26 de mar de 2017

A mais nova investida da Folha contra os sites progressistas


A mídia continua sua louca cavalgada contra os sites progressistas.

Por trás dos ataques está uma saudade imensa dos dias em que apenas a opinião dos donos da mídia era veiculada — e imposta aos brasileiros.

Com escassos recursos, os sites progressistas romperam o monopólio dos barões.

Os precursores da essencial voz alternativa à gritaria conservadora de jornais e revistas foram Nassif e Paulo Henrique Amorim. (No meio impresso, o pioneirismo foi de Mino Carta.)

Um exemplo da perseguição aos blogueiros está numa enquete que a Folha promoveu em sua página no Facebook sobre o caso Guimarães.

O pretexto era colher a opinião dos leitores sobre a condução coercitiva de Guimarães.

Mas o real intento era atacar os sites progressistas como um todo.

Para ilustrar a enquete, a Folha destacou um trecho de um texto de seu colunista Demetrio Magnolli.

“Guimarães é uma das tantas vozes que, organizadas em matilha e muitas vezes financiadas pelo dinheiro fácil das estatais, consagraram-se à difamação sistemática dos críticos do lulopetismo. Nada, porém, autoriza uma perseguição policial amparada em pretextos.”

A palavra matilha dá o tom do incômodo que os sites progressistas — ou de esquerda, ou centro esquerda — provocam na Folha e em Magnolli.

Se fôssemos simplificar e retrucar, poderíamos dizer que a grande mídia e seus colunistas amestrados — amplamente beneficiados com o dinheiro fácil da publicidade federal — propagam em matilha uma implacável caça aos valores e às pessoas que representam uma visão de mundo mais igualitária e menos reacionária.

É curioso que até dinheiro de propaganda federal seja invocada por Magnolli. Apenas a Rede Globo, nos anos de PT no poder, levou 8 bilhões de reais em publicidade federal.

Jamais vi um único anúncio no Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães.

Outros sites progressistas, entre eles o DCM, jamais receberam publicidade federal à altura de sua audiência. Foram sempre migalhas — e não estou falando em sentido figurativo — comparadas às multimilionárias verbas da grande mídia.

Várias vezes o DCM defendeu um corte de gastos na propaganda governamental. Estávamos inspirados nos países mais avançados, onde o governo só anuncia coisas de claro interesse público.

Nunca a imprensa — tão ciosa (aspas) dos gastos elevados do governo — tocou na questão dos bilhões torrados com ela em publicidade feita com o dinheiro do contribuinte.

Mesmo assim, a Folha e Magnolli se sentem autorizados a falar no “dinheiro fácil” das estatais para atacar as vozes alternativas.

Os barões da mídia e propostos são tomados, na verdade, por uma invencível nostalgia da era em que só eles falavam.

A imprensa brasileira não suporta concorrência na disputa por corações e mentes — e nem em nada, a rigor. Basta ver que ainda hoje ela é beneficiada com reserva de mercado — a despeito de seus intermináveis e maçantes discursos pela livre concorrência.

Este é o ponto central do ataque a Eduardo Guimarães e demais sites progressistas: a ojeriza à competição.

Paulo Nogueira
No DCM
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Fernando Morais: Golpe de 1964 e a imprensa nanica × golpe de 2016 e os blogs


Morais faz um paralelo entre a repressão à imprensa nanica, na ditadura e nos dias de hoje.

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“Lulapalooza”, em coro. Como é a história do “não é competitivo”?


Forró com rock?

Lula ou “Loola”, de Loolapalooza?

Bem, pouco importa, porque o significado de algo é aquilo que ele desperta.

Em poucas hora, viralizou o vídeo onde um conjunto de rock “puxa” um solo como o “Olê, Olê, Olá, Lula, Lula”.

Na São Paulo, na juventude “não-mauricinho”.

Desculpem, mas a música é inconfundível.

Como é que é aquela história de que Lula não é competitivo?

O “Fora Temer” está e metamorfoseando em “volta, Lula”.



Fernando Brito
No Tijolaço
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Você gostaria de ser julgado por um inimigo?


O principal requisito que se exige de um juiz de Direito é a imparcialidade, diz o advogado criminalista Fernando Hideo Lacerda, quem me defende de acusações torpes assacadas contra mim em dois processos – um deles, kafkiano, e o outro, malandro.

Como é possível que a Justiça brasileira permita que uma pessoa seja julgada por um inimigo manifesto. Você gostaria de ser julgado por alguém que te odeia?

Como todos sabem, estou sendo acusado criminalmente pelo juiz Sergio Moro, da 13ª vara de Curitiba, de “obstruir” a Justiça e por “ameaçá-lo”.

É a primeira acusação criminal que sofro em quase seis décadas de vida. O primeiro processo (obstrução) é uma causa pública. Eu teria avisado um “criminoso”, ou seja, um ex-presidente da República, de que ele seria alvo da Justiça.

O segundo processo é uma causa pessoal do meu julgador; eu teria ameaçado publicamente alguém que dispões de meios de mandar me encarcerar quando lhe der na veneta.

Na semana que finda, após esse caso rumoroso ganhar o mundo e provocar indignação no Brasil e no mundo afora devido à violência física e moral a que fui submetido pelas forças de repressão comandadas por meu detrator, ele, intimidado com a repercussão, recuou parcialmente.

Muitos pensam que meu algoz retirou o processo sobre obstrução, mas não é isso. Ele simplesmente retirou a parte do processo decorrente da violação de meus sigilos, mantendo a acusação de que eu avisei o presidente Lula de que ele seria preso ilegalmente, assim como eu fui.

Para esclarecer tudo isso entrevistei meu advogado, doutor Fernando. O resultado da entrevista você confere no vídeo abaixo.



No Blog da Cidadania



Ato em solidariedade a Eduardo Guimarães e pela liberdade de imprensa

Com o auditório do Sindicato dos Engenheiros lotado, Guimarães detalhou o ocorrido. Os agentes armados bateram à porta de seu apartamento às 6h da manhã e sua esposa sequer teve permissão para trocar de roupa. "Não tive orientação alguma sob o interrogatório. Eles só me avisaram, sem a presença do meu advogado, que eu até tinha o direito de ficar calado, mas que isso poderia me prejudicar", relata.

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Bemvindo: O filme Os Companheiros e a Consciencia Contra o Golpe


Quando eu ganhei consciência política, aos 16 anos , um companheiro me disse: viverás agora o pecado original porque a consciência é uma luz que não se apaga. É o que aos poucos os trabalhadores vão adquirindo na luta contra os tenebrosos golpistas.



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Idades

Não sou religioso. Devo ter deixado minha fé no bolso da fatiota azul, de calças curtas, com que fiz minha primeira comunhão. E a única coisa de que me lembro do evento, além da fatiota (e da gravata prateada!) não é a emoção de receber a hóstia no rito eucarístico, são os doces que tinha em casa, depois. Acho que foi ali que fiz a minha opção preferencial pela perdição. Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio à crise mundial do monoteísmo. 

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade. E sonhávamos com tudo o que viria, quando tivéssemos. Entrar em filme proibido até 14 anos. Beber e fumar. (O importante não era a bebida e o cigarro, era a pose que se fazia bebendo e fumando. Ficar adulto era adquirir a pose.) Beijar como beijavam nos filmes – principalmente os proibidos até 14, já que nos proibidos até 18, que não nos deixavam ver, ninguém sabia o que acontecia. Ficar acordado até mais tarde. Ganhar a chave da casa. Dirigir carro. Deixar crescer um bigode. Ou um projeto de bigode.

Ainda não ter idade era ficar pinoteando no partidor, indócil, como um cavalo esperando a largada. E não ter mais idade é ficar com esta impressão que até um ato de revolta por tudo que não fizemos quando tínhamos idade e agora não podemos mais, não seria, assim, apropriado para a nossa idade.

Pintinha.

Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já fui um fundamentalista, daqueles de guardar até volante de dedetizadora, mas minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão. Hoje, já aceito que doar livro não é o mesmo que jogar no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que não leria nunca, pois não se distingue mais o texto do mofo. E por estes dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e do qual nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição e a revelação de que eu era muito mais organizado na adolescência. Uma das cadernetas, por exemplo, é de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos, como “Ana Maria (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Maria, mas acho que me lembro da pintinha. E em outra caderneta tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no Birdland: um dólar e 25!

O ano era 1954. E o mais espantoso: eu tinha 18 anos!

Luís Fernando Veríssimo
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FHC e a maxidesvalorização de 1999


Comprei, mas não li ainda o terceiro volume das memórias de Fernando Henrique Cardoso na presidência. Fala da maxidesvalorização de janeiro de 1999.

Acompanhei de perto esse episódio, como colunista da Folha e comentarista da Bandeirantes.

No segundo semestre de 1998 já estava nítido que não haveria como manter o congelamento do câmbio.  Gustavo Franco era presidente do Banco Central e se apegava ao congelamento como se fosse um filho dileto, do qual não queria se afastar.

Como narrei no livro "Os Cabeças de Planilha", antes do lançamento do Real, banqueiros estrangeiros foram procurados pelo economista Winston Fritsch com a informação de que o governo pretendia derrubar o preço do dólar e convocando-os a ajudar os economistas do Real que atuavam no mercado a apostar na queda do dólar nos mercados futuros.

Em poucos meses, a apreciação do real comprovou-se desastrosa, destruindo rapidamente o superávit comercial brasileiro.

No início de 1995, a fragilidade das contas externas serviu de álibi para que Pérsio Arida, presidente do BC, jogasse as taxas de juros em níveis estratosféricos. Logo depois, uma visita de Pérsio à fazenda do banqueiro Fernão Bracher, em São Carlos, foi tratada como escândalo, levando à sua demissão. Em seu lugar assumiu Gustavo Loyolla, que manteve os juros nas alturas, sob o argumento de que não poderia reduzir muito rapidamente para o caso de ser necessário subir de novo – um argumento primário, mas que a atoarda da mídia transformava em decisão técnica.

O câmbio continuou super-apreciado até fins de 1998.


No segundo semestre de 1998, o Ministro da Fazenda Pedro Malan negociou um empréstimo-ponte junto ao FMI com duas intenções claras. A primeira, manter o câmbio congelado até passar as eleições. A segunda, dar uma porta de saída para o capital especulativo.

Depois de terem ganhado os tubos com o diferencial de taxas de juros, o empréstimo do FMI permitia aos capitais especulativos sairem sem riscos, ganhando em cima do real apreciado antes que estourasse uma maxi inevitável.

Desde 1997 na presidência do Banco Central, Gustavo Franco dera início a um conjunto de operações especulativas temerárias. Autorizou o Banco Araucária a explorar as contas CC5 em Foz do Iguaçu e espalhou essas contas por todo o país. O caso apareceu no escândalo do Banestado, mas acabou encoberto.

Depois, vazou a informação de que o Banco Central pretendia recomprar títulos da dívida brasileira emitidos no Plano Brady. A ideia era levantar os preços dos papéis no mercado internacional, permitindo grandes ganhos ao Banco Garantia, no qual seu pai tinha uma pequena participação acionária. A eclosão da crise da Rússia melou a operação, infringindo grandes perdas ao Garantia e levando o controlador Jorge Paulo Lehman a se desfazer dele e passar a apostar em papéis reais da Ambev.

No final de 1998, o dólar estava em R$ 1,20 (https://goo.gl/hZC6wg). Terminadas as eleições, o governo começou a preparar a saída. E o bode expiatório foi Chico Lopes, diretor de política monetária do BC e, desde sempre, crítico da temeridade da política cambial.

Gustavo foi demitido e Chico assumiu a presidência do BC para conduzir o descongelamento do câmbio. Sem experiência com mesa de operação, bolou a tal banda diagonal exógena, um sistema de reajustes que, segundo ele, permitiria o câmbio deslizar controladamente para a nova taxa de equilíbrio. Seria o mesmo que, em um estouro da boiada, colocar um professor com um quadro negro na frente para explicar à boiada como se comportar.

Chegou-se a uma situação crítica com risco sistêmico para a economia. Lembro-me de ter telefonado para Pedro Parente, então Ministro-chefe da Casa Civil, insistindo para que convocasse Emilio Garófalo, funcionário aposentado do Banco Central. Em crises anteriores, no período Maílson e na passagem para Collor, com menos de um bilhão de dólares de reservas, Garófalo fizera milagres, impedindo a quebra do país.

A sugestão não foi acatada, e o governo estava literalmente atarantado, sem saber o que fazer.

Para não gastar as últimas reservas cambiais, Chico instituiu uma regra permitindo a quem tinha dívida em dólar converter em reais de acordo com determinada paridade.


A essa saída recorreram os Bancos Fonte-Cindam e Marka.  Essa operação rendeu um inquérito de procuradores, que chegaram a invadir a casa de Chico Lopes e levar até computadores pessoais de sua filha. Pedro Malan ajudou a cravar a faca no peito de Chico Lopes, com uma declaração dúbia que jogou todos os holofotes sobre ele.

Esses dias mesmo li um comentário sobre o livro de FHC, onde alguém dizia que FHC dissera a Chico Lopes que o câmbio seria mantido sob controle, Chico teria avisado os bancos Marka e Fonte-Cindam e FHC teria voltado atrás. Ambos os bancos teriam quebrado porque baseados em informações falsas de Lopes.

A fonte das informações era outra.

O caso da Tendências Consultoria

A consultoria Tendências foi montada por um ex-garimpeiro, Natan Blanche, inteligente, um dos profetas da liberalização cambial, que fez um trabalho excepcional de cooptação de funcionários públicos da Fazenda e do Banco Central no período Maílson da Nóbrega. Culminou com a ida de Maílson como sócio da Tendências.

Conhecia as jogadas de Maílson desde os tempos de Ministro.

Dois episódios deixaram claro como operava.

Na época, montei a Agência Dinheiro Vivo, que tinha boa penetração no mercado. A parte mais especulativa do mercado eram as apostas em torno da UFIR (fixada pela Secretaria da Receita Federal) com base nos índices de inflação do IBGE e da FGV.

Montamos um Departamento Econômico e, pioneiramente, decidimos criar simuladores de inflação e de outros índices. O grande especialista em preços era o economista Gil Pace, que trabalhara com Delfim Neto e, depois, passara pela Fazenda, com Maílson. Chamei-o no escritório perguntei se aceitaria uma consultoria para nos orientar na montagem da planilha. Na época, trabalhava na DV a Marília Stábile, que era uma excelente acompanhadora dos preços no mercado.

Sua resposta foi surpreendente:

- Não precisa de simulador. Você me paga um tanto por mês e tenho técnicos do IBGE que me informam antecipadamente os índices.

Obviamente não aceitamos sua proposta.

Antes daquela conversa, nos tempos de Maílson Ministro, estive uma vez no Ministério da Fazenda. Lá, um técnico me informou de onde partiam os vazamentos sobre a UFIR:

- Da sala ao lado, disse ele

Era a sala que abrigava um funcionário da Receita que Maílson trouxera para trabalhar consigo.

De volta para São Paulo, aceitei uma carona de Maílson no jatinho do Banco Central. Lá o informei dos vazamentos e das suspeitas que pairavam sobre o funcionário. Maílson me olhou assustado e nada comentou. Tempos depois, ele foi para a Tendências, levando consigo Gil Pace e o tal funcionário.

No final de 1998, fui contratado pelo Brasilprev – a empresa de previdência privada do Banco do Brasil - para um conjunto de palestras em várias federações da indústria.

O modelo era o mesmo. Gustavo Loyolla, ex-BC e sócio da Tendências, fazia a primeira palestra, sobre conjuntura. Eu, a segunda, sobre microeconomia. Depois, um representante do Banco do Brasil, sobre os planos do banco terminando com uma palestra de Fuad Noman, presidente da Brasilprev, sobre a previdência privada.

Em todas os encontros, Loyolla começava, abria um power point com tabelas e mais tabelas, uma numerologia sem fim – e sem raciocínios em cima. E, depois, concluía:

- Com base nesses números nós, da Tendência, estimamos que no ano que vem o câmbio não vai alterar mais que 6%.

Dizia aquilo para plateias de mais de 500 pessoas, empresários que colocariam empresas em risco se apostassem cegamente naquele cenário.

Invariavelmente, eu abria minha palestra com elogios protocolares à fala de Loyolla e, depois, com o alerta:

- Pessoal, não apostem todas suas fichas no que Gustavo falou. Tem economistas que acreditam que o câmbio não vai mudar no ano que vem. E outros, como eu, que acham que antes de terminar o primeiro trimestre haverá uma explosão cambial.

O que o Marka, Fonte-Cindam e a Mirian Leitão - que até a véspera da desvalorização sustentava que nada aconteceria tinham em comum? Os dois primeiros era clientes da Tendências e a Mirian era a voz da Tendências no jornal e TV.

Um dia antes da explosão cambial, a Globonews entrevistou três economistas de mercado, os três garantindo que o câmbio não iria mudar. Detalhe: não informou que os três eram da Tendências.

Era tudo de uma obviedade assustadora. Os US$ 15 bilhões do FMI viraram fumaça em questão de semanas. Era óbvio que, esgotadas as reservas, viria a maxidesvalorização.

O Fonte-Cindam e o Marka quebraram por uma razão mais prosaica. Todas as ordens de compra e venda do BC no mercado de câmbio eram realizadas através da GEROF (Gerência da Área de Câmbio, Operador Financeiro de Renda Fixa, Bolsa e Câmbio.

Provavelmente era da GEROF que a Tendências recebia os insiders. No dia em que o BC liberou o câmbio, obviamente não houve ordem, já que a liberalização consistia no BC não mais intervir no mercado.

A Tendências ficou aguardando a informação sobre o novo teto para as operações de dólar enquanto o tsunami se abateu sobre o mercado. E Chico Lopes foi jogado às feras. Chico não pertencia ao grupo operador do Real – André Lara, Pérsio Arida, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Winston Fritsch e o próprio Malan.


Alguns meses antes do desastre, um assessor de imprensa providenciara um almoço meu com Salvatore Cacciola, dono do Banco Marka. Anotei a conversa em uma Palm e não usei devido à superficialidade do assunto. Encontrei um sujeito convencido, presunçoso, se vangloriando de ter um departamento técnico que lhe permitia alta margem de acerto nas taxas de juros dos leilões do BC.

Quando estourou a maxi, consultei as anotações e me dei conta de que o vazamento a que ele tinha acesso não era sobre câmbio, mas sobre os leilões do BC.

Alertei em minha coluna e descrevi a maneira de desvendar o enigma. Bastaria levantar as operações da Marka nos leilões de títulos, assim como de outros bancos e, depois, analisar os resultados probabilisticamente.

Mas não houve interesse em aprofundar as investigações. A não ser o senador Eduardo Suplicy – que, de qualquer modo, não deu sequencia nas investigações.

Em 13 de janeiro o câmbio saltou para R$ 1,30; para R$ 1,46 no dia 14,  para R$ 1,87 no dia 26 (https://goo.gl/P82ld5)

O fim do governo FHC

A desvalorização do câmbio representou o fim do governo FHC.

Nas semanas seguintes, participei de duas entrevistas com ele, uma pelo Roda Viva, outra pela Bandeirantes.

No livro, ele menciona a entrevista do Roda Viva e diz que recebeu vários telegramas de parabéns. Realista, diz que os que não gostaram não enviaram telegramas e, assim, não tinha como avaliar o resultado da entrevista.

Eu tenho. Foi um desastre! Mas um desastre tão grande que, no final, resolvi levantar uma bola para FHC apresentar alguma coisa positiva. José Paulo Silveira, Secretário Executivo do Ministério do Planejamento, tinha montado um sistema de acompanhamento do orçamento público, o Avança Brasil. Todas as etapas eram registradas por um gerente que registrava cada passo em um sistema Lotus Notes.

Silveira me dizia que a única coisa que faltava era um dia FHC ligar o computador e mandar uma mensagem para qualquer gerente. Aí eles sentiriam que o presidente estava olhando, conferindo entusiasmo à equipe.

No final da entrevista, lembrei FHC que no seu computador havia um acompanhamento de todas as obras públicas e indaguei se ele alguma vez havia consultado o sistema. E ele:

- Imagine! Claro que não.

No dia seguinte, em São Paulo, recebi um telefonema do presidente de um dos maiores grupos nacionais, adepto dos programas de gestão. Estava indignado com a resposta de FHC.

A maxidesvalorização desorganizou completamente a economia. E FHC recorreu ao único receituário que os cabeções do Real conheciam: reagir à maxi com um brutal arrocho fiscal.

Em pouco tempo, os estados sentiram na carne a crise. E se juntaram para cobrar de FHC uma atitude. O governo estava sem uma estratégia sequer.

Aproveitei para levantar um tema que já acenara no início dos anos 90, o encontro de contas, que consistia em levantar dívidas de estados e municípios com a União – basicamente contra o INSS, FGTS – e aportar as empresas de saneamento. Elas se tornariam, então, empresas públicas, isto é com controle do público, dos trabalhadores através de fundos de investimento.

FHC estava em Ilha Solteira, na inauguração da usina. De lá, me ligou o então genro David Zilbertjan, me pedindo que fosse a Brasilia, pois ali poderia estar a solução para a crise com os estados. Pediu que conversasse com Pimenta da Veiga, que tinha assumido o Ministério das Comunicações no lugar de Sérgio Motta e era ligado ao PSDB.

Enquanto atuava por lá, Paulo Rabelo de Castro fazia um trabalho junto ao DEM. E o governador do Paraná Jaime Lerner, adepto de solução similar, conversava com seus pares.

A conversa com Pimenta foi frustrante. Poucas vezes vi homem público mais desinteressado, ocupando o lugar que fora do furacão Sérgio Motta.

Mesmo assim, no sábado FHC acenou para os governadores com o tal encontro de contas. Provavelmente nenhum deles entendeu do que se tratava, mas o termo havia ganhado repercussão midiática. A reunião acabou em aparente paz, a ponto do Financial Time anunciar como a primeira vitória do governo depois do desastre da maxi.

Passado o aperto da reunião, nunca mais se ouviu FHC falando sobre a proposta do encontro de contas.

Por aquele tempo, FHC se desvencilhava gradativamente do DEM e passaria a se apoiar no PMDB. Ali começava o reinado do mais suspeito grupo político da era moderna, reunidos em torno de Michel Temer – que liderava o PMDB pelo fato de ser absolutamente anódino – sobressaindo-se Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco.

De crise em crise

Nos dois anos seguintes, a crise política se abateria como um furacão sobre o governo, agravada pelos erros que levaram ao “apagão”. E, aí, reconheça-se que a habilidade de FHC e a aliança com o PMDB permitiram a ele manter-se no poder, ainda que completamente amorfo.

O senador Antônio Carlos Magalhães, do DEM, foi o mais atrevido a se valer do enfraquecimento do governo. Semanas depois da máxi, atravessou a pé a praça dos Três Poderes, do Senado até o Palácio, com uma comitiva de parlamentares, como se fosse um vice-rei, exigindo solução para o caso Econômico. Voltou a pé, cercado pela mídia, e informou de quanto seria o próximo reajuste dos combustíveis.

Estava no Rio, naquele dia. No comentário no Jornal da Band, critiquei duramente a falta de limites de ACM. Na Folha, disse que, ao contrário do filho Luiz Eduardo, falecido, ACM não tinha a menor educação institucional.

Por aqueles dias, ACM tentava conseguir assinaturas para uma CPI sobre o Projeto Sivam. Quem o derrubou foi o senador Jader Barbalho que disse que assinaria se ele topasse assinar outro sobre a Pasta Rosa e sobre o Banco Econômico.

Escrevi sobre o tema mostrando como Jader se comportara com um Índio que entrava na mata com uma faca nos dentes, disposto a lutar até o final. E que ele vencera a batalha contra ACM, com um autêntico abraço de afogado.

A resposta de ACM foi um fax enviado para o meu escritório, me desafiando para um duelo. Que eu escolhesse um local e ele denunciaria e mim, ao meu chefe (supus que se referisse a Otávio Frias de Oliveira).

Seu assessor era Fernando César de Mesquita. Mandei uma resposta dizendo para o senador escolher o restaurante, que teria muito prazer em duelar com uma memória viva da República.


O fax acalmou ACM e Mesquita me ligou para explicar sua reação. Sua indignação era com FHC, porque falava uma coisa na frente e por trás dizia outra coisa. Estava indignado com a deslealdade.

A crise foi se acentuando e, em um fim de semana de 2001, ACM saiu atirando em reportagens de várias revistas, investindo pesadamente contra FHC, com denúncias de toda ordem.

No sábado, eu tinha almoço marcado com José Serra no restaurante Mássimo. Com o tiroteio Serra decidiu remarcar no Hotel Cá Doro. Na conversa disse a ele que a disputa de FHC com ACM não poderia dar empate: ou FHC liquidava com ACM ou seria liquidado.

Serra contou prosa para mim:

- Por isso é que não me querem na Presidência. Porque sabem que não dou moleza.

Mantinha a fama de mau apenas nos dossiês contra adversários, não na atividade pública, como demonstraria à exaustão nos anos seguintes, como prefeito e governador.

Na segunda tinha uma palestra em Brasília. Por volta do meio dia, a caminho do aeroporto, recebo telefonema de Serra perguntando se aceitaria almoçar com FHC no Alvorada.

Pedi para o motorista voltar e rumei para o Alvorada. Serra estava esperando. FHC chegou um pouco depois e ficamos conversando. Serra não falava nada. Submissamente, apenas ouvia o que FHC dizia. Ali deu para entender melhor a relação de amor-conflito entre ambos. Serra dependia em tudo de FHC e, perto dele, comportava-se como um discípulo obediente. De sua parte, FHC suportava pacientemente as viradas de humor de Serra e os venenos que, de vez em quando, espalhava pela imprensa.

No meio da conversa, Serra pediu que eu dissesse a FHC o que havia dito para ele. Nem me lembrava.

- Sobre o ACM!, explicou

Achei estranho. A troco de quê Serra precisava levar um jornalista para conversar com FHC para dizer algo que ele próprio Serra poderia dizer?

Repeti então para FHC o que havia dito para Serra. A resposta foi surpreendente:

- Antônio Carlos está liquidado. O caso da quebra de sigilo da votação do Senado vai liquidar com ele.


O caso – que realmente levou à renúncia de ACM – ainda não tinha vazado. Mas FHC já tinha tudo articulado com Orestes Quércia e com Jader Barbalho. Ali no Alvorada, ele contava o acordo senhor da situação. Ao lado, Serra parecia um discípulo surpreso ouvindo a lição do professor.

Foi um episódio no qual FHC mostrou uma determinação que não tinha visto antes. E, pela primeira vez, ficou nítido para mim a verdadeira dimensão de Serra, pequeno, intimidado ante a presença maior de FHC.

Pouco tempo depois, ACM renunciaria.

Luís Nassif
No GGN
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Osmar Serraglio - Essa você não vai ver no jornal nacional


O Jornal da Record teve acesso a gravações do ministro da Justiça, Osmar Serraglio, com donos de frigoríficos investigados pela Operação Carne Fraca. As conversas mostram que ele e o ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, Daniel Gonçalves, agiam para defender interesses de empresas doadoras na campanha de Serraglio para deputado.

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A fala de Eduardo Guimarães no dia de sua prisão

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Ortodoxia

Epiphanius era o bispo de Salamis, no Chipre, e um dos principais debatedores no grande conflito que dividia o cristianismo no fim do século IV. Discutiam-se a natureza de Deus e os princípios da fé cristã, e procurava-se uma verdade única que definisse as doutrinas da Igreja, como a que acabou sendo sacramentada no Credo de Niceia em 381, e repudiasse todas as heresias surgidas até então. E que eram exatamente 80, segundo Epiphanius.

O bispo, um ortodoxo ardoroso, não tinha dúvidas sobre o número de heresias da sua lista e reforçava sua tese lembrando que eram 80 as concubinas citadas nos “Cantares de Salomão”, da Bíblia. Lá está, capítulo 6, versículo 8: “Sessenta são as rainhas e 80 as concubinas, e as virgens sem número”. Agostinho, que dizia serem 83 as heresias, não tinha um argumento parecido.

O “Cântico dos cânticos” sempre foi um problema para os exegetas da Bíblia. O que faz um texto erótico no meio do livro sagrado, que tem muito sexo, mas nada mais tão sensual (e tão bonito) quanto os seus versos? Uma solução foi interpretar sua linguagem amorosa como linguagem críptica e suas metáforas sexuais como metáforas religiosas. Existe até uma versão da edição do rei James com cabeçalhos explicando que o diálogo poético do texto trata do amor recíproco de Cristo e da sua igreja, sem explicar o que Cristo está fazendo no Velho Testamento.

Como tudo nos “Cânticos” era mensagem cifrada, Epiphanius podia interpretá-los como quisesse, e as 80 concubinas resistiram como prova da sua tese. Questões teológicas, ainda mais naqueles tempos em que a Igreja se definia, deviam ser um pouco como os debates sobre a economia, hoje: evidências valiam menos do que a fé. Hoje, a ortodoxia monetarista e neoliberal é triunfante como a ortodoxia que Epiphanius representava no século IV, apesar dos seus fracassos, e das suas teses às vezes se parecerem muito com o aval das 80 concubinas. Quem discorda da ortodoxia dominante é tachado de herético. E o neoliberalismo sobrevive aos estragos causados pela austeridade que prega e a consequência da sua doutrinação em todo o mundo — como o crescimento do populismo — sem perder a fé.

Luís Fernando Veríssimo
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E se Gilmar Mendes estiver se capitalizando para ser candidato?

Tudo o que o ministro Gilmar Mendes tem defendido, na aceleração da sua atividade de político, corresponde aos interesses do grupo que tem dominado a política brasileira, liderado pelos expoentes do PMDB e seus seguidores em vários partidos. O repúdio ao recato próprio de um ministro do STF não se faria sem motivo. Qual poderia ser o de Gilmar?

Dois traços marcantes de sua personalidade explicam alguma coisa. Um, sua identificação com a direita, evidente desde que se aproximou da vida pública. Talvez bastasse dizer que teve a nada invejável função de assistente jurídico de Collor na Presidência. Mas Gilmar Mendes quis consolidar a primeira evidência com seu desempenho como advogado-geral da União no governo Fernando Henrique.

À época se disse que selecionado por Sérgio Motta entre os possíveis dispostos a fazer uma barragem contra incômodos ao governo, não há dúvida de Gilmar Mendes se saiu bem na missão. O outro traço marcante é a atração pelo poder.

São, porém, características que Gilmar poderia arrefecer, ao menos o suficiente para ter conduta adequada a juiz, a ministro do STF e a presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Não o fez. Muito ao contrário. A um só tempo crítico e colaborador de Sérgio Moro e dos procuradores da Lava Jato, foi como ansioso militante que comprometeu o STF com o apoio ao vazamento ilegal de gravações ilegais, feito pelo juiz de Curitiba. Um vazamento a que não atacou "como crime", porque servia à sua e à causa da corrente conservadora no Congresso.

Com a mesma motivação, Gilmar Mendes reteve por ano e meio a proibição de doações "eleitorais" por empresas, na tentativa de impedi-la. Para encurtar: entre outros desempenhos, tem batalhado pela admissão do caixa 2, o "por fora" nas eleições; prega a anulação dos inquéritos e processos que tiveram vazamentos; apoia a anistia aos doadores e recebedores do "por fora"; e propagandeia a volta das doações "eleitorais" de empresas. Estranhas, a militância e as posições?

E se Gilmar estiver se capitalizando para ser visto, na contabilidade política do PMDB & sócios, como potencial candidato à Presidência? O PMDB controla o jogo político, por sua dimensão e por meios escusos, mas não tem como alcançar o poder de fato: em seus numerosos quadros não há quem mostre condições de disputa real da Presidência.

Um quarto de século de eleições diretas para presidente – e o gigante PMDB só na figuração. Seus sócios, atuais ou possíveis, não passam de reboques. Um candidato confundindo-se com o Supremo e oferecendo à direita um candidato sem as botas militares de Bolsonaro, pode imaginar-se como um presente para o PMDB, DEM, PP e cia. Gilmar tem feito a alegria de Renan Calheiros, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Michel Temer, e por aí. À toa, não é.

Brasileirinhas

1- Alexandrino Alencar, um dos delatores da Odebrecht, diz que comprou o horário gratuito do PCdoB, do Pros e do PRB para a campanha de Dilma/Temer. Só se o PCdoB vendeu o que já dera à campanha, na aliança pública com o PT.

2- O blogueiro Eduardo Guimarães não tinha obrigação e talvez nem tivesse meios de saber que Moro considerava sigilosa a sua ordem de detenção de Lula, naquele tal "depoimento coercitivo". Teve a informação e divulgou-a, sem razão alguma para fazer dela um segredo. Fez um vazamento. Prática jamais condenada, sequer criticada, por Moro. A detenção de Guimarães, o arresto de seu equipamento e a coerção para dar o nome do informante foram arbitrariedades em hora apropriada: o projeto do Senado contra abuso de autoridade deve ser votado dentro de duas semanas.

Janio de Freitas
No fAlha
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