio o carro na loucura, pego o celular velho do meu primo, faço um plano da Tim mais barato, tiro a água do passageiro, tiro a bala, troco o óleo quando der, boto aqueles pneus chineses fuleiros, sonego todos os impostos “e vamo que vamo”! Já reparou como todas essas tentativas de reduzir suas despesas, tudo que você elimina, desconsidera ou dá um jeitinho transformam a sua profissão numa atividade muito mais precária, insegura, arriscada, insalubre e insustentável? O Uber adora falar em sustentabilidade, mas cria um subemprego insustentável para os seus “parceiros”. Já reparou em outra coisa? Você abre mão disso, daquilo, sonega imposto e tenta desesperadamente reduzir custos. Mexe em tudo possível. Menos nos 25% do Uber. Ah, isso é sagrado. É dízimo. Imexível. Será?

Para piorar, nessas contas não incluímos o INSS ou uma previdência privada para sua aposentadoria ou caso você fique incapacitado de trabalhar. Se você ficar doente, lascou! E o Uber não vai ter nada a ver com isso, assim como não tem nada a ver com suas despesas para trabalhar. Você não tem nem décimo terceiro pra dar aquela aliviada nas despesas inesperadas no fim do ano. Também não consideramos os possíveis gastos com multas e com vestimentas para que você esteja apresentável, com roupa social, do jeitinho que o Uber gosta.

Outra questão é a sonegação. Quem é que vai pagar 25% para o Uber e 22,5% de IR ou mais? O Uber cria um negócio tão inviável para o motorista que promove uma legião de sonegadores. Se a Receita faz uma devassa entre os motoristas do Uber, é possível que não fique um, meu irmão. O pobre motorista fica refém, entre a cruz e a espada, entre os 25% do capitalismo hipster humanizado livremercadista do Uber e os 22,5% a 27,5% do capitalismo de estado com alta carga tributária para o cidadão do Brasil. Do Brasil do FHC, do Lula, da Dilma e do Golpista. Um Brasil de Todos.

Sabe quanto o Uber cobra em média por mês, na simulação, pelo serviço que presta a você, caro piloto? Ele cobra em torno de R$2.500,00 se você, trabalhando como escravo no carro, com apenas uma folga semanal e sem férias, conseguir tirar R$3.600,00 limpos no mês. Pode ser mais, pode ser menos. Depende do seu desempenho.

O Uber se aproveita da grande legião de desempregados, subempregados e mal empregados no país. Gente que vê no Uber a oportunidade de ter o próprio negócio e todas as promessas que o Uber faz. Essas pessoas começam a trabalhar sem uma análise do negócio, sem colocar todos os números no papel e tratando seu patrimônio em depreciação (carro, celular) e todos os custos da sua atividade comercial (internet móvel, alimentação, seguro, IPVA etc) como despesas pessoais, como zero de investimento que não entra no cálculo do retorno sobre o investimento. Literalmente rói a corda do r.o.i.

E é claro que o Uber não dá qualquer orientação real, muito menos joga claro com os custos e os verdadeiros problemas do dia a dia do motorista com um aplicativo cada vez mais controlador e empurrando furadas como corridas de Uber Pool que são muito mais baratas e quase nunca dão passageiros extras, entre outras. O Uber se aproveita da inexperiência financeira da maioria dos motoristas e em vez de viabilizar e orientar um negócio consciente e sustentável, vende sonhos que acabam mal.



Para o Uber é muito confortável um país (um mundo!) com altíssimo índice de desemprego. Isso cria uma enorme reserva de mão de obra, de motoristas dispostos a se sujeitarem às suas regras, à baixíssima remuneração da atividade e a crescente concorrência. Quanto mais motoristas, melhor para o Uber; e pior para os motoristas, que se jogam numa concorrência cada vez mais agressiva, num aplicativo que define a tarifa de acordo com a oferta e a demanda. Quanto mais numerosos são, menos os motoristas ganham. Mas assim, os 25% do Uber estão ainda mais garantidos, não importa quem conseguiu a corrida.
Fonte: https://www.uber.com/helping-cities
O mais cruel dessa conjunção perversa de alto desemprego, mercado desregulado e altos tributos sobre produtos e serviços com conto de fadas de empreendedorismo é que o Uber vende essa situação escabrosa para o trabalhador como uma virtude da empresa. Chega ao ponto de comparar o mapa do desemprego com o mapa de residências de motoristas do Uber da cidade de Londres. São extremamente parecidos. Não é à toa que o Uber vai tão bem num mundo que vai tão mal…

E o que fazer? Num mundo que vai tão mal, onde direitos trabalhistas estão sendo atacados, trabalhos precarizados e onde aos trabalhadores está sendo vendida a fantasia do empreendedorismo de 1 homem só, a velha história do Silvio Santos camelô travestida de Você S.A., que no fundo é a mais velha ainda história do protestantismo capitalista: deus ajuda quem cedo madruga. Se você é pobre é porque não se esforçou o suficiente. Se alguém é rico, não inveje-o, trabalhe. É tudo uma questão de esforço. Ou da falta de.

Só que os motoristas do Uber estão aí se dando mal, mesmo se esforçando ao máximo, mesmo tentando viver disso. Todos vocês já viram isso, principalmente no começo, principalmente com os principiantes. O motorista do Uber sorri, dá bom dia, pergunta do ar, da música, tem água, tem bala… Ele está ali com sua roupa social pronto para dar duro, de sorriso no rosto, atendimento de excelência, pronto para fazer dar certo o seu negócio e ter a sua independência. É o seu carro, a sua vida, o seu negócio e ele quer que dê certo e vai dar o sangue por isso. Só que a conta não fecha. A conta que o Uber criou para esses motoristas de olhos brilhando por fazer o negócio dar certo é uma conta boa para o passageiro e o Uber. O motorista, “o patrão”, é na verdade o bucha de canhão da história.

É por isso que os motoristas do Uber precisam parar de se ver como empresários, como autônomos, como Você S.A, Eu S.A. Aquele Lá S.A., cada um cuidando da sua vida, do seu negócio sem futuro.

Motoristas do Uber, vocês são trabalhadores! Uma classe, uma categoria que precisa se organizar politicamente porque sozinhos e separados vocês não botam medo em ninguém e não têm poder de lutar sequer por 1 mariola. Sem poder de negociação, só podem se sujeitar ao que o Uber, o mercado ou o governo impõem.

Vocês não têm que ser evangelizadores do Uber. Motoristas do Uber e taxistas estão mais do mesmo lado deste combate do que imaginam. Os taxistas estão com medo de perder seu trabalho, dele ficar inviável com uma concorrência desleal liderada por uma empresa que dita as regras e os preços num mercado desregulado, com tarifas baixíssimas bancadas pelos motoristas, enquanto o Uber morde em cada corrida escandalosos 25%.

Taxistas e motoristas do Uber deveriam estar do mesmo lado, encontrando um ponto ótimo, uma pauta comum. Vocês estão trocando socos e pontapés e só quem se beneficia com isso, dando as cartas em um mercado desregulado e com alto desemprego, é o Uber. A grande maioria só quer trabalhar e viver dignamente sem ser explorada ou ameaçada por uma grande corporação.

Então pra quê uma organização política? Para, por exemplo, pressionar o Uber a não cobrar 25% de cada corrida. Para que o Uber, como um prestador de serviços normal, cobre um valor fixo pelo serviço prestado. Por exemplo, R$300,00 ao mês. De cada motorista! Duvido que não seja um excelente negócio para a empresa. Abre a caixa preta e negocia com os trabalhadores.

Grandes empresas com estrutura muito maior não exploram assim os seus contratantes ou assinantes. Empresas de telefonia, grandes jornais, tv a cabo, internet etc. Cobram uma mensalidade razoável. Todos os comerciantes e prestadores de serviço já reclamam dos 5% cobrados pelos cartões de crédito sobre cada venda. Imagina 25%?!

O Uber vende um belo discurso para esconder uma dura realidade para o motorista e o seu caráter de corporação predatória. Fala em aquecer a economia local e sustentabilidade, mas cria na verdade um negócio insustentável para o motorista. Muy parceiro…

Por fim, a nossa motivação aqui não é esgotar o assunto, nem o debate. Críticas são muito bem-vindas, inclusive aos números apresentados. A ideia é atualizar esta matéria com todas as contribuições vindouras. Agradecemos já a todos os motoristas do Uber entrevistados, que compartilharam a sua opinião e possibilitaram esta matéria

Motoristas do Uber. Vocês são trabalhadores.

Trabalhadores do mundo, uni-vos.

No Folha de Kronstadt
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Na era do bom gestor, Luciano Huck é quem pode falar de política


O dia 13 de março de 2016 ficou marcado na história do jornalismo brasileiro como o dia em que Kim Kataguiri, o jovem líder do MBL que abandonou a faculdade porque sabia mais de economia do que o professor, apelou para os Power Rangers na primeira página do maior jornal do país no que deveria ser o chamado à tomada popular do poder horas antes da maior das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Estranhamente, o excerto não rendeu nenhum prêmio Esso, mas assim é a vida: tomada por vilões de seriados e injustiças, não exatamente nessa ordem.

Um ano e alguns ministros do governo da salvação decapitados depois – a maioria por suspeita de corrupção e um por denunciar um colega por tráfico de influência – parece claro, ou deveria estar, o risco de incensar a líderes das causas populares aqueles que têm por vivência ou referência teórica aquilo que aprenderam na TV. O rescaldo da revolução (sic) é a cota da vergonha alheia.

Em tempos de dissolução dos grupos tradicionais de representação, com oligarquias acuadas entre lupas e restrições sobre sistemas de financiamento de campanha, um caminho encontrado por quem sonha em mudar tudo para tudo permanecer como está foi lançar às disputas quem na largada possui rosto, público, dinheiro e amigos com dinheiro para bancar a aventura.

Sai o político, entra o gestor amigo dos políticos.

O tucano João Doria, empresário que conseguiu proezas como a engorda de anúncios da própria revista desde que virou prefeito em São Paulo, filho dileto desse novo modelo, já faz escola: a visibilidade como apresentador de reality show o inspira a voos mais altos e animou outros apresentadores a deixarem (?) o set para apresentar lições para salvar o mundo real com a experiência dos programas de auditório.

Se os aprendizes Donald Trump e João Doria conseguiriam, que dizer de quem tem um caldeirão inteiro de ideias para a tomada do poder e das consciências?

Quem tinha curiosidade não tem mais. Na edição desta quinta-feira na Folha de S.Paulo, Luciano Huck, deixou as colunas de entretenimento para ganhar no caderno de política uma página inteira – espécie de latifúndio para os padrões atuais de espaço editorial – para desenhar a sua análise da conjuntura.

Sai o cientista político, entra o apresentador de auditório.

Na entrevista, o apresentador atribui ao trabalho com o microfone o poder conquistado junto aos 40 milhões de seguidores das redes sociais e 18 milhões de espectadores do seu programa. Mal contém a empolgação ao ver que sua geração tomou as rédeas do dia a dia – um exemplo é a nomeação do insuspeito Alexandre de Moraes, aos 47 anos, ao Supremo Tribunal Federal. E define carisma, capacidade de implementação, ética e altruísmo como peças-chave para quem quer aproveitar o colapso político para, em vez de escrever livros de autoajuda, liderar um projeto novo de país.

Na deixa, Huck respondeu ao menos sete questionamentos, diretos ou indiretos, sobre a possibilidade de se apresentar como opção a este sistema combalido – um deles sem sequer ponto de interrogação: “a campanha de um nome da TV seria mais barata, por ser conhecido…”

Apesar das perguntas-convite, Huck garante que não é candidato, apesar da torcida de amigos como FHC e da proximidade com Aécio Neves, slogan das camisas “A culpa não é minha” e nome onipresente das delações da Lava Jato, o principal movimento, segundo Huck, para refazer e ressignificar as bases morais e éticas do Brasil.

Até 2018, o apresentador espera ver Michel Temer, o vice do grande acordo nacional, com Supremo, com tudo, mudar a história usando a impopularidade “para fazer o que precisa, para corrigir os erros da construção da nossa democracia”.

Para Huck, “o único jeito de arrumar esse país é se a gente conseguir fazer um pacto apartidário, sem revanchismo, sem revolta”. Se foi golpe ou não, alerta, “não importa”.

Para quem gosta de bordões, a próxima eleição, se houver, promete ser uma loucura, loucura, loucura.

Matheus Pichonelli
No The Intercept-Brasil
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O Gato de Schrodinger e as Matrioshkas malditas

http://www.maurosantayana.com/2017/04/o-gato-de-schrodinger-e-as-matrioshkas.html



A Operação Carne Fraca disse muito a respeito do que está ocorrendo no país, e não apenas com o Estado de Direito, ou o Ministério Público, o Judiciário, a Polícia e a mídia nacional.

Sem querer discutir a questão política por trás dessa e de outras operações - o que já fizemos em outras ocasiões - o que está ocorrendo no Brasil de hoje é que entramos em um perigoso e kafquiano território quântico.

Uma espécie de dimensão espaço-temporal na qual, como no caso do Paradoxo do Gato de Schrodinger, sem as referências - perdidas - da Constituição e da Lei, ninguém sabe se o animal fechado dentro da "caixa" da República está morto, vivo, ou "vivo-morto", ou como ele ficará, se abrirmos a caixa para ver o o que está acontecendo, ou melhor, o que ocorrerá no exato momento em que a abrirmos.

Em um estado pleno, vigente, indiscutível, de Direito, dificilmente uma operação como a Carne Fraca - ou mesmo a Lava Jato, em muitos de seus aspectos, poderiam ter ocorrido da forma como se deu.

O pecado original que nos conduziu até aqui foi aceitar mudar as regras do jogo para derrubar um governo, depois do Estado de Sítio estabelecido, paulatinamente, contra a governabilidade, a partir das "manifestações" contrárias à Copa de 2014.

Trocamos o universo tridimensional - judiciário, executivo, legislativo - da física política conhecida, que dava sustentação à República, pelo princípio da incerteza - que Heisenberg me desculpe pelo paralelo com a sua teoria que envolve a medição dos elétrons - do verdadeiro pega pra capar que impera agora, em que a plutocracia - suas diferentes corporações - se digladia pelo poder e os holofotes, querendo substituir os eleitos no comando da Nação, e as grandes vítimas são a Liberdade, a Democracia, o país e o cidadão.

A culpa por esse estado de coisas, começa com o equívoco - para responder à pressão - do governo anterior, de pretender dar ao Estado "autonomia" com relação ao poder político.

Ora, se o Estado, ou certas parcelas privilegiadas dele, pudessem se sustentar, moralmente, apenas com o direito à autonomia (como se vivessem em uma bolha de plástico esterilizada totalmente isolada do que ocorre à sua volta) não seria mais preciso partidos, candidatos, eleições, Poder Executivo, voto ou Congresso.

O Estado só existe quando submetido ao poder político, que o legitima.

Senão ele não é Estado, e sim imposição, uma impostura.

Já que a Democracia existe para que o povo mande na plutocracia, paga regiamente por ele, e não para que uma plutocracia com "autonomia", mas sem voto, e, no caso de hoje, sem limites, se sinta autorizada, como parece estar acreditando agora, a querer mandar no país, na Nação e na República .

A falta de autoridade do poder político sobre a plutocracia, o abandono do império da lei, levou-nos a uma situação em que, depois de se rasgar as roupas de baixo da Constituição, expondo-a a todo tipo de violação, tudo passa a valer, e, dentro da estrutura do Estado, cada um com um mínimo de autoridade faz o que quer, quando e como quiser.

Não existem mais fronteiras definidas entre os poderes, e, dentro dos poderes, não existe mais ordem, herarquia, regras, liturgia, atribuições claras para os diferentes níveis e personagens que os compõem.

Em um país, sejamos comedidos, acéfalo, completamente desorganizado do ponto de vista institucional, não é de se estranhar que procuradores e juízes mandem recado e façam "veladas" ameaças, de elefantina sutileza, ao Congresso, querendo, isso sim, tolher a autonomia do Legislativo Federal, como está ocorrendo, agora, no caso da discussão e aprovação da Lei de Abuso de Autoridade.

Como não é de se estranhar que procuradores insultem publicamente ministros do Supremo.

Que corporações de funcionários - e até mesmo órgãos do Estado - lancem campanhas públicas, em busca de assinaturas de apoio, como estudantes vendiam "votos", no passado, para a Festa da Primavera.

Que essas "campanhas" dêem origem - até a simbologia é a mesma - a partidos políticos feitos para apoiar categorias de funcionários públicos às quais está claramente vedada a atividade política.

Que juízes de primeira instância aprovem ou desaprovem, publicamente, a indicação de Ministros da Suprema Corte; ou peçam, como se tratassem de concorrentes do Big Brother Brasil, apoio popular, em suas próprias e autobajuladoras páginas na internet.

Que candidatos a ministro tenham que prestar contas e juras a emissoras de tv para eventualmente assumir seu cargo.

Que pessoas sejam conduzidas coercitivamente sem terem sido intimadas previamente.

Que prisoes temporárias sejam sucessivamente prorrogadas por meses e anos, com o intuito de pressionar detidos, até que eles digam o que se quer.

Que empresas sejam ameaçadas para fazer o mesmo, admitindo todo um arcabouço mistificante e mendaz, sob pena de não poder mais trabalhar, e que, mesmo assim, continuem alijadas de crédito e do mercado governamental, porque CGU, AGU, MP, TCU não se entendem - e não apenas no caso dos "acordos" de leniência - na espetaculosa geléia geral em que se transformou o estado nacional.

Que ministros do Supremo sejam insultados da forma mais baixa na internet e redes sociais sem nenhuma reação.

Que existam sujeitos que se auto-intitulam pré-candidatos à presidência da República, em plena campanha há anos, dentro e fora da internet, sem ser praticamente incomodados pela Justiça Eleitoral.

A sensação de falta de controle é tão grande, que uma multinacional estrangeira - sem nenhuma contestação de algum partido político, de um cidadão, ou do CONAR - coloca no ar uma campanha de lançamento de carro, de teor descaradamente político, com o tema - você na direção da mudança (que mudança? A quem interessa a mudança que aí está?) traduzindo, por meio de um automóvel de mais de 80.000 reais, o sonho de consumo e a conquista do país por uma suposta classe "média" conservadora, "vitoriosa", supostamente ascendente.

Quando a realidade é a da quebra - da engenharia à indústria de alimentos, agora - de centenas de grandes, médias e pequenas empresas, de milhares de acionistas, investidores - na bolsa e fora dela - fornecedores, vendedores, distribuidores, exportadores, e de centenas de milhares de trabalhadores que foram para o olho da rua devido ao caos político-institucional imperante e ao terror imposto ao setor produtivo, por funcionários públicos que não têm a menor ideia do que estão fazendo ou da repercussão econômica, política e social de suas ações.

Este é um tempo em que "investiga-se", rasteiramente, a torto e a direito, sem justificativa nenhuma, ou com base em ilações pontuais, insustentáveis, fortuitas, normalmente colocando sob escuta - já não há mais o menor controle sobre prazos, renovam-se, ad aeternum, as autorizações judiciais -por anos ou meses, diferentes setores da economia ou da vida nacional.

O que começou como uma manobra político-jurídica, dirigida a derrubar o governo anterior, em um impulso inercial que ainda continua, transformou-se, agora, em uma desatada fogueira das vaidades em que os setores encarregados de um novo tipo de repressão "giorgio-armaniana" competem entre si para mostrar quem manda mais, ou quem está fazendo mais em uma suposta "guerra contra a corrupção" que agride a Constituição, destrói a economia e sitia o que sobrou - depois do "impeachment" - de legitimidade no poder político.

Os alvos são aqueles segmentos pelos quais se cultiva antipatia ideológica, que continuam na mira, e, agora, aqueles ligados a temas que são passíveis de ter maior poder de repercussão junto à opinião pública - como a saúde ou alimentação, por exemplo - que são monitorados até que alguém diga, ao telefone, algo capaz de justificar uma "operação" de grandes proporções.

Então, o Ministério Público pede, e os juízes autorizam, muitas vezes apenas com base nessas interceptações, novas e mais amplas quebras de sigilo nas comunicações, prisões preventivas, conduções coercitivas, mandados de busca e apreensão.

Invade-se, apreende-se, prende-se, se conduz, com estardalhaço e muitas vezes sem provas, mantendo-se o "material apreendido" sob guarda da justiça, durante meses, anos, mesmo que seja apenas o tablet de uma criança.

Imediatamente, a mídia - ou a maior parte dela - reverberará, então, em gongos colossais, a versão do "sistema", sem checar também absolutamente nada, porque não o faz mais profissionalmente, mas automaticamente, ideologicamente, ininterruptamente, regurgitando, como um pinguim, o que recebe dos outros, sem digerir o que lhe passam terceiros, por meio de "notas" e vazamentos, em um jogo sujo e permanente de descarada manipulação.

Isso, sem dignar-se a perguntar a si mesma se quem fala de papelão e plástico pode estar se referindo a embalagem, ou sequer entrar no Google para ver que ácido ascórbico não é um tremendo veneno cancerígeno, mas um simples e corriqueiro tipo de vitamina C.

Se consultada, não há porque se preocupar.

Pressionada e seduzida pelo "clamor" das ruas - tão superestimado quanto ilusório - e pela narrativa preponderante vigente, a "justiça" estará quase sempre ao lado desse processo, desse novo estado de coisas, dessa estranha jurisprudência, dessa inédita situação - enquanto presos se decapitam nas prisões e tribunais inferiores absolvem, regularmente, agentes públicos filmados atirando em indivíduos desarmados ou jogando outros de telhados, por exemplo.

Tudo que for do interesse dessa "campanha", desse discurso único, será repetido, exagerado, multiplicado, à exaustão, em sites, jornais, portais e blogs.

Não apenas naqueles criados especialmente para divulgar mentiras, sem reação das autoridades - a ponto de publicar que uma pessoa morta foi vista viva em outro país, para jogar a população contra uma determinada liderança ou partido político - mas também nas redes sociais e nos comentários dos portais, por uma multidão de trolls, que, algumas vezes, primam pela ignorância, mas na maioria delas, são constituídos pelo ódio, pelo preconceito, pela estupidez, pela imbecilidade, sem contestação.

E assim, chega-se à fórmula mágica por meio da qual passamos a viver em um país dominado, de alto a baixo, pela mentira e a hipocrisia, que marcha, a passos firmes, coordenados, para um governo quase que certamente fascista, a partir do final do ano que vem.

Não é possível continuar reduzindo os problemas da Nação à corrupção, distraindo a população de outras gravíssimas questões, como os juros e a sonegação, nem podemos permitir que se percam de vista os parâmetros que regem o contrato social maior da Democracia, sob pena de que se perca a governabilidade e o controle do país.

Os graves erros cometidos pelo PT e pela oposição ao PT nos últimos anos, vide "O PT, O PSDB, e a arte de cevar os urubus", nos meteram em uma camisa de sete varas.

Em um jogo de matrioshkas - as bonequinhas russas de madeira pintada que guardam, dentro, outras, menores e aparentemente iguais - em que cada novo golpe, ou tentativa de golpe, esconde, em uma sucessão de pequenos kinder-ovos envenenados, uma "surpresinha" cada vez pior.

Sabemos, como no caso do gato, do martelo e do frasco de veneno do experimento mental de Schrodinger, a que nos referimos antes, que, dentro da primeira matrioshka, a matrioshka do "impeachment" contra Dilma, no ano passado, existem pelo menos mais duas bonequinhas, que dominarão, nos próximos meses e anos, se nada for feito para impedi-lo, o país e a vida política nacional.

Uma delas é o avanço permanente, contínuo, incontestável, do Estado de Exceção, com a conquista da República - com a desculpa de uma "autonomia" e de uma "independência" surreais (vide aí novamente a importância da aprovação da lei de Abuso de Autoridade) - por parte de uma plutocracia que não deveria ter, porque não tem voto, nenhum poder político.

A outra tem a ver com dois pré-candidatos - um deles, ainda eventual - ególatras e autoritários, os dois extremamente ligados a essa parcela da funcionalismo público preconceituosa, arrogante e hipócrita.

As duas maiores lideranças conservadoras do país, hoje, que, independente de só um deles sair candidato, inevitavelmente se apoiarão em um segundo turno contra Lula.

Que ninguém se iluda com o baixo comparecimento nas últimas manifestações "coxistas".

Quem quiser saber como anda o estado da extrema direita, no panorama geral do "Estado de Direita" nacional, que entre nas páginas na internet e em suas centenas de canais no youtube, e consulte o número de curtidas, adesões, assinaturas e comentários, para ter ideia da enorme dimensão que conquistou nos últimos anos no contexto da sociedade brasileira.

Esse quadro, cada vez mais complexo e desafiador, nos leva a perguntas difíceis de serem feitas e respondidas, mas que não podem ser adiadas, historicamente, por quem estiver minimamente preocupado com a sobrevivência da democracia no Brasil:

Qual das duas matrioshkas - a plutocrática ou a fascista - se consolidará primeiro?

Até que ponto elas trabalharão, intimamente, nos próximos meses, e, principalmente, consolidando esse absurdo estado de coisas, ou sabotando um eventual governo de esquerda, a partir da posse de um novo presidente, em janeiro de 2019?

Se Lula for candidato, até que ponto se poderá estruturar e alcançar uma contundente vitória fascista, por meio de uma ampla aliança no segundo turno - de todos, do "centro" fisiológico à extrema direita - contra ele?

Ou melhor, no ano que vem, se Lula for candidato, com quem ficarão os outros concorrentes que não forem para o segundo turno?

Contra ou a favor do fascismo que ameaça se assenhorear do país?
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Propinas serviam para enriquecimento pessoal de Serra


A informação da coluna Radar (https://goo.gl/EsZI00) da Veja, de que a Odebrecht teria feito pagamentos milionários ao senador José Serra na conta de “uma parente” e através do lobista José Amaro Pinto, é a pá de cal na carreira do senador. Desvenda-se o maior segredo de Polichinelo da história da república: o processo de enriquecimento de Serra na política.

A parente de Serra obviamente é a filha Verônica. Completando a delação do executivo da Odebrecht, há a famosa tarja preta que a Polícia Federal colocou na agenda telefônica de Marcelo Odebrecht, antes de vazar a agenda para a mídia. Amadores, chamaram imediatamente a atenção de todos e não se deram conta de que um bom editor de imagens eliminaria as tarjas revelando os nomes. O compromisso tarjado era de Marcelo Odebrecht, com uma reunião com José Serra justamente no escritório de Verônica.

Com a possibilidade aberta, agora, de quebrar o sigilo das contas de Verônica Serra, especialmente dos seus fundos de investimentos, será bastante simples desvendar todo o sistema de lavagem de dinheiro de Serra, que o transformou em um dos políticos mais ricos do país.

Os dois caminhos de Serra para a lavagem de dinheiro foram o mercado de tecnologia e o de obras de arte – ambos propícios à lavagem devido às precificações bastante voláteis e subjetivas.

Pessoas que visitaram Serra em sua casa, aliás, se espantaram com a quantidade de obras de arte espalhadas pelas paredes. Na denúncia que a PGR encaminhará ao STF (Supremo Tribunal Federal), se saberá qual o estágio atual de Rodrigo Janot em relação à blindagem de Serra. Se não incluir abertura de contas de Verônica e arresto de obras de arte, não será uma investigação séria.

Aqui está um roteiro simples e algumas pistas  para destrinchar os métodos de lavagem de dinheiro de Serra:

1. O caso Santander-Banespa

Desde os idos de 2.000, Serra já se valia das incursões de Verônica no mercado de tecnologia para lavar dinheiro. Quem a conheceu na época sabia ser uma moça limitada, sem noção clara sobre empresas startups. Mesmo assim, conseguia feitos extraordinários.

O primeiro deles foi sua aproximação com argentinos da Patagon – um sistema de banking eletrônico. Verônica conseguiu vender para o Santander por US$ 700 milhões, uma soma impossível. O próprio presidente do banco participou das negociações.

Anos depois, procurei mapear os interesses do Santander na época. O maior deles era relacionado com a compra do Banespa. Para conseguir viabilizá-lo economicamente necessitava que fossem mantidas no banco as contas dos funcionários públicos e do Estado. A lei impedia.

De alguma forma, o Santander obteve a autorização. Embora o tempo transcorrido seja grande, provavelmente o rastro do dinheiro mostraria os beneficiários desse jogo e a maneira como conseguiu atropelar as leis e preservar as contas públicas, mesmo após a privatização do banco.

Pouco tempo depois, o Santander pagou US$ 5 milhões para os argentinos receberem o software de volta. Hoje em dia, ele repousa em um computador desligado, em um banco médio paulista.

2. O caso Experian-Virid

O grupo britânico Experian adquiriu a Serasa e avançou como um leão faminto sobre o mercado de avaliação de devedores e de bancos de dados. Nessa ocasião houve a entrega para Experian do banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral pela presidente Carmen Lùcia. A operação voltou atrás depois do protesto de Marco Aurélio de Mello. Carmen Lúcia provavelmente não sabia dos valores envolvidos no mercado de banco de dados. Mas seria interessante saber dela quem a convenceu a oferecer o banco de dados do TSE.

A operação mais suspeita da Experian foi com os Cadins (Cadastro dos Devedores) estaduais. No final do seu governo, Serra entregou à Experian o Cadin do estado. Além do mais valioso, abriu as portas da Experian para os demais Cadins estaduais.

Pouco tempo depois, Verônica adquiriu participação em uma empresa de e-mail marketing, a Virid – que, na opinião de analistas de mercado não deveria valer mais de R$ 30 milhões. Em seguida revendeu-a para a Experiência por R$ 104 milhões. Na época, consultei o setor de relações com o mercado da Experian, em Londres, e me informaram que o valor da operação era sigiloso.

3. Os negócios com Daniel Dantas

No livro “A Privataria Tucana”, o repórter Amaury Junior esmiuça os jogos de offshores de Verônica.

Há dois episódios pouco analisados e escandalosos. Um deles, o site de comércio exterior que Verônica montou com a irmã de Dantas e que conseguiu o acesso a informações sigilosas do Banco Central e do Banco do Brasil. Se não fosse denunciado, valeria dezenas de milhões de dólares.

Na campanha de 2002, Serra esquentou a casa onde morava, perto da Praça Pan-americana, com recursos supostamente enviados por Verônica dos Estados Unidos. Foi um esquentamento feito às pressas, depois que o PT levantou suspeitas sobre a casa.

Aliás, a história da casa é relevante. Serra a adquiriu quando Secretário do Planejamento de Montoro e quando corriam rumores da montagem de uma indústria de precatórios no Estado: mediante propinas, conseguia-se furar a fila de anos. Serra sempre dizia que alugara a casa – enorme – porque conseguira um aluguel especial com o proprietário.

4. Os fundos de investimento

O fundo de investimento de Verônica Serra possui 10% do Mercado Libre, portal cotado até pouco tempo na Nasdaq em US$ 2 bilhões. Quebrando o sigilo de Verônica, será fácil rastrear a maneira como em tão pouco tempo ela acumulou um capital de US$ 200 milhões em apenas um investimento.

5. O fator José Amaro Pinto

O lobista José Amaro Pinto sempre teve ligações estreitas com o lado FHC do PSDB. Foi colega de Sérgio Motta e FHC na Sociologia e Política. É um senhor já de idade, culto, cortês e que, até esta última informação, era conhecido como lobista dos grupos franceses junto ao Brasil. Dentre seus clientes estava a Dassault, que fabrica os Mirage, a Tales, de radares, e a notória Asltom.

Com a informação de que foi o intermediário entre a Odebrecht e Serra, surge a verdadeira face de Ramos: em vez de lobista da França no Brasil, era lobista do PSDB junto a interesses franceses.

Luís Nassif
No GGN
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Nostalgia

As utopias morreram, as ideologias agonizam, e eu também não ando me sentindo muito bem.

“Esquerda” e “direita” são termos obsoletos. Vêm da divisão física entre os progressistas e os conservadores nas assembleias legislativas francesas depois da Revolução. Quer dizer, têm mais de 200 anos. Não significam mais nada. Ou significam?

Mesmo com outros nomes, como centro A e centro B, esquerdistas e direitistas ainda pensariam de modos diferentes, e entenderiam e desejariam coisas opostas. Mas há um sentimento que une direita e esquerda. Uma nostalgia comum que nenhum lado confessa, e da qual talvez nem se dê conta. É a saudade do século XIX.

Ah, o século XIX. Foi quando a História, por assim dizer, entrou na história, e tudo recebeu seus nomes verdadeiros. Uma segunda Criação.

Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico, e a modernidade tecnológica e modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo. “Bliss it was in that dawn to be alive” (Êxtase era estar vivo naquela aurora), escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa.

A esquerda poderia dizer o mesmo do século XIX. Naquela aurora não havia dúvida sobre a inevitabilidade histórica do socialismo.

Mas êxtase também espera a direita numa volta idílica ao século XIX. Foi o século de reação à Revolução Francesa, da restauração conservadora na Europa depois do terremoto republicano e do nascente capitalismo industrial sem remorso.

Os que propõem a “flexibilização” dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta, como a que pretendem hoje em Brasília, babariam com o que veriam no velho século: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer direito legal ou moral, fora seus magros salários. A perfeição. Antes que a pregação socialista a estragasse.

Século XIX, terra de sonhos. Para a esquerda e a direita, juntas.

Luís Fernando Veríssimo
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Temer e Meirelles estão perdidos, incapazes tanto de fazer quanto de compreender

Nem a complacência interessada com que o poder econômico e a imprensa/TV tratam Michel Temer – conduta que serve proteção para um lado e ilusão para o outro – consegue escapar desta realidade deprimente: Temer e Henrique Meirelles estão aturdidos, perdidos no emaranhado de suas afirmações e logo recuos, incapazes tanto de fazer quanto de simplesmente compreender.

E a verdade daí decorrente é que, em dez meses, a situação do Brasil só se agravou, arrastando nesse despenhadeiro todos os não dotados de recursos fartos. Sob o domínio da incompetência e da perplexidade, o Brasil sufoca.

Em um só dia, o já estigmatizado 31 de março, as páginas iniciais nos sites dos principais jornais e do UOL davam, com diferentes níveis de exibição, estas informações: "Corte orçamentário atinge transporte, habitação e defesa". O governo superestimou as receitas, prática que dizia repelir, daí resultando um rombo de R$ 58,2 bilhões nas suas contas. Como remendo, já em março Meirelles achou necessário o corte de mais de R$ 42 bilhões nos investimentos do governo. Só as obras do PAC perderão mais de R$ 10 bilhões. Os investimentos do governo são, historicamente, o que ativa a economia. Logo, o corte é contrário à recuperação econômica.

Outra: "Contas públicas têm pior resultado para fevereiro em 16 anos", ou desde que começado esse registro em 2001. A despesa do governo no menor mês foi R$ 23,5 bilhões maior do que a receita.

Mais: "PIB recua 3,6% em 2016". É o país empobrecendo. Meirelles propalou, nos primeiros meses do governo Temer, que antes do fim do ano (2016) a recuperação econômica já estaria em curso. Com o corresponde resultado no PIB. As previsões vieram caindo em voz baixa. E o resultado real é o desastre noticiado.

Ainda: "Governo Temer é aprovado por 10%" (pesquisa CNI/Ibope, que em dezembro indicava 13%). Aquele número reflete o tamanho da legitimidade com que Michel Temer se põe a agravar as distorções da Previdência. E reduzir ainda mais o valor do trabalho, com a terceirização indiscriminada.

Para encurtar, por desnecessidade de mais: "Brasil tem 13,5 milhões sem emprego e a economia continua em retração". Esses milhões são o cálculo do IBGE para os que procuraram emprego. Incluídos os que desistiram de procurá-lo ou não chegaram a fazê-lo, há estimativas que vão a 20 milhões. Se "a economia continua em retração", a probabilidade de desemprego é crescente. E suas consequências, idem.

É o Brasil de Michel Temer em poucas linhas. O governante dos recuos empurrando o país para a calamidade.

Em tal situação, disseminar notícias precipitadas de êxitos governamentais é mais do que fantasiar incertezas. O governo não se entende com a economia e não é verdade que se entenda com o Congresso, a menos que sucessivos recuos não sejam apenas falta de entendimento, de avaliação e competência. E de moralidade, com tantos símbolos da corrupção revigorados nos cargos ministeriais e palacianos recebidos de Michel Temer.

Na história brasileira, não há nada semelhante a esse governo que perde, em sua média, um figurão por mês, levado por acusação de improbidade (em um caso, por tê-la encontrado dentro do palácio presidencial).

Devastado pelos bandoleiros dos subornos, negociatas, desfalques, e estelionatos com nome de "sobras de campanha", este país agora está sofre a ameaça de ser destroçado por um governo de ineptos, protegido em troca de alguns retrocessos de legislação.

Janio de Freitas
No fAlha
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