19 de fev de 2017

O Escândalo A-Darter

http://www.maurosantayana.com/2017/02/o-escandalo-darter.html


Ou de como a tentativa de assassinato da Odebrecht pode ferir de morte a construção do mais avançado míssil da Força Aérea Brasileira.

Está dando certo o implacável, mesquinho, totalmente desvinculado da estratégia e dos interesses nacionais, cerco, montado pela Procuradoria Geral da República, para arrebentar com a Odebrecht, não apenas dentro do Brasil, mas, em conluio com os EUA, também na América do Norte e, com base em "forças tarefas" conjuntas, nos mais diferentes países da América Latina.

Pressionada pela perseguição além fronteiras da Jurisprudência da Destruição da Lava-Jato e pela estúpida, desproporcional, multa, de 7 bilhões de reais estabelecida a título de punição, pelo Ministério Público brasileiro, em parceria com o Departamento de Justiça norte-americano, a Odebrecht não está conseguindo vender boa parte dos ativos estratégicos que tenta colocar no mercado, para evitar sua bancarrota e total desaparecimento, com a paralisação de dezenas de bilhões em projetos, muitos deles estratégicos, dentro e fora do país, e a demissão de milhares de colaboradores que trabalham no grupo, que já foi obrigado a se desfazer de mais de 150.000 pessoas nos últimos dois anos.

Com o cerco à empresa, que bem poderíamos classificar de mera tentativa de assassinato, considerando-se o ódio com que vem sendo tratada a Odebrecht pelos nossos jovens juízes e procuradores - já que poderiam ter sido presos eventuais culpados sem praticamente destruir a maior multinacional brasileira de engenharia - coloca-se sob risco direto, não apenas a construção do futuro submarino nuclear nacional (e de outros, convencionais), mas também a produção dos mísseis A-Darter, destinados aos caças Gripen NG BR, que se encontram em desenvolvimento pela MECTRON, empresa controlada pela Odebrecht, em cooperação com a DENEL sul-africana.

Não tendo conseguido negociar a MECTRON, incluída em sua lista oferecida ao mercado, a Odebrecht pretende, agora, esquartejar a companhia e vender seus projetos um a um - entre eles o desse avançado mísil ar-ar - para quem estiver interessado em ficar, entre outras coisas, com parte do know-how desenvolvido pelo Brasil nessa área, desde a época do míssil "Piranha".

Enquanto isso, a Presidência e o Congresso fazem cara de paisagem.

Quando, diante desse absurdo, o mínimo que a Comissão de Defesa Nacional - por meio de CPI para investigar o caso - o Ministério da Defesa e o Ministério da Aeronaútica deveriam fazer seria pressionar e negociar no governo o financiamento da compra da MECTRON por uma empresa da área, como a AVIBRAS, por exemplo, com recursos do BNDES, ou injetar dinheiro do Banco - agora emagrecido em 100 bilhões de reais "pagos" antecipadamente ao Tesouro - para que comprasse provisoriamente a MECTRON, assegurando que seu controle ficasse com o Estado, ao menos até o fim do programa A-Darter, ou que se estabelecesse uma estratégia voltada para impedir sua desnacionalização.

O problema é que o BNDES, como faz questão de afirmar a nova diretoria, pretende mudar de foco para dar atenção - o que quer que isso signifique - a projetos que beneficiem "a toda a sociedade".

Será que seria possível que a finalização do desenvolvimento de um míssil avançado para os novos caças de nossa Força Aérea, destinado a derrubar aviões inimigos em situação de combate, em que já foram investidos milhões de dólares, viesse a ser enquadrado nessa categoria e na nova doutrina de funcionamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - que já bloqueou 1.5 bilhões que a Odebrecht teria a receber por obras no exterior - ou estaríamos pedindo demais e exagerando na importância do caso?
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Fonte da IstoÉ se contradiz ao acusar Lula, e entregador da "mala de dinheiro" desmente

Além de contradições e fragilidades da acusação, a fonte Davincci Lourenço de Almeida veio do Ministério Público de São Paulo, com o promotor José Carlos Blat - o que pediu a prisão de Lula e brigou com Lava Jato do Paraná


"O personagem que estampa a capa desta edição de ISTOÉ chama-se Davincci Lourenço de Almeida. Entre 2011 e 2012, ele privou da intimidade da cúpula de uma das maiores empreiteiras do País, a Camargo Corrêa", introduz a revista na apresentação de sua fonte do suposto "furo" que manchetou: "Levei mala de dinheiro para Lula".

Foi descrito pela publicação como uma pessoa próxima da família do ex-presidente da construtora, Dalton Avancini. Mas a revista, que ganhou o contato pelo promotor José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, revelou apenas partes recortadas do suposto furo e evitou aprofundar quem é Davincci Lourenço de Almeida.

Ressalta-se, antes, que o promotor que passou os contatos da fonte à IstoÉ é o mesmo que comandou a primeira investigação contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá, e apresentou uma denúncia com pedido de prisão contra Lula, em março do ano passado, em uma peça sem sustentação e com graves erros, duramente criticada por juristas e, inclusive, pelos procuradores da Lava Jato do Paraná.

Desde que o caso foi remetido à Vara Federal de Curitiba, os promotores (José Carlos Blat, juntamente com Cássio Conserino e Fernando Henrique Araújo) iniciaram uma briga judicial e na imprensa sobre a quem competiam as investigações. Ainda, o colega de José Carlos Blat, Conserino é fonte timbrada da revista Veja, adiantando à publicação tudo o que considera furo.

Quando o caso foi remetido ao Paraná, não restou aos promotores outra opção que não o envio dos depoimentos já feitos sobre o triplex do Guarujá para a Vara Federal de Curitiba. Entre eles, estava o de Davincci Lourenço de Almeida. 
A IstoÉ tampouco mantém precaução, ao informar que foi o mesmo Blat o intermediador deste "furo", escrevendo que o promotor ouviu Davincci em quatro oportundades. "Blat encaminhou os depoimentos à força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba. À ISTOÉ, o promotor disse acreditar que a Camargo Corrêa possa ter usado Davincci como 'laranja'", diz a publicação.

Exposto o intermediário desse "vazamento", é a vez de indicar a entrevista de Davincci Lourenço de Almeida, químico sem formação. Diz ser "sócio de um ex-acionista da Camargo Correa", que inclusive já foi morto há cinco anos. Foi ouvido pelos promotores do MPSP para falar da Camargo Correa, e a corrupção envolvendo oficiais das Forças Armadas.

A constatação é dos vários vídeos que a própria fonte já publicou no Youtube. Em nenhum deles, fez a relação com o ex-presidente Lula. Mencionou "conspiração" e "quadrilha" das Forças Armadas que, a seu ver, ajudavam a Camargo Correa a lavar dinheiro.

A afirmação à revista de que ele levou uma mala de dinheiro para Lula veio apenas após três entrevistas concedidas. O vídeo final apresentado pela IstoÉ é uma mistura de trechos. Em um primeiro momento por telefone a repórteres e, em seguida, aparentemente presencialmente, quando a revista tentou tirar mais informações da menção ao ex-presidente.

Em determinado momento, a fonte diz que iria acusar "todo mundo":

"O ex-presidente Lula participou. Recebia dinheiro dentro da Morro Vermelho. Eu vou pôr no c... de todo mundo também, entendeu? Mataram o Fernando (de Arruda Botelho, acionista da Camargo Corrêa), estou fazendo isso porque ninguém faz nada. Ninguém faz p... nenhuma. Colocaram esse brigadeiro... O brigadeiro Edgar foi expulso da Camargo Corrêa. Fernando Botelho expulsou ele, quando descobriu que ele estava com essa quadrilha na fazenda, desviando milhões junto com esses brigadeiros aí e até um general. Então por isso que ele expulsou essa cambada da fazenda e do resort. Entrava dinheiro de propina e quem pagava era Rosana Camargo de Arruda Botelho. Ela que dava o dinheiro, cara, tá?", disse.

"Pegaram o Dalton Avancini, prenderam o cara e falaram que os acionistas não têm conhecimento do dinheiro das propinas. Tem conhecimento sim. O clube das empreiteiras... eles fazem a divisão do dinheiro. Os hangares que foram feitos para a Camargo Corrêa dentro do Bro (Broa Fry-in) e do resort que foram até os brigadeiros, coronéis e generais que inauguraram em Itirapina, São Carlos. Estão tudo envolvido".

Entretanto, a revista ignora a tentativa de denúncia, também não comprovada, sobre a atuação das Forças Armadas neste caso. E questiona, insistentemente, o suposto envolvimento de Lula. De forma generalizada, respondeu: "O Fernando falou que era só para deixar lá a mala". "Mas o Lula foi lá buscar o dinheiro?", questiona o repórter. "Foi lá buscar, O Lula foi. Tem foto dele lá". "Mas qual que é a história, você levou uma mala de dinheiro lá no Morro Vermelho?", insistiu outro repórter.

"Eu que levei", respondeu, continuando: "Entreguei na mão do Willinha, diretor da Morro Vermelho". Terminando neste ponto o áudio, a revista insistiu, por mais uma vez em outra ocasião, como se pode verificar no áudio recortado: "Essa mala de dólar que você entregou para o William foi entregue para o Lula na sequência...". "A ordem do Fernando era para entregar para o presidente", disse a fonte, em afirmação diversa.



Na conclusão, foram três versões diferentes informadas por Davincci Lourenço de Almeida à IstoÉ: a primeira, de que Lula recebeu a mala de dinheiro dentro do Morro Vermelho Táxi Aéreo. A segunda, de que o acionista da Camargo Corrêa Fernando de Arruda Botelho pediu para deixar a mala no local e que acredita que Lula foi buscar. E a terceira, de que, na verdade, entregou a mala de dinheiro a William Steinmeyer, um funcionário da Morro Vermelho. Questionado por último se Lula pegou a mala na sequência, apenas conseguiu confirmar que "a ordem do Fernando era para entregar para o presidente".

Além disso, o funcionário denunciado pela fonte negou ter recebido qualquer mala de dinheiro: "William Steinmeyer, da Morro Vermelho, confirma que conhece Davincci (“um cara excêntrico”), mas jura que não recebeu qualquer encomenda dele", finaliza a reportagem.

Com isso, além da fragilidade do depoimento em si, sem provas e com contradições nas diversas entrevistas concedidas por Almeida à revista, há ainda a afirmação do suposto interlocutor desse repasse, que nega a versão da fonte.

No GGN
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"Fake news", muito além da ideologia partidária

Como funcionam, no Brasil, sites que vivem de notícias falsas para aumentar audiência da página favorecendo venda de anúncios


As notícias falsas viralizadas pelas redes sociais já são um fenômeno mundial e com forte influência nas decisões políticas. Na reportagem à seguir para a Folha, o jornalista Fabio Victor se aprofundou na arquitetura de alguns portais de notícias falsas criados nos últimos anos no Brasil. 

"[Esses] sites lucram com a venda de anúncios. Quanto maior a audiência da página, mais ela ganhará com publicidade", disse, levantando dados sobre portais sensacionalistas como Pensa Brasil, Diário do Brasil e Folha Digital, rotulados de direita e que prosperaram em cima da derrocada petista. 

Victor entrou em contato com os telefones encontrados nesses sites e descobriu que a maioria deles são ligados a Beto Silva, e outros dois nomes que já foram seus parceiros: Luciano Vieira e Luciano Moura.

A reportagem deixa claro que o grupo não segue uma linha ideológica exclusiva. Beto Silva, por exemplo, mantem uma rede em Poços de Caldas de sites que já defenderam tanto políticos de direita (como Brasil Verde e Amarelo) quanto pró-Lula e PT (Em Nome do Brasil), "e ainda outras que atiram para todos os lados".


Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil

Por Fabio Victor 

RESUMO Reportagem mostra como funciona a fábrica de títulos sensacionalistas e inverdades que se disseminam nas redes sociais. Sites faturam de acordo com a audiência, que conteúdos apelativos impulsionam. Pesquisas mostram que a maioria dos leitores tem dificuldade em distinguir boatos de informações confiáveis.

Leticia Provedel já tinha Beto Silva entre seus contatos telefônicos e recebia dele correntes e outras bobagens que costumam circular num aplicativo de celular.

Especialista em propriedade intelectual e advogada de Gilberto Gil, ela conversara com Beto por telefone duas vezes, em 2015 e em 2016, para avisá-lo de que seria processado caso não retirasse do ar inverdades sobre o cantor publicadas no site Pensa Brasil.

Beto, dono do site, pagou para ver. Às vésperas do Natal passado, o Pensa Brasil publicou uma notícia com o título "Lula lutou muito pelo Brasil, não merecia esse juizinho fajuto, diz Gilberto Gil", ilustrada com uma foto do artista. O "juizinho fajuto", dizia o texto, era Sergio Moro.

Como jamais afirmara aquilo sobre o magistrado da Lava Jato, Gil entrou na Justiça contra o Pensa Brasil e o Facebook. Pedia a retirada imediata de todos os links e compartilhamentos da notícia falsa.

Citando decisão do ministro Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual "a internet é o espaço por excelência da liberdade, o que não significa dizer que seja um universo sem lei e infenso à responsabilidade pelos abusos que lá venham a ocorrer", o juiz Carlos Saraiva, do Rio de Janeiro, deferiu o pedido de Gil.

A liminar saiu numa sexta, 23 de dezembro de 2016. No dia seguinte, o conteúdo foi removido. Gil decidiu manter uma ação de indenização por dano moral.

Essa e outras notícias falsas sobre críticas do cantor a Sergio Moro haviam chegado ao conhecimento do juiz da Lava Jato. Quem se encarregou de desfazer a mentira foi o jornalista Jorge Bastos Moreno, amigo de Gil, ao final de um evento público com o juiz. Admirador da obra do cantor baiano, Moro gostou de saber.

Ao receber a decisão da Justiça do Rio, Beto alegou que apenas reproduzira o conteúdo de um site parceiro.

Em entrevista à Folha, o dono do Pensa Brasil deu outra versão: disse que três fontes, todas representantes de movimentos pró-impeachment de Dilma Rousseff (PT), haviam visto um show de Gil em que ele dissera a tal frase contra Moro. "Buscamos de todas as formas, mas não conseguimos um vídeo desse show."

TEIA

Alberto Júnio da Silva, 37 anos, vive em Poços de Caldas, sul de Minas, onde é conhecido como Beto Silva ou Beto Louco –o apelido, ele diz, foi dado pela "coragem de denunciar" problemas da cidade.

Beto é hoje o integrante mais ativo e barulhento de um trio que se formou em Poços e logo alçou a nível nacional o negócio do grotesco nos meios digitais. Seus sites integram uma teia de páginas que disseminam pela internet informações falsas e/ou de teor sensacionalista –uma pandemia conhecida no mundo todo sob o rótulo de "fake news" (notícias falsas) e que passou a chamar a atenção devido a sua influência em votações no Reino Unido e nos EUA, no ano passado.

Luciano Vieira e Luciano Moura são os outros integrantes do trio, que se uniu no início desta década em torno da marca Pensa Poços. Criada para tratar de temas da cidade, já batizou um jornalzinho, uma webrádio e uma página no Facebook –que hoje Beto toca sozinho, após o grupo ter rachado.

Pensa Brasil, Brasil Verde e Amarelo, Diário do Brasil, Folha Digital, Juntos pelo Brasil, Jornal do País, Saúde, Vida e Família, Você Precisa Saber, Em Nome do Brasil, Folha de Minas, The News Brazil e Na Mira da Notícia são sites que estão ou estiveram recentemente no ar com características semelhantes. Foram criados por membros do trio ou por alguém próximo a ele –em alguns casos, um deles registrou o domínio e cedeu para parceiros desenvolverem os sites. Se há problemas com uma página, ela é fechada, e logo reaparece sob um novo endereço.

"É preciso talento até para criar um domínio", comenta Vieira, que tocava o Brasil Verde Amarelo até janeiro, quando, segundo conta, o Google lhe informou que ele perdera sua conta por violar políticas de conteúdo da empresa. Ele atribui o revés ao espalhafato do ex-parceiro Beto, a quem dirige termos pouco amistosos.

Vieira, que hoje vive em Lavras (MG), mantém uma página do Brasil Verde Amarelo no Facebook e está associado aos sites Jornal do País (disse que o domínio é dele, mas que amigos cuidam da página, na qual há várias postagens em seu nome) e Juntos Pelo Brasil (afirmou que não é dele, mas aparece no expediente como diretor e atende o celular registrado na página).

A reportagem não conseguiu contato com Luciano Moura. Na eleição presidencial de 2014, ele teve seus 15 minutos de fama quando a campanha de Aécio Neves, candidato pelo PSDB, acionou o Ministério Público para investigar o site Poços 10, que atacava o tucano e a família dele. Moura era um dos autores do site –que não existe mais– e fazia a página de um vereador petista da cidade.

As ações de Beto Silva e da rede de Poços de Caldas, contudo, não se guiam exclusivamente por motivos político-ideológicos. Na cidade, o Pensa Poços já atacou (e defendeu) políticos de todos os matizes. A teia abriga páginas explicitamente de direita (como era o Brasil Verde e Amarelo), outras pró-Lula e pró-PT (caso do Em Nome do Brasil) e ainda outras que atiram para todos os lados.

O Pensa Brasil, maior site de Beto, está nesse último segmento. Costuma ser rotulado como de direita e prosperou com a debacle petista, mas volta e meia ataca Aécio e o governo Temer (PMDB).

O que une esses sites é a busca por cliques. No mundo digital, clique é dinheiro. E, quanto a isso, o Pensa Brasil de Beto Silva não vai nada mal.

ANÚNCIOS

Sites lucram com a venda de anúncios. Quanto maior a audiência da página, mais ela ganhará com publicidade. Segundo a empresa comScore, que mede audiência digital, o Pensa Brasil teve em dezembro passado 701 mil visitantes únicos, com média de três páginas vistas por visita (ou seja, 2,1 milhões de páginas vistas/mês). Jornal mineiro mais acessado na web, o "Estado de Minas" teve no mesmo mês 2 milhões de visitantes únicos e 16 milhões de páginas vistas.

A comScore registra que, em março de 2016 –mês da maior manifestação pró-impeachment e da condução coercitiva do ex-presidente Lula-, o Pensa Brasil alcançou 3,2 milhões de visitantes únicos e 10,7 milhões de páginas vistas. A turbulência política de 2016, aliás, foi uma "era de ouro" da audiência digital, da qual os sites de notícias falsas se beneficiaram à larga.

Beto Silva não quis dizer quanto ganha com o Pensa Brasil. Profissionais do mercado publicitário consultados pela reportagem estimaram que os anúncios do site rendam de R$ 100 mil a R$ 150 mil por mês, dos quais até 50% ficariam com o intermediário e o restante com o dono do site.

A venda da publicidade costuma ser feita por agências especializadas ou via ferramentas como o Google AdSense, que seguem a lógica de um leilão: o site diz o preço mínimo que pretende receber por anúncio e qual modalidade prefere, sendo as mais comuns CPM (custo por mil impressões, que considera o número de visualizações) e CPC (custo por clique, em que o pagamento é calculado em cima de quantas vezes o anúncio foi clicado).

Os anunciantes definem o perfil de público que querem atingir, mas não controlam em que site a propaganda será veiculada. A audiência é o principal requisito para quem anuncia; no caso de sites de notícias, não costuma haver verificação sobre a credibilidade do veículo ou a qualidade da reportagem.

Em geral sob títulos berrantes, com notícias que embaralham verdade e mentira, o Pensa Brasil e seus similares se retroalimentam, com ajuda de páginas e perfis criados por seus donos no Facebook.

Em 6 de fevereiro, por exemplo, três dias depois da morte da ex-primeira dama Marisa Letícia, o Pensa Brasil publicou uma notícia com o título "Marisa fotografada na Itália. Morte da mulher de LULA é mentira, ENTENDA!". O texto dizia:

"Sem barreiras na internet e redes sociais, tanto notícias verdadeiras como falsas podem se espalhar rapidamente. Após a morte da esposa de Lula, Marisa Letícia, espalhou-se uma notícia de que a mesma não estaria morta (boato). Isto! Está [sic] correndo boatos de que Marisa esteja viva e foi flagrada recentemente na Itália". Em seguida, apresentavam-se detalhes da mentira, publicada dois dias antes pelo site Saúde, Vida e Família, sob o título "Marisa é fotografada na Itália e médicos contestam farsa de morte com caixão lacrado!!!". Este texto trazia o crédito "via agência de notícias".

No mesmo dia 6, logo após o Pensa Brasil publicá-la, a notícia falsa foi compartilhada no Facebook por várias das páginas ligadas a Beto Silva, por ele próprio e por perfis com indícios de serem falsos, como o de uma certa Debora Tavares Frayha, que só compartilha páginas do Pensa Brasil e é identificada como funcionária da Folha de Minas (que não existe, mas cujo domínio era de Beto Silva). E também por leitores reais.

Outros títulos publicados nas últimas semanas pelo Pensa Brasil: "Donald Trump manda recado: '-Brasileiros, a Europa não precisa de visto, vão pra lá'" (3.fev); "DEA-USA e INTERPOL 'estariam' investigando Aécio Neves por tráfico internacional de drogas" (8.jan); "Advogado que desacatou Sergio Moro pode ir preso ainda hoje junto com Lula" (13.dez). Nenhuma delas apresentava elementos factuais que comprovassem a manchete.

NY, POÇOS

A maioria dos sites sensacionalistas é registrada fora do país, não identifica os autores dos textos e não publica expediente, endereço ou telefone para contato. O Pensa Brasil segue a cartilha quase à risca. Na seção Quem Somos, diz estar registrado no Arizona (EUA), avisa que "qualquer pessoa que se sinta ofendida" deve entrar em contato por e-mail e reproduz trechos da Constituição sobre acesso à informação, resguardo do sigilo da fonte e liberdade de expressão.

Numa exceção ao jogo de sombras, há, num canto da página, sob a mensagem "Envie sua notícia por WhatsApp", um celular de Poços de Caldas. Quem atende é Beto Silva.

Na primeira ligação, logo no começo de uma conversa que se estenderia por uma hora e 40 minutos, Beto afirmou que estava em Nova York e que só voltaria ao Brasil dali a 15 dias.

Seis dias depois, sem aviso, viajei a Poços de Caldas. No térreo de um edifício de escritórios no centro da cidade, está a sala que serve de base ao Pensa Brasil e ao Pensa Poços. Beto Silva estava sentado numa mesa diante de dois grandes monitores conectados à internet. Deu-se o seguinte diálogo:

"Oi, Alberto, bom dia. Sou o Fabio, da Folha de S.Paulo, tudo bem?"

"Ôpa, tudo bem?"

"Então você já voltou de Nova York. Voltou antes."

"Voltei. Voltei... que dia é hoje mesmo?"

"Hoje é terça."

"Terça. Eu voltei no domingo. Tinha muita coisa pra resolver aqui."

Conversamos por mais uma hora e meia.

Beto Silva é magro e baixinho –tem cerca de 1,60 m. Seu rosto às vezes lembra o do cantor Chico Science (1966-1997), noutras o do ex-jogador Ronaldo Fenômeno. Estava, como sempre aparece em vídeos e fotos, de boné, corrente no pescoço e relojão dourado. Quando era mais jovem, relata, foi vocalista da banda de pagode Nascente do Samba -no Youtube, é possível vê-lo cantando e chacoalhando um afoxé. Diz ter brevê de piloto privado de monomotores.

Gesticula muito enquanto fala, volta e meia cruza os braços ou os põe para trás, segurando a cabeça com as mãos, e tem expressões faciais intensas.

Nas duas entrevistas, por telefone e ao vivo, expôs suas ideias sobre comunicação e defendeu seu método de trabalho.

"A questão é atrair, é o sensacionalismo. A mídia dos EUA e da Europa é muito sensacionalista. O problema é que, no Brasil, os pequenos sites se aventuraram a navegar pelo marketing digital para ganhar uma grana e começaram a sobressair em relação às grandes mídias, simplesmente por copiar o modelo de fazer notícia de uma forma sensacionalista", afirma.

"O que fazemos são modificações [sobre o noticiário] para tornar a notícia mais fácil e interessante", diz Beto. "Quem tem de saber o que é verdade ou mentira é quem lê a matéria."

"Acredito que a verdade não existe. Isso é o meu ponto de vista. Existe o ponto de vista da Folha, cada um tem o seu. Quantas vezes os veículos de comunicação no Brasil tiveram que se retratar? Porque não existe uma verdade absoluta (...). A não ser que vire uma ditadura, em que a grande imprensa diga o que pode ou não."

E assegura: "Todas as pessoas que procuraram o Pensa Brasil, quando a matéria não era verdadeira, nós retiramos ou nos retratamos. Aí você vai falar: 'Ah, mas depois que se publica já há um grande dano'. É, a gente corre esse risco. Todo mundo corre. Somos passíveis de erros".

"O problema vai ser de quem está me tachando de 'fake news'. Minha preocupação é com meus milhares de leitores -eles é que me dão o feedback correto."

"Tudo é business, tudo é dinheiro. Ninguém faz isso para contar historinha. Folha de S.Paulo, 'Veja', 'Globo', ninguém faz matéria porque gosta, é atrás do dinheiro que todo mundo tá correndo."

Durante as entrevistas, Beto também relativizou a verdade.

Disse que é formado em Comunicação Social/Publicidade pela Faculdade Anhanguera de Campinas e que tem pós-graduação em marketing digital pela mesma escola. Procurada, a faculdade respondeu: "Não podemos confirmar que ele tenha sido aluno da instituição, pois não encontramos o seu nome no sistema da Anhanguera".

Afirmou que o Pensa Brasil assina agências de notícias, entre as quais a Reuters e a Folhapress, do Grupo Folha, que edita a Folha. Consultada, a Reuters informou que não há entre seus assinantes ninguém com o nome dele, tampouco seu maior site ou a Artpubli Comunicação, empresa registrada em nome da mulher dele. A Folhapress afirmou que Alberto Silva chegou a assinar a agência, mas nunca pagou mensalidades, e por isso o serviço foi bloqueado.

Beto disse também que o Facebook não responde nem por 20% da audiência do Pensa Brasil. Já a empresa de medição de audiência SimilarWeb registra um peso enorme desta rede: 60% da audiência do site vem de redes sociais e, neste universo, 97% vem do Facebook.

'RECEITA DO BOLO'

Não chega a ter 10m² a sala onde fica o QG do Pensa Brasil em Poços de Caldas. Além da mesa de Beto com os monitores, há outra com três laptops. Durante a entrevista, duas jovens que trabalham com ele, ambas na faixa dos 20 anos, voltaram do almoço. Pedi para entrevistá-las, mas Beto não permitiu.

Argumentou que as moças, assim como outras duas com quem se revezam, são prestadoras de serviço e que, ademais, não poderia "dar a receita do bolo". Beto –que ressalta não ser produtor de conteúdo, mas "propagador"– diz contar com uma rede de colaboradores por todo o país.

Em sua própria cidade, Beto é capaz de enxergar a verdade absoluta. Na página do Pensa Poços, que define como um trabalho "100% de cidadania", posta vídeos com cobranças e denúncias inflamadas sobre problemas municipais. Num deles, afirmava ser "mentira deslavada" a manchete de um jornal local e acusava um vereador de "esconder a verdade do povo": era 1º de fevereiro último, mesmo dia em que Beto me disse que estava em Nova York, sendo que no vídeo ele brandia um exemplar do diário poços-caldense.

O tom estridente trouxe complicações na Justiça. Além da ação envolvendo Gilberto Gil, pelos menos outros três processos de indenização por dano moral foram abertos contra Beto Silva e parceiros –em dois deles ele já foi condenado.

"A linha de conduta dele [Beto] é complicada. Ele trabalha com o propósito de denegrir alguém para depois chantagear. Quis fazer isso comigo, tentou me extorquir, saí fora, não tenho mais relação", disse Paulinho Courominas, ex-prefeito de Poços (pelo PPS, hoje no PSB).

Beto nega a extorsão. Conta que, a convite de Paulinho, trabalhou na campanha estadual de Pimenta da Veiga (PSDB) ao governo de Minas em 2014 e que, por não ter sido remunerado pelo serviço, entrou com uma ação trabalhista contra o político local, mas perdeu. O ex-prefeito diz que Beto foi voluntário.

Na cidade, Paulinho é apontado como um entre vários políticos a quem o grupo do Pensa Poços já foi fiel e com quem depois rompeu.

MACEDÔNIA

De uma perspectiva global, e com alguma licença poética, poderia se dizer que Beto Silva habita uma espécie de Macedônia tropical.

Veles, uma cidade de 43 mil habitantes (Poços tem 165 mil) no pequeno país dos Balcãs, ganhou fama no ano passado com a revelação de que se tornara um bunker de sites de notícias falsas sobre as eleições dos EUA. Tocados por adolescentes em busca do dinheiro de anúncios, os sites inventaram notícias sensacionalistas (em geral pró-Donald Trump) e geraram milhões de engajamentos (soma de curtidas, compartilhamentos e comentários) no Facebook, integrando um movimento que, para muitos, teve peso relevante na vitória do republicano.

Segundo um estudo do site BuzzFeed, as 20 notícias falsas sobre a eleição americana com maior engajamento no Facebook nos três meses que antecederam a votação geraram mais engajamentos (8,7 milhões) que as 20 notícias reais com mais reações publicadas por grandes veículos (7,3 milhões).

O BuzzFeed brasileiro chegou a resultado semelhante em relação a notícias sobre a Lava Jato publicadas em 2016: as dez falsas com mais engajamento no Facebook (3,9 milhões) superaram as dez verdadeiras (2,7 milhões) –no "top ten" das notícias falsas, há quatro da turma de Poços, três das quais do finado Brasil Verde Amarelo e uma da extinta Folha Digital.

A pedido da Folha, o Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP (Universidade de São Paulo), mediu o engajamento de notícias no Facebook durante três momentos de 2016: a aprovação do impeachment de Dilma no Senado, a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e a provação em primeiro turno da PEC 241, que fixou um teto para o crescimento dos gastos públicos federais. Os sites de notícias falsas são minoritários no ranking das com maior engajamento –das páginas da teia de Poços, só o Diário do Brasil aparece.

Pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo mostra que cada vez mais brasileiros de grandes centros urbanos usam redes sociais como fonte de notícias: eram 47% em 2013, índice que saltou para 72% em 2016.

Nos EUA, estudos recentes relativizam a influência das "fake news" na eleição de Trump. Um deles, do centro de pesquisa NBER (Birô Nacional de Pesquisa Econômica), concluiu que as mídias sociais tiveram papel "importante, mas não determinante". Foram apontadas como fonte de informação mais importante por somente 14% dos americanos (contra 57% da TV, por exemplo).

Ainda assim, o fenômeno preocupa. "É fato que essas notícias falsas geram bastante engajamento no Facebook e que, segundo pesquisas, as pessoas estão propensas a acreditar nelas. Isso é surpreendente e constrangedor, e por isso espera-se que algo seja feito", disse à Folha Craig Silverman, editor de mídia do BuzzFeed norte-americano, estudioso do tema e autor de uma das principais reportagens sobre "os garotos da Macedônia".

Para ele, "qualquer atitude só será eficiente se atacar as vantagens financeiras de criar notícias falsas –e deve incluir as empresas que fornecem as plataformas que estão sendo usadas para criá-las e espalhá-las".

De fato, corporações digitais e empresas de mídia em todo mundo começaram a se mexer.

ENCRUZILHADA

Um dos maiores desafios do percurso, observa Silverman, é "assegurar que qualquer medida tomada para coibir notícias falsas não afete a liberdade de expressão".

É uma preocupação semelhante à de Patricia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, organização dedicada à promoção da liberdade de expressão. "Como garantir uma web livre e evitar que ela seja usada de forma criminosa é algo que temos de resolver. Mas não podemos deixar que o legislador, para proteger cidadãos, crie limites à liberdade de expressão."

Sancionado em 2014, o Marco Civil da Internet isenta de responsabilidade a empresa que abriga o conteúdo. Mas, segundo Leticia Provedel, advogada de Gilberto Gil, redes como o Facebook "têm obrigação de retirar do ar, se notificadas, a calúnia, a injúria ou a difamação, sob pena de conivência".

Vítima de notícias falsas, o jornalista e ativista Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil e blogueiro do UOL, considera que, dada a extensão do problema, é necessária uma convenção global para regular a circulação de notícias na internet e a eventual responsabilização por excessos.

No ano passado, Sakamoto foi alvo de um texto difamatório abrigado no site de notícias falsas Folha Política (sem relação com a Folha), hoje fora do ar. Segundo sugeriram documentos produzidos por ordem judicial, as empresas JBS e 4Buzz promoveram a exposição do texto por meio de anúncio pago no Google –elas negam.

Autor do livro "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (Leya), o blogueiro defende também, como solução a médio prazo, uma "alfabetização midiática": a introdução, nos ensinos fundamental e médio, de noções sobre como detectar argumentos fraudulentos.

Soa bem atual. Um estudo do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa mostrou que apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalhar (entre 15 e 64 anos de idade) são capazes de se expressar por textos, de opinar sobre argumentos e interpretar tabelas e gráficos.

Nos EUA, pesquisa da Universidade Stanford com alunos de ensinos fundamental e médio e de faculdades revelou que a maioria é incapaz de diferenciar notícias produzidas por fontes confiáveis de anúncios e informações falsas.

O historiador norte-americano Robert Darnton, professor emérito da Universidade Harvard, diz se opor a qualquer medida que envolva censura e sugere que, "a médio ou longo prazo, isso [o consumo indiscriminado de mentiras] acaba, se autocorrige; se melhorar a política, isso melhora também".

Darnton lembra que a disseminação de notícias falsas não é novidade. Já no século 6, conta, o historiador Procópio escreveu um texto secreto, chamado Anekdota. "Ali ele espalhou fake news, arruinando a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha eleitoral americana."

FIDELIDADE AO GRUPO

Em artigo recente, a pesquisadora americana Judith Donath, do Centro Berkman Klein para Internet & Sociedade da Universidade Harvard, escreveu que, na era das redes sociais, não se compartilha e curte notícias apenas para informar ou persuadir, mas "como um marcador de identidade, uma forma de proclamar sua afinidade com uma comunidade particular".

Interagir com uma notícia falsa, argumenta, pode enfurecer os de fora dessa comunidade, mas é um "sinal convincente de fidelidade ao seu grupo".

A psicanalista e jornalista Maria Rita Kehl lê de outro modo. "Como não sabemos o que fazer com algumas notícias que nos chocam, ética ou moralmente, passamos adiante com a sensação de estar participando, de alguma forma, da esfera pública. No fundo não é muito diferente da dona de casa que ouve uma fofoca e corre para o muro, a contar para a vizinha", afirma.

"A diferença", acrescenta, "é que o 'muro' hoje é a internet, e a fofoca que a vizinha quer passar adiante chega a milhares de pessoas. O que torna o problema mais complexo é que o mesmo dispositivo que serve para espalhar notícias falsas e arruinar a imagem de pessoas públicas, também serve para mobilizar campanhas de solidariedade, por exemplo".
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Hipocrisia

O ministro Celso de Mello tem razão. O ministério dado pelo Temer ao Moreira Franco em nada se parece com o cargo que a Dilma queria dar ao Lula. A principal diferença é que o Temer inventou um ministério exclusivamente para acolher o amigo. Alvejou duas coisas com um decreto só: a ética e a austeridade propagada pelo seu governo. O codinome do Moreira Franco na Polícia Federal é “Angorá”, e Temer o tratou com o carinho que só um bicho de muita estimação merece. O que não deixou de ser bonito, como qualquer manifestação de amizade.

Na sua sentença, o ministro Celso de Mello disse que o foro privilegiado presenteado ao Moreira Franco não impede que ele sofra processos. Esqueceu-se de mencionar que o foro privilegiado beneficia os investigados com a protelação dos processos, o que, na maioria dos casos julgados pelo Supremo, resulta em prescrição ou repasses a instâncias inferiores, ou o desaparecimento. Matéria publicada no Globo sobre o assunto, há dias, mostra que a condenação de julgados com foro especial ocorre em apenas 0,74% dos casos. Menos de um por cento! Não se acuse o respeitável ministro Celso de Mello de hipocrisia. Hipócrita é o sistema que permitiu que se chegasse a essa deformação.

Minha anedota favorita: há anos fez muito sucesso um bolero chamado “Hipócrita”. Um bêbado entra numa boate onde se apresenta um cantor. A plateia pede insistentemente que o cantor cante o bolero da moda, gritando “Hipócrita!”, “Hipócrita!”, “Hipócrita!”. O bêbado salta da sua cadeira e também começa a gritar “Filho da mãe!”, “Cretino!”. Está bem, a anedota não é tão boa assim. Eu só queria dizer que quando se começa a chamar até um sistema judiciário de hipócrita, outros epítetos virão. Vivemos hoje, no Brasil, à beira de um cinismo terminal, que aumenta cada vez que um Jucá, um Padilha, um Eunício Oliveira, um Rodrigo Maia um etc. abre a boca. A desmoralização da classe política no Brasil levará algumas gerações para ser sanada, no futuro.

Mas talvez nosso futuro não seja o desejado. Jair Bolsonaro vem aí. Ele foi o segundo colocado, depois do Lula, numa pesquisa recente sobre intenção de voto em 2018. Bolsonaro presidente? Impensável, claro. Como a eleição de Trump nos Estados Unidos. Que você viva em tempos interessantes é o que os chineses desejam ao pior inimigo.

Luís Fernando Veríssimo
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Como a Folha e vazadores mudam versão de história sem provas em poucas horas para gerar manchetes contra Lula e sua família

Não há o que comentar diante de informações genéricas de origem ilegal, de apurações sem documentos que mudam em poucas horas

O jornal Folha de S. Paulo publica hoje matéria baseada em suposto vazamento de delação premiada contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A matéria vem com grande destaque na edição do primeiro domingo após pesquisa eleitoral indicar que, apesar da perseguição movida contra Lula por setores da imprensa e alguns agentes públicos, ele venceria as eleições para presidente da República tanto no primeiro quanto no segundo turno.

No contato feito com a assessoria de imprensa do ex-presidente (leia abaixo a troca de e-mails entre a Folha e a assessoria), a Folha de S.Paulo mudou em poucas horas a versão da sua apuração. Primeiro haveria um “interlocutor de Lula” que teria feito o pedido citado na suposta delação a que a Folha teve acesso. A reportagem informou que o nome desse interlocutor não seria revelado. Depois, o tal interlocutor sumiu em uma informação de última hora que teria chegado na noite de sexta-feira (quando os jornais fecham a maior parte da sua edição de domingo). Fica a impressão de alteração da história, pelo jornal ou por sua fonte, após terem sido questionados sobre a falta de informações básicas. A Folha de S.Paulo também não soube prover nenhum documento ou mesmo informações simples sobre a história que sustenta sua matéria: em que ano ela teria acontecido? Lula deixou a Presidência da República em 31 de dezembro de 2010 e não ocupa nenhum cargo público desde então. Diante de informações genéricas, sem documentos, de origem ilegal, que mudam em poucas horas, não há o que comentar ou dar crédito a suposições.

Por lei, delações não são provas, quanto mais vazamentos de supostas delações, sem documentos, contexto, provas do ocorrido ou sequer o ano em que teria acontecido o fato. Servem apenas para gerar manchetes sensacionalistas contra Lula e sua família.  A Folha de S. Paulo costuma publicar esses ataques contra Lula aos domingos, atribuindo como “presentes”  ao ex-presidente um estádio que é do Corinthians, ou uma piscina que é do Palácio do Planalto.

Supostas acusações de delatores divulgadas com estardalhaço na imprensa não têm se confirmado em depoimentos em audiências, onde mais de 11 delatores chamados como testemunhas de acusação pela Lava Jato foram incapazes de apontar qualquer ato ilegal ou vantagem indevida recebida pelo ex-presidente Lula. A imprensa, que faz estardalhaço de versões sem contexto e distorcidas de supostas delações, não dá destaque algum quando delatores como Paulo Roberto da Costa, Nestor Cerveró ou Pedro Barusco dizem, perante o juízo e com compromisso de dizer a verdade, jamais terem ouvido falar do envolvimento de Lula em ilegalidades ou recebimento de qualquer vantagem indevida (veja vídeo em https://www.facebook.com/Lula/videos/1219752334760431/).

Abaixo, a troca de mensagens entre a assessoria e a reportagem da Folha que mostra as informações faltando na matéria e a mudança de versão na história ao longo do dia.

Em 17 de fevereiro de 2017 13:20, Bela Megale escreveu:

Ola, tudo bem?

Tivemos a informação de que o Alexandrino Alencar, delator da Odebrecht, disse em acordo com a Lava jato que a empresa pagou um orientador de carreira, uma espécie de coach, para ajudar Luis Claudio Lula da Silva na sua carreira no marketing esportivo e na implementação do campeonato Touchdown.

Também temos a informação de que o pedido foi feito por um interlocutor do ex-presidente Lula.

Gostaria de saber se o fato aconteceu e se Luis Claudio, Lula ou a defesa deles gostaria de comentar o assunto.

Poderia nos dar uma resposta até as 19h?

Obrigada.
Bela

Em 17 de fev de 2017, às 14:04, Ass. de Imprensa - Instituto Lula escreveu:

Caros,

 Imagino que seja para a manchete de domingo. Sempre é bom receber esses contatos na sexta, é bom saber que mantemos alguma relevância.

 Esse interlocutor tem nome? 

Atenciosamente,

Em 17 de fevereiro de 2017 14:12, Bela Megale escreveu:

Ola, 

Não vamos abordar o nome do interlocutor na matéria.

Em 17 de fev de 2017, às 14:24, Ass. de Imprensa - escreveu:

Vocês não sabem o nome do interlocutor, ou sabem e não vão dar?  Sabem dizer o ano do ocorrido, ou isso também não será abordado na matéria?

abraço,

José

Em 17 de fevereiro de 2017 14:34, Bela Megale escreveu:

Chrispiniano, não iremos citar o nome e o ano. Pode passar o contato da assessoria do luis Claudio? 

17 de fevereiro de 2017 15:17

De:  Ass. de Imprensa - Instituto Lula
Enviado: sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017 15:17
Para: Bela Megale
Cc: Walter Henrique Nunes
Assunto: Re: Questão matéria luis Claudio

Caros

segue a resposta da assessoria do ex-presidente:

A pergunta, e pelo que você me diz também a matéria, baseiam-se em suposta delação para obtenção de benefícios judicias que deveria estar sob sigilo, sem apresentar transcrição, documento, contexto, época do ocorrido ou qualquer informação básica que permita até compreender o que está sendo perguntado. Não vamos comentar supostas informações incompletas baseadas em supostos documentos fora de contexto que estariam sob sigilo judicial.


Em 17/02/2017, às 20:23, Bela Megale  escreveu:

Chrispiniano,

Desculpe, mas tivemos a correção de uma informação há poucos instantes. O pedido da contratação do orientador profissional teria partido do próprio ex-presidente Lula.

Esse dado constará na matéria. Se quiser enviar alguma resposta sobre o fato, pode encaminhar até sábado, amanhã às 11h, ou hoje até qualquer hora.

Obrigada  

Bela Megale
Folha de S. Paulo

Em 17 de fev de 2017, às 20:28, Ass. de Imprensa - escreveu:

Mantenho a nota, ainda mais porque a história vai assim mudando conforme avança o dia. 

Você tem documento sobre o assunto, que comprove essa líquida apuração? 

Atenciosamente,

Jose 

Em 17/02/2017, às 21:29, Bela Megale escreveu:

Olá, não abrimos os documentos que tivemos acesso. Obrigada

No Lula.com.br
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O faquir

Adelaide não poderia descrever o que sentiu quando viu no jornal que um faquir chegara à sua cidade. O jornal trazia uma fotografia do faquir no meio da praça, dentro de uma jaula e deitado numa cama de pregos. Segundo o jornal, o faquir ficaria 40 dias e 40 noites sem comer e beber. Junto do faquir, dentro da jaula, havia uma cobra. O jornal não dizia de que espécie era a cobra.

O faquir vestia apenas uma fralda, igual à que Adelaide via no Cristo pregado na cruz, na igreja que frequentava. Adelaide também não saberia descrever o que sentia, olhando o Cristo quase nu. Adelaide tinha mais de 30 anos e nunca vira um homem nu, completamente nu. Quando sonhava com o Cristo, ele vestia um camisolão branco que tapava todo o seu corpo. Depois de ler a notícia da chegada do faquir no jornal, Adelaide sonhou com ele. O faquir aparecia no seu sonho nu. Completamente nu.

Adelaide perguntou à sua patroa se podia ir até a praça ver o faquir.

- Faquir? - disse a patroa. - Ainda existe isso?

E a patroa deixou Adelaide ir ver o faquir.

Havia uma multidão em volta da jaula do faquir, na praça. Adelaide conseguiu chegar perto da jaula. O faquir estava deitado de costas nos pregos, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e os olhos fechados. A cobra se enrolara num dos cantos da jaula e também parecia dormir.

- Ele come escondido, no meio da noite - disse alguém.

- Será que a cobra também faz jejum? - perguntou outro.

De repente, o faquir abriu os olhos, virou a cabeça e olhou diretamente para Adelaide. E sorriu. Adelaide pensou: depois disto, eu jamais vou ser a mesma criatura que eu era. Se pudesse explicar, Adelaide diria que o olhar do faquir tinha sido de misericórdia. O olhar do faquir fora buscar alguma coisa no cerne de Adelaide, triste Adelaide. Que se virou rapidamente e saiu às pressas, abrindo caminho na multidão. Se pudesse explicar, Adelaide diria que tinha sido desvirginada pelo sorriso do faquir.

Naquela noite, Adelaide fugiu de casa e voltou à praça. A praça deserta. O faquir estava encostado num dos lados da jaula com a cobra a seu lado. Nenhum sinal de comida por perto. Adelaide pediu para o faquir levá-la quando fosse para outra cidade. O faquir respondeu:

- Não, fique aqui. Você só iria para cuidar destas minhas feridas...

E mostrou, não as marcas dos pregos nas costas, mas as marcas dos pregos nas mãos.

Luís Fernando Veríssimo
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Adiar ainda mais julgamento de Dilma e Temer no TSE é a chave do plano

O plano é simples e seus riscos de embaraço são poucos. Consumado, deixa Dilma Rousseff condenada por irregularidade na campanha eleitoral e absolve seu companheiro de chapa, o que livra Michel Temer da destituição como beneficiário da mesma irregularidade. Não há, porém, como apressar a execução do plano, que está condicionado a certo calendário do Tribunal Superior Eleitoral. E esse é o seu risco.

O exame das contas de Dilma/Temer espicha-se há dois anos. O ministro Herman Benjamin desabafou há pouco, em um despacho, contra diligências que pretenderiam protelar o caso "ao infinito, sem possibilidades concretas de conclusão". O lado de Dilma Rousseff tem experiências que justificam o receio do julgamento. O de Michel Temer está inseguro quanto a votos que não se prenunciam.

Protelar o julgamento ainda mais é a primeira chave do plano. Em mais dois meses, a 16 de abril, o ministro Henrique Neves encerra sua participação no TSE. Meio mês depois, em 5 de maio, dá-se o mesmo com a ministra Luciana Lóssio. Daí decorre a segunda etapa: a designação de novos ministros afinados, por antecipação, com a separação de responsabilidades dos candidatos igualmente beneficiados. E, como decorrência, voltados para a condenação da presidente eleita e a absolvição do seu vice.

Estariam assegurados os quatro votos pró-Temer: além dos dois recém-nomeados, Gilmar Mendes e Luiz Fux, presidente e vice do TSE, não suscitam dúvidas. Os três que completam o plenário de sete não importariam mais. A condenação de Dilma nem seria indispensável, servindo só como lucro político excedente. Nessa operação, o risco que o plano corre é o de um imprevisto, no TSE, capaz de dificultar a protelação do julgamento por mais dois meses e meio. Consta já haver sondagens, ou indicações originárias do TSE, de alguns nomes possíveis.

Para mais informações: Gilmar Mendes, no TSE ou no STF, e Michel Temer, no Planalto ou no Jaburu (recados com Marcela).

A atividade em Brasília faz o verão das conspiratas. As do Congresso duram dois ou três dias, porque lá os sigilos começam por uma confidência a jornalistas. A manobra desanda, para começar outra, todas procedentes dos estoques inesgotáveis de Romero Jucá e Renan Calheiros. Nos tribunais superiores são mais compenetradas. A repórter Marina Dias revelou uma que em breve teria desdobramento com reflexos radiais. É provável que não mais o tenha, em razão da quebra do sigilo.

A informação de que, na segunda turma do Supremo Tribunal Federal, havia conversas contra a continuada prisão de Eduardo Cunha (Folha, 17/2, pág. A7), é de humor irresistível. Quer dizer que a mania de perseguidos do juiz e de procuradores da Lava Jato, atribuindo ao Congresso as conspirações para esmagá-los, acontece com real perigo é na catedral da própria Lava Jato? Mas nem o que haja de patético nessa inversão enfraquece a enormidade do relatado a Teori Zavascki: mais do que conversas sobre pretendida libertação de Eduardo Cunha, por ele inadmitida, estava formada, em princípio, a maioria de três votos para derrotá-lo – seriam Gilmar Mendes, Dias Toffoli e, quase com certeza, Celso de Mello. O voto final, de Ricardo Lewandowski, em nada influiria.

O argumento a que foi atribuída a formação da maioria é o que mais pode ter utilidades hoje em dia: é preciso e urgente restaurar a ordem institucional, que não resistirá ao agravamento de sua desmoralização caso Eduardo Cunha, derrotado nos seus pedidos de habeas corpus, adote uma demolidora delação premiada para recuperar a liberdade. O desarrazoado voto do ministro Celso de Mello, com a concessão de foro privilegiado a Moreira Franco, encaixa-se naquele argumento fértil.

O Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral entram de corpo inteiro na crise. Deveriam dirimi-la, vêm agravá-la.

Janio de Freitas
No fAlha
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