20 de mar de 2017

A Operação "Carne Fraca" e a mistificação do Brasil

http://www.maurosantayana.com/2017/03/a-carne-fraca-e-mistificacao-do-brasil.html


Pode não parecer, mas as causas e conseqüências da Operação Carne Fraca - são, como as de sua "mãe" institucional - a "mãe" de todas as operações, como se diria ao tempo da invasão do Iraque - claramente políticas.

No Brasil, resolveu-se, no bojo da Operação "Tira-Dilma", vender à população uma série de mitos, começando pelo de que se estaria travando uma guerra sem tréguas contra a corrupção, cujo objetivo é "passar a limpo" o país.

Essa estratégia exige que não apenas a principal "operação" fique permanentemente em andamento e evidência, mas também que outras "operações" semelhantes sejam executadas indefinidamente, em ritmo ininterrupto, obedecendo a uma tática não escrita, mas amplamente disseminada, destinada a alimentar certa mídia de factóides, para que ela cumpra o papel de exagerar e replicar essa impostura para a população, já que os resultados dessa "guerra", como demonstram os que foram colhidos até agora pela própria Operação Lava Jato, são mais ilusórios que reais.

Parece não haver outro motivo para que siga o clima de espetacularização das forças em ação, de busca de pelo em cabeça de ovo e de superdimensionamento de problemas relativos, que sempre existiram antes, para valorizar, nesse contexto, o trabalho da polícia, do Judiciário e do próprio Ministério Público.

Parece não haver outra razão para que a corrupção, e, por extensão, institucionalmente, como se quer fazer crer, o governo passado, sejam condenados por todos os males nacionais, quando se sabe que a questão dos juros dos títulos públicos e da sonegação, por exemplo, envolvem recursos muito maiores e são muito mais deletérios, a longo prazo, para o país.

No caso da Operação Carne Fraca, no calor da midialogia, vendeu-se, apressada e irresponsavelmente, ao mundo - por meio da montagem de uma verdadeira operação de guerra, já que não se aceita mais investigar ou trabalhar com discrição - a versão de que o sistema de produção de carnes no Brasil - o principal produtor de proteína animal do planeta - seria uma verdadeira Casa da Mãe Joana, totalmente contaminada por corruptores, corruptos e bactérias.

As evidências que levaram à deflagração da "operação", são, na maioria, como ocorre, também, em alguns casos, com a "mãe de todas as operações", ilações frágeis, baseadas mais em interceptações telefônicas - que podem ser interpretadas subjetivamente ao sabor de quem as fez - e em um único depoimento de um fiscal, do que em provas incontestáveis, como o exame científico e sanitário de mercadorias apreendidas oferecidas à população.

Ora, qual é o sujeito que já fez um churrasco, alguma vez na vida, que não sabe distinguir entre carne fresca de qualidade e carne estragada ou deteriorada, bastando para isso dar uma examinada no produto no balcão do supermercado ou do açougue antes de comprar?

Isso é uma simples questão de bom senso.

Mas a percepção que se pretende passar à população é a de que ela está sendo enganada, comprando e comendo, frequentemente, carne contaminada, como se fosse esse o padrão de uma indústria que atende a mais de 150 países e que é considerada uma das mais avançadas e sofisticadas do mercado mundial.

Para isso - como se o papel da Polícia Federal fosse fiscalizar a qualidade da comida vendida no exterior - cita-se, catando fatos pontuais lá fora - a presença de um determinado tipo de salmonela em carne "barrada" na Itália - existem 2.600 subespécies dessa bactéria e muitos delas não fazem mal à saúde - quando o produto estava em conformidade com as regras da União Européia e posteriormente entrou normalmente em território europeu pelo porto holandês de Amsterdã.

Com base na interpretação errônea, e não se sabe se proposital, de um telefonema entre dois funcionários de empresa, deduz-se que se estava misturando papelão em uma carga de carne de frango, versão que todo mundo anda citando agora pelas esquinas - dou um prêmio para alguém que já tenha encontrado essa substância misturada aos miúdos de um frango congelado ou resfriado no Brasil - quando os indivíduos "grampeados" estavam, na verdade, se referindo ao tipo de embalagem que seria utilizado para proteger e transportar o produto.

Não se pode dizer que todos os frigoríficos brasileiros sejam santos ou que só haja "anjos" entre os fiscais do Ministério da Agricultura.

Mas, com certeza, chama a atenção que, em um momento em que cai, devido à sua flagrante seletividade, a simpatia da população pela operação Lava Jato, comecem a explodir - em paralelo aos pedidos de apoio do juiz encarregado - em letras garrafais, na mídia, e com destaque nos telejornais de rádio e televisão, iniciativas com a mesma abordaagem "filosófica" e modus operandi, voltadas para assuntos que são de grande e direto interesse para os cidadãos, como a saúde e a alimentação.

Parece que se busca mostrar, a todo instante, que o Judiciário e o Ministério Público estão trabalhando diuturna e abnegadamente - ao contrário dos "políticos", essa raça maldita que chega ao poder pelo voto e não por merecimento ou competência - em defesa da população.

Quando, na verdade, em um total de quase 5.000 estabelecimentos industriais fiscalizados em nosso país, as unidades investigadas nessa última operação não chegam a pouco mais de 20, em sua maioria de embutidos e congelados, e isso, de forma restrita, em umas poucas - e delimitadas - regiões do Brasil, e os funcionários investigados passam de pouco mais desse número, entre os 11.000 servidores do Ministério da Agricultura.

Não custa, também, lembrar que em muitos casos, na carne para exportação, a fiscalização, do abate - e até mesmo antes dele - ao transporte, é feita pelos próprios clientes.

Esse é o caso de Israel e dos países árabes, que para aqui enviam representantes, com o intuito de assegurar não apenas a qualidade dos produtos que estão comprando, mas se as condições de produção obedecem às suas regras religiosas, seguindo preceitos Kosher e Halal, o que ilustra não apenas o cuidado da indústria brasileira nessa área mas também o porquê de o Brasil ter se transformado - não por acaso - em um dos maiores exportadores de carnes do mundo.

Mas como a idéia é aparecer ao máximo, buscando não apenas a espetacularização, mas, por meio de parte preponderante da mídia, uma verdadeira escandalização dos fatos, e a regra, no Brasil de hoje, é acusar e "vazar" primeiro, para explicar depois o que está ocorrendo, o que se conseguiu foi apavorar desnecessariamente a população.

Que adora ter, também, convenhamos, alguém pra "desancar" na fila do banco.

Nada disso, no entanto, estaria ocorrendo, se certos métodos, como a escuta telefônica, a prisão preventiva e as conduções coercitivas, não estivessem se transformando, no Brasil, de exceção em regras mais que banais, quase obrigatórias, de investigação.

Coloca-se um determinado setor econômico, um determinado indivíduo, uma determinada autoridade sob escuta, durante meses, até que o "investigado" use uma expressão ambígua em uma conversa ou um provável "crime" ou algo passível de ser interpretado pela opinião pública como "crime" venha a "acontecer", para que se produza um novo escândalo, uma nova "fase", uma nova operação.

Enquanto isso, como está ocorrendo agora no caso das carnes, não interessa se vai cair, dentro do país, o consumo de um produto que é um dos esteios da economia nacional, preejudicando milhares de produtores, empresários e exportadores.

Se irá se arrebentar mais uma vez com a credibilidade das maiores empresas de um determinado setor da economia.

Se irá se armar os adversários externos do agronegócio brasileiro na área de proteína animal, beneficiando concorrentes que subsidiam seus criadores todos os anos com dezenas de bilhões de dólares e de euros, dando-lhes o pretexto de que necessitavam para reforçar seu protecionismo - já extremamente arraigado nessa área - em pleno processo - a nosso ver equivocado - de negociação de um acordo - que tem tudo para ser leonino - entre a União Européia e o Mercosul.

Isso, justamente no momento em que o Brasil, no final do governo passado, voltou obter, a duras penas, autorização para exportação de carne bovina em natura para os EUA.

E quando começamos a quebrar importantes barreiras sanitárias, não apenas com relação aos Estados Unidos, mas também na transformação dos chineses, em apenas oito meses, nos maiores importadores de carne bovina brasileira, com a liberação, por Pequim, no início do mês passado, de licenças de exportação para mais 17 frigoríficos brasileiros - de carne de boi, frango e porco - passarem a exportar para o país, o maior mercado do mundo.

O terrorismo midiático e a irresponsabilidade é tanta, que certos jornais chegaram a afirmar - sem checar a informação - que o ácido ascórbico, supostamente usado pelas empresas para alterar a côr da carne é um produto cancerígeno, quando não se trata de outra coisa além da mais vulgar - e comezinha - vitamina "C".

A engenharia brasileira já foi - sem caixão, faixa ou direito a velório - para o saco, levando com ela a indústria de petróleo e gás - ferida de morte pela sabotagem contra a Lei de Conteúdo Nacional - e a de infra-estrutura.

A indústria naval, em trágico processo de sucateamento, com estaleiros e navios gigantescos, no valor de bilhões de reais, apodrece ao sol de cada dia, assim como vários projetos de defesa, iniciados pelos dois governos anteriores, depois de 2002, que se encontram paralisados por decisão judicial.

Só estão em processo de conclusão e entrega, projetos que já estavam quase prontos quando Dilma saiu do poder, como a Transposição do São Francisco e o SGDC.

O novo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, feito para substituir, depois de quase 20 anos, o BRASILSAT - cujo controle foi entregue por FHC aos mexicanos - está previsto para ser lançado amanhã, 21 de março, do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, com a provável presença de Michel Temer.

Produzido pela Thales francesa, com a participação de técnicos e empresas brasileiras, sob especificações da Visiona, joint venture formada, no governo anterior, pela EMBRAER e a TELEBRAS, o novo SGDC irá assegurar, finalmente, canais mais confiáveis para a comunicação do governo e de nossas Forças Armadas, como resposta à espionagem - contra o governo brasileiro e a Petrobras - realizada durante o governo Dilma, e com certeza, ainda hoje, pelos norte-americanos, por meio da NSA.
Qual será o próximo segmento da economia nacional a ser atingido pelo "furor" investigativo em curso, para continuar alimentando e movimentando a "roda da justiça" perante a opinião pública nacional?

A quem interessa que se sabote e desvalorize, aos olhos da população, o setor produtivo, gerando dezenas de bilhões de reais em prejuízo?

Quando há empresas "envolvidas" na Carne Fraca que, em apenas dois dias, já perderam 8% do seu valor de mercado?

O Brasil precisa voltar a caminhar economicamente e o Judiciário e o MP necessitam aprender a fazer o seu trabalho sem motivações políticas e sem inviabilizar, como estão fazendo, o país - voltamos a insistir, é preciso que o discuta, imediatamente, lei proibindo que a justiça interrompa, por motivo de investigação, obras que estiverem em andamento, e que determine prazos máximos, também por lei, para interdição de indústrias em funcionamento - sob pena de que nossas maiores empresas abandonem o território nacional, levando não apenas suas sedes e recursos para o exterior - está aumentando a tributação de subsidiárias fora do país - mas também suas instalações industriais e seus empregos.

Quando, como se está vendo com Trump nos EUA, as maiores nações estão fazendo exatamente o contrário, privilegiando, beneficiando e exigindo que o capital nacional opere dentro de suas fronteiras.

São ingênuos, para não usar outros termos, aqueles que pensam que as empresas estrangeiras são mais honestas ou competentes que as nossas, ou que elas terão algum compromisso com o Brasil, ou com os projetos estratégicos que poderiam, um dia, nos fortalecer no mundo cada vez mais complexo e competitivo do século XXI, em detrimento de sua lealdade com seus países de origem.

Concluindo, de volta à carne, ela é fraca para muitos pecados, e não apenas os da gula, do copo, das drogas ou da luxúria.

Embora não se incluam normalmente entre as "fraquezas" do corpo, o narcisismo, a vaidade, a egolatria e a arrogância, têm se incrustado cada vez mais na mente e nos corações de parte da geração que está chegando ao poder, no bojo da plutocracia nascida do cruzamento do "republicanismo" do PT com a conquista, por meio de concurso, das carreiras de Estado pela direita.

Nos corações e mentes daqueles que se crêem ungidos por Deus para "salvar" a Nação, afastando-a da realidade - que, com todos os seus defeitos, compõe o mundo - levando-a para um universo mítico, maniqueísta e simplista, de bandidos e de mocinhos, de "homens de bem" e "gente do mal".

Até agora, o que a suposta cruzada contra a corrupção em andamento tem conseguido, do ponto de vista prático, fora duas ou três prisões justificáveis, que poderiam ter sido feitas sem esse verdadeiro carnaval, eivado de absurdos e abusos, que já dura, em nosso país, quase quatro anos, é criar partidos proto-fascistas para as eleições de 2018 - um deles não por acaso adotou, sem contestação, o mesmo logotipo da Campanha das 10 Medidas Contra a Corrupção do Ministério Público como símbolo - e destroçar vastos segmentos da vida nacional, na engenharia, na defesa, na infra-estrutura, e. agora, na indústria de alimentos e do agronegócio, sucateando obras e projetos, destruindo e eliminando empregos e investimentos, corroendo e derretendo o crédito e o valor das empresas, quebrando acionistas e fornecedores, e arrebentando, irresponsavelmente - com ajuda de parte da mídia - com a imagem do Brasil no exterior.

Facilitando, decididamente, a vida de nossos concorrentes externos, nos mais variados campos da atividade humana, com permanentes e deletérias conseqüências para o futuro das novas gerações de brasileiros, incluídos os filhos daqueles de quem estamos falando.

Isso, se eles não ingressarem também no serviço público, no futuro, para usufruir, ao contrário dos comuns mortais, das vantagens e salários - muitas vezes acima do limite constitucional - que pertencem ao mundo exclusivo e perfeito - tão afastado, às vezes, da geopolítica, da estratégia e do entendimento da História - em que vivem e atuam os seus pais.
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Entregar a cabeça de Serraglio: o que há a fazer

O presidente Michel Temer em churrasco com embaixadores
Além de queda, coice.

A patacoada armada pela assessoria presidencial e pelo cerimonial do Palácio do Planalto, levando a uma churrascaria que serve preferencialmente cortes argentinos, uruguaios e australianos, o próprio chefe, Michel Temer, e os embaixadores de países e blocos econômicos que se dispuseram a ouvir as primeiras ponderações do governo sobre a “Operação Carne Fraca” dá uma medida do despreparo palaciano para atravessar esse rubicão em que a equipe se meteu.

Havia carne brasileira na cozinha do tal “Steak Bull”, mas como não se fez DNA nem rastreamento dos nacos de picanha e maminha servidos à mesa, seria preciso incorporar o espírito da velhinha de Taubaté para crer que toda a carne servida no jantar para os embaixadores era procedente de rebanhos nacionais, como afirmou comunicado oficial.

Jantar que precisa ser explicado não é começo de solução: é crise.

É possível dimensionar, a partir de atos detonadores da operação Carne Fraca, deflagrada na última sexta-feira, a irresponsabilidade de integrantes de uma cadeia de comando brasileira abrigada dentro de três carreiras de Estado: a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário. A unir todos esses protagonistas no roteiro do pastelão uma atuação catatônica do Ministério da Justiça e de seu plantonista atual, Osmar Serraglio.

A união da inépcia governamental com a inapetência para com os altos negócios de Estado pôs em risco US$ 15 bilhões anuais em exportações, tornou inseguros os empregos de cerca de 2,5 milhões de trabalhadores diretamente envolvidos na cadeia produtiva agropecuária e produziu um retrocesso de pelo menos 15 anos em nossa agenda de exportações – prazo decorrido para que o Brasil reconstruísse no mundo a credibilidade em seus produtos e abrisse novos mercados, como o chinês e o norte-americano.

Traficâncias de barnabés de quinta categoria, como o responsável pelo Ministério da Agricultura no Paraná chamado de “Grande Chefe” pelo ministro da Justiça, um político paroquial do calibre de Osmar Serraglio, ruralista-causídico, foram empasteladas a erros de outra natureza cometidos por unidades produtivas de gigantes do setor como JBS e BRF. O executivo de um deles, ligado à área de relações institucionais, desenvolveu relações impróprias com o encarregado do departamento de fiscalização do Ministério da Agricultura, é verdade. Mas isso não afetava a atividade-fim.

Durante dois anos, com autorização judicial, policiais federais monitoraram frigoríficos no interior do país e flagraram comportamentos abjetos que puseram em risco a saúde de consumidores – e não agiram no ato: permitiram que produtos adulterados e estragados, incompatíveis com as normas de consumo no Brasil, chegassem às gôndolas de supermercados ou se destinassem à venda por atacado. Isso não é prevaricação? Em nome de que ou de quem foram reunindo essas transgressões, nenhuma delas cometidas pelas grandes marcas, sem realizar autuações em nome da saúde pública?

Juntar alhos e bugalhos é usar o rol de doações de campanha de JBS e BRF, que o fizeram em larga escala, ao enredo de tragédia redigido nas coxas por delegados federais. Misturar os recursos direcionados a partidos e candidatos com as investigações de crimes sanitários, divulgando tudo num texto só e unindo capítulos transformou a tragédia numa comédia – mas de má lavra, de autoria ridícula e claramente arrivista.

Dados oficiais dão conta que em 2016 foram 853 mil partidas de produtos de origem animais e apenas 184 foram consideradas fora da conformidade. Ou seja, acreditando-se que o sistema de fiscalização de exportações não esteja carcomido por vermes, bactérias e amebas (e eu confio de fato que não está), é uma proporção compatível com a normalidade. Das 4.837 unidades sujeitas à inspeção federal, apenas 21 estiveram envolvidas em irregularidades segundo as investigações da operação Carne Fraca. Dessas 21, apenas 6 exportaram nos últimos 60 dias. São números eloquentes a assinalar: houve um injustificável exagero na forma como o assunto foi detonado na mídia. Não se condenou apenas os frigoríficos que agiam à margem da lei e das regras sanitárias. Comprometeu-se, de forma criminosa, toda a operação de uma sofisticada cadeia produtiva nacional que crescia ano a ano e ganhava tônus no exterior. Um crime de lesa-pátria.

Difícil dizer, a uma altura dessas, como fazer a equipe palaciana evitar novos erros nos próximos passos. Contudo, dá para apontar uma medida emergencial capaz de aplacar os ânimos lá fora: oferecer numa bandeja a cabeça do Ministro da Justiça, o ruralista a quem caberia ter algum comando sobre a Polícia Federal – não para impedir-lhe investigações contra si, mas para cobrar de seus subordinados maior responsabilidades para com os negócios de Estado.

Ao chamar de “Grande Chefe” um dos principais investigados na “Operação Carne Fraca” e ter lutado pela manutenção dele no cargo, no Paraná, quando o governo anterior ia demiti-lo, Serraglio é a melhor peça de ossobuco (sem tutano, claro) que Temer pode oferecer neste momento aos embaixadores de países compradores de nossa carne. Poderá deixar a sensação de ser apenas uma carne de segunda, porém engana o apetite da matilha e teremos certeza de ser tratar de carne 100% nacional.

* * *

Um registro para dialogar com o artigo da última sexta-feira: a ida de Lula a Monteiro (PB) inaugurar novamente a transposição do rio São Francisco transformou, de fato, a cidade do Cariri paraibano na São Borja (RS) do lulismo. Já ecoam os gritos do novo “queremismo” brasileiro. E a onda vai crescer.

Luís Costa Pinto
No Poder360
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Kátia Abreu confirma lobby de Serraglio por fiscal corrupto


Pelo Twitter, a ex-ministra da Agricultura de Dilma Rousseff, a senadora Kátia Abreu, confirmou as informações publicas por Josias de Souza – e comentadas e completadas aqui – de que o então deputado Osmar Serraglio, agora Ministro da Justiçade Michel Temer, foi a seu gabinete tentar, sem sucesso, impedir a demissão de Daniel Gonçalves Filho –  apontado como chefe do esquema de corrupção da tal Operação Carne Fraca – , sem sucesso.

Serraglio estava acompanhado do deputado Sergio Souza, também do PMDB do Paraná, que ,  dois dias depois da demissão do funcionário por Kátia , foi  às redes sociais dizer que votaria pelo afastamento de Dilma.

Não há condições morais de Serraglio permanecer no cargo e correm fortes suspeitas que a Polícia Federal tem mais material contra ele e está usando o medo do governo para se “cacifar”.

A comédia de erros do governo Temer – infelizmente trágica para o país- não para. Depois da churrascaria de cortes importados, o Poder360 revela que em meio à operação envolvendo suspeitas de fraudes, propinas e imundícies nos frigoríficos, o PMDB se dedica a exaltar o presidente com comerciais de televisão que dizem:

“ O agronegócio é o setor que melhor representa o modelo de eficiência que o presidente Temer tanto acredita e quer para o Brasil”.

Só se a PF tiver razão, não é?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Programa Pensamento Crítico - Venezuela


Programa de análise da conjuntura brasileira e latino-americana, produzido pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos, com a participação de Elaine Tavares, Nildo Ouriques e Laura Vitriago. Nesta edição discutindo a Venezuela.

Imagens e edição: Rubens Lopes

Legenda em português disponível para as partes faladas em espanhol. Clique na engrenagem e habilite a legenda.

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“A classe trabalhadora começou a se mexer. Lula tem que percorrer o Brasil”

João Pedro Stédile: “Para usar a metáfora citada recentemente pelo nosso ministro do Exército, o navio começou a afundar”.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O governo Temer tende a se atolar cada vez mais nos próprios erros e na corrupção. É um governo cada vez mais anti-popular e instável. O navio começou a afundar. Se o povo for para a rua, como indicou que está indo nas manifestações contra a Reforma da Previdência no dia 15 de março, é possível até uma antecipação das eleições. A avaliação é de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que esteve no Rio Grande do Sul na semana passada para participar da 14a. Abertura da Colheita do Arroz Agroecológico, em Nova Santa Rita. Em entrevista ao Sul21, Stédile analisou a conjuntura política nacional, apontou as contradições do governo Temer e defendeu o lançamento da candidatura de Lula à presidência da República.

“Lula é o único líder popular que dialoga com as massas. Então, ele tem que ser o nosso porta-voz, percorrendo o Brasil e fazendo grandes atividades para debater com o povo essa crise e a saída para ela”, defende. Para Stédile, esse debate, além de um projeto emergencial para enfrentar a crise, precisa também começar a pensar um novo projeto de país em termos distintos daqueles que presidiram os governos Lula e Dilma:

“Com a derrota da Dilma, foi derrotada também aquela proposta do modelo neodesenvolvimentista e a proposta de um governo baseado na conciliação de classe, onde todos ganhavam. Essas duas estratégias foram derrotadas. Quando falamos, portanto, em construir um novo projeto de país isso significa também construir um novo modelo econômico e um novo formato de governo, mais popular, que encaminhe o Brasil para outro rumo”.

A essência do golpe, diz ainda Stédile, é uma tentativa do grande capital, diante da crise, recuperar as taxas de lucros de suas empresas, aumentando a exploração sobre os trabalhadores, promovendo desemprego para diminuir sua folha de pagamento e se apropriando de recursos públicos. Ele cita estimativa feita pelo economista Marcio Pochmann, segundo a qual, somente em 2016, o setor privado se apropriou de R$ 260 bilhões que estavam destinados a políticas públicas.

Sul21: Mais de seis meses depois da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff no Senado, como você definiria o momento político e econômico que o Brasil vive hoje? 

João Pedro Stédile: Estamos vivendo uma conjuntura muito complexa e muito instável. A sociedade brasileira, desde 2010, vive uma situação de grave crise econômica. Desde aquele ano, a nossa economia não cresce. Já são sete anos de estagnação, portanto. Sempre que há crise econômica, em qualquer país do mundo, as classes se desarrumam na política. Para usar a metáfora do navio, citada recentemente pelo nosso ministro do Exército, o navio começou a afundar. E quando o navio começa a fundar, as classes querem pegar o seu barco e se salvar, acabando com qualquer pacto no Titanic…

Vira um deus nos acuda…

Exato. É um deus nos acuda. Foi isso que aconteceu no Brasil. A burguesia, que já tinha controle absoluto da mídia e do Poder Judiciário, investiu seis bilhões de reais na eleição de 2014 para controlar o Congresso Nacional e o Executivo. No caso do Congresso, foram bem sucedidos e elegeram o parlamento mais conservador da história do Brasil. No Executivo, eles esperavam derrotar a Dilma, mas foram surpreendidos. A partir daí, passaram a conspirar o tempo inteiro para dar o golpe, que acabou sendo consumado graças à conjugação da crise econômica com um erro crasso cometido pelo governo Dilma.

Que erro foi esse?

Colocar como ministro da Fazenda um homem neoliberal que aplicou uma política econômica contra o povo. Isso ajudou a criar as condições políticas para que eles dessem o golpe e não houvesse a defesa do povo em relação ao governo. O povo não foi para a rua defender o governo Dilma. Durante todo o ano de 2016, nós, os setores organizados, ficamos tentando empurrar o povo pra rua, dizendo “vem, que o golpe é contra você”, mas o povo não acreditou, achando que o golpe era só contra a Dilma e contra os corruptos. Temer assumiu a presidência, no entanto, ele não é fruto de um processo de unidade da classe burguesa, o que faz com que tenha um governo instável.

A essência do golpe é uma tentativa da burguesia, diante da crise, recuperar as taxas de lucros de suas empresas, aumentando a exploração sobre os trabalhadores, promovendo desemprego para diminuir sua folha de pagamento e se apropriando de recursos públicos. Segundo estimativa feita pelo economista Marcio Pochmann, somente em 2016, a burguesia brasileira se apropriou de R$ 260 bilhões que estavam destinados a políticas públicas. Outro objetivo do golpe é subordinar a economia brasileira a dos Estados Unidos. Fizeram isso em 1964 e quiseram repetir agora. Só não entenderam que o capitalismo está em crise e não virá para cá para investir, mas somente para aumentar os seus lucros.

Hoje nós temos pelo menos quatro pólos de poder político que se posicionam na luta de classes no Brasil. O primeiro é o poder econômico, representado pelo Henrique Meirelles no governo. As empresas que integram esse poder estão interessadas em recuperar a sua taxa de lucro. O segundo pólo é formado pelos lumpens da política que detém o poder político no Congresso, mas, objetivamente, não tem força na sociedade. São figuras como o Eliseu Padilha, o Romero Jucá e o próprio Temer. É o núcleo lumpen da burguesia que age em proveito próprio e não em proveito da classe.

O terceiro pólo, o mais perigoso, é o núcleo ideológico, comandando pela Globo pelo Dallagnol, pela Procuradoria Geral da República e pelo Poder Judiciário. Esse núcleo está fazendo uma luta ideológica contra nós. Eles sabem que a crise do capitalismo é grave e precisam impedir que as idéias de esquerda avancem. Para isso, ficam repetindo o tempo todo que a esquerda é corrupta. Quem inventou a corrupção foi o Estado burguês. E o quarto núcleo, que não está se manifestando, mas ainda tem poder, é representado pelas Forças Armadas, que estão apavoradas com o que está acontecendo no Brasil.

Esse núcleo representado pelas Forças Armadas vem dando algum sinal mais objetivo dessa insatisfação?

Sim. Um deles foi a entrevista que o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, gaúcho de Cruz Alta, concedeu em fevereiro ao Valor, quando disse que o país está à deriva. A sociedade não entendeu a gravidade do que ele disse e a mídia não se interessou muito em repercutir. O governo golpista está aprofundando cada vez mais as políticas anti-povo e, mesmo assim, não consegue tirar a economia da crise. O resultado disso é um governo cada vez mais anti-popular e instável, o que pode dar em qualquer coisa.

Eu fiquei muito satisfeito com o balanço do que aconteceu nos dias 8 e 15 de março. Foi um termômetro. A classe trabalhadora começou a se mexer. Quem foi para as manifestações no dia 15 não foi mais a estudantada indignada, mas a classe trabalhadora, que tem uma capacidade de multiplicação muito grande. Ao querer mexer com a aposentadoria, eles avançaram muito na ousadia deles, pois essa questão afeta todas as famílias.

Há quem considere uma possível candidatura de Lula em 2018 como uma chave para a superação da crise atual. Como vê essa questão?

Desde o final do ano passado, estamos em campanha aberta para que Lula assuma o comando. Na atual conjuntura, creio que ele tem dois papeis fundamentais a cumprir. Primeiro, ele é o único líder popular que dialoga com as massas. Então, ele tem que ser o nosso porta-voz, percorrendo o Brasil e fazendo grandes atividades para debater com o povo essa crise e a saída para ela. Ao fazer isso, ele se tornará o candidato natural das esquerdas, podendo eventualmente fazer alianças com outros setores. Lula é o nosso principal representante para disputar as eleições e sua candidatura é fundamental para a correlação de forças. Sobre isso não há dúvida e acho que ele já se convenceu. Lula deve conduzir uma caravana nacional de denúncia do governo Temer.

Ficam ainda pendentes, como parte da conjuntura, dois outros elementos. O governo Temer tende a se atolar cada vez mais nos próprios erros e na corrupção. Se o povo for para a rua, creio que aquele quarto fator representado pelas Forças Armadas pode pressionar o governo para que haja uma renúncia, o que permitiria anteciparmos as eleições. Essa antecipação seria a situação ideal e necessária para devolvermos ao povo o direito de escolher seus representantes, já que os que estão aí não representam ninguém. Mas isso não depende da minha vontade, depende da correlação de forças. Na pior das hipóteses, devemos ter eleições em 2018, com Lula se candidatando.

Outro desafio que está posto nesta mesma conjuntura é que precisamos começar a debater um plano de emergência para tirar o país da crise. Precisamos dizer ao povo que isso que está aí não é resultado do desígnio divino, mas sim de uma armadilha que os capitalistas armaram contra o povo brasileiro, e que é possível sair da crise com políticas econômicas de distribuição de renda, a favor do mercado interno e do povo que é a melhor coisa que o Brasil tem.

Juntamente com esse debate sobre um projeto emergencial, teríamos alguns meses para ir debatendo com as forças organizadas um novo projeto de país. Com a derrota da Dilma, foi derrotada também aquela proposta do modelo neodesenvolvimentista e a proposta de um governo baseado na conciliação de classe, onde todos ganhavam. Essas duas estratégias foram derrotadas. Quando falamos, portanto, em construir um novo projeto de país isso significa também construir um novo modelo econômico e um novo formato de governo, mais popular, que encaminhe o Brasil para outro rumo.

Está em curso também um movimento para tentar impedir a candidatura de Lula em 2018. O tema de uma possível prisão de Lula ainda frequenta o noticiário. Na sua avaliação, essa ainda é uma ameaça real?

Essa era a vontade do time deles. Eles precisavam inviabilizar a candidatura do Lula, mas, como disse antes, eles têm as suas contradições. A situação é diferente daquela vivida no golpe de 64 ou no governo Fernando Henrique, quando a burguesia conseguiu construir uma unidade. Agora, eles estão divididos naqueles quatro pólos que citei. Eles perderam muito tempo para inviabilizar a candidatura do Lula. Em março do ano passado, tentaram prendê-lo. Quem salvou Lula em Congonhas? O brigadeiro Rossatto, gaúcho de Caxias do Sul, para quem o ex-presidente da República continua carregando a simbologia de chefe das Forças Armadas. Ele não permitiu que a Polícia Federal levasse Lula para Curitiba. Foi algo civilizatório. O Brasil precisa ter regras e espero que os militares nos ajudem a respeitá-las.

Além disso, a Globo faz pesquisas semanais sobre a opinião do povo, não só para orientar as suas novelas, mas também para orientar as suas editorias. Nestas pesquisas, eles perguntam lá pelas tantas: e se prenderem o Lula? O povo tem reagido sistematicamente contra isso. Então, eles ficaram com medo. Mesmo o núcleo ideológico, que tem a Globo na mão, recuou e parou de pedir a prisão do Lula. Eles sabem que há uma grande parcela da população, que nem vota no Lula necessariamente, que não deixaria isso acontecer.

Um terceiro fator a ser considerado está relacionado ao tempo judicial. Os nossos advogados dizem que, considerando os ritos judiciais, eles já deveriam ter condenado o Lula já em primeira instância para dar o tempo necessário para o encaminhamento do recurso e do julgamento em segunda instância, de modo a cassar os seus direitos políticos em, digamos, agosto do ano que vem. Esse tempo já foi. A primeira audiência dele na Lava Jato será no dia 3 de maio. Vamos supor que, pela vontade deles, condenem Lula no final do ano, não há mais tempo hábil para uma condenação em segunda instância. Aí a vida deles começa a ficar complicada.

Felizmente, parece que o PT criou juízo e o Lula se convenceu de que é preciso começar a percorrer o país como candidato a presidente. Isso altera também a correlação de forças. Uma coisa é você acusá-lo de ser acionista da Friboi, o que é uma estupidez; outra, é tentar prender um candidato à presidência da República, o que seria outra burrice muito grande. Se houvesse essa tentativa, acho que o Lula deveria manter a candidatura e transformaríamos a campanha eleitoral numa verdadeira disputa de projetos.

Marco Weissheimer
No Sul21
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Bolsonaro fez manobra contábil para não estar na “lista da Friboi”


Eu não fico dando muita bola para o senhor Jair Bolsonaro, mas quando ele se mete a fazer todo mundo de burro, é obrigação mostrar isso.

Ele postou em seu Facebook um vídeo (veja ao final) dizendo que “devolveu” o dinheiro que recebeu oriundo da JBS – dona da marca Friboi – dizendo que por isso era honesto.

Menos, seu Jair, menos.

O senhor recebeu R$ 200 mil da JBS-Friboi, repassados pelo diretório nacional do PP, através do recibo eleitoral  011200600000RJ000001, conforme o TSE.

E, de fato, devolveu, no mesmo dia 24/7 de 2014.  Aliás, por conta de uma atrapalhação contábil, devolveu “um dia antes” de ter recebido.

Só que, imediatamente, recebeu o mesmo valor, desta vez da cota do PP no Fundo Partidário, pelo recibo eleitoral 011200600000RJ000002.

Ou seja, o mesmo dinheiro rebebeu um “banho” e ficou limpinho e cheiroso.

Esta parte o senhor não conta.

Ninguém o está acusando de “maquiar” carnes com produtos químicos.

Mas, por favor, as contas eleitorais maquiadas com troca de cheques também não é tão perfumada assim, não é?

Veja a história do “Bolsomito”:



Fernando Brito
No Tijolaço
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União Europeia barra importação de carne de investigados pela PF


A União Europeia decidiu suspender nesta segunda-feira (20) a importação de carne de todas as empresas brasileiras que tem envolvimento com a operação “Carne Fraca”.

Ainda nesta manhã, a Coreia do Sul também já havia decidido proibir temporariamente a venda de produtos de frango da BRF, das marcas Sadia e Perdigão.

Ao todo, são mais de 30 empresas investigadas por suspeita de participação no esquema de corrupção para liberar a venda de carne estragada e com outras irregularidades no país, incluindo a BRF e a JBS, das marcas Friboi e Seara.

A economia brasileira é movimentada principalmente pelo setor, que é o responsável por US$ 12 bilhões em exportações por ano.


A suspensão acontece após uma reunião do presidente Michel Temer, na véspera, com os embaixadores de 33 países. De acordo com o Palácio do Planalto, os embaixadores da União Europeia e da Coreia do Sul estavam presentes.

Na reunião, Temer apresentou números para mostrar que os casos investigados pela PF são excepcionais e não comprometem o sistema brasileiro de fiscalização.

O ministro Blairo Maggi (Agricultura, Pecuária e Abastecimento) criticou a PF pelo que ele chamou de “erros técnicos” cometidos na operação. Segundo ele, a polícia entendeu que alguns frigoríficos adotaram práticas proibidas, mas na verdade, elas são permitidas pela regulamentação do setor.

Após o encontro, Temer convidou os embaixadores para participar de um churrasco em uma das mais procuradas casas de Brasília (DF), o Steak Bull (N. da R. que só oferece carne importada).

Operação Carne Fraca

A operação foi deflagrada pela PF na sexta e é considerada a maior de sua história. Ela revelou que cerca de 30 empresas do setor, incluindo as gigantes JBS, dona da Friboi e da Seara, e a BRF, adulteravam a carne que vendiam nos mercados interno e externo.

De acordo com a PF, auditores fiscais do ministério da Agricultura recebiam propina, em dinheiro, lotes de carne ou presentes, para fazer vista grossa nas fiscalização e liberar a venda de carne irregular.

No Desacato
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Os especialistas e o sequestro do esclarecimento


Em O Desentendimento, Jacques Rancière fala da presença dos “especialistas” na mídia com um certo desconforto. Para ele, a crença em que especialistas saberiam mais do que o cidadão, sobre a experiência que o afeta, guarda um truque obscuro, que promove menos, não mais, entendimento e esclarecimento. O que justifica que especialistas tenham um lugar privilegiado para se discutir questões do cotidiano, da vida em comum, entre vizinhos, de percepções e experiências? De onde vem que conhecer a filosofia prática de Kant seja credencial para esclarecer uma crise hídrica ou uma briga sobre o cercamento de um parque? Por que precisamos, nas televisões, jornais e mídia em geral, que um psicanalista nos esclareça que a dor faz parte e que sentimos medos nem sempre justificados?

Vejam, especialistas, por definição, lidam com objetos de tal maneira que se tornam, justificadamente, bastante alheios ao entorno. Eu tive algumas sortes no meu processo de sociabilidade, mas há dias em que me sinto muito estranha, argumentando como se estivesse entre pares da filosofia. O resultado é meio catastrófico: oscilo entre uma nerd maluca, ou entre uma idiota que problematiza coisas simples e evidentes, ou que não consegue deixar passar o que parece óbvio.

Psicanalistas de jornal e professores universitários de tevê e de jornal sempre me causaram um certo desconforto. Mesmo Chomsky.

Há uma necessária coerência entre teoria e prática, que se impõe, a despeito de nossas certezas. A gente pode parecer razoável, mas o fato é que estudar a sério alguma coisa não te ajuda a falar do cotidiano. Acredito que o mesmo se aplica à clínica.

Como uma pessoa que se trata há muitos anos, afirmo que não curtiria ver meu ou minha psica em jornal. Isso prejudica a minha transferência, um quesito sem o qual não rola tratamento, simplesmente.

Mas peraí: estou defendendo a guetização das intervenções em esferas públicas? Sim e não. Sim, estou defendendo a formação de laços intra-estamentos e estruturas burocráticas e cognitivas. Isso enriquece e constitui representações sem as quais as esferas públicas, elas mesmas, não se constituem, com potência de iluminarem setores fora das bolhas. E, não: estou defendendo que a cidadania fale, qua cidadania, como vizinhos, usuários de bicicletas, frequentadores de feiras, subidores de árvores com bisavós, tomadores de sorvete sem lactose.

A substituição da cidadania, nas esferas públicas, pelas figuras dos especialistas, promove desentendimento e obscurantismo. Eventualmente, não raro, desvelam pouco profissionalismo desses especialistas, que, no mais das vezes, são sequestrados pelos holofotes. E isso, no caso da clínica, pode implicar mais que pouco profissionalismo, porque tem impacto no cuidado com o outro, o paciente.

Para a cidadania e o exercício democrático, há um outro problema, aí: a promoção de gurus, sempre, de araque. Esses gurus de araque, além de xaropaldos de plantão, não acrescentam nada senão dinheiro aos próprios bolsos em memes compartilhados com seus truísmos ignorantes e arrogantes. Numa sociedade conflagrada como está a nossa, isso só tende a piorar.

Nada contra psicanalistas comentando padecimentos mentais ou imunologistas comentando as últimas do tratamento do câncer.

Tudo contra o sequestro do debate e da discussão da cidadania e seu destino por gurus de araque. Ninguém precisa disso, nem deve precisar. Olhemos para o lado, olhemos para as coisas, de novo.

Katarina Peixoto
No RSUrgente
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O Conde Temeroso


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