19 de mar de 2017

Oligopólio da comunicação direciona debate público brasileiro


Na década de 70, os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw desenvolveram uma teoria para tentar explicar como a mídia determina os assuntos que serão debatidos pela sociedade. A teoria do Agenda Setting, conhecida em português como Teoria do Agendamento, foi pensada a partir de pesquisas feitas durante duas campanhas presidenciais norte-americanas. O estudo comprovou que os assuntos debatidos entre os consumidores de informação eram os mesmos que os sugeridos pela mídia. Portanto, a opinião pública seria direcionada pelas escolhas dos veículos de comunicação de massa. As principais pautas, os recortes e os ângulos da informação adotados pela mídia influenciariam diretamente a opinião dos receptores. Segundo Donald Shaw, “as pessoas têm tendência para incluir ou excluir de seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo”.

Nesses últimos trágicos anos da política brasileira, é possível perceber o esmero dos meios de comunicação em pautar a sociedade a partir da sua visão dos fatos. No meu artigo de estreia no The Intercept Brasil, comentei brevemente a respeito. Permitam-me a autorreferência:
“(…) ninguém pode acusar a imprensa brasileira de omitir informações. Ela publica tudo. Tudo mesmo, sem ironia. Mas, como se sabe, o diabo mora mesmo é nos detalhes, nas manchetes de capa, nos editoriais e na opinião dos colunistas mais prestigiados pelos patrões. (…) No final das contas, a decisão sobre o que vai brilhar na capa do jornal – ou se esconder num rodapé – sempre estará alinhada à opinião das famílias proprietárias.”
São inúmeros os assuntos de altíssima relevância para o país colocados em segundo plano. Selecionei alguns que, inegavelmente, mereciam ter grande destaque, mas não tiveram. Boa parte deles você já leu nessa coluna, mas acredito que vale a repetição como uma – perdão pela inocência –  tentativa de compensar as omissões da imprensa brasileira:

Trecho de delação do Delcídio – em março do ano passado, a delação bombástica de Delcídio do Amaral abalou o país. Nela apareciam Lula, Aécio Neves, Eduardo Cunha, Michel Temer, Romero Jucá e diversos outros políticos como participantes de esquemas de corrupção. À época, Cunha e Dilma vinham travando as últimas batalhas da guerra do impeachment. Um trecho da delação que ajudaria a explicar este duelo e a contextualizar o processo de impeachment foi quase que completamente ignorado pela imprensa.


Resumindo: segundo Delcídio, a treta entre Dilma e Cunha teria começado a partir do momento em que a ex-presidenta fez uma limpeza em Furnas ao demitir diretores ligados a Cunha. O delator ainda diz que Dilma colocou no lugar uma diretoria “absolutamente técnica” – o que seria um espanto para quem tinha certeza que ela aparelhava tudo. O Jornal Nacional, que dedicou muito tempo da sua programação para a delação de Delcídio, preferiu ignorar este trecho que revelava como começou a grande briga política entre os dois presidentes dos principais poderes do país. O incrível é que, no meio do ano anterior, a Época nos informava que Renan, Cunha e Temer evitariam o impeachment de Dilma: Funcionária fantasma do Serra – A tapioca de Orlando Silva (PCdoB) comprada com cartão corporativo foi martelada durante dias na mídia brasileira. Todo brasileiro conhece a história que acabou entrando pro anedotário político nacional. Já a história da funcionária-fantasma contratada por José Serra (PSDB) pouquíssimos brasileiros conhecem, quase não se ouviu falar. Um senador da República usou dinheiro público para pagar uma funcionária que não comparecia ao trabalho. A fantasma é irmã de Miriam Dutra, ex-namorada de FHC. Uma história que daria pano para manga, mas ninguém se interessou em botar a mão nessa cumbuca. A notícia apareceu e evaporou rapidamente. Não houve desdobramentos, ninguém incomodou Serra com perguntas a respeito, e ele virou ministro das Relações Exteriores sem ninguém lembrar do caso.

Prisão de primo de Aécio Neves – o primo do Mineirinho da Odebrecht foi preso por comandar um esquema que vendia habeas corpus para traficantes no interior de Minas Gerais. O problema não é o parentesco, mas o fato de que um dos participantes do esquema era o desembargador Hélcio Valentim –  indicado por Aécio Neves e que também foi preso. O Fantástico chegou a fazer uma reportagem de 12 minutos sobre o assunto que teria sido excelente se não houvesse omitido o parentesco com o tucano. Aécio continuou blindado por muito tempo e pode se candidatar tranquilamente à Presidência da República sem ser incomodado com o assunto. O seu primo também. Depois de solto, concorreu ao cargo de prefeito em Cláudio (MG). Agora feche os olhos e tente imaginar a repercussão na imprensa se ele fosse primo do Lula.

Helicoca –  em 2013, um helicóptero do deputado mineiro Gustavo Perrella é flagrado pela polícia com quase meia tonelada de pasta base de cocaína. O piloto era homem de confiança de Perrella e trabalhava como agente de serviço de gabinete na Assembleia Legislativa de Minas Gerais por indicação do deputado. Ou melhor, não trabalhava. Apesar de receber em dia dos cofres públicos mineiros, o piloto de Perrella não comparecia ao trabalho. Essa trama digna de um episódio de Narcos não foi um tema que durou muito tempo na imprensa. Piloto, copiloto e outras duas pessoas que descarregaram a droga foram presas e soltas meses depois. Gustavo Perrella nem foi citado na denúncia, a Polícia Federal não viu nenhum envolvimento dele no caso. A imprensa aceitou docilmente e nunca mais tocou no assunto. O Perrellinha ainda foi premiado por Temer com cargo de secretário no Ministério do Esporte.

Operação Zelotes –  é natural que a Lava Jato seja o grande assunto dos últimos anos no país devido ao envolvimento de políticos graúdos de todos os partidos. Mas e a Operação Zelotes? Por que se fala tão pouco nela? O rombo aos cofres públicos é 3 vezes maior que o causado pelos crimes da Lava Jato. Não é possível que se fale tão pouco sobre a operação. Grandes anunciantes da imprensa como Santander, Bradesco, Banco de Boston,  Ford, Gerdau, Safra, Mitsubishi participaram do esquema de corrupção que fraudava o fisco. Só a RBS, afiliada da Globo, pagou R$ 11,7 milhões para um conselheiro do CARF zerar suas dívidas com a Receita. De fato, este é um tema espinhoso para os barões da imprensa.

Yunes revela estratégia para eleger bancada pró-Cunha – um amigo de meio século do presidente não eleito revelou a existência de uma estratégia para construir uma bancada de 140 deputados para eleger Cunha presidente da Câmara. Tudo isso teria sido intermediado por Funaro, o doleiro de Cunha preso no mensalão. Falou-se bastante do caso Yunes, mas quase nada sobre essa curiosa construção de bancada. Deputados foram comprados por Cunha? Temer e Padilha capitaneavam essa estratégia? Qual era o papel do doleiro nisso? São perguntas que não foram feitas e provavelmente nunca serão.

Renan acusa Cunha de comandar governo da cadeia – um senador do PMDB acusa o governo do PMDB de ser comandado por um criminoso do PMDB de dentro da cadeia. Uma acusação clara, direta, feita com todas as letras, mas…esta não foi a grande pauta da semana! A notícia chegou, ficou um pouquinho no ar e tchau! Não houve nenhum aprofundamento, nenhuma grande reportagem, ninguém pressionou o Planalto por uma explicação. Virou passeio, amigo!

Manifestações contra a Reforma da Previdência – na última quarta-feira, uma greve geral foi convocada pelas centrais sindicais levando centenas de milhares de pessoas às ruas para protestar contra a Reforma da Previdência proposta pelo governo Temer. A manifestação ocorreu em 19 capitais. Diferentemente do que acontece com manifestações convocadas pelo MBL e Vem Pra Rua, a cobertura foi tímida e bastante crítica, dando enfoque para os problemas que a greve causou ao trânsito. 

https://twitter.com/xicosa/status/842377490270195713

A Folha foi o único grande jornal a noticiar as manifestações na manchete de capa. O Globo e Estadão não consideraram o fato suficientemente relevante para ganhar o mesmo destaque. Grandes portais brasileiros como UOL e  Globo.com ignoraram solenemente. Nenhuma foto, nenhuma chamada, nada. Esses são os screenshots das capas dos portais ao meio-dia do dia seguinte aos protestos:

Capturar_uol-1489865661


Já em outras manifestações, não havia espaço para outro assunto na página principal do UOL:


Esses são alguns casos aleatórios que lembrei, mas há uma infinidade de outros. É inacreditável que notícias dessa relevância tenham passado apenas lateralmente na imprensa brasileira. São fatos fundamentais que não foram destacados e explorados pelo jornalismo brasileiro. Não é razoável admitir que esses temas sejam escanteados no noticiário.

É grave demais para um país democrático que a comunicação esteja concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias. São essas pessoas, auxiliadas por funcionários alinhados a elas, que determinam o que passará na rádio, na TV, no jornal. É esse grupelho que decide o que a massa irá discutir essa semana e o que será descartado semana que vem. A internet e as redes sociais, apesar de trazerem um respiro e abrirem novas possibilidades, ainda ecoam e são guiadas pelas pautas da imprensa tradicional.

Uma regularização no setor de comunicação que torne os meios mais democráticos é urgente, apesar de cada vez mais distante numa época em que o governo ilegítimo decide irrigar ainda mais os barões midiáticos com dinheiro público. O modelo concentrador é o mesmo da época ditadura militar. O Brasil precisa se livrar dessa trava ou continuará a reboque dos interesses de um grupelho que se criou nos anos de chumbo e até hoje vem influenciando os rumos da nação.

João Filho
No Intercept
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Temer mostra apoio à carne brasileira levando embaixadores a churrascaria que só serve carne importada

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A formidável justiça poética das delações contra Aécio

A foto infame
Tudo de ruim que aparece contra Aécio nas delações tem o sabor de justiça poética.

É o caso dos 50 milhões de reais que Marcelo Odebrecht afirmou que Aécio recebeu por conta da construção de uma usina em Rondônia.

Foi em 2007, quando Aécio era governador de Minas. Os 50 milhões de reais, em valores de hoje, são 90.

Foi a Folha que deu o furo. Mas deu de uma forma miserável. Escondeu a notícia na primeira página.

É parte do jornalismo de guerra da Folha e demais veículos da grande imprensa: você dá com estardalhaço coisas negativas sobre seus inimigos. E ou não dá ou dá bem escondidas coisas negativas para os amigos.

Duas vezes, num texto que não é tão longo assim, os autores da matéria fizeram questão de dizer que Marcelo não usara a palavra “propina”, mas repasse.

Mas os repassadores — pausa para rir — deixaram claro que queriam retribuições. Não existe almoço grátis, sabemos todos, e muito menos repasses daquele tamanho. (A Odebrecht entrou com 30 milhões e a Andrade Gutierrez com 20 milhões, segundo a delação.)

Ri sozinho diante da defesa de Aécio. (A alternativa era chorar.) Ele disse, em suma, que era uma tremenda de uma mentira, e que achava um absurdo publicar acusações de tamanha gravidade sem antes comprovar.

Ora, ora, ora.

Aécio, nas incontáveis vezes em que as denúncias eram contra o PT, jamais fez nenhuma restrição à publicação delas.

Ao contrário: sempre as amplificou e ajudou a dar ainda mais repercussão às acusações. Ele estava sempre pronto para atender a jornalistas em busca de comentários sobre delações contra o PT.

Se ele tivesse tido a decência de ponderar então o que fala agora, não estaria na situação de calamidade em que se encontra hoje.

Aécio se comporta como um canalha. E já faz tempo.

Ele foi o golpista número 1. Desde o primeiro momento, conhecidos os resultados da eleição presidencial, se dedicou a boicotar a democracia.

Jamais aceitou a derrota.

Com sua atitude, teve uma contribuição milionária para o golpe.

É uma ironia da história: seu avô Tancredo ajudou a reconstruir a democracia, no início dos anos 1980. Aécio ajudou, três décadas depois, a destruí-la.

Ele sempre teve a certeza de que estaria protegido de desconfortos em delações pela mídia amiga e por seus camaradas na Lava Jato. A imagem disso é a infame foto dele com Moro numa festa pouco tempo atrás, os rostos quase que colados, ambos sorrindo fraternalmente.

Os vazamentos seletivos, no mundo dos sonhos de Aécio, se perpetuariam até o fim da Lava Jato. E ele seria um candidato poderoso para a presidência em 2018.

Não foi isso que aconteceu. Aécio acabou também como vítima de um processo que iniciou.

Robespierre inaugurou a guilhotina e no final foi sua cabeça que rolou rumo ao cesto.

A cabeça de Aécio já está no cesto.

Paulo Nogueira
No DCM
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MPF viola a lei à luz do dia sob proteção e aplauso de jornalistas


Ombudsman reconhece que PGR faz coletiva “em off” para quebrar sigilo

Antes tarde do que nunca.

ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, informa aos leitores que a Procuradoria Geral da República organizou uma espécie de “coletiva off the records” para fornecer alguns dos nomes brindados com pedidos de investigação feitos ao Supremo Tribunal Federal após as delações da Odebrecht.

Como a lei e a decisão que homologou as delações determinam que elas corram em sigilo até que virem um processo, está-se diante de um “crime oficial” de violação de sigilo profissional, previsto no artigo 154  do Código Penal.
Art. 154 – Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem:
Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa. 
Parágrafo único – Somente se procede mediante representação.
Portanto, espera-se que os senhores que reclamam de terem seus nomes divulgados sem motivos usem a confissão da Folha e representem, de imediato, ao Dr. Rodrigo Janot, para que este proceda criminalmente  contra seus colegas.

Ou, quem sabe, contra si mesmo.

Veja parte do que Paula diz em sua coluna dominical:

Na terça (14), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao Supremo Tribunal Federal 83 pedidos de abertura de inquérito.

Oficialmente, por meio de nota, a Procuradoria-Geral informou: “Não é possível divulgar detalhes sobre os termos de depoimentos, inquéritos e demais peças enviadas ao STF por estarem em segredo de Justiça”. Rodrigo Janot pediu ao relator do caso no STF, ministro Edson Fachin, a retirada do sigilo de parte desse material, considerando a necessidade “de promover transparência e garantir o interesse público”. Fachin ainda decidirá sobre tal pedido.

A surpresa foi a constatação de que a cobertura dos principais órgãos de comunicação _ impressos, televisivos e eletrônicos_ trazia versões inacreditavelmente harmoniosas umas com as outras. Um jato de água fria em quem acredita na independência da imprensa.

Das dezenas de envolvidos na investigação, vazaram para os jornalistas os mesmos 16 nomes de políticos _ cinco ministros do atual governo, os presidentes da Câmara e do Senado, cinco senadores, dois ex-presidentes e dois ex-ministros. Eles estavam nas manchetes dos telejornais, das rádios, dos portais de internet e nas páginas da Folha e dos seus concorrentes _”O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e “Valor”.

Por que tanta coincidência? A ombudsman apurou que a divulgação da chamada segunda lista de Janot se deu por meio do que, no mundo jornalístico, se convencionou chamar de “entrevista coletiva em off”.

Em geral, a informação em “off”, aquela que determinada fonte passa ao jornalista com o gravador desligado e com proteção de anonimato, não se coaduna com a formalidade de uma entrevista coletiva _para a qual os jornalistas são convocados protocolarmente a ouvir determinada autoridade.

Após receberem a garantia de que não seriam identificados, representantes do Ministério Público Federal se reuniram com jornalistas, em conjunto, para passar informações sobre os pedidos de inquérito, sob segredo, baseados nas delações de executivos da Odebrecht.

A lei que regula a delação premiada prevê sigilo do seu conteúdo até a apresentação da denúncia.

No dia seguinte, a corrida jornalística por notícia voltou ao normal, com vários veículos obtendo informações exclusivas de partes não divulgadas dos inquéritos sob sigilo.

Foi publicado que mais um ministro, quatro senadores e cinco deputados estão entre os que tiveram pedidos de inquérito apresentados pelo procurador e não haviam sido antes mencionados. Depois se soube que pelo menos dez governadores, cinco deles identificados, são mencionados no processo.

Qual o sentido de se deixar conhecer só alguns dos envolvidos? Qual a estratégia dos procuradores, parte interessada do processo, ao divulgar uns e omitir outros? Por que não liberar, por exemplo, os que estão nos pedidos de arquivamento?

Para o leitor, resulta em história contada pela metade. Informação passada a conta-gotas tira o entendimento do todo e levanta a desconfiança de manipulação.

O resultado desse tipo de acordo subterrâneo é que o jornalista se submete a critérios não claros da fonte, que fornecerá as informações que tiver, quiser ou puder. O repórter concorda em parar de fazer perguntas em determinado momento.

Não foi a primeira vez, porém, que tal procedimento ocorreu. A prática já se repetiu no Palácio do Planalto, no Congresso e até no STF.

Tudo isso resulta numa desconfortável uniformidade de narrativa jornalística, que exala tom oficial.

Fernando Brito
No Esquerda Caviar
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Lula e Dilma na comemoração da Transposição do São Francisco



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Dilma: o que Cunha diz é que quem roubava era o Temer


Sensacional, sob todos os aspectos, a entrevista da ótima repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor, com Dilma Rousseff. Feita com delicadeza e honestidade, descortina a austeridade com que vive uma mulher espartana. Recomendo a todos a leitura, mas dela retiro o que é explosivo.

Seleciono as frases e, a seguir, reproduzo seu contexto.
  • eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica. Não fica!
  • Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel [Vieira Lima, ex-­ministro da Secretaria de Governo].
  • Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso.
  • lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer.
São apenas quatro parágrafos com esta coleção atômica de revelações. Mesmo com uma mídia que está disposta a calá-la, vai ser difícil que Dilma não cumpra sua própria profecia: “não vai ficar pedra sobre pedra”.

Foi na tessitura das relações com as quais tentou permanecer no poder que a presidente reconhece seu segundo erro: levar Michel Temer para o coração da articulação política. O então vice-­presidente percebeu a fragilidade do governo junto a uma base que não parava de se queixar. Ao lado de Eliseu Padilha, atual ministro-­chefe da Casa Civil, à época na Aviação Civil, mapeou o cerco. Arrepende­-se de tê-­lo colocado dentro do governo? “Olha, minha filha, não sabíamos que o nível de cumplicidade dele com o Eduardo Cunha era tão grande. Nenhum de nós sabia, nem o Lula. Depois é que descobrimos. Ele sempre negou essa cumplicidade que agora todo mundo já sabe.”

Quando começa a falar de Temer, Dilma, pela primeira vez ao longo de quase quatro horas de conversa, franze o cenho, encrespa a fisionomia e libera o calão. “Saber quem eles são, nós sabemos. Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel [Vieira Lima, ex-­ministro da Secretaria de Governo]. Convivi sabendo quem eram. Não tenho esse ‘caiadismo’ [de Ronaldo Caiado] de falar que eu não sabia quem eram. Sabia direitinho. Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram.”

Nesse momento, Dilma relativiza a frase categórica sobre a extensão da faxina de seu governo: “Saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas. Por exemplo, o gato angorá [Moreira Franco] tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. É literal isso: eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica. Não fica!’. Porque algumas coisas são absurdas, outras não consegui impedir. Porque para isso eu tinha de ter um nível de ruptura mais aberto, e eu não tinha prova, não tinha certeza, entendeu? Não acho que é relevante fazer fofoca, conversinha. Posso contar mil coisas do Padilha e do Temer, então? Porque o Temer é isso que está aí, querida. Não adianta toda a mídia falar que ele é habilidoso. Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso. Padilha não é. A hora em que ele [Temer] começa assim [em pé, mostra as mãos em sentido contrário, com os dedos apertados em forma de gancho]. É um cara que não enfrenta nada!”.

Os brownies intactos na mesinha ao lado são indício de que a ex­-presidente gerencia bem as ansiedades da memória. Na novela da Lava­Jato, o capítulo preferido é o das perguntas de Eduardo Cunha a Temer, parte das quais foram vetadas pelo juiz Sergio Moro. “Quando li a primeira vez, lá sabia quem era José Yunes [ex­-assessor da Presidência]? Mas lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer. Leia, minha filha. Não tenho acesso às delações, mas sei o que é um roteiro. E lá está explícito roteiro da delação de Eduardo Cunha. Explícito. Alguém não sabe que o Cunha está dizendo que não foi o Yunes, mas o Temer?

Leia a entrevista na íntegra, que o  Valor publicou de forma aberta. É um trabalho de alta qualidade e, sobretudo, de grande sensibilidade. Dilma colocou na mesa apenas um das muitas cartas que tem nas mãos, como retrato sem maquiagem dos intestinos do poder. O ataque a ela vai mostrar muito mais do que imaginam aqueles que o promovem.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A voz de Deus

Perdoe-me quem ainda não viu “Silêncio”, mas vou revelar o fim.

O silêncio de que trata o filme do Scorsese é o silêncio de Deus diante das misérias do mundo e das súplicas dos crentes.

Manter a fé diante do grande silêncio é um teste de devoção, desesperar de ouvir a voz de Deus leva a angústia e apostasia.

Deus não se manifesta. Não dá nenhum sinal de vida. Como disse o Woody Allen, se apenas ele tossisse! Mas nunca se ouviu um som de Deus, a não ser para quem acredite que ele se faz ouvir no gorjeio dos pássaros ou num coral de Bach.

Mas no filme do Scorsese, Deus fala. Não fica claro se, depois de tanto sofrimento, a voz que o padre Rodrigues ouve é mesmo de Deus ou é uma alucinação. Mas quem nos assegura que Deus não use as alucinações — e o cinema — para falar conosco?

Depois de ver “Silêncio” vi, por acaso, “Os dez mandamentos” na televisão. Charlton Heston é Moises, Yul Brynner é o faraó Ramsés, Cecil B. DeMille é o diretor. Impressionam os efeitos especiais e as cenas de multidão no filme, tudo feito — inclusive a repartição do Mar Vermelho, é mole? — sem computador, que não existia na época. E no filme Deus fala com Moisés, além de lhe passar as tábuas dos mandamentos.

Me lembro que na época discutiu-se de quem deveria ser a voz de Deus. DeMille chegou a dizer que nada — inclusive, supõe-se, a passagem pelo Mar Vermelho — dera tanto trabalho quanto a escolha de uma voz para Deus.

Cogitou-se em chamar o ator e cantor Paul Robeson. Dois problemas: Robeson era negro, o que sugeriria que Deus também era, e comunista — que Deus, que se saiba, não é — e estava sendo investigado.

Uma boa escolha teria sido o James Earl Jones, se estivesse disponível então. Anos mais tarde, Jones faria a voz de Darth Vader. Outro bom papel.

A voz de Deus em “Silêncio” é igual à voz de Deus em “Os dez mandamentos”. Uma voz impecável de locutor. Inglês perfeito. Scorsese e DeMille obviamente se inspiraram no mesmo Deus, branco e bem articulado.

Lala

Também peço perdão a quem ainda não viu “La la land”, se é que ainda existe alguém, porque vou contar o fim.

É curioso que, comparando o filme com outros musicais, ninguém tenha se lembrado daquele musical do Woody Allen com a dança na beira do Sena em que a Goldie Hawn literalmente voa e que é, ao mesmo tempo, uma gozação e uma homenagem ao surrealismo dos musicais, que se repete na dança do observatório em “La la land”.

O filme não tem um final feliz como os musicais clássicos. Quando se encontram anos depois do fim do seu romance, ele e ela trocam um olhar e um sorriso que elevam a história a um plano de melancolia inédita em filmes do gênero. O olhar e o sorriso dizem que a vida é assim, o tempo passa, e os romances acabam, mas que foi bom, foi bom. E até nunca mais.

Luís Fernando Veríssimo
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Quando é com ele, Aécio diz que é absurdo usar delação


“Não é possível que acusações irresponsáveis como essa sejam feitas, aceitas e divulgadas sem um mínimo de comprovação. São vazamentos criminosos que precisam ser esclarecidos”. Não, a frase não é de nenhum dirigente petista, diante de denúncias de tráfico de influência ou de corrupção, mas de Aécio Neves, hoje, na Folha, reagindo à denúncia de Marcelo Odebrecht teria feito de que ele  acertou com sua empreiteira e  com a Andrade Gutierrez, um repasse de R$ 50 milhões pelos negócios da construção da hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, em dezembro de 2007.

O valor, corrigido para fevereiro passado, dá R$ 90 milhões. Diz a Folha:

Marcelo e outros executivos da Odebrecht afirmaram aos procuradores da Operação Lava Jato que as empresas decidiram fazer o acerto com o tucano porque queriam ter uma boa relação com as duas sócias da usina sobre as quais Aécio tinha influência – ou seja, Furnas e Cemig. 

Se houvesse problemas com essas empresas durante a construção da hidrelétrica, o tucano poderia ajudar a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, segundo o que disseram os delatores.

Ainda pesou o fato de que a Odebrecht via no tucano um político em ascensão.

É curioso que Aécio, que aceitou desde o primeiro dia as acusações que se dirigiam a Lula, agora queira para si o benefício da dúvida. Ainda mais, porque, ao contrário do que aconteceu com Lula, sua vida não foi devassada, sua casa invadida, seus papéis revirados por causa de uma delação, enquanto o ex-presidente os teve com base em um “ouvi dizer” que, afinal, ninguém, a não ser o porteiro do tal triplex do Guarujá diz ter ouvido.

O Dr. Rodrigo Janot, há dois anos, pediu o arquivamento das investigações sobre Aécio, que tinha uma acusação com alguma objetividade e um operador apontado, Dimas Toledo, em Furnas.  Contra Lula, vai abrir todas e qualquer uma, até fuçar pedalinhos e barco de lata.

Aliás, também é curiosa a “delicadeza com que a Folha trata a denúncia, afirmando que os delatores ” não falaram em propina para descrever o acerto com Aécio”. Jesus, o que seria, a ser verdade?  “Agrado”, “chamego”, “presentinho”, “trocado para um café”?

Afinal, daria para comprar mais de 50 daqueles pombais do Guarujá que acusam, sem uma prova sequer, que Lula teria recebido!

Mas, com toda a cobertura, proteção e favoritismo a situação de Aécio se deteriorou e ele é hoje um traste que dificilmente pode ser aproveitado.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Botando Pilha na Transposição do Rio São Francisco em Monteiro-PB


Drone sobrevoa o canal da transposição na cidade de Monteiro-PB, na manhã de hoje



No Botando Pilha


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O sumiço dos leitores nos jornais gaúchos

Comparação da tiragem de um ano para o outro; ordem da menor para a maior queda em percentual.
A circulação dos dez jornais gaúchos auditados pelo Instituto Verificador de Comunicação (IVC) chegou à queda mediana de 20,37% em 2016. Nos números levantados entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016, teve diário que reduziu a impressão em mais de 30%. Pior do que os dados ruins foi a postura dos veículos de sonegar as informações ao público, e o maior deles no estado – Zero Hora – publicou que foi o único entre os cinco maiores jornais do país a aumentar em 7% sua circulação total – digital e impresso –, sendo que o IVC verificou para esta soma pouco mais de 2%. Ademais, o diário sequer mencionou ou contextualizou a redução de mais de 15% na sua tiragem no período.

Os jornais aferidos pelo IVC pertencem a cinco grupos de comunicação do Rio Grande do Sul e grande parte tem concentração de circulação na Região Metropolitana de Porto Alegre. Conforme o Instituto, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, registrou a menor queda, com 2,39%. O maior percentual foi do Diário de Canoas, do grupo Sinos, que caiu 31,82%. Do mesmo grupo, o Jornal VS apresentou diminuição de 21,72%, enquanto oABC Domingo caiu 21,04% e o Jornal NH 20,82%. Já dos impressos do grupo RBS, o Pioneiro, de Caxias do Sul, foi o que mais caiu, registrando um percentual de -19,92%. O Diário Gaúcho caiu 16,38% e Zero Hora, 15,14%. O Diário de Santa Maria, que pertence a um grupo de empresários locais, registrou queda de 22,37% no período em questão e o Correio do Povo diminuiu 13,64%.

Diante dos dados, alguém poderia concluir de imediato – inclusive, assim o fazem corriqueiramente os diretores dos veículos – que isso é consequência da crise econômica, do jornalismo online e das redes sociais. Infelizmente, não se resume a isso. As causas vão bem além e são mais profundas, embora algumas estejam bem aparentes.

Primeiro, a atitude dos impressos de esconder sua própria realidade aos leitores e aos anunciantes e de forjar dados positivos sem contextualizar as informações não é mais compatível com a transparência exigida para a mídia do século 21. Tal postura editorial perversa de mostrar os fatos quando convêm a determinados interesses e ocultá-los quando desfavoráveis é intolerável e uma das causas que corroem a credibilidade da imprensa, tendo como consequência o afastamento do público.

Outra medida contraditória e duvidosa quanto à eficiência é o enxugamento das redações, sob o argumento único da crise econômica. Os jornais do grupo Sinos, por exemplo, vêm demitindo os profissionais mais experientes e apelando para o sensacionalismo. Uma publicação que construiu sua reputação com base numa linha editorial sóbria e jornalismo propositivo nos últimos anos deu uma guinada para assuntos de violência, insegurança, fatos chocantes, usando excesso de linguagem apelativa na apresentação das notícias, no afã de conseguir alguma audiência momentânea a mais. Mas, à medida que esse expediente vem sendo empregado, a tiragem dos jornais e o prestígio deles vêm decaindo na mesma proporção. Enfim, não imprime mais inteligência, interesse público nem fornece material que represente seu público no sentido mais amplo.

Equilíbrio, senso ético e a verdade

O comprometimento incondicional de grande parte desses veículos na propagação das manifestações de 2016 foi visível, sem considerar as verdadeiras intenções e a eficiência no combate à corrupção de forma mais ampla desse movimento, acabou se mostrando um tiro no pé da imprensa. No calor dos acontecimentos, a cobertura massiva e acrítica se apresentou promissora, atraindo alguns novos leitores e aumentando o faturamento publicitário em meio à crise. Entretanto, com o passar do tempo, quando a causa do movimento foi se revelando um projeto de poder, o enfrentamento da corrupção seletiva e os resultados efêmeros, a imprensa saiu enfraquecida como referência informativa à população.

A atuação da mídia como multiplicador e canalizador da opinião de um grupo tal como se fosse vontade de todos e o caráter cada vez mais padronizado e elementar nas formas pelas quais as notícias são apresentadas ao público também não agregam valor e credibilidade às publicações. Tudo isso cria uma desconfiança ainda maior quando os fatos submetem a euforia e as opiniões como no fenômeno do ano passado.

Evidente que os veículos batem pé nas suas versões e convicções dos fatos até o momento em que for possível, usam elementos de persuasão da própria propaganda para canalizar e manter a opinião pública ao seu lado. Afirmação, repetição e prestígio são algumas das técnicas às quais se lança mão. Por exemplo, uma repetição no jornal de que A é velhaco e B um homem honrado acaba convencendo muitas pessoas se não tiverem acesso a outra fonte que diga o contrário. Mas como atualmente o público tem acesso a fontes alternativas de informações, a estratégia da mídia para respaldar sua visão dos fatos se vê exposta e, em muitos casos, até contraditória com a realidade após algum tempo. Logo, o baque na credibilidade é certeiro, mal essa lógica vier à tona.

Mesmo assim, é normal que o meio de comunicação exerça seu poder por meio da política editorial do noticiário. Momento em que os acontecimentos recebem supressão, boicote ou distorção conforme os interesses políticos, econômicos do veículo e do público a quem se dirige a notícia. Esses arranjos são comuns nas redações, porém, precisam ser feitos cada vez com mais responsabilidade e pluralismo, caso a publicação informativa não queira ser apenas porta-voz de uma parcela cada vez menor da população, como os jornais partidários antes da imprensa empresarial.

Contanto que o jornalismo for focado em excluir certos interesses da cena pública e pregar para convertidos, a que abrir espaço à diversidade social e ao debate das opiniões, então é melhor cada organização social criar sua própria publicação e mostrar a realidade conforme lhe convier. Senão, é preciso melhorar a qualidade editorial e ter como essência o equilíbrio, o senso ético e a verdade na impressão da notícia.

Por isso, não convém esconder a realidade dos números ruins, ocupar espaço redacional com material sem verdadeiro interesse jornalístico, ver o público apenas como clientela e fazer propaganda em prol de determinados movimentos, como se tudo fosse puramente interesse coletivo, caso o jornalismo queira ser de fato referência informativa relevante e resgatar seu prestígio com a sociedade. Sem vigor, pluralismo, transparência e independência editorial, não há enxugamento de redação nem dinheiro de órgãos governamentais que salvem os jornais de qualquer crise.

Elstor Hanzen é jornalista e especialista em convergência de mídias. Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.
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A Carne Fraca e o reino dos imbecis


A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, traz uma comprovação básica: o nível de emburrecimento nacional é invencível. O senso comum definitivamente se impôs nas discussões públicas. E não se trata apenas da atoarda que vem do Twitter e das redes sociais. O assustador é que órgãos centrais da República – como o Ministério Público, a Polícia Federal, o Judiciário – tornaram-se reféns do primarismo analítico.

Como é possível que concursos disputadíssimos tenham resultado em corporações tão obtusamente desinformadas, a ponto de não ter a menor sensibilidade para o chamado interesse nacional. Não estou julgando individualmente delegados ou procuradores. Conheço alguns de alto nível. Me refiro ao comportamento dessas forças enquanto corporação.

Tome-se o caso da Operação Carne Fraca.

A denúncia chegou há dois anos na ABIN (Agência Brasileira de Inteligência). O delator informou que a Secretaria de Vigilância Sanitária no Paraná tinha sido loteada para o PMDB. Levantaram-se provas de ilícitos em alguns frigoríficos.

Por outro lado, há uma guerra fitossanitária em nível global, em torno das exportações de alimentos. Se os delegados da Carne Seca não fossem tão obtusos, avaliariam as consequências desse bate-bumbo e tratariam de atuar reservadamente, desmantelando a quadrilha, prendendo os culpados.

Mas, não. O bate-bumbo criou uma enorme vulnerabilidade para toda a carne exportada pelo país. Os anos de esforços gerais para livrar o país da aftosa, conquistar novos mercados, abrir espaço para as exportações ficaram comprometidos pelo exibicionismo irresponsável desse pessoal.

Ou seja, havia duas formas de se atingir os mesmos resultados:

1.     Uma investigação rápida, discreta e sigilosa.

2.     O bate-bumbo de criar a maior operação da história, afim de satisfazer os jogos de poder interno da PF.

As duas levariam ao mesmo resultado e a primeira impediria o país de ter prejuízos gigantescos, que pudessem afetar a vida de milhares de fornecedores, o emprego de milhares de trabalhadores, a receita fiscal dos impostos que deixarão de ser pagos pela redução das vendas – e que garantem o salário do Brasil improdutivo, de procuradores e delegados.

Qual das duas estratégias seria mais benéfica para o país? A primeira, evidentemente.

No entanto, o pensamento monofásico que acomete o país, não apenas entre palpiteiros de rede social, mas entre delegados de polícia, procuradores da República, jornalistas imbecilizados é resumido na frase-padrão de Twitter: se você está criticando a Carne Fraca, então você é a favor de vender carne podre.

Podre se tornou a inteligência nacional quando perdeu o controle de duas corporações de Estado – MPF e PF – permitindo que fossem subjugadas pelo senso comum mais comezinho. E criou uma geração pusilânime de donos de veículos de mídia, incapazes de trazer um mínimo de racionalidade a essa barafunda, permitindo o desmonte do país pela incapacidade de afrontar o senso comum de seus leitores.

Veja bem, não se está falando de capacidade analítica de entender os jogos internacionais de poder, a geopolítica, o interesse nacional, as sutilezas dos sistemas de apoio às empresas nacionais. A questão em jogo é muito mais simples: é saber discernir entre uma operação discreta e outra que afeta a imagem do Brasil no comércio mundial.

No entanto, essa imbecilidade, de que a destruição das empresas brasileiras contaminadas pela corrupção, permitirá que viceje uma economia mais saudável, é recorrente nesse reino dos imbecis. E se descobre que a estultice da massa é compartilhada até por altos funcionários públicos, regiamente remunerados, que se vangloriam de cursos e mais cursos aqui e no exterior. O sujeito diz asneiras desse naipe com ar de sábio, reflexivo. E é saudado por um zurrar unânime da mídia.

Discuti muito com uma antiga amiga, quando mostrava os impactos dessas ações nos chamados interesses nacionais e via mão externa, e ela rebatia com conhecimento de causa: não são conspiradores, são primários.

Imbecil é o país que se desarma completamente, Judiciário, mídia, organizações que se jactam de ter Escolas de Magistratura, de Ministério Público, de Polícia Federal e o escambau, permitindo mergulhar na mais completa ignorância institucional.

Luís Nassif
No GGN
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Histórias

Ele contou na roda que tinha sido preso por questões políticas, mas não tinha sido torturado. Pelo menos não fisicamente. Ninguém lhe tocara um dedo. 

Mas o colocaram numa cela com um homem enorme, que tinha mais de peito do que ele de altura. O nome do homem, e a razão para ele estar preso, nunca ficara sabendo. Só lhe disseram que o apelido do homem era Animal. E que ele gostava de ouvir histórias.

Histórias? É. O Animal gostava de histórias. Ele deveria contar histórias ao Animal e só parar quando o Animal dissesse “Pare”. Se parasse antes, ó...

E lhe mostraram o que o Animal faria com o seu crânio, apertando-o entre suas mãos. Se parasse de contar histórias por mais de um minuto, seu crânio viraria um tomate entre as mãos gigantescas do Animal.

Mas que tipo de histórias deveria contar ao Animal? Se vire, disseram. E o trancaram na cela com o Animal. Ele ensaiou um “Bom dia...”. O Animal quieto. Ele disse seu nome, esticou a mão para apertar a mão do Animal. O Animal imóvel. Olhando fixo para um ponto na sua testa. Talvez, pensou ele, calculando a pressão que precisaria para esmagar sua cabeça. Quando o Animal deu um passo na sua direção, ele disse, rápido:

- Era uma vez...

O Animal recuou e sentou-se no seu catre para ouvir a história. Ele continuou, tentando desesperadamente improvisar uma narrativa:

- ... uma princesa que morava num castelo. Um dia um passarinho chegou na janela da princesa e...

Seria aquele o tipo de história que o Animal gostava? A cara impassível do Animal não lhe dizia nada. Só o que mudara era que ele agora olhava para a boca do outro, em vez de um ponto na sua testa. O narrador continuou improvisando. Durante muitas horas contou sua história, tentando adivinhar o que agradava e não agradava ao Animal. Mais romance ou mais ação? Mais ou menos sangue? O Animal não fazia um som. 

Entrou de tudo na história. Príncipe. Madrasta. Lobo. Sapo. Dragão. Anão. Vovozinha. Bruxa. Caçadores. Várias vezes o narrador sugeriu que a história tinha terminado.

- E viveram felizes para sempre...

Mas o Animal não dizia nada. E ele, apavorado, emendava outra história.

- Enquanto isso, em outro castelo, longe dali...

Contou todas as histórias de fada que conhecia e inventou mais algumas.

Quando não sabia o que mais inventar, começou a contar filmes, romances, todos os enredos de que conseguia se lembrar. O dia raiou e o Animal continuava olhando para a sua boca, sem dizer uma palavra. Ele espremia a própria cabeça, metaforicamente, para se lembrar de mais histórias. Já esgotara todos os enredos possíveis. Recorrera à Bíblia, às Mil e uma Noites, a Dom Quixote, a Homero, a Janete Clair. Começou a recontar histórias, variando alguns detalhes para o Animal não desconfiar. Na nova versão, a vovozinha comia o lobo. Misturou histórias. Sinbad e Peter Pan contra invasores de Marte. Pinóquio, o rei Artur e o Capitão Nemo juntando-se aos Três Mosqueteiros nas estepes numa emboscada para o mensageiro do czar... Os dias passavam e o Animal não desgrudava os olhos da sua boca. E ele não tinha mais voz!

Decidiu contar histórias com mais conteúdo psicológico do que ação, para ver se o Animal se aborrecia e dizia “Pare”. Ou dormisse. Mas o Animal nem piscava. Finalmente, ele se atirou contra as grades e gritou - ou sussurrou, com a pouca voz que lhe sobrava - que não aguentava mais, que o tirassem dali, que confessaria tudo. Confessaria o que quisessem!

E ele contou que mais tarde, depois que o soltaram, encontrara alguém que estivera preso na mesma época e este lhe perguntara:

- Também botaram você na cela com o surdo-mudo?

Luís Fernando Veríssimo
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No Brasil, a democracia e seus adeptos têm dívida impagável com a corrupção

Curto e fino, na duração de meia hora e na franca serenidade do depoente, um dos mais aguardados depoimentos à Lava Jato foi mais sutil e menos explorável do que o sensacionalismo jornalístico esperava. Ao falar do concubinato dos políticos com as empreiteiras, Emílio Odebrecht, decano dos acusados, qualificou-o como "o modelo reinante" no Brasil, de origem já perdida no tempo. Quase uma sugestão de lembranças remotas, que teriam ajudado a compreender melhor a Lava Jato e a poupá-la do dirigismo que lhe deixou desgastes inapagáveis, tanto éticos como judiciais.

Na longa precedência de tudo o que a Lava Jato atribuiu à criatividade petista, encontro motivo até para uma revelação pessoal: reconheço um mérito histórico na corrupção. Como pessoa e como cidadão, não tenho escrúpulo em dizer que sou agradecido à inescrupulosa transa entre poder público e empreiteiras. E creio mesmo que todo brasileiro adepto da democracia deveria ter igual gratidão, ainda que a gratidão seja pouco encontrável por aqui.

Pois é, a democracia. Figueiredo, temperamental, não sabia se desejava ir-se ou não. Seu círculo, sim, não tinha dúvida. A procura de meios para permanecer irradiava-se do ministro do Exército, Walter Pires, e seu grupo. Não havia unanimidade, com uns poucos preferindo a retirada e o alto do muro povoando-se cada vez mais. Aí estava o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, que distribuía disposições simpáticas para todos os quadrantes. Até que levou umas chamadas, sendo talvez mais agressiva a de Walter Pires.

Délio Jardim de Mattos era um dos menos presunçosos na gorilândia. Resolveu dar uma demonstração de firmeza. Soltou uma fala duríssima, ameaçadora aos políticos que abandonavam o time do governo e aos oposicionistas, sem deixar dúvida quanto à disposição do núcleo do regime de manter-se no poder, a despeito do propósito contrário que se generalizara no país. Inesperada, no primeiro momento a fala ameaçadora só teve como resposta as perplexidades e os temores. Então Antonio Carlos Magalhães encerrou o silêncio.

Antonio Carlos e Délio eram tidos como amigos. Antonio Carlos visto como amigo só podia ser força de expressão. Se não era, a amizade não sobreviveu nem como hipótese. Para os ouvidos em geral, a fala de ACM foi ríspida e exaltada defesa da "abertura", mais valiosa só por partir de quem era uma das eminências do regime. A fala tinha caroço, porém. Venenoso.

A Aeronáutica estava contratando as reformas de aeroportos, àquela altura os de Salvador e Recife. Como se fosse apenas mais um dos pontos em sua resposta ao ministro, ACM enfatizou a necessidade de licitações limpas. A OAS, empreiteira quase desconhecida, faria parte das reformas. Baiana, tinha como um dos donos César Matta Pires. Genro de ACM, que sabia do que falava na referência às licitações.

O brigadeiro Délio não respondeu. Ninguém no governo respondeu. Uma atitude sem precedente. O continuismo começou a murchar e não se recompôs mais. Só foi brigar na eleição indireta, com Paulo Maluf como seu representante.

São insondáveis os desdobramentos possíveis, sem o episódio Délio/ACM, da contradição entre o esgotamento do regime –já perdidos os seus sócios civis– e a pretensão militar de reter o poder. Mas é certo que, sem a fala de ACM, a resistência militar não murcharia como murchou. E sem as denunciáveis condições de contratação da empreiteira OAS pela Aeronáuitica, ACM não responderia a ameaças com ameaça.

No Brasil, a democracia e seus adeptos têm dívida impagável com a corrupção.

Janio deFreitas
No fAlha
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