26 de fev de 2017

Olhar sobre o lado de lá: a tempestade para Temer


Todos diziam que a revelação das delações da Odebrecht seriam um vendaval sobre o governo.

Ela (ainda) não veio, mas os ventos que a antecedem fizeram estragos evidentes no acampamento golpista, mesmo com a safra de notícias empurrando um “tout va bien, Madame La Marquise” da recuperação econômica, com um superavit das contas públicas visivelmente inflado e um desemprego que infla a cada mês.

O campo da política, porém, vai despencando com acontecimentos que surpreendem, não por incoerentes, mas por formarem um conjunto de “coincidências” , ainda que inesperadas.

O início do mês foi “bem”: a fácil eleição de Rodrigo Maia, a confirmação de Eunício Oliveira no Senado e, sobretudo, a dupla submissão política do Supremo (alguém notou como Cármem Lúcia “desapareceu”?) com a confirmação da investidura de Moreira Franco no foro privilegiado, digo, no Ministério e a aceitação do jurista de manual (e tacape) Alexandre de Moraes.

Já vinha chegando o recesso do Carnaval e veio o terremoto: renúncia de José Serra; recusa de Carlos Velloso em assumir a Justiça; a indicação de Omar Serraglio para o posto, um personagem que nem assumiu e está manietado por seu passado “cunhista” e, finalmente, o mirabolante episódio da “Mula do Eliseu”, que atira sobre todos uma história inteiramente inverossímil que trouxe um personagem infame – Lúcio Funaro – que estava  restrito a Eduardo Cunha para dentro das belas colunas do Palácio do Planalto.

E, com ele entrando, a licença médica providencial mas aparentemente eterna, do articulador político que restava a Temer, desde que Geddel foi derrubado pelas inconfidências de Antonio Calero.

Até a inefável Eliane Cantanhêde, em sua coluna de hoje no Estadão, reconhece:

De repente, às vésperas do carnaval, altas personalidades da República ficaram doentes ou reclamaram de doenças incapacitantes e foram saindo de fininho tanto do governo quanto de um excesso de exposição nada recomendável numa hora em que o melhor é ficar transparente, perdido no meio da multidão. Durante as campanhas, “olhem para mim!”. Atualmente, “esqueçam de mim!”.

Aqui e ali, nos blocos de carnaval, ressurgiu um “Fora Temer ” que andava sumido. No campo da extrema-direita, há uma “bateção de cabeça” entre os grupos atucanados e o crescente bolsonarismo coxinha, que vai ao ponto de levantar a bandeira alucinada do ex-capitão do “armas para todos”. O ato do dia 26 de março tem menos adesão e mais brigas, cujo símbolo é o “barraco” Reinaldo Azevedo x Joyce ex-Veja Hasselman. O sempre marqueteiro Dória diz que não, mas é mais um que quer subir para os altos poleiros onde os grandes tucanos se bicam.

E a necessidade de “estancar a sangria” da Lava Jato e encontrar uma maneira de soltar Eduardo Cunha, antes que se lhe destrave a língua totalmente reduz as esperanças que se possa levar em frente, sem limites, a perseguição a Lula: afinal, as evidências da seletividade vão ser um mais escandalosas do que já são, inclusive lá fora.

O governo não está liquidado por uma única razão: o poder de controle de Michel Temer sobre o Congresso ainda parece ser suficiente para que entregue a encomenda que dele se espera: a reforma da previdência, o pacote  no qual o capital financeiro o quer de mula.

Se faltar-lhe força para entregar, foi-se.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A bolinha de papel do Serra


Faz parte do consenso civilizatório o respeito ao sofrimento alheio. Ainda que a turba raivosa, que tomou conta das ruas, vomitou indignação e exigiu a deposição da Presidenta Dilma Rousseff, não tenha seguido essa regra e as redes sociais tenham virado parques de diversões de ensandecidos a desancarem sobre o luto de Lula, devemos nos compadecer da suposta indisposição de José Serra, que, pelo que contam as colunas entendidas da imprensa comercial, fartou-se de ser chanceler.

Nos últimos tempos, o semblante desolado de Serra evocou o clima de fim de campanha eleitoral com perspectiva de derrota. Não há como não associá-lo ao episódio da bolinha de papel jogada em sua testa na caminhada em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, no segundo turno das eleições presidenciais de 2010. Depois de receber instruções pelo celular, simulou ter sido atingido por uma pedra e tentou inflar o episódio para posar de vítima de um atentado. Até um neurologista entrou em cena, para atestar a gravidade da lesão. E, ao final, peritos deram o veredicto: fora só uma bolinha de papel! A montanha parira um camundongo.

Pois é, lembram-se da advertência dos pais aos filhos, para deixarem de mentir ou de pedir socorro quando dele não carecem? Se faltarem uma vez com a verdade, perderão credibilidade e talvez não sejam socorridos em apuros.

É o caso de José Serra. Pode até estar doente, coitado. Não devemos brincar com isso. Afora desumana, nada se ganha com essa atitude. Mas, que fica uma pulga, melhor, uma cigarra atrás da orelha, ah, isso não tem como evitar.

José Serra é o típico ator desse "coiso" que costumam chamar de governo. Um governo só de fato, porque, além de seu chefete não ter sido eleito para ser presidente, age em desacordo com o programa da chapa vitoriosa da qual participou e, em sádica afronta aos eleitores, faz de tudo que lhes possa causar repugnância.

José Serra é um puxa-saco do Tio Sam e não consegue nem um pouquinho de atenção da equipe de Trump. Se esmerou tanto para receber sua atenção (depois de apostar suas fichas na candidata adversária, Hillary Clinton), que deu de graça um pedaço do território nacional, a base de lançamento espacial de Alcântara, onde os ianques terão uma alternativa para Guantánamo, caso queiram prender supostos terroristas fora do território americano. Em tempos de suruba nas instituições públicas, talvez imaginasse que Alcântara funcionasse como uma espécie de unguento KY, para facilitar as coisas...

Em nove meses à frente da Secretaria de Estado, sua política para a América Latina foi um desastre. Não sobrou pedra sobre pedra da liderança regional do Brasil. O condutor da diplomacia brasileira preferiu portar-se como um "rowdy", um menino brigão, hostilizando vizinhos por conta de suas opções políticas.

Desfazendo alianças estratégicas tão custosamente montadas nos treze anos de governos democráticos, fez do Brasil um anão na política global. Não teve planos para os BRICS e calou um projeto promissor de aliança sustentável e contra-hegemônica.

Nada soube fazer com o comércio exterior, nova área temática da sua pasta. À cata de mercados para escoar seu trigo, a Rússia oferece menos da metade do preço praticado pelos americanos, nosso maior fornecedor. Em contrapartida, dispõe-se a importar lotes enormes de carne brasileira. O MRE de Serra deixou as autoridades russas a ver navios. Nessa semana, elas fecharam negócio com o México.

Em regiões conflituadas como o Oriente Médio, o Brasil da "política externa ativa e altiva" (Celso Amorim) faz hoje o papel de espectador desinteressado, apesar de ostentar na sua composição demográfica a maior diáspora árabe do mundo. Vários países da região estão dispostos a aumentar seu volume de negócios com o Brasil. Necessitam urgentemente de acordos de bitributação, para facilitar o fluxo de capitais. Mas o MRE de Serra não deu um passo.

Serra preferiu falar grosso com os amigos tradicionais. Perdeu os ativos conquistados nos anos anteriores sem agregar nada de novo. É um triste balanço. Dessa vez, a farsa da bolinha de papel esconde a profunda incompetência e inoperância de José Serra, travestidas de inapetência. Nesse cenário, é bom que se vá. Seria bom que levasse o "coiso" junto! O Brasil só tem a ganhar ou, melhor, a perder menos do que já perdeu.

Wadih Damous
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Janta com o diabo

Todo fim de ano o diabo recebe um pequeno grupo para jantar no que chama de sua anticobertura, um duplex no último subsolo do inferno, escolhendo entre as almas condenadas as mais interessantes e de melhor papo. Os pratos são sempre grelhados, e o vinho é de produção local, marca Diabo, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo o mundo. Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no inferno vem sendo muito discutida nos jantares, e as queixas dos que se acham injustiçados por estarem lá se multiplicam.

O diabo tenta cortar os lamurientos da sua lista de convidados, mas não pode prescindir da presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à comida, à companhia e à ausência de ar-condicionado, e que foi quem primeiro expressou sua revolta. E o diabo já sabe que, em breve, estará enfrentando uma verdadeira rebelião de almas pedindo revisão de sentença e perdão retroativo. E que seus jantares nunca mais serão os mesmos.

Tudo começou quando Wilde, fazendo uma cara feia depois de provar o vinho, comentou como estavam se tornando comuns, na Terra, o casamento entre homosexuais.

— Eu fui preso, execrado e excomungado por ser homossexual — disse Wilde. — Se fosse hoje, em vez de condenado e exilado, eu poderia ser, sei lá, um conselheiro matrimonial. Não faz muito, a mesma Igreja Anglicana que me mandou para cá ordenou um bispo gay. O que é que eu estou fazendo aqui?

O diabo tentou mudar de assunto, mas Wilde continuou:

— Me transfira para o céu, D. Nada pessoal contra você, mas aposto que o vinho lá é melhor. Sem falar no clima.

Não adiantou o diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos, que mudam, ou da justiça divina, que não tem apelação. Wilde só prometeu epigramas cada vez mais pesados, mas o diabo se prepara para a gritaria dos indignados do inferno.

Como os que foram mandados para o inferno por usura, no tempo em que era pecado. E — como gosta de lembrar o diabo, com um sorriso malicioso — a Igreja ainda não inventara o purgatório justamente para acomodar os usurários, pois, sem eles, não haveria empréstimo a juros, bancos e sistemas financeiros. Hoje a usura não só é o que faz o capitalismo rodar, como é o capitalismo financeiro que manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma abominação aos olhos do Senhor, e até a Igreja tem bancos. E os condenados por usura no inferno perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje enriquecem em vida sem o risco das suas almas penarem na morte, e à absolvição.

Ou pelo menos a um upgrade para o purgatório.

Luís Fernando Veríssimo
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Jayme Caetano Braun - Brasil Doente (Payada)

 Ainda atual 


O mestre Jayme Caetano Braun analisa criticamente a situação brasileira no contexto da década de 70/80, em programa transmitido ao vivo pela Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1984. Lembrando que esta payada* foi feita de improviso.

*Pajada ou Payada é uma forma de poesia improvisada vigente na Argentina, no Uruguai, no sul do Brasil e no Chile (onde chama-se Paya). É uma forma de repente em estrofes de 10 versos, de redondilha maior e rima ABBAACCDDC, com o acompanhamento de violão.

A pajada remonta os romances e quadras medievais e renascentistas, trazidos pelos povoadores europeus e adaptadas as tematicas campeiras.
A Pajada está presente no sul da América desde quando as fronteiras eram imprecisas, o que impossibilita dar uma nacionalidade ao gênero artístico.

No sul do Brasil, as pajadas são cantadas em versos em Décima Espinela, no estilo recitado com acompanhamento musical de um músico de apoio, normalmente em milonga.


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Danilo Gentili terá de explicar acusação a Lula na Justiça

Por decisão em segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo, humorista terá que justificar de onde tirou a informação que Lula “forjou um ataque (à bomba, na sede de seu Instituto) para sair de vítima”, ou será responsabilizado pela declaração


Nesta sexta-feira (24), o Instituto Lula divulgou que uma decisão em segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o humorista Danilo Gentili justifique formalmente uma mensagem publicada por ele nas redes sociais em 2015, em que afirmou que Lula “forjou um ataque (à bomba, na sede do Instituto) para sair de vítima”.

“Agora que a Justiça ordenou que Gentili explique de onde tirou a informação que eventualmente sustente sua acusação, caso ele não consiga explicar, será processado por difamação. Se condenado, a pena será de três meses a um ano de detenção”, explicou a entidade.

Confira a íntegra da decisão clicando aqui.

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E se?

Os pais do Hitler teriam sido aconselhados a levá-lo para uma consulta com Sigmund Freud, presumivelmente para curá-lo daquela compulsão de dominar o bairro. Não houve a consulta, Hitler cresceu sem tratamento e o resto é História.

A descoberta do quase encontro e das suas possíveis consequências, se for verdadeira, toca na questão da importância do sujeito na História. Uma questão que se torna atual e premente com a eleição do Trump nos Estados Unidos. Até que ponto decisões pessoais, personalidades - e neuroses - determinam os acontecimentos, até que ponto uma lógica impessoal rege o comportamento de líderes e rebeldes, que só são seus instrumentos? A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder, mas tratado por Freud?

A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve o pensamento cristão europeu de direita da sua cumplicidade. Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império austro-húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isso. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e este século restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza esse prenúncio, ou essa intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico, necessariamente totalitário.

A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade ou clínicas como a maluquice de alguém influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato, que seria coisa de burguês alienado. E como os neoliberais nos dizem que o mercado não é ético nem aético, é apenas inevitável, a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional. Gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia.

A História feita por indivíduos tem o atrativo adicional da conjetura criativa, de infindáveis variações sobre o “se”. O que teria acontecido se Napoleão tivesse se contentado em ser instrutor de tiro ou se os pais de Stalin nunca tivessem se encontrado, ou Trump tivesse se contentado em ser apenas um empresário? E se Freud tivesse recomendado a Hitler dedicar-se à pintura?

Luís Fernando Veríssimo
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Com 'risco' de ampliar alvos, Lava Jato enrolou para prender lobista-mor

Jato lerdo é mais uma originalidade da produção nacional. Como o nome sugere, criada nos laboratórios da Lava Jato, que também deu (com a colaboração de peessedebistas) muitas provas da eficácia do invento. Sujeita, no entanto, a frequentes contestações. Todas, é verdade, relegadas ao descaso, que é a vala comum reservada aos argumentos e evidências inconvenientes ao poder. Por acaso ou por contingências incontornáveis, porém, a criação de repente se autodenuncia.

Detidos nos Estados Unidos, os brasileiros Jorge Luz e seu filho, Bruno Luz, entram na Lava Jato com rapidez, em relação ao pedido do juiz Sérgio Moro de que fossem localizados pela Interpol. Já a Lava Jato levou quase três anos até dar aos dois a atenção que trabalharam muito para merecer. Não é que fossem desconhecidos ou mal conhecidos dos coletores de delações. Bem ao contrário. Já o delator dos delatores, Paulo Roberto Costa, apontou-lhes o dedo ainda no início de sua nova e logo bem sucedida carreira.

Além disso, Jorge Luz tem dezenas de anos de serviço e de respeito no seu meio profissional, pela extensão da sua área de operações e pelo domínio das técnicas de sua especialidade –lobby e intermediação de negócios ilícitos. Em particular, nas fraudes em concorrências públicas. Jorge Luz – um nome fácil de guardar para sempre – está na ativa desde os tempos da ditadura.

Experiência e memória extensos demais para um plano de ação com jatos concentrados em área delimitada. Quem vem de longe passa pelos anos 80 e 90, não só pelos de 2000. Lembrança puxa lembrança, uma citação desavisada, um nome referido só como ilustração – e pronto, está extrapolada a delimitação. Um risco.

Jorge Luz e sua atividade baixaram ao limbo. Mesmo que, depois de Paulo Roberto, outros o mencionassem lá por 2014. Mas só em janeiro deste ano lhe chegaram sinais de perigo, levando-o ao encontro do filho já morador de Miami.

Jorge Luz não pôde escapar da Lava Jato. Mas a Lava Jato não pôde escapar de Jorge Luz.

Purezas

Além da embaralhada acusação de José Yunes, portador da credencial de "amigo de Temer", e da cirurgia que substitui o Carnaval pela próstata, o ministro Eliseu Padilha foi posto sob processo na Comissão de Ética da Presidência. Essa finalidade declarada no nome e a localização idem já se desentendem. Mas processar Padilha por dizer, em público, que uma pessoa eminente foi preterida, para ministro da Saúde, por necessidade de nomear alguém do PP – isso não é processo: é gaiatice. Primeiro, por ser público que os governos trocam ministérios por votos na Câmara e no Senado; depois, por que seria preferível uma resposta mentirosa?

O Supremo considerou nepotismo a nomeação, pelo prefeito Crivella, de seu filho para um cargo na Casa Civil.

Feita a primeira eleição direta de governadores, ainda na ditadura que começava a ruir, o admirável Franco Montoro nomeou um filho para o seu gabinete de governador paulista. Foi forte a reação de imprensa/TV. Até a última vez em que nos vimos, ele não esquecera que argumentei a favor da nomeação, afinal mantida.

Um parente sério, competente e responsável não pode ser depreciado por ser parente, o que em muitos casos nem escolheu.

Supô-lo mero aproveitador é injusto e insultuoso. Para quem nomeia, um auxiliar competente e de tamanha confiança está mais do que justificado.

A correção do exagero para um lado não é o exagero para o outro.

Janio de Freitas
No fAlha
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O primeiro amigo Yunes, a holding Maraú e o encontro dos bilionários


O dossiê  distribuído pelo Anonymous, com informações sobre supostos negócios entre o presidente Michel Temer e o primeiro amigo José Yunes é composto por 30 documentos, entre PDFs e Words, basicamente registros na Junta Comercial e em paraísos fiscais.

Versam sobre uma infinidade de holdings e off-shores, algumas delas com os mesmos sócios, outras entrelaçando-se nas relações societárias, algumas soltas sem que, de cara, se possa montar alguma ligação maior.

Como é um quebra-cabeça extremamente complexo, vamos desbastando pelas bordas para ver onde chega. Pode não chegar a nenhum lugar, mas pode chegar a paragens interessantes.

As holdings que surgem da papelada são as seguintes:


Greystone, Shadowscape e Yuni Co são offshores instaladas em paraísos fiscais.

A holding principal é a Marau Administração de Bens e Participaçoes Ltda que contém sócios do clube dos bilionários brasileiros.

O objeto da sociedade é amplo: aquisição e alienação de bens imóveis, realização de estudos, planejamento, incorporações e participação em empreendimentos imobiliários em geral , administração de bens, participação em outras sociedades, com objeto relacionado a empreendimentos imobiliários ou empreendimentos em geral, na condição de cotista, acionista, consorciada ou de qualquer outra forma, bem como a realização de quaisquer outras operações que se relacionem, direta ou indiretamente, com seu objeto social. E ainda terá por objeto a exploração de atividade agrícola ou extrativa.

Entre os sócios participam (ou participaram as seguintes pessoas físicas e jurídicas:


Vamos a um pefil rápido deles:

Alba Maria Juaçaba Esteve Pinheiro e Andrea Capelo Pinheiro – pertencem à família cearense que controlou o banco BMC – que teve relativo sucesso no início dos anos 90.

Alberto Dominguez Von Ihering Azevedo – é um dos três sócios da fábrica de roupas esportivas Track & Field e mais uma dezena de empreendimentos industriais e imobiliários.

Jean-Marc Roberto Nogueira Baptista Etlin – presidente da CVC Partners e vice-presidente do Itaú- BBA.

Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho – o Tuta, dono da Jovem Pan.

José Roberto Marinho – um dos herdeiros das Organizações Globo.

Construter Participações Ltda – de Rodrigo e Michel Terpins, herdeiros das Lojas Mariza.

Christopher Andrew Mouravieff-Apostol – irmão do banqueiro Roger Wright, tragicamente falecido perto de Troncoso – caiu o seu avião matando 14 membros da sua família, todos os filhos e netos. Sua parte foi assumida pela mãe, que morava na Suiça. Depois de sua morte, pelo irmão Christopher. Roger participou do Banco Garantia, do Credit Suisse e, no final, tinha a Arsenal, de investimentos.

Agnes Leopardi Gonçalves – sócia de Lg Office Manager Servicos Administrativos Ltda – ME e da Sao Sebastiao Vii Az Administracao de Bens e Participacoes Ltda., empresa da família Yunes.

Lúcia de Carvalho Lins – não consegui maiores informações.

(É LUCILA Carvalho Lins a que falta identificar — Falecida esposa de Roger Wright - http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT75198-15228,00.html)

Marcos Mariz de Oliveira Yunes – filho de José Yunes e executivo de um sem-número de empresas. Pelo sobrenome, é parente do criminalista Antônio Mariz de Oliveira, também na lista dos amigos pessoais de Temer.

Luiz Terepins – ex-presidente da Eternit, tem empresas do setor têxtil e de construções e presidiu a Bienal de São Paulo.

YS Marau Projeto Imobiliário Ltda – Do Grupo José Yunes.

Shadowscape Corporation – aí começa a entrar na zona cinza. Praticamente todos os sócios da Maraú são também sócios da Shadowscape. Por seu lado, entre as empresas controladas pela Shadowscape estão a própria Marau e a São Sebastião V Administração de Bens. Era registrada nas Ilhas Virgens, paraiso fiscal, pela Greystoke Trus Co, escritório especializado em montar offshores. Na documentação, aparece como controlada pela  Greystone First Nominees Limited (https://goo.gl/LVXG7Z) que, por sua vez, aparece como controladora de fundos de investimento em várias partes do mundo, em uma teia típica de processos de lavagem de dinheiro.


Por hoje, ficamos por aqui.

É possível que os investidores da Maraú tenham se reunido em torno de um investimento imobiliário específico. Ou não. Vamos ver como as demais investigações prosseguem.

Luís Nassif
No GGN
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